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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Justiça transicional e clivagem esquerda/direita no parlamento português (1976-2015)]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Transitional justice and left-right cleavage in the Portuguese parliament (1976-2015)]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de Lisboa Instituto de Ciências Sociais ]]></institution>
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<country>Portugal</country>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article analyzes the behavior of parliamentary parties during the decision-making process on how to deal with the authoritarian past in Portugal from 1976 to 2015. The goal is to examine the importance of the left-right cleavage vis-à-vis other factors explored in the literature. Through this study we aim to understand the extent to which party ideology explains the initiative and the support given to transitional justice initiatives in parliament. The main conclusion is that ideology on its own does not explain party behavior and that other factors such as the government/opposition cleavage and the legacies of the transition help explain the observed patterns]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[justiça transicional]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[iniciativas legislativas]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[partidos políticos]]></kwd>
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<kwd lng="en"><![CDATA[Portugal]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><b>ARTIGO</b></p>

    <p><b>Justiça
transicional e clivagem esquerda/direita no parlamento
português (1976-2015)</p>

    <p>Transitional
justice and left-right cleavage in the Portuguese parliament (1976-2015)</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Filipa Raimundo</b>*</p>

    <p>*Instituto de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa, Avenida Prof. Aníbal de
Bettencourt, 9 — 1600-189 Lisboa, Portugal. 
E-mail: <a href="mailto:filipa.raimundo@ics.ulisboa.pt">filipa.raimundo@ics.ulisboa.pt</a></p>


    <p>&nbsp;</p>


    <p><b>RESUMO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este artigo analisa o
comportamento dos partidos políticos parlamentares durante o processo de tomada
de decisão sobre como lidar com o passado autoritário em Portugal entre 1976 e
2015. O objetivo é analisar a importância da clivagem esquerda/direita
<i>vis-à-vis</i> outros fatores explorados pela literatura. Através deste
estudo procuramos perceber em que medida é que a iniciativa e o apoio dado às
medidas de justiça transicional no parlamento podem ser explicados com base na
ideologia dos partidos proponentes. A principal conclusão é que a ideologia por
si só não explica o comportamento dos partidos e que fatores como a clivagem
governo/oposição e os legados da transição ajudam a explicar os padrões
identificados.</p>

    <p><b>Palavras-chave</b>: justiça transicional; iniciativas
legislativas; partidos políticos; parlamento; Portugal.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>This
article analyzes the behavior of parliamentary parties during the
decision-making process on how to deal with the authoritarian past in Portugal
from 1976 to 2015. The goal is to examine the importance of the left-right
cleavage vis-à-vis other factors explored in the literature. Through this study
we aim to understand the extent to which party ideology explains the initiative
and the support given to transitional justice initiatives in parliament. The
main conclusion is that ideology on its own does not explain party behavior and
that other factors such as the government/opposition cleavage and the legacies of the transition
help explain the observed patterns</p>

    <p><b>Keywords</b>: transitional justice; legal initiatives;
political parties; Parliament; Portugal.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>INTRODUÇÃO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Depois da terceira vaga
de democratizações, as políticas de justiça transicional tornaram-se não apenas
parte dos processos de mudança de regime, como parte das políticas que são (ou
podem ser) repetidamente colocadas na agenda ao longo da democracia consolidada
(Elster, 2004; Golob, 2008; Horne, 2009; Collins, 2010; Raimundo, 2012). Se no
início dos anos 90 do século XX, os estudos existentes apontavam
fundamentalmente para a importância dos fatores associados à ação dos atores no
processo mais amplo de mudança de regime (Huntington, 1991; Welsh, 1996;
Williams, Fowler and Szczerbiak, 2005), tornou-se necessário identificar outros
fatores, para além do modo de transição, que permitissem explicar diferentes
abordagens sobre como lidar com o passado autoritário após o período de
democratização. Com algumas exceções (Szczerbiak, 2002; Calhoun, 2004; Grodsky,
2008; Aguilar, 2008a; Nalepa, 2010; Pinto e Morlino, 2011) esta literatura
tende a dedicar pouca atenção ao perfil político-ideológico dos decisores no
processo de adoção de políticas de justiça transicional. O nosso argumento é
que a análise do perfil político-ideológico, assim como das preferências dos
decisores, é fundamental para compreender a razão pela qual as democracias
aplicam ou rejeitam determinadas políticas de ajuste de contas com o passado em
detrimento de outras.</p>

    <p>Estudos recentes demonstram que a capacidade
institucional dos atores nacionais com vontade política para propor e implementar medidas de justiça transicional é um fator
determinante para explicar diferentes estratégias e políticas nacionais para
lidar com o passado (Raimundo, 2012). Contudo, poucos estudos se dedicaram a
identificar quem são os atores com “vontade política” nesta matéria. Podemos
assumir que esta vontade política tende a ser representada por atores que
recusam que o passado autoritário “caia” no esquecimento. Esses tenderão
provavelmente a ser mais ativos na elaboração de propostas de medidas de
punição (como a incriminação, o saneamento ou a restrição dos direitos
políticos dos responsáveis pelo regime anterior), de reparação (quer
financeira, quer da reintegração profissional das vítimas da ditadura), de
investigação (sobre a repressão e a responsabilidade política pela violação de
direitos humanos) e de memorialização (de quem integrou a oposição, dos atos de
resistência, da luta pela democracia). Neste sentido, torna-se importante
investigar em que medida é que a ideologia é um fator relevante para explicar
as opções tomadas pelos atores políticos.</p>

    <p>Este artigo analisa o comportamento dos partidos
políticos parlamentares portugueses durante os momentos de tomada de decisão
sobre como lidar com o passado autoritário entre 1976 e 2015. A principal
questão a que tentaremos dar resposta é a seguinte: quão relevante é a
ideologia para explicar o comportamento dos partidos parlamentares em matéria
de justiça transicional em Portugal? O objetivo é perceber em que medida é que
a clivagem esquerda/direita influencia a decisão de
apresentar, apoiar ou recusar medidas para lidar com o passado autoritário no
parlamento e se outros fatores podem ajudar a explicar o comportamento dos
partidos.</p>

    <p>O artigo está organizado da seguinte forma. Na
primeira parte apresentamos um enquadramento teórico a partir do qual
formulamos as nossas expectativas. Na segunda, apresentamos os métodos e dados
utilizados e explicamos as características do caso português. Nas secções
seguintes analisamos as leis e as iniciativas legislativas existentes e
testamos as teorias previamente apresentadas. O artigo conclui com algumas
considerações acerca da relevância da clivagem esquerda/direita
para explicar o comportamento dos partidos políticos portugueses em matéria de
justiça transicional em Portugal vis-à-vis os outros fatores analisados.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>A JUSTIÇA TRANSICIONAL
E A CLIVAGEM ESQUERDA/DIREITA</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Sabemos ainda muito pouco
acerca do perfil político-ideológico dos decisores e do seu papel explicativo
no processo decisório em matéria de justiça transicional. Existem diversos
estudos que apontam para o papel determinante dos movimentos sociais na decisão
de introduzir ou alterar políticas de justiça transicional (Arthur, 2009;
McEvoy e McGregor, 2008), mas fica por explicar quem são os atores
político-institucionais que transformam essas reivindicações coletivas em
propostas e promessas políticas e porquê. Outros
estudos apontam para a importância da linguagem dos direitos humanos ou para os
princípios da democracia liberal nos avanços verificados neste domínio
(Calhoun, 2004), mas fica por explicar em que medida é que esses são fatores
necessários ou suficientes e de que forma é que eles são partilhados pelos
atores políticos envolvidos no processo decisório. Saber quem são os atores com
capacidade institucional para mudar as políticas de justiça transicional e o
que explica as suas preferências e vontade política para introduzir essas
mudanças é, assim, um objetivo por cumprir.</p>

    <p>O caso português sugere, por um lado, que a
clivagem esquerda/direita pode ser um fator importante
e, por outro lado, que os partidos poderão ter um comportamento distinto
dependendo de estas medidas serem discutidas durante a fase de incerteza da
transição democrática ou durante a consolidação e estabilização das
instituições. A investigação existente sobre justiça transicional durante a
transição portuguesa revela que os partidos políticos representados na
Assembleia Constituinte (1975-1976) dividiram-se entre aqueles que se
manifestaram a favor de medidas punitivas de justiça transicional, à esquerda
do espectro político, e aqueles que adotaram um silêncio estratégico, à direita
do espectro político (Raimundo, 2015b). O comportamento dos últimos explica-se
particularmente com base no enviesamento do espectro político durante os anos
da transição. Mas o comportamento dos partidos de esquerda, para lá da posição
favorável ao ajuste de contas, apresenta diferenças significativas. Ainda não
sabemos se estes padrões se mantêm após a consolidação da democracia, mas estas
conclusões permitem-nos verificar que os partidos políticos situados à esquerda
e à direita do espectro político apresentaram um comportamento distinto, ainda
que não polarizado, sobre as questões do passado, mostrando que a ideologia é
um fator importante para explicar o comportamento dos partidos parlamentares em
Portugal, pelo menos nesta fase da mudança de regime. É possível que o
realinhamento do espectro político no final dos anos 1970 tenha alterado o
padrão de comportamento dos partidos de direita, mas a expectativa é que ele se
mantenha distinto dos partidos de esquerda.</p>

    <p>Essa expectativa mantém-se quando consideramos a
literatura sobre os países pós-comunistas, em relação aos quais existem alguns
estudos nesta área. Esta literatura mostra que no contexto pós-comunista tanto
os partidos com origem na oposição à ditadura, como os partidos herdeiros do
regime anterior apresentaram por vezes comportamentos não coerentes com as expectativas,
tendo em conta a sua ideologia. No primeiro caso, isso deve-se
ao fator “esqueletos no armário”, isto é, à existência de dissidentes
comunistas que terão colaborado com os serviços secretos antes de integrarem a
oposição ao regime. Como consequência, partidos que se esperaria que apoiassem
certas medidas de justiça transicional, dada a sua ideologia, não o fizeram,
com receio que isso lhes fosse prejudicial (Nalepa, 2010). No caso dos
segundos, essa incoerência traduziu-se na intenção de punir os indivíduos que
colaboraram com os serviços secretos durante o regime, apresentando iniciativas
legislativas nesse sentido, mesmo que isso representasse uma autopunição.<a name="top1"></a><sup><a href="#1">1</a></sup></a>
 Esse fenómeno tem sido interpretado como uma “ação preventiva”
iniciada quando estes partidos se encontram no governo. Neste segundo caso, ao
anteverem uma derrota eleitoral nas eleições seguintes, os partidos
pós-comunistas tentam evitar a perseguição política por parte do partido melhor
posicionado para vencer as eleições, aprovando medidas moderadas de ajuste de
contas com o passado, esperando desta forma encerrar o
assunto (Nalepa, 2010, p. 213).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os estudos existentes sobre o regime autoritário
português e sobre os partidos políticos que emergiram depois da transição
sugerem que a teoria dos “esqueletos no armário” e da “ação preventiva” poderão
não ser úteis para explicar o caso português. Apesar da importância que a
polícia política teve durante o regime de Salazar e Caetano, e não obstante a
sua extensa rede de informadores, a (quase) ausência do fenómeno de dissidência
no caso português – mesmo tendo em conta a chamada Ala Liberal, considerada uma
“semi-oposição” (Fernandes, 2007) – faz com que o efeito “esqueletos no
armário” não seja esperado em Portugal. Da mesma forma, a ausência de partidos
pós-salazaristas faz com que nenhum partido com representação parlamentar em
Portugal seja herdeiro do regime anterior ou defenda o <i>status quo ante</i>,
pelo que não deverá temer a adoção de medidas punitivas ou sentir-se
particularmente atacado por elas. Isso fará com que a ideologia possa ser um
fator mais importante em Portugal (e porventura na Europa do Sul) do que na
Europa de Leste. Por outras palavras, em Portugal espera-se que os partidos à
esquerda do espectro político votem de forma positiva e coerente as propostas
de medidas punitivas de justiça transicional, por não terem nada a temer; e
espera-se que os partidos de direita não apresentem medidas autopunitivas, mas
que também não se apresentem como forças de bloqueio perante as propostas da
esquerda, e que em alternativa se abstenham, por não lhes ser eleitoralmente
favorável votar ao lado da esquerda sobre questões relacionadas com a memória
histórica e a narrativa do passado.</p>

    <p>Se as expectativas no que toca às teorias do “esqueletos no armário” e da “ação preventiva” são
negativas, outros fatores identificados em contextos pós-autoritários poderão
ter uma maior capacidade explicativa. A teoria da “ação preventiva” admite ao mesmo tempo que a clivagem governo/oposição pode ser
importante, algo que é explorado por outros autores. Um estudo recente sobre o
caso espanhol sugere que em Espanha o comportamento do maior partido de
esquerda (PSOE), herdeiro da luta antifascista, resulta de uma
instrumentalização do passado decorrente do facto de a justiça transicional se
ter transformado numa arma de competição política, fazendo com que a política
partidária a este nível seja menos influenciada pela ideologia e também menos
coerente do que seria de esperar. Por outras palavras, o PSOE terá apresentado
e apoiado medidas enquanto partido da oposição que mais tarde teve relutância
em aprovar enquanto partido de governo (Aguilar, 2008b, pp. 427-428). Tendo em
conta as semelhanças entre Espanha e Portugal relativamente ao seu passado
autoritário e à matriz ideológica do maior partido de esquerda (o PSOE e o PS,
respetivamente), é de esperar que o mesmo comportamento se verifique em
Portugal.</p>

    <p>Um outro fator que, de acordo com a literatura, poderá ajudar a explicar o
comportamento dos partidos é o legado da transição. A literatura sobre Portugal
demonstra que depois de cerca de dois anos de transição, a esquerda ficou
fraturada entre os “perdedores” da transição – o PCP – e os “vencedores” da
transição – o PS (Louçã, 2016). Esse foi um legado com
consequências duradouras para a democracia portuguesa e com implicações ao
nível quer da formação de governos, quer da criação de alianças à esquerda
(Pinto e Raimundo, 2014). Durante 40 anos de democracia não houve diálogo ao
nível nacional entre os principais partidos de esquerda, o que poderá
refletir-se também na predisposição para assumirem a mesma posição em matéria
de justiça transicional. Assim, a tendência já identificada nos estudos
anteriores para uma diferenciação no comportamento dos partidos dentro da
esquerda deverá ser confirmada. Espera-se, contudo, que esse efeito possa ser
mitigado durante os governos do PSD. De acordo com um estudo recente, durante
esses governos terá havido uma estratégia de “silenciamento” da memória do
autoritarismo através da construção de uma “memória negativa da Revolução que
procura bloquear a expressão da memória da resistência” (Loff, 2015, p. 64).
Consequentemente espera-se que a esquerda se apresente menos alinhada do que a
direita no seu comportamento de voto em matéria de justiça transicional, exceto
durante os governos do PSD.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>OS MÉTODOS E OS DADOS</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Este artigo analisa e
compara o comportamento dos partidos políticos no parlamento português entre
1976 e 2015 relativamente às iniciativas legislativas sobre justiça
transicional, com o intuito de perceber qual a importância da clivagem esquerda/direita. Através desta análise procurámos, em
primeiro lugar, identificar quem são os partidos com “vontade política” para
ajustar contas com o passado. Neste contexto, definimos “vontade política” como
a decisão de apresentar iniciativas legislativas.<a name="top2"></a><sup><a href="#2">2</a></sup></a>
Em segundo lugar, procurámos identificar quem são os partidos que
apoiam e rejeitam aquelas iniciativas. Assim, incluímos apenas partidos que
estiveram pelo menos cinco anos no parlamento, de forma a termos um número
suficiente de observações.</p>

    <p>Tendo em conta que existe uma diferença temporal
de dois anos entre a entrada em funções do parlamento e o início da transição
(sobre o qual falaremos adiante), houve necessidade de analisar também a
legislação publicada entre 1974 e 1976 com o intuito de ponderar as
expectativas relativamente ao posicionamento dos partidos políticos. Assim,
comparámos o número de leis publicadas até 1976 com o número de iniciativas
discutidas no parlamento depois de 1976, considerando a orientação geral da
justiça transicional em ambos os casos. O pressuposto é o de que quanto maior o
número de leis aprovadas antes da entrada em funções da AR
e quanto maior for a enfâse sobre os responsáveis e colaboradores do regime
durante os primeiros anos, menor será a tendência para a polarização do debate
no parlamento e, consequentemente, menor será a expectativa sobre a importância
da clivagem esquerda/direita.</p>

    <p>Neste sentido, procedemos a uma recolha de dados
relativos ao período 1974-2015<a name="top3"></a><sup><a href="#3">3</a></sup></a> a partir de três fontes: 1) o arquivo das iniciativas legislativas,
disponível no sítio oficial da Assembleia da República (AR)
(<a
href="http://www.parlamento.pt" target="_blank">
http://www.parlamento.pt</a>), complementada pelos dossiês das iniciativas legislativas
dos anos 1976 a 1997 (indisponíveis na íntegra na página oficial) depositados
no Arquivo da AR; 2) o arquivo dos debates da
Assembleia da República, também disponível no sítio oficial da AR; e 3) a base
de dados de legislação oficial disponível através do sítio
<a
href="http://dre.tretas.org/about/" target="_blank">
http://dre.tretas.org/about/</a>. Em ambos os casos – iniciativas legislativas e
legislação publicada – aplicámos a técnica de recolha apelidada “bola de neve”,
partindo de palavras-chave extraídas da literatura e de conclusões de
investigações anteriores (Raimundo, 2012).</p>

    <p>A partir daquela recolha construímos duas bases
de dados, uma constituída por 102 diplomas legais<a name="top4"></a><sup><a href="#4">4</a></sup></a> e outra por 36 iniciativas legislativas. No primeiro caso, codificámos
o ano de publicação e o corpo emissor; no segundo caso, codificámos a autoria e
a situação do partido proponente enquanto governo ou oposição. No primeiro
caso, a unidade de análise são as leis (em sentido lato); no segundo caso, a
unidade de análise são as votações em plenário. Numa parte da análise, o número
de casos não corresponde ao número de iniciativas por duas razões: primeiro, as
iniciativas que foram votadas conjuntamente foram consideradas apenas um caso
e, segundo, as iniciativas que foram votadas quer na generalidade, quer na
votação final global foram consideradas dois casos, já que os partidos não
votam necessariamente da mesma forma nos dois momentos. Na fase da
generalidade, os diplomas são integralmente da responsabilidade dos grupos
parlamentares que os subscrevem, antes da discussão na especialidade, o que nos
permite avaliar qual a recetividade de cada partido em relação às propostas,
tais como elas foram apresentadas pelas bancadas parlamentares que os assinam.
A fase da votação final global é a fase em que os diplomas regressam ao
plenário, vindos da comissão parlamentar competente, onde por vezes existem
processos de fusão entre iniciativas semelhantes. Diferentemente da votação
anterior, o que aqui está em causa não é tanto a recetividade face às propostas
originais dos partidos, mas sim em que medida é que os partidos estão dispostos
a dar o seu apoio aos diplomas tal como eles foram aprovados na comissão
competente e que irão constituir as leis que definem a forma como o Estado
pune, repara, investiga e/ou divulga os legados do autoritarismo em Portugal.
Entre a votação na generalidade e a votação final global as iniciativas são
discutidas e possivelmente alteradas dentro da comissão competente e são também
sujeitas a votação, contudo essa votação não foi analisada por falta de dados
sobre o comportamento de voto dos partidos. Para além disso,
as propostas de resolução são submetidas a uma votação única em plenário,
designada por votação deliberação. Optámos por comparar diretamente as várias
votações já que, apesar daquelas diferenças, elas são comparáveis nos aspetos
que interessam à nossa análise. Por fim, tanto no caso da legislação como das
iniciativas legislativas codificámos cada caso com base em quatro eixos:
“investigação e verdade”, “justiça e reconciliação”<a name="top5"></a><sup><a href="#5">5</a></sup></a>,“educação
e memorialização” e “reparação e reconhecimento”, e isso permitiu-nos comparar
os dois tipos de dados.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O caso português foi escolhido por constituir um
bom laboratório para testar as teorias acima apresentadas. Apesar de o regime
autoritário ter ­recorrido pouco ao terrorismo de Estado, a democracia
portuguesa encontra-se entre as que aplicaram uma maior diversidade de medidas
de justiça transicional desde o início da transição (Olsen, Payne e Reiter,
2010). Entre as medidas adotadas em Portugal para lidar com o passado
inclui-se, em sentido lato: o exílio forçado do primeiro-ministro e do chefe de
Estado; o julgamento de 2667 funcionários e informadores da principal
instituição repressiva; o saneamento dos colaboradores do regime, tanto no
sector público como no privado; uma comissão de investigação com
características semelhantes às de uma comissão de verdade; diversas medidas de
reconhecimento e reparação das vítimas, incluindo a amnistia aos presos
políticos, desertores e refratários, a reintegração de indivíduos afastados da
função pública, e a compensação financeira por diversas ações de luta e
resistência; e ainda algumas ações de memorialização e preservação de locais
simbólicos (Raimundo, 2015a). Ainda que muitas daquelas medidas tenham sido
adotadas de forma <i>ad-hoc</i> (como o exílio forçado), a grande maioria foi
enquadrada por legislação aprovada desde o primeiro dia da transição, o que nos
permite analisar quando e quem aprovou que medida. Para além
disso, a rápida institucionalização e relativa estabilidade do sistema
partidário ao longo de quarenta anos facilita a análise longitudinal do
comportamento dos partidos face ao seu posicionamento na escala
esquerda/direita.</p>

    <p>A análise do comportamento dos partidos inicia-se
em 1976 porque durante os dois primeiros anos da transição portuguesa não
existiu uma assembleia legislativa composta por representantes do povo. A
Assembleia Constituinte, que vigorou entre abril de 1975 e abril de 1976, não
possuía poderes legislativos, apenas constitucionais, e as forças políticas
nela representadas foram sujeitas aos chamados “Pactos MFA/Partidos”, que no
essencial pretendiam reduzir a atuação dos partidos políticos e assegurar os
poderes dos militares que conduziram a transição (Rezola, 2007).</p>

    <p>O parlamento só reabriu como “Assembleia da
República” na sequência das eleições de abril de 1976. A decisão de analisar o
comportamento dos partidos parlamentares ao longo de 40 anos resultou também do
facto de quatro dos partidos que têm sido eleitos consecutivamente desde 1976
concentrarem 80 a 90% dos votos (Jalali, 2007). À esquerda destacam-se o
Partido Socialista (PS) – fundado em 1973 por antifascistas, socialistas e
republicanos e inspirado e apoiado pela social-democracia europeia – e o PCP –
um partido marxista-leninista ortodoxo fundado em 1921, que sobreviveu na
clandestinidade durante todo o Estado Novo. Para além do PS e do PCP, há a
referir dois outros partidos de esquerda. Até 1983, esteve representado na
Assembleia da República um partido de extrema-esquerda chamado União
Democrática Popular (UDP), com um deputado; a partir de 1999, um partido com
origem na UDP e em outros pequenos partidos trotskistas e maoístas, o Bloco de
Esquerda (BE), conseguiu obter representação parlamentar em todas as eleições
legislativas. Do outro lado do espectro político, a elite que se apresentou
marcadamente à direita durante a transição não conseguiu vingar, quer por
ausência de estratégia, quer por falta de liderança ou de coesão interna, quer
ainda pelo contexto revolucionário (Marchi, 2012). Houve no fundamental um
partido que permitiu que alguns ex-elementos da elite política da ditadura se
mantivessem na cena política nacional: o Centro Democrático Social (CDS),
criado em julho de 1974. Já os membros da chamada “semi-oposição”,
representada pela Ala Liberal, que durante os anos 1968-1974 utilizou os seus
lugares na Assembleia Nacional para tentar forjar um processo de liberalização
do regime, na sua grande maioria fundaram ou aderiram a um novo partido de
centro-direita, o Partido Social Democrata (PSD) (Fernandes, 2007). Assim,
outro aspeto importante é o facto de a esquerda se caracterizar pelo seu
passado de oposição à ditadura, enquanto a direita não representa uma corrente
pós-salazarista.</p>

    <p>Por fim, é igualmente importante ter em conta que
a transição democrática foi marcada por um dualismo na organização do poder
político (Fernandes, 2009). Civis e militares partilharam o poder político; legitimidade revolucionária e democrática coexistiram. Isto
contribuiu para a coexistência de instituições com poderes sobrepostos e com
diferentes entendimentos sobre as políticas a seguir, nomeadamente em áreas
como a justiça transicional. Só em 1982 é que se procede a uma revisão
constitucional que pôs fim a esse período de exceção e se concluiu a transição
e consolidação democráticas (Linz e ­Stepan, 1996).</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>UMA VISÃO GERAL SOBRE
AS LEIS E OS EIXOS DA JUSTIÇA TRANSICIONAL</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Antes de entrarmos
diretamente na questão da ideologia, é importante perceber qual o peso relativo
que o parlamento teve e tem tido no âmbito da justiça transicional em Portugal.
Em que medida é que a AR, ao iniciar funções dois anos depois do início da
transição democrática, tentou manter ou alterar o tipo de políticas de justiça
transicional adotadas até então? Este aspeto é importante para perceber em que
medida é que o comportamento dos partidos é uma reação a iniciativas que tentam
introduzir mudanças significativas sobre o rumo da justiça transicional ou que
pretendem manter no essencial a mesma linha de orientação adotada até então.
Para além disso, também nos permite verificar se o
eixo que é habitualmente mais polarizador – justiça e reconciliação – esteve em
destaque na AR ou não. A <a href="#f1">figura 1</a> compara o peso relativo de cada um dos eixos
da justiça transicional no caso da legislação e das iniciativas legislativas. A
leitura do gráfico sugere que ao nível da legislação existe uma maioria de leis
no eixo “justiça e reconciliação”, embora no ­parlamento esse eixo tenha sido
menos importante do que os eixos “reparação e reconhecimento” e “investigação e
verdade”. Ou seja, o tipo de leis que se prevê que conduzam a maior polarização
– no eixo justiça e reconciliação – não são aquelas sobre as quais os partidos
incidiram no parlamento.</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="f1">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n222/n222a04f1.jpg"></p>
    
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>


    <p>Para compreendermos melhor esta questão, a <a href="#f2">figura 2</a> mostra a legislação sobre justiça transicional por corpo emitente. Esta
análise mostra que mais de metade da legislação foi aprovada por instituições
militares (JSN, CR, CCEMFA)<a name="top6"></a><sup><a href="#6">6</a></sup></a> e provisórias (para além das anteriores, os governos provisórios).
Isto significa que as leis e resoluções<a name="top7"></a><sup><a href="#7">7</a></sup></a> aprovadas pela AR constituem, em termos
puramente quantitativos, uma percentagem reduzida da legislação publicada até
hoje neste domínio: 16 por cento.<a name="top8"></a><sup><a href="#8">8</a></sup></a> Isto sugere que o papel da AR neste processo foi relativamente
diminuto e, juntamente com a análise da <a href="#f1">figura 1</a>, leva-nos a considerar que os
temas em debate não tendem a ser geradores de grande polarização ideológica.
Dito isto, veremos em seguida qual a importância da ideologia no comportamento
dos partidos parlamentares.</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="f2">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n222/n222a04f2.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>AS INICIATIVAS
LEGISLATIVAS SOBRE A JUSTIÇA TRANSICIONAL</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>De acordo com os dados
recolhidos, o número de leis aprovadas pela AR
constitui menos de metade das iniciativas legislativas apresentadas pelos deputados
das diversas bancadas parlamentares ao longo de 40 anos de democracia. Entre
1976 e 2015, os grupos parlamentares da UDP, PCP, BE, PS, PSD e CDS
apresentaram quer a título individual, quer conjuntamente, um total de 36
iniciativas legislativas relacionadas com o passado, incluindo projetos de lei
e de resolução enquanto o executivo apresentou uma única proposta de lei. A
primeira foi apresentada em Dezembro de 1976 e a mais recente em junho de 2015.
Ainda que não existam dados que nos permitam apresentar uma análise comparada,
podemos afirmar que a atividade parlamentar sobre temas de justiça ­transicional
em Portugal entre abril de 1976 e agosto de 2015 foi pouco intensa, mas
constante, contrariando a tese veiculada pela literatura dos anos 1990 e 2000,
segundo a qual as questões relativas ao passado não democrático se resolvem
durante a transição à democracia (Huntington, 1991; Elster, 2004).</p>

    <p>A <a href="#f3">figura 3</a> apresenta o número das iniciativas
apresentadas e aprovadas, por bancada parlamentar.<a name="top9"></a><sup><a href="#9">9</a></sup></a>
Somando as iniciativas apresentadas pelos partidos à esquerda do
espectro político (22) e aquelas apresentadas pelos partidos à direita (7),
podemos concluir que os partidos de esquerda têm sido mais ativos na
apresentação de iniciativas legislativas nesta matéria do que os partidos de
direita, o que vai ao encontro das nossas expectativas. Os dados revelam que os
dois partidos que mais propostas apresentaram até à data foram o PS e o PCP,
ambos partidos de esquerda. À esquerda do PCP, o número de propostas é muito
inferior, mas isso não nos permite retirar grandes conclusões sobre a vontade
política destes partidos em legislar sobre esta matéria, já que o número de
anos de experiência parlamentar, tanto no caso da UDP como do BE, é muito
inferior ao do PS e do PCP. Mais surpreendente é o facto de o terceiro partido
com o maior número de iniciativas ser o CDS, o partido
mais à direita.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<a name="f3">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n222/n222a04f3.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

    <p>A análise dos debates parlamentares revela uma
dupla estratégia por parte do CDS: por um lado, uma estratégia de desincentivo
à divulgação da memória através da tentativa de regulação do acesso aos
arquivos; por outro lado, uma estratégia de não oposição às medidas
apresentadas pela esquerda. No primeiro caso, a estratégia do CDS observa-se
nas propostas apresentadas relativamente aos arquivos, que visavam limitar a
sua consulta, criminalizar o seu uso indevido, e devolver aos proprietários os
documentos apreendidos pelo Estado Novo; no segundo caso, o CDS não se opõe às
iniciativas dos partidos de esquerda mas em troca
reivindica a inclusão da memória e do legado da transição. Fá-lo por duas
vezes, primeiramente em relação a uma iniciativa do PCP que visava impedir a
constituição de partidos de ideologia fascista, em que o CDS sugere que se
impeça a constituição de partidos que defendam toda e qualquer forma de
“totalitarismo”, numa alusão clara às alegadas intenções do PCP durante a
transição; em segundo lugar, fá-lo em relação a uma iniciativa que visava a reparação das vítimas do Estado Novo, da autoria do PS,
propondo que esta seja alargada também às vítimas da transição (dos processos
de saneamento, das detenções e do exílio a que foram forçados em consequência
da perseguição política durante o período de radicalização), mesmo que a título
simbólico. Depois de votar contra a iniciativa original, a bancada parlamentar
do CDS chega mesmo a apresentar uma declaração de voto com o intuito de
clarificar que não se tratou apenas de “um voto contrário, mas uma especial
censura política a este branqueamento da nossa história recente”. Este comportamento
está próximo do que é descrito pela tese do silenciamento da memória (Loff,
2014), ou seja, uma tentativa de passar uma imagem negativa da transição.
Assim, preferimos interpretar este comportamento do CDS como uma consequência
do “duplo legado”, o do autoritarismo e o da transição (Pinto, 2006).</p>

    <p>Uma outra tendência evidenciada pela leitura do gráfico é a de que os partidos
mais próximos dos extremos ideológicos apresentam maior dificuldade na
aprovação das suas iniciativas nesta área. Tanto no caso da UDP como do CDS, a
taxa de sucesso foi zero. Curiosamente, a maior taxa de sucesso é a do PSD,
sendo que nestes casos tratou-se de iniciativas que foram discutidas
conjuntamente com outros e que resultaram em leis que refletem uma posição
geral.</p>

    <p>Contrariamente às nossas expectativas, entre as
36 iniciativas apresentadas ao longo dos 40 anos de democracia existiram seis
propostas conjuntas que envolveram partidos à esquerda e à direita do espectro
político, o que à partida contraria a importância da ideologia. Para além disso, essas seis propostas foram na sua quase
totalidade apresentadas entre 1982 e 1990, ou seja, nos anos imediatamente a
seguir à consolidação da democracia. Isto reforça a conclusão anterior, uma vez
que seria de supor que a predisposição dos partidos para apresentarem medidas
conjuntas diminuísse com o realinhamento do espectro partidário ao centro.</p>

    <p>Para além da questão da autoria, coloca-se também
a questão do voto. A <a href="#f4">figura 4</a> identifica a percentagem de iniciativas que foram
rejeitadas e que caducaram, assim como aquelas que foram aprovadas por
unanimidade e por maioria.<a name="top10"></a><sup><a href="#10">10</a></sup></a> 
Os dados mostram que a maioria das iniciativas foi aprovada por
unanimidade. Essa percentagem é de 50 por cento nas votações na generalidade e
de 55 na votação final global. A análise individual das iniciativas que foram
submetidas a estas duas votações mostra que os consensos não se formam nem se
quebram no interior das comissões parlamentares. Regra geral, as iniciativas
que são votadas por unanimidade na generalidade, voltam a sê-lo na votação
final global, e as iniciativas que não gozam de unanimidade na primeira
votação, são aprovadas por maioria na segunda votação. No caso da votação
deliberação, referente às resoluções e outras iniciativas não de lei, a percentagem
de aprovação por unanimidade é de 75 por cento. Em qualquer dos casos, este
padrão indica que a ideologia não pesa muito no momento de aprovar este tipo de
legislação. O mesmo tipo de conclusão pode ser extraída
da análise do número de iniciativas rejeitadas, que é quase nulo, constituindo
apenas 10 por cento dos casos na fase da votação na generalidade. Nos restantes
casos, não há registo de votos contra que tenham levado à rejeição das
iniciativas.</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="f4">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n222/n222a04f4.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nas secções seguintes apresentamos um conjunto de
análises que nos permitem compreender em que medida é que os fatores extraídos
da literatura ajudam a explicar o comportamento dos partidos parlamentares no
caso português.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>ALGUÉM SE OPÕE?</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>A percentagem de
iniciativas rejeitadas apresentada na <a href="#f4">figura 4</a> é muito marginal e surge de
ambos os lados do espectro político: num caso tratou-se de uma iniciativa do
CDS que foi rejeitada por uma maioria constituída pelas bancadas do PS e do
PCP; no outro caso tratou-se de uma iniciativa do BE que foi rejeitada por uma
maioria constituída pelas bancadas do PSD e do CDS. Este último caso ocorreu em
2012, durante o governo de coligação PSD/CDS marcado por uma elevada crispação
e polarização ideológica. Contudo, em 2015, durante esse mesmo governo, houve
duas propostas de resolução que foram aprovadas no eixo “educação e
memorialização” com o voto favorável dos partidos da esquerda e a abstenção da
direita.</p>

    <p>O tipo de diploma não parece ser um aspeto
despiciendo para compreender a razão pela qual a direita se posiciona raras
vezes contra este tipo de medidas: quase metade das medidas aprovadas nesta
área são resoluções da AR, ou seja, têm uma
importância muito inferior às leis, já que as resoluções constituem tomadas de
posição do órgão legislativo, mas não vinculam o governo. Neste sentido, a
opção por não rejeitar as iniciativas pode ter mais a ver com o tipo do que com
o conteúdo da iniciativa. Esta ideia fica reforçada com o exemplo de 2015, um
caso em que, de acordo com a imprensa, o governo já se havia manifestado contrário
à iniciativa antes da sua chegada ao parlamento em forma de petição. Ambas as
resoluções referidas resultaram de uma petição que reclamava a concretização de
um “tributo aos mártires do século XX” na antiga sede da PIDE, no Porto,
apresentada pela União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), uma
associação ligada ao PCP, depois de cinco anos de conversações falhadas com a
instituição militar e com o governo.<a name="top11"></a><sup><a href="#11">11</a></sup></a> Apesar da abstenção dos partidos do governo (PSD e CDS) em 2015, é sabido
que o executivo composto por estes partidos já se havia manifestado contrário a
esta iniciativa, como fica claro através de um despacho de 2012 em que o
Ministério da Defesa afirmava não ser oportuno “qualquer evento deste tipo em
instalações militares”.<a name="top12"></a><sup><a href="#12">12</a></sup></a>

    <p>A percentagem
reduzida de iniciativas rejeitadas não traduz necessariamente a existência de
poucos votos contra, já que eles podem ser apresentados em situações em que
exista uma maioria a favor. O que se verifica através da leitura da <a href="#f5">figura 5</a> é
que os partidos políticos à esquerda do espectro político apresentaram menos
votos contra e abstenções do que os partidos à direita. Um dos casos em que
mais uma vez o PCP votou contra ilustra a tese do “duplo legado”, já que se
tratou de uma proposta de inquérito parlamentar “ao eventual desvio de
informações e documentos dos arquivos da PIDE/DGS para o KGB”, apresentada pelo
PSD. Tratando-se de um tema relativo ao passado autoritário, a iniciativa
coloca em causa o PCP como principal detentor da memória do autoritarismo,
condenando o seu papel durante a transição. Através da análise dos debates
parlamentares é possível verificar que o PS teve alguma dificuldade em saber
como se posicionar. Se por um lado votou com a direita a favor da iniciativa,
por outro lado afirmou não querer apoiar “objetivos espúrios e circunstanciais
de chicana política ou de julgamento simplista de uma fase complexa da nossa
história recente” (DAR, 2/3/1995, p. 1638) Quanto aos partidos de direita,
verifica-se uma grande coerência entre os dois partidos. Emitiram exatamente o
mesmo número de votos contra e abstenções, perante os mesmos tipos de medidas,
com maior incidência para as propostas sobre “justiça e reconciliação”. Há duas
conclusões a retirar daqui. Em primeiro lugar, confirmando as expectativas, a
direita parece estar mais coesa e uniforme nas suas posições relativamente à
justiça transicional do que a esquerda. Em segundo lugar, a direita não parece
estar particularmente interessada em bloquear este tipo de iniciativas já que,
como se pode ver pela <a href="#f5">figura 5</a>, sempre que um dos partidos vota contra o outro abstém-se. Estes dados parecem contrariar a tese do
silenciamento da memória. De facto, as seis leis que foram aprovadas por
maioria, conseguiram os votos a favor da esquerda e a conjugação entre um voto
contra e uma abstenção à direita. Por outras palavras, a ausência de voto a
favor por parte dos partidos de direita não inviabilizou a aprovação dos
diplomas. Estes resultados sugerem que os fatores associados aos cálculos custo/benefício
não parecem explicar o comportamento dos partidos.</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="f5">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n222/n222a04f5.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>


    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>A INSTRUMENTALIZAÇÃO
DO PASSADO? A CLIVAGEM GOVERNO/OPOSIÇÃO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>A <a href="#f6">figura 6</a> exibe o número de iniciativas apresentadas pelos partidos do
“arco da governação” até 2015 (PS, PSD e CDS) distinguindo entre os períodos em
que estiveram no governo e os períodos em que estiveram na oposição. Os dados
indicam que só o PSD não apresentou mais iniciativas legislativas durante os
anos em que esteve na oposição, quando comparados com os anos em que esteve no
governo, ao contrário do que sucede com o PS e o CDS. Contudo, é necessário ter
em conta o facto de o CDS ter estado no governo por um período de tempo
inferior ao dos dois maiores partidos, concretamente 137 meses
(maioritariamente em coligação com o PSD), contra os 204 e 250 do PS e do PSD,
respetivamente. Contudo, o número de observações não permite extrair grandes
conclusões.</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="f6">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n222/n222a04f6.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

    <p>Em seguida, analisamos o comportamento dos
partidos de fora do “arco da governação” até 2015 (UDP, BE, PCP), diferenciando
entre os períodos de governos do PS e do PSD + PSD/CDS (<a href="#f7">figura 7</a>). Uma vez que
a UDP, o BE e o PCP se situam todos à esquerda do espectro político, e tendo em
conta que todos os governos de direita foram governos maioritários, é provável
que aqueles partidos tenham percecionado que a probabilidade de verem as suas
iniciativas aprovadas seria inferior durante os governos PSD ou PSD/CDS do que
durante os governos PS. Neste sentido, esta análise possibilita uma outra forma de olhar para a questão da instrumentalização
do passado por parte da esquerda, verificando se os partidos tentam retirar
dividendos nesta matéria, forçando os governos do outro lado do espectro
político a posicionar-se sobre o passado autoritário. O que se percebe
analisando a <a href="#f7">figura 7</a> é que só existe uma estratégia claramente diferenciada, a
do PCP, já que o número de iniciativas apresentadas por este partido mais do
que duplica quando a direita está no governo.</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="f7">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n222/n222a04f7.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>


    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Até agora constatámos que os partidos de esquerda
foram os que mais iniciativas apresentaram, os que
menos votaram contra e se abstiveram, e que votaram favoravelmente, juntamente
com a direita, a maioria das iniciativas que foram aprovadas. Quererá isto
dizer que esta esquerda, que saiu fragmentada da transição democrática, superou
o legado da transição no momento de “legislar sobre o passado”? E como explicar
o comportamento da direita no caso das iniciativas aprovadas por unanimidade? A
secção seguinte dará resposta a estas questões.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>APROVAÇÃO POR
UNANIMIDADE E ALIANÇAS INTRABLOCO: QUAL O LEGADO DA TRANSIÇÃO?</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Como referimos
anteriormente, o número de iniciativas aprovadas por unanimidade é contrário às
nossas expectativas. Por um lado, esperava-se que esquerda e direita não
votassem no mesmo sentido; por outro lado, a hipótese de o legado da transição
– dos perdedores e vencedores – apontava para uma esquerda fraturada e com
comportamentos distintos. O número de iniciativas aprovadas por unanimidade põe
em causa estas duas ideias, assim como a tese do silenciamento da memória, já
que a maioria destas leis foi aprovada durante os governos do PSD. É portanto necessário compreender melhor este comportamento
dos partidos com o auxílio da análise qualitativa.</p>

    <p>As iniciativas votadas por unanimidade cobrem
todos os eixos da justiça transicional. No eixo “reparação e reconhecimento”
surgem duas propostas assinadas por todas as bancadas parlamentares relativas à
trasladação dos restos mortais do candidato presidencial assassinado pela PIDE
em 1965, ­Humberto Delgado, e uma proposta de reparação das vítimas da revolta
de dia 18 de janeiro de 1934, uma revolta encetada por sectores
anarcossindicalistas na Marinha Grande, e que foi apresentada pelo PCP. O facto
de Delgado ser uma das poucas vítimas mortais do regime, e
seguramente a mais conhecida, denota a ausência de controvérsia entre
esquerda e direita sobre a narrativa do passado.</p>

    <p>No eixo “educação e memorialização” surge uma resolução aprovada em 2008, que apesar de ser
oficialmente da autoria de todas as bancadas parlamentares partiu de uma iniciativa
do PS, e recomendava que o governo divulgasse a memória da luta pela democracia
junto das gerações mais jovens.<a name="top13"></a><sup><a href="#13">13</a></sup></a>As negociações foram encabeçadas por um “militar de Abril”, deputado
pelo PS, que considerava que qualquer legislação neste âmbito só teria sentido
se fosse aprovada por unanimidade, uma posição pouco comum nestes domínios.<a name="top14"></a><sup><a href="#14">14</a></sup></a>
 Segundo aquele deputado, a unanimidade esteve mais ameaçada pela
intenção do PCP de apresentar a sua própria iniciativa – algo que chegou a
concretizar, tendo posteriormente retirado em detrimento da do PS – do que pela
relutância dos partidos de direita em fazer aprovar por unanimidade uma lei
desta natureza.</p>

    <p>No eixo “justiça e reconciliação” surge mais uma vez uma iniciativa do PS, desta vez relativa
aos julgamentos dos funcionários e colaboradores da ­polícia política. Esta
iniciativa emerge em resposta à decisão do CR de em 1976 (já depois da
aprovação da Constituição) fazer uso dos seus agora limitados poderes
legislativos para legislar sobre uma matéria que estava sob a jurisdição
militar.<a name="top15"></a><sup><a href="#15">15</a></sup></a>O decreto-lei do CR permitia que os tribunais considerassem sete
atenuantes extraordinárias das penas previstas pela lei de incriminação (para
além das 23 circunstâncias previstas no artigo 39.º do Código Penal).<a name="top16"></a><sup><a href="#16">16</a></sup></a> O preâmbulo da lei fazia alusão à necessidade de abandonar a
legitimidade revolucionária e promover a consolidação da democracia, não
permitindo que as lutas políticas se sobrepusessem ao Estado de Direito
(Raimundo, 2007). Isso levou a que a bancada do PS apresentasse um projeto de
lei que dava voz a reivindicações da sociedade civil e anulava as duas
atenuantes mais controversas do decreto-lei do CR.<a name="top17"></a><sup><a href="#17">17</a></sup></a>
Foi essa iniciativa, que visava enfrentar o poder políticos dos
militares, que foi votada por unanimidade.</p>

    <p>Os restantes dois diplomas aprovados por
unanimidade dizem respeito aos arquivos da polícia política. É interessante
notar que a questão dos arquivos tem sido uma das mais polémicas em democracias
pós-autoritárias, fundamentalmente nos países pós-comunistas, dividindo habitualmente
a esquerda e a direita. No caso português, este foi o
único tema, entre as propostas aprovadas por unanimidade, em que a votação não
refletiu o nível de controvérsia que os debates parlamentares revelam. Sobre a
questão dos arquivos há a registar: uma iniciativa do CDS semelhante a uma
ideia defendida pelo PS durante a Constituinte; um projeto de lei do governo
PS/PSD; uma proposta conjunta envolvendo partidos do PCP ao PSD, e propostas
individuais de quase todas as bancadas parlamentares.</p>

    <p>Assim, os debates parlamentares confirmam que
todos os casos de aprovação por unanimidade refletem ausência de clivagem
ideológica. E quando não há unanimidade? Isso é um resultado de uma fratura
ideológica? A <a href="#f8">figura 8</a> apresenta os dados relativos aos votos favoráveis dos
grupos parlamentares do PCP, PS, PSD e CDS, segundo a origem dos diplomas.<a name="top18"></a><sup><a href="#18">18</a></sup></a>
Através deste gráfico podemos analisar com que frequência é que cada
um dos partidos votou favoravelmente as iniciativas vindas de outras bancadas
parlamentares.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<a name="f8">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n222/n222a04f8.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

    <p>A figura mostra
padrões de comportamento simétricos entre o PCP, por um lado, e o PSD e o CDS,
por outro. Ou seja, o PCP apresenta um comportamento de voto em progressão
descendente começando nas suas próprias propostas e terminando nas do CDS. No
caso do PSD e do CDS, a tendência é idêntica, começando por votar
favoravelmente as suas próprias iniciativas e decrescendo à medida que
avançamos para a esquerda. O partido que foge a esta tendência é o PS, que
tanto apoia as iniciativas da esquerda, como as da direita. Isto significa que
os partidos de direita votam de forma muito idêntica enquanto os partidos de
esquerda têm comportamentos de voto distintos.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>CONCLUSÃO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>O presente artigo
analisou as iniciativas legislativas em matéria de justiça transicional em Portugal
entre 1976 e 2015 procurando perceber quão relevante é a ideologia para
explicar o comportamento dos partidos parlamentares em relação à justiça
transicional em Portugal. A análise das teorias mostrou que para além da
ideologia há outros fatores que ajudam a explicar o comportamento dos partidos.</p>

    <p>A literatura existente sugeria que fatores como
os cálculos custo/benefício, ou a clivagem governo/oposição, se poderiam
sobrepor à ideologia. Testámos ambos os fatores analisando os votos contra e
abstenções, por um lado, e o estatuto dos partidos no momento em que
apresentaram as iniciativas, por outro. No primeiro caso, dada a ausência de “esqueletos no armário” e de partidos
pós-salazaristas que pudessem beneficiar de “ações preventivas”, não se
esperava que os cálculos custo/benefício se sobrepusessem à ideologia.
Concluímos que nem a esquerda rejeitou medidas que seria de esperar que
apoiasse, nem a direita aprovou medidas autopunitivas. No segundo caso, dadas
as semelhanças com o caso espanhol, esperava-se que a clivagem governo/oposição
pudesse ser relevante. Concluímos que o PS apresentou um número ligeiramente
superior de iniciativas quando esteve na oposição e que o PCP apresentou um
número significativamente superior de iniciativas durante os governos de
direita. Estes resultados sugerem que a clivagem governo/oposição é relevante,
mas o reduzido número de observações obriga-nos a alguma reserva em relação aos
resultados.</p>

    <p>Por último, analisámos a hipótese do legado da
transição, segundo a qual a esquerda portuguesa estaria fraturada e por conseguinte os partidos não apresentariam um padrão
comum de comportamento. Para tal, analisámos os votos a favor em cada uma das
iniciativas. A conclusão a que chegámos é que o comportamento de voto do PS é
distinto do do PCP. A análise qualitativa parece
confirmar que o legado da transição é muitas vezes mais impactante do que
parece supor.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Assim, a clivagem esquerda/direita
tem algum impacto, mas moderado. O “duplo legado” parece gerar mais
controvérsias do que o passado autoritário quando se legisla na área da justiça
transicional. A direita utilizou efetivamente a memória da transição durante o
processo legislativo, quer no conteúdo das suas propostas, quer através da
forma como justificou o seu voto, e isso traduziu-se
em dois aspetos: primeiro, na tentativa de penalizar o PCP pelo seu papel na
transição – foi o caso da tentativa de alargar a proibição de constituição de
partidos fascistas a todo o tipo de “totalitarismos” – e segundo, na tentativa
de evidenciar os excessos e injustiças cometidos nesses anos – foi o caso da
reivindicação para que as vítimas dos saneamentos, detenções e exílio durante a
transição fossem compensadas.<a name="top19"></a><sup><a href="#19">19</a></sup></a></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <!-- ref --><p>AGUILAR,
P. (2008a), <i>Políticas de la
memoria y memorias de la política</i>, Madrid, Alianza Editorial.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=087361&pid=S0003-2573201700010000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>AGUILAR, P. (2008b),
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    <!-- ref --><p>PINTO, A.C.
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<body><![CDATA[<!-- ref --><p>WELSH, H. (1996), “Dealing with the communist past:
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    <!-- ref --><p>WILLIAMS, K., FOWLER, B. e SZCZERBIAK, A., (2005), “Explaining
lustration in Eastern Europe: a post-communist politics approach”. <i>Democratization,
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    <p>&nbsp;</p>

    <p>Recebido a 22-06-2015. Aceite para publicação a 28-04-2016</p>

    <p>&nbsp;</p>


    <p><b>NOTAS</b></p>


    <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup>É importante notar que os
partidos pós-comunistas com capacidade de vencer eleições nacionais são, na maior
parte dos casos, os partidos reformados e mais moderados, não aqueles que
recusaram alterar a sua ideologia e a sua imagem.</p>

    <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup>A decisão de não incluir na
análise as iniciativas não-legislativas prende-se com
o facto de essa pesquisa ter produzido menos resultados, sendo por isso mais
limitada nas conclusões que nos permitia extrair.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup>2015 foi o ano em que o
legado da transição foi quebrado pela constituição de acordos bilaterais entre
PS e PCP, e PS e BE que viabilizaram a constituição de um governo minoritário
PS.</p>

    <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup>Foram excluídos os diplomas
relacionados com as questões da Guerra Colonial, descolonização e transição
democrática por se considerar que não têm relação direta com o legado do Estado
Novo enquanto regime não-democrático ou com o passado
autoritário enquanto tal.</p>

    <p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup>O eixo “justiça e punição”
não inclui apenas medidas para introduzir ou aumentar
a punição contra os responsáveis e colaboradores do regime anterior, inclui
também medidas que têm por objetivo reduzir o tipo ou a intensidade da punição
ou mesmo reverter o processo.</p>

    <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup>Entre abril de 1974 e março
de 1975, a JSN assumiu grande parte do poder legislativo e atribuiu a um
Conselho composto pelos Chefes de Estado Maior das Forças Armadas (CCEMFA) capacidade
legislativa em matérias respeitantes a assuntos internos ou relativos à
estrutura e organização das Forças Armadas. Após os acontecimentos do dia 11 de
março de 1975, a JSN foi dissolvida e substituída pelo Conselho da Revolução
(CR), que não só herdou os seus poderes legislativos (e os do CCEMFA) como
assumiu a função de segunda câmara com poderes de fiscalização das normas
constitucionais e das leis ordinárias (Magalhães, 1995; Rezola, 2007). Só em
abril de 1976, com a aprovação da Constituição e a eleição direta do presidente
da República e do primeiro governo constitucional, é que o poder político dos
militares foi significativamente subalternizado, apesar da persistência de
importantes prerrogativas até 1982 (Linz e Stepan, 1996). Essas prerrogativas
incluíam a exclusividade do poder legislativo sobre assuntos relativos às
Forças Armadas a nível doméstico (organização, funcionamento e disciplina) e a
nível internacional (ratificação de acordos internacionais através de
decretos-lei), assim como o estatuto de garante da constitucionalidade das
leis, incluindo a possibilidade de declarar inconstitucionais os diplomas
emanados do parlamento que não servissem a revolução.</p>

    <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup>Entre os diplomas
aprovados, o número de resoluções é superior ao número de leis. Tendo em conta
que as resoluções não constituem atos normativos, o parlamento parece
privilegiar a decisão de não vincular o governo nalgumas matérias,
especialmente no eixo “memória e verdade”, como veremos adiante.</p>

    <p><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></sup>Referimo-nos à legislação
no sentido amplo do termo, incluindo leis, decretos-lei, resoluções e
resoluções da AR, por órgão emitente.</p>

    <p><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></sup>Neste gráfico não estão
contempladas três leis do Orçamento Geral do Estado (Lei n.º 49/86, Lei n.º
101/89 e Lei n.º 75/83) onde constam artigos relativos à reparação e
reconhecimento dos presos políticos da colónia penal do Tarrafal por não
resultarem de iniciativas legislativas específicas. Estão também incluídas
iniciativas que caducaram ou foram retiradas antes mesmo de terem sido votadas.
Para além disso, houve duas iniciativas que deram
origem à mesma lei (Lei n.º 46/78).</p>

    <p><sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></sup>Para além destas situações
existem ainda casos de iniciativas que foram retiradas ou cujo desfecho não é
conhecido mas essas não foram submetidas a votação por
isso não constam deste gráfico.</p>

    <p><sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></sup> Petição 503/XII/4 “Solicitam
a intervenção da Assembleia da República para a concretização do “Tributo aos
mártires do século XX” no local onde funcionou a sede da PIDE, no Porto”. </p>

    <p><sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></sup> 
<a
href="https://www.publico.pt/politica/noticia/exercito-oposse-ao-nucleo-museologico-sobre-a-pide-no-museu-militar-do-porto-1633555#" target="_blank">
https://www.publico.pt/politica/noticia/exercito-oposse-ao-nucleo-museologico-sobre-a-pide-no-museu-militar-do-porto-1633555#</a>
(consultado em abril de 2016).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></sup> Resolução da Assembleia da
República n.º 24/2008 (DR 122 Série I, 26-6-2008), <i>Divulgação às futuras
gerações dos combates pela liberdade na resistência à ditadura e pela
democracia</i>.</p>

    <p><sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></sup>Entrevista à autora, Lisboa,
julho de 2011.</p>

    <p><sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></sup>Os julgamentos dos
funcionários e colaboradores da polícia política decorreram em Tribunal
Militar, como havia sido definido pela Lei n.º 8/75.</p>

    <p><sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></sup>Decreto-lei
n.º 349/76 de 13 de maio (DR I Série, n.º 112, de 13-5-1976, p. 1066), <i>Precisa
as tipificações criminais, e regula a atenuação extraordinária, constantes do
n.º 2 do artigo 2.º, do artigo 3.º, da alínea b)</i><i> do artigo 4.º e
dos artigos 5.º e 7.º da Lei n.º 8/75, de 25 de julho</i>.</p>

    <p><sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></sup>Projeto de Lei n.º 28/1: <i>Relativo
a alterações do Decreto-Lei 349/76, de 13 de maio</i> (incriminação e
julgamento dos agentes responsáveis da PIDE/DGS) (suplemento
n.º 50/I/1 4-12-1976 (pp. 7-7).</p>

    <p><sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></sup>Os dados relativos à UDP e
ao BE não são diretamente comparáveis com os dos outros partidos uma vez que,
em 40 anos de atividade parlamentar, aqueles só tiveram representação
parlamentar durante sete e 16 anos, respetivamente. Por esse motivo, as
análises que apresentamos abaixo não contemplam estes dois partidos. Sobre o
processo legislativo em ­Portugal ver (Leston-Bandeira, 2000; Calca, 2015).</p>

    <p><sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></sup>Esta investigação teve o
apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência,
Tecnologia e Ensino Superior através da bolsa SFRH/BPD/86702/2012. A autora
gostaria de agradecer aos colegas António Araújo, Cristina Leston-Bandeira,
Guya Accornero, Jorge Fernandes, Octavio Amorim Neto e Riccardo Marchi, bem
como aos autores dos dois pareceres anónimos, pelos comentários a versões
anteriores deste artigo, que muito contribuíram para a melhoria do mesmo.</p>


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