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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Marginality is generally regarded as a social waste of “systems”, but today this view seems limiting. We propose a distinction of action systems into two types: 1) the “time-space distanciation”, which physically separates people from each other but allows a distanced communication; 2) the “logical distanciation”, which does not separate individuals physically but interrupts communicative interaction between them. We argue that marginalization is a structural consequence only for the second type of action system. According to field research, the second type of action system is opening new possibilities in Brazil for marginalized people to interact with society.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[  

    <p align="right"><b>ARTIGO</b></p>

    <p><b>Novos caminhos para a saída da
marginalidade social no Brasil </p>
    <p>New ways to overcome social
marginality in Brazil</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Paolo Totaro</b>*</p>

    <p>*Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Av. Lourival Melo Mota, s/n, Tabuleiro
dos Martins, Maceió - CEP 57072-900, Alagoas, Brasil. E-mail: <a href="mailto:paolo.totaro@ics.ufal.br">paolo.totaro@ics.ufal.br</a></p>


    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>RESUMO</b></p>

    <p>A
marginalidade é, em geral, vista como um resíduo social da ação dos “sistemas”.
Mas essa visão parece, hoje, ­limitada. Propomos a distinção dos sistemas em
dois tipos: 1) os do “distanciamento tempo-espaço”, que afastam fisicamente os
indivíduos, mas permitem a comunicação distanciada; 2) os do “distanciamento
lógico”, que não afastam fisicamente as pessoas, mas interrompem a interação
comunicativa. Defendemos que a ação excludente é um caráter estrutural só do
segundo tipo de sistema. Na base de pesquisas de campo que realizamos, propomos
a hipótese que aqueles do primeiro tipo estão abrindo, também no Brasil, novas
possibilidades para os marginalizados interagirem com a sociedade.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PALAVRAS-CHAVE</b>: marginalidade social; sistemas
abstratos; distanciamento tempo-espaço; cultura popular.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p>Marginality is generally regarded as a social waste of “systems”,
but today this view seems limiting. We propose a distinction of action systems
into two types: 1) the “time-space distanciation”,
which physically separates people from each other but allows a distanced
communication; 2) the “logical distanciation”, which
does not separate individuals physically but interrupts communicative
interaction between them. We argue that marginalization is a structural
consequence only for the second type of action system. According to field
research, the second type of action system is opening new possibilities in
Brazil for marginalized people to interact with society.</p>

    <p><b>KEYWORDS</b>:
social marginality; abstract systems; time-space distanciation;
folk culture.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>INTRODUÇÃO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>O desenvolvimento
económico brasileiro, pelo menos a partir da abolição da escravidão, teve
sempre efeitos prejudiciais para a integração social. A própria abolição, que
modernizou formalmente as relações de produção, não conseguiu, conforme as
análises mais prestigiadas (Fernandes, 2008; Ianni, 1987), fazer com que os
ex-escravos conseguissem se integrar na lógica do mercado capitalista do
trabalho, gerando o primeiro fenómeno de exclusão social de massa da sociedade
brasileira.</p>

    <p>Destino análogo teve uma parte consistente da
população afetada pela urbanização, que representa a segunda grande mudança
experimentada pelo país na direção da modernização. A urbanização no Brasil,
assim como em geral na América do Sul, teve um caráter “sociopático”. Esta
patologia, nas elaborações clássicas dos analistas, foi imputada a um
descompasso entre a atração representada pelos padrões de consumo do mundo
urbano e as reais capacidades do sistema socioeconómico brasileiro de
satisfazer as consequentes demandas de trabalho e renda (Pereira, 1965, pp.
79-133). Uma parcela importante do êxodo rural se transformou numa simples
deslocação física de grandes massas rumo aos centros urbanos, sem nenhuma
verdadeira integração na cidade. O resultado foi uma instalação permanente de
gigantescas aglomerações sub-humanas, económica e socialmente excluídas do
resto da vida urbana (CEPAL, 1979, pp. 95-101).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No Brasil, em geral, as mudanças culturais
solicitadas pela modernidade se encontraram em desequilíbrio com o concreto
sistema económico que as próprias forças modernizadoras conseguiram desenvolver.
No caso da abolição, a ideia da mão de obra livre num mercado igualmente livre
entrou em choque com um capitalismo ainda afetado pela estrutura senhorial do
poder económico e político (Fernandes, 1987). No caso da urbanização, o ideal
da racionalização das forças produtivas gerou marginalidade socioeconómica
pelas tendências estruturais do modelo burocrático-industrial (Frank, 1966) e
pela particular hibridação com que esse modelo se apresentou na América Latina
(Germani, 1960).</p>

    <p>Em outras palavras, se a modernização na Europa
causou <i>desagregação</i> social em termos de preeminência da “integração
sistémica” sobre a “integração social”, ou, querendo utilizar a famosa fórmula
de Habermas (1999), em termos de “colonização do mundo da vida por parte dos
sistemas”, na América Latina ela apareceu mais como marginalização social <i>tout
court</i>. Grandes massas populacionais perderam as referências pré-modernas,
sem ganhar as modernas; perderam a integração social da “comunidade” sem
encontrar a integração sistémica proporcionada pelo mercado e pela burocracia.</p>

    <p>Hoje, assiste-se a mais um surto modernizante no
Brasil, representado, sobretudo, pela difusão da simbologia do consumo e pelas
formas de comunicação mediadas pela Rede. Quais são as possibilidades para que
esse novo impulso ao desenvolvimento socioeconómico acabe de maneira diferente
que no passado? Quais as possibilidades para que ele, em lugar de deixar no seu
caminho os detritos sociais da marginalização, facilite a comunicação e a
integração entre os diferentes materiais humanos que compõem a nossa sociedade?
Essas perguntas constituem o foco do artigo. Será desenvolvida uma análise
teórica procurando apoio em dados empíricos. O raciocínio teórico fundamenta-se
na análise da marginalização a partir de dois diferentes tipos de “desagregação
social” consequentes à ação dos sistemas: 1) o que Giddens (1991) chama de
desagregação por “distanciamento tempo-espaço”; 2) aquele que no artigo
chamamos de desagregação por “distanciamento lógico” e que encontra sua maior
expressão na organização burocrática.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>DISTANCIAMENTO
TEMPO-ESPAÇO E DISTANCIAMENTO LÓGICO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>A sociologia leva o
conceito de burocracia além do mundo dos escritórios da administração pública
para envolver a organização do trabalho de fábrica. A substancial equivalência
entre a burocracia dos escritórios e a do trabalho industrial foi até
institucionalizada pela teoria da organização, que reuniu ambas sob um único
conceito: o de “organização formal” (Blau e Scott, 1970).</p>

    <p>Existe uma evidente contiguidade também entre a
burocracia, administrativa ou industrial, e o âmbito dos usuários e dos
consumidores. Quando Weber (1999, p. 741) diz que “a burocratização é o meio
específico para transformar um ‘agir de comunidade’ em um ‘agir social’
racionalmente ordenado”, não se refere apenas à sua capacidade de submeter às
regras formais os funcionários que trabalham nas suas repartições mas, também, àquela de transferir essa submissão aos
“dominados” (Weber, 1999, p. 738). Uma vez que o aparato predispõe o serviço
conforme princípios formais, não somente os atos referidos à <i>produção</i> do
serviço, mas também os referidos à sua <i>fruição</i> devem ser coerentes com
tais princípios (Horkheimer e Adorno, 1983). A essa burocratização da vida
social temos que remeter todas as categorias pelas quais a Escola de Frankfurt
e seus seguidores salientaram a perda de integração social (que podemos chamar
de “desagregação social”) que acompanhou o desenvolvimento da civilização
moderna.</p>

    <p>Contudo, na última década do século XX apareceram
novas conceituações a respeito do fenómeno da perda de integração social. A
partir de teorias oriundas da geografia, em particular a da “compressão
tempo-espaço” de David ­Harvey (1992), começou a
destacar-se o papel da conceção moderna do espaço e do tempo no fenómeno da
desagregação social. Em particular, Giddens (1991, p. 29) considera a
desagregação social (“desencaixe”) como “o deslocamento das relações sociais de
contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões
indefinidas de tempo-espaço”. Nessa visão, o conceito central é o do
“distanciamento tempo-espaço”, concebido como “alongamento” dos sistemas
sociais e consequente rarefação das situações de efetiva presença física dos
sujeitos envolvidos nas relações. Giddens (1991, p. 30) indica, entre as
principais forças do distanciamento tempo-espaço, o “dinheiro moderno”,
sobretudo na forma de títulos de crédito, e os “sistemas peritos”, em
particular os que remetem para os conhecimentos da ciência e da tecnologia.</p>

    <p>Temos, portanto, duas análises diferentes sobre a
desagregação social. Uma delas, de conceituação mais recente, salienta o
distanciamento físico consequente à expansão dos mercados. Chamamos, de acordo
com a terminologia de Giddens, “distanciamento tempo-espaço” à desagregação considerada
desse ponto de vista. Temos, aliás, a desagregação em que mais permaneceram
focados os clássicos da sociologia alemã, que salienta as consequências da
burocracia e da burocratização. Chamamos “distanciamento lógico” à desagregação
considerada desse ponto de vista. Escolhemos o atributo de “lógico” para
destacar que esse tipo de distanciamento não é caracterizado pelo afastamento
físico entre os sujeitos, mas pela interrupção do fluxo comunicativo imposta
pela conexão somente lógica dos processos formais. Os funcionários de um
aparato burocrático, os trabalhadores de uma linha de montagem, os moradores
anónimos de um grande condomínio, os motoristas no trânsito etc., apesar de se
encontrarem em situações de proximidade física, não comunicam diretamente entre
si para integrar os seus comportamentos, pois a conexão entre eles é mediada
por um sistema de regras formais que se encontra além da interação
comunicativa.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esses dois tipos de desagregação não são somente
duas maneiras diferentes de chamar o mesmo objeto, mas representam aspetos
concretamente diferentes do fenómeno da desagregação social. Tanto o
distanciamento tempo-espaço, quanto o distanciamento lógico, causam a rutura
das “relações de comunidade”. Todavia o primeiro, enquanto distancía
fisicamente as pessoas, <i>oferece novas formas de integração</i> nesse novo
plano distanciado, graças à mediação dos sistemas abstratos. Melhor, ele torna
possível o distanciamento físico exatamente porque oferece meios para
reorganizar as relações nesse plano distanciado. Trata-se não somente de meios
técnico-práticos (transporte e comunicações), mas também de meios
lógico-abstratos. Por exemplo, a expansão dos mercados foi possibilitada também
pelo balanço por partidas dobradas e pelas técnicas de cálculo da matemática
financeira que, apesar de os investimentos estarem dispersos geograficamente e
temporalmente, permitiam conhecer a rentabilidade deles como se o capital fosse
por inteiro disponível “aqui e agora” (Weber, 1999, p. 70; Giddens, 2003, pp.
179-180; Crosby, 1999, pp. 187-208).</p>

    <p>Pelo contrário, a desagregação por distanciamento
lógico não proporciona reorganização nenhuma para as relações sociais que ela
interrompe. Os estudos da teoria da organização convergem totalmente nesse
ponto. A burocracia não consegue tomar conta da matriz social em que qualquer
agir, inclusive o agir racional, sempre está encaixado (Selznick, 1948, pp.
25-26). Essa incapacidade acaba por gerar, no interior da organização, grupos e
relacionamentos comunicativos fora de seu controlo, chamados “grupos e relações
informais” (Blau, 1962, p. 34; Blau e Scott, 1970, p. 18). A tentativa de
eliminar esses resultados informais consiste na acentuação daquela própria
formalização que causou o problema, acabando por encaminhar <i>círculos
viciosos</i>. Isso resulta numa acentuação da distância entre a organização e a
iniludível necessidade de interação comunicativa de seus membros (Crozier,
1981).</p>

    <p>Para resumir. O distanciamento tempo-espaço de
Giddens, ainda que distancie os sujeitos, não interrompe a comunicação. O
distanciamento lógico (típico da burocracia), pelo contrário, não distancia
necessariamente os sujeitos, mas interrompe a comunicação, pois encapsula os
sujeitos em passos de processos formais. Em trabalhos anteriores (Totaro, 2009,
2014), formulámos a hipótese de que essa diferença entre as duas formas de
distanciamento remete, em boa parte, para uma diferença gnosiológica na relação
entre sujeitos e “sistemas”. Os “sistemas abstratos” que geram o distanciamento
tempo-espaço são aplicados a um elemento (o tempo-espaço) que, possuindo
fundamento físico, se apresenta como externo aos sistemas, como um objeto das
suas manipulações. Eles transformam, sim, esse objeto num problema – o
distanciamento físico – mas, graças aos aparatos de cálculo e às suas
aplicações, possibilitam também a sua solução: um <i>instrumento nas mãos dos
homens para solucionar um problema externo</i>. No trabalho burocrático, ao
contrário, a burocracia não gera um problema externo a ela. A interrupção dos
processos comunicativos, derivada da segmentação e formalização do trabalho,
representa um problema interno ao próprio sistema burocrático. O encapsulamento
no processo não é <i>um instrumento nas mãos dos homens, mas um elemento de
coação sobre os homens</i>. Então, enquanto no distanciamento tempo-espaço os
homens utilizam os sistemas, no distanciamento lógico, os homens são utilizados
por eles.</p>

    <p>Com referência à chamada modernidade, os sistemas
abstratos do distanciamento lógico são identificáveis com a burocracia; aqueles
do distanciamento tempo-espaço são identificáveis com a ciência, com as
tecnologias das comunicações e dos transportes e com os instrumentos para atuar
no mercado. Contudo, as duas tipologias não podem ser totalmente representadas
por formações histórico-sociais concretas, pois, numa certa medida, elas sempre
coexistem em qualquer sistema abstrato. Por exemplo, a burocracia comercial
representa também um sistema de integração no tempo-espaço distanciado<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a> (embora isso seja verdadeiro para os seus usuários e não para os
funcionários). Da mesma forma, a livre ação no mercado é limitada pelas
condições burocrático-legais fixadas pelo direito. Contudo, é evidente que um
ator que age num sistema burocrático é mais afetado pelo isolamento num passo
de um processo; a sua referência é o próprio processo e não os outros atores
nele inseridos. Pelo contrário, um ator que age no mercado é mais voltado para
a interação com os outros atores do mercado, conforme planos autónomos e
prevalentemente pela mediação de sistemas abstratos, como, por exemplo, o
“sistema dos preços” (Hayek, 1945). É nesse sentido explicativo, e não
descritivo, que deve ser considerada a classificação, que vamos fazer abaixo,
do consumo e da “rede”, a primeira sendo interpretada como força do
distanciamento lógico e a segunda, como força do distanciamento tempo-espaço.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>O DISTANCIAMENTO LÓGICO NO CONSUMO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Na sociedade altamente
industrializada, a burocratização não envolve somente os usuários dos aparatos
administrativos e dos serviços, mas, também, os consumidores. O modelo de
produção em escala reflete-se no mercado como consumos de massa, banalizando em
classificações padrões até os objetos da produção cultural (Horkheimer e
Adorno, 1983). No setor da distribuição, os supermercados monopolizam o
comércio varejista ou de retalho, a funcionar como uma linha de montagem cujo
produto acabado é o carrinho cheio do cliente saindo das caixas.</p>

    <p>Ao nível do supermercado, porém, os bens adquirem
um valor adjunto de tipo cultural. Eles não são mais apenas mercadorias – como
para o estádio produtivo do ciclo económico – mas tornam-se símbolos, <i>signos
de um código social</i> que fala uma linguagem classificatória (Baudrillard,
2007, pp. 59-60). No <i>drugstore,</i> o consumidor encontra-se, num primeiro
momento, ante uma fileira de objetos que deixa sem referência, sem critério de
escolha, suscitando nele “constrangimento de inércia”. Daí ele, “de maneira
lógica, encaminhar--se-á de objeto para objeto. Ver-se-á apanhado num cálculo
de objeto” cujo escopo é a maximização da sua posição na classificação social
(Baudrillard, 2007, p. 17).</p>

    <p>Nessa atividade, porém, o consumidor encontra-se
inserido num círculo vicioso: o sistema mediático, de um lado, utiliza
(instrumentalmente) a aspiração do consumidor para uma <i>personalização</i> da
diferença; de outro, essas “diferenças ‘personalizantes’ deixam de opor os
indivíduos uns aos outros, hierarquizam-se todas numa escala indefinida e
convergem para modelos” (Baudrillard, 2007, p. 88). Abre-se, então, um hiato entre
a exigência de satisfação, que é pessoal, e as referências simbólicas do
consumo, que são classificações “despersonalizantes”. A reiterada procura de
uma valorização individual mediante outros consumos pode somente reforçar o
mesmo tipo de insatisfação que se quer derrotar. Nem se pode pedir ajuda ao
“sistema abstrato” do setor, que é a moda, enquanto a moda é a origem e não a
solução do problema.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No nosso esquema de análise, essa contradição é
geradora de distanciamento lógico. De facto, no consumo temos, em analogia com
o caso da burocracia, os três elementos fundamentais do distanciamento lógico:
1) a <i>coação a regressar em modelos abstratos</i>, embora, ao contrário do
caso da burocracia, essa coação seja (em parte) autoimposta pelo próprio ator,
pois é incorporada por ele; 2) <i>o isolamento</i> <i>do indivíduo</i> num
processo cuja reiteração é sem saída (a reiteração do ciclo representado pela
procura da personalização mediante a padronização); 3) a <i>impossibilidade que
a contradição seja solucionada pelo sistema abstrato</i>, que nesse caso é a
moda, pois recorrer a esse sistema pode somente desembocar num círculo vicioso
que reforça o problema.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>O DISTANCIAMENTO TEMPO-ESPAÇO NA REDE</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>As contradições do modelo
burocrático, salientadas mais acima tornaram-se
inviáveis para o próprio capital, sobretudo a partir da crise económica de
1973. Com base numa pesquisa empírica de grande alcance, Porter (1985) destacou
o dado surpreendente da tendência das empresas em privilegiar a colaboração “em
horizontal”, em lugar do modelo baseado na centralização das decisões e na
executividade mecânica do trabalho. A colaboração dinâmica, através de ajustes
interdependentes das atividades, tornou-se o cerne da lucratividade. A parceria
(<i>partnership</i>) mostrou-se portadora de um <i>valor</i> <i>agregado</i>
(VAP) que representa hoje o elemento crucial para a boa colocação no mercado
(Johnston e Lawrence, 1988). Como destacam Lambert e Peppard (2000, p. 464), a
verdadeira novidade não está no trabalho em equipa, já experimentado na década
de 1950, mas no facto de que, enquanto naquela época a colaboração estava
focada no produto, agora ela está focada na sincronização em si de atividades
de grupos geograficamente dispersos, graças à trama entrelaçada pelas
tecnologias informáticas e das telecomunicações.</p>

    <p>Em geral, “a
sociedade em rede” (Castells, 2007) tem, entre as outras implicações, a de
compenetrar o agir comunicativo com a economia a cada
nível: a interação social, uma vez que flui na rede, gera cultura no mundo dos
consumidores e impõe condições às estratégias dos produtores (v., por exemplo,
Qualman, 2009). As pesquisas empíricas, destaca Silvio
Meira (2010), demonstram que pelas redes sociais o “boca a boca” está
prevalecendo a respeito da publicidade como fator decisivo nas escolhas e isso
ocorre, também, no caso do consumidor brasileiro. A empresa que não participa do “boca-a-boca que rola na rede” pode deslizar fora do
mercado. Aproveitar esse mecanismo – esclarece Meira – não significa tentar
manipular aquela forma de comunicação para orientá-la a objetivos
pré-estabelecidos. Significa, pelo contrário, integrar e moldar a empresa
conforme as discussões que se desenvolvem nas redes.</p>

    <p>Com certeza, os próprias <i>media</i>
sociais podem desagregar e não integrar o tecido social. Os cliques que nos
conectem com a rede podem, também, transformar-se de ações de comando sobre um
instrumento em passos de processos formalizados que o indivíduo não mais
dirige, mas aos quais deve obediência (Lanier, 2010). Nesse caso, seria mais
uma vez a lógica supraindividual de um sistema – e não a direta e livre
interação social – a fixar as conexões entre os atos dos indivíduos. Contudo, a
rede proporciona a possibilidade de uma posição de comando para a coletividade
sobre os sistemas; uma possibilidade que na sociedade burocrático-industrial
estava excluída por princípio.</p>

    <p>Com o quadro teórico até agora delineado,
representado pela duplicidade das forças desagregadoras/integradoras
em termos de distanciamento lógico e distanciamento tempo-espaço, podemos
encarar a questão da marginalidade social e as novas possibilidades que hoje se
apresentam para o Brasil de reduzir o tamanho do problema.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>A MARGINALIZAÇÃO
SOCIAL</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p>A marginalidade social
marca inelutavelmente qualquer análise sociológica sobre o Brasil. O valor
dessa afirmação emerge claro nos comentários de Jessé Souza (2003) ao conceito
de <i>habitus</i> de Bourdieu. Souza destaca que no uso feito por Bourdieu, o <i>habitus</i>
naturaliza a sociedade salarial dos países do <i>welfare state</i>,
generalizando, de forma opaca, a figura social do “cidadão”, a qual vai além
das barreiras de classe. Se a homogeneização social gerada pela cidadania pode
ser aceite como implícita na sociedade francesa da década de 1970 (que
representa o foco da observação sociológica de Bourdieu), não pode sê-lo em
sociedades do capitalismo periférico, como a brasileira. Aqui, ao lado do <i>habitus</i>
do “cidadão” – que Jessé denomina de <i>habitus</i> primário – desenvolve-se
como fenómeno de massa um <i>habitus</i> <i>precário</i>. O <i>habitus</i>
precário encontra uma identificação apenas como ausência do <i>habitus </i>primário,
e como inércia para a autoexclusão.</p>

    <p>Essa consideração, que Souza desenvolve sobre a
impossibilidade de aplicar mecanicamente o conceito de <i>habitus</i> de
Bourdieu a uma realidade como a brasileira, vale também para os conceitos de
“distanciamento lógico” e “distanciamento tempo-espaço”. Como já destacamos, o
distanciamento lógico decorre do facto de os indivíduos se conectarem uns aos
outros somente através da mediação da máquina burocrática. Eles, tipicamente,
atuam um ao lado do outro, em um mesmo estabelecimento e de forma sincronizada,
mas encapsulados cada um num passo do processo e, por isso, isolados do
contexto comunicativo e social. Conforme os relatos de historiadores como
Thompson (1967) ou Pollard (1963), foi essa a maior causa de constrangimento
para os operários ingleses na passagem das formas pré-modernas de trabalho para
o regime de fábrica e, como já destacamos, foi este o elemento mais comum na
crítica social da sociologia clássica alemã. No Brasil, ao contrário, o efeito
desagregador mais contundente da modernização foi a
produção de um consistente material humano segregado em áreas suburbanas ou em
regiões geográficas marginalizadas. A separação entre esse massivo segmento
social e a chamada “sociedade inclusiva” não foi, então, aquela entre pessoas
que atuam lado a lado encapsulados em um passo de um processo, mas aquela entre
indivíduos que estão no sistema e outros que estão fora dele, entre cidadãos e não-cidadãos, entre centros modernos e periferias
sub-humanas ou pré-modernas.</p>

    <p>Analogamente, não podemos aplicar de forma
mecânica ao Brasil o conceito de Giddens do “distanciamento tempo-espaço” e
adotar o mesmo olhar desse autor. Giddens (1991) pode salientar uma nova forma
de “confiança” para o indivíduo da “alta modernidade” como consequência social
da ação dos sistemas abstratos. Mas, evidentemente, a centralidade dessa
consequência deve ser relativizada em sociedades como a brasileira. Com
referência aos marginalizados e aos periféricos, é muito duvidoso pensar que os
sistemas abstratos possam proporcionar, em si mesmos, uma nova confiança. Pelo
contrário, é um dado de facto que a penetração social de tais sistemas – em
primeiro lugar da comunicação mediada por computadores – está possibilitando
aos grupos desqualificados a superação das barreiras sociais na interação
comunicativa e um relacionamento direto e autónomo com o mercado e com os
fluxos culturais veiculados por aqueles sistemas. Portanto, está-se a delinear
uma nova forma de integração social, não mais equacionada com a negação do <i>habitus</i>
originário dos desqualificados para adquirir aquele do “cidadão”, mas com a
valorização das tradições e das práticas de tal “<i>habitus</i>” originário.
Isso está a contribuir para uma erosão do “<i>habitus</i> precário”, ou seja,
do <i>habitus</i> vivenciado somente negativamente, como simples carência dos
atributos próprios dos membros da sociedade inclusiva. Este processo, sim, pode
representar uma nova fonte de confiança e segurança ontológica para os
marginalizados.</p>

    <p>O <i>habitus</i> precário representa o correlato
psicossocial de um fenómeno que no nosso esquema de análise pode ser definido
da seguinte forma: os indivíduos que se encontram relacionados com os sistemas
abstratos apenas por uma forma externa e residual tornam-se marginalizados.
Essa condição afetou grandes massas no Brasil ao longo do chamado processo de
modernização do país. Em particular, foi experimentada por muitos ex-escravos
lidando com o mercado do trabalho assalariado e por muitos trabalhadores rurais
na passagem para o mundo urbano.</p>

    <p>Pelos estudos de Florestan Fernandes (2008),
emergem claros dois dados: 1) por quase todo o século XX, a única integração
social concebível foi representada, para os negros e mulatos, pela tentativa de
alcançar o estilo de vida do cidadão da “ordem social competitiva”, uma ordem
alheia criada e desenvolvida pelos brancos; 2) Tal modelo recebe a sua
tipificação no mudo urbano. Adaptar-se ao modelo da “sociedade inclusiva”
significava, em boa medida, compartilhar “o estilo urbano de vida” (Fernandes,
2008, v. II, pp. 209-210).</p>

    <p>As dinâmicas de inclusão e marginalização a
respeito do ambiente urbano são centrais para a sociedade brasileira na sua
generalidade. Isso não somente porque, como nos informa Milton Santos (1993, p.
20), a percentagem da população vivendo em cidades passou de 5,9% em 1872 para
65,10% em 1980, mas, sobretudo, porque o desenvolvimento dos sistemas de
transportes e comunicações estendeu o “mundo urbano” além das metrópoles. De
facto, a correspondência entre a população agrícola e a população rural acabou
por se relativizar, pois boa parte da população agrícola tornou-se urbana pela
sua residência (Santos, 1993, p. 33). Aliás, as áreas agrícolas foram em boa
medida atingidas pelos mesmos sistemas abstratos que afetam tipicamente as cidades.
Dessa forma, também essas áreas se transformaram num “meio técnico-científico”,
a saber, num espaço que “torna-se fluido, permitindo que os fatores de
produção, o trabalho, os produtos, a mercadoria, o capital, passam a ter uma
grande mobilidade” (Santos, 1993, p. 39).</p>

    <p>O aspeto da urbanização geográfica do Brasil,
salientado por Milton ­Santos, corresponde, no nosso esquema de análise, a um
processo de integração no distanciamento tempo-espaço. Contudo, ao lado desse
aspeto da urbanização, há outro. O ambiente urbano não é somente um “meio
técnico-científico-informacional” (Santos, 1993, pp. 35-47), mas também um
sistema que subordina o elemento humano a classificações formais para inseri-lo
em processos padronizados. Por outras palavras, ele é também o ambiente onde se
desenvolveu hegemonicamente o distanciamento lógico. A marginalidade
socioeconómica brasileira é, sobretudo, um produto de descarte deste último
aspeto, um resíduo social da urbanização governada pelo modelo
burocrático-industrial.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>A SOCIEDADE BUROCRÁTICO-INDUSTRIAL NO BRASIL E
SEUS “RESÍDUOS” SOCIAIS</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p>A industrialização no
Brasil foi totalmente baseada na lógica da centralização e da hierarquia
burocrática, no interior de um processo internacional cujos caráteres foram
destacados pela teoria do “desenvolvimento do subdesenvolvimento” (Frank,
1966), bem como pela teoria do “sistema mundo” (­Wallerstein, 1995). Na
sociedade burocrático-industrial o subdesenvolvimento e a formação de
“periferias” não foram uma anomalia ou um atraso histórico ao longo do processo
de afirmação da civilização moderna. O subdesenvolvimento foi necessário ao
desenvolvimento, bem como a existência das periferias foi funcional ao modo de
produção e de acumulação das economias do “centro”. Nesse esquema, que ainda conserva
atualidade, tanto as empresas quanto inteiras regiões geográficas replicavam,
internamente a elas e nas suas relações com as outras entidades empresariais e
políticas, as mesmas relações hierárquicas e centralizadoras às quais elas
mesmas se encontravam submetidas. Nas áreas periféricas emergiam entidades
centrais, que induziam outras entidades daquela área a se constituírem em suas
periferias. Então, o desenvolvimento desses centros periféricos acontecia
através de mais subdesenvolvimento e periferização da área em seu conjunto.</p>

    <p>A “modernização” da agricultura brasileira
correu, justamente, por esse sistema de “desenvolvimento do
subdesenvolvimento”. Pela análise de George Martine e R.
Garcia (1987, p. 19), ela se iniciou com “a implementação da ideologia de
modernização conservadora do governo militar, via […] aceleração do processo de
industrialização”, permitindo a formação e consolidação de um complexo
agroindustrial. Isso gerou a segmentação da economia agrícola em dois tipos de
produtores: de um lado, os maiores, equipados com tecnologia moderna e
orientados para o mercado externo e para a agroindústria; de outro, a grande
massa de camponeses “destecnificados” e desassistidos, cuja produção se
destinava ao autoconsumo e ao mercado interno (Martin e Garcia, 1987, p. 32).
Essa “modernização” redundou no aumento do grau de concentração da propriedade
e na dificuldade de acesso à terra, gerando
“excedentes” da força de trabalho rural nas áreas tradicionais. Como nas “novas
fronteiras” agrícolas, para que esses excedentes pudessem migrar, instalava-se as mesmas tendências para a concentração da
propriedade, os contingentes expulsos não tinham mais para onde ir, acabando
por engrossar o êxodo na direção das grandes cidades e a marginalidade urbana
(Martine e Garcia, 1987).</p>

    <p>Martine (1987, pp. 22-27) salienta que esse
processo todo foi governado por um arcabouço burocrático-legal, que atuou
canalizando os fluxos financeiros do “crédito rural”, dos subsídios fiscais,
dos programas especiais, etc. É indubitável que esses mecanismos burocráticos
foram criados com a vontade política de favorecer interesses capitalistas, mas
é igualmente evidente que eles refletem uma forma precisa da modernidade,
orientada pelas ideias de padronização, centralização e hierarquização (Bauman,
1999), cuja manifestação económica se deu na forma descrita pela teoria do
sistema mundo. Os esquemas lógicos da burocracia, no mesmo momento em que
qualificam formalmente um grupo ou um segmento humano, desqualificam outro.
Ainda mais: replicando o mesmo processo sobre esses desqualificados, além de
fixar formalmente essa marginalidade, cria uma nova fronteira de exclusão, cujo
último estádio é o resíduo social da marginalidade.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>CONSUMO E MARGINALIDADE NO BRASIL</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>O mecanismo da
burocracia, que cria uma exclusão e uma dependência no mesmo momento em que
cria uma inclusão, repete-se no âmbito do consumo. Como vimos anteriormente a
propósito de Baudrillard, o consumo está orientado por um cálculo dos objetos
que visa, por assim falar, uma inclusão diferencial, isto é, uma inclusão cujo
valor está medido pela exclusão de alguma categoria psicologicamente percebida.
Nessa disputa, o que está em jogo não são conteúdos <i>materiais</i>,
benefícios concretos derivantes de pertencer ou não a uma determinada categoria
social, mas a diferenciação <i>formal</i> entre a inclusão e a exclusão. Esse
argumento está hoje no cerne de muitas teorias do <i>marketing</i>. Trata-se de
um filão teórico que se apoia, sobretudo, na Teoria da Distinção Óptima (<i>Optimal
Distinctiveness Theory</i>; ODT) da psicóloga social Marilynn Brewer (1991)
(v., por exemplo, os artigos de Berger e Heat (2007), Escalas e Bettman (2005),
Timmor e Katz-Navon (2008)) e que destacam o papel do consumo como estratégia
para assinalar, através da diferenciação, a identidade dos sujeitos. Pesquisas
antropológicas demonstram que a “cultura do consumo”, salientada
por essas teorias, penetra também entre os marginalizados brasileiros. Ela
abre, para eles, a possibilidade de se sentir diferente do “pobre mesmo”,
mediante contactos simbólicos com a sociedade inclusiva:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A posse e o usufruto de determinados bens pode
distinguir o grupo de outros pobres (mais pobres ainda) e ainda abrir caminho
para a inserção na sociedade de consumo – ou no “mundo dos ricos” […] Famílias
que vivem em condições concretas de escassez de recursos para garantir sua
sobrevivência material demonstram, igualmente, uma “sede” impressionante de
consumo [Barros, 2007, p. 124].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Aqui, a dinâmica psicossocial ativada é ainda
aquela do <i>habitus</i> precário como apego para o <i>habitus</i> primário, a
saber, aquela da autoidentificação com uma carência: aquela do modelo
constituído pela “gente” da sociedade inclusiva. Trata-se ainda da antiga
trilha, destacada ao longo dessa seção do artigo, percorrida pelos marginalizados
da idade da pós-abolição e, depois, da idade da modernização industrial.</p>

    <p>Contudo, os dados empíricos que vêm da
antropologia do consumo apresentam também um aspeto que desvia desse caminho.
Num artigo em que Chauvel e Mattos (2008) resumem os achados sobre os
consumidores de baixa renda, emerge que esses consumidores recusam ofertas de
produtos que podem aludir a uma discriminação socioeconómica. Nesse caso, eles
até chegam a perceber de forma alterada os preços dos produtos, superestimando
a conveniência das lojas “não discriminantes”:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>Os resultados de Assad e Arruda (2006) revelam,
também, a presença de uma grande sensibilidade à discriminação […] [As
consumidoras] se sentem “indignadas e ofendidas” com a forma rústica com que se
apresenta um dos estabelecimentos estudados […] interpretam esse fato como uma
opção da empresa: como se trata de um bairro pobre, não é preciso ter
sofisticação; qualquer coisa pode ser colocada no acabamento da loja […] Da
mesma forma, no estudo de Parente <i>et</i><i> al</i>.
(2005, p. 11), os consumidores pesquisados criticam um dos estabelecimentos
pesquisados por ser excessivamente despojado, com “chão rústico e aparência
pobre”, e interpretam esses elementos como uma sinalização de que a loja “foi
feita para pobre”, pois na visão da empresa, o bairro “não merece uma loja
melhor”. Como se viu anteriormente, acabam dando
preferência a outro estabelecimento, chegando inclusive a acreditar que esse
oferece melhores preços, embora tal avaliação não corresponda à realidade
[Chauvel e Mattos, 2008, pp. 11-12].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Nos depoimentos, a escolha dos entrevistados de
se dirigir para lojas que, de facto, são até mais caras é explicitamente
motivada pela recusa à ­discriminação. Os consumidores de baixa renda dedicam
muita atenção e tempo à memorização e à comparação dos preços, antes de
escolherem onde e o que comprar (Chauvel e Mattos, 2008, pp. 9-10). O facto de
eles, quando pressionados pela suspeita de discriminação, chegarem a perceber
os preços de forma alterada deixa a entender a força da reação psicossocial que
esse tipo de assunto exerce nestes. Então, a escolha para a loja mais cara não
deriva somente de uma vontade de se distinguir do “pobre mesmo”, de se
diferenciar simbolicamente para se assimilar ao mundo inclusivo do consumo.
Aqui há, evidentemente, também uma reação, uma forma de represália contra uma
ofensa. E, nisso, há a defesa do bairro no seu conjunto, de todos os que
compartilham uma determinada condição social. A forma explícita com que esse
aspeto se apresenta na fala dos entrevistados deixa poucas dúvidas
interpretativas.</p>

    <p>Até aqui há somente uma atitude defensiva desses
consumidores frente a supostos ataques discriminatórios. Ainda não há resgate
algum da cultura dos marginalizados e ressignificação dos símbolos do consumo.
Mas é um limite que se apresenta somente quando permanecermos concentrados nos
circuítos de consumo institucionais da sociedade inclusiva. Hoje esse ângulo de
visual para estudar a relação entre grupos marginalizados e consumo é
extremamente limitado, não somente sociologicamente, mas também <i>economicamente</i>.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os grupos que foram desvalorizados pela cultura
dominante e que, agora, justamente como consequência dessa marginalização, se
encontram com um património disponível de diferenciação cultural, representam
uma faceta importante da chamada fase da “acumulação flexível” do capital.
Nesta forma do seu desenvolvimento, o capitalismo mundial foca a sua atenção
não tanto na demanda de produtos singulares – que é suscetível de rápida
saturação – mas pelos estilos de vida, que renovam a cada vez inteiras linhas
de produtos e, portanto, setores de mercado saturados (Harvey, 1992). Daí a
importância das culturas que influenciam a produção e reprodução dos estilos de
vida. Nesse contexto, as culturas marginalizadas encontram o interesse do
mercado, por representarem uma fonte contínua de novas inspirações.</p>

    <p>Nessa integração com o mercado, a cultura
marginalizada (ou que foi marginalizada) é pressionada por um “enquadramento”
da criação, produção e comercialização de seus itens, sejam eles materiais ou
não. Aqueles próprios carateres que antes dificultavam a integração do <i>habitus</i>
precário dificultam agora esse enquadramento (Yúdice, 2006). Por exemplo, no
campo do lazer, expressões culturais e artísticas nativas da sociedade marginal,
como o <i>funk</i> e o <i>hip-hop</i> brasileiros, por quanto abrem espaço para
novas modas e mercados, guardam sempre elementos alheios e hostis para a
sociedade bem estabelecida. Essas formas de música e de dança, de um lado, se
tornam referenciais de vivência e de cultura também para os jovens da sociedade
inclusiva mas, de outro lado, são estigmatizadas e
perseguidas pela classe dominante, com a acusação de ser irredutivelmente
transgressoras, beirando o mundo da violência e da ilegalidade (Herschmann,
1997 e 2005).</p>

    <p>O <i>funk</i>, o <i>hip-hop</i>, bem como o
“circuito bregueiro” do Pará (Costa, 2009), comunicam suas instâncias
apoiando-se em estilos musicais e símbolos que vêm de lugares distantes, como
os subúrbios norte-americanos povoados por negros ou por imigrados hispânicos.
Essas músicas e símbolos são manipulados e reinterpretados pela tradição
cultural das “periferias” brasileiras. Assim reelaborados, são relançados no
circuito musical e de consumo internacional, disponibilizando-se para
ulteriores trocas e hibridações:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>Na realidade, tanto o funk, quanto o hip-hop são
modalidades da cultura popular e de massa do mundo globalizado e, portanto,
apropriam-se, são apropriados e consumidos por diversos grupos e segmentos
sociais, e pela indústria cultural em geral […] Isto é, os indivíduos que
participam de alguma forma dessas manifestações culturais apropriam-se de um
patrimônio simbólico, retraçando as fronteiras entre cultura tradicional,
moderna, local e estrangeira. Estabelece-se, hoje, portanto, um contato
incessante dos sistemas simbólicos tradicionais com as redes internacionais de
informação e, de modo geral, com a indústria cultural [Herschmann, 2005, p.
73].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>A coluna dorsal desse fenómeno é representada,
evidentemente, pelos sistemas abstratos do distanciamento tempo-espaço. São
estes sistemas que permitem não somente a troca de experiências e produtos
entre os “artistas” de lugares diferentes, mas, sobretudo, possibilitam uma
ressonância recíproca entre manifestações culturais geograficamente longínquas.
Isso prepara o terreno para hibridações na música e na dança, gerando novas
significações dos objetos de consumo, ligadas a imagens de novos modelos
sociais.</p>

    <p>A chave dessa reviravolta na relação entre
marginalidade e consumo está na nova hegemonia cultural alcançada pelo
distanciamento tempo-espaço à custa do distanciamento lógico. O meio técnico-científico-informacional, destacado por
Milton Santos, tornou-se tão universal que até os marginalizados entram em
contacto com ele. Isso acontecia também com a lógica burocrático-industrial
que, porém, não integra indivíduos e grupos, mas os classifica e isola, fixando
a marginalização e a exclusão. Pelo contrário, o contacto dos marginalizados
com a rede e, em geral, com os sistemas que veículam o distanciamento
tempo-espaço, possibilita uma relação comunicativa com a sociedade e uma
interação autónoma com ela.</p>

    <p>A força do processo
comunicativo que hoje envolve os grupos marginalizados, e que frequentemente
usa os símbolos do consumo, não está, portanto, nos símbolos do consumo em si,
como defendeu Canclini (1995). Ela está no facto de o distanciamento
tempo-espaço permitir aos marginalizados comunicarem autonomamente com a
sociedade, independentemente da simbologia usada ser
ou não aquela do consumo. Uma demonstração disso é exatamente o facto de o
mesmo processo estar acontecendo também na esfera da produção. Uma vez que os
grupos marginais têm acesso à comunicação no distanciamento tempo-espaço, os símbolos
da linguagem adotada podem ser múltiplos. A própria interação comunicativa,
tanto local quanto global, possibilitada pelos sistemas do distanciamento
tempo-espaço, produz e reproduz símbolos e linguagens compartilhadas. Eles
podem ter origem na esfera do consumo, mas também nas esferas das
reivindicações sociais, da arte, da ecologia, da produção etc.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p><b>A AUTONOMIZAÇÃO DOS
GRUPOS MARGINALIZADOS BRASILEIROS NA PRODUÇÃO E NAS RELAÇÕES COM O MERCADO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Como já acenámos mais
atrás, o modelo burocrático, que representa o fundamento lógico e cultural do
distanciamento lógico, teve no mundo da produção a sua fundação no “sistema de
fábrica” que se tornou hegemónico a partir da Revolução Industrial. Esse
sistema nasceu, justamente, por uma transformação da indústria doméstica de
tipo artesanal na direção de uma organização manufatureira do trabalho mediante
a perda de autonomia dos artesãos sob a pressão do capital comercial.</p>

    <p>Tomemos o caso da indústria têxtil. Quando, no
século XVIII, os mercados de tecidos se ampliaram muito, o comerciante
tornou-se o intermediário obrigatório para vender os produtos do trabalho
doméstico. Governando a procura, ele acabou por governar também a produção.
Sabia de quanto tecido precisaria para as vendas futuras. Começou, então, a
comprar ele mesmo a matéria-prima e a entregá-la aos vários artesãos para as
diferentes fases da produção (preparação, fiação, tecedura, acabamento). Ele
impôs-se como a única referência possível não somente para vender a mercadoria
acabada, mas também para a passagem do produto de uma fase para a outra do
processo produtivo e, portanto, de um produtor para o outro. O valor da
prestação do artesão começou a ser combinado previamente, adquirindo sempre
mais a forma do salário. O comerciante tornou-se sempre mais frequentemente o
proprietário dos <i>cottages</i> e dos instrumentos
utilizados, que dava em aluguel aos (ex) artesãos. A propriedade dos meios de
produção, a organização do trabalho e a mercadoria separaram-se do produtor,
que adquiriu as faces do operário do sistema de fábrica (Mantoux, 1960, pp.
40-53; Kriedte, Medick e Schlumbohm 1981, pp. 101-111; Bythell, 1983; Landes,
1994, pp. 52-53).</p>

    <p>O que historicamente aconteceu com a indústria
doméstica foi que, em presença de um aumento relativamente repentino da
demanda, ela caiu sob o jugo do capital comercial e entrou num processo que a
levou para uma forma fabril de produção (Hobsbawm, 1979, pp. 52-54). Esse
mecanismo estabilizou-se como uma tensão constante na indústria doméstica
também depois da Revolução Industrial.<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> Na sociedade burocrático-industrial, o
aumento da demanda de uma produção artesanal sofre, em geral, a pressão do
capital para uma padronização dos produtos, uma segmentação da produção e uma
perda da interação direta com o mercado (Haydu, 1988; Williams, 1992, pp.
44-45). Em outras palavras, os artesãos são pressionados para se organizar e
conectar com o mundo externo somente pelos sistemas abstratos do distanciamento
lógico.</p>

    <p>Ora, o que acontece hoje é que esse esquema está
a mudar exatamente no artesanato dos grupos sociais marginalizados, no quadro
do novo interesse que a cultura popular está despertando no mercado. Em várias
pesquisas de campo, desenvolvidas pelo Laboratório de Políticas Culturais e
Ambientais no Brasil (LaPCAB)<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>, foi detetado um comum denominador emergindo nesse ­segmento
socioeconómico: os artistas/artesãos populares estão-se voltando para uma
interação direta com o mercado, em formas que vão de uma recusa explícita da
intermediação comercial até à sua superação pelo uso autónomo da tecnologia da
informação.</p>

    <p>Dois casos exemplificativos dessas atitudes são
aqueles dos “Figureiros de Taubaté” e dos “Artesãos do miriti de Abaetetuba”.
Eles foram investigados, no âmbito do LaPCAB,
diretamente pelo autor deste artigo e serão apresentados brevemente nas
próximas duas secções. As investigações foram norteadas pelos procedimentos de
estudo de caso com base na abordagem etnográfica, utilizando técnicas de
investigação estipuladas num quadro comum às pesquisas em Ciências Sociais, tal
qual a observação direta dos contextos investigados, as entrevistas e a coleta
documental. Ambas as pesquisas viram a participação direta das instituições
académicas locais, cuja colaboração foi de importância central, permitindo um
melhor enquadramento social e histórico do objeto de pesquisa e uma escolha dos
recortes de investigação eficaz e pertinente com as problemáticas efetivas das
realidades estudadas. Com referência aos figureiros, foram gravadas quatro
entrevistas em novembro de 2011 e três em julho de 2012. Quanto aos artesãos do
miriti, foram gravadas quatro entrevistas em maio de 2012, duas em março 2013 e
três no agosto daquele mesmo ano.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>OS FIGUREIROS DE TAUBATÉ</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p>Taubaté é uma cidade com
aproximadamente 270 000 habitantes, situada na região do Vale do Paraíba,
Estado de São Paulo, Brasil. Os “Figureiros de Taubaté” uniram-se em 1993 numa
Associação atuante em uma sede: a “Casa do Figureiro”. A Associação tem como
escopo a produção e a venda de figuras de argila seca e pintada. As figuras são
de tipo tanto religioso (sobretudo com referência à preparação dos presépios)
quanto laico.</p>

    <p>O começo da atividade dos figureiros não foi de
tipo profissional, mas sim, de uso doméstico. Ela é oriunda dos registos
coletivos das migrações rurais em direção de Taubaté, no quadro dos processos
modernizadores do Brasil e da formação da marginalidade urbana, anteriormente
descritos. O desenvolvimento de uma política de valorização do folclore,
ativada por estudos e ações como aqueles de Mário de Andrade,
propiciou as condições para que a atividade dos figureiros adquirisse
legitimidade e relevância social, e atraísse novos adeptos. Isso fez com que o
destino das peças produzidas fosse variando, paulatinamente, do uso doméstico
ao institucional, e daí, ao comercial, numa região envolvida nos processos de
industrialização como a do Vale do Paraíba (Lopes, 2006).</p>

    <p>Embora os figureiros respeitem alguns cânones da
tradição da atividade, cada produto apresenta características que remetem para
o seu autor e cada peça é assinada pelo seu artífice. Em Taubaté, os produtos
são vendidos exclusivamente na Casa do Figureiros, mas é possível encontrá-los
também em outras cidades. De qualquer forma, por expressa determinação, a
Associação não tem um sistema de distribuição de produtos para varejistas. Os
donos das lojas dirigem-se, como qualquer outro cliente, para os balcões da
Associação na Casa do Figureiro ou nos mercados e nas feiras, compram as
figuras e as levam para suas lojas.</p>

    <p>A Associação dos Figureiros percebe que a sua
sobrevivência está ligada à capacidade de se diferenciar tanto do anonimato do
artesanato, quanto da padronização dos produtos industriais. Nesse sentido, o
facto de as peças produzidas serem únicas e assinadas pelos seus autores
garante essa diferenciação no nível mais alto possível, que é o da
exclusividade. Em outras palavras, a utilização de técnicas tradicionais
preserva os figureiros do perigo de serem confundidos com os produtos
industriais e a autoria (assinada) de cada peça preserva-os do perigo de cair
no anonimato do artesanato.</p>

    <p>Nesse jogo, a tradição encontra-se numa posição
difícil frente ao mercado. De um lado, a autoria pode acabar por impelir o
artista a sair dos cânones da tradição, em particular, pela pressão dos
lojistas à procura do “produto diferenciado”. Por outro, a repetição regular de
alguns clichés estéticos tradicionais leva as forças do mercado a planear,
através por exemplo do uso de “estampas”, a produção
em série das figuras:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>O que a gente aqui pretende é manter a tradição;
às vezes as pessoas vêm aqui com outras ideias e muitas pessoas desistiram
porque não queriam seguir a tradição. A nossa maior força é a tradição […] O
SEBRAE [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas], também, teve
aqui querendo que a gente virasse uma cooperativa: “vocês vão ganhar muito mais
dinheiro, vocês vão ter muito mais espaço e quantidades de peças para vender”.
Só que, por exemplo, eu começo a fazer a peça aqui e eu não termino; eu passo
para outro e, depois, para outro, etc. Ninguém quer isso. Eu quero ter o prazer
de começar a fazer o meu trabalho e terminar, como todos os outros aqui. Então,
dizemos para o SEBRAE que a gente não queria e eles ficaram decepcionados
[Josiane Sampaio, presidente da Associação dos Figureiros de Taubaté,
entrevistada pelo autor do artigo em 25 de novembro de 2011].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os figureiros renunciam por princípio aos
benefícios que a divisão do trabalho e a intermediação comercial
proporcionariam em termos de aumento de produção e vendas. Trata-se de uma
opção hoje viável, justamente, pela transformação do ambiente num meio de comunicação
global. Pelo simples facto de serem afetados pelos sistemas do distanciamento
tempo-espaço, os marginalizados podem entrar em contacto direto com a sociedade
e o mercado e percorrer caminhos autónomos nas relações com ambos.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>OS ARTESÃOS DO MIRITI DE ABAETETUBA</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Abaetetuba é uma cidade
do Estado do Pará com aproximadamente 150 000 habitantes e representa o pólo de
uma região que abrange os municípios de Moju, Igarapé-Miri e Barcarena (somando
uma população de mais de 350 mil habitantes). A cidade passa por um momento de
crescimento económico acelerado, principalmente nos ramos do comércio e
serviços. A “Associação dos Artesãos de Miriti de Abaetetuba” (ASAMAB)
encontra-se atingida por essa contingência socioeconómica, enxergando espaços
de mercados impensáveis há poucos anos.</p>

    <p>A Associação tem como escopo a produção e a venda
de brinquedos feitos com a madeira (bucha) da palmeira de miriti. Para a
caracterização do produto, a Associação (e o SEBRAE) aposta mais na localização
geográfica (“O miriti da Amazónia”) do que numa tradição cultural claramente
caracterizada e identificável com um específico grupo comunitário. A
comercialização consiste em primeiro lugar na venda direta dos brinquedos na
festa do Círio em Belém e na exposição do “Miriti Fest”. Isso está relacionado
com o caráter sazonal do trabalho de muitos artesãos, embora alguns deles
vendam brinquedos o ano todo.</p>

    <p>Os artesãos que na época das entrevistas (maio de
2012) estavam mais envolvidos com a associação trabalham o miriti também para produzir
objetos que não são brinquedos, a exemplo de embalagens. Produzem também
objetos cuja matéria prima não é do miriti e que vendem, frequentemente,
através de intermediários comerciais. O Sr. Desidério (presidente da Associação
em maio 2012) informou que esses produtos são achados mais “diferenciados” e,
por isso mesmo, seriam mais procurados pelos lojistas e pelos intermediários.
Tanto o Sr. Desidério quanto o Sr. Josias (conhecido como “Pirias”) relataram
que, para produtos que “se prestam”, é utilizada também uma divisão técnica do
trabalho: “tem um aqui [no ‘ateliê’] que corta o miriti, as mulheres que
trabalham aqui pintam o miriti, outros, que são jovens aprendizes, lixam o
miriti” (Pirias). De outro lado, esse mesmo grupo de artesãos tenta utilizar a
rede para expandir e incrementar seu mercado: Pirias declarou que grande parte
de seus clientes vem de contatos proporcionados pela Internet, “mas o que falta
é uma central de comercialização”.</p>

    <p>Naquele mesmo ano de 2012, tiveram as eleições
para uma nova diretoria da ASAMAB. A nova diretoria colocou como ponto central
de seu programa o desenvolvimento da capacidade do artesão de se relacionar
autonomamente com o mercado, aproveitando os meios de interação à distância
hoje proporcionados pela tecnologia. Esse propósito lida com dois problemas,
ambos decorrentes da condição de marginalidade social da grande maioria dos
associados. O primeiro é a moradia, constituída por poucos e pequenos espaços,
edificados e mobiliados de forma precária. Por consequência, eles não têm a
possibilidade de organizar um ateliê onde trabalhar e expor os produtos. Na
maioria dos casos trabalham na cozinha de casa e levam os produtos para a
associação ou os vendem diretamente em eventos. O segundo problema relaciona-se
com a instrução carente que dificulta a sua capacidade de aprender agilmente as
competências para interagir com a tecnologia da comunicação mediada por
computadores. Dessa forma, os associados permanecem dependentes, na melhor das
hipóteses, da Associação, que tem meios de interação com a rede e, na pior, de
intermediários que, de regra, os tornam invisíveis ao mercado. O novo
presidente da Associação, senhor Rivaíldo, numa entrevista de março de 2013,
nos relatou sobre esses pontos da forma seguinte:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>São poucos os artesões que têm ateliês […] Aí tem
artesões que trabalham na cozinha, no quarto, na sala […] Hoje temos um projeto
voltado para a ampliação, reestruturação e padronização dos ateliês […] Seria
um espaço para produzir, expor, receber os turistas […] Mas […] se a gente não
arrumar a casa como a gente pode divulgar em ampla escala? Sempre as pessoas, o
próprio cliente, falam assim: “mas por que vocês não divulgam?”. Têm os pontos
positivos e negativos. Uma coisa é divulgar em grande escala, que nós temos condição
para isso, temos parceiros para fazer isso e outra coisa o turista vir. E a
gente está preparada para isso? Não. Então achamos que a prioridade é a gente
arrumar a casa e isso seria iniciado pelo ateliê dos artesões, até porque são
eles que garantem a nossa produção […] Nós temos internet aqui [na Associação]
[…] e temos dois contratos de sites […] Nossos artesãos também esbarram naquela
questão cultural, grau de instrução, digamos assim. Tanto é que pensando nisso
nós já temos dois projetos, um já encaminhado […], voltados para a área do
social do artesão […] Pela necessidade de ter um grau de instrução, nos
conseguimos já ter mais educação aqui [cursos de ensino médio na sede da
Associação], que vai ser restruturada para receber mais artesões […] muitos são
analfabetas.</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>A superação das barreiras culturais e físicas
existentes entre os marginalizados e a sociedade inclusiva está emergindo como
um objetivo imprescindível para esses artesões e isso exatamente em vista de
relacionamentos distanciados no tempo e no espaço (com turistas, com pessoas
que “são gente” e, em geral, com o mercado). O facto de existirem na Associação
também tendências inerciais a repropor esquemas da lógica burocrática,
representadas, por exemplos, por várias escolhas do seu ex-presidente, não
impede que a impulsão para a autonomia do artesão se esteja a manifestar de
forma progressivamente hegemónica.</p>

    <p>O que acontece entre os artesãos do miriti
representa uma miscigenação entre mundo tradicional, lógica
burocrático-industrial e “capitalismo distribuído” (Rifkin, 2010), que
constituem o passado remoto, o passado próximo e a contemporaneidade da
história do Ocidente. O que permite essa “compressão” em um único lugar e em um
único tempo de modelos historicamente assim distantes é a transformação do
território brasileiro num meio integrado do distanciamento tempo-espaço. Isso
consente, às formações histórico-sociais tradicionais e pré-modernas
remanescentes nos grupos marginalizados, entrar em contacto direto com toda a
variedade de formações culturais que se sedimentaram ou desenvolveram no Brasil
e fora do Brasil. A integração social desses grupos
deixa, assim, de se equacionar com a adaptação ao <i>habitus</i> do cidadão,
para se tornar uma interação entre culturas diferentes.</p>

    <p>Com referência ao conceito dos sistemas do
distanciamento tempo-espaço proporcionarem novas possibilidades de integração
social para os grupos ­desqualificados, um crítico atento colocou as suas
dúvidas, de forma ­voluntariamente paradoxal, da forma seguinte: “atentemos ao
exemplo de um recluso que utiliza a internet e tem uma página pessoal na
internet. Desta presença, descontextualizada em termos de tempo e espaço,
podemos falar de saída da marginalidade se vender um produto?”. Se tal recluso
vendesse um produto qualquer e como caso isolado, a resposta a essa pergunta
deveria ser, coerentemente com as próprias argumentações do artigo, “não”. Mas
deveria ser “sim” se no ambiente desse recluso, como é no caso dos grupos
desqualificados, existisse uma cultura antiga e historicamente estratificada,
veículada fora da prisão por aquele produto e se tal venda não representasse um
evento ocasional, mas abrisse um canal permanente de interação comunicativa e
económica com o mundo exterior. Aliás, os grupos desqualificados, embora sejam
espacialmente e socialmente segregados, não são reclusos. Para eles, a
interação socioeconómica à distância pode gerar, e de facto gera, uma variedade
de interações presenciais: com todos os que vão diretamente para os bancos de
venda das associações, com os turistas, os pesquisadores, os funcionários das
instituições culturais e políticas, etc.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>CONCLUSÕES</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>No artigo propomos a
distinção dos sistemas abstratos, orientadores e reguladores do agir social
moderno, em dois tipos: 1) sistemas em que prevalece o distanciamento lógico e
2) sistemas em que prevalece o distanciamento tempo-espaço. O primeiro tipo não
distancia as pessoas fisicamente (pelo menos não necessariamente), mas isola-as
em termos de comunicação. O segundo tipo distancia as pessoas fisicamente, mas
não em termos de comunicação. O distanciamento lógico representa uma impulsão
para a desagregação social, justamente por interromper as interações
comunicativas. Pelo contrário, o distanciamento tempo-espaço estimula novas
formas de integração social por abrir possibilidades, outrora inexistentes, de
comunicação no plano fisicamente distanciado. O distanciamento lógico dos
aparatos burocráticos causou uma inércia favorável para a exclusão dos
marginalizados. Hoje, essas tendências estão a ser invertidas pelo
extraordinário desenvolvimento dos sistemas do distanciamento tempo-espaço. A
penetração social do distanciamento tempo-espaço atinge os marginalizados e
abre, para eles, canais de comunicação autónomos e diretos com a sociedade e o
mercado. Dessa forma, até os símbolos exógenos que vêm da sociedade de consumo
se tornam meios para a comunicação entre eles e entre estes e o mundo
globalizado.</p>

    <p>Com isso, é provável que se esteja a determinar
uma mudança na atitude psicossocial que sempre afetou os marginalizados
brasileiros, desde a época da pós-abolição até aquelas das várias fases da
industrialização do país: a integração social começa a ser equacionada não mais
somente com a recusa e a fuga do <i>habitus</i> que caracteriza os grupos
desqualificados, para aderir àquele da sociedade inclusiva, mas com o resgate
cultural do primeiro. Em outras palavras: a integração social está-se
identificando menos com uma adaptação a um modelo único e mais com uma
interação comunicativa entre culturas diferentes.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Concluímos com as palavras de Álvaro Tukano,
chefe da tribo dos Tukanos e líder reconhecido por 23 etnias (mais de 52 mil
índios) do Alto Rio Negro, plena floresta Amazónica. Entrevistado pelo autor
deste artigo, Álvaro pontuou que é somente comunicando diretamente com o mundo
exterior que o seu povo poderia se “tornar autónomo” como foram os
“antepassados” dele. Nas suas palavras pode ser percebida a concretude do
choque, hoje atuante, entre a inércia para a marginalização, provocada pelo
distanciamento lógico, e o desejo de interação comunicativa de uma cultura com
outra, possibilitada pelos sistemas do distanciamento tempo-espaço:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Existe um projeto, quando o Lula entrou, de
pontos de cultura no Rio Negro. Foram pensados quatorze pontos de cultura. Nós
temos as placas solares instaladas, computadores, mas não temos técnicos,
amigos que vêm nos dar instruções para manejar aqueles computadores; e, também,
não temos antenas [para captar o sinal da internet] até o presente momento;
então, é a mesma coisa que ter nada. No Brasil foram planejados mil pontos de
cultura que estão na mesma situação: nós não comunicamos por isso. Agora, os
padres têm, os militares têm, as ONG indigenistas têm
e nós não temos. Por isso, nossa dependência é muito grande, porque dependemos
de intermediários, interlocutores que são os mesmos que dificultam a nossa
comunicação. Eles se sentem como se fossem donos de índios, donos de nossa
palavra, donos de nossas almas, o que não é agradável. Porque nós pensamos
diferentes, nós queremos fazer contato direto, sem intermediários [Álvaro
Tukano, trecho da entrevista de 10 de janeiro de 2013; disponível em <a
href="http://www.facebook.com/Lapcab#!/photo.php?v=133010590193970&amp;set=vb.118227031672326&amp;type=2&amp;theater" target="_blank">http://www.facebook.com/Lapcab#!/photo.php?v=133010590193970&amp;set=vb.118227031672326&amp;type=2&amp;theater</a>].</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

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    <p>&nbsp;</p>

    <p>Recebido a 24-04-2013. Aceite para publicação a
21-10-2014.</p>

    <p>&nbsp;</p>


    <p><b>NOTAS</b></p>


    <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup>Pelo próprio cálculo da
lucratividade do capital, a implantação de uma burocracia comercial é tanto
mais necessária quanto maior o impulso para a expansão dos mercados. Até, por
exemplo, no caso da burguesia portuguesa da época da colonização do Brasil, que
era basicamente refratária aos processos de racionalização (Buarque de Holanda,
1936), a distância das colónias impeliu os homens de negócio a desdobrar uma
rede de funcionários e a desenvolver uma cultura da organização (Lisanti, 1973,
pp. CL-CLII).</p>

    <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup>V., por exemplo, as
pressões sofridas pela indústria <i>casearia</i> inglês de 1850 até 1930 por
permanecer atrelada a formas artesanais de produção (Blundel e Tregear, 2006).</p>

    <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup>O
Laboratório de Políticas Culturais e Ambientais no Brasil: gestão e inovação”
(LaPCAB) é financiado pela Capes e coordena projetos que envolvem 17 Estados da
União e suas instituições de pesquisa. Os objetos de pesquisas do LaPCAB são
coletividades sociotécnicas, nas quais é observada a interação mútua entre
agenciamentos humanos e não-humanos, incluindo nesses últimos os sistemas
abstratos, que condicionam as reflexividades, ações e projetos dos atores
sociais. O Laboratório já investigou 33 coletividades, igualmente distribuídas
em 17 Estados da União, a saber, mais ou menos, duas coletividades por Estado.
Das comunidades e coletividades selecionadas (7 na região norte; 8 na região
nordeste; 4 na região centro-oeste; 8 na região sudeste e 6 na região sul),
todas foram visitadas diretamente pelos pesquisadores do Laboratório, em
períodos médios de seis dias. Do início do projeto, até ao momento,
constituiu-se uma rede nas cinco regiões do país, incluindo 27 pesquisadores de
universidades e instituições diversas.</p>


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