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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENS&Otilde;ES</b></font></p>     <p><font size="4"><b>BOURDIEU, Pierre</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Anthropologie économique. Cours au Collège de France 1992-1993,</b></font></p>     <p>Paris, Seuil,   2017, 352 pp.</p>     <p>ISBN 9782021375961</p>     <p><b>Luísa Veloso*</b></p>     <p>*CIES-IUL, ISCTE-IUL. Avenida das For&ccedil;as Armadas - 1649-026 Lisboa, Portugal. <a href="mailto:luisa.veloso@iscte-iul.pt">luisa.veloso@iscte-iul.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>A edição, em 2017,   de <i>Anthropologie économique </i>vem na sequência da publicação das lições de   Pierre Bourdieu no Collège de France (<i>Sociologie G</i><i>énérale</i>,   2015), cuja edição foi antecedida pela publicação dos conjuntos de lições <i>Science     de la Science et réflexivité</i> (2001), <i>Sur l&#39;État</i> (2012) e <i>Manet. Une révolution symbolique</i> (2013).</p>     <p>Adensando e   relacionando a obra de um dos mais notáveis pensadores do século XX no domínio   das Ciências Sociais e das Humanidades, o livro reúne as lições que tiveram   lugar entre fevereiro e abril de 1993. Ao contrário das obras escritas pelo   autor, e à semelhança das edições de lições já referidas, temos a oportunidade   de ler um registo de oralidade de Pierre Bourdieu, que constitui uma reflexão   sobre temas que o ocuparam ao longo da sua vida.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Assumindo como   designação &#34;Os fundamentos sociais da ação económica&#34;, as nove lições agora   publicadas constituem uma reflexão preciosa sobre o estudo das estruturas   económicas que sempre esteve presente na investigação que desenvolveu desde   finais da década de 1950 sobre algumas regiões da Argélia, em particular em   parceria com Abdelmalek Sayad, até ao início da década de 2000, em que se   deteve sobre o &#34;mercado da casa individual&#34; (p. 183). Seria demasiado   fastidioso e inapropriado elencar todas as obras relevantes para abordar o pensamento   de Pierre Bourdieu sobre práticas económicas, mas é imprescindível referir aqui   a obra seminal da sua investigação sobre o processo de desenraizamento e   fragmentação da sociedade agrária argelina. É já nestes trabalhos que critica a   lógica racional de mercado imposta a esta sociedade e explicita os fatores de   ordem cultural, económica e social que explicam este processo. Num período mais   recente, destaca-se o já referido trabalho sobre o &#34;mercado da casa   individual&#34;, no qual Pierre Bourdieu se detém sobre &#34;as estruturas sociais da   economia&#34; e o conceito de &#34;campo económico&#34;.</p>     <p>As nove lições que   agora temos oportunidade de ler e fruir assentam numa discussão crítica de   algumas das abordagens da ciência económica, com destaque para a designada   &#34;teoria da ação racional&#34;, assente na afirmação do <i>homo œconomicus</i>, com   o objetivo de evidenciar o modo como os comportamentos económicos são uma   construção histórica. Pierre Bourdieu propõe uma viagem ao longo das nove   lições que, apesar de não seguir uma linha totalmente estruturada, permite uma   leitura fluida e densa sobre os vários argumentos que aponta para uma abordagem   das práticas económicas, distante dos argumentos da racionalidade dos agentes   na orientação dos seus comportamentos económicos, tão presentes na   contemporaneidade nas ciências sociais, em particular na ciência económica.</p>     <p>Discuto,   seguidamente, os eixos contemplados nesta obra que me parecem nevrálgicos para   uma reflexão sobre a economia como uma construção histórica e sobre os   fundamentos sociais da ação económica.</p>     <p>Pierre Bourdieu   analisa criticamente a intitulada &#34;teoria da ação racional&#34;, comum a diversas   disciplinas, salientando a forma como esta <i>deseshistoriciza</i> os agentes   económicos e os respetivos universos e impede um conhecimento das estruturas   económicas, já que afirma o princípio interpretativo dos indivíduos como   agentes racionais que procedem ao cálculo (racional) dos meios a mobilizar para   atingir o máximo lucro. Considera ser fundamental rever esta aceção,   recuperando a génese das instituições económicas, já que estas são invenções   históricas. E este argumento acompanha o autor ao longo das várias lições. Na   mesma linha argumentativa, reitera a falsidade da aceção segundo a qual todas   as ações humanas têm como princípio a consciência calculista orientada para a   maximização dos interesses.</p>     <p>Detém-se   demoradamente sobre o <i>Essai sur le don. Forme et raison de l&#39;</i><i> échange dans les     sociétés archaïques (1923-1924)</i> de Marcel Mauss,   refletindo de forma detalhada e extremamente heurística sobre a noção de troca   associada à dádiva, assim como sobre a estrutura da troca em si, só   compreensível quando enquadrada numa dimensão temporal. Propõe que nos   foquemos sobre a estrutura das trocas, assente na dádiva e contra-dádiva, sendo   esta última diferente da primeira e tendo a primeira subjacente a segunda: &#34;Eu dou para que tu dês&#34; (como refere, p. 49).   Chega assim à sua problematização da &#34;economia das trocas simbólicas&#34; ou   &#34;economia dos bens simbólicos&#34; pré-capitalista, para salientar a importância em   acionar os vetores sociais, culturais, simbólicos na explicação da economia e   das práticas económicas e para debater os limites de uma &#34;economia económica&#34;   (p. 117). Um dos vetores a salientar é, certamente, o capital simbólico, como é   o caso, ilustra, da honra (p. 76), cuja transação exige um mercado de bens   simbólicos onde estes são reconhecidos como tendo um valor e são, logo, objeto   de contra-dádiva. As trocas simbólicas constituem, nas   economias pré-capitalistas, na sua linha argumentativa, o instrumento central   de construção de relações sociais duráveis. E, transpondo para a   contemporaneidade, permitem estruturar vetores explicativos das práticas   económicas que não são da razão do económico.</p>     <p>Desenvolve a sua   problematização do conceito de campo para abordar o campo económico, mas retoma   a sua aceção mais global, segundo a qual todos os campos (que investigou, como   o literário, por exemplo) &#34;são produto de uma revolução simbólica, isto é, de   transformações radicais dos modos de pensar, das categorias de pensamento, de   estruturas mentais&#34; (p. 88) e, por sua vez, as estruturas que nós empregamos   para compreender cada revolução são, em si, produto dessa revolução (sendo este   o seu argumento na problematização da obra de Édouard Manet, como tendo operado   uma revolução simbólica). É esta capacidade relacional de problematizar o corpo   conceptual que foi construindo ao longo do seu percurso como investigador,   pensador, intelectual, que sobressai nestas lições e permite evidenciar uma   leitura histórica, socialmente enraizada e simbolicamente estruturada das   economias.</p>     <p>Acompanhando a sua   argumentação está sempre presente a sua crítica ao conceito de mercado,   propondo abordar as estruturas sociais da economia, o campo económico e as   práticas económicas. Recusando uma aceção da existência de um mercado autónomo,   autorregulado e autossuficiente, desconstrói as interpretações absolutistas do   mercado, evidenciando como elas não cumprem qualquer papel na compreensão das   realidades económicas. O mercado de concorrência pura e perfeita constitui uma   invenção, um mito, como refere. Propõe, deste modo, que detenhamos a nossa   atenção sobre o campo económico em vez de sobre o mercado e sobre o agente   dotado de <i>habitus</i> e não sobre o agente racional. E de modo a conduzir-nos   a pensar na complexidade do conceito de mercado, agora numa abordagem distinta   das perspetivas da ciência económica, desenvolve, num   determinado momento, a aceção de Max Weber (pp. 200 e ss.), da qual me parece   particularmente heurística a sua chamada de atenção para o facto de Max Weber   frisar que a orientação dos agentes no mercado não se efetua em função da   relação de troca (vendedor-comprador), mas em função dos concorrentes efetivos   e potenciais. Às relações de troca acrescem as relações de concorrência. Assim,   introduz uma dimensão essencial na análise das práticas económicas, não sem a   problematizar e questionar (pp. 215 e ss.). </p>     <p>E avança,   praticando uma &#34;ciência da ciência&#34;, sobre o facto de a ciência económica   ignorar a sua própria história, com reflexos notórios na forma como aborda as   práticas económicas, as práticas de consumo ou do crédito. Discutindo,   nomeadamente, a economia neoclássica na lição de 27 de maio, salienta como esta   é dedutivista, <i>deseshistoricizada</i> e cartesiana. A um determinado ponto   desta lição, com um humor que encontramos ao longo do livro, Pierre Bourdieu   refere &#34;por vezes, para enervar os meus amigos economistas (&#8230;) digo-lhes que a   economia não é mais do que uma imensa bolha especulativa&#34; (p. 152). A sua   reflexão estende-se a várias das correntes teóricas da ciência económica, como   se impõe numa análise que se quer histórica, assim como à ciência económica em   geral, sendo de referir o facto de ter consagrado um número da revista <i>Actes     de la recherche en sciences sociales</i> à &#34;Économie   et économistes&#34; (n.º 119), onde publica o texto em que critica o conceito de   mercado e problematiza o conceito de campo económico como campo de lutas.</p>     <p>Um último eixo   analítico que não pode deixar de ser referido diz respeito ao papel desempenhado   pelo Estado na regulação do mercado. Tomando o mercado da habitação individual   como sustentação empírica, retoma alguns dos argumentos profusamente   desenvolvidos em trabalhos anteriores e explicita como o Estado constitui um   pilar essencial na regulamentação dos direitos de propriedade ou nas políticas   de gestão dos territórios urbanos, para reter apenas dois domínios.</p>     <p>No final, o livro   contempla ainda dois textos que merecem uma leitura igualmente atenta. Um texto   de Julien Dival, que propõe uma contextualização das lições no quadro da obra e   trajetória de Pierre Bourdieu, o qual pode ser lido antes ou depois das lições,   providenciando uma panorâmica simultaneamente detalhada e global sobre a   abordagem bourdiana da economia e da ciência económica; um texto de Robert   Boyer, notável economista da conhecida &#34;Escola da Regulação&#34; que propõe um   ensaio heurístico de cruzamento entre a perspetiva de Pierre Bourdieu e a   regulacionista e reflete sobre o modo como a abordagem bourdiana permite (re)inserir a ciência económica nas ciências sociais.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Concluo, frisando   a centralidade da publicação deste conjunto de lições para a compreensão do   pensamento de Pierre Bourdieu e para reiterar a presença da análise das   práticas económicas em toda a sua obra e de como ela constitui um olhar   heurístico sobre as economias, independentemente da área disciplinar de cada   leitor.</p>      ]]></body>
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