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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>

    <p><b>ROSAS, F., MACHAQUEIRO, M., e OLIVEIRA P.A.</b> (orgs.)</p>

    <p><i><b>O Adeus ao Império. 40 Anos de
Descolonização Portuguesa</b>,</i></p>

    <p>Lisboa, Nova Vega, 2015, 257 pp.</p>

    <p>ISBN 9789897500404</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Miguel Cardina</b>*</p>

    <p>*Centro
de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, CES, Colégio de S. Jerónimo , Largo D. Dinis,
Apartado 3087 - 3000-995 Coimbra, Portugal. E-mail: <a href="mailto:miguelcardina@ces.uc.pt">miguelcardina@ces.uc.pt</a></p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Não é de agora o
interesse historiográfico sobre a derrocada do império colonial português e
sobre os processos de descolonização política que se lhe seguiram. É evidente,
porém, que o assunto tem vindo a recolher uma atenção crescente nos últimos
anos, fruto de uma série de trabalhos académicos que têm contribuído para
completar o conhecimento existente e para abrir novas pistas de investigação.
Mas muito ainda existirá por fazer a esse nível: em primeiro lugar, porque
estamos a falar de um curto mas denso período de
transformações, de realinhamentos e de influências, ocorridas simultaneamente
nas antigas metrópole e colónias, e que se decompõe num muito diversificado
conjunto de temas e problemas; em segundo lugar, porque as rupturas então
desencadeadas originaram “ondas de choque” que foram reverberando ao longo das
últimas quatro décadas, e que se ­constituem como legados desse passado a
carecer igualmente de observação crítica.</p>

    <p>É por isso de
assinalar a publicação de <i>O Adeus ao Império. 40 Anos de Descolonização
Portuguesa</i>. Organizada por Fernando Rosas, Mário Machaqueiro e Pedro Aires
Oliveira, a obra oferece-nos uma abordagem panorâmica sobre diferentes aspetos
associados ao processo de descolonização política: a emergência em Portugal de
um discurso e de uma prática anticolonial, antes de 25 de Abril de 1974, e os
posicionamentos das diferentes forças políticas relativamente ao tempo e aos
modos de descolonizar entre 1974 e 1975; a influência do quadro internacional;
a construção e o percurso dos movimentos de libertação e o papel da guerra, não
apenas como fator de derrocada do regime, mas também de legitimação das elites
nacionalistas africanas que conduziriam os processos de independência nas
antigas colónias. Evocados são também alguns impactos na antiga metrópole de
uma ferida (pós-) imperial que, podendo resultar da perturbante presença do
colonialismo como “nosso impensado” (Lourenço, 2014), origina por isso mesmo
leituras do passado que oscilam entre o mal-estar da perda e a reatualização
dos discursos da singularidade e relativa benignidade do colonialismo
português.</p>

    <p>O livro abre com uma introdução, a cargo
dos organizadores, onde se regista a modelação que o tema foi recebendo em
Portugal nas últimas décadas. Segue-se o texto de Fernando Rosas, que percorre
o sinuoso e tardio advento do anticolonialismo nas oposições ao Estado Novo,
efetuando uma genealogia que mapeia a defesa das colónias no republicanismo –
de forma diferente da produzida pelo ideário estado-novista, mas no essencial
impermeável, até muito tarde, a posturas anticoloniais – o reflexo disso na
corrente socialista, a secundarização do tema num PCP muito marcado pelo
frentismo e a afirmação tardia da centralidade do direito à autodeterminação
dos povos coloniais, já no contexto da deterioração do regime, e na qual teve
papel preponderante uma nova extrema-esquerda, emergente
sobretudo a partir de 1970, e que transformou a guerra colonial no seu
alvo principal.</p>

    <p>Bruno Cardoso Reis regressará, um pouco
mais à frente, ao tema do anticolonialismo, num texto sobre as visões
portuguesas da descolonização. Analisando o posicionamento dos partidos
políticos sobre a questão, explicita como, no período revolucionário, as forças
políticas se distinguiram mais entre “modos de fazer” e não tanto diante da
opção entre descolonizar ou não descolonizar. Ao mesmo tempo, anota as razões
que levaram a que se procedesse a uma “descolonização rápida” – a necessidade
de obtenção de apoio internacional para o novo regime, de realizar eleições e
estabilizar um quadro partidário na então metrópole, de terminar a guerra e
fazer rapidamente a transferência de poderes – que, de certa maneira,
configuram uma “descolonização exemplar”, não menos caótica ou violenta do que
outras, e em linha com a vontade dos partidos políticos e dos atores
internacionais relevantes. Sobre estes aspeto – o do
“puzzle internacional” – se debruça o capítulo de Pedro Aires Oliveira. Aqui se
reenquadram os acontecimentos no friso mais largo das relações e das
instituições internacionais, notando como “embora a derrocada do império
português se tenha ficado mais a dever a factores de ordem endógena (a fadiga
do exército perante um impasse estratégico sem fim à vista) do que a elementos
de pressão exógenos (ultimatos de grandes potências ou o desgaste provocado por
sanções ou boicotes), parece indiscutível que várias dinâmicas internacionais,
ou até mesmo transnacionais, contribuíram para que actores influentes na política
e sociedade portuguesa tomassem consciência dos riscos inerentes a uma
resistência cega à descolonização” (p. 75).</p>

    <p>Os capítulos de Malyn Newitt e de ­Norrie
Mac Queen colocam o enfoque nos movimentos que levaram a cabo as lutas de
libertação em África. Newitt constata, primeiramente, as diferenças de contexto
entre os processos de surgimentos dos movimentos independentistas nas antigas
colónias portuguesas e os surgidos no âmbitos dos
colonialismos belga, francês e inglês. Nota depois a pluralidade e as
rivalidades entre os distintos movimentos anticoloniais apostados em combater a
presença portuguesa, mas também algumas articulações produzidas – de que a <i>Conferência
das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas</i> (CONCP) é a mais
conhecida. Norrie Mac Queen, por sua vez, demonstra o caráter plural das lutas
desenvolvidas contra o colonialismo português e produz um balanço sobre a
situação militar em África em 1974, mostrando os impasses fundos em que estava
mergulhada uma potência colonial que “tinha já abandonado a
marcha da História” (p. 58). Desta forma, acaba no fundo por responder à velha
questão – muito cara a alguma produção de timbre revisionista, admiradora da
“notável proeza das armas” resultante do “modo português de fazer a guerra”
(Cann, 1997) – sobre o facto de a guerra estar ou não estar perdida no momento
em que se produz o golpe militar que derruba o Estado Novo.</p>

    <p>Os textos seguintes percorrem a forma como
a descolonização política e as independências se processaram
nos diferentes territórios coloniais. António E. Duarte Silva examina o
caso guineense, num contexto em que pesava a preponderância do PAIGC e a
proclamação prévia, em setembro de 1973, da República da Guiné. Ângela Benoliel
Coutinho tece as origens do partido, os conflitos entre “caboverdeanos” e
“guineenses” e os acontecimentos que marcaram os anos de 1974 e 1975 no
arquipélago de Cabo Verde. Amélia Souto analisa a “herança e memória” da
independência moçambicana: da luta armada à transição e à aposta de erradicação
dos vestígios da herança colonial, na sequência da independência, a 25 de junho
de 1975. Fernando Tavares Pimenta escreve sobre Angola, detalhando os meses que
precederam a assinatura do acordo de independência, em janeiro de 1975. Augusto
Nascimento aborda o processo em São Tomé e Príncipe – que não teve luta armada
no seu território mas onde o MLSTP se constituiu como
fiel depositário da herança marxista e pan-africanista - e Fernando Augusto de
Figueiredo analisa o “inacabado processo de descolonização de Timor” que, como
é sabido, iria redundar numa ocupação indonésia de mais de duas décadas.</p>

    <p>Os dois últimos capítulos regressam ao
caso português. Ancorada na sua tese de doutoramento, Marta Rosales fala-nos de
“retornos e recomeços”, ou seja, das experiências de desenraízamento e
ressignificação dos chamados “retornados”, fazendo um retrato geral do fenómeno
de repatriamento e analisando depois o caso de dez famílias provenientes de
Moçambique, de origens goesas e portuguesas. A finalizar, Mário Machaqueiro
interroga as memórias difíceis da descolonização. Dialogando com alguma da
produção que tem surgido nas últimas décadas – da ensaística de Eduardo
Lourenço ao gesto testemunhal e literário de Isabela Figueiredo e Dulce Maria
Cardoso – o autor produz um texto estimulante em que reflete sobre o trauma da
perda colonial e sobre a sua complicada inscrição no Portugal contemporâneo.</p>

    <p>Definindo o objetivo de “oferecer ao
público um conjunto de ensaios que permitisse situar o problema da
descolonização de forma menos emotiva e desejavelmente dando conta dos avanços
que a investigação histórica tem produzido” (p. 11), o livro compila estudos
que, de certo modo, desenham um balanço historiográfico sobre as rupturas
políticas originadas com o fim do Império ultramarino português. E isso não só
é muito útil para quem pretende saber mais sobre o assunto, como se constitui
num estado da arte que antecipa o que ainda se torna necessário explorar sobre
os processos de descolonização e os seus múltiplos impactos.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <!-- ref --><p>CANN, J.P. (1997), <i>Counterinsurgency in
Africa. The Portuguese Way of War, 1961-1974</i>. Westport
CT e Londres, Greenwood Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=082645&pid=S0003-2573201600030001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>LOURENÇO,
E. (2014), <i>Do Colonialismo como Nosso Impensado</i>, Organização e Prefácio
de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi, Lisboa, Gradiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=082647&pid=S0003-2573201600030001000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>


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