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</front><body><![CDATA[  

    <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>

    <p><b>DUQUE, Eduardo</b></p>

    <p><i><b>Mudanças Culturais, Mudanças
Religiosas. Perfis e Tendências da Religiosidade em Portugal numa Perspetiva
Comparada</b>,</i></p>

    <p>Vila Nova de Famalicão, Edições Húmus,
2014, 338 pp.</p>

    <p>ISBN 9789897550515</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Helena Vilaça</b>*</p>

    <p>*Universidade do Porto, Faculdade de Letras,
Departamento de Sociologia, Via Panorâmica, s/n — 4150-564 Porto, Portugal.E-mail: <a href="mailto:hvilaca19@gmail.com">
hvilaca19@gmail.com</a></p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O fenómeno
religioso não tem sido objeto de uma reflexão sociológica aprofundada na
sociedade portuguesa e os estudos teórico-empíricos sobre a
religião enquanto fenómeno macrossocietal permanecem insuficientes. Por
essa razão, o livro de Eduardo Duque representa mais um importante contributo
para uma área de conhecimento sociológico bastante lacunar.</p>

    <p>Em <i>Mudanças Culturais, Mudanças
Religiosas,</i> o autor tem como propósito central identificar os fatores “que
configuram e atuam de um modo explicativo na religiosidade dos portugueses”,
tomando em conta as transformações socioculturais que, ao
longo das últimas décadas, têm recolocado a sociedade portuguesa no quadro da
sociedade moderna e globalizada. Embora centrado em Portugal, o trabalho
resulta de uma análise comparativa e longitudinal com outros países europeus de
tradição e maioria católica.</p>

    <p>O livro está organizado em sete capítulos
sendo o primeiro introdutório e o último conclusivo. Na introdução, Duque
procura esboçar em termos breves os principais momentos histórico-sociais da
questão religiosa em Portugal, evidenciando por isso as relações entre o Estado
e a religião maioritária, a Igreja Católica Romana. A este propósito, enuncia
três grandes vértices do catolicismo em Portugal, ao longo do último século,
desde as reações à laicização da I República até à liberdade individual,
consequência da revolução democrática de 1974, do processo de descolonização e
da integração na União Europeia, passando pelas respostas à secularização concomitante
da modernidade e que o autor situa em especial no pós-2.ª Guerra Mundial.
Respeitando as fases estabelecidas pelo autor, será de recordar, contudo, que
mesmo depois da 2.ª Grande Guerra o país continuou a pautar-se pelo fechamento
em relação ao resto da Europa sob um regime político que procurava ancorar-se
numa autolegitimação religiosa, promovendo a presença do catolicismo nas várias
instituições estatais e no espaço público em geral. A par disso, recorde-se que
os indicadores de identidade e prática religiosa eram muito elevados. O
verdadeiro confronto de Portugal com a modernidade foi retardado pela ditadura,
operando-se na sequência da revolução democrática.</p>

    <p>Partindo das hipóteses tradicionais da
teoria da secularização, Eduardo Duque associa secularização a pluralismo
religioso consubstanciando este em duas dimensões: individualização das crenças
no quadro da privatização da vida social e desinstitucionalização religiosa,
resultante da descredibilização mais generalizada das instituições típicas da
modernidade. Ora, o pluralismo também se carateriza pela proliferação de grupos
religiosos com graus de institucionalização variável. As Testemunhas de Jeová
ou a Igreja Universal do Reino de Deus, ainda que profundamente diferentes
entre si, são exemplos de organizações religiosas pautadas por princípios de
racionalidade formal que proliferam na modernidade tardia e que têm contribuído
para a pluralização da paisagem religiosa portuguesa.</p>

    <p>Tendo sempre presentes premissas da
secularização, o autor procura explicar a reconfiguração religiosa em curso
através de uma tendência para a individualização e da passagem do materialismo
ao pós-materialismo, identificando assim o suporte teórico que virá a ser
desenvolvido no capítulo seguinte. Sem pretender pôr em causa a validade
daqueles instrumentos analíticos, pode questionar-se se não seria igualmente
pertinente entender a realidade religiosa portuguesa recorrendo ao conceito de
modernidades múltiplas de Shmuel Eisenstadt, acautelando-se, por essa via da
unilinearidade da secularização, das limitações da dicotomia materialismo,
pós-materialismo e dispondo de outros elementos para explicar a singularidade
do catolicismo português face a outros catolicismos
europeus. Essa abordagem permitiria, acima de tudo, não ficar cativo do
pressuposto de que a modernidade tem de coexistir necessariamente com a perda
da importância social da religião. Nos Estados Unidos, a modernização caminhou
lado a lado com a vitalidade religiosa e em Portugal certas mudanças associadas
a cosmovisões seculares e modernas (caso do casamento
entre pessoas do mesmo sexo) não afetou o catolicismo em termos de crença e de
prática.</p>

    <p>Indubitavelmente, a problematização
efetuada no primeiro capítulo tem um desenvolvimento coerente no seguinte
através do estado da arte realizado. Há aí um percurso cuidado e bastante
extenso de autores clássicos, onde Weber é uma referência fundamental.
Deteta-se, no entanto, a ausência de autores e teorias de referência tanto no
quadro da secularização como fora desse âmbito. São
mesmo os desenvolvimentos mais recentes na sociologia das religiões aquilo que
melhor ajudaria a resolver algumas das interrogações formuladas, propiciando
ainda a abertura de novas pistas interpretativas dos resultados ­empíricos.
Refiro-me, concretamente, tanto a sociólogos emblemáticos da secularização como
Bryan Wilson, Steve Bruce ou Karel Dobbelaere, como às reconsiderações do
filósofo e cientista social Charles Taylor. Para a inteligibilidade histórica e
sociológica da religião em Portugal e, de modo particular, do seu catolicismo,
poderia ter sido útil recorrer à tipologia de David Martin sobre monopólios
religiosos e pluralismo e ao conceito de <i>vicarious religion</i> – religião
de paróquia – utilizado por Grace Davie para a compreensão da religião na
Europa no século XXI. Refletindo sobre dois autores fundamentais como Berger e
Luckmann, teria sido importante visitar os trabalhos mais recentes destes
sociólogos, entretanto distanciados do paradigma da secularização e, no caso de
Peter Berger, atentar para a concetualização que ele faz sobre o pluralismo,
que considera o elemento mais adequado para descrever o cenário religioso
contemporâneo. Se Duque enuncia entre os seus objetivos a análise da
desinstitucionalização religiosa e a individualização, a diferença estabelecida
por Georg Simmel, nos inícios do século XX, sobre religião e religiosidade (o
pietismo) e as obras de Linda Woodhead e Paul Heelas sobre religião e novas
espiritualidades seguramente que seriam um bom suporte.</p>

    <p>No terceiro capítulo é explicitada a
estratégia metodológica do autor. Eduardo Duque justifica, assim, a sua opção
por um desenho comparativo e longitudinal. Para o efeito, seleciona outros
países europeus historicamente católicos, uns com indicadores de religiosidade
elevados (Irlanda, Itália e Polónia) e outros bastante secularizados (Áustria,
Bélgica, Espanha e França), utilizando como fonte as bases de dados do <i>European
Values Survey</i> (EVS) de 1990, 2000 e 2008. Esta decisão possibilita ter uma
perceção do posicionamento de Portugal no mapa europeu nas últimas décadas, bem
como a identificação das principais tendências em curso, tendo ainda o mérito
indiscutível de dar continuidade à análise que observatórios como o EVS
facultam.</p>

    <p>Nos três capítulos seguintes, o autor procede
à análise dos resultados empíricos, a qual se organiza nos seguintes termos:
dimensão religiosa (capítulo 4), dimensão sociocultural (capítulo 5) e
inter-relação entre aquelas duas dimensões (capítulo 6). Na dimensão religiosa,
as variáveis são agrupadas em autoidentificação, frequência, saliência
religiosas, tendo sido no final construído um índice de religiosidade.
As análises e testes estatísticos realizados em torno da dimensão sociocultural
irão permitir concluir que, tal como previsto nas hipóteses iniciais, a adesão
aos valores pós-materialistas é tanto maior quanto o forem os indicadores de
individualização e a posição social.</p>

    <p>Em termos
gerais, a obra constitui um trabalho de relevância dado que o estudo é, sem
margem para dúvida, bem-sucedido no que respeita ao exercício de
comparabilidade à escala europeia e na correlação que estabelece entre valores
pós-materialistas e individualização e atitudes religiosas. Uma visão clara das
tendências em curso na sociedade portuguesa é algo que fica, até certo ponto,
limitada pelos próprios recursos empíricos utilizados. Teria valido a pena
considerar o estudo sobre as “Identidades religiosas em Portugal:
representações, valores e práticas 2011” (IRP), coordenado
por Alfredo Teixeira. Essa pesquisa inclui variáveis mais afinadas (por
exemplo, categorias religiosas mais discriminadas do que as dos
recenseamentos), aborda dimensões até à data não
contem­pladas e permite aferir um conhecimento mais fino quer do mundo
católico, quer dos grupos religiosos minoritários ou mesmo dos “sem religião”.
Um olhar sobre esta pesquisa permitiria a Eduardo Duque obter elementos que
melhor testariam as suas hipóteses ou responderiam a algumas das suas
interro­gações, nomeadamente, ­aquelas ­relativas às novas formas de religiosidade
e à pluralização do campo religioso – no Algarve, por exemplo, o peso de
católi­cos não chega a 60%, os crentes sem ­religião são 11% e os protestantes
7% –, a desinstitucionalização religiosa e a própria singularidade da sociedade
portuguesa e do seu catolicismo.</p>

    <p>Em suma, esta publicação contribui para um
maior conhecimento da religião e dos valores na sociedade portuguesa
principalmente porque permite colocar o país numa perspetiva comparativa,
revelando que não há um catolicismo europeu, mas uma Europa de vários
catolicismos, os quais se têm vindo a reconfigurar temporalmente.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p><b>REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <!-- ref --><p>TEIXEIRA, A.
(coord.) (2012), <i>Identidades Religiosas em Portugal: Representações, Valores
e Práticas – Relatório</i>, Lisboa, Universidade Católica Portuguesa: CESOP e
CERC.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=080207&pid=S0003-2573201600020000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>


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