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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>

    <p><b>CUNHA, Adelino</b></p>

    <p><i><b>Os Filhos da Clandestinidade. A
História da Desagregação das Famílias Comunistas no Exílio</b>,</i></p>

    <p>Lisboa, Esfera dos Livros, 2016, 368 pp.</p>

    <p>ISBN 9789896267476</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Giulia Strippoli</b>*</p>

    <p>*Universidade Nova de Lisboa, FCSH, Instituto de História Contemporânea, Av. de Berna, 26 C — 1069-061, Lisboa, Portugal.
E-mail: <a href="mailto:baluginare@hotmail.com">baluginare@hotmail.com</a></p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>“A história da
desagregação das famílias comunistas no exílio” – o subtítulo do livro, tal
como a imagem da capa – Álvaro Cunhal no meio dum grupo de crianças e outro
subtítulo, na contracapa, “A odisseia das crianças enviadas secretamente para o
outro lado da cortina de ferro”, apresentam o assunto do livro do Adelino
Cunha: a obra parece desenvolver, de maneira bastante dramática, a temática das
famílias de comunistas e das crianças separadas dos pais por causa do exílio.
Esta impressão tem uma parcial negação ao longo dos capítulos: embora o tom de
odisseia permaneça nalgumas partes do livro, o espaço dedicado às crianças
enviadas para a <i>Internazionalny Dom</i>, em Ivanovo, ocupa apenas uma
trintena de páginas num total de mais de 250. Felizmente, a ideia de que o
livro contenha uma “história nova do PCP”, e a promessa da revelação de uma
“realidade até agora desconhecida”, não é aprofundada no desenvolvimento desta
investigação, que é fundamentalmente uma história do Partido Comunista
Português entre 1960 e 1974 do ponto de vista do exílio político. O livro faz
um amplo uso da bibliografia sobre a história do PCP e a emigração, a galáxia
dos grupos de esquerda, o comunismo mundial. O autor utilizou também
testemunhos orais recolhidos em entrevistas realizadas entre 2009 e 2015 sobre
experiências de separação do núcleo familiar, mas também sobre outros elementos
da história do PCP e do movimento comunista internacional, tal como as atividades
dos comunistas fora de Portugal, as divergências internas, a formação da ARA.</p>

    <p>A fuga de Peniche de janeiro 1960 introduz
a obra para contextualizar as experiências dos comunistas portugueses no exílio
e, dentro destas, um aspeto qualificado como uma “dimensão silenciosa”, ou seja a permanência das crianças (fala-se de “mais de uma
dezena”)<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a> em Ivanovo, entre 1963 e 1972.</p>

    <p>O primeiro capítulo é dedicado a um estado
da arte sobre as fontes e a bibliografia sobre os exilados comunistas portugueses
e contem uma reflexão relativa ao papel da transmissão da memória e aos
caracteres identitários dos exilados. Alguns dos comunistas que, para além da
figura central de Cunhal, são protagonistas do livro, são apresentados no
segundo capítulo, focado na luta no exterior para a realização da revolução em
­Portugal, tais como Margarida Tengarrinha (Moscovo), Aurélio Santos (Roménia),
Cândida Ventura (Praga), Pedro Soares (Argel), Maria Armanda Serra (Ivanovo).
Cunhal é assumido como figura central porque a fuga de Peniche e a assunção,
por parte do líder do PCP, da necessidade do seu afastamento de Portugal, são considerados os motores da elaboração da ideia do apoio
ao interior a partir do exterior.</p>

    <p>A explicação da estratégia do PCP do
levantamento nacional e da insurreição popular armada contextualizam o “exílio
político funcional”, no sentido do afastamento de Portugal, garantindo porém o apoio à luta no interior e a necessidade da defesa
do partido.<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> Os relatos autobiográficos e os testemunhos de Carlos Antunes,
Margarida Tengarrinha, Zita Seabra, Flausino Torres, Carlos Brito e Silva
Marques, fundamentam as perceções que os exilados tiveram do trabalho político
no exterior. O autor abre depois um discurso geral sobre o significado do
exílio (capítulo 3). A diferenciação que é feita entre exilados, expatriados,
refugiados e emigrados tem o objetivo de corroborar a ideia do exílio político
como um afastamento temporário, ligado ao compromisso político e à luta contra
o regime de origem. A fuga de Peniche, que introduz a obra, volta no início do
quarto capítulo, no qual o autor traça os momentos da instalação do
Secretariado do PCP no exterior e a consequente criação de coletivos de
exilados comunistas na União Soviética, na Checoslováquia e na Roménia e, do
outro lado, a organização do aparelho clandestino em Portugal. Seguem-se dois
capítulos dedicados, respetivamente, à Argélia e à instalação de Cunhal em
Moscovo. O caso da Argélia é considerado significativo pelas experiências de
exílio vividas pelos comunistas portugueses; Cunha percorre então a história da
Frente Patriótica de Libertação Nacional, foca-se nos papéis de Humberto
Delgado, de Cunhal e nos contactos que o PCP soube manter com os movimentos
nacionalistas, dinamizando também a ligação entre estes e Moscovo. A deslocação
de Cunhal a Moscovo e o prestígio assumido por ele no quadro do comunismo
internacional explica, na perspetiva do autor, a dinâmica – chamada outra vez
“silenciosa” – do exílio das crianças – outra vez quantificadas como “mais de
uma dezena” – para a escola de Ivanovo. Neste capítulo lembra-se o impacto que
o Congresso de Kiev de 1965 e a aprovação de Rumo à Vitória tiveram no PCP,
para se focar depois em diferentes experiências fora de Portugal. Chega-se finalmente
às histórias das crianças que estiveram em Ivanovo (capítulo 7). As fotografias
acompanham a narração dos testemunhos e das experiências de Odete Graça Silva,
Manuel da Silva, Joaquim Carvalho Paula e Ana Carvalho Paula, Luís ­Carlos
Lagarto, José Leal, José Serra, Catarina Esteves, Alberto Caeiro Costa, Luís
Costa, Maria Armanda Serra (professora de português das crianças). A descrição
da rotina na escola é um dos elementos comuns às histórias; os outros têm a ver
com a dor da separação, a sensação de abandono, a difícil adaptação à vida na
URSS, mas também com os casos de uma integração social mais fácil na União
Soviética, e as dificuldades ou a recusa do regresso a Portugal. O autor dedica
os três restantes capítulos à primavera de Praga, à Roménia e ao caso da
França. Os acontecimentos na Checoslováquia servem ao autor para falar do
coletivo dos exilados portugueses em Praga e da desagregação do grupo depois da
intervenção armada da União Soviética e do apoio do PCP a Moscovo. Vários
protagonistas, portugueses, mas não só, dinamizam este capítulo. As
experiências, e as vozes, de Cândida Ventura, Flausino Torres, António Bastos
Lopes, Georgette Ferreira, Santiago Carrillo, Carlos Brito são alguns dos
recursos utilizados numa secção que mescla vários argumentos: o comunismo na
Checoslováquia, o PCP em Praga, a posição dos comunistas espanhóis, os
acontecimentos em Moscovo, a elaboração do eurocomunismo. No capítulo seguinte,
os relatos de Cláudio Torres e de Rui Perdigão descrevem o ambiente vivido pelos
comunistas na Roménia e a atividade da Rádio Bucareste e da Rádio Portugal
Livre. O autor concentra-se nas relações diplomáticas entre a Roménia e
Portugal e na fase vivida pela propaganda comunista através da RPL, com base
nas experiências dos comunistas que dinamizaram o projeto: Rui Perdigão,
Fernanda Silva, Carlos Antunes, Teresa Mendes e Veríssima Rodrigues. Para além
da narração dos exilados comunistas em Bucareste, estas páginas falam dos
exilados na Roménia desligados do PCP e da deslocação, sempre em Bucareste, de
Jorge Alves, o GNR cujo apoio determinou o sucesso da fuga de Peniche. O último
capítulo é dedicado à aproximação de Cunhal a Portugal, ou
seja à instalação dele em Paris, em 1967. A vigilância da PIDE, os
acordos entre os governos português e francês, a emigração dos portugueses em
França e uma ampla parte sobre os movimentos chamados “de extrema esquerda” são
os assuntos-chave destas páginas.</p>

    <p>Nos anexos conclusivos encontram-se três
quadros: um sobre o exílio político funcional, outro sobre as diferenças entre
emigrado, refugiado, expatriado e exilado e o terceiro sobre os filhos da
clandestinidade, onde o autor fornece as informações sobre a experiência das
crianças em Ivanovo. Indica a idade de chegada a Ivanovo e a duração da permanência
de dez crianças e de Maria Armanda Serra; de outras duas crianças faltam o ano
de chegada e a duração da estadia.</p>

    <p>O assunto prometido no título é na verdade
uma parte relativamente pouco aprofundada da obra e as entrevistas não foram
utilizadas no sentido de explorar a experiência das crianças em Ivanovo em
termos de vida relacional, de contactos com outras crianças, de impacto na
escolha de militância ou não, na formação política, na perceção do comunismo
russo e internacional, etc.</p>

    <p>Os arquivos e a bibliografia citados fazem
supor um trabalho extenso e profundo; porém, a história da desagregação
familiar no âmbito da clandestinidade e do exílio dos comunistas (argumentos
que não são a revelação de uma realidade desconhecida)<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>têm um papel
relativamente marginal numa história que se
circunscreve a alguns anos do PCP. Defacto, a
interpretação histórico-política sobre o exílio dos comunistas portugueses<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>, 
que parece ser a temática central da obra, quase não emerge ao longo
dos capítulos.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>BARRADAS, A.
(2004), <i>As Clandestinas</i>. Lisboa, Ela por Ela.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=082773&pid=S0003-2573201600030001500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>DIAS,
M.L.C. (1982), <i>Crianças Emergem da Sombra. Contos de Clandestinidade</i>,
Lisboa, Avante!.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=082775&pid=S0003-2573201600030001500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MADEIRA,
J. (2013), <i>História do PCP</i>, ­Lisboa, Tinta-da-China,    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=082777&pid=S0003-2573201600030001500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> Lisboa.</p>

    <!-- ref --><p>NOGUEIRA,
C. (2011), <i>Vidas na Clandestinidade</i>, Lisboa, Avante!.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=082779&pid=S0003-2573201600030001500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>PEREIRA,
J.P. (1993), <i>A Sombra. Estudo sobre a Clandestinidade Comunista</i>,
­Lisboa, Gradiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=082781&pid=S0003-2573201600030001500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p><b>NOTAS</b></p>

    <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup>p.
17.</p>

    <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup> p.
42 e p. 46.</p>

    <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup>A interrupção das relações
familiares e a separação entre pais e filhos (incluído o envio para a União
Soviética) é um tema que já foi investigado e sobre o qual existem obras
publicadas. Vejam-se, por exemplo, Dias (1982), Pereira (1993, pp. 168-187), ­Barradas
(2004, pp. 42-52) e Nogueira (2011, pp. 92-98).</p>

    <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup>O tema do exílio e da
circulação dos comunistas portugueses foi amplamente investigado por João
Madeira na história do PCP, das origens ao derrube do Estado Novo. O autor
interpretou e explicou as reconfigurações das estruturas do partido no interior
e no exterior ao longo das décadas e conforme a elaboração política dos
organismos dirigentes do partido. V. Madeira (2013), sobretudo as páginas
543-564 sobre o PCP em França e em Argel na segunda metade dos anos 1960.</p>


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