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<institution><![CDATA[,Universidade Nova de Lisboa Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais]]></institution>
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<country>Portugal</country>
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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>

    <p><b>CUNHA, Manuela Ivone</b> (org.)</p>

    <p><b>Do Crime e do Castigo. Temas e Debates
Contemporâneos</b>,</i></p>

    <p>Lisboa, Editora Mundos Sociais, 2015, 200
pp.</p>

    <p>ISBN 9789898536471</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Miguel Chaves</b><i></i>*</p>

    <p>*Universidade Nova de Lisboa, FCSH, Centro Interdisciplinar de Ciências
Sociais – CICS.NOVA , Avenida de Berna, 26-C
— 1069-061 Lisboa, Portugal.e-mail: <a href="mailto:miguel.chaves@fcsh.unl.pt">miguel.chaves@fcsh.unl.pt</a></p>

    <p><i>&nbsp;</i></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Do Crime e do
Castigo </i>consiste numa coletânea de 11 artigos
organizada por Manuela Ivone Cunha, que congrega alguns dos mais importantes
investigadores nacionais que trabalham na área “do crime e da justiça”. De
entre os múltiplos motivos de interesse e de relevância da obra, evidencia-se, desde logo, o seu
elevado cunho pedagógico. Estudantes de mestrado e de doutoramento poderão
encontrar aqui, além de ­estados da arte sobre temas enquadráveis naquela
extensa área, fontes de inspiração para definirem ou reequacionarem os seus
objetos de estudo e as suas teses.</p>

    <p>Numa excelente nota de apresentação
inicial, Manuela Ivone Cunha assinala dois elementos centrais de convergência
dos autores reunidos: o facto de conceptualizarem o crime como facto social e o
de entenderem as dinâmicas de constituição, difusão, aplicação das ­normas e
leis como processos socioculturais. Essa diversidade subtemática consiste,
naturalmente, num aspeto benéfico, pois permite abranger um público mais lato,
mas torna mais difícil a cada leitor mapear o seu percurso, pela obra,
dificuldade acrescida pelo facto de os textos não serem aqui acompanhados por
quaisquer resumos. Conta-se, talvez de forma excessiva, com a disposição dos
leitores para mergulhar em textos totalmente desconhecidos, num momento em que
já é difícil assegurar que livros (sobretudo em formato de papel) disputem a
atenção com a miríade de leituras propiciadas pelas revistas científicas <i>online</i>.</p>

    <p>A ausência de resumos, aliada à
circunstância de, no breve espaço desta recensão, ser manifestamente impossível
proceder simultaneamente ao sumário e à crítica de 11 capítulos díspares, sem
ceder à superficialidade, levou-nos a optar pela elucidação dos seus propósitos
e argumentos nucleares, secundarizando a identificação dos aspetos que mais
reservas nos suscitam.</p>

    <p>No capítulo inaugural, Manuela Ivone Cunha
e Patrícia Jerónimo problematizam a inclusão dos “aspetos culturais” na
administração da justiça, designadamente no processo de definição da
punibilidade e da pena a atribuir a indivíduos concretos. Após revelarem que
estas dimensões são sistematicamente desconsideradas pelos tribunais
portugueses, investigam as razões para tal denegação, vislumbrando-as, pelo
menos em parte, na prevalência de dois pressupostos “equivocados” que irão
procurar desmontar – a “persistência de uma conceção essencialista de cultura”
e uma “leitura formalista do princípio da igualdade”. Atribuindo a esta
reflexão uma dimensão ético-política e estabelecendo profícuo diálogo entre as
ciências sociais e o sistema de justiça, as autoras sustentam que a denegação, <i>a
priori,</i> dos “aspetos culturais” impede a densificação dos juízos sobre a
responsabilidade individual e
não faz jus ao princípio de igualdade material, afetando, por essas vias, o propósito anunciado de se proceder a um julgamento
justo.</p>

    <p>O segundo capítulo, de Jorge Quintas e
Helena Antunes, chama a si a análise de três vetores nucleares na regulação das
drogas a nível internacional: a capacidade dos diferentes modelos nacionais
dissuadirem o consumo; o grau de conhecimento da legislação pelos consumidores
e as atitudes da população geral face às normas legais. Recorrendo a diversos
estudos internacionais, sugerem, primeiro, que as
políticas de regulação, incluindo as mudanças legislativas, têm efeitos reduzidos nas
taxas de consumo; segundo, que o conhecimento da legislação é escasso,
levantando ceticismo quanto ao efeito dissuasor da lei; por fim, que as
atitudes liberais relativamente à <i>cannabis</i> têm vindo a aumentar, tendência que, arriscamos, não se estenderá às “drogas duras”, em
relação às quais as atitudes da população se ajustarão de forma bastante mais
clara ao proibicionismo hegemónico.</p>

    <p>Ainda sob a égide das substâncias
psicoativas, Luís Fernandes assinala-nos alguns dos pontos centrais de construção
do “problema da droga”, para, logo de seguida, sublinhar e sistematizar uma
crítica que marcou o seu percurso ­científico: a redução da “droga” a fenómeno
psicofarmacológico. Para o autor, aquela representou sempre um “fenómeno social
total”, aqui revisitado enquanto elemento perturbador da estabilidade
normativa, combatido pelas “instâncias normativas mais poderosas” da
modernidade: “a médico-sanitária (…) e a jurídica” (p. 50). Como acontece em
qualquer dos seus textos, Fernandes volta a enigmatizar o “fenómeno droga”
sugerindo múltiplas frentes e vias de exploração aos investigadores que sobre
este assunto se queiram debruçar.</p>

    <p>Ximenes Rego oferece-nos, por sua vez, o
primeiro capítulo que utiliza diretamente dados etnográficos. Partindo do
pressuposto de que o aumento do sentimento de insegurança não converge
necessariamente com a intensificação de “ameaças reais”, a investigadora guia-nos
a uma zona histórica e degradada do Porto, classificada como muito insegura,
sendo os moradores tratados nos <i>media</i>, como “prisioneiros do medo”. Ao
mergulhar no contexto analisado, a investigadora descobre, porém, que embora
esses residentes afirmem que a rua é perigosa para “os de fora”, se sentem, na
realidade, pouco ameaçados. Parte da explicação para esta descoincidência entre
imagens externas e internas pode ser encontrada na “familiaridade dos moradores
com o território” e na “proximidade das suas condições materiais de
existência”, assim como num conjunto de “estratégias virtuosas” associadas à
privacidade, ao recato, ao decoro acerca do que se passa “lá fora”,
nomeadamente eventuais práticas ­ilícitas. Rotineiramente seguidas, tais
estratégias dotam os habitantes de um capital social local de
“respeitabilidade” que atenua em muito o sentimento de ameaça predatória.</p>

    <p>Numa sequência feliz, o capítulo seguinte,
dialoga bem com o de ­Ximenes Rego, precedendo-o em termos lógicos. Nele Sílvia
Gomes propõe-nos um curto mas valioso apanhado da
literatura científica que vem equacionando o papel dos <i>media</i> na
reificação/legitimação da norma e na perceção do desvio. Operando a partir de
fechamentos progressivos de escala, a autora começa por situar a importância
geral dos <i>media</i> no processo de construção social da realidade, para se
cingir depois à análise do modo como esse meios enquadram a questão do crime, convertendo-a em
mercadoria. A reflexão prossegue com o questionamento da construção da opinião
pública e da relação desta com o crime, para finalmente encerrar centrando o
olhar no “pânico moral”, temor que encontra nos <i>mass media</i>, veículo nuclear de
disseminação e reprodução.</p>

    <p>Vera Duarte e Maria João Leote
transportam-nos, por seu lado, para uma abordagem da “delinquência juvenil”,
que principia com a hipótese de que esta estará sub-representada nas
estatísticas policiais e judiciárias e, em parte por essa razão, em termos
políticos. Ao longo do capítulo, as autoras
irão percorrer dois trilhos que vêm marcando as suas
pesquisas acerca da violência e delinquência de crianças e jovens em Portugal.
Num primeiro analisam as ambiguidades ­contidas na própria noção de
“delinquência”, destacando a tensão existente entre uma conceção restritiva,
que compreende apenas “as infrações às normas jurídicas”, e outra, maximalista,
que abrange “interdições sociais e comportamentos ­problemáticos”, bem como a
diferenciação entre as noções de “delinquência” e de “criminalidade juvenis”
resultante da jurisdição especial associada à “menoridade”. No segundo trilho,
explicitam a necessidade de associar o estudo da delinquência juvenil à análise das dinâmicas territoriais de exclusão urbana, sublinhando o impacto
que a acumulação de “desvantagens sociais” num mesmo espaço pode implicar na
acumulação de comportamentos disruptivos em determinadas zonas da urbe.</p>

    <p>No texto de Rafaela Granja, o desvio
interseta-se com a problemática do género. A autora procura documentar os
principais debates que dominaram o tema do envolvimento das mulheres na
criminalidade desde o período anterior à década de 1970, fase
em que se encontravam capturados por argumentos biologizantes e
psicologizantes, até aos que, a partir daí, vão romper com o androcentrismo da
“criminologia tradicional”. A investigadora acentua a extrema heterogeneidade
de linhas de investigação que caracteriza o momento presente, sem deixar,
porém, de registar a viragem do enfoque das patologias individuais para outro,
mais amplo, que contempla a estrutura social, assim como o recurso crescente a
metodologias compreensivas que privilegiam a audição “das vozes das mulheres em
conflito com a lei”. Para Granja, é inegável que a sobrevivência de
reducionismos que interpretam as infrações legais das mulheres “como perversões
da feminilidade” obriga à manutenção de uma ciência
comprometida, em especial, na desconstrução de estereótipos.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Pela mão de Susana Durão entramos de novo
na etnografia. A autora começa por nos dar conta da evolução da “arquitetura”
da polícia urbana em Portugal, nos anos da democracia, destacando as diretrizes
de reforço do controlo burocrático da prática profissional e de policiamento
orientado para os cidadãos. Trata-se de uma retrospetiva muito útil, não só porque
permite fundear a sua análise, mas porque contribui para atenuar a
surpreendente escassez de abordagens históricas da PSP. No entanto, é na
segunda parte do capítulo, expressivamente intitulada “O que fazem hoje os
polícias”, que, recorrendo aos seus estudos nacionais e internacionais, Susana
Durão torna patente a originalidade e relevância do seu trabalho em que leva a
cabo uma análise da atividade policial “por dentro”. Esta permite-lhe revelar
que o projeto democrático de transformação das polícias permanece inacabado:
“os agentes trabalham ­frequentemente sem um plano claro” (p. 130) e “o
policiamento de proximidade, embora com dinâmicas locais inovadoras, (…) tende
a ser adiado para um futuro sempre distante” (p. 138).</p>

    <p>Os capítulos
9 e 10 irão familiarizar-nos com o forte<i> input</i> tecnológico que se
verifica na investigação e vigilância criminais contemporâneas. Catarina Fróis faculta-nos
um levantamento do trabalho académico realizado acerca da videovigilância,
polarizado pela ideia de que a proliferação desse meio de controlo não atinge o
objetivo primordial de prevenir e dissuadir a criminalidade. Depois de
sublinhar esse dado, a autora reflete sobre o dilema político que dele
sobrevém. À questão“a
tecnologia como um meio ou a tecnologia como um fim?” irá responder pendendo
para o segundo prato da balança. Para Fróis, o investimento exponencial em
tecnologias de vigilância tem sido conduzido de forma acrítica. E se para
explicação desse facto não é alheia a ansiedade social
e política causada pelos “novos palcos de guerra”, o “combate ao crime
organizado” e a “ameaça terrorista”, éde enfatizar, na senda de Peter Burguess, o papel
dos interesses financeiros e do arsenal ideológico dos partidos políticos “que
têm definido as premissas da investigação na área da segurança”, nomeadamente
na Europa (pp. 156-157).</p>

    <p>Reservas
relativamente ao fascínio acrítico pela tecnologia encontram-se de novo
patentes no artigo de Helena Machado. Numa reflexão plena de atualidade, dada a popularização da “prova genética” e da tecnologia de ADN,
em resultado da sua portabilidade, rigor científico, eficácia, celeridade na
identificação de infratores, a autora faz um balanço dos estudos sociais centrados
na utilização destes novos meios pela justiça criminal. Machado centra-se
depois num conjunto de legislação reguladora das bases de perfis genéticos em
Portugal e na análise das representações de políticos, especialistas de direito
e de genética forense, investigadores criminais, reclusos e generalidade dos
cidadãos acerca do uso dos dados contidos naqueles repositórios. O artigo
parece contudo ter um desígnio maior: o de promover
uma reflexão acerca do papel que assiste às ciências sociais na abordagem
destas matérias. Além de lhes caber a tarefa de analisar “novas e velhas” formas de cidadania, que se
interpenetram em modalidades de “cidadania genética” (p. 166), caber-lhes-á
também desmontar a credulidade acrítica (“mito da infalibilidade”) que pesa
sobre estes assuntos numa sociedade “em que a mística associada aos genes tende
a imperar” (p. 166).</p>

    <p>O livro encerra com um artigo de Manuela
Ivone Cunha, que regressa a um dos seus temas de eleição: a relação
prisão-sociedade. Neste caso, a investigadora procura elencar diversos subtemas
suscitados por esta conexão, alimentando-os do diálogo entre o estado da arte
produzido sobre a matéria e os resultados emergentes dos seus próprios
trabalhos empíricos. Ao sugerir algumas das mais importantes direções para o
estudo da realidade prisional, ao discutir a validade de pressupostos teóricos
anteriores, ao propor novos pontos de partida, o texto que aqui nos apresenta é
de novo indispensável a todos aqueles que, em
Portugal, pretendam trabalhar este tema que, além de multidimensional,
estabelece importantes conexões com aspetos macrossocietais.</p>

    <p>Importa relembrar, antes de concluir, que
este breve escurso por <i>Do Crime e do Castigo</i> está longe de fazer jus à
riqueza de muitos dos seus textos, mas não deve também sugerir que todos os
artigos estão imunes à crítica, libertos de aspetos menos conseguidos. Por
razões que esclarecemos de início, e que se prendem com imperativos de síntese,
esse trabalho terá de ser deixado ao leitor que, com proveito, procure entrar nesta
obra densa e multiangular.</p>



     ]]></body>
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