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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Serviço ao poder ou o poder ao serviço? Patrocinato e governos partidários em Portugal]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Patronage and party government in Portugal]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de Aveiro Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território Unidade de Investigação em Governança Competitividade e Políticas Públicas]]></institution>
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<country>Portugal</country>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Patronage has been interpreted as an important dimension of the party government model. However, patronage has been conventionally associated with the distribution of jobs in public administration aiming to reward services rendered to the party in government. This is not entirely satisfactory. The growing complexity of governance processes, together with the growing influence of the upper echelons of the civil service in policy making has prompted politicians to search for new ways of controlling the bureaucracy. Through the use of elite interviews, this article seeks to analyze the emergence of an instrumental dimension of patronage, as a potential key resource for parties in government to control the policy-making process and retain a role in modern democratic governance.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[patrocinato]]></kwd>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[administração pública]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[entrevistas de elites]]></kwd>
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<kwd lng="en"><![CDATA[elite interviews]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><b>DOSSIÊ: NOVAS PERSPECTIVAS SOBRE PARTIFOS E ELEIÇÕES EM PORTUGAL E NO BRASIL : COLIGAÇÕES, CANDIDATOS E PATROCINATO</b></p>

    <p><b>Serviço
ao poder ou o poder ao serviço? Patrocinato e governos partidários em Portugal</b></p>

    <p><b>Patronage and party government in
Portugal</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Patrícia Silva</b>* e <b>Carlos Jalali</b>*</p>

    <p>*Universidade de Aveiro, Departamento de Ciências Sociais, Políticas e
do Território, GOVCOPP, Campus Universitário de Santiago — 3810-190 Aveiro, Portugal.
 E-mails: <a href="mailto:patriciasilva@ua.pt">patriciasilva@ua.pt</a> e <a href="mailto:cjalali@ua.pt">cjalali@ua.pt</a></p>
    <p>&nbsp;</p>


    <p><b>RESUMO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O patrocinato tem sido considerado uma importante dimensão do
modelo de governos partidários. Contudo, a conceção convencional da utilização
do patrocinato remete para a distribuição de cargos na administração pública a
ocorrer para efeitos de recompensa por serviços prestados ao partido no
governo. Esta perspetiva não é inteiramente satisfatória. A
crescente complexificação e fragmentação dos processos de governação,
juntamente com o poder das estruturas administrativas no processo de políticas
públicas pode impelir os governos partidários a procurarem novas formas
de controlar a máquina administrativa do Estado. Este trabalho procura, através
da análise de entrevistas de elites, demonstrar a emergência de um valor
instrumental das nomeações, com estas a serem utilizadas (também) para reforçar
o controlo político e reduzir os riscos associados ao processo de delegação.</p>

    <p><b>PALAVRAS-CHAVE</b>: patrocinato; governos
partidários; administração pública; entrevistas de elites.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Patronage
has been interpreted as an important dimension of the party government model.
However, patronage has been conventionally associated with the distribution of
jobs in public administration aiming to reward services rendered to the party
in government. This is not entirely satisfactory. The growing complexity of
governance processes, together with the growing influence of the upper echelons
of the civil service in policy making has prompted politicians to search for
new ways of controlling the bureaucracy. Through the use of elite interviews,
this article seeks to analyze the emergence of an instrumental dimension of
patronage, as a potential key resource for parties in government to control the
policy-making process and retain a role in modern democratic governance.</p>

    <p><b>KEYWORDS</b>:
patronage; party government; public administration; elite interviews.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>INTRODUÇÃO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A interação entre os
governos partidários e a estrutura administrativa é central em democracia. Os
partidos no governo recebem um mandato para desenvolverem e implementarem
determinadas políticas públicas e necessitam de estruturas administrativas e
das suas competências técnicas para a formulação e implementação de políticas
públicas (Huber, 2000). Face à incapacidade da estrutura ministerial de
assegurar todas as fases do processo de políticas públicas, grande parte da sua
responsabilidade é delegada na cúpula dirigente da administração pública. Neste
processo de delegação é crucial assegurar não apenas a competência técnica das
estruturas dirigentes mas também a sua capacidade de
cumprir os objetivos delineados pelo governo (Huber, 2000; Müller, 2000). Este
último elo da cadeia de delegação é decisivo para os governos partidários na
medida em que pode implicar potenciais problemas na relação entre o partido no
governo, que detém a autoridade; e a administração pública, que funciona como
um agente dos governos partidários. Com efeito, a crescente fragmentação do
“circuito decisório” (Mozzicafreddo, 2001, p. 13), particularmente com a
criação de organizações governamentais e quase-governamentais;
o consequente aprofundamento da delegação de competências (Burnham, 2001); e a
tendência para a atribuição de maior amplitude do poder decisório aos
responsáveis pela condução da implementação de políticas públicas (Hood, 1991)
são apontados como potenciais desafios aos governos partidários, na medida em
que tendem a implicar um declínio do papel dos partidos no governo no controlo
dos processos decisórios (Mair, 2008).</p>

    <p>Em paralelo, e contrariamente ao que as
formulações iniciais de governos partidários assumiam,
o pressuposto da neutralidade das estruturas dirigentes, que exercem de forma
independente a sua autoridade no processo de políticas públicas (Katz, 1986, p.
43) não é corroborado pela literatura sobre a administração pública (Aberbach,
Putnam, Rockman, 1981). Não sendo neutra, a administração pública também não é
subserviente (Katz, 1987) e, desta forma, pode tornar-se um obstáculo para os
governos partidários. Acresce, ainda, a ideia de que a dimensão técnica e
administrativa pode limitar a influência partidária nos processos de políticas
públicas (Blondel, Nousiainen, 2000). Neste cenário importa compreender até que
ponto estarão os partidos políticos disponíveis para
aceitar uma redução substancial da sua capacidade de “controlo operacional do
governo” (Rose, 1969, p. 413). O contrário pode também ser postulado: os
partidos reconhecem a importância da administração pública e o seu papel no
processo de políticas públicas e procuram, <i>através</i> dela, manter--se como
centrais no processo de políticas públicas.</p>

    <p>Este trabalho argumenta que os desafios que
atualmente se colocam aos governos partidários podem tê-los impelido à
transformação do patrocinato – definido como a possibilidade de nomeação da
estrutura dirigente (Kopecký e Scherlis, 2008; Müller, 2006) – num importante
instrumento de controlo da máquina administrativa. Para este efeito, analisa as
perspetivas de elites em Portugal sobre três dimensões interrelacionadas. A
primeira reporta-se ao estudo da influência partidária nas nomeações de
dirigentes e a saliência relativa de diferentes critérios de seleção. A segunda
dimensão debruça-se sobre as motivações do patrocinato; e a terceira dimensão
ocupa-se da análise da distribuição das nomeações entre partidos políticos,
distinguindo um estilo de patrocinato maioritário ou proporcional.</p>

    <p>Este artigo estrutura-se em quatro partes. Na
primeira parte, é analisado o papel que tradicionalmente tem sido atribuído ao
patrocinato no modelo de governos partidários, argumentando a necessidade de
reanálise do seu papel. Segue-se uma análise do caso português, que apresenta
características que o tornam um interessante estudo de caso. O enquadramento
metodológico é explicitado na terceira secção. Posteriormente, são apresentados
e discutidos os resultados obtidos. A última secção apresenta algumas notas
conclusivas e as implicações da utilização do patrocinato para os partidos e
para os processos de políticas públicas.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>PATROCINATO E GOVERNOS
PARTIDÁRIOS</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>O
modelo de governos partidários assume a existência de uma complexa rede de
delegação, que é crucial em democracia. No processo democrático contemporâneo,
os eleitores delegam a responsabilidade e autoridade do processo decisório em
representantes eleitos. Os partidos políticos são o veículo organizacional
através do qual este processo de delegação ocorre. Ao mesmo
tempo que são <i>agentes</i> na relação com os cidadãos, os partidos
tornam-se o <i>principal</i> do elenco governativo (Blondel, Nousiainen, 2000).
Com efeito, estes partidos tornam-se responsáveis por duas importantes dimensões
interrelacionadas dos governos partidários: o controlo sobre a seleção da
composição ministerial e o controlo sobre o processo de políticas públicas
(Katz, 1986). Contudo, o processo de delegação vai para além do executivo
político e inclui, também, a administração pública, enquanto a dimensão
permanente do poder executivo.</p>

    <p>Este último elo de delegação – do governo <i>strictu sensu</i> para a
adminis­tração pública – é, porventura, o mais complexo para os governos
partidários, uma vez que a administração pública é responsável pela
operacionalização de políticas públicas, mas os partidos que estão no governo é
que são, em última análise, responsabilizados pelas falhas que possam surgir em
todo o processo de políticas públicas. A capacidade de controlo de políticas
públicas dos governos partidários depende, assim, da cooperação da
administração pública e, neste sentido, o próprio modelo de governos
partidários depende da sua capacidade de anular ou, no limite, de minimizar
potenciais problemas na relação entre o principal (partido no governo); e o
agente (administração pública) (Huber, 2000; Müller, 2000).</p>

    <p>Não é claro, contudo, o modo como se opera esta
ligação entre os governos e a administração pública. Como podem os governos
partidários assegurar a “cooperação” e “lealdade” da administração pública, que
Katz (1986, p.67) reconheceu serem cruciais para a capacidade e a sobrevivência
dos governos partidários?</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O patrocinato tem sido considerado uma importante
dimensão do modelo de governos partidários. Contudo, a conceção convencional da
utilização do patrocinato remete para a distribuição de cargos na administração
pública a ocorrer para efeitos de recompensa por serviços prestados ao partido
no governo, ou como mecanismo de compensação relativamente à incapacidade do
partido no governo de converter preferências políticas em decisões (­Blondel,
2000, 2002; Kitschelt e Wilkinson, 2007). Esta conceção é imperfeita na medida
em que ignora a possibilidade de se terem alterado as suas funções,
particularmente num contexto marcado quer pela crescente complexidade dos
processos de governação, quer pelo crescente número de agentes e instituições
envolvidos no processo de políticas públicas, que impõem aos governos
partidários a (re)criação de mecanismos de controlo
que lhes permitam obter os resultados esperados (Kopecký e Scherlis, 2008;
Müller, 2002). O patrocinato tem sido destacado como um dos mais importantes
instrumentos de controlo político ao serviço dos partidos no governo, por
permitir alinhar as ­preferências do executivo político e a administração
pública, reforçando os mecanismos <i>ex ante</i> do processo de delegação
(Müller, 2006).</p>

    <p>Assim, podemos distinguir duas importantes
funções do patrocinato, operacionalizadas através da distinção entre
“patrocinato de serviço” e “patrocinato de poder” (Müller, 2006, p. 190). O
primeiro reporta-se à distribuição de cargos em troca da lealdade do cliente
fora do âmbito das funções que estes cargos implicam (Müller, 2006, p. 190).
Trata-se, neste caso, de uma troca não simultânea – uma vez que se reporta a
recompensas por serviços prestados anteriormente ou em antecipação da prestação
de serviços – com vista à obtenção de apoio, sobretudo na arena eleitoral
(Piattoni, 2001). Neste sentido, estamos perante a dimensão clientelar do patrocinato,
uma vez que envolve relações entre patrão e cliente de forma diádica e
vertical.</p>

    <p>No contexto específico
das relações entre governos e partidos, o patrocinato de serviço surge como uma
alternativa crucial em termos de competição eleitoral, uma contrapartida que é
mobilizada quando os partidos não conseguem traduzir a ocupação do governo na implementação de políticas públicas (Blondel, 2002;
Kitschelt e Wilkinson, 2007). Assim, permite reduzir a perceção da incapacidade
de controlo partidário dos governos através da distribuição de favores e
benefícios particularizados para os indivíduos ou grupos de indivíduos de que o
partido necessita para assegurar o acesso à arena governativa, que lhes permite
aceder à possibilidade de controlo de políticas públicas e da distribuição de
posições na administração pública.</p>

    <p>Por oposição ao
patrocinato de serviço, no patrocinato de poder as nomeações são feitas de
forma instrumental. Assim, este ocorre quando a distribuição de cargos tem como
objetivo os serviços que o nomeado pode prestar ao partido no âmbito do cargo
que lhe é atribuído (Müller, 2006,
p. 190). A distribuição de cargos na administração pública pode tornar-se um
instrumento através do qual se reforça a influência partidária no processo de
políticas públicas. Com efeito, o controlo sobre políticas públicas é central
no modelo de governos partidários, na medida em que a legitimidade democrática
dos governos partidários decorre do facto de as funções de decisão e de implementação de políticas serem atribuídas aos partidos
políticos, que são escolhidos e responsabilizados pelo eleitorado. O
patrocinato de poder torna-se, assim, um potencial instrumento político e um
mecanismo de redução de riscos, através do qual os partidos no governo procuram
obter (maior) controlo sobre “um sistema de governação cada vez mais
fragmentado e balcanizado” (Flinders e Denton, 2006, p. 2)</p>

    <p>As duas formas de patrocinato não são mutuamente
exclusivas. Pelo contrário: elas podem coexistir, na medida em que a lógica das
nomeações enquanto recompensa pode subsistir, ao mesmo tempo
que emerge um valor instrumental das nomeações, com estas a serem
utilizadas (também) para reforçar o controlo político. Com efeito, embora a
mobilização do eleitorado através da distribuição de patrocinato de forma
personalizada e particularizada possa assegurar vitórias eleitorais, a
necessidade de controlo do processo de políticas públicas e a gestão da
complexidade sugerem a possibilidade da recuperação de um velho instrumento
para superar os modernos processos de governação.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>GOVERNOS PARTIDÁRIOS E
PATROCINATO EM PORTUGAL</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>De acordo com Shefter
(1994), a natureza internamente mobilizada dos partidos e o facto de a expansão
do sufrágio universal ter ocorrido antes da profissionalização da administração
pública permitem antever que o patrocinato possa ser uma característica
generalizada da cultura política portuguesa.</p>

    <p>A importância da administração pública durante o
Estado Novo teve um forte impacto ao nível das primeiras medidas no período
democrático, marcadas pelo esforço de renovação da elite dirigente – que passou
por uma rutura com o modelo do regime anterior através dos saneamentos –
adiando, assim, medidas políticas que promovessem a sua profissionalização
(Magone, 2003, p. 105). A profissionalização da administração pública funciona,
segundo o argumento de Shefter (1994), como um obstáculo ao recurso ao
patrocinato pelos partidos políticos. Como os partidos políticos se depararam
com uma máquina administrativa fortemente desacreditada, incapaz de resistir às
pressões partidárias, puderam explorar os recursos disponíveis na administração
pública com fins partidários e utilizar as nomeações como forma de recompensar
apoiantes pela sua lealdade e serviços ao partido e, assim, gerar o apoio
necessário para ser eleito.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Contudo, a política dos saneamentos foi, na
prática, limitada, não permitindo uma renovação completa da máquina
administrativa do Estado, incluindo ao nível da cúpula dirigente (Carmo, 1987).
Além disso, os saneamentos não tiveram o mesmo impacto em todas as áreas
setoriais (Pinto, 1998). Tal não impediu que a máquina administrativa deixasse
de funcionar como um corpo coerente de instituições (Graham, 1985, p. 911) –
com margem para a utilização partidária da administração pública. A
incapacidade de total reestruturação da administração pública parece ter gerado
alguma desconfiança das elites políticas relativamente à administração pública
(Portas e Valente, 1990).</p>

    <p>Por outro lado, a ausência de liberdade política
e a inexistência de interações partidárias durante o Estado Novo gerou
condições para a consolidação estatal dos partidos políticos portugueses
durante o período democrático (Jalali, 2007). A natureza instável e volátil da
transição para a democracia gerou partidos “internamente mobilizados”, que
utilizaram o patrocinato como uma forma de obter o apoio popular para
permanecerem no poder. Para Shefter (1994), os partidos internamente
mobilizados são aqueles fundados por elites com acesso aos recursos do Estado,
enquanto os partidos externamente mobilizados são fundados por elites sem este
acesso e que lutam para assegurar o seu papel no sistema político através da
mobilização do apoio de massas. Enquanto estes tendem a ser mais orientados por
questões programáticas, os partidos internamente mobilizados têm, de acordo com
Shefter, maior tendência para se socorrerem do
patrocinato, exceto nos casos em que a autonomia e profissionalização da
administração pública tenham precedido a universalização do sufrágio (Shefter,
1994, p. 30).</p>

    <p>Estes argumentos parecem aplicar-se ao contexto
democrático português. Com efeito, a estruturação e consolidação organizacional
dos principais partidos políticos – particularmente o Partido Socialista e o
Partido Social Democrata – é vista como tendo sido conseguida através dos
benefícios que retiravam da incumbência, incluindo o acesso ao aparelho
administrativo. Adicionalmente, parece ter emergido um padrão de cooperação
entre os dois principais partidos. Inicialmente esta cooperação visava retirar
o controlo político do país aos militares radicais do Movimento das Forças
Armadas (Lobo, 2005, p. 75) e assegurar a escolha do regime político. No
entanto, após a resolução do conflito relativo à escolha do regime, os partidos
centristas optaram por uma estratégia de equilíbrio, evitando demarcações
ideológicas claras e garantindo a formulação de regras institucionais que
assegurassem o seu acesso continuado ao governo. A aproximação programática
tende a acentuar o impacto dos fatores de curto-prazo na opção individual do
voto, sobretudo na escolha entre o PS e o PSD (Freire, 2004). Com efeito, o
comportamento eleitoral é fortemente determinado pela avaliação do desempenho
económico e do desempenho do governo que, segundo Freire (2004), se tornam fatores
determinantes da decisão eleitoral quando a polarização ideológica é reduzida.
Torna-se, assim, expectável que os governos partidários atribuam elevada
importância à eficácia do funcionamento da administração pública, que pode ser crucial para os partidos políticos, dadas as implicações ao
nível do comportamento eleitoral.</p>

    <p>O caso português ilustra, assim, a possibilidade
da coexistência das duas formas de patrocinato. Enquanto a necessidade de
controlo do processo de políticas públicas e gestão da complexidade sugerem uma
reconfiguração do patrocinato, a origem interna dos partidos que ocupam a
principal dimensão de competição sugere a potencial subsistência das velhas
formas (clientelares) de patrocinato.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>DADOS E MÉTODOS</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Empiricamente, o estudo do patrocinato é feito através do recurso a
entrevistas de elites, que são o instrumento metodológico que melhor permite
conhecer os processos que se desenrolam ao nível governamental, particularmente
quando procuramos analisar o processo de nomeações. Os mecanismos subjacentes a
este processo não são observáveis externamente, pelo que as entrevistas
­permitem conhecer a perspetiva dos agentes que participaram ou conhecem o
funcionamento e os mecanismos implícitos na escolha das estruturas dirigentes.</p>

    <p>O processo de amostragem das elites a entrevistar
replicou os passos de seleção da amostra do Projeto <i>Party Patronage in
Contemporary European Democracies</i><sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>. Assim, o <i>design</i> metodológico da pesquisa qualitativa começou
com o mapeamento de todas as instituições e organizações, em todos os níveis
administrativos, em nove áreas setoriais – educação e cultura, finanças,
administração local e regional, negócios estrangeiros, economia, justiça, meios
de comunicação, defesa e segurança e saúde. Em cada área setorial foram
entrevistados, no mínimo, quatro atores, de forma a garantir considerações
substantivas em todas as áreas setoriais, exceto na área da comunicação social,
na qual apenas foram realizadas três entrevistas. No total, foram conduzidas 51
entrevistas, conforme apresentado no <a href="#q1">quadro 1</a>.</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="q1">
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><img src="/img/revistas/aso/n220/n220a05q1.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>



    <p>Os respondentes são,
maioritariamente, anteriores e atuais dirigentes da administração pública e
detentores de cargos políticos. Em alguns casos – negócios estrangeiros,
economia, comunicação social e saúde – foram também realizadas entrevistas a
especialistas/académicos na respetiva área setorial ou jornalistas. O processo
de seleção dos entrevistados permite assegurar a fiabilidade dos dados obtidos,
dado que as fontes são indivíduos com experiência e conhecimento em primeira
mão dos processos em análise. As entrevistas foram conduzidas em dois momentos.
Numa primeira fase, realizaram-se entrevistas entre julho e agosto de 2008. No
ano seguinte, voltámos a contactar alguns dirigentes entre setembro e outubro
de 2009. Tendo em conta a legislação então em vigor, os dirigentes cessavam as
suas funções aquando do início de funções do novo executivo. Tratando-se de ano
eleitoral, com eleições a ter lugar a 27 de setembro de 2009, considerámos
pertinente realizar entrevistas adicionais, de forma a
confirmar a inexistência de algum enviesamento em algumas respostas,
resultantes do exercício de funções. Estas entrevistas não produziram
resultados diversos daqueles obtidos durante a primeira fase.</p>

    <p>De forma a evitar “mentiras calculadas” (Hansen,
1988, p. 200), nunca foi solicitado ao respondente que se reportasse ao seu
próprio percurso. Os respondentes foram alertados para o facto de que as
perguntas se destinavam a obter a sua perspetiva acerca de temas específicos,
ao invés de se deterem na análise do seu passado profissional ou percurso na
administração pública, uma estratégia comummente utilizada em estudos com
entrevistas de elites (<i>vide</i>, por exemplo, Berry, 2002). Por outro lado,
salientámos em todas as entrevistas, a garantia de anonimato e de não
transferência da informação para outros contextos que não o investigativo,
respeitando, deste modo, os requisitos éticos da utilização das entrevistas
enquanto instrumento de recolha de informação. De forma a evitar a
pré-estruturação dos discursos, a planificação da entrevista não foi cedida aos
entrevistados, embora tenha sido, por vezes,
solicitada. Nesses casos, procurámos informar o entrevistado relativamente aos
blocos temáticos específicos da entrevista.</p>

    <p>De modo a garantir a confidencialidade dos
excertos aqui transcritos, os participantes neste estudo estão identificados
com um código que permite apenas estabelecer a diferenciação que exista entre
cargos políticos (assinalados com P) e dirigentes (assinalados com D),
académicos (assinalados com A) e outros (assinalados com O).</p>

    <p>Na secção seguinte procede-se à análise dos
resultados das entrevistas. Para testar a potencial reconfiguração do
patrocinato, três dimensões interrelacionadas serão analisadas. Primeiro,
consideramos a perspetiva dos entrevistados relativamente à influência
partidária nas nomeações. Para tal, procuramos não apenas compreender até que
ponto as nomeações são influenciadas pelas estruturas partidárias mas, também, a perspetiva dos dirigentes quanto aos
critérios de seleção. A segunda dimensão reporta-se às perspetivas
relativamente às motivações do patrocinato, através da análise das dimensões
específicas às quais os entrevistados associam o patrocinato enquanto mecanismo
de recompensa ou de controlo. A terceira dimensão reporta-se ao papel atribuído
aos partidos da oposição, considerando as perspetivas dos entrevistados quanto
à distribuição das nomeações, distinguindo um estilo de patrocinato maioritário
ou proporcional.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>RESULTADOS E DISCUSSÃO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Para Müller (2000, p. 154) a influência – ainda que informal – dos
partidos políticos na nomeação sugere que é o partido que apoia o governo que
é, na realidade, responsável pelo patrocinato. Tal como pode ser confirmado no
<a href="#q2">quadro 2</a>, cerca de 78 por cento dos entrevistados
assume a existência de uma influência considerável dos partidos políticos no
processo de nomeação dos dirigentes da administração pública, na larga maioria
das áreas setoriais.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<a name="q2">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n220/n220a05q2.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>



    <p>Apenas cerca de 22 por cento dos entrevistados
considera não existir qualquer influência partidária no processo de nomeações.
Duas áreas setoriais parecem estar particularmente insuladas da influência
partidária: a área da justiça e dos negócios estrangeiros. No primeiro caso, os
entrevistados entendem que as entidades executantes da área da justiça –
tribunais, por exemplo – são menos permeáveis à influência partidária, embora
esta se possa fazer sentir ao nível das direções-gerais. No caso dos negócios
estrangeiros, os entrevistados entendem, tal como destacaremos de seguida, que
embora o patrocinato de serviço seja saliente, esta pode ser o efeito de
recompensas pessoais, sem implicar necessariamente a existência de influência
partidária.</p>

    <p>Nas restantes áreas setoriais, a maioria dos entrevistados admite a
existência de consideráveis influências partidárias, sendo que esta perceção é
mais acentuada nas áreas da administração regional e local, educação e cultura,
saúde. Além disso, para 44,4 por cento do total dos entrevistados que assumem a
existência de influências partidárias admite que a sua influência pode atingir os níveis hierárquicos mais baixos,
nomeadamente a estrutura intermédia.</p>

    <p>Um dos entrevistados notou como se torna difícil para um ministro <i>“não
ter em conta as pressões partidárias, quer do partido do partido do governo,
quer, eventualmente, do partido da oposição”</i> (D7), cuja influência pode
sobrepor-se à vontade do ministro da área setorial (D25). Em determinados
casos, o processo de escolha e de nomeação de dirigentes é precedido por um <i>“processo
normal de consulta” </i>(D14), que é feito de entre os contactos mais próximos
do ministro, que tendem a ser pessoas ligadas ao seu
partido político. Neste sentido, os processos de consulta para a escolha de
dirigentes acabam por passar pelo crivo partidário.</p>

    <p>Quando solicitados a identificar, ao nível partidário, as estruturas
que exercem (ou procuram exercer) maior influência sobre a escolha do ministro,
as perspetivas dos entrevistados tendem a destacar a importância das estruturas
subnacionais dos partidos<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>, particularmente 
as distritais<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>. Um dos entrevistados sublinhou que</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>principalmente ao nível local, ao nível concelhio e ao nível distrital penso que há
uma, enfim… uma pressão, ou pelo menos uma tentativa de nomeação, de colocação
de pessoas que estejam dentro das estruturas partidárias do partido que está no
poder<i> </i>[D22].</p></blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p>Na perspetiva de alguns dirigentes, o equilíbrio das forças regionais
pode mesmo sobrepor-se à posição das estruturas centrais do partido e do
ministro. Um entrevistado esclareceu que a sua nomeação obrigou o ministro a
articular as suas preferências com as estruturas subnacionais do partido, um
processo que determinou a sua nomeação para um cargo distinto daquele que o
ministro havia inicialmente considerado<i> </i>(D19). As estruturas
subnacionais dos partidos assumem, assim, um papel importante na distribuição
do patrocinato. Assim, a natureza estratárquica dos partidos políticos tende a
refletir-se na utilização do patrocinato, com as estruturas locais e regionais
a procurarem manter a sua influência no processo de nomeações, particularmente
nos casos em que se trata de cargos com importância para a prossecução de
políticas públicas ao nível local e regional.</p>

    <p>Apesar de ser relativamente inquestionável a influência partidária nos
processos de nomeação, os entrevistados reconhecem que as pressões exercidas
sobre os ministros podem ter, também, origem extrapartidária. Com efeito, os
entrevistados assumem que determinadas organizações da sociedade civil e grupos
de interesse: sindicatos (P2) e ordens profissionais (D7, D30, D10, D32); a
Maçonaria (D25, D3, O2); a Igreja (D3); ou os <i>stakeholders</i> das áreas
setoriais ou organizações específicas (P8, A3; P1), procuram também exercer
pressão sobre a nomeação das estruturas dirigentes. Embora a aceitação das
pressões destas organizações surja associada a uma forma de “<i>ter paz no
setor</i>” (D5), são também o reflexo das redes pessoais do ministro (O2).</p>

    <p>Para percebermos os critérios mais relevantes no
processo de escolha dos dirigentes, perguntámos aos entrevistados qual a sua
perspetiva relativamente aos critérios fundamentais utilizados no processo de
seleção. Os resultados são apresentados na <a href="#f1">figura 1</a>.</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="f1">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n220/n220a05f1.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

    <p>A maioria das referências direciona-se para a
importância das competências técnicas e profissionais dos dirigentes,
suplantando, em larga medida, os critérios de confiança política, partidária ou
mesmo a confiança pessoal. A saliência do critério da competência técnica é
consistente com a expectativa inicial de que o objetivo partidário do controlo
de políticas públicas tende a requerer fortes competências técnicas, que podem
estar associadas à natureza específica do cargo ou da área setorial, ou
competências de gestão de uma forma abrangente. Em paralelo, é consistente com
a expectativa de Freddi (1986) de que a legitimidade dos governos partidários
requer “capacidade de resolução de problemas”, o que exige uma forte componente
ao nível técnico.</p>

    <p>A saliência relativa dos critérios de seleção não
deve, contudo, ser considerada isoladamente. Com efeito, o modo como os
entrevistados combinam os critérios de seleção ajuda, também, a compreender a
importância do patrocinato para os governos partidários. No <a href="#q3">quadro 3</a> são apresentadas as combinações dos critérios de seleção
apresentados pelos entrevistados.</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="q3">
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><img src="/img/revistas/aso/n220/n220a05q3.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>


    <p>A saliência da competência técnica é reafirmada.
Este é o critério de seleção que mais vezes é referido
isoladamente, contrastando com outros critérios que apenas marginalmente são
considerados como critérios únicos no processo de seleção – como o passado
político e a confiança política –, um contraste que se acentua se atendermos
aos critérios como a experiência partidária e o conhecimento pessoal que não
emergem como critérios isolados. Além disso, para cerca de
47,7 por cento dos entrevistados<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>, este critério é considerado em combinação com critérios de natureza
pessoal ou de confiança política.</p>

    <p>Nas entrevistas, é sugerido
que, apesar da competência profissional ser incontornável, a escolha de
indivíduos especializados parece ocorrer em combinação com critérios de
confiança política, particularmente nos casos em que a nomeação envolve a
potencial manutenção de indivíduos nomeados pelo anterior executivo. Tal como
um entrevistado sublinhou,</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>A tendência era obviamente para a persistência de
pessoas competentes que vinham de gestões anteriores, mas não avançar
positivamente com uma nomeação dessa natureza sem garantir a confiança política
[P7].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>O passado político é o segundo critério de
seleção mais saliente, embora não surja como um critério comummente considerado
isoladamente. Dos 19 entrevistados que destacam este critério, 18 consideram
que a experiência anterior do nomeado relativamente ao exercício de funções
políticas ou dirigentes ou mesmo experiência parlamentar (indicadores do
passado político do nomeado) é um importante critério de seleção quando
associado aos critérios de competências técnicas.</p>

    <p>O conhecimento pessoal – tal como a confiança
política – surge como a terceira categoria mais saliente, com uma percentagem
de referências ligeiramente superior à experiência partidária. O critério do
conhecimento pessoal pode funcionar como um indicador da lealdade do nomeado,
uma vez que a escolha tende a recair sobre <i>“pessoas que são cúmplices, que
são nossas amigas, que a gente sabe que dão o peito às balas</i>” (P8). É,
assim, uma forma de assegurar a responsividade da estrutura dirigente que se
nomeia. Como notámos anteriormente, este é um critério que nunca é referido
isoladamente e, para 29,5 por cento dos entrevistados que destacam
este critério, ele surge associado às competências técnicas, sendo apenas
marginalmente associado ao critério da experiência parlamentar (referido por
nove por cento destes entrevistados). A articulação entre a confiança política
e pessoal é considerada uma forma segura de seleção dos dirigentes,
convertendo-se numa combinação de singular relevo nos casos em que se pretendem
efetuar importantes reformas no setor. Tal como um entrevistado salientou,</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>[S]e numa dessas áreas
há uma tensão porque há uma reforma que é preciso levar a cabo, ou se a um
organismo se atribui uma missão que exige uma liderança política muito forte,
aí provavelmente a tendência será para escolher pessoas que sejam da confiança
política, e às vezes até pessoal dos ministros [D15].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>O critério da experiência partidária é o menos
saliente, tendo sido referido por 29,5 por cento dos entrevistados. A filiação
partidária e o exercício de cargos de relevo nas estruturas partidárias são
elementos que permitem obter um indicador da lealdade <i>partidária</i> do
nomeado. Tal como um entrevistado destacou, o “<i>crivo da lealdade partidária
[é] raras vezes posto de lado</i>” (P7), uma perspetiva que é partilhada por 13
entrevistados que consideram que a vivência partidária pode gerar redes
pessoais passíveis de gerar confiança pessoal e política. Tal como um dos
dirigentes entrevistados referiu,</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>Admito que a vivência do partido crie
solidariedades fortes e que crie essa perceção da confiança e, portanto, admito
que quando se escolham pessoas de confiança e [com] uma vivência de quem tem
uma vivência partidária forte [D19].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>À semelhança do conhecimento pessoal, a
experiência partidária não é um critério que seja utilizado isoladamente. Com
efeito, 25 por cento dos entrevistados considera que este critério é, também,
articulado com o critério da competência técnica.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A análise dos critérios de seleção permite
confirmar a importância das competências técnicas para os governos partidários.
Tal como as formulações iniciais do modelo de governos partidários postulavam,
os ministros devem possuir as capacidades necessárias para gerir organizações
complexas (Rose, 1969, p. 413), um argumento que é extensível ao braço
operativo dos governos partidários. A perceção quanto à coexistência de
competência profissional com considerações políticas ou pessoais aponta para a
importância do patrocinato enquanto instrumento que permite alinhar as
preferências entre políticos e dirigentes e, ao mesmo tempo, assegurar o
desempenho dos governos partidários. Contudo, estes critérios podem coexistir
com dimensões políticas, pessoais e partidárias, sinalizando a existência de
potenciais mecanismos de recompensa. Na secção seguinte, analisamos as
perspetivas dos entrevistados relativamente às motivações do patrocinato, que
ajudam a clarificar a coexistência dos mecanismos de controlo e de recompensa.</p>

    <p>A segunda dimensão de análise reporta-se às
motivações do patrocinato, permitindo confirmar se as nomeações são um
instrumento ao serviço do poder (patrocinato de poder) ou se, tal como a literatura
sobre governos ­partidários tem salientado, a patrocinato é o reflexo do poder
ao serviço do partido político (patrocinato de serviço). As perspetivas dos
entrevistados quanto à principal motivação para o recurso à patrocinato são
apresentadas na <a href="#f2">figura 2</a>.</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="f2">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n220/n220a05f2.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

    <p>A maioria dos entrevistados (47,8 por cento)
considera fundamental o valor instrumental do patrocinato, embora não afaste a
lógica das nomeações como recompensa. Um entrevistado notava como o controlo da
implementação de políticas públicas pode beneficiar da
colocação de um elemento do partido em setores-chave:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>Eu acho que é muito mais a vontade do outro
exercer o poder e para exercer o poder precisa de pessoas que lhe sejam
totalmente fiéis para o exercício desse poder; e quem precisa é quem vem da
máquina partidária, porque vive da política, precisa do cargo para subsistir
economicamente [P8].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A coexistência destas motivações foi, igualmente, expressa por um
entrevistado que considerou que as motivações de recompensa nem sempre colocam
em risco a eficácia dos governos partidários, uma vez que é possível conjugar
elementos de recompensa com competências ­técnicas que asseguram a capacidade
de resolução de problemas da administração pública:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>os
partidos têm uma clientela normalmente para satisfazer. Essa clientela hoje é
mais informada, mais competente tecnicamente e portanto
em muitos casos as pessoas nomeadas terão essa situação de pertencerem ao
partido A ou B mas são também competentes para desenvolver os cargos [A1].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>A nomeação das estruturas dirigentes é assumida
como um instrumento no processo de políticas públicas, dada a sua
potencialidade na articulação de critérios de competência técnica, com outros
critérios, como a confiança política ou pessoal, tal como salientámos na secção
anterior. Um dos entrevistados assumia que:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>[É] de toda a conveniência que quem, enfim, vá
executar a política tenha alguma sinergia, tenha alguma empatia ou tenha alguma
forma estreita de pensar e planear as coisas que atinam com aquilo que é a
política geral. (…) [D22].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como notam Ryan e Bernard (2003), as pessoas
repetem as ideias ou temas que têm maior significado para si. Neste sentido,
codificámos, em paralelo, não apenas as respostas à questão direta, mas todas
as referências, ao longo das entrevistas que apontassem para o patrocinato de
serviço ou para o patrocinato de poder. Neste caso, as repetições em diferentes
momentos da entrevista foram assumidas como um reflexo da importância relativa
para os intervenientes. Estas referências são, no <a href="#q4">quadro 4</a>,
desagregadas pelas nove áreas setoriais.</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="q4">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n220/n220a05q4.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

    <p>Os dados sugerem que as duas motivações do
patrocinato tendem a coexistir. Nota-se contudo, uma
clara preponderância de motivações de controlo no setor da justiça, o que pode
dever-se às funções mais técnicas deste setor. Por outro lado, o patrocinato de
serviço parece concentrar-se no setor da Administração Regional e Local, que
compreende um conjunto de cargos menos visíveis perante o eleitorado e,
portanto, mais facilmente utilizados para efeito de recompensa.</p>

    <p>A que objetivos específicos associam os
entrevistados o patrocinato de serviço e o patrocinato de poder? As referências
nas entrevistas associadas ao recurso à nomeação das estruturas dirigentes como
instrumento no processo de políticas públicas aparecem associadas a<b> </b>quatro
dimensões: controlar a implementação de políticas
públicas; contornar a inércia da administração pública; superar a deficiência
ou inexistência de mecanismos de monitorização; e a necessidade de controlar a
informação.</p>

    <p>A primeira dimensão identificada reporta-se ao
controlo da implementação de políticas públicas. As
nomeações são apontadas como uma necessidade dos partidos no governo de obterem
uma estrutura de pessoal dirigente leal em termos políticos e em termos de
visão estratégica, necessária para o cumprimento de promessas eleitorais:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>[p]ara garantir a
reeleição, o que quer dizer a execução do programa (…) para garantir que o
programa é executado é necessário que os políticos tenham confiança absoluta
nos dirigentes [D15].</p></blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p>A segunda dimensão reporta-se à utilização das nomeações como uma
estratégia para contornar a inércia da administração pública, particularmente
quando esta é percecionada como uma força de bloqueio das políticas e das
atividades. Com efeito, 28,9 por cento dos entrevistados refere que os
funcionários da administração pública podem criar obstáculos no processo de
políticas públicas, quer pela inércia, quer pela defesa de interesses pessoais
e setoriais. Como nota um antigo ministro, há ministros para quem</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>a
inércia da própria máquina os obriga a ir mais além daquilo que seria racional
(…) O outro problema é que obviamente alguns corpos do Estado têm um sentido de
<i>esprit de corps</i> tão apurado que têm a capacidade de defender os seus
interesses boicotando as medidas adotadas pelo poder político [P6].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>A capacidade de bloqueio dos funcionários da administração pública
particularmente na fase de implementação pode ser mais notória quando estes
dirigentes não participam na preparação das políticas que têm de implementar (D33). Para os entrevistados, a perceção de uma
tendência bloqueadora da administração pública <i>“é um dos motivos por que por
vezes os políticos querem pessoas da sua confiança a muitos níveis, para poder
fazer as coisas avançar mais rápido”</i> (D2)<i>.</i></p>

    <p>A deficiência dos instrumentos de monitorização das atividades de toda
a máquina administrativa do Estado, incluindo das estruturas dirigentes é a
terceira dimensão mais salientada pelos entrevistados, referido por cerca de 21 por cento dos entrevistados. Os entrevistados
assumem que nem sempre os ministros definem com clareza os objetivos do
trabalho dos dirigentes, o que dificulta a sua avaliação (D7; P11; P6, O2). Ao
menorizar o risco de seleção adversa, os ministros têm menos incentivos para se
preocuparem com o risco destes dirigentes alterarem os seus comportamentos após
o início de funções. O esforço de monitorização parece ocorrer sobretudo quando, no decurso de um mandato governativo, um
ministro é substituído, mantendo, contudo, as elites dirigentes selecionadas
pelo anterior ministro (P2).</p>

    <p>Por fim, para cerca de 13 por cento dos
entrevistados que considera o patrocinato como instrumento de poder, o<i> </i>controlo
da informação e a obtenção de canais privilegiados de acesso às atividades das
entidades é considerado como crucial. As perspetivas dos entrevistados
relativamente à necessidade do controlo de fluxos de informação passa não
apenas pelo domínio da informação crucial para o processo de tomada de
decisões, mas também pelo controlo da informação cedida aos meios de comunicação
social, particularmente face à pressão mediática sobre os responsáveis
políticos e o modo como conseguem determinar a agenda. Como um dos
entrevistados destacou,</p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>    <p>A mediatização de qualquer coisa é tão forte e
tão perigosa que é um obstáculo (…) Isso para eles
[ministros] é terrível porque com esta abertura, com esta multiplicação das
fugas das fontes, qualquer responsável intermédio pode passar um dossier para a
imprensa que vai ser utilizado não se sabe como, que pode causar danos
políticos ao responsável (…) [D2].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Estas quatro dimensões identificadas nas entrevistas revelam a
perspetiva dos dirigentes quando à importância do patrocinato enquanto
mecanismo de reforço da influência dos governos partidários na estrutura
administrativa e, particularmente, no processo de políticas públicas. A análise
das entrevistas permitiu identificar, igualmente, as três dimensões específicas
a que se reportam os entrevistados que salientam a utilização das nomeações
como forma de recompensa: aplacar dissensões internas no partido; recompensar
lealdades partidárias; e assegurar apoio eleitoral.</p>

    <p>A dimensão mais saliente prende-se com o papel das dinâmicas
intrapartidárias no processo de nomeações, tendo esta dimensão sido
identificada por 66,7 por cento dos entrevistados que encaram o patrocinato
como um mecanismo de recompensa. Embora o equilíbrio ao nível das dinâmicas
intrapartidárias possa ser também saliente ao nível da composição do elenco
ministerial (D15), as nomeações para a cúpula dirigente são percecionadas como
uma forma de distribuição do poder interno nos partidos e de promover a coesão
intrapartidária (D2). Surgem, assim, como um<i> </i>instrumento para apaziguar
divergências entre o governo e determinadas alas do partido que o apoia (D30).</p>

    <p>Em segundo lugar, os entrevistados referem que os partidos são sobretudo motivados pelo acesso ao governo para, dessa
forma, terem recursos para distribuir aos seus apoiantes mais próximos ou para
recompensar lealdades partidárias. Com efeito, para 56,7 por cento dos
entrevistados, as nomeações são um mecanismo de distribuição de incentivos
seletivos<i> </i>a membros dos partidos como recompensa pela sua lealdade
partidária. Um dos entrevistados considerou que</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>[h]á sempre uma dinâmica
de lealdades partidárias, até muitas vezes de faturas a pagar por apoios
internos que conduziram à liderança do partido [P6].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A dimensão menos saliente reporta-se à utilização do patrocinato como
um mecanismo para assegurar apoio eleitoral. Com efeito, apenas um entrevistado
associou as nomeações ao desenvolvimento de redes clientelares que permitam a
mobilização eleitoral, tendo referido a utilização de outros recursos
(dinheiro, influência, proteção) para o mesmo efeito. Este resultado sugere
que, apesar de ser comummente associada a um instrumento de troca para a
obtenção de apoio eleitoral (v. Kitschelt e Wilkinson, 2007; ­Piattoni, 2001),
esta vertente do patrocinato não é percebido pelos entrevistados como
importante, apontando para um desvanecimento desta vertente.</p>

    <p>Até que ponto as nomeações em diferentes etapas do ciclo governativo
estão associadas a diferentes motivações do patrocinato? Para 63,3 por cento
dos entrevistados que assume que o patrocinato ocorre por motivos de
recompensa, considera que esta tende a ocorrer sobretudo
nas etapas iniciais do mandato governativo. Apesar de, em 2004, ter sido
introduzida a proibição de nomeações para cargos de
direção superior depois da demissão do governo ou da convocação de eleições
para a Assembleia da República e antes da confirmação parlamentar do governo
recém-nomeado<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>, os entrevistados revelaram-se céticos relativamente à sua aplicabilidade,
assegurando que o cumprimento deste artigo legal pode passar apenas pela
alteração das datas das nomeações (P8; D13), mantendo uma imagem de
“transparência e honestidade” (P8). As etapas finais dos ciclos governativos
são particularmente importantes para o “pagamento de lealdades” (D7),
particularmente se a “tendência for para mudar de governo” (P8). Para quatro
entrevistados<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>, este efeito tende a ocorrer particularmente no caso de indivíduos que
cessam funções nos gabinetes ministeriais. A utilização deste mecanismo de
recompensa permite compreender a perceção de que o exercício de cargos nos
gabinetes ministeriais pode servir como “trampolim” para outros cargos (Brans,
Pelgrims, Hoet, 2006).</p>

    <p>Apesar de serem sobretudo encaradas como
instrumentos de recompensa, alguns entrevistados destacaram poder existir uma
externalidade de controlo nas nomeações que ocorrem no final do mandato. Estas
podem permitir controlar políticas públicas e o acesso à informação,
particularmente se existir a expectativa de alternância no governo. Estas
nomeações permitem deixar “uma linha, uma rede de informação” (D22) na máquina
administrativa do estado.</p>

    <p>À semelhança dos ciclos governativos as nomeações
para diferentes níveis hierárquicos podem, também, representar diferentes
motivações dos partidos no governo. Com efeito, as motivações de recompensa
parecem ocorrer nos “lugares de meno[r]
responsabilidade” (D32), nos cargos e posições menos relevantes (mas com
atrativos salariais consideráveis) e, sobretudo, menos visíveis do ponto de
vista do eleitorado e do escrutínio dos meios de comunicação social (A1). Estas
nomeações tendem a recair sobre indivíduos com menores competências técnicas
(D19).</p>

    <p>As motivações de controlo podem também surgir nos
cargos menos visíveis. Com efeito, um dos entrevistados considerava que, em
alguns casos, a nomeação para estruturas de topo embora incida sobre indivíduos
competentes, é acompanhada por mecanismos adicionais de controlo, que são mais
“sub-reptícios” (D2), com o controlo das atividades das estruturas dirigentes
de topo a ser feito através da nomeação de outros dirigentes, que podem ocupar
posições hierárquicas mais baixas. Um dirigente explicou,
desta forma, esse processo:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>há
aqueles governos (…) que procuram, para determinadas funções, pessoas (…) que
são apresentadas (e são de facto) como técnicos, como pessoas com conhecimentos
na área, e depois tenta-se ter a segurança de que elas vão ser fiéis ao poder,
e (…) através das estruturas intermédias compor uma relação de predominância do
poder, ou dos interesses do poder, que é mais sub-reptícia [D2].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Este mecanismo é, igualmente, extensível à
utilização do patrocinato como um mecanismo de controlo de ministros
independentes. Um dos entrevistados assumia ser mais difícil para os partidos
políticos exercerem pressões sobre os ministros independentes. A solução tende
a passar pela nomeação de indivíduos para o seu gabinete ministerial:
“normalmente quando é um ministro independente põe-se um chefe de gabinete do
partido, que controla.” (D28).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Estes resultados indicam a necessidade de uma
leitura mais fina das motivações de controlo. Embora seja expectável a
existência de mecanismos de controlo no topo da administração pública para que
estas estruturas estejam alinhadas com as preferências políticas dos governos
partidários há mecanismos de controlo mais subtis que podem permitir
curto-circuitar o processo de políticas públicas a favor dos partidos
políticos. Este curto-circuito pode ser particularmente importante para os
governos partidários quando os cargos de direção superior são ocupados por
indivíduos técnicos independentes. Assim, a rede de controlo dos governos
partidários é mais complexa e pode atingir os níveis hierárquicos mais baixos.</p>

    <p>A última dimensão a abordar reporta-se à
existência de um padrão de partilha das nomeações. No <a href="#q5">quadro 5</a>,
apresentamos a perspetiva dos entrevistados relativamente à distribuição de
patrocinato, distinguindo a perceção relativa ao estilo de patrocinato
maioritário e proporcional por diferentes áreas setoriais.</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="q5">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n220/n220a05q5.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

    <p>Um estilo de
patrocinato maioritário reporta-se ao entendimento de que as nomeações estão
reservadas apenas para o partido que forma governo e um estilo proporcional
indica que os principais partidos podem partilhar algumas nomeações. Na
definição inicial de Müller (2000), o patrocinato proporcional implicava uma
distribuição das nomeações por todos os partidos, de forma proporcional à sua
representação parlamentar. No entanto, tal como o autor conclui,
em nenhum país se encontra este padrão de acordo inteiramente proporcional.
Neste sentido, os resultados apresentados reportam-se apenas à perceção
relativa à partilha de nomeações entre os partidos que alternam no governo.</p>

    <p>A maioria dos entrevistados considera que os partidos
na oposição têm também uma participação (ou, pelo menos, influência) no
processo de nomeações. Pelo contrário, apenas 27 por cento dos entrevistados
considera que o patrocinato é reservada aos partidos
no governo.</p>

    <p>A perceção da
partilha do patrocinato surge associada, nas entrevistas, a três dimensões. A
primeira, referida por 17 entrevistados, reporta-se à existência de um padrão
de cooperação interpartidário implícito, apenas para assegurar que a
alternância governativa não implica a substituição de toda a estrutura nomeada
pelo partido que cessa funções. Tal como um dos entrevistados destacou,</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se o partido que ganha as eleições a outro
afastar todos os membros que o outro nomeou vai-lhe acontecer o mesmo quando
vier a perder as eleições porque o poder não é eterno. E, portanto, há como que
algum equilíbrio (…) no tratamento destas questões [O5].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Contudo, vale a pena salientar que, de acordo com
a perspetiva dos entrevistados, o equilíbrio entre os partidos que alternam não
é idêntico em todos os níveis hierárquicos. Com efeito, a substituição da
estrutura dirigente deve ser limitada “<i>aos cargos mais fundamentais onde a
confiança política é considerada mais essencial</i>” (D20). Desta forma, o
estilo proporcional pode tornar-se mais saliente “à medida que vamos descendo”
na estrutura hierárquica (D30).</p>

    <p>A segunda dimensão sugere a importância dos
partidos da oposição enquanto força de bloqueio, que pode ser identificada não
apenas ao nível dos serviços centrais, mas também nas nomeações do governo
central para os serviços periféricos. Este efeito, destacado por cinco
entrevistados, é ­particularmente saliente quando os partidos da oposição detêm
maior implantação autárquica na região (D19).</p>

    <p>A terceira dimensão, mencionada por três
entrevistados, reporta-se à utilização do patrocinato como uma moeda de troca,
fruto da necessidade de estabelecimento de consensos e equilíbrios ao nível
legislativo (P3).</p>

    <p>Estes resultados sugerem a tendência para se
perpetuar a expectativa quanto à existência de uma dinâmica cooperativa e
consensual da relação entre o PS e o PSD deste a transição para a democracia. A
perspetiva (quase) generalizada relativamente a um estilo de patrocinato
proporcional emerge como o reflexo da existência de acordos (ainda não sejam
explícitos) entre estes partidos para manterem a principal dimensão de
competição (Jalali, 2007, p. 211).</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>CONCLUSÃO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Neste artigo procuramos, através de entrevista de elites, analisar a
importância do patrocinato para os governos partidários. Os dados apresentados
sugerem a existência de consideráveis influências partidárias no processo de
escolha das estruturas dirigentes em Portugal. O recurso ao patrocinato surge
relacionado não apenas com motivações de controlo das atividades dos
dirigentes, dos fluxos de informação e, de uma forma global, do controlo do
processo de políticas públicas, mas também com motivações mais prosaicas
associadas a recompensas partidárias. O patrocinato de poder é, contudo,
considerado predominante. A nomeação da cúpula dirigente é crucial não apenas
para assegurar a implementação de políticas públicas,
mas também para contornar a inércia da máquina administrativa do Estado e
aliviar os ministros das tarefas de monitorização da estrutura dirigente,
apontando para a maior importância atribuída aos mecanismos <i>ex ante</i>.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em paralelo, os resultados apontam para
um padrão de distribuição proporcional do patrocinato, refletindo os padrões de
cooperação entre PSD e o PS. A partilha de posições nas estruturas da
administração pública parece dever-se à existência de acordos tácitos (e não
explícitos) entre partidos para se manterem na principal dimensão de
competição. Com efeito, a partilha de nomeações ocorre devido a um
comportamento estratégico e racional por parte do partido no governo, que
procura, por esta via, evitar bloqueios no processo de políticas públicas e
contornar bloqueios que possam emergir, particularmente ao nível periférico,
quando os partidos da oposição têm maior força autárquica.</p>

    <p>Estes resultados são particularmente relevantes num contexto em que se
antevia o declínio da utilidade do patrocinato que, em última instância, viria
a tornar-se um instrumento “obsoleto” (Bearfield, 2009). Pelo contrário, a
análise empírica deste trabalho permite confirmar que a “revolução silenciosa”
(Sorauf, 1960) do patrocinato parece tê-lo transformado
num importante instrumento para amenizar os potenciais problemas de delegação
próprios do processo de políticas públicas.</p>

    <p>O recurso ao patrocinato como um instrumento de controlo não está
isenta de riscos. A utilização do patrocinato importa riscos não apenas para o
processo de políticas públicas, mas também para os próprios partidos políticos
e para a qualidade da democracia. Em primeiro lugar, o recurso ao patrocinato
pode implicar sérios riscos para a continuidade de políticas e de reformas,
particularmente em cenários de alternância governativa. A tendência para
assegurar a responsividade da administração pública através de mecanismos como
o patrocinato, impele os partidos no governo a substituir a elite dirigente da
administração pública. Tal gera potenciais descontinuidades no processo de
implementação de políticas públicas e de reformas a longo
prazo. Desta forma, a utilização do patrocinato pode contribuir para a
deterioração do processo de políticas públicas, uma vez que tanto políticos
como altos cargos dirigentes tendem a evitar compromissos, planos ou reformas
políticas a longo prazo.</p>

    <p>O recurso ao
patrocinato tem, também, consequências ao nível ­partidário. A perceção do
eleitorado quanto à continuada utilização do patrocinato como uma estratégia de
autoalimentação dos partidos dificulta a inversão do enraizado sentimento 
anti partidário – que é considerado um traço cultural da
Europa do Sul (Torcal, Gunther e Montero, 2002). Naturalmente, isso tem
implicações para a qualidade da democracia. A crise de confiança nos partidos
políticos embora não tenha implicações significativas para a estabilidade do
regime democrático (Torcal, <i>et</i><i> al</i>.,
2002) tem importantes implicações na erosão das relações entre os partidos e os
cidadãos. Assim, a perceção que o eleitorado tem da utilização do patrocinato
pode aumentar o desinteresse e o distanciamento dos cidadãos em relação aos
partidos políticos e, ao mesmo tempo, reduz o potencial dos partidos para a
mobilização do eleitorado, o que pode ser uma ameaça para a qualidade da
democracia, na medida em que esta depende da participação dos cidadãos. Neste
sentido, o patrocinato pode ser parte da solução para os desafios enfrentados
pelos governos partidários; mas poderá também ser parte do problema em termos
dos desafios da qualidade da democracia.<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>

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333-349.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=081992&pid=S0003-2573201600030000500031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>ROSE, R. (1969), “The variability of party government:
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413-445.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=081994&pid=S0003-2573201600030000500032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>RYAN, G.W., BERNARD, H.R. (2003), "Techniques to identify themes”. <i>Field Methods</i>, 15 (1),
pp. 85-109.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=081996&pid=S0003-2573201600030000500033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SHEFTER, M. (1994), <i>Political Parties and the
State: The American Historical Experience</i>, Princeton, Princeton
University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=081998&pid=S0003-2573201600030000500034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SORAUF, F.
(1960), “The silent revolution in patronage”.Public</i><i>Administration
Review</i>, 20 (1), pp. 28-34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=082000&pid=S0003-2573201600030000500035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TORCAL, M., GUNTHER, R., MONTERO, J. R. (2002),
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    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Recebido a 26-03-2015. Aceite para publicação a
21-09-2015.</p>

    <p>&nbsp;</p>


    <p><b>NOTAS</b></p>


    <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup>Projeto internacional,
coordenado por Petr Kopecký (Universidade de Leiden) e Peter Mair (Instituto
Universitário de Florença).</p>

    <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup>Quando se referem às
estruturas dos partidos ao nível subnacional, os entrevistados tendem a considerar
que os presidentes de Câmara Municipais podem adquirir especial relevo. Tal
como um dos entrevistados sublinhou, “<i>seria impensável nomear o presidente
da CCDRN sem o consenso de alguns presidentes de câmara influentes na região</i>”
(P7).</p>

    <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup>Perspetiva identificada por
sete entrevistados: D3; P6; D19; P11; D10; P1; e D22.</p>

    <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup>Esta percentagem
corresponde à soma dos entrevistados que consideraram o critério da competência
técnica, em conjugação com os critérios de conhecimento pessoal e a confiança
política, num total de 21 casos.</p>

    <p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup>V. o artigo 19 da Lei
2/2004 de 15 de janeiro. Este artigo manteve-se na Lei 51/2005 de 30 de agosto,
tendo sido eliminado na Lei 64/2011 de 22 de dezembro.</p>

    <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup> D28; P7; D25; D22.</p>

    <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup> A recolha dos dados
empíricos utilizados neste artigo foi feita no âmbito do Projeto “Patronagem
Política em Portugal” coordenado pelo Prof. Doutor
Carlos Jalali e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia,&nbsp; com&nbsp;
a&nbsp; referência&nbsp; ptdc/cpo/65419/2006 e pelo Fundo Europeu de
Desenvolvimento Regional (FEDER) através do Eixo I do Programa Operacional
Fatores de Competitividade (POFC-COMPETE) – COMPETE FCOMP-01-0124-FEDER-007115.
Esta investigação foi ainda apoiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia,
através das bolsas SFRH/BD/36018/2007 e SFRH/BPD/93149/2013. Os autores
gostariam de agradecer aos revisores anónimos que permitiram melhorar a qualidade
deste trabalho.</p>


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