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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENS&Otilde;ES</b></font></p>     <p><font size="4"><b>ACCORNERO, Guya</b></font></p>     <p><font size="3"><b>The Revolution   before the Revolution. Late Authoritarianism and   Student Protest in Portugal,</b></font></p>     <p>Nova   Iorque/Oxford, Berghahn Books, 2016, 186 pp.</p>     <p>ISBN 9781785331145</p>     <p><b>Elísio Estanque*,   Dora Fonseca**</b></p>     <p>*Centro de Estudos Sociais, Faculdade de Economia, Universidade de Coimbra.Col&eacute;gio de S. Jer&oacute;nimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087 - 3000-995 Coimbra, Portugal. <a href="mailto:elisio.estanque@gmail.com">elisio.estanque@gmail.com</a></p>     <p>**Centro   de Estudos Sociais, Faculdade de Economia, Universidade de Coimbra.&#8194;Col&eacute;gio de S. Jer&oacute;nimo, Largo D. Dinis, Apartado   3087 - 3000-995 Coimbra, Portugal. <a href="mailto:dorajfonseca@ces.uc.pt">dorajfonseca@ces.uc.pt</a></p>   <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>O livro <i>The   Revolution before the Revolution</i> analisa a emergência, desenvolvimento e   caminho trilhado pela contestação estudantil durante as duas últimas décadas do   Estado Novo, situando-o no quadro de um ciclo de protesto transnacional e de   mudança radical em termos políticos, culturais e de modos de vida. Este estudo   estabelece o papel fulcral do movimento estudantil na abertura de espaços   democráticos e correlaciona essas experiências, de   participação e contestação social, com o processo de democratização   subsequente. A análise abrange o período de 1956 a 1974, sublinhando a   importância de acontecimentos como o XX Congresso do PCUS (Partido Comunista da   União Soviética), a queda do Estado Novo e o final dos &#34;longos anos 60&#34;, o que   permite estabelecer uma relação entre esses acontecimentos e o desenvolvimento   do movimento estudantil.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A obra está   estruturada em cinco capítulos, ao longo dos quais os estudantes são   construídos como o principal ator sociopolítico dos &#34;longos anos 60&#34;, revelando   uma crescente adesão a valores antiautoritários, elemento que partilham com os   demais movimentos que configuraram esse ciclo transnacional de protesto. O   primeiro capítulo é de contextualização e deixa antever a complexidade do   objeto de estudo. Enquadra a emergência e desenvolvimento dos movimentos   estudantis portugueses no contexto da formação de uma esquerda mais à esquerda   do PCP, assinalando a relação com vários acontecimentos no plano internacional.   Parece existir aqui uma &#34;quase osmose&#34; das várias correntes da extrema-esquerda   com os movimentos estudantis mais radicalizados dos últimos anos do regime.   Entendemos que tal obscurece o papel desempenhado por outros atores na formação   e amadurecimento do movimento estudantil. Designadamente, por exemplo, no caso   da crise de 69 em Coimbra, o papel decisivo de diversos grupos autónomos de   estudantes, ligados ao Conselho de Repúblicas, os quais se demarcaram quer dos   grupos de extrema esquerda, quer do PCP.</p>     <p>Os efeitos da era Khrushchov e do conflito   Sino-Soviético no interior do Partido Comunista Português são também   analisados, bem como o surgimento das primeiras organizações pró-chinesas em   Portugal e o início da competição &#34;à esquerda&#34;, que contribuiu para o declínio   da hegemonia do PCP na oposição ao regime. Este capítulo sublinha ainda o   anacronismo de um Estado Novo assente em dois processos complementares, a   mobilização do consenso e a repressão da oposição, identificando as estruturas   do regime em que repousava essa dinâmica, bem como as estruturas de   associativismo (Movimento de Unidade Democrática Juvenil, organizações   católicas e movimento dos Cineclubes) que contribuíram para o processo de   mobilização da contestação ao Estado Novo.</p>     <p>O segundo   capítulo aborda o primeiro ciclo de protesto, entre 1956 e 1965, situando-o no   contexto do ataque do regime salazarista à autonomia académica, desferido   através do Decreto-Lei 40&nbsp;900, face à crescente agitação estudantil e   progressiva perda do controlo sobre as universidades ao longo dos anos 1950.   São aflorados vários acontecimentos, como a candidatura do General Humberto   Delgado e a oposição à Guerra Colonial, que produziram alterações ao nível da   estrutura de oportunidades políticas, abalando significativamente o regime   salazarista entre 1958 e 1962. O foco principal deste capítulo é a Crise   Académica de 1962, explorando o processo político e a mobilização subjacentes.   É enfatizada a importância da proibição da celebração do Dia do Estudante para o desencadear de uma crise inédita que assinalou a superação   das reivindicações de caráter corporativo que até aí tinham dominado o   movimento estudantil. A explicitação da dinâmica que se gerou entre o regime e   a oposição e entre repressão e resistência sublinha a importância das   oportunidades políticas no contexto da ação coletiva. De facto, a agitação   estudantil conduziu o regime a reformas educativas que prontamente foram   seguidas de uma inflexão. Por sua vez, a repressão no interior das   universidades contribuiu para a mobilização generalizada e concertada das   associações académicas, episódios de ocupação que levaram a mais intervenção   policial, ilegalização das associações de estudantes, suspensões e expulsões.   Assim, esta narrativa aborda o processo de constituição dos estudantes como   protagonistas da ação conflitual e a sua incorporação à luta antifascista. São   ainda exploradas outras questões, como a inovação nos repertórios de ação – que   influenciaram as formas de protesto e de luta durante o PREC –, os primeiros   sinais da penetração do maoismo no contexto estudantil, a perda de hegemonia do   PCP, bem como a restruturação do regime e a intensificação da repressão que   conduziu à radicalização da oposição, nomeadamente em meio universitário. A   este propósito valeria a pena explicar até que ponto a força crescente do   marxismo em Portugal, e a sua hegemonização por parte do PCP, não terá   contribuído para a posterior diluição do campo estudantil nos movimentos   populares do pós-25 de Abril de 1974.</p>     <p>O terceiro   capítulo é dedicado à Primavera Marcelista e à abertura de um segundo ciclo de   protesto. Partindo do acidente que levou à substituição de Salazar em setembro   de 1968, a autora analisa os últimos anos do regime, questionando a (in)efetividade da abertura marcelista. Através de vários   exemplos, é revelada a natureza &#34;cosmética&#34; das medidas adotadas. As mudanças   são colocadas no plano de uma abertura das oportunidades políticas que criou   expectativas elevadas na população, principalmente entre as forças de oposição.   São também analisadas as origens, composição e dinâmica da ala liberal do   regime, o projeto de reforma da educação levado a cabo por Veiga Simão (um dos   pontos nodais da contestação estudantil durante os últimos anos do Estado   Novo), e a ação solidária durante as cheias de 1967. Estas últimas são um ponto   importante, pois revelaram a inépcia do regime e desencadearam uma intensa   mobilização dos estudantes, em que pontificaram novos recursos e repertórios de   ação. Os estudantes prestaram assistência às populações afetadas, contactando   com a realidade que era ocultada pelo regime. Esse acontecimento representou a   sua saída para o &#34;mundo real&#34; e acicatou as críticas que eram dirigidas ao   regime e às suas instituições.</p>     <p>Estas e outras ocorrências no plano   internacional são colocadas na origem da fase de crescente politização do   movimento em 1968, que se prolongou nos anos seguintes. Essa politização é   ilustrada através de uma série de episódios de conflito protagonizados por   estudantes, que tiveram como principais palcos o Instituto Superior Técnico e o   meio académico da Universidade de Coimbra, onde viria   a eclodir a crise académica em 1969. Os acontecimentos que levaram aos caminhos   divergentes dos movimentos de Coimbra (crescente moderação e forte influência   do PCP) e de Lisboa (radicalização e predomínio das organizações da esquerda   radical) a partir de inícios de 1970 fornecem o mote para a análise das   acusações recíprocas entre a nova e a velha esquerda, situando assim a evolução   do movimento estudantil no contexto desse enfrentamento. No entanto, haveria também   aqui um fator a explorar que se liga à eventual influência do movimento do Maio   de 68 na luta estudantil de 69 em Coimbra, não obstante se concorde com a   autora de que os aspetos internos ligados ao regime do Estado Novo, ao   conservadorismo da Universidade e à Guerra Colonial terão sido os mais   decisivos.</p>     <p>A   radicalização do movimento após 1969 e a sua articulação mais estreita com a   luta contra a ditadura e a guerra colonial dominam o capítulo quatro. É   fornecida uma comparação entre as linhas estratégias do PCP e das organizações   da nova esquerda ou esquerda radical, contrapondo a estratégia legalista do   primeiro, que não reconhecia aos estudantes um papel de vanguarda e advogava a   separação entre movimentos operário e estudantil, à visão das organizações da   nova esquerda da luta dos estudantes como promotora da consciência de classe do   proletariado. São abordadas a dinâmica e importância dos cursos livres em   Lisboa, no início de 1970, como forma de combater a hegemonia do PCP e de   manter a vitalidade da mobilização estudantil após a mobilização militar   forçada dos líderes académicos mais importantes. Fica patente a crescente   importância da questão da Guerra Colonial, não só em termos do reportório da   mobilização estudantil e como fator aglutinador da contestação dispersa, mas   também como ponto nodal que opunha o PCP às organizações emergentes da nova   esquerda, que ao contrário do primeiro, partidário de uma estratégia   &#34;entrista&#34;, defendiam a deserção em massa. Porém, teria sido importante abordar   com maior profundidade a contribuição específica do movimento estudantil para a   difusão da cultura democrática e de novas ideias no seio do MFA,   particularmente entre 1969 e 1974, na sequência da mobilização forçada para o   exército de alguns dos principais ativistas da crise de 69.</p>     <p>O quinto e   último capítulo foca os mecanismos e processos que conduziram à queda do Estado   Novo. A pluralização das forças políticas e complexificação da oposição ao   regime, bem como os contornos e consequências da radicalização e exacerbamento   das divisões políticas no seio da esquerda radical, são discutidos com maior   pormenor. Por outro lado, são apresentados argumentos que reforçam a tese da   perda de controlo do regime sobre um conjunto alargado de setores sociais.   Multiplicavam-se os grupos que galvanizavam a oposição ao regime, sendo de   referir a emergência e fortalecimento da oposição   católica. Neste capítulo é estabelecida uma relação entre a crescente   mobilização nos últimos anos do Estado Novo e a criação de redes, recursos e   repertórios de ação necessários ao desenvolvimento dos movimentos sociais do   período do PREC, assinalando assim a existência de continuidades entre os dois   períodos. Pese embora esse facto, não é fornecida qualquer explicação para a   ausência de participação visível do movimento estudantil no pós-25 de Abril,   pelo menos de forma diferenciada da miríade de atores coletivos que por essa   altura ocupavam o espaço público.</p>     <p>A conclusão da obra coloca em relevo a   importância do estudo do movimento estudantil português ao permitir uma   reflexão acerca das possibilidades, limites e efeitos dos movimentos sociais em   contexto autoritário de direita, chamando a atenção para a existência de um   &#34;paradoxo autoritário&#34;. São enfatizados os efeitos da militância, nomeadamente   o processo de descomprometimento em fases de normalização democrática, bem como   a importância das trajetórias micro para o processo de desmobilização no nível   macro. Nesse sentido, a autora destaca a utilidade da sociologia dos movimentos   sociais para a análise de situações autoritárias ou de transição.</p>     <p>O livro de   Guya Accornero tem o mérito de situar uma sucessão de acontecimentos, todos   eles importantes, em processos que permearam a sociedade portuguesa ao longo de   várias décadas e cuja influência ainda se faz sentir em muitos casos. Não é um   livro apenas sobre o movimento estudantil. É um livro que faz um retrato de uma   época em que as universidades surgem como &#34;incubadoras&#34; de radicalização   política e o movimento estudantil se transfigura em ator de luta política pela   democracia e contra os excessos do capitalismo. Mas, em diversos momentos da   resistência estudantil, a sua principal força residiu não tanto nos núcleos   organizados da extrema-esquerda, mas mais num descontentamento geral da massa   estudantil perante a ameaça da guerra, o ensino obsoleto e a repressão do   associativismo. Em todo o caso, cremos que a referência ao contexto   internacional, e concretamente ao Maio de 68, ainda que assinalada no capítulo   1, mereceria um maior aprofundamento, por exemplo no   capítulo 4, procurando explorar alguma possível contaminação por via dos fluxos   clandestinos de informação, de ligações com o exílio e da entrada de literatura   conotada com as vanguardas intelectuais da época.</p>      ]]></body>
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