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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENS&Otilde;ES</b></font></p>     <p><font size="4"><b>VILAÇA, Helena, PACE, Enzo, FURSETH, Inger e PETTERSON, Per (orgs.)</b></font></p>     <p><font size="3"><b>The Changing Soul of Europe. Religions and Migrations in Northern and Southern Europe,</b></font></p>     <p>Nova Iorque,   Routledge, 2014, 280 pp.</p>     <p>ISBN 9781472434692</p>     <p><b>Clara Saraiva*</b></p>     <p>*Centro de Estudos Comparatistas, Faculdade de   Letras, Universidade de Lisboa. Alameda da Universidade, 1600-214 Lisboa, Portugal. <a href="mailto:maria-saraiva@campus.ul.pt">maria-saraiva@campus.ul.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Este livro resulta   da conferência internacional intitulada <i>Diversity and Global Challenges:     Religions and Migrations in Southern Europe</i>, que congregou académicos da   Europa do Sul, para uma discussão sobre a crescente diversidade religiosa na   Europa, desafiando alguns <i>clichés</i>, como a imagem da tradicionalmente   católica Europa do Sul. Este fenómeno é salientado pelos editores, na   introdução, quando explicam que durante séculos a alma da europa foi dominada pelo cristianismo, mas que essa alma está hoje em dia em mudança   acelerada. O livro pretende mostrar, através de uma dupla abordagem teórica e   etnográfica, o impacto da mobilidade e do transnacionalismo religioso em   sociedades em que os cenários religiosos são cada vez mais diversos.</p>     <p>De facto, pondo em destaque a crescente   heterogeneidade cultural, étnica e religiosa nas sociedades ocidentais desde o pós segunda guerra, acompanhando as sucessivas vagas de   migrações e de circulação de pessoas, a obra combina teoria com etnografia. Na   primeira parte analisa-se a relação entre religião e migração, numa perspetiva   teórica e metodológica. Na segunda parte discutem-se estudos empíricos, com   exemplos da Europa do Norte e do Sul.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na primeira parte, no capítulo inicial,   Enzo Pace parte do conceito de mudança social, da crise a nível mundial, e da   reestruturação do Estado moderno para refletir sobre a relação entre religião e   migração a partir da perspetiva da teoria social, examinando os efeitos da   migração na estrutura social. Deste modo, toca temáticas como o papel das igrejas   em tempo de crise, o modo como a etnicização do mercado de trabalho reproduz   clivagens religiosas, a ressurgência de nacionalismos religiosos, o impacto das   diferenças religiosas na ordem jurídica dos países que acolhem imigrantes e   ainda os efeitos da desterritorialização que a migração provoca no campo   religioso, já que a religião é um fator importante de mudança social. Pace   explicita que através da religião as pessoas experienciam modernidades   múltiplas, i. e., níveis diversos em   que se entrecruzam desenvolvimento económico, cultura empresarial e adaptação   de formas de capitalismo com símbolos religiosos que parecem resistir à mudança   social, mas que simultaneamente também suportam os processos de transformação   em curso. Reflete ainda sobre a presente tensão entre   dois modelos de construção da nação, o nacionalismo baseado na cidadania e o baseado na etnicidade.</p>     <p>Em seguida, Madureira Pinto discute os   novos padrões migratórios resultantes da globalização económica e das mudanças   políticas a nível global, e o papel que a religião e os sistemas de crença têm   na gestão de afinidades simbólicas. Tuomas Martikainen foca o papel do estado   social no estabelecimento das religiões imigrantes, pensando o contexto de   receção como um elemento-chave para a integração dos imigrantes e para a forma   como as suas religiões encontram espaço nas sociedades de acolhimento.</p>     <p>A segunda parte do livro baseia-se em   exemplos etnográficos de trabalho de terreno. Um primeiro capítulo de Elisabeth   Diamantopoulou foca a complexa relação da igreja ortodoxa com o nacionalismo   grego e o seu papel na gestão da imigração na Grécia, num contexto de crise   económica, em que a instituição organiza vários serviços de apoio a imigrantes.   Afirmando que a liberdade religiosa, proclamada na Constituição de 1975, é   fictícia na prática, a autora dá exemplos como a proibição de proselitismo ou   as dificuldades nas práticas religiosas de grupos islâmicos minoritários,   mostrando como muitas ambiguidades e contradições se ligam à experiência   histórica da formação da nação, das relações difíceis com os países vizinhos e   suas minorias, que contribuíram para as noções de diferença étnica e religiosa   prevalecentes na Grécia.</p>     <p> O   segundo capítulo, de Helena Vilaça, centra-se num país que do mesmo modo   proclama na sua Constituição a liberdade religiosa plena, Portugal, e na   análise da relação entre a igreja Católica e as igrejas trazidas pelos   imigrantes da Europa de Leste, sobretudo o caso dos ritos Bizantino, Ortodoxo e   Católico. Vilaça mostra como o ritual é uma peça-chave na vida dos imigrantes e   funciona como fator de sociabilidade e solidariedade, e como o discurso dos   crentes e dos responsáveis religiosos dessas igrejas oscila entre a necessidade   de desenvolver uma identidade étnica ligada à atração religiosa, e a promoção   da união dos imigrantes, baseando-se nas afinidades religiosas que permitiriam   ultrapassar diferenças políticas e étnicas. O texto analisa ainda o modo como a   igreja Católica capitaliza as afinidades religiosas com estes grupos e tem   estabelecido com eles pontes, promovendo um sentido de missão e de integração,   em que tanto a Igreja Católica como as associações de imigrantes rentabilizam o   seu capital social através de redes e interações várias.</p>     <p>Roberto   Ricucci fornece o retrato das transformações, em Itália, nas gerações mais   jovens, descuradas nos estudos sobre migração e religião, como as oriundas de   países tradicionalmente católicos de diferentes regiões mundiais (como o Perú,   as Filipinas e a Roménia), onde o processo de secularização tem sido bem mais   lento que nas chamadas sociedades ocidentais. Baseando-se em excertos de   entrevistas com jovens, Ricucci explora as tensões entre crença, prática   religiosa e sentido de pertença enquanto cidadãos italianos, processo em que se   entrecruzam a sua juventude, o processo de assimilação na sociedade católica   italiana, e etnicidade.</p>     <p>O capítulo de Donizete Rodrigues, traçando   o historial da crescente diversidade religiosa em Portugal relacionada com a   imigração, sobretudo no pós 1974, e a entrada de Portugal na EU, analisa a   expansão das igrejas neo-pentecostais e a sua &#34;reverse   mission&#34;. Destaca a importância da imigração brasileira em Portugal e o estudo   de caso da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), as características da sua   &#34;teologia da prosperidade&#34; e o seu investimento no proselitismo, tendo como   alvo a população de imigrantes brasileiros, dos Roma, mas também muitos   Portugueses, sobretudo oriundos de camadas de estatuto socio-económico mais   baixo.</p>     <p>Anne Kubai   mostra o papel da religião na vida das segundas e terceiras gerações de   africanos nascidos na Suécia, bem como a relação que se estabelece entre as   igrejas cristãs africanas e a igreja luterana. Kubai revela que, por trás de   relações de aparente cooperação se escondem tensões, segregações e atitudes   racistas, num país em que a igreja luterana é a igreja do Estado sueco. Os   casos que analisa retratam igrejas cristãs africanas a utilizarem espaços de   culto de igrejas suecas, e um discurso de celebração de diversidade cultural   pela parte das igrejas anfitriãs, mas dentro de fonteiras culturais e sociais   bem delineadas, e totalmente sob o seu controlo. Tais tensões são sentidas   pelos pastores africanos, que se queixam de não serem consultados nas decisões,   expressando o seu desagrado com frases como &#34;viver na casa de outro não é o   mesmo que viver na sua própria casa&#34; (tradução minha). Pela análise dos   processos de inclusão/exclusão, Kubai mostra como as igrejas suecas estão   conscientes da inevitabilidade da partilha do cenário religioso, mas não   conseguem olhar as igrejas imigrantes como iguais.</p>     <p>Os três capítulos seguintes lidam com   minorias islâmicas na Europa do Sul e do Norte. Annalisa Frisina descreve de   uma forma muito viva o modo como mulheres muçulmanas nascidas em Itália   organizam as suas duplas pertenças, enquanto muçulmanas críticas de certas   posturas da ortodoxia islâmicas, e cidadãs italianas intervenientes ativas na   sociedade italiana, reivindicando um papel importante em ambas as esferas. Utilizando excertos de histórias de vida de   algumas dessas mulheres, e imagens da vida social das mesmas (por exemplo, em   espaços públicos que partilham com jovens italianas não muçulmanas), a autora   analisa aspetos da &#34;gestão emocional&#34; a que elas recorrem para abarcar essa   dupla pertença.</p>     <p>Per Petersson analisa o caso de uma escola   pública sueca numa cidade de 92 000 habitantes e com imigrantes de 153 origens diferentes, a relação entre os   alunos imigrantes muçulmanos e a cultura dominante, e o modo como conflitos e tensões são negociados.</p>     <p>Finalmente, Inger Furseth apresenta o seu   estudo de caso em Oslo, Noruega, sobre o <i>dress code</i> e as negociações de   género das mulheres muçulmanas nesse contexto. Alargando o debate sobre as   formas de cobrir o corpo e os ditames da moda que essas mulheres escolhem   seguir, o texto mostra como a moda (nomeadamente o que a autora denomina &#34;hijab   street fashion&#34;) é utilizada como estratégia para estabelecer distinções   identitárias. Fá-lo através dos excertos de entrevistas que nos dão um relato   vivo das práticas e discursos de várias mulheres sobre os cânones religiosos   que querem seguir, e o modo como expressam essas suas opções na visibilidade da   moda e no que escolhem para cobrir o seu corpo.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O último   capítulo, de Jorn Borup, foca a relação entre religião e etnicidade entre   imigrantes do Vietnam oriundos de duas tradições religiosas, o budismo e o   cristianismo. Comparando os dois casos, o autor argumenta que a religião, a   ativa participação religiosa, a socialização e a etnicidade estão intimamente   ligadas. Mostrando como a etnicidade é um fator importante na identidade e   orientação para os vietnamitas em geral, analisa o modo como os católicos se   mostram mais assertivos na sua prática religiosa e nas formas como afirmam a   sua pertença a essa religião e também à sua origem étnica. Conclui que à medida   que os vietnamitas se integram na sociedade dinamarquesa a importância da   especificidade da filiação religiosa decresce, e que, já que a imigração   vietnamita na Dinamarca é recente, será necessário observar o que se vai passar   com as novas gerações que vão crescer no país de acolhimento.</p>     <p>O livro consegue aquilo que se propõe,   fornecendo um panorama alargado das interações e gestões migratórias e   religiosas numa Europa plena de circulações de pessoas e de espíritos, e em que   a presença da religião na esfera pública constitui um desafio incontornável.   Essa diversidade é conseguida, como vimos, em termos temáticos e geográficos.   Os temas abrangem a relação entre a igreja e o Estado, etnicidade, nacionalismo   e religião (caso da Grécia e minorias étnicas e religiosas, ou a islâmica, com   estudos de caso em vários países); a partilha de espaços de culto e o papel das   igrejas hegemónicas no estabelecimento (ou não) de pontes com grupos religiosos   minoritários (caso de igrejas do culto ortodoxo e bizantino em Portugal, de   igrejas africanas na Suécia, ou de conflitos de utilizações de espaços públicos   e semi-públicos, como a IURD em Portugal); jovens de   segunda ou terceira geração de imigrantes seguidoras de religiões não hegemónicas,   que negoceiam permanentemente a sua pertença simultânea a dois mundos sociais e   religiosos (jovens muçulmanas na Itália e Noruega); e estudos de caso até agora   menos abordados, como os jovens cristãos imigrantes na Europa central, ou os   imigrantes vietnamitas na Dinamarca.</p>     <p>Deste modo, a obra consegue igualmente   abranger um espaço geográfico que vai da Noruega e Suécia à Itália e Portugal,   revelando sociedades em que não só o papel do Estado e a sua relação com a   religião é muito diversa, mas onde também nos confrontamos com sistemas de   segurança social diferentes, e em que a situação dos imigrantes, oriundos de   múltiplos continentes e países, é multifacetada e complexa.   As reflexões aqui presentes mostram como, realmente, a &#34;alma da Europa&#34; está a   mudar, o que torna este livro numa referência nos estudos sobre religião no   velho continente.</p>      ]]></body>
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