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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Viajantes, Viagens e Turismo]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de Aveiro DEGEIT ]]></institution>
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<country>Portugal</country>
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</front><body><![CDATA[  
    <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>

    <p><b>JOAQUIM, Graça</b></p>

    <p><b>Viajantes, Viagens e Turismo</b>,</i></p>

    <p>Editora Mundos Sociais, CIES, ISCTE-IUL, Lisboa, 2015, 260 pp.</p>

    <p>ISBN 9789898536457</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Elisabeth Kastenholz</b>*</p>

    <p>*Universidade de Aveiro, DEGEIT, Campus Universitário Aveiro — 3810-119, Aveiro,Portugal. 
E-mail: <a href="mailto:elisabethk@ua.pt">elisabethk@ua.pt</a></p>


    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este livro escrito
por Graça Joaquim apresenta-se-nos como uma obra preciosa, pertinente e curiosa
sobre o significado da viagem, aos olhos dos viajantes, num contexto de turismo
contemporâneo global e globalizante.</p>

    <p>Penso que este resultado dos cinco anos de
trabalho intenso (ou de “obsessão”, como a própria autora diz) de doutoramento
em sociologia, trabalho orientado por António Firmino da Costa e enriquecido
pelas narrativas e reflexões partilhadas de 17 viajantes “profissionais”,
merece a atenção de todos aqueles que refletem sobre a essência
sociopsicológica do fenómeno turístico, sobre aquilo que motiva e aquilo que
significa a viagem para quem a realiza e até para a nossa sociedade
contemporânea. A ênfase está, efetivamente, na experiência turística procurada
e desejada por tantos, experiência vivida de forma mais ou menos intensa em
contextos distintos, em viagens por vezes de natureza mais “recreacional”,
banal e transitória ou porventura mais demorada, “experiencial”, profunda e
transformadora, numa procura e descoberta do “Outro” ou do “<i>centre out there</i>”,
i.e. numa autodescoberta através da relação com o
“Outro”, como sugerido por Cohen (1979).</p>

    <p>Enquanto investigadora e professora de
ensino superior na área do turismo, sobretudo nas áreas do “comportamento do
consumidor em turismo” e do “<i>marketing</i> de destinos turísticos”,
apologista de abordagens interdisciplinares ao estudo do complexo fenómeno
turístico, destaco a qualidade, rigor e clareza desta obra que irei certamente
usar como referência em aulas e orientações, bem como na minha própria
investigação futura sobre temáticas relacionadas com a experiência turística.
Partilho, efetivamente, a visão da autora sobre a centralidade da experiência
turística na compreensão do fenómeno do turismo, para a grande maioria das
abordagens de investigação neste campo, sendo estas de índole sociológica,
geográfica, ­económica, de planeamento, gestão ou do <i>marketing</i>
turístico. Sem compreender o que o turista<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a> ou viajante (por autodefinição ou definição simbólica) procura e vive
como experiência nas suas viagens, que significados lhes atribui,
como a experiência se enquadra no seu percurso autobiográfico, dificilmente se
conseguirá entender o fenómeno turístico e muito menos planear e geri-lo de
forma a contribuir para um desenvolvimento de facto ­sustentável.</p>

    <p>A autora apresenta-nos, nesta sua obra,
tanto uma reflexão rica, bem estruturada e muito bem fundamentada em autores
consagrados e mais recentes da sociologia do turismo, sobre a experiência
turística como objeto de estudo sociológico, na sua complexidade, natureza
multifacetada, pluralidade de conceptualizações e práticas, tipologias e
modelos sugeridos, perspetivas em evolução, como nos brinda com uma análise
qualitativa interessantíssima sobre esta temática, rica em narrativas curiosas
e inspiradoras, com base em entrevistas de profundidade com 17 viajantes
“profissionais” e/ou de “modo de vida”, como a autora os designa, alguns dos
quais bem mediáticos e conhecidos do público português (como Miguel Sousa
Tavares, Gonçalo Cadilhe ou Gonçalo Velez). Graça Joaquim optou, assim, por
focar a atenção não em narrativas representativas do fenómeno do turismo
massificado e estandardizado, na viagem habitual de férias da maioria de
turistas que comummente recorrem à indústria turística, por muito discutível
que seja uma generalização destas práticas. Ela escolheu como objeto principal
do seu estudo empírico um grupo de viajantes <i>sui generis</i>, “os viajantes
que têm a <i>viagem como modo de vida</i> e a sua relação com a viagem e o
turismo, através das suas práticas, modos de vida, narrativas e representações
sociais sobre a viagem e o turismo” (Joaquim, 2015, p. 1). São indivíduos, por
um lado, produtores de narrativas de viagem (através da literatura e jornalismo
de viagens ou como operador/guia especializado num contexto de turismo de
aventura), i.e. assumindo
um papel ativo na (re)produção do imaginário turístico, e, por outro lado,
pessoas que assumem a viagem como “modo de vida”, viajantes de longa duração.
É, contudo, através do olhar deste grupo minoritário de viajantes, tipicamente
num contexto de experimentação ou até “existencial”, i.e. de
procura de um “<i>center-out-there”</i> (Cohen, 1979), que se percebe melhor a
diferença – tanto de imaginários, ideais e significados como de práticas – em
relação ao turismo mais organizado, massificado e estandardizado, oferecido
pela indústria turística e consumido por um turista, num modo de recreio ou de
“diversão” (Cohen, 1979).</p>

    <p>A primeira parte da obra da Graça Joaquim
apresenta, assim, de forma resumida, um conjunto de debates e reflexões da
sociologia do turismo, relacionando e sistematizando conceitos e abordagens
teóricas centrais de cinco décadas de evolução da disciplina. Após a definição
do turismo como objeto sociológico, a conceptualização do turismo e da viagem,
num contexto de diferenciação e pluralidade, ilustrando ainda a sua evolução no
âmbito da democratização do lazer e no seio da sociedade do consumo, a autora
aponta como mais recente evolução do turismo na modernidade a ­<i>desdiferenciação</i>
(Rojek, 1995) com “<i>práticas, marcadas pela pluralidade, pelo efémero, pelo
dinamismo e pela fragmentação, características de um capitalismo cada vez mais
desorganizado (Lash e Urry, 1994)</i>” (Joaquim, 2015, p. 88).</p>

    <p>Identifica temas que se mantiveram
centrais no respetivo debate, ao enfatizar o papel relevante da “autenticidade”
na explicação desta experiência (mesmo que este conceito também seja sujeito a
interpretações diversas), ao destacar a dicotomia antiga (se for legítimo falar
em “antigo” num campo científico de pouco mais de 5
décadas) entre turista e viajante (ou melhor entre as representações sociais
associadas a estes termos). A autora explica a multiplicidade de perspetivas
divergentes sobre a “autenticidade”, desde o “paradigma dos objectos”
(autênticos <i>versus</i> encenados), a perspetiva construtivista (que remete
para a construção social dos objetos e da atribuição subjetiva e simbólica de
significado), a perspetiva pós-modernista que rejeita o conceito da
“autenticidade” (remetendo para uma <i>hiperrealidade</i> desenhada para
satisfazer o consumo de massas) e colocando o conceito finalmente no contexto
da modernidade (reconhecendo a pluralidade e <i>desdiferenciação</i> do consumo
turístico), em que a autenticidade é vista não em relação ao objeto, mas
definida em função da experiência (intra- e interpessoal) vivida pelo indivíduo
(“<i>autenticidade existencial</i>” como sugerido por Wang, 1999).</p>

    <p>Este debate torna-se mais explícito quando
relacionado com as narrativas dos viajantes que a autora nos apresenta na
segunda parte do livro. Centra-se, nesta análise empírica, precisamente na
essência do significado da viagem para cada entrevistado, na interpretação da
mesma no âmbito da sua vida pessoal e da sua relação com o “Outro”, na perceção
da autenticidade daquela experiência, debatendo a dicotomia turista-viajante,
chegando-nos a propor uma nova tipologia destes “viajantes profissionais ou de
modo de vida” em função das respetivas narrativas e práticas dominantes. São
narrativas de memórias e interpretações, histórias de viagens e de vidas,
lembradas em diversas facetas, imagens, sons e aromas, muito
enriquecidas pelo encontro com o “Outro”, o distante, o diferente,
embora refletidas como parte integrante de uma viagem de vida em que a viagem
se assume como formadora e transformadora, catalisadora da definição de
identidades e significados. Mas são também histórias de mudanças do mundo da
viagem, de rejeição de certos fenómenos turísticos (sobretudo os
característicos do turismo de massas) e dos seus impactos destruidores de um
estado nostalgicamente recordado de locais e comunidades mais “autênticos” e
agora deturpados pela <i>mercadorização</i> de paisagens e culturas. São
discursos por vezes contraditórios, talvez típicos da era moderna de <i>desdiferenciação</i>,
mas são também discursos que permitem uma distinção de três grupos de viajantes
no universo minoritário aqui analisado, embora com fronteiras nem sempre muito
nítidas, – “Os Puros e Duros”, os “Profissionais” e os “Viajantes Turistas” –, categorias
com níveis de afastamento distinto do fenómeno do turismo mais organizado,
também e sobretudo em função do papel que assumem quando em viagem, com
compromissos e propósitos mais ou menos associados ao fenómeno turístico, na
sua vertente mais comercial, por muito “alternativo”, “responsável” e distinto
que seja em comparação com o turismo tradicional de massas.</p>

    <p>Vale a pena esta leitura da obra da Graça
Joaquim, tanto pelo profundo e sistemático debate sobre conceitos centrais da
sociologia do turismo, como pela reflexão muito interessante em torno das
narrativas de viajantes com grande experiência e postura particular face à
viagem, assumindo-a como uma espécie de “modo de vida”. O debate conceptual, as
próprias narrativas e interpretações dos viajantes e da autora permitem-nos uma
viagem, sem dúvida intrigante, pelo mundo das viagens, dos seus diversos
significados e mudanças, num contexto de turismo global que se nos apresenta em
constante crescimento e evolução.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>NOTA</b></p>


    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup>A Organização Mundial do
Turismo (UNWTO, 2014) considera, para fins estatísticos, visitante (<i>visitor</i>)
quem se desloca voluntariamente para um local diferente da sua residência
habitual e do seu trabalho (por vários motivos, excetuando a obtenção de
rendimentos no local visitado). Se o visitante pernoita, é considerado turista.
Não distingue turista de viajante, reconhecendo apenas a categoria de
“turista”. Cf. <i>Glossary
of Tourism Terms</i>. Disponível em  <a
href="http://cf.cdn.unwto.org/sites/all/files/Glossary-of-terms.pdf" target="_blank">
http://cf.cdn.unwto.org/sites/all/files/Glossary-of-terms.pdf</a>
[consultado a 01-08-2016].</p>


     ]]></body>
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