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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A aposta portuguesa na biotecnologia sob o impulso da integração europeia]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Nations at the fore of science and technology have adopted official policies to encourage new biotechnologies, especially from the 1970s on. They were spurred on by the idea that a technological system based on mechanical industries and vulnerable to the oil crisis was in decline. This article gives an overview of how this scientific-technological domain was implemented in Portugal at the end of the twentieth century. From the founding of the Portuguese Biotechnology Society (Sociedade Portuguesa de Biotecnologia) in 1981 to the adoption of the Lisbon Strategy in 2000, and thus encompassing Portugal’s accession to the then EEC in 1986, the article describes how science and technology policies and European funding were channeled into biotechnology development. This process reveals fundamental features of how knowledge is currently produced and regulated in Portugal.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[  

    <p align="right"><b>ARTIGO</b></p>

    <p><b>A aposta
portuguesa na biotecnologia sob o impulso da integração europeia</p>
    <p>Portugal’s commitment to
biotechnology in the context of European integration</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Rita Gomes Correia</b>* e <b>José Luis Garcia</b>**</p>

    <p>*Universidade de Lisboa, ISEG, SOCIUS (Centro de Investigação em
Sociologia Económica e das Organizações), Rua
Miguel Lupi, 20 — 1249-078 Lisboa, Portugal. E-mail: <a href="mailto:ritagomescorreia@yahoo.com">ritagomescorreia@yahoo.com</a></p>

    <p>**Universidade de Lisboa, ICS-UL, Av. Professor Aníbal de ­Bettencourt, 9 — 1069-061 Lisboa, Portugal. E-mail: 
<a href="mailto:jlgarcia@ics.ulisboa.pt">jlgarcia@ics.ulisboa.pt</a></p>


    <p><b>&nbsp;</b></p>


    <p><b>RESUMO</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os grandes países científicos, em especial a partir da década de
1970, introduziram políticas estatais de incremento das novas biotecnologias,
instigados pela ideia de declínio de um sistema tecnológico baseado em
indústrias mecânicas e pela crise petrolífera. O presente artigo delineia uma
panorâmica da implementação deste domínio científico-tecnológico
em Portugal nos finais do século XX. Da fundação da Sociedade Portuguesa de
Biotecnologia (1981) até à adoção da Estratégia de Lisboa (2000), incluindo
assim o momento de adesão portuguesa à então CEE
(1986), expõe-se a dinâmica das políticas científicas e tecnológicas, bem como
a utilização de fundos europeus, orientados para o desenvolvimento das
biotecnologias. Este é um processo que ilustra em Portugal traços fundamentais
do atual regime de produção e regulação do conhecimento.</p>

    <p><b>PALAVRAS-CHAVE</b>: biotecnologias; bioeconomia;
Portugal; integração na União Europeia.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p>Nations at the fore of
science and technology have adopted official policies to encourage new biotechnologies,
especially from the 1970s on. They were spurred on by the idea that a
technological system based on mechanical industries and vulnerable to the oil
crisis was in decline. This article gives an overview of how this
scientific-technological domain was implemented in Portugal at the end of the
twentieth century. From the founding of the Portuguese Biotechnology Society (<i>Sociedade</i><i> Portuguesa de Biotecnologia</i>)
in 1981 to the adoption of the Lisbon Strategy in 2000, and thus encompassing
Portugal’s accession to the then EEC in 1986, the article describes how science
and technology policies and European funding were channeled into biotechnology
development. This process reveals fundamental features of how knowledge is
currently produced and regulated in Portugal.</p>

    <p><b>KEYWORDS</b>:
biotechnologies; bioeconomy; Portugal; EEC.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>INTRODUÇÃO</b></p>

    <p>&nbsp;</b></p>

    <p>Vários estudos têm vindo
a mostrar que a década de 70 do século XX constituiu o pano de fundo da
emergência das novas biotecnologias, baseadas em técnicas de engenharia
genética e molecular (Lappé, 1984; Yanchinski, 1985; Gros, 1989; Krimsky, 1991;
Bud, 1999 [1993]; Kahn, 1996). Os EUA merecem um destaque especial no processo
de transformação deste domínio científico-tecnológico em área de negócio. Este
país apresentava já uma investigação biomédica relativamente consolidada: a
pesquisa fundamental em Biologia era desenvolvida nas universidades e
institutos, predominantemente financiados pelo Estado; as grandes empresas
químicas e farmacêuticas apostavam no desenvolvimento de aplicações com
potencial terapêutico; e existia um grupo de profissionais intermediários,
especializados na obtenção e gestão de recursos para a manutenção dos
laboratórios de investigação. Assim, após os primeiros êxitos no plano teórico,
industriais e investidores foram percebendo nesta área um elevado potencial,
fazendo surgir empresas especialmente dedicadas à aplicação das biotecnologias.
A partir da década seguinte, e perante expectativas crescentes,
multiplicaram-se as novas empresas e o estabelecimento de parcerias entre
universidades e indústria. O elevado potencial de aplicação e a vantagem na
competição económica que parecia representar granjeou apostas elevadas, nos
mais diversos países, sob o estímulo dado pelos Estados e entidades
supranacionais, com vista a desenvolver uma bioeconomia (­Rosenzweig, 1982;
Kenney, 1986; Yoxen, 1986; Teitelman, 1989; ­Fransman, 1994; ­Kornberg, 1995;
Bok, 2003; Geiger, 2004; Pisano, 2006; Garcia, 2006; Martins, 2011). Neste
período, e reconhecendo que a ciência e a investigação nunca foram
completamente autónomas da sociedade, os seus nexos ­tornaram-se
­crescentemente sólidos, em particular nas esferas ­industrial e mercantil, num
movimento que foi conseguindo induzir universidades, entidades de investigação
e laboratórios, em especial em domínios como os da biologia e das ciências da
vida, apesar de não ser um caso singular.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nos EUA, o governo impulsionou medidas políticas,
subsídios e incentivos fiscais que procuraram reforçar a imbricação entre
universidades e empresas e promover a conversão dos resultados científicos em
novos processos e produtos, tendo como objetivo o fortalecimento da capacidade
competitiva da indústria do país e, consequentemente, do seu posicionamento
económico. Vozes como a de Sheldon Krimsky (2004) afirmaram que se estava
perante uma confusão de objetivos académicos e comerciais, mas no final da
década de 80 muitas universidades tinham já criado gabinetes especializados no
patenteamento e estabelecimento de parcerias de negócio e as interações entre
universidade-indústria conheceram também uma considerável expansão.</p>

    <p>Relativamente às empresas, as firmas
biotecnológicas da primeira geração que vinham a arriscar no lançamento de
novos produtos, perante as dificuldades na obtenção de lucros foram assimiladas
por grandes empresas a operar em setores próximos, como é o caso da indústria
química ou da área agro-alimentar. Estas grandes empresas, pela sua dimensão e
experiência, possuíam estruturas bastante consolidadas de produção,
distribuição e promoção, o que lhes possibilitava o célere lançamento de novos
produtos no mercado. Esta tendência foi ainda reforçada quando, em meados da
década de 80, entraram em cena no negócio das biotecnologias as grandes
multinacionais.</p>

    <p>Em Portugal, impulsionada em grande medida pelo
regresso ao país de muitos investigadores que tinham desenvolvido os seus
estudos pós-graduados no estrangeiro, as biotecnologias começaram neste período
a assomar com um rumo que procurava definir-se. A Sociedade Portuguesa de
Biotecnologia (SPBT) foi fundada em 1981 como secção da
Sociedade Portuguesa de Bioquímica e, no final do mesmo ano, contava com
30 associados. Esta entidade revelou-se bastante ativa na congregação de
investigadores e outros potenciais interessados em torno desta área, mediante a
organização de eventos e de ações de formação, o estabelecimento de contactos
com as organizações internacionais do setor e a edição de um boletim. Começaram
a ser divulgadas as oportunidades de financiamento
oriundas da União Europeia e o empolgamento gerado em torno da biotecnologia
conduziu a que, logo em 1983, o financiamento e fomento desta área, com
especial destaque para o reforço do número de investigadores, fosse apresentado
como pedra angular no sentido de se vir a alcançar um melhor posicionamento
económico e de condições de vida no país.</p>

    <p>Recorrendo a fontes documentais, em especial
provenientes da comunidade científica portuguesa no campo das biotecnologias
(salientando-se o <i>Boletim de Biotecnologia</i>), mas não se limitando a tal
procedência, este artigo tem como principal objetivo traçar uma perspetiva do
desenvolvimento desse setor em Portugal, cobrindo o período crucial que vai da
fundação da Sociedade Portuguesa de Biotecnologia, em 1981, até à aprovação da
Estratégia de Lisboa, em 2000, abrangendo, portanto, a adesão de Portugal à então CEE. São objeto de atenção, as orientações e os
instrumentos de ação que as instituições, europeias e portuguesas, puseram em
marcha para atingir aquele objetivo. Mas a análise dessas diretrizes no domínio
da biologia, das ciências da vida e da saúde pode ainda permitir perceber ou
mesmo evidenciar uma questão decisiva no que diz respeito às atuais políticas
de investigação: até que ponto são consequência das
reclamações e potencialidades da ciência ou mais guiadas por um empenho na
expansão industrial e de recorte liberal.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>A ENTRADA NA
COMUNIDADE EUROPEIA E AS BIOTECNOLOGIAS EM PORTUGAL</b></p>

    <p>&nbsp;</b></p>

    <p>No final de 1985, as
atenções do meio científico português começaram prontamente a direcionar-se
para a futura integração na União Europeia (UE). Para ilustrar esta
circunstância, refira-se que foi realizado no Instituto Superior Técnico (IST),
a 21 de outubro, um seminário especialmente dedicado ao tema “Ciência e
tecnologia em Portugal face à Europa”, onde foram abordados os seguintes
tópicos: “políticas de investigação e desenvolvimento da CEE”, “actividades
científicas e técnicas do CERN”, “actividades científicas e técnicas da Agência
Espacial Europeia” e “perspectivas científicas e tecnológicas do ­projecto
Eureka” (BB, 1985a, p. 25). A edição de outubro do <i>Boletim de ­Biotecnologia</i>
também incluía um conjunto de eventos e trabalhos desenvolvidos no âmbito da
Federação Europeia de Biotecnologia (BB, 1985b), sendo este sinal de interesse
igualmente notório nos meses seguintes. Em dezembro de 1985 foi reproduzido na
íntegra o primeiro número da <i>newsletter</i> da
­Federação Europeia de Biotecnologia (FEB) e apenas nos anúncios foram
incluídas referências de âmbito nacional, nomeadamente através da divulgação do
3.º Encontro Nacional de Biotecnologia a realizar no LNETI, em Lisboa, em
outubro de 1986 (BB, 1985c, p.15). Na edição seguinte do <i>Boletim</i>, de
fevereiro de 1986, foram divulgados os nomes dos investigadores portugueses que
integravam os grupos de trabalho da FEB.<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a></p>

    <p>Com a integração de Portugal na UE, em 1986, e a
subsequente captação de fundos, foi realizado um investimento significativo em
equipamento, nomeadamente ao nível da biologia molecular. Esta medida era
destinada principalmente aos jovens investigadores pós-doutorados que, na sua
maioria, tinham realizado os seus doutoramentos fora do país. Foi também implementada por esta altura a avaliação externa, por pares,
dos projetos de investigação.</p>

    <p>A edição de agosto de 1986 do <i>Boletim de
Biotecnologia</i> foi inteiramente dedicada à divulgação do lançamento de duas
oportunidades de financiamento promovidas pela Comissão Europeia (BB, 1986b). A
primeira consistia numa chamada de “expressões de interesse” no âmbito da
“aplicação da biotecnologia ao desenvolvimento agro-industrial”, visando
avaliar o grau de interesse no tema e definir as áreas de projeto a serem
incluídas no eventual “Programa Comunitário Multianual de Actividades de
Desenvolvimento e Demonstração”, previsto para 1987. Através do financiamento
disponibilizado para este programa, a Comissão Europeia procurava “produzir
resultados economicamente relevantes” que poderiam posteriormente ser levados a
cabo por “organizações industriais adequadas, laboratórios de investigação ou
institutos universitários, ou ainda combinações destes” (BB, 1986b, p. 3).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No anúncio oficial do convite para a apresentação
de manifestações de interesse era referido que os “objectivos gerais das
iniciativas comunitárias em biotecnologia” consistiam em “aumentar as
competências em ciências da natureza e biotecnologia, e promover a sua
utilização eficaz para o futuro do desenvolvimento industrial e agrícola, e
para a manutenção e melhoria da saúde do homem e do ambiente” (BB, 1986b, p.
4). O interesse económico associado à potencial
criação deste programa de financiamento era apresentado de modo bastante claro:
“Os projectos deverão ter uma base científica sólida, e ser orientados para
actividades que possam ser económicas, tendo em consideração as exigências
relativas ao ambiente” (BB, 1986b, p. 5).</p>

    <p>A segunda oportunidade de financiamento
referia-se à disponibilização de contratos de bolsas de estudo setoriais,
científicas e técnicas, procurando fomentar a mobilidade dos investigadores
europeus e criar condições para a concretização de uma estratégia comum para a
ciência e a tecnologia. No guia disponibilizado pela Comissão Europeia era
salientado que se vinha verificando uma diminuição da eficácia do sistema
científico e tecnológico europeu, fruto de recentes mudanças científicas e
tecnológicas, que colocava em causa a capacidade de a Europa acompanhar a
intensa concorrência pela inovação e criatividade que se observava no contexto
internacional. Os objetivos apresentados contemplavam aspetos como a formação
de investigadores e especialistas de elevado nível, a diminuição do sub-emprego dos jovens investigadores europeus e da
emigração dos mesmos para países não europeus, assim como o reforço dos laços
de cooperação científica e técnica entre as universidades e os laboratórios de
investigação. Eram igualmente consideradas como metas a atingir a “promotion de
la mobilité intellectuelle (mobilité des idées) et
geographique par la priorité accordée aux projets interdisciplinaires et
multinationaux, impliquant des échanges de chercheurs” e a “transfer accéleré
des résultats des recherches fondamentales et appliquées vers les activités de
production et de service, par un renforcement des liens de coopération entre
universités et industries (mobilité du savoir-faire et des techniques)” (BB,
1986b, p. 7).</p>

    <p>Os eventos no âmbito das biotecnologias
continuavam a ocorrer em ­Portugal. Entre 6 e 9 de
outubro de 1986, decorreu em Lisboa o 3.º Encontro Nacional de Biotecnologia
com uma lista de participantes na ordem dos 266 indivíduos (BB, 1986c). José
Cardoso Duarte reportava no <i>Boletim de Biotecnologia</i> de dezembro do
mesmo ano, que tinham sido mais de 400 as pessoas a participar nos quatro dias
do evento (Duarte, 1986, p. 3), que incluíram a apresentação de 37 comunicações
e mais de 70 <i>posters</i>, abordando diversas facetas das biotecnologias
(saúde, química, alimentação, agricultura, energia e ambiente). Era referida
ainda a participação nos debates dos representantes da CEE, oriundos da Alemanha,
França, Itália e Espanha. José Duarte terminava salientando que tinha ficado
bem patente que com vista à efetivação das aplicações da biotecnologia seria
necessário o uso integrado de duas condições. A primeira dizia respeito ao
“desenvolvimento das ciências básicas que tornaram possível
a conceção das novas biotecnologias (microbiologia, fisiologia, bioquímica,
genética, imunologia, etc.) bem como dos sistemas de exploração (engenharia
bioquímica, electrónica e informática, materiais e equipamento, etc.)”. A
segunda consistia no “interesse e necessidade efectivas de aplicações
económicas […] para o que as Políticas de Desenvolvimento e Estimulação são uma
peça chave mas desde que acompanhadas pelo empenho
directo da comunidade empresarial, a qual deve ser o garante do êxito das novas
aplicações” (Duarte, 1986, p. 4).</p>

    <p>A 14 de novembro de 1986 foi lavrado um despacho
conjunto dos ministérios da agricultura, pescas e alimentação e da educação e
cultura (Desp. Conj. 223/MEC/86) formalizando a criação do Centro de Tecnologia
Química e Biológica.<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> A fundamentação da criação deste centro assentava em dois eixos. Por
um lado, era assumida a necessidade de desenvolver a investigação nos novos
domínios relacionados com a biologia. Por outro, era mencionado que “os
compromissos internacionais resultantes da integração de Portugal na Comunidade
Económica Europeia impõem que sejam tomadas desde já medidas conducentes à
criação de um instituto interdisciplinar de biotecnologia” (BB, 1986d, p. 8). Os seus objetivos consistiam na criação de
condições para potenciar a ação dos vários grupos de investigação, do INIC e do
INIA, a operar no âmbito da biotecnologia, no desenvolvimento de uma área de
competência assente nos conhecimentos já existentes que serviria de suporte
para a “implementação da biotecnologia e sua posterior utilização pelo sector
produtivo” e no fomento da formação de técnicos e investigadores imprescindíveis
à concretização dos outros objetivos (BB, 1986d, p.8).</p>

    <p>A crescente importância atribuída às
biotecnologias era particularmente notória no seio da Comunidade Europeia. A 22
de dezembro de 1986 foi emitida uma diretiva do Conselho das Comunidades Europeias
(JOCE, 1987) sobre a “colocação no mercado dos medicamentos de alta tecnologia,
nomeadamente dos resultantes da biotecnologia”. De acordo com este documento,
os vários Estados-membros deveriam, antes de 1 de
julho de 1987, passar a pedir um parecer aos comités europeus do âmbito em
questão antes de tomarem qualquer decisão sobre a autorização, revogação ou
suspensão de autorização para a colocação no mercado de medicamentos chamados
de “alta tecnologia”. De entre a fundamentação apresentada na diretiva,
salientamos três aspetos. Em primeiro lugar, é referido que “os medicamentos de
alta tecnologia, provenientes de uma investigação lenta e onerosa, não podem
continuar a ser desenvolvidos na Europa se não beneficiarem de uma
regulamentação favorável”. Em segundo lugar, é apontado que nesta área
científica “os conhecimentos científicos disponíveis para cada uma das
autoridades nacionais nem sempre bastam para resolver os problemas colocados
pelos medicamentos de alta tecnologia”. Por último, é enfatizada a necessidade
de “estabelecer um mecanismo comunitário de concertação”, que possibilite a
obtenção de “decisões uniformes” e precedentes a “qualquer decisão nacional”.</p>

    <p>O programa-quadro das atividades comunitárias em
matéria de I&amp;D 1987-1991 assinalava o interesse europeu no desenvolvimento
da biotecnologia. Na decisão do Conselho que legitima a revisão do programa
plurianual de investigação no domínio das biotecnologias é novamente reforçada
a necessidade de promover “actividades de concertação” ao
mesmo tempo que se desenvolve a investigação e formação nesta área
(JOCE, 1988).</p>

    <p>A Comunidade Europeia elabora recomendações e
diretivas, em temas considerados de especial importância, que deveriam
posteriormente ser adaptadas por cada um dos Estados-membros no âmbito da sua
legislação nacional. Embora os vários países não estivessem obrigados a
replicar as normativas europeias nas suas leis nacionais, facto é que estes
poderiam vir a ser penalizados por decisão do tribunal de justiça europeu. A
título de exemplo, refira-se que Luís Archer assina um artigo no <i>Boletim de
Biotecnologia</i> de junho de 1987 no qual referia que a Comissão das
Comunidades Europeias se preparava para “impor, aos países membros,
‘directivas’ relativas à segurança em Biotecnologia”. Enfatiza que “não se
trata de recomendações (como as da OCDE ou Conselho da Europa) mas de verdadeira legislação que obriga compulsoriamente os
países membros” (Archer, 1987, p. 8).</p>

    <p>As biotecnologias em
Portugal neste período não contaram apenas com a influência externa da União
Europeia. A Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento (FLAD) atribuiu à
Escola Superior de Biotecnologia (ESB) da Universidade Católica Portuguesa um
apoio financeiro destinado à implementação de um projeto no âmbito da indústria
agro-alimentar a realizar pela ESB em colaboração com 3
universidades dos EUA<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a> (Medina, 1987, p. 8). Foi igualmente
atribuída pela FLAD uma verba para a melhoria das infraestruturas laboratoriais
da ESB e para a gestão administrativa e avaliação do projeto.</p>

    <p>As articulações com outros países não se
limitaram à obtenção de subsídios. Em março de 1987 decorreu um <i>workshop</i>
luso-brasileiro sobre biotecnologia, no Hotel Sintra-Estoril, organizado por
entidades governamentais e que contou com a participação de investigadores e
empresários de ambos os países (Cabral, 1987, p. 1). Na sequência dos encontros
luso-brasileiros realizados no âmbito das biotecnologias foi assinado um
protocolo entre o secretário de Estado da Investigação Científica português e o
secretário da biotecnologia do governo brasileiro, exarado no Desp. 9/SEIC/87,
com o objetivo de levar a cabo diversas ações de cooperação, nomeadamente no
que concerne a parcerias entre empresas e instituições científicas portuguesas
e brasileiras conducentes à posterior participação em programas comunitários de
I&amp;D em biotecnologia (BB, 1987, p. 12). No mês de maio foi a vez da realização de um encontro franco-português na
órbita das biotecnologias. Promovido pela JNICT, pela AIP e pela Embaixada de
França em Portugal, este evento teve como objetivo promover o relacionamento
industrial entre os dois países (Moura, 1987, p. 11). O entrelaçamento entre as
pressões políticas, ideológicas e económicas e o avanço dos conhecimentos era
assim bem percetível.</p>

    <p>No contexto mundial, as biotecnologias apresentavam-se
com um destaque crescente no setor da indústria química, motivando uma
tendência de integração ao nível das empresas. O <i>Boletim de Biotecnologia</i>
de junho de 1987 reportava que cerca de 31 das 94
maiores empresas da indústria química (que incluía o setor farmacêutico) da
Europa ocidental exerciam atividades no âmbito das biotecnologias. Estas 31
sociedades eram oriundas, por ordem decrescente de peso relativo, dos EUA, da
Alemanha, do Reino Unido, da Suíça, de França, Suécia, Holanda, Bélgica, Itália
e Dinamarca e representavam 50% do volume de vendas conjunto do setor da
indústria química. Portugal apenas estava representado na lista das 94 pela
Quimigal, em 66.º lugar (Andrade, 1987, p. 9). Na mesma publicação, era ainda
salientada a intensidade de movimentos de aquisição, fusão e fundação de novas
empresas verificada em 1986. Pela sua importância, eram apresentados, entre
outros, os casos da associação entre a <i>Ciba-Geigy</i> (Suíça) e a <i>Chiron</i>
(EUA) no âmbito das vacinas, da associação entre a <i>Genetics Institute</i>
(EUA) e a <i>Wellcome Biotechnologies</i> (UK), dando origem à <i>Welgen
Manufacturing</i>, nos fármacos biológicos; da aquisição de 50% do capital do <i>Institut
Mérieux</i> (França) pela <i>Virogenetics</i> (EUA) nas vacinas por engenharia
genética; da aquisição da <i>Montedison</i> e da <i>Ellem</i> (Itália) no ramo
dos antibióticos; e da associação da <i>Pharmacia</i> com a <i>Alfa-Laval</i>
(Suécia) no domínio dos equipamentos para biotecnologia (Andrade, 1987, p. 10).
A tendência de concentrações, fusões e aquisições manteve-se nos anos
seguintes. Dos cerca de 300 casos na indústria química
europeia divulgados, 20 eram referentes a bioindústrias ou a atividades
conexas. As orientações para a ciência e a tecnologia, por um lado, e as
orientações para a economia e a sociedade apresentavam-se cada vez mais
coordenadas, predizendo a interdependência de umas nas outras no futuro
imediato.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p><b>UMA PROPOSTA DE
PROGRAMA DINAMIZADOR DA BIOTECNOLOGIA</b></p>

    <p>&nbsp;</b></p>

    <p>Em Portugal, permanecia o
dinamismo do meio académico e institucional em torno das biotecnologias. Em
maio de 1987 foram realizadas as Jornadas Nacionais de Investigação Científica
e Tecnológica, que decorreram no Fórum Picoas, sob
organização da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica
(JNICT). O objetivo deste evento consistia na apresentação da proposta de
“Plano Dinamizador da Ciência e Tecnologia para Portugal”, que incluía um
“Programa Dinamizador de Biotecnologia” (Cabral, 1987, p. 1). Manuel Mota
realça que a caracterização da situação e identificação dos estrangulamentos
levadas a cabo nas jornadas da JNICT constituíram um bom ponto de partida e que
existiam em Portugal “possibilidades reais para o lançamento de uma Biologia ao
serviço dos Portugueses” (Mota, 1987, p.13). Todavia, segundo Joaquim Sampaio
Cabral, esta iniciativa careceu de um maior envolvimento do setor produtivo e
industrial resultando em “apenas um esforço de um sector dinâmico, com grande
dispêndio de energias, mas sem um maior impacto que melhore e crie as condições
para um programa nacional” (Cabral, 1987, p. 1). A proposta relativa às
biotecnologias foi elaborada em apenas 3 meses por uma
comissão na qual o setor industrial apenas representava 1/12 dos membros.</p>

    <p>O documento da “proposta de programa dinamizador
da biotecnologia” contemplava oito objetivos: a “criação de massa crítica nas
disciplinas fundamentais da biotecnologia”; a “criação de grandes
infraestruturas comuns para a investigação nas ciências básicas”; a “criação de
uma comissão nacional de coordenação para promover o desenvolvimento das
coleções portuguesas de culturas de microorganismos”; o “desenvolvimento das
áreas de investigação onde existe potencial científico nacional e que
correspondem aos objetivos e perfis da indústria nacional”; o “fomento de
projectos de investigação interdisciplinares e interinstitucionais”; o “fomento
da investigação estratégica universitária co-financiada
pela indústria”; o “alargamento da competência de investigação nas empresas”; e
o “fortalecimento dos mecanismos de comunicação vertical e horizontal entre os
diferentes actores da biotecnologia” (CE, 1987, p. 1). Sobre a situação em
Portugal, era referida a existência de investigadores cobrindo a maioria das
áreas determinantes para o desenvolvimento das biotecnologias que, apesar do
seu reduzido número, poderiam constituir núcleos propulsores de um desejado
aumento da massa crítica (CE, 1987, p. 5). Era ainda apontada a inexistência de
uma “política concertada de desenvolvimento abrangendo os ministérios
sectoriais”<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a> capaz de maximizar a aplicação de recursos e minimizar os
estrangulamentos e lacunas. No que toca à indústria, era assinalado que os
industriais demonstravam ter um forte interesse nesta área, mas que, com grande
probabilidade, não iriam assumir um papel primordial devendo o impulso inicial
do desenvolvimento das biotecnologias ser “conseguido à custa de fundos
públicos e da vontade das instituições que coordenam a investigação” (CE, 1987,
p. 6). A proposta assentava em dois eixos: o reforço da investigação
fundamental nos domínios associados às biotecnologias e o direcionamento das
aplicações para áreas que apresentassem um elevado potencial no desenvolvimento
económico do país, ou seja, áreas em que existia simultaneamente potencial científico e forte posição de mercado (CE, 1987, p. 7).</p>

    <p>A atração pelas biotecnologias foi também
partilhada pelas próprias instituições académicas. A partir dos anos 70,
surgiram as disciplinas mais especializadas em biotecnologia nos cursos
tradicionais. Seguiu-se o curso de “Bioquímica para Engenheiros”, promovido
pelo Instituto Gulbenkian de Ciência, e o primeiro curso de especialização em
biotecnologia lecionado em parceria com a Universidade Nova de Lisboa. A etapa
seguinte consistiu na formação em biotecnologia em termos de licenciatura.
Neste âmbito, destacam-se: o curso de Química aplicada, com um ramo em
biotecnologia, da Universidade Nova de Lisboa; o curso de Engenharia Química,
igualmente com um ramo em biotecnologia, do Instituto Superior Técnico; o curso
de Tecnologia Alimentar da Escola Superior de Biotecnologia do Porto; o curso
de Engenharia Agroindustrial do Instituto Superior de Agronomia; e o curso de
Engenharia Biológica da Universidade do Minho<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a> 
(Novais, 1988a, p. 2). No que concerne ao ensino pós-graduado,
existiam em 1988 dois cursos de biotecnologia: o curso do Instituto Superior
Técnico e o curso do Instituto Gulbenkian de Ciência em cooperação com a
Universidade Nova de Lisboa (Novais, 1988a, p. 3).</p>

    <p>Em janeiro de 1988 foi criada, na Universidade do
Minho, a “Comissão para a Biotecnologia da UM” com o objetivo de definir as
linhas orientadoras para o desenvolvimento da biotecnologia nesta universidade
(Ferreira, 2006, p. 17). No mesmo mês foi anunciada a instalação em Portugal de
um Centro Químico e Biológico para a Agricultura (CTQB). Era referido que o
investimento inerente à criação do CTQB seria suportado em 25% pelo Estado
português e em 75% pela CEE, ficando o centro instalado no Instituto Gulbenkian
de Ciência, em Oeiras. O CTQB<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a> tinha como finalidade a criação de condições de trabalho adequadas à
investigação do INIC (Instituto Nacional de Investigação Científica) e do INIA
(Instituto Nacional de Investigação Agrária), consideradas indispensáveis para
o desenvolvimento das biotecnologias e a sua consequente utilização no âmbito
das indústrias agrícolas e agro-alimentares (BB, 1988a, p. 15).</p>

    <p>Para um investigador como Júlio Maggiolly Novais,
professor catedrático na secção de biotecnologia do IST e que viria a presidir
entre 1989 e 1994 à Comissão coordenadora para a investigação em biotecnologia
da JNICT, o maior entrave ao desenvolvimento das biotecnologias em Portugal
consistia na “falta de dinamismo empresarial”, que não tirava partido do
potencial humano e da conjuntura política favorável ao incremento desta área<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a> 
(Novais, 1987, p. 1). A pesquisa levada a cabo no país era feita
predominantemente nos laboratórios das universidades e em institutos públicos e
privados, enquanto a indústria raramente dispunha de “grupos de investigação
próprios, preferindo nos casos em que disso sente necessidade, depender de
laboratórios exteriores” (Novais, 1987, p. 7). Novais identificava três fatores
principais que, em sua opinião, condicionavam o desenvolvimento desta área de
investigação. Sem a garantia da existência de formação adequada, de
infraestruturas apropriadas e da disponibilidade de capital de risco, não
poderia ser afirmado que existia biotecnologia em Portugal (Novais, 1988a, p.
3). A sugestão da utilização mercantil da investigação não deixa de se
manifestar no interior dos meios científicos e universitários.</p>

    <p>O esforço português no domínio das biotecnologias
começava também a ser notado no contexto internacional. Em entrevista ao <i>Boletim
de Biotecnologia</i> de maio de 1988, Françoise Allaire, ex-adido para a
Ciência e Tecnologia da Embaixada de França em Lisboa, referia ter constatado
duas especificidades neste âmbito. A primeira delas consistia na presença de
recursos naturais que “merecem” ser valorizados através da biotecnologia, como por exemplo as pescas
 e a aquacultura. A segunda estava
relacionada com o reconhecimento de que a competência de Portugal no domínio da
investigação científica era de nível internacional e que, por esse motivo,
constituía a maior riqueza do país. “Penso que não existe diferença entre o
nível de investigação científica em Portugal e o nível alcançado
internacionalmente. A comunidade científica no vosso País é pequena […] mas as
equipas que conheço […] alcançaram um nível notável” (Allaire, 1988, p. 5).</p>

    <p>Para Françoise Allaire existiam três aspetos
determinantes para o desenvolvimento de uma área como a biotecnologia: a
investigação; a formação; e a valorização da investigação. Embora considerasse
que a situação de Portugal era bastante promissora no que toca à investigação
desenvolvida, apontava fragilidades relativamente aos outros dois aspetos:</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>No plano da formação existe uma grave carência ao
nível de técnicos intermediários que possam secundar os investigadores,
evitando a perda de tempo destes em tarefas não diretamente ligadas com a
condução e organização da investigação. Ao nível da indústria não existe
praticamente investigação em biotecnologia, e isto pode dever-se em parte à
falta de recursos humanos, devido a carências quantitativas ao nível da
formação profissional [Allaire, 1988, p. 6].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Entretanto, a Comunidade Europeia mantinha o seu
empenho no desenvolvimento desta área. No início de 1988, a Comissão
preparava-se para lançar o primeiro programa multianual (1988-1993) dedicado à
investigação e desenvolvimento tecnológico agro-industrial baseado na
biotecnologia, o <i>European Collaborative Linkage of Agriculture and Industry
Through Research</i> (ECLAIR). O principal objetivo deste programa consistia no
reforço da competitividade da indústria e agricultura europeias mediante a
realização de projetos de colaboração transnacionais co-financiados
pela indústria (BB, 1988b, p. 11). No mesmo ano, o primeiro-ministro francês
encomendou mais um relatório sobre a situação das biotecnologias. Este
relatório tinha como principal objetivo “estabelecer correlações entre as
acções visando um plano de atuação numa abordagem mais global de promoção do
desenvolvimento das biotecnologias e das respetivas aplicações industriais” e
foi executado por René Sautier, então presidente da <i>Sanofi</i> (BB, 1988b,
p. 14).</p>

    <p>Entre março de 1985 e dezembro de 1989 vigorou o
programa comunitário <i>Biotechnology Action Program</i> (BAP). Em julho de
1988 era já anunciado em Portugal o programa comunitário que iria suceder ao
BAP. O <i>Biotechnology Research and Growth in Europe</i> (BRIDGE) contava com
um financiamento de 100 milhões de ECU, representando um aumento substancial em
relação aos 55 milhões atribuídos inicialmente ao BAP.<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a> 
Este programa visava incrementar a I&amp;D em biotecnologia até 1995,
procurando aumentar o valor de alguns contratos para melhor atrair as grandes
companhias (BB, 1988c, p. 14).</p>

    <p>No ano seguinte, mais concretamente a 27 de
novembro de 1989, foi lançado oficialmente pelo Conselho das Comunidades
Europeias o BRIDGE, um programa específico de investigação e desenvolvimento
tecnológico no domínio da biotecnologia (1990-1994). No texto da decisão, como
um dos fundamentos para a prossecução do programa, é referido que “um especial
objectivo da investigação comunitária deve ser o reforço das bases científicas
e tecnológicas da indústria europeia […] e o incentivo que a indústria se torne
mais competitiva a nível internacional” (JOCE, 1989). No <i>Boletim de
­Biotecnologia</i> de outubro de 1989 foi dado
especial destaque ao anúncio do lançamento próximo de um pedido de propostas de
investigação no âmbito do programa BRIDGE. Era referido serem aceites propostas
transnacionais num conjunto de áreas especificamente determinado e vir a ser
proporcionado “um investimento maciço com vista a desenvolver fortemente os conhecimentos
europeus nessas áreas” (Andrade, 1989, p. 5).</p>

    <p>Após a integração de Portugal na CEE foram
aprovados e subsidiados, no âmbito do <i>Biotechnology Action Programme</i>
(BAP), 8 projetos portugueses, designadamente 3 na
primeira fase do programa e 5 na posterior abertura específica de candidaturas
a grupos portugueses e espanhóis. A baixa taxa de aprovação de projetos
portugueses (20% quando a taxa espanhola se cifrava em 40%) era vista com
preocupação por Maggiolly Novais que aventava como possíveis explicações o
número de grupos de investigação existentes no país, o baixo nível de alguns
deles e a falta de informação e preparação que conduziu à apresentação de
propostas que, logo à partida, não estavam inseridas no âmbito dos objetivos do
BAP (Novais, 1988b, p.1).</p>

    <p>Em dezembro de 1988, o Programa CIÊNCIA foi
apresentado publicamente em Coimbra, pelo secretário de Estado da Ciência e
Tecnologia. Sendo as biotecnologias uma das áreas consideradas como
prioritárias para o desenvolvimento deste programa, os organizadores do 4.º
Congresso Nacional de Biotecnologia<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a> entenderam pertinente e necessário destacar
“algumas questões que se prendem com o desenvolvimento de programas coerentes
de I&amp;D de forma a não se correr o risco de virem a ser delapidados capitais
de tão vasta envergadura” (Mota <i>et al</i>., 1989, p. 2). Com efeito, era
então expectável que o Programa Ciência despendesse cerca de 70 milhões de
contos nos quatro anos seguintes.</p>

    <p>Diversos analistas referiam que não seria
possível desenvolver nenhuma das áreas de aplicação sem que fosse promovida
“uma intervenção integrada e vertical envolvendo a um
tempo todas as metodologias de base” e que deveria ser garantido o
acompanhamento “dos programas até ao estágio de pré-aplicação industrial”, sob
pena de que os “únicos resultados palpáveis” deste novo programa “fossem a
publicação de uma série de artigos científicos, sem repercussões diretas ao
nível da produção” (Mota <i>et al</i>., 1989, p. 2). Seria possível “focalizar
a actividade científica em áreas de aplicações concretas e de interesse
nacional” mediante a definição de “subprogramas prioritários em
­Biotecnologia”, mas apontavam como importante a “colaboração internacional em
projectos de grande envergadura” e necessária a
criação de uma estrutura de apoio que promovesse “o contacto com equipas
internacionais, o preenchimento dos formulários de candidatura, o
esclarecimento ao nível gestionário”, sem a qual “as equipas científicas
portuguesas continuarão arredadas do grosso dos fundos científicos comunitários
ainda por muitos e longos anos” (Mota <i>et al</i>., 1989, p. 3).<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As biotecnologias em Portugal apresentavam já
algum impulso no que concerne às patentes. Em janeiro e fevereiro de 1989 foram
requeridas 874 patentes em Portugal (489 em janeiro e 385 em fevereiro).
Destas, 102 referiam-se a processos biotecnológicos (55 em janeiro e 47 em
fevereiro), no entanto nenhum dos pedidos era português (Andrade, 1990, p. 2).
Entretanto, as iniciativas continuaram a suceder-se.</p>

    <p>O 5.º Congresso Nacional de Biotecnologia<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a> teve lugar em Braga, entre 31 de outubro e 3
de novembro de 1990 e contou com 432 inscrições, tendo sido apresentadas 190 comunicações,
10 das quais oriundas de Espanha e uma de França. Do programa do evento fizeram
parte uma sessão dedicada à promoção de parcerias entre a investigação
universitária e a indústria, patrocinada pelo NORPEDIP e pelo PEDIP, uma
intervenção especial de um representante da CEE abordando os novos
programas-quadro em biotecnologia e um debate sobre a “área prioritária da
biotecnologia e química fina” do programa Ciência (BB, 1991, p. 1).</p>

    <p>Entre 1990 e 1993 esteve em execução o Programa
Ciência. Este programa foi prioritariamente orientado para o reforço dos
domínios científicos e tecnológicos considerados como fundamentais para “a
diversificação e competitividade futura do aparelho produtivo português e a sua
capacidade de aproveitar as oportunidades abertas pelo Mercado Único Europeu”,
bem como “o reforço da participação portuguesa nos programas de I&amp;D
lançados no âmbito das Comunidades Europeias” (MPAT, 1990, p. 39). Foram sete
os domínios apresentados como prioritários: tecnologias da informação e ­telecomunicações;
tecnologias da produção e da energia; ciências e tecnologias dos novos
materiais; ciências e tecnologias da saúde; ciências e tecnologias agrárias;
ciências e tecnologias do mar; e biotecnologia e química fina. A fundamentação
da aposta na biotecnologia e química fina consistia na possibilidade de
melhorar o domínio de “processos de engenharia industrial
necessários à produção das indústrias da saúde, à transformação de
recursos naturais agrícolas ou marinhos, ao fabrico de produtos agroquímicos
etc.” (MPAT, 1990, p. 54). O volume previsto de despesas destinado à
biotecnologia e química fina era da ordem dos 15 milhões de ECU para o fomento
de infraestruturas de I&amp;D e de 6 milhões de ECU
para a formação avançada e inovação (MAPT, 1990, pp. 73 e 86).</p>

    <p>Na sequência da análise dos projetos por parte
dos painéis de avaliação externa, tinha sido apontado que um dos principais
problemas da comunidade científica portuguesa na área das ciências da saúde era
a “falta de densidade e de massa crítica”. Consequentemente, o programa Ciência
(1990-1993) apresentava duas medidas principais: “a construção de novas
estruturas e actualização do equipamento”; e “a criação de oportunidades de
formação através de um programa de bolsas de mestrado e doutoramento”. A constituição
dos novos institutos e centros no âmbito deste programa também foi acompanhada
de uma avaliação externa por pares. Arnold Munnich, presidente da comissão de
visita do INSERM<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>, salientava em 1991 a existência de uma “grande potencialidade da
investigação biomédica em Portugal” assente na qualidade dos recursos humanos –
“perfeitamente anglófonos e/ou francófonos, desejosos de colaborar com outros
grupos, e conscientes da imperiosa necessidade de cooperação europeia” (OCT,
1998). Outro ponto forte identificado foi a existência
no país de “séries impressionantes de doenças genéticas originais”. Em
contrapartida, foram assinaladas como fraquezas a
renitência dos investigadores em se constituir em equipa e a “sobre ocupação”
dos funcionários que, para além de existirem em número muito reduzido, ainda se
dividem entre ensino/investigação, clínica/investigação, etc. Graças aos fundos
do programa Ciência foram criados/renovados, em 1991, 12 institutos e centros<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>
 sedeados em ­Lisboa, Porto e Coimbra.</p>

    <p>No início da década de 90, Júlio Maggiolly Novais
argumentava que, através da ação da JNICT, “a biotecnologia foi beneficiada
pelo facto de ser considerada uma área prioritária de investigação” (Novais,
1992, p. 145), resultando num financiamento preferencial dos grupos a operar
neste domínio. Mas que, apesar da elevada qualidade da investigação e da
existência de financiamento, faltavam duas vertentes
importantes – empresas para promover e incentivar o trabalho de investigação e
empresários interessados em apostar nas aplicações das descobertas (Novais,
1992, p. 145). Eram então realçados os trabalhos desenvolvidos na Faculdade de
Ciências de Lisboa, no âmbito da biotecnologia vegetal, no Laboratório Nacional
de Engenharia e Tecnologia Industrial (LNETI), na Universidade Nova de Lisboa,
na Escola de Biotecnologia do Porto, na Universidade do Minho (Novais, 1992, p.
144), na Faculdade de Farmácia, no Instituto Superior Técnico, no Instituto de
Investigação Agrícola e no Instituto Nacional de Saúde, em Lisboa (Costa, 1992,
147). Mereciam especial destaque as atividades
desenvolvidas no Instituto Gulbenkian de Ciência que, em 1992, contava com 27
investigadores permanentes e cerca de 50 estudantes graduados ou visitantes; no
Instituto de Biologia Molecular e Celular<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a> (IBMC) da Universidade do Porto, que se perspetivava vir a ter em
breve um total de cerca de 200 investigadores; e no Centro de Biologia Celular
da Universidade de Coimbra que, em 1992, contava com 26 doutorados e 21
licenciados com vínculo permanente, distribuídos pelos seus seis departamentos:
biologia celular; biofísica; bioquímica; neuroquímica; biologia e biotecnologia
molecular; e neuro-farmacologia (Carvalho, 1992, p. 137).</p>

    <p>Foram igualmente enveredados esforços no sentido
de reforçar os laços existentes entre o meio científico dos diversos países.
Entre 15 e 18 de outubro de 1992 realizou-se em Santiago de Compostela o
primeiro Congresso ­Ibérico de Biotecnologia<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a>, 
o 1.º Congresso Hispano-luso de Biotecnologia (BB, 1992, p. 11). Este
evento congregou o IV Congresso Espanhol e o VI Congresso ­Português de
Biotecnologia e foi resultado de uma edição conjunta das direções das
sociedades de biotecnologia portuguesa e espanhola (Mota, 1994, p. 3) com o
intuito de promover “um aproximar da biotecnologia portuguesa à biotecnologia
europeia, criando uma ciência e tecnologia dos países do sul da Europa”
(Roseiro, 1992, p. 1).</p>

    <p>O seguimento da dinâmica exposta permite afirmar
que as orientações para as biotecnologias surgiram sob um foco de serem sustentáculo do esforço económico ou mesmo
incentivadoras de uma nova economia baseada no conhecimento. Em vez de
assentarem numa progressão intrínseca ao mundo universitário e científico, as
biotecnologias estiveram sob um regime de intensa promoção institucional e de
expectativas colocadas nas suas possíveis aplicações, em síntese, atravessadas
por lógicas institucionais, económicas e sociais.<sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>À PROCURA DO
ENLAÇAMENTO INTERNACIONAL</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A comunidade científica
associada às biotecnologias em Portugal revelava-se especialmente interessada
na obtenção de financiamentos oriundos da União Europeia, um episódio que
podemos considerar consentâneo com a história da captação de capital no
exterior para as necessidades do país. Na edição de junho de 1993 do <i>Boletim
de Biotecnologia</i>, foi publicada uma nota informativa de Manuel Carrondo,
diretor do Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (IBET), sobre o
Programa Eureka. Era referido que este programa, envolvendo 20 países europeus,
visava “apoiar projectos de investigação e desenvolvimento orientados pelo
mercado (<i>market driven</i>)” (Carrondo, 1993a, p. 9). As biotecnologias eram
uma das áreas de atividade previstas e as propostas deveriam incluir, no
mínimo, a participação de dois países e de uma empresa. A coordenação deste
programa em Portugal esteve a cargo de uma comissão composta por 3 representantes, respetivamente, dos ministros do
planeamento, da indústria e dos negócios estrangeiros.</p>

    <p>Na mesma edição, era publicada uma longa
entrevista a Maggiolly Novais intitulada “Investigação em Biotecnologia em
Portugal”. Este investigador era já simultaneamente presidente da Comissão da
JNICT para a investigação em biotecnologia e do departamento de engenharia
química do IST (Correia, 1993, p. 2; JMN, s/d). Respondendo ao problema do
financiamento previsto pela JNICT para os quatro anos seguintes no âmbito do
“desenvolvimento da investigação em biotecnologia em Portugal”, Novais anunciou
que em 1994 teria início o programa Ciência II, que as biotecnologias iriam ser
certamente uma das áreas contempladas e que este programa seria previsivelmente
o garante de um financiamento estável até 1999. Perspetivava que a delegação
portuguesa iria defender como essencial para o Ciência
II o investimento em infraestruturas básicas comuns (bibliotecas, oficinas,
biotérios, coleções de microrganismos, etc.), na concessão de bolsas de
pós-doutoramento e em formação para pessoal técnico. Destacava o anúncio de um
“programa de financiamento plurianual de investigação científica” que iria
constituir a base financeira necessária para que os grupos de investigação
ativos pudessem garantir a sua continuidade independentemente do financiamento
para projetos específicos.</p>

    <p>Em relação à influência que um país como Portugal
poderia ter junto da Comissão Europeia no âmbito das
propostas de projetos, Novais foi bastante enfático:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>Na Comissão Europeia, o grupo de biotecnologia é
constituído basicamente por um grupo de ex-cientistas a tempo inteiro. Esses
“funcionários” são originários de vários países mas
estão ali para actuar como funcionários europeus e não para defender os
interesses do seu País. Contudo, […] existe sempre vantagem em ter alguém da
sua nacionalidade na Comissão. […] Acontece que realmente neste grupo nunca
houve portugueses, o que é de lamentar [Novais, 1993, p. 4].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Do modo de condução da entrevista ressalta que
começava então a ser alvo de preocupação a necessidade de colocação para as
“centenas de bolseiros JNICT” financiados no âmbito do programa Ciência I,
nomeadamente os bolseiros de doutoramento que em breve veriam terminar a sua
bolsa. A este respeito, Novais defendia que à JNICT apenas competia desenvolver
a ciência em Portugal e que esse desenvolvimento estava principalmente
dependente da existência de cientistas em número suficiente para que fosse
possível a utilização optimizada dos financiamentos disponíveis. Não obstante,
reconhecia a importância da integração dos investigadores num contexto
profissional. Manifestava ainda a sua perplexidade perante o desinteresse dos
jovens investigadores portugueses em “trabalhar e investigar no estrangeiro
durante uns anos” porque entendia que “a sua formação ganharia muito e o País
também se mudassem de ares durante uns tempos”. Salientando que não defendia um
<i>brain-drain</i>, prosseguia dizendo que os jovens investigadores portugueses
“estejam onde estiverem, continuarão a prestigiar a ciência portuguesa, e serão
um ponto de contacto exterior para aqueles que ficaram por cá” (Novais, 1993,
p. 5).</p>

    <p>Esta figura da investigação portuguesa
compreendia que a indústria em Portugal não tivesse interesse em admitir
doutorados para desempenhar funções nas áreas da produção e comercial e que,
neste sentido, o mais importante seria “conseguir interessar a indústria pela
investigação”, cabendo às universidades demonstrar com casos concretos “que a
indústria tem toda a vantagem em interessar-se pela investigação” (Novais,
1993, p. 5). O programa que defendia era bastante claro: “Num primeiro estádio
penso que haverá que ­continuar a lançar projectos de investigação
universidade-indústria, mas em que tem de ser esta a assumir e a liderar a
proposta. […] Se o pedido fosse aprovado, a indústria receberia fundos para
criar e apetrechar um laboratório de investigação (que teria de estar
operacional no prazo de um ano) e teria direito a dispôr de dois ou três
bolseiros doutorados que iniciariam o trabalho na Universidade e depois o
transporiam para o laboratório da indústria. Ao fim de três anos a bolsa
ir-se-ia reduzindo gradualmente e iria sendo substituída por um salário a cargo
da empresa. Entretanto a Universidade teria uma remuneração fixa (uma espécie
de ‘bench-fee’) pelo apoio que prestasse à empresa ao longo do projecto”
(Novais, 1993, p. 5).</p>

    <p>No que concerne à situação das universidades,
Novais admitia que se começava a verificar uma
tendência, por parte dos investigadores mais qualificados, de abandono das
instalações universitárias para desenvolverem a sua investigação em condições
mais vantajosas nos diversos centros e institutos que tinham sido recentemente
criados. Esta situação era entendida como muito negativa para o ensino
universitário dado que “o professor não está presente quando o aluno precisa
dele; a sua investigação encontra-se fisicamente dissociada do espaço de ensino
e além disso são sobrecarregados com tarefas
administrativas os professores que ficam na Universidade” (Novais, 1993, p. 7).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Maggiolly Novais concluía salientando que a
“investigação científica é parte do património cultural de um povo”, que “tem
que ser financiada mesmo que o País tenha que fazer sacrifícios e que não
resultem benefícios materiais visíveis” e que somente pode existir um
verdadeiro ensino universitário desde que esteja associado ao desenvolvimento
de investigação científica em paralelo (Novais, 1993, p. 9).</p>

    <p>Em novembro do mesmo ano foi publicada no <i>Boletim
de Biotecnologia</i> outra entrevista, desta vez a Manuel Carrondo, diretor do
Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (IBET). O IBET assumia como
missão “actuar como uma interface que faz a ponte entre a investigação aplicada
e fundamental nos domínios da Química, Bioquímica, Biologia e Engenharia e as
empresas interessadas no uso de bioprocessos e no desenvolvimento de
bioprodutos”, o que para Carrondo representava “pôr em marcha um processo
inexistente, histórica e culturalmente”, de criação da “convivialidade
necessária entre técnicos das empresas e investigadores” (Carrondo, 1993b, p.
3).</p>

    <p>Questionado por Isabel Sá Correia, figura
destacada da SPBT, se estariam a “preparar quadros, com boa formação, como isco
para atrair as multinacionais que actuam na área da biotecnologia a Portugal”,
Carrondo respondeu: “não só, mas também” (Carrondo, 1993b, p. 5). No que
concerne à situação das diversas atividades produtivas em Portugal, retorquiu
que “as características essenciais para se fazer boa
ciência não são necessariamente coincidentes com a cultura que conduz à
germinação de boas empresas” e que “um bom tecido económico suporta a
investigação científica, pois sabe que dela depende; a inversa não parece
forçosamente suficiente, conquanto atitudes e apostas como a do IBET possam
ajudar” (Carrondo, 1993b, p. 5). Manuel Carrondo aludia à importância das
empresas consolidadas apoiarem a investigação científica.</p>

    <p>As empresas a operar na área das biotecnologias,
para além de deterem uma base de conhecimento científico muito forte em áreas
afins, e à semelhança do que acontece de uma maneira geral em todas as
atividades ditas de inovação, cedo verificaram que a transformação do
conhecimento em valor necessitava do desenvolvimento de outro tipo de
capacidades, nomeadamente ao nível da existência de redes de <i>marketing</i> e
de distribuição. As novas firmas de biotecnologia para poderem vender os seus
produtos de forma lucrativa necessitavam de dispor de canais de distribuição
que lhes permitissem chegar aos potenciais clientes. O desenvolvimento destes
canais, numa empresa de reduzida dimensão de mão-de-obra e de capital,
constituía um forte constrangimento, pelo que muitas empresas tiveram a
necessidade de abrir mão de parte do retorno financeiro das suas inovações para
estabelecer parcerias de <i>marketing</i> com grandes firmas já implantadas no
mercado. Exemplo disso foi o caso da <i>Genentech</i> que, em 1990, acordou uma
fusão parcial com a grande empresa farmacêutica suíça <i>Roche</i> (Teitelman,
1994, p. 195).<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a></p>

    <p>A grande parte das políticas científicas dos
países em desenvolvimento subjaz a ideia de que existem poucas barreiras à
entrada nesta área de tão elevado nível tecnológico e que, por esse motivo,
este domínio constitui uma “janela de oportunidade” para conquistar o reforço
do posicionamento estratégico e económico do país através de um forte
investimento na capacidade científica disponível. Como podemos observar, esta
noção tem vindo a revelar-se cada vez mais redutora. Crescentemente, o grau de
sofisticação, a escala e a componente do bioprocessamento têm vindo a fazer
aumentar os custos de entrada nestes domínios. Hoje, não é suficiente deter o
conhecimento considerado inovador que permite desenvolver um produto para
conquistar um posicionamento forte no mercado. As empresas para serem
competitivas necessitam ter um forte aproveitamento de sinergias tecnológicas,
de sinergias na distribuição e de economias de escala no bioprocessamento.
Apesar de ainda ser possível às empresas de menor dimensão participar
ativamente no mercado das ­biotecnologias optando por nichos mercantis ou de
tecnologia específicos, é muito provável que as barreiras à entrada aumentem
cada vez mais.</p>

    <p>Ainda assim, a aposta nas biotecnologias
continuou a ser reforçada no âmbito europeu, adquirindo a partir de 1994 uma
maior saliência no ­contexto das políticas nacionais de inovação dos vários
países-membros.<sup><a href="#18">18</a></sup><a name="top18"></a> Em junho de 1994 foi apresentada pela Comissão das Comunidades
Europeias a comunicação “A biotecnologia e o livro branco: preparar a próxima
fase” (CCE, 1994). Neste documento era salientado o elevado interesse que a
Comunidade Europeia vinha a dedicar às biotecnologias desde meados da década de
1970. A estratégia relativamente a este domínio é apresentada do seguinte modo:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>Trata-se do apoio financeiro à investigação básica
e aplicada e às suas respectivas infraestruturas; da elaboração de um
enquadramento regulamentar coerente assente em determinados princípios bem
definidos (incluindo a proteção da propriedade intelectual); de uma maior
ênfase na educação e na formação; da promoção da transferência de tecnologias;
e de uma maior divulgação junto do público, bem como de meios que facilitem as
escolhas dos consumidores [CCE, 1994, p. 1].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nesta comunicação foram apresentadas como
decisões: a proposta de ajustamentos e alterações no enquadramento regulamentar
biotecnológico; o reforço dos pareceres científicos disponíveis; a procura de
uma adoção mais rápida das propostas de programas específicos, com especial
ênfase no “apoio financeiro intensivo às áreas em que o rendimento seja mais
provável”; a promoção do desenvolvimento de pequenas empresas biotecnológicas
pelas “vantagens que oferecem no que respeita ao desenvolvimento de novas
ideias e produtos”; o incremento da “educação do público no domínio da
biotecnologia”; e o aumento do peso do grupo de conselheiros para as questões
éticas (CCE, 1994, p. 15). Nesta sequência, foi adoptado, no final de 1994, um
programa específico de I&amp;D no domínio da biotecnologia para o período de
1994-1998, com um montante previsto de 552 milhões de ECU.</p>

    <p>Em Portugal, o esforço de consolidação do domínio
da biotecnologia era notório. Entre 1 e 5 de outubro
de 1994 realizou-se, em Vilamoura, o II Congresso Ibérico de Biotecnologia<sup><a href="#19">19</a></sup><a name="top19"></a>, 
tendo estado a organização do evento a cargo de investigadores da
Universidade do Algarve, bem como dos presidentes das sociedades portuguesa e
espanhola de biotecnologia. O congresso teve a participação de perto de 400
cientistas e foi composto pela apresentação de 282 comunicações, 30
conferências plenárias e 2 mesas redondas, uma das
quais inteiramente dedicada à explanação do IV quadro comunitário de apoio em
biotecnologia (Mota, 1994, p. 4).</p>

    <p>No final de 1994 realizou-se mais uma conferência
dedicada à “transferência, gestão e valorização de ciência e tecnologia”. Este
evento, realizado no IST, teve como oradores representantes da recém-criada
Agência de Inovação, da JNICT, do DG<sup><a href="#20">20</a></sup><a name="top20"></a>
 XIII, do PEDIP, do programa PRAXIS<sup><a href="#21">21</a></sup><a name="top21"></a> e do IST enquanto entidade organizadora da conferência. Na sua
intervenção, o presidente da JNICT, Ramôa Ribeiro, enfatizou que tinha sido
reconhecido pela OCDE que, entre os países menos desenvolvidos, foi em Portugal
que se realizaram os progressos mais significativos em C&amp;T por ação do
programa Ciência. Referiu ainda que na maioria das empresas portuguesas não
existia um único profissional com formação superior e que tal condição
apresentava repercussões ao nível da “falta de diálogo entre empresas e
universidades”, bem como da fraca participação das PME portuguesas nos
programas quadro da CE (Correia, 1994, p. 7).</p>

    <p>O presidente da Agência de Inovação, Jorge Alves,
salientou a necessidade de “alguém ter que pagar a ciência” e defendeu que as
universidades deveriam “ter como motivações quer o avanço do conhecimento quer
o impacto no tecido socio-económico, sendo ambos os motivos nobres e nenhum
invalidando o outro” (Correia, 1994, p. 7). Exortou também os investigadores a
aceitarem que “inovação não é inovenção, ou seja, não é de uma solução
milagrosa que se necessita mas só de um pequeno
melhoramento” e que as “ideias têm também que passar no teste do mercado”,
sendo que os membros da equipa de investigação raramente são os profissionais
mais capazes de lidar com o mercado com a planificação e rigor necessários
(Correia, 1994, p. 7).</p>

    <p>Nas palavras do gestor do PEDIP, Albertino
Santana, as atividades de I&amp;D “são o garante da competitividade das
empresas e do desenvolvimento dos ­países”, mas em Portugal as empresas não
tinham acompanhado o incremento da I&amp;D realizado nos últimos anos. Para
Santana era importante reforçar a ­ligação universidade-empresa através da
promoção de “mediadores entre esses 2 mundos com
canais muitas vezes bloqueados” (Correia, 1994, p. 8). Considerava igualmente
prioritário “o desenvolvimento de uma política de ensino onde a criatividade
seja valorizada e desenvolvida desde a mais tenra idade e a coordenação, com o
empenhamento de todos os parceiros, da componente Ensino, Ciência e Tecnologia
e Indústria” (Correia, 1994, p. 8). Por último, referiu que o PEDIP II iria
apoiar os programas que visassem “o recrutamento e formação de recursos
técnicos, a dinamização da mobilização de técnicos inter
estruturas, o financiamento de projectos mobilizadores e a dinamização
da procura dos serviços de empresas de interface” (Correia, 1994, p. 8).</p>

    <p>José António
Salcedo, gestor do PRAXIS XXI, anunciou, por sua vez, que este programa iria
“beneficiar a formação e não a criação de infraestruturas”, dado que estas já
tinham sido objecto de programas anteriores, que o potencial humano já
existente e a formação avançada seria “sustentada na
execução de projectos de I&amp;D a financiar” e que seriam igualmente
financiadas as unidades de I&amp;D anteriormente criadas (Correia, 1994, p. 8).
Já o administrador principal do DG XIII, Luís Ferrão, aproveitou a oportunidade
para salientar, a propósito da interação investigação-empresa, que os cientistas
portugueses careciam “de estímulo da indústria nacional recolhendo-se na
investigação pura ou então estabelecendo colaborações com a indústria
estrangeira” e que não havia</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>[…] experiência nem cuidado na protecção de
propriedade intelectual e que, dadas as necessidades curriculares, se verifica[va], no geral, uma divulgação prematura dos
resultados de investigação deixando-os totalmente desprotegidos e com valor
nulo para as empresas potenciais clientes [Correia, 1994, p. 8].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Outra iniciativa<sup><a href="#22">22</a></sup><a name="top22"></a> digna de menção realizou-se em Lisboa, no LNEC, a 1
de fevereiro de 1995. Consistiu numa
sessão de esclarecimento sobre o programa de biotecnologia (1994/98), promovida
pela JNICT no âmbito do 4.º programa quadro da EU. Este evento contou com a
participação de cerca de 50 pessoas e a presença de diversas personalidades
como Júlio Maggiolly Novais, nessa altura vice-presidente da JNICT e
ex-delegado nacional aos vários programas de biotecnologia, e Alfredo Aguilar,
representante da DG XII. Alfredo Aguilar apresentou em traços gerais os eixos
norteadores do novo programa salientando que este tinha “em vista aumentar a
competitividade da indústria europeia” e que seria “muito maior a selectividade
baseada no possível impacto económico dos projectos” (Correia 1995a, 3). Seriam disponibilizados 12300
milhões de ECU para todo o programa e, destes, 552 milhões de ECU para a
biotecnologia. Dos objetivos faziam parte o incremento da “integração das
actividades nacionais e europeias”, o “desenvolvimento de sinergias entre as
actividades de investigação” e o “apoio muito significativo a actividades de
formação e mobilidade”. Como se considerava que a opinião pública era “negativa
relativamente a desenvolvimentos promissores da biotecnologia”, almejava-se que
a divulgação da informação dos estados membros fosse efetuada “de uma forma
credível” (Correia, 1995a, p. 3).</p>

    <p>Maggiolly Novais sugeriu que a reduzida
participação portuguesa nos programas de financiamento se devia em larga medida
a três aspetos. Desde logo, apontou a existência de “disparidade entre os temas
de investigação em desenvolvimento em Portugal e o que são consideradas áreas
prioritárias no programa”. Como segundo <i>item</i> aventou que “os grupos
candidatos potenciais já têm dinheiro de programas nacionais pelo que não se
esforçam a concorrer”. Por último, referiu que a comunidade científica
portuguesa estava “fechada sobre si mesma, sem contactos internacionais que lhe
permitam a integração em projectos transnacionais” (Correia, 1995a, p. 3).</p>

    <p>Por seu turno, Alfredo Aguilar frisou a
“impreparação dos investigadores portugueses” para uma interação e participação
empenhada de indústrias nas candidaturas, dado que não existiam “parceiros
industriais em Portugal por a indústria ser praticamente inexistente”. Referiu
ainda que “a situação dos bons lab. portugueses não era ‘comparável à dos
outros lab. Europeus’” no que concerne a infraestruturas várias e que o país
não poderia ser considerado como estando em pé de igualdade com outros países
da UE porque não possuía “nem as infraestruturas nem a indústria” (Correia,
1995a, p. 4).</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Era percetível um esforço no sentido de promover
o estabelecimento de parcerias nacionais entre os diversos envolvidos no âmbito
das biotecnologias. Na edição de julho de 1995 do <i>Boletim de Biotecnologia</i>
foi reportada a criação do “Gabinete de Projectos de Investigação Científica em
Biotecnologia”. Promovido pelo grupo de biotecnologia da Associação Juvenil de
Ciência (AJC) e pela SPBT, este gabinete tinha como móbil “promover a
comunicação entre os jovens que desejam iniciar ou prosseguir uma carreira
científica e os centros de investigação e empresas que deles necessitam”. O
principal projeto deste novo gabinete consistia na criação de uma base de dados
que agregasse os <i>curricula vitae</i> dos candidatos (BB, 1995a).</p>

    <p>No seguimento desta missão, foi editada em
novembro do mesmo ano uma brochura intitulada <i>Biotecnologia em Portugal – Guia da Formação, Investigação e Documentação em
Biotecnologia</i>. Esta obra, prefaciada por Maggiolly Novais, visava
constituir uma “compilação de informações sobre a biotecnologia em Portugal”,
considerada como um contributo para o reforço da “cooperação entre cientistas”
que então tendia “a ser internacional quer por razões de funcionalidade, quer
por razões pragmáticas de procura de financiamento”, mas que seria facilitada
pela existência de uma “prática nacional de cooperação” (Novais,1995,
p. 5).</p>

    <p>Nesta edição conjunta da JNICT com a AJC era
referido, a propósito da organização da biotecnologia em Portugal, que a
maioria dos programas de financiamento era destinada “a apoiar o
desenvolvimento de projectos de investigação”. As entidades que se destacavam
no financiamento eram: a JNICT, para os projetos de investigação, e a Fundação
Calouste Gulbenkian e a FLAD, para as bolsas individuais. Era igualmente
assinalado que o surgimento dos programas de financiamento no âmbito da União
Europeia, nomeadamente o <i>Praxis</i> XXI e o IV Programa Quadro de apoio à
I&amp;D, tinha reforçado a importância da internacionalização dos grupos de
investigação, sendo exigência comunitária que “os projectos sejam levados a
cabo por vários países” (Rocha <i>et</i><i> al</i>.,
1995, p. 19).</p>

    <p>Era ainda assinalada a existência em Portugal de
17 instituições de ligação entre universidades/institutos de investigação e
empresas no campo das biotecnologias.<sup><a href="#23">23</a></sup><a name="top23"></a> Estas entidades, então recentes, visavam “estreitar o fosso que por
vezes existe entre os investigadores e a indústria” e “fornecer apoio a todos
aqueles que queiram desenvolver uma ideia inovadora”, mas também se dedicavam a
“outras actividades, como a formação profissional e o desenvolvimento de
projectos de investigação” (Rocha <i>et</i><i> al</i>.,
1995, pp. 19-20). Este trabalho, desde logo apresentado como “um retrato
bastante fiel da realidade portuguesa”, conduziu à inventariação de mais de 260
projetos de investigação, 60% dos quais desenvolvidos no distrito de Lisboa, o
que refletia “o rápido crescimento” que a biotecnologia vinha conhecendo em
Portugal, mas igualmente a “enorme macrocefalia” que o país ainda não tinha
conseguido corrigir (Rocha <i>et</i><i> al</i>., 1996,
p. 38).</p>

    <p>No final de 1996,
uma avaliação científica internacional levada a cabo sob os auspícios do novo
Ministério da Ciência e da Tecnologia apontava que a colaboração entre as
pessoas, tanto na gestão dos custos como na partilha de equipamento, se
realizava fundamentalmente por conveniência, sendo as motivações da melhoria
dos resultados e unificação de objetivos relegadas para
segundo plano. Era também salientado que, no caso específico das
ciências farmacêuticas, a definição de uma “política de desenvolvimento
nacional que conecte os esforços dos muitos cientistas que trabalham no campo
do fabrico de medicamentos”, para além de urgente, se assumia como
indispensável. De acordo com as propostas avançadas pelos membros do painel de
avaliação, os futuros financiamentos deveriam passar a estar associados aos
indivíduos e não às instituições de acolhimento e a comunidade científica
portuguesa, no domínio das ciências da saúde, deveria ser incentivada a
“exercer as suas capacidades de <i>lobbying</i> para obter mais
financiamentos”, à semelhança do que acontece nos EUA, dando mais atenção aos
mecanismos alternativos de financiamento, nomeadamente a NATO, as instituições
sem fins lucrativos e a indústria. Posteriormente, em fevereiro de 1998, foi
criado em Portugal um grupo de peritos interministerial para apoiar o Governo
na tomada de decisões sobre estas matérias, tendo o tema sido discutido a
vários níveis institucionais e no âmbito de uma comissão da Assembleia da
República em 2001 (Archer, 2006, p. 142).</p>

    <p>Paralelamente, em
1998, a Sociedade Portuguesa de Biotecnologia iniciou o processo de
autonomização da Sociedade Portuguesa de Bioquímica. No decurso da constituição
da nova sociedade científica, e dado que já tinha existido uma empresa com a
designação “Sociedade Portuguesa de Biotecnologia”, foi adoptado o nome “SPBT –
Sociedade Portuguesa de Biotecnologia”. Em outubro do mesmo ano foi constituído
um grupo de trabalho para impulsionar a informação e divulgação sobre as novas
biotecnologias. A “Comissão para a divulgação das novas biotecnologias”, da
Sociedade Portuguesa de Biotecnologia, tinha como presidente Alexandre
Quintanilha (BB, 1998b, p. 3) e envolvia cerca de 20 técnicos, docentes e
gestores das áreas relacionadas. Este grupo assumia como principal objetivo:
“informar o grande público das novas biotecnologias”, promovendo o
esclarecimento e “dando ao público a capacidade de tomar decisões próprias
sobre o modo como o tema o afecta” (BB, 1998b, p. 5). Em abril de 1998, a SPBT
contava já com 550 sócios individuais e 16 coletivos (BB, 1998a, p. 3). No ano
seguinte, em 1999, foi fundada a Associação Portuguesa de Bioindústria tendo
como missão o desenvolvimento de “um sector de bioindústrias competitivo,
gerador de valor acrescentado e criador de emprego baseado na qualidade
científica” (APBIO, s/d).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O período que
traçámos constituiu a antecâmara de uma orientação, inserida naquela que ficou
conhecida como a “Estratégia de Lisboa” e que definiu, em 2000, as linhas
políticas base da União Europeia até 2010. Partindo da convicção de que o
âmbito das ciências da vida e das biotecnologias, assim como o das tecnologias
da informação, constituíam um novo eixo da economia
baseado no conhecimento e, como tal, uma nova oportunidade para a sociedade e a
economia, as biotecnologias foram uma das poucas áreas explicitamente
mencionadas e acompanhadas de perto pela Comissão Europeia, tendo sido
apresentada em janeiro de 2002 uma estratégia de atuação específica para este
domínio (JRC, 2007, p. 125; JRC, 2008, p. 19; CCE, 2002). A orientação
“Ciências da vida e biotecnologia – Uma estratégia para a Europa”
apresentava-se como uma resposta política da Europa aos desenvolvimentos
tecnológicos verificados neste âmbito, constituindo um guia do caminho a ser
seguido pelos diversos países, e assentava em três eixos principais: atrair os
recursos necessários para desenvolver e aplicar as novas tecnologias;
conquistar o apoio e confiança dos cidadãos para as políticas implementadas; e
reforçar o posicionamento estratégico e económico da Europa no panorama
mundial. Não cabendo neste texto efetuar o mapeamento das iniciativas precisas
que procuraram criar uma capacidade industrial biotecnológica em Portugal, em
diferentes áreas (agro-alimentar, saúde, ambiente, e com recurso a várias vias
organizacionais), bem como o seu ­destino, vale a pena
contudo referir que o primeiro parque de biotecnologia em Portugal
(BIOCANT Park) foi criado em outubro de 2003, fruto de uma parceria entre a
Câmara Municipal de Cantanhede e o Centro de Neurociências e Biologia Celular
da Universidade de Coimbra. De todas as formas, o que se afigura por demais manifesto é que as políticas científicas e
tecnológicas no campo das biotecnologias estão mais impelidas por orientações e
pautas que as procuram colocar à disposição da rentabilidade capitalista no
âmbito da competição económica à escala global do que para uma ciência e
investigação necessárias a sociedades que procurem ser menos desiguais
socialmente e responsáveis ecologicamente.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>CONCLUSÃO</b></p>

    <p>&nbsp;</b></p>

    <p>A adesão de Portugal à
Comunidade Europeia foi decerto acompanhada com expectativa pelo meio
científico português das áreas afetas às biotecnologias, na sua maioria
compostas por investigadores que tinham obtido os seus doutoramentos fora do
país. Num intervalo de tempo curto, o campo académico e disciplinar da biologia
foi palco de mudanças de vários géneros – epistemológicas, teóricas,
morfológicas… – e domínios próximos foram objeto de
atenção política, contenda económica e até de conflito social, em particular em
torno dos OGM e da defesa das sementes (Silva, 2003). A captação de fundos comunitários
(como se afirmou já, uma orientação conforme à
tradição de captação do capital fora do país para as suas necessidades
económicas) possibilitou o investimento em equipamentos e na concessão de
bolsas de estudo, condições entendidas como necessárias para o despontar das
biotecnologias em Portugal. Investigadores da área assinalaram repetidamente
como forçoso o empenho da comunidade empresarial neste
intento. Por sua vez, a ação das entidades estatais continuou a privilegiar a
atuação junto dos grupos de investigação, potenciando a sua ação na expectativa
de uma posterior utilização dos resultados pelo setor empresarial.
Paralelamente, o cenário internacional das biotecnologias era marcado pela
tendência de concentração, fusões e aquisições de empresas a operar no setor.</p>

    <p>É suficientemente
reconhecido que o panorama universitário e científico português apresentou uma
notória transformação na última década do século XX. Aumentou consideravelmente
a quantidade de investigadores, de doutoramentos e de publicações científicas,
bem como o valor global investido em I&D (Saraiva,
Delicado e Bastos 2008). Cresceu também o número de investigadores doutorados
no âmbito das biotecnologias. Entre 1979 e 2000, foram realizados ou
reconhecidos em Portugal 62 doutoramentos em biotecnologia: 54 em Biotecnologia
Agrária e Alimentar, 3 em Biotecnologia Industrial
e 5 em Biotecnologia Médica (GPEARI, s/d). Estes doutoramentos foram conferidos
pelas seguintes instituições: Universidade dos Açores, Universidade de Évora,
Universidade Católica Portuguesa, Universidade Técnica de Lisboa, Universidade
do Minho e Universidade do Porto. Tornaram-se públicas as preocupações
relativas à necessária integração dos mesmos num contexto profissional
compatível e adequado. Uma vez mais, a postura das entidades estatais que
superintendiam às políticas científicas foi consentânea com a promoção do
desenvolvimento da ciência no meio académico, parecendo entender que cabia às
universidades despertar a indústria para o interesse da aposta na investigação.
Perante as dificuldades manifestas, os investigadores portugueses na área das
biotecnologias começaram a procurar estabelecer parcerias com as grandes
multinacionais do setor, ao mesmo tempo que o contexto
europeu em que nos integrámos reforçava a sua parada neste domínio e o próprio
contexto internacional da investigação adquiria novas características. Estes
esforços de aproximação, bem como a saída dos jovens recém-formados do país
para procurar oportunidades de trabalho no estrangeiro, eram incentivados e
vistos com muito agrado pelos investigadores detentores de posições mais
consolidadas que vislumbraram nestas ações uma oportunidade de reforço de um 
certo prestígio internacional adquirido pela ciência
feita em Portugal e dos contactos com entidades externas do meio académico e
empresarial.</p>

    <p>O reconhecimento pela comunidade científica
internacional da competência do país no domínio das biotecnologias dava
indicações de poder tornar-se realidade. Todavia, a indústria a operar em
Portugal permaneceu relativamente alheia a tal facto, não demonstrando especial
inclinação pela investigação desenvolvida. Em contrapartida, do quadro
institucional europeu – no qual foi emergindo uma “Europa das Chancelarias” e
um perfil algo errático relativamente aos seus objetivos<sup><a href="#24">24</a></sup><a name="top24"></a>continuaram a ser lançados programas
específicos de biotecnologia tendo como propósito o reforço de uma designada
indústria europeia.</p>

    <p>Persistiu o fraco crescimento da produtividade, o
baixo nível de qualificação da mão-de-obra e de aproveitamento escolar e a
debilidade estrutural e de novos produtos e serviços das empresas portuguesas.
As orientações políticas têm vindo a apontar no sentido do reforço dos
resultados a curto prazo, especialmente no contexto
europeu, mas uma excessiva orientação do meio académico para fins
predominantemente económicos, tal como tem sido assinalado por diversas
pesquisas (Godinho, 1993; Garcia e Martins, 2008; ­Garcia e Jerónimo, 2009),
pode vir a hipotecar a capacidade científica futura, e ­resultando num sistema
de ciência e tecnologia marcado pela debilidade e instabilidade. As pistas
realizadas neste texto sobre as relações entre a comunidade científica e a
indústria não permitem por ora saber se a diminuta valorização dos resultados
de I&amp;D nas biotecnologias em termos económicos (para além da simples
proteção da propriedade intelectual) faz parte de um padrão ou é uma exceção no
processo de incremento em Portugal da chamada economia do conhecimento.</p>

    <p>O estudo da implementação
das biotecnologias em Portugal permite também elucidar características capitais
do novo regime de produção e regulação do conhecimento em curso numa nova ordem
social e económica caracterizada pela expansão mundial do mercado e pela
celeridade da incorporação dos produtos provenientes dos avanços científicos e
tecnológicos. Ainda uma última nota: este é um processo que, no caso da
intervenção biotecnológica na natureza humana e para usar termos de Habermas
(2003), nos coloca perante questões antropológicas que dizem respeito à
autocompreensão e autodefinição da espécie humana por relação aos outros seres
vivos.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS</b></p>

    <!-- ref --><p>ALLAIRE,
F. (1988), “Portugal: o reconhecimento da competência nacional em
biotecnologia”. <i>Boletim de Biotecnologia</i>, maio, 36, pp. 5-6.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=077854&pid=S0003-2573201600020000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>ANDRADE,
J.F. de (1987), “Bioindústrias na Europa”. <i>Boletim de Biotecnologia</i>,
junho, 32, pp. 9-10.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=077856&pid=S0003-2573201600020000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>ANDRADE,
J.F. de (1989), “Programa Bridge”. <i>Boletim de Biotecnologia</i>,
outubro, 41, p. 5.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=077858&pid=S0003-2573201600020000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>ANDRADE,
J.F. de (1990), “Patentes em Portugal: situação dos processos biotecnológicos e dependência”. <i>Boletim de Biotecnologia</i>,
junho, 42, pp. 2-3.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=077860&pid=S0003-2573201600020000200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>APBIO
(S.d.), <i>Perfil</i>. Disponível em <a
href="http://www.apbio.pt/index.jsp;jsessionid=8950FD3FCEA30AC6CF5546ED17000DEC?page=profile&amp;lang=pt" target="_blank">
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    <!-- ref --><p>BB (1986d), <i>Boletim de Biotecnologia</i>, dezembro, 30.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=077880&pid=S0003-2573201600020000200014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

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[consultado em 28-03-2013].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=077961&pid=S0003-2573201600020000200055&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

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    <!-- ref --><p>MOURA, J.J.G.
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[consultado em 13-09-2011].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=078015&pid=S0003-2573201600020000200082&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>PEREIRA,
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    <!-- ref --><p>PISANO, G.P.
(2006), <i>Science Business: the Promise, the Reality, and the Future of
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    <!-- ref --><p>QUINTANILHA,
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Porto”. In J.M. Gago (coord.), <i>O Estado das
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    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>ROCHA,
E., CARVALHO, G. e TEODORO, M. (1995), <i>Biotecnologia
em Portugal. Guia da Formação, Investigação e
Documentação em Biotecnologia</i>, Lisboa, Junta Nacional de Investigação
Científica e Tecnológica e Associação Juvenil de Ciência.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=078023&pid=S0003-2573201600020000200086&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>ROCHA,
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formação, investigação e documentação da biotecnologia em Portugal”. <i>Boletim
de Biotecnologia</i>, abril, 53, pp. 37-39.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=078025&pid=S0003-2573201600020000200087&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>ROSEIRO,
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    <!-- ref --><p>ROSENZWEIG, R.M.
(1982), <i>The</i><i> Research Universities and their
Patrons</i>, Berkeley, University of California Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=078029&pid=S0003-2573201600020000200089&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SARAIVA,
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em ­Portugal: três estudos de caso”. <i>In</i> M.V.
Cabral <i>et</i><i> al</i>. (org.), <i>Itinerários: a
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    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>SILVA,
M. (2003), <i>Alimentos Transgénicos. Um Guia para Consumidores Cautelosos</i>,
Lisboa, Universidade Católica Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=078033&pid=S0003-2573201600020000200091&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TEITELMAN, R. (1989), <i>Gene Dreams: Wall Street,
Academia, and the Rise of Biotechnology</i>, Nova Iorque,
Basic Books Publishers.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=078035&pid=S0003-2573201600020000200092&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TEITELMAN, R. (1994), <i>Profits of Science: The
American Marriage of Business and Technology</i>, Nova Iorque,
Basic Books Publishers.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=078037&pid=S0003-2573201600020000200093&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>XAVIER,
A. (1992), “Centros interdisciplinares: uma resposta às necessidades da
investigação em Química e Biologia”. In J.M. Gago (coord.), <i>O Estado das
Ciências em Portugal</i>, Lisboa, Publicações Dom Quixote, pp. 127-130.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=078039&pid=S0003-2573201600020000200094&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>YANCHINSKI, S. (1985), <i>Setting Genes to Work: The
Industrial Era of Biotechnology</i>, Middlesex, Inglaterra,
Penguin Books.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=078041&pid=S0003-2573201600020000200095&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>YOXEN, E. (1986 [1983]), <i>The</i><i>
Gene Business</i>, Nova Iorque, Oxford University
Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=078043&pid=S0003-2573201600020000200096&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <p>&nbsp;</p>



    <p>Recebido a 27-09-2014. Aceite para publicação a
04-03-2016.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>NOTAS</b></p>


    <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup>Maria
Salomé S. Pais (FC-UL), “Animal and plant cell
culture technology”; Joaquim
M.S. Cabral (IST), “Applied biocatalysis”; M.ª
Leonor Osório Almeida (UNL/IGC), “Applied molecular
genetics”; Manuel Mota (FE-UP), “Bioreactor
Performance”; Joaquim Pereira Cardoso (CIPAN/IST), “Downstream Processing and
Recovery of Bioproducts”; Júlio
Maggiolly Novais (IST),
“Education in Biotechnology”; Paulo Partidário
(LNETI), “Environmental Biotechnology”; N. Van Uden
(IGC/UNL), “Microbial Physiology”; e Luís Archer (IGC/UNL), “Safety in
Biotechnology” (BB, 1986a, p. 2).</p>

    <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup>Este centro ficaria sob a
alçada do Instituto Nacional de Investigação Científica (INIC), do Ministério
da Educação e Cultura, e do Instituto Nacional de Investigação Agrária (INIA), do
Ministério da Agricultura e Pescas, e teria a sua sede nas instalações do
Instituto Nacional de Investigação Agrária, em Oeiras (Martinez, Ávila e Costa,
1994, p. 87).</p>

    <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup>As reuniões preparatórias
foram acompanhadas por António Moreira, um investigador português, licenciado
pela Faculdade de Engenharia do Porto, que se encontrava então a trabalhar na empresa
norte americana <i>Schering-Plough</i>.</p>

    <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup>Designadamente, o
Ministério da Indústria e Comércio, o Ministério da Educação e Cultura, o
Ministério dos Assuntos Sociais e o Ministério da Agricultura, Pescas e
Alimentação.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup>Refira-se que os cursos de
licenciatura em biotecnologia nas universidades do Algarve, Aveiro, Évora e
Beira Interior apenas foram criados, respetivamente, em 2006, 2006, 2008 e
2013.</p>

    <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup>As atividades de
investigação do Centro de Tecnologia Química e Biológica (CTQB) tiveram início
em setembro de 1989, na Quinta do Marquês em Oeiras. Fundado pelos Ministérios
da Agricultura e da Educação, através do Instituto Nacional de Investigação
Agrária (INIA) e do Instituto Nacional de Investigação Científica (INIC),
respetivamente, o CTQB contava em 1992 com 40 investigadores doutorados
desenvolvendo trabalhos muito próximos do domínio da biotecnologia (Xavier,
1992, p. 128).</p>

    <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup>Novais assinalava a
existência de dez empresas industriais ativas no campo da biotecnologia: CIPAN;
Soc. Port. Leveduras Seleccionadas; QUATRUM; HOVIONE; Franco-Farmacêutica;
PROPAM; COPAM; Centralcer; Unicer; e In-Vitro Plantas (Novais, 1987, p. 11).</p>

    <p><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></sup>De referir que este valor
inicial foi posteriormente acrescido de 20 milhões de ECU para possibilitar a
inclusão de laboratórios portugueses e espanhóis no programa (BB, 1988c, p.
14).</p>

    <p><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></sup>O 4.º Congresso Nacional de
Biotecnologia decorreu na Universidade de Coimbra entre 30 de novembro e 3 de dezembro de 1988 (BB, 1988c, p. 7) e contou com o dobro
de participantes e o triplo de painéis e comunicações apresentados na edição
anterior (Cabral <i>et al</i>., 1989, p. 1).</p>

    <p><sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></sup>Relativamente à tónica
internacional, esta esteve igualmente bem patente em duas conferências
realizadas em Lisboa durante o mês de maio de 1989, sob o tema “Biotecnologia: os
próximos 10 anos”, em que foram abordadas as perspetivas americana e europeia
(Moura, 1989, p. 1).</p>

    <p><sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></sup>No decorrer do congresso
realizaram-se mais umas eleições para a direção da SPBT. Proposta pela direção
cessante, a única lista concorrente elegeu os seus membros Joaquim Sampaio
Cabral (IST), João Vasconcelos Costa (IGC), José Carlos Roseiro (LNETI) e
Manuel José Mota (FEUP). A direção apresentou como objetivos para o biénio
1991-1992 o “reforço dos contactos com a indústria”, a “definição da política
científica e tecnológica em biotecnologia”, o incremento da “implantação regional
da biotecnologia” e a intensificação do “programa de actividades a nível
internacional”, entre outros (BB, 1991, pp. 2-3).</p>

    <p><sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></sup>O Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale (INSERM) é uma entidade
pública de caráter científico e tecnológico, sob tutela dos ministérios
franceses da saúde e da investigação, criada em 1964.</p>

    <p><sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></sup>Os
centros foram: em Coimbra, o Instituto de Biologia Experimental com duas
unidades (Centro de Neurociências e Instituto de Luz e Imagem); em Lisboa, o
Centro de Malária e Outras Doenças Tropicais, o Centro de Patologia Molecular,
o Centro de Investigação em Genética Molecular Humana, o Centro de Patogénese
Molecular, Biopatologia Molecular, o Centro de Neurociências e o Instituto do
Coração; e no Porto, o Centro de Morfologia Experimental, o Centro de
Investigação em Biopatologia e Oncobiologia e o Instituto de Biologia Molecular
e Celular.</p>

    <p><sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></sup>Este instituto foi criado
com o objetivo de constituir uma instituição multidisciplinar dedicada à
investigação fundamental e aplicada nos domínios das ciências da vida, com
especial incidência na saúde e biotecnologia (Quintanilha, 1992, p. 131).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></sup>De entre os 450 cientistas
participantes, cerca de 110 eram portugueses.</p>

    <p><sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></sup> Decerto incidindo no seu
perfil epistemológico e em outros domínios teóricos, os quais não são, porém,
objeto da nossa atenção no presente texto.</p>

    <p><sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></sup>Como
assinala Robert Teitelman (1994, p. 198), as empresas farmacêuticas já
estabelecidas apenas necessitaram esperar para que os lucros resultantes dos
produtos desenvolvidos na primeira década da biotecnologia lhes chegassem às
mãos. Não obstante as empresas de biotecnologia terem
sido mais inovadoras e produtivas, apenas as empresas de maiores dimensões e
fortemente implantadas no mercado tinham condições de alcançar as vantagens
financeiras. Este autor é ainda mais contundente quando refere que a biotecnologia
sobrevive porque os mercados públicos continuam a financiar as novas entradas e
que estas empresas aceitam assumir o papel de intermediárias entre os gigantes
farmacêuticos e o mundo académico (Teitelman, 1994, p. 201).</p>

    <p><sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></sup>O investimento anual em
biotecnologia quase duplicou entre os períodos 1994-1998 e 2002-2005 e foram
introduzidas diversas medidas específicas, nomeadamente para estimular a
comercialização e a transferência tecnológica (EC, 2007, p. 18).</p>

    <p><sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></sup>Durante o II Congresso
Ibérico de biotecnologia, no dia 2 de outubro de 1994, teve lugar a
assembleia-geral da SPBT. A direção em exercício apresentou a sua recandidatura
e, dada a inexistência de outra lista candidata, foi
reconduzida no cargo (BB, 1994, p. 33).</p>

    <p><sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></sup> O Directorate-General for
Research and Innovation (DG) visa desenvolver e implementar
uma política de investigação e inovação mediante o apoio a projetos e ações de
investigação de âmbito nacional e regional, com vista a alcançar os objetivos
definidos no âmbito da União Europeia, designadamente a criação do Espaço
Europeu de Investigação.</p>

    <p><sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></sup>O programa <i>Praxis</i>
(1994-1999) foi anunciado em 1994, contudo a sua implementação
só aconteceu bastante mais tarde. Apesar das candidaturas terem terminado em
março de 1995, o financiamento apenas chegou a alguns laboratórios no final de
1996 e em fevereiro de 1997 as bolsas associadas aos projetos ainda não tinham
sido ativadas.</p>

    <p><sup><a name="22"></a><a href="#top22">22</a></sup>De salientar que durante
este período foi igualmente organizada em Lisboa, de 10 a 16 de junho de 1995,
a XVII International Conference on Yeast Genetics and Molecular Biology,
considerado como “o grande acontecimento para a comunidade mundial dos
estudiosos das leveduras”, e que congregou mais de 850 investigadores numa
programação que incluiu 38 conferências plenárias, 580 painéis e 12 grupos de
trabalho (Correia, 1995b, p. 3). Foi ainda ­promovida a participação em eventos
de caráter internacional, nomeadamente: o 7.º Congresso Europeu de
Biotecnologia sob organização da Federação Europeia de Sociedades de
Biotecnologia (EFB), que decorreu em Nice, entre 19 e 23 de fevereiro de 1995;
o Biotec 96, organizado pelas sociedades portuguesa e espanhola de biotecnologia,
que congregava o III Congresso Ibérico de Biotecnologia, o VIII Congresso da
Sociedade Portuguesa de Biotecnologia e o VI Congreso de la
Sociedad Española de Biotecnologia e visava “fomentar e consolidar</p>

    <p><sup><a name="23"></a><a href="#top23">23</a></sup>Agência de Inovação
(Ministérios da Indústria e do Planeamento); Associação para a Escola Superior
de Biotecnologia da Universidade Católica (ESBUC); Associação para o
Desenvolvimento do Instituto Superior Técnico (Instituto Superior Técnico);
Associação Universidade do Porto – Empresas para a Engenharia Química
(Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto); BIOTECNAR – Associação de
Tecnologia Alimentar do Algarve (Universidade do Algarve); CITMA – Centro de
Ciência e Tecnologia da Madeira (Universidade da Madeira); CESE – Conselho para
a Cooperação Ensino Superior-Empresa (União Europeia das Pequenas e Médias Empresas); FORBITEC –
Associação para a Formação Técnica em Biotecnologia (INETI e BIOEID); IDIT –
Instituto para o Desenvolvimento e Inovação Tecnológica do Minho (Universidade
do Minho); INOVA – Instituto de Inovação Tecnológica dos Açores (Universidade
dos Açores); IBET – Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (Instituto
de Tecnologia Química e Biológica); ICAT – Instituto de Ciência Aplicada à
Tecnologia (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa); Centro de Gestão
e de Engenharia de Formação (INETI); Centro de Gestão e Tecnologias de Inovação
(INETI); CITI – Centro de Informação Técnica para a Indústria (INETI); ITEC –
Instituto Tecnológico para a Europa Comunitária (Instituto Superior Técnico); e
UNINOVA – Instituto para o Desenvolvimento de Novas Tecnologias (UNL/FCT)
(Rocha <i>et al</i>.,1995, pp. 26-27).</p>

    <p><sup><a name="24"></a><a href="#top24">24</a></sup>Ver a este respeito a esclarecedora análise
de Ferreira (2013)


    ]]></body>
<body><![CDATA[ ]]></body><back>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Portugal: o reconhecimento da competência nacional em biotecnologia]]></article-title>
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<volume>36</volume>
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<year>1987</year>
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<source><![CDATA[Boletim de Biotecnologia]]></source>
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<given-names><![CDATA[J.F. de]]></given-names>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Patentes em Portugal: situação dos processos biotecnológicos e dependência]]></article-title>
<source><![CDATA[Boletim de Biotecnologia]]></source>
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