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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>

    <p><b>LINZ, Juan</b></p>

    <p><i><b>Autoritarismo e Democracia</b>,</i></p>

    <p>Lisboa, Livros Horizonte, 2015, 304 pp.</p>

    <p>ISBN 9789722418010</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Carlos Gaspar*</b></p>

    <p>*Instituto Português de Relações Internacionais da
Universidade Nova de Lisboa, Rua de D. Estefânia, 195, 5.º Dt.º
— 1000-155, Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:c.gaspar@ipri.pt">c.gaspar@ipri.pt</a></p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>É um feito notável
reunir num único volume um conjunto de ensaios que tornam possível uma
iniciação à vasta obra de Juan Linz, cuja investigação constitui um marco
incontornável na ciência política moderna: foi o que conseguiu fazer Pedro
Tavares de Almeida, responsável pela publicação de <i>Autoritarismo e
Democracia</i>, a primeira coleção portuguesa de textos de Linz, enquadrada por
um prefácio erudito de António Costa Pinto.</p>

    <p>Juan Linz, Professor de sociologia e de
ciência política em Columbia e em Yale, teve uma vida tão interessante como a
sua obra e que determinou, frequentemente, as escolhas dos seus temas de
investigação. Nasceu em Bona, em 1936, numa família católica, filho de pai
alemão e de mãe espanhola, que o educou sozinha depois da morte acidental do
marido. Em 1932, partem para Madrid mas, quatro anos
depois, apanhados pela guerra civil, regressam à Alemanha, onde vivem a
experiência da repressão nazi. Depressa voltam a
Espanha e, em 1937, instalam-se em Salamanca, a capital de Franco, onde Juan
Linz milita na juventude na Falange Espanhola das JONS. No fim da guerra,
recomeça os seus estudos, matricula-se na Faculdade de Direito e na Faculdade
de Ciências Políticas e Económicas da Universidade Complutense e forma-se em
Direito. Em 1948, Francisco Conde, catedrático de Direito Político, convida-o
para integrar o novo Instituto de Estudios Politicos e ajuda-o a obter uma
bolsa do Ministério dos Negócios Estrangeiros para completar os seus estudos
nos Estados Unidos. Em 1950, Linz vai para a New School of Social Research, 
ao mesmo tempo que é aceite no Departamento de Sociologia da
Universidade de Columbia, onde faz o seu doutoramento com Seymour Martin
Lipset.</p>

    <p>É o início de uma nova fase: o cavalheiro
espanhol que se tornou num intelectual europeu vai passar a ser um cientista
político norte-americano. Linz pertence a uma nova geração brilhante de
investigadores de filiação weberiana que vai marcar a ciência política moderna
e que inclui, além de Lipset, Samuel Huntington, Reinhard Bendix, Shmuel
Eisenstadt, David Apter, Joseph LaPalombara, Gabriel
Almond, Stein Rokkan e Giovanni Sartori.</p>

    <p>Os temas de investigação de Linz evoluem
gradualmente. Os primeiros trabalhos são estudos de sociologia política,
incluindo a sua tese, <i>The Social Bases of Political Diversity in Western
Democracies</i>. No mesmo registo, nos anos seguintes, vai analisar as elites e
os grupos de interesses na Espanha. Em 1964, a publicação de “An Authoritarian
Regime: the Case of Spain” marca a viragem para a ciência política, com o
primeiro enunciado da sua teoria dos regimes, cuja segunda versão –
“Totalitarian and Authoritarian Regimes” – publicada em 1975 no <i>Handbook of
Political Science</i>, editado por Fred Greenstein e Nelson Polsby, se vai
tornar uma referência obrigatória. Em 1978, publica, com Alfred Stepan, <i>The
Breakdown of Democratic Regimes</i>, onde inicia os estudos sobre a democracia,
que dominam as suas investigações nos 30 anos seguintes.</p>

    <p>A coletânea portuguesa reúne ensaios
políticos relevantes, começando com o texto crucial e pouco conhecido de 1964 –
“Um regime autoritário – o caso da Espanha”. Os restantes, publicados nos anos
1990, são versões atualizadas dos seus temas fundamentais: “A crise das
democracias” retoma a linha do <i>Breakdown of Democratic Regimes</i>;
“Transições à democracia” e “A consolidação democrática” tratam dos novos
regimes; “Presidencialismo ou parlamentarismo: faz alguma diferença
?” – elabora sobre as condições institucionais da estabilidade
democrática; “Regimes políticos e direitos humanos: uma perspetiva histórica e
comparada” – regressa a um tema crucial da classificação dos regimes,
nomeadamente a questão complexa do terror totalitário. A escolha é notável e
resume a problemática dos estudos políticos de Linz,
as traduções são rigorosas e, por vezes, de grande qualidade.</p>

    <p>A sua principal contribuição para a
ciência política é a tipologia dos regimes, que parte da experiência espanhola.
Linz critica o modelo de análise que definia um <i>continuum</i> entre dois
polos – o polo democrático e o polo totalitário – e no qual se deviam encaixar,
<i>tant bien que mal</i>, todos os sistemas políticos. Pelo contrário, Linz
considera indispensável separar três tipos de regimes – totalitários,
autoritários e democráticos – e reconhecer que os regimes autoritários
não podem ser vistos ou como totalitarismos falhados, ou como regimes
modernizadores cujo desenvolvimento antecipa a democratização. A sua classificação,
que se torna uma referência consensual na ciência política, está expressa no
texto original de 1964, onde se definem os regimes autoritários como um tipo
autónomo: ao contrário das democracias, nos regimes autoritários existe apenas
um “pluralismo limitado”; ao contrário das democracias e dos totalitarismos, os
regimes autoritários temem a participação e a mobilização política; ao
contrário dos totalitarismos, os regimes autoritários não têm uma “ideologia
elaborada” da qual depende a sua legitimidade.</p>

    <p>Nos ensaios posteriores de 1975 e de 2000,
Linz alarga e completa o modelo original. Desde logo, faz uma distinção entre
regimes tradicionais, ou “sultanísticos”, e os regimes modernos e insiste na
diferenciação entre ditadura e autoritarismo. Por outro lado, elabora uma
classificação dos regimes autoritários para distinguir entre os regimes 
burocráticos-militares (pretorianos), o “estatismo orgânico”
(corporativistas), os pós-democráticos mobilizacionais (fascistas) e os
pós-totalitários, incluindo os autoritarismos pós-comunistas. Por fim,
reconhece a importância crucial da ideologia como a forma de legitimação das
“ideocracias”: a rotinização ideológica é o fator crucial de mudança nos
regimes totalitários e, com o fim do comunismo, “o curso do totalitarismo
fechou o círculo, desde o impulso inicial ideológico-utópico até à perda de
legitimidade ideológica”.</p>

    <p>Em 1975, Linz é pessimista sobre a
possibilidade de um futuro democrático e sobre a mudança dos regimes
comunistas: as suas investigações passam a concentrar-se nos estudos sobre a
democracia, que começam sob o signo das transições pós-democráticas,
nomeadamente as crises paralelas da República espanhola e da República de
Weimar. Porém, as mudanças em Portugal e na Espanha impõem a continuação das
suas investigações sob o signo da consolidação democrática pós-autoritária e,
depois do fim da Guerra Fria, pós-totalitária.</p>

    <p>No ensaio sobre “A crise das democracias”,
Linz enquadra a queda dos regimes democráticos nos anos trinta como uma “crise
de legitimidade que tinha raízes ideológicas mas
também era o resultado da evolução histórica, da I Guerra Mundial e do seu
impacto sobre o sistema político europeu”: a vaga anti-democrática no período
entre as duas guerras é um “parentesis histórico” que interrompe “o processo de
transformação política e social iniciado no século XIX”. A
retoma desse processo abre caminho às transições pós-autoritárias, cujo
caso paradigmático é a “<i>ruptura pactada</i>” na Espanha pós-franquista, um
modelo seguido tanto na América Latina, como nas transições pós-comunistas na
Polónia e na ­Hungria. As condições de sucesso estão bem ­identificadas:
primeiro, o compromisso de realizar eleições; segundo, a qualidade e a
racionalidade dos responsáveis políticos; terceiro, a continuidade do Estado
que deve manter intacto o monopólio da violência; quarto, uma conjuntura
internacional positiva.</p>

    <p>A questão seguinte é como consolidar as
transições democráticas. Não há consenso sobre os critérios que possam decretar
a consolidação da democracia e a prudência recomenda uma “concepção
minimalista”, que exige apenas uma situação em que “nenhum dos atores políticos
considera haver alternativa aos processos democráticos de chegar ao poder e
nenhuma instituição tem direito a vetar a acção dos governantes
democraticamente eleitos”. O tema parece inesgotável, talvez por não ser possível declarar definitivamente consolidado nenhum
regime político, mesmo no caso das democracias.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>De certa maneira, é mais interessante
estudar a qualidade das democracias e as condições da sua estabilidade. Neste
registo, a <i>bête noire</i> de Linz são os regimes presidenciais, ou
presidencialistas, nomeadamente os regimes sul-americanos, que tentam imitar o
modelo da República norte-americana com resultados desastrosos - a sua descrição
dos malefícios do presidencialismo é uma antecipação vertiginosa da última
crise brasileira.</p>

    <p>O tema está esboçado no ensaio original
sobre a queda das democracias: a combinação dramática entre a concentração do
poder presidencial, que pode unir a oposição parlamentar contra o Chefe do
Estado e bloquear o sistema político, e a rigidez da duração do mandato
presidencial, que impede a resolução das crises de sucessão, faz com que nos
regimes presidenciais “quase por definição, as crises de governo se tornem
crises de regime”. Não é evidente nem que a concentração de poder presidencial
estimule a paralisia do sistema, nem que os procedimentos sucessórios não
possam funcionar – funcionaram bem nos Estados Unidos, mesmo se têm funcionado
mal no Brasil. Mas, mais importante, é fazer, como Manuel de Lucena, a
distinção entre regimes presidenciais – o sistema constitucional único dos
Estados Unidos, assente na separação de poderes entre o Presidente e o
Congresso – e regimes presidencialistas, como na V República francesa, onde o
chefe do Estado não tem os poderes formais do presidente norte-americano, mas
tem mais poderes efetivos, quando a Assembleia Nacional é dominada pela maioria
presidencial.</p>

    <p>Nos últimos anos, o otimismo de Linz era
temperado por uma preocupação com o regresso dos nacionalismos e, também, com a
necessidade de melhorar a qualidade institucional das democracias. Os
responsáveis políticos, os “engenheiros políticos” e os cientistas políticos
podem responder tanto melhor aos problemas dos regimes democráticos, novos e
velhos, mais ou menos consolidados, se conhecerem bem o legado de Juan Linz.</p>



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