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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>      <p><b>PÉCLARD, Didier</p>      <p>Les incertitudes de la nation en Angola. Aux racines sociales de l’UNITA</b>,</p>      <p>Paris, Kartala, 2015, 369 pp.</p>      <p>ISBN 9782811114466</p>      <p>&nbsp;</p>       <p><b>Claudia Generoso de Almeida</b>*</p>      <p>*CEI-IUL, ISCTE-IUL, Edifício ISCTE, Av. das Forças Armadas, sala 2W06 — 1649-026 Lisboa, Portugal. E-mail: <a href="mailto:claudiagalmeida@gmail.com">claudiagalmeida@gmail.com</a></p>       <p>&nbsp;</p>      <p>A UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) – último movimento nacionalista angolano a ser constituído (1966), força beligerante na guerra civil que marcou o pós-independência de Angola até 2002, e ainda principal partido de oposição neste país – tem alimentado vários estudos, ainda que todavia poucos sobre o seu surgimento e desenvolvimento. Embora o livro de Didier Péclard não seja sobre a organização, ações e evolução da UNITA propiamente ditas, mas sim sobre as dinâmicas históricas de longo termo que conduziram à sua constituição, é um importante contributo para a historiografia deste movimento, mais ainda pela discussão que o autor faz sobre elementos étnico (ovimbundu) e religioso (missões congregacionistas) do Planalto central, os quais muitas vezes considerados como estando subjacentes à sua fundação e base social.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Com efeito, o seu livro analisa a história do nacionalismo no Planalto central, região do maior grupo étnico de Angola – os ovimbundus – que, comparativamente às restantes regiões, não recebeu tanta atenção. Desde logo, o autor identifica um paradoxo. Isto é, a UNITA é geralmente apresentada como uma expressão política do nacionalismo umbundu <a name="top1"></a><sup><a href="#1">1</a></sup></a>, mas a participação deste grupo na luta contra o Estado colonial português não foi expressiva. De facto, contrariamente ao que se passou em Luanda ou no norte do país, a região do Planalto central não foi um teatro de revoltas contra o colonialismo português, iniciadas em 1961, não tendo ocorrido uma participação significativa das sociedades desta região na luta pela independência, nem tão pouco a emergência de um movimento nacionalista semelhante ao MPLA ou à UPA (depois FNLA).</p>      <p>Como o próprio autor refere, o coração da problemática no seu livro reside na influência das missões cristãs na formação das elites angolanas e na sua luta contra o poder colonial, não obliterando da sua investigação a resposta do Estado colonial a essas mesmas missões. Neste ponto, salienta-se o período da guerra colonial e da independência (1961-1975) que o livro aborda e que torna a sua análise deveras importante. Por outro lado, a sua investigação utiliza várias fontes primárias, em particular os arquivos referentes à PIDE/DGS da Torre do Tombo (Lisboa) e a missionários, como os da United Church of Canada (Toronto), da American Board of Commissioners for Foreign Missions (Boston), da Congrégation des Pères du Saint-Espirit (­Chevilly-Larue) e da Mission Philafricaine (Winterthur). Merece ainda ser destacado o “Anexo” (p. 333) que o autor apresenta sobre as fontes que utilizou, constituindo uma informação preciosa para investigadores e futuras investigações, e no qual é possível perceber que o autor fez ainda trabalho de campo em Angola em pleno período da guerra civil e após a mesma.</p>      <p>Péclard questiona-se sobre a forma como se articulam as ligações entre as igrejas cristãs, o Estado colonial e o nacionalismo angolano. O seu argumento principal é que os imaginários sociais e culturais negociados no seio das missões cristãs na região do Planalto central desempenharam um papel fundamental na história da UNITA, mas também na divisão do nacionalismo, na guerra civil e na formação do Estado em Angola.</p>      <p>O autor estrutura os resultados da sua investigação em cinco capítulos. Começa por apresentar no capítulo I os aspetos principais do colonialismo português e do Estado colonial em Angola, demonstrando que o mesmo se baseia numa visão pragmática e não “científica” do africano. O capítulo II dedica-se à história das relações entre o Estado colonial, a igreja católica e as missões protestantes, procurando desconstruir a oposição clássica entre a católica, ao serviço dos interesses do império, e a protestante, como opositora ao colonialismo ou anticolonial. Os capítulos III e IV analisam o projeto de subjetivação missionária, ou seja, o modelo de sociedade que as diferentes comunidades cristãs construíram no terreno angolano, em particular no planalto central, discutindo as diferenças entre as missões católicas e protestantes. O capítulo V trata da guerra da independência e da resposta das autoridades coloniais à mesma, em particular a influência desta nova conjuntura na “região da UNITA.” </p>      <p>Destacam-se quatro aspetos essenciais da sua investigação. Em primeiro lugar, é notável a sua análise sobre os umbundu, em que mostra fundamentalmente a história social e cultural das missões congregacionais americanas implantadas no planalto central e que imaginaram um <i>Gemeinschaft </i>rural, capturando assim a relação destas missões com a evolução da própria sociedade umbundu. Por outro lado, mostra também que a forma como foi colonizada esta região não favoreceu o desenvolvimento, por assim dizer, de um sentimento comum de interação com o poder colonial, pelo que a existência de uma consciência umbundu deve ser questionada e problematizada, nomeadamente quando é considerada uma unidade cultural e étnica homogénea.</p>      <p>Em segundo lugar, mostra a fragilidade da equação católicos/pró-Estado colonial e protestantes/pró-anticolonialistas, o que permite rever uma importante relação estabelecida na história da colonização e do nacionalismo em Angola. Em terceiro lugar, mostra como é necessário manter as ligações de causalidade imediata entre o imaginário social, cultural e étnico, e o seu significado político. Mais ainda como essas dimensões são interpretadas e instrumentalizadas por <i>entrepeneurs </i>políticos que encontram nesse repertório uma fonte de justificação da sua própria ação política, como fez o líder da UNITA, Jonas Savimbi. Não obstante, sente-se a necessidade de uma discussão mais demorada sobre a questão da etnicidade, nomeadamente na secção das conclusões. Em quarto e último lugar, a noção de efeitos políticos não lineares e não automáticos das missões cristãs no nacionalismo angolano, sendo, nesse sentido, mais útil uma visão de dinâmicas históricas e não de determinismo histórico.</p>      <p> Para os interessados e/ou para os que se dedicam ao estudo da guerra civil em Angola, o trabalho de Didier Péclard, muito embora não se foque na mesma, permite encontrar pistas para a questão da divisão e conflito entre os movimentos nacionalistas, os quais foram atores dessa guerra, e para o nascimento e base social da própria UNITA, pelo que se recomenda a sua leitura. Neste ponto, sublinhe-se na secção das conclusões (p. 328) a importância das trajetórias individuais e familiares dos<i> cadres</i> do planalto, em particular, no novo Estado dirigido pelo MPLA após a independência e que permitiu à UNITA justificar a sua participação na guerra civil, com um discurso de combate à exclusão do povo umbundu e, consequentemente, de necessidade de uma segunda luta de libertação.</p>      <p>Dito isto, podemos afirmar que, depois da obra de Christine Messiant, a de Didier Péclard surge como uma análise bem estruturada, bastante relevante e rica para a compreensão do nacionalismo angolano, pois abarca um largo período histórico e permite capturar as suas dinâmicas históricas.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>NOTAS</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> Adjetivo aplicado ao grupo quando se remete para a sua língua, o umbundu.</p>        ]]></body>
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