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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENS&Otilde;ES</b></font></p>     <p><font size="4"><b>GASPAR, Carlos</b></font></p>     <p><font size="3"><b>O Pós-Guerra Fria,</b></font></p>     <p>Lisboa, Tinta da   China, 2016, 448 pp.</p>     <p>ISBN 9789896713492</p>     <p><b>Nuno P. Monteiro*</b></p>     <p>*International Security Studies, Political Science Yale&nbsp;University.&#8194;Horchow Hall #207, 55 Hillhouse Ave - New Haven, CT 06511, EUA. <a href="mailto:nuno.monteiro@yale.edu">nuno.monteiro@yale.edu</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>O Pós-Guerra Fria</i>, de Carlos Gaspar, é sem qualquer dúvida a mais importante obra de teoria das relações   internacionais e análise do mundo contemporâneo publicada em Portugal nas   últimas décadas. Mais, é uma obra que merece maior destaque internacional pois figura entre as melhores reflexões sobre estes temas,   independentemente da origem geográfica. Gaspar é um dos raros analistas das   relações internacionais contemporâneas que combinam três competências: fino   entendimento teórico, profundo conhecimento histórico, e experiência política,   neste caso ganha ao longo de décadas como conselheiro da Presidência da   República. Para além disso, Gaspar evita na sua   escrita jargões técnicos desnecessários, e a sua prosa límpida permite   compreensão imediata ao leitor interessado, mas não necessariamente   especialista no tema. Em suma, <i>O Pós-Guerra Fria</i><i> </i>é ao mesmo tempo um <i>tour d&#39;horizon </i>das principais dinâmicas que   condicionaram a ordem global das últimas três décadas e um <i>tour de force </i>na   criação de um quadro teórico eclético capaz de organizar uma época de grandes   sobressaltos e mudanças profundas – e de servir como base para pensar a sua   evolução futura.</p>     <p>Na primeira das quatro partes de <i>O   Pós-Guerra Fria</i>, intitulada &#34;Continuidade e mudanças no pós-guerra   fria,&#34; Gaspar<i> </i>começa por cobrir as várias escolas teóricas sobre   relações internacionais e os principais argumentos sobre o papel da balança de   poder – material e ideológico – e das instituições na definição da ordem   internacional. Teorias realistas, liberais, e idealistas; autores europeus e   norte-americanos; Gaspar cobre o terreno de uma forma eclética, absorvendo de   cada uma destas visões os elementos mais importantes para podermos compreender   as relações internacionais do princípio do século XXI.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na segunda parte de <i>O Pós-Guerra Fria</i>,   Gaspar analisa o final da Guerra Fria. Em menos de 100 páginas, proporciona ao   leitor uma análise dos principais acontecimentos da crise de 1989-1991: a   falhada tentativa de reforma do regime soviético levada a cabo por Gorbachev, o   desmoronamento do Bloco de Leste, a integração alemã ancorada na NATO e, por   fim, a dissolução da URSS.</p>     <p>A terceira parte do livro trata da &#34;década   de transição&#34; entre o desaparecimento da União Soviética e os ataques   terroristas de 11 de setembro de 2001. Os anos 90 são um período de   consolidação do poder unipolar dos EUA – particularmente após o sucesso   estrondoso da sua operação militar no Kuwait, em que o poderoso exército de   Saddam Hussein é derrotado com baixíssimos custos humanos para as forças   americanas. Na Europa, este é um período de aprofundamento do processo de   integração e, mais importante ainda, do seu alargamento a Leste. São anos de   grande otimismo, dominados por uma visão progressista da ordem internacional,   com os frutos da vitória ocidental na Guerra Fria a serem distribuídos por um   número sempre crescente de Estados. Consequentemente, a legitimidade do poder   acrescido dos EUA não é posta em causa; pelo contrário, parece possível que   Francis Fukuyama estivesse correto quando anunciou o fim da história e o   triunfo do liberalismo democrático.</p>     <p>Segue-se, na quarta parte de <i>O Pós-Guerra Fria</i>, um estudo sistemático das   principais &#34;crises da ordem internacional&#34; que marcaram o período desde 2001,   em profundo contraste com a década anterior. O primeiro choque sistémico é   introduzido pelo surgimento brusco do terrorismo como ameaça à hegemonia   norte-americana. O 11 de setembro de 2001 marca o princípio do fim da   estabilidade da ordem do pós-Guerra Fria. A reação de   Washington a estes ataques será, porventura, a principal força   desestabilizadora da ordem mundial das últimas duas décadas, ao agir de uma   forma que é vista como crescentemente ilegítima pela sociedade internacional.   Esta falta de legitimidade é talvez mais evidente na decisão de invasão do   Iraque pelos Estados Unidos em 2003; e é depois reforçada pela crise financeira   de 2008, que colocou em questão o modelo económico liberal. Desde aí, a   incapacidade de Washington para resolver focos de conflito pelo globo fora –   mas principalmente no Médio Oriente, que se encontra   num processo de convulsão cada vez mais generalizado desde a intervenção   americana de 2003 – aprofunda a erosão da ordem internacional, que é hoje muito   mais caótica. Hoje, os EUA são comummente vistos como uma potência hegemónica   muito debilitada; se é que ainda se podem chamar de potência hegemónica, tão   debilitados que estão pelo revisionismo russo, pelo crescimento do poder   económico-militar chinês, pela incapacidade de resolver a crise do Médio   Oriente e, desde 2017, pela liderança errática e ensimesmada de Donald Trump.</p>     <p>No seu conjunto, estas três partes de <i>O Pós-Guerra Fria</i><i> </i>dão ao leitor uma boa visão   analítica <i>à vol d&#39;oiseau</i> dos últimos 30 anos. Chegamos ao fim desta   análise histórica com um mundo em crise, em que o poder militar americano continua a ser ímpar, mas já não é apoiado por um   conjunto de normas e instituições – herdadas da Guerra Fria – capazes de lhe   dar legitimidade.</p>     <p>Mas é na sua conclusão substancial que   reside a principal contribuição de <i>O Pós-Guerra Fria</i>. Aliás, se há um   comentário a fazer em relação à organização do livro é que talvez tivesse sido   benéfico colocar esta análise no início, como matriz de entendimento da   sucessão de acontecimentos históricos, já que é esta mesma matriz o elemento   mais original do trabalho de Gaspar.</p>     <p>O ponto de   partida para compreender a situação em que nos encontramos é, para Gaspar, a   novidade histórica que foi o final da Guerra Fria – uma transição de poder   pacífica, em que a ordem mundial foi reorganizada em torno de uma nova   distribuição de poder que privilegia os Estados Unidos, e em que a mudança se   dá sem ser resultado de uma guerra hegemónica, como tinha sido o caso com as   anteriores transições de poder da era moderna, em 1648 (Vestfália), 1815   (Viena), 1919 (Paris), e 1945 (o conjunto de instituições criadas no final da   Segunda Guerra Mundial). Desta transformação resulta um mundo que é, na visão   de Gaspar, unipolar por um momento (porque os Estados Unidos possuem um poder   militar ímpar), mas multipolar na sua base (porque   outros, como a China, os BRIC, ou a União Europeia continuam a ser grandes   potências). Resulta também uma ordem mundial que, ao não ser fruto de novas   conferências de paz, continua a ser organizada pelas instituições (NATO, UE,   ONU) e normas (não-proliferação de armas nucleares,   livre comércio global, soberania dos estados, e posição privilegiada da   democracia entre os regimes políticos) que tinham sido criadas para combater a   URSS durante a Guerra Fria – e para evitar que esta se tornasse uma guerra   aberta.</p>     <p>É nas profundas tensões entre estes   elementos de mudança e de continuidade que reside o argumento central de <i>O     Pós-Guerra Fria</i>. As crises que afetam o mundo contemporâneo, e que têm   vindo a criar problemas consideráveis para o funcionamento da ordem global   desde o virar do século, resultam para Gaspar de uma transformação da ordem   mundial, que introduziu pela primeira vez na história moderna uma potência   militar inigualada, mas que ao mesmo tempo manteve muita da maquinaria   institucional e normativa da ordem anterior – maquinaria esta que tinha sido   concebida para organizar um dos blocos (o Ocidente) numa ordem bipolar. Os   problemas do mundo de hoje decorrem, para Gaspar, da incapacidade desta   maquinaria em ordenar as relações entre estados quando um destes – os Estados   Unidos – possui um poder dominante. Aliás, Gaspar tem aqui um <i>insight</i> particularmente importante e original: as crises da ordem mundial contemporânea   decorrem da inversão entre o que era continuidade e o que era mudança em 1989-1991   e hoje. Então, a continuidade vinha da manutenção da maquinaria institucional e   normativa da Guerra Fria; a mudança vinha do poder unipolar que os EUA   adquiriram. Hoje, em contraste, a continuidade vem deste   poder unipolar e a mudança vem da falência do modelo institucional e   normativo da ordem liberal internacional. Enquanto não conseguirmos criar um outro modelo de ordenamento da sociedade internacional   compatível com a subjacente balança de poder, não conseguiremos reestabelecer uma ordem internacional legítima e funcional.</p>     <p>Claro que nenhum livro é perfeito e <i>O Pós-Guerra Fria</i><i> </i>tem, como é típico das obras   maiores, os defeitos das suas qualidades. Ao endossar um ecletismo teórico   muito amplo, Gaspar dá à sua análise um maior poder interpretativo da ordem   internacional das passadas três décadas. Ao mesmo tempo, porém, o preço deste   ecletismo teórico está precisamente na dificuldade em gerar soluções para os   problemas contemporâneos, já que cada uma das teorias a que Gaspar recorre   apresenta uma visão própria do mundo. O quadro teórico que constrói impede-o,   portanto, de fazer previsões para a evolução da ordem internacional, permitindo   que o leitor termine <i>O Pós-Guerra Fria</i><i> </i>sem   ter uma bússola que o oriente neste complicado mundo novo. Mas talvez isto seja   um problema menor pois, como disse Niels Bohr, é muito   difícil fazer previsões, particularmente sobre o futuro.</p>      ]]></body>
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