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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>

    <p><b>COUTINHO, João Pereira</b></p>

    <p><b><i>Conservadorismo,</i></b></p>

    <p>Alfragide, D. Quixote, 2014, 188 pp.</p>

    <p>ISBN 9789722054881</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Pedro T. Magalhães*</b></p>

    <p>*Universidade Nova de Lisboa, FCSH, de Berna, 26-C — 1069-061 Lisboa, 
Portugal.e-mail: <a href="mailto:pmagalhaes_15@hotmail.com">pmagalhaes_15@hotmail.com</a></p>


    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>João Pereira Coutinho notabilizou-se em Portugal como um dos cronistas
cimeiros da chamada “nova direita”, assinando colunas de opinião n’<i>O
Independente</i>, <i>Expresso </i>e <i>Correio da Manhã</i>. Ora, neste ensaio
sobre o conservadorismo publicado quase simultaneamente pela D. Quixote (em
Portugal) e pela Três Estrelas (no Brasil), o autor
despe as vestes de polemista para nos oferecer um tratamento sobriamente
académico do tema em questão.</p>

    <p>Que o título da obra não nos leve ao
engano, contudo. <i>Conservadorismo</i> não é, nem
pretende ser, uma introdução ao pensamento
político conservador, globalmente considerado. Dos múltiplos conservadorismos
que foram emergindo no Ocidente desde a Revolução
Francesa, Pereira Coutinho aborda a tradição
que lhe é mais cara – o conservadorismo britânico –, a partir da figura tutelar de Edmund Burke (1727-1797). Com efeito, o autor de <i>Reflections on
the Revolution in France</i> (1790), uma das primeiras e mais influentes
críticas das ambições progressistas dos revolucionários franceses, já havia
estado no centro da premiada dissertação de doutoramento de Pereira Coutinho (<i>Política
e Perfeição. Um Estudo sobre o Pluralismo Político de Edmund Burke e Isaiah
Berlin</i>, 2008), que terá reaproveitado muito desse trabalho de investigação
para este ensaio. Mas <i>Conservadorismo </i>não se apresenta, tão-pouco,
como uma análise exaustiva das principais ideias do conservadorismo
burkeano. Deve ler-se, isso sim, como uma introdução ao
pensamento político de Burke, suplementada por apontamentos que visam atestar a sua relevância contemporânea.</p>

    <p>Pereira Coutinho começa por traçar a
distinção entre o que, na esteira de Michael Oakeshott, apelida de “<i>disposição</i>
conservadora” (p. 33), em sentido assaz lato, e a ideologia política
conservadora propriamente dita. Trata-se de uma distinção importante – e
envolta em controvérsia. Em boa verdade, como nota o autor, a palavra
“ideologia” tende a provocar desconfiança nos espíritos conservadores. O que é
compreensível, já que o termo tem a sua origem, segundo o sociólogo Karl
Mannheim – porventura a mais grave omissão na bibliografia de Pereira Coutinho,
que assim ignora um dos primeiros tratamentos histórico-sociológicos do
conservadorismo como ideologia – na pátria e no contexto da Revolução de 1789.
A mera invocação de “ideologia” soará, a certos
ouvidos conservadores, a inaceitável afirmação de superioridade do pensamento
abstrato sobre o “sentido da realidade”, carregando consigo um ímpeto
racionalista de transformação política e social que instintivamente rejeitam.
Por essa razão, muitos autores conservadores preferem definir o conservadorismo
político como “disposição” (ou como “temperamento”, “inclinação”, etc.), ao
invés de “ideologia”. Apoiando-se em “Conservatism as an Ideology” (1957),
ensaio de Samuel Huntington, que constitui a principal referência das páginas
iniciais, Pereira Coutinho procura afirmar o conservadorismo como ideologia
política num sentido preciso: trata-se não de uma “ideologia ideacional”, que
como o liberalismo ou o socialismo procuraria “cumprir em sociedade um programa
ou um ideário políticos” (p. 44), mas de uma “ideologia <i>posicional</i> e <i>reactiva</i>”
que emerge “perante uma ameaça concreta aos fundamentos institucionais da
sociedade” (p. 47).</p>

    <p>Essa
peculiaridade da ideologia política conservadora revela-se nos seus princípios
fundamentais, que Pereira Coutinho cobre nos capítulos seguintes. Sempre com
Burke como referência matricial, o autor aborda, por esta ordem, as noções de
“imperfeição humana”, “sentido da realidade”, “testes do tempo” (tradição),
“reformar” e “sociedade comercial”.</p>

    <p>Os capítulos que versam a “imperfeição
humana” e o “sentido da ­realidade” revelam-se os mais interessantes. Neles, o
autor condensa o essencial da crítica burkeana ao zelo racionalista dos
revolucionários franceses. A “imperfeição humana” de que fala Burke remete,
sobretudo, para os inultrapassáveis limites epistemológicos da razão, que a
“arrogância” revolucionária ignora ao chamar a si “a tarefa hercúlea de
­construir e reconstruir a sociedade humana de forma radical e perfeita” (p.
54). Ora, apesar do “dramatismo e violência” (p. 58) que atinge a espaços, a
crítica de Burke provém de um espírito essencialmente moderado, que não cede à
tentação do pessimismo antropológico mais primário que caracteriza boa parte do
pensamento contrarrevolucionário continental. Para Burke, a política é uma
atividade racional por excelência – mas que deve ser pautada por um uso
prudente da razão que evite os perigos tanto da “vaidade” racionalista como,
para usar um termo que a mais tardia filosofia política da contrarrevolução haveria
de cunhar, do decisionismo irracionalista.</p>

    <p>Tal uso prudente da razão deve assentar
num apurado “sentido da realidade”, isto é, no reconhecimento da importância
das circunstâncias concretas nas quais está imerso o decisor político e na
prioridade daquelas sobre todo e qualquer programa formulado em abstrato e <i>a
priori</i>. Este primado do circunstancial sobre o (supostamente) universal
revela a faceta pluralista do pensamento conservador burkeano, à qual Pereira
Coutinho, ainda que não a explorando até às últimas
consequências, sabe dar o devido relevo.</p>

    <p>Seguindo de
perto John Kekes (<i>A Case for Conservatism</i>, 1998), o autor afirma que
“[a] defesa de uma hierarquia rígida de valores como base do pensamento e ação políticas parece ser assim insustentável tendo em conta a
natureza evolutiva e plural de qualquer comunidade humana” (p. 73). Ora, na
medida em que abre o flanco ao anátema do relativismo axiológico, a constatação
deixa o conservador, que por norma não quer, nem gosta, de ser confundido com
um pós-moderno, numa posição delicada. O preço a pagar pela recusa do
pensamento abstrato do contratualismo iluminista afigura-se, pois, bem alto.
Demasiado alto, diria, para a generalidade dos conservadores desde Burke até ao
presente, que preferem aceitar uma dose generosa de inconsistência
argumentativa a mergulhar no pretenso pesadelo do relativismo. Com efeito, a
existência de “valores básicos e fundacionais” (p. 76), que o conservador <i>apesar
de tudo</i> se vê na obrigação de afirmar, não é logicamente compatível com a
recusa de uma “hierarquia rígida de valores”. Haverá hierarquia mais rígida do
que a distinção entre “valores básicos e fundacionais”, que, ancorados na
imutabilidade da própria natureza humana, transcenderiam “a natureza evolutiva
e plural” das comunidades humanas, e valores “secundários”, sujeitos às
contingências do tempo e do espaço?</p>

    <p>Que Pereira Coutinho não consiga resolver
o problema do pluralismo na perspetiva conservadora dificilmente constituirá
demérito grave. Afinal, tal tarefa, porventura tão hercúlea quanto a concretização da mais radical utopia racionalista, não
figura nos objetivos centrais do ensaio. Acontece, porém, que o texto começa a
perder o foco a partir desse momento. Nos capítulos dedicados aos conceitos de
“tradição” e “reforma”, aflora uma crescente dispersão, com o autor a perder-se
em apontamentos sumários sobre questões que exigiriam uma abordagem mais
matizada (<i>vide </i>a interpretação excessivamente simplista da Revolução
Americana como exemplo de uma reforma conservadora, pp. 110-113). Já o capítulo
que antecede a conclusão, sobre a chamada “sociedade comercial”, parece tão ou
mais preocupado em certificar os pergaminhos conservadores da governação de
Margaret Thatcher quanto em responder satisfatoriamente à questão de fundo sobre
a relação entre capitalismo e conservadorismo.</p>

    <p><i>Conservadorismo </i>não é uma obra de grande originalidade. Nem julgo que pretenda sê-lo. O
seu principal mérito consiste em trazer para a discussão em língua portuguesa
um debate anglo-saxónico de longa tradição, mas pouco conhecido – e, logo,
pouco influente – entre nós. Quando Pereira Coutinho deu à estampa o seu
ensaio, não havia sequer uma tradução das <i>Reflections </i>de Burke publicada
em Portugal (falha grave, entretanto colmatada pela Gulbenkian), para não falar
de autores contemporâneos como Roger Scruton ou John Kekes, entre outros, que
aqui veem algumas das suas ideias apresentadas e discutidas com ­inegável
elegância. Para o leitor português de “inclinação” conservadora, trata-se,
assim, de uma obra de extrema utilidade, quiçá mesmo indispensável, para
alargar os horizontes da sua simpatia político-ideológica. Se
era esse o objetivo do autor, foi plenamente conseguido.</p>

    <p>O veredito
tem de ser outro, todavia, se o leitor esperar do ensaio uma estimulante aventura
intelectual no campo da história das ideologias políticas modernas. Porque
Pereira Coutinho procura oferecer, ­sobretudo, uma
leitura limpa, correta – quase diria, higiénica – da tradição que tanto admira.
Uma leitura que, orgulhando-se “de não ter sangue nas suas
mãos” (p. 28), dissolve tensões e paradoxos. Burke, entre os grandes
clássicos do conservadorismo moderno, não tem apenas primazia cronológica, como
é também o mais impoluto dos nomes, aquele que mais facilmente se deixa
conciliar com os princípios axiais do liberalismo (aliás, é bem possível
interpretá-lo como um liberal). Mas mesmo Burke teve seguidores mais sombrios,
entre os quais toda uma chamada “escola histórica” alemã que figura no texto de
Pereira Coutinho apenas acidentalmente (em referência a uma conhecida obra de
Leo Strauss). Sobre eles, e numa altura em que Carl Schmitt e outros
encabeçavam na Alemanha uma paradoxal “revolução<i> </i>conservadora”, Karl
Mannheim escreveu uma frase inspirada: “A Alemanha alcançou para a ideologia do
conservadorismo o que a França fizera com o Iluminismo – explorou-a até ao
limite das suas conclusões lógicas” (Mannheim, “Conservative Thought”. In<i>
From Karl Mannheim,</i>1993, p. 268). A ideologia
conservadora não é certamente parte ausente das grandes tragédias do século XX.
Mas essas águas convulsas – e, porque agitadas, intelectualmente desafiantes –
o autor opta por evitar.</p>


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