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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A padronização em contexto: uma análise qualitativa sobre a incorporação das Normas de Orientação Clínica em Medicina Geral e Familiar]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Contextual standardization: a qualitative analysis of the incorporation of Clinical Guideline Norms into General and Family Medicine]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Under a new regulatory, the development of a variety of formal instruments to strengthen the objectivity of medical decisions is favored (namely, Clinical Guidelines). In order to explore the scope of standardization in clinical practice, I develop a comprehensive analysis grounded on the mobilization of the empirical results derived from the Focus Group sessions that took place in two organizational contexts related to the professional reality of GPs. It is concluded that Clinical Guidelines tend to be conceived and mobilized only as one of the components of the medical judgment and decision processes, which is consistent not only with the idea of the practical and reflexive nature of medical knowledge, but also with the concept of the clinician as an autonomous professional who seeks to preserve her/his professional jurisdiction as a safe haven for individual decisions.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>A padroniza&ccedil;&atilde;o em contexto: uma an&aacute;lise qualitativa sobre a incorpora&ccedil;&atilde;o das Normas de Orienta&ccedil;&atilde;o Cl&iacute;nica em Medicina Geral e Familiar</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Contextual standardization: a qualitative analysis of the incorporation of Clinical Guideline Norms into General and Family Medicine</b></font></p>     <p><b>H&eacute;lder Raposo*</b></p>     <p>*H&amp;TRC - Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o em Sa&uacute;de e Tecnologia, Escola Superior de Tecnologia da Sa&uacute;de de Lisboa, Av. D. Jo&atilde;o II, Lote 4.69.01-1990-096 Lisboa, Portugal. <a href="mailto:helder.raposo@estesl.ipl.pt">helder.raposo@estesl.ipl.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>A padroniza&ccedil;&atilde;o em contexto: uma an&aacute;lise qualitativa sobre a incorpora&ccedil;&atilde;o das Normas de Orienta&ccedil;&atilde;o Cl&iacute;nica em Medicina Geral e Familiar. No quadro de um novo ambiente regulat&oacute;rio, o desenvolvimento de v&aacute;rias ferramentas formais para o refor&ccedil;o da objetividade das decis&otilde;es m&eacute;dicas, como as Normas de Orienta&ccedil;&atilde;o Cl&iacute;nica (NOC), constitui-se com uma das orienta&ccedil;&otilde;es institucionais privilegiadas. Neste artigo empreendo uma an&aacute;lise compreensiva a partir da mobiliza&ccedil;&atilde;o dos resultados emp&iacute;ricos decorrentes das sess&otilde;es de Grupos Focais desenvolvidas em dois contextos organizacionais ligados &agrave; realidade profissional dos m&eacute;dicos de Medicina Geral e Familiar. Verificou-se que as NOC tendem a ser concebidas e mobilizadas apenas como uma das componentes dos processos de julgamento e decis&atilde;o m&eacute;dica, o que &eacute; consistente com a ideia da natureza pr&aacute;tica e reflexiva do conhecimento m&eacute;dico, mas tamb&eacute;m com a conce&ccedil;&atilde;o do cl&iacute;nico como profissional aut&oacute;nomo que procura preservar a sua jurisdi&ccedil;&atilde;o profissional enquanto reduto das decis&otilde;es individuais.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> padroniza&ccedil;&atilde;o; discricionariedade; Normas de Orienta&ccedil;&atilde;o Cl&iacute;nica; Medicina Geral e Familiar.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>Under a new regulatory, the development of a variety of formal instruments to strengthen the objectivity of medical decisions is favored (namely, Clinical Guidelines). In order to explore the scope of standardization in clinical practice, I develop a comprehensive analysis grounded on the mobilization of the empirical results derived from the Focus Group sessions that took place in two organizational contexts related to the professional reality of GPs. It is concluded that Clinical Guidelines tend to be conceived and mobilized only as one of the components of the medical judgment and decision processes, which is consistent not only with the idea of the practical and reflexive nature of medical knowledge, but also with the concept of the clinician as an autonomous professional who seeks to preserve her/his professional jurisdiction as a safe haven for individual decisions.</p>     <p><b>Keywords:</b> standardization; discretionary; Clinical Guidelines; General Practice.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O</p>     <p>A natureza complexa e indeterminada do trabalho profissional m&eacute;dico corresponde a uma caracter&iacute;stica particular que n&atilde;o s&oacute; tende a ser salientada como distintiva - devido &agrave; vincula&ccedil;&atilde;o da medicina aos problemas existenciais da vida, do sofrimento e da morte (Toulmin, 1993) -, como se tem constitu&iacute;do como um dos principais substratos normativos que sustenta os valores fundadores do pr&oacute;prio profissionalismo m&eacute;dico. Nesse quadro referencial, a capacidade de adequar eficazmente o conhecimento te&oacute;rico e abstrato ao &acirc;mbito complexo dos problemas concretos e das situa&ccedil;&otilde;es singulares &eacute; vista como a express&atilde;o da qualidade da &ldquo;arte prudencial aristot&eacute;lica&rdquo; (Antunes, 2012, p. 37). Essa adequa&ccedil;&atilde;o das leis universais da ci&ecirc;ncia m&eacute;dica &agrave; condi&ccedil;&atilde;o concreta do indiv&iacute;duo remete, portanto, para a import&acirc;ncia do papel da experi&ecirc;ncia e do conhecimento t&aacute;cito no julgamento cl&iacute;nico. Nesta ace&ccedil;&atilde;o, o patrim&oacute;nio de experi&ecirc;ncia cl&iacute;nica &eacute;, assim, o que torna poss&iacute;vel o desenvolvimento de uma abordagem de natureza hermen&ecirc;utica cujo principal desafio, como se sustenta, &eacute; o de fazer integrar, de forma validada, os &ldquo;particulares nos universais&rdquo; (Malterud, 2001) no exerc&iacute;cio da pr&aacute;tica cl&iacute;nica.</p>     <p>Importa, no entanto, notar que esta conce&ccedil;&atilde;o tem vindo a ser crescentemente desafiada tanto no interior como no exterior da profiss&atilde;o m&eacute;dica, sendo que &eacute; a partir do per&iacute;odo do p&oacute;s-segunda guerra mundial que se vai tornando efetivamente not&oacute;ria a exist&ecirc;ncia de um crescente consenso e empenho de m&uacute;ltiplos atores na cientifiza&ccedil;&atilde;o da medicina e na formaliza&ccedil;&atilde;o das decis&otilde;es cl&iacute;nicas (Gordon, 1988; Berg, 1995). A desqualifica&ccedil;&atilde;o das formas de conhecimento baseadas na intui&ccedil;&atilde;o e na experi&ecirc;ncia d&aacute;, assim, lugar &agrave; secundariza&ccedil;&atilde;o das dimens&otilde;es qualitativas, designadamente ao papel dos elementos subjetivos enquanto componentes constitutivas de todas as formas de julgamento humano. Conduz, por conseguinte, &agrave; gradual sedimenta&ccedil;&atilde;o da ideia de que a <i>arte </i>do julgamento cl&iacute;nico acaba por ser uma forma de recusar os crit&eacute;rios expl&iacute;citos da abordagem cient&iacute;fica (Eddy, 1988), pelo que se preconiza que o papel desse julgamento deve ser radicalmente substitu&iacute;do pela evid&ecirc;ncia de base estat&iacute;stica e pela formaliza&ccedil;&atilde;o de instrumentos codificados que sistematizam a informa&ccedil;&atilde;o proveniente da investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, nomeadamente dos estudos cl&iacute;nicos experimentais.</p>     <p>Com efeito, o crescente privil&eacute;gio epistemol&oacute;gico conferido &agrave;s metodologias cient&iacute;ficas de base estat&iacute;stica estabelece um novo entendimento quanto ao que conta como evid&ecirc;ncia v&aacute;lida e quanto &agrave;s metodologias e t&eacute;cnicas que podem assegurar a aplica&ccedil;&atilde;o de um conhecimento mais rigoroso e isento de varia&ccedil;&otilde;es, sendo este, de resto, um dos principais sustent&aacute;culos que est&aacute; subjacente &agrave; pr&oacute;pria emerg&ecirc;ncia da chamada Medicina Baseada na Evid&ecirc;ncia (MBE) no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1990.</p>     <p>Afirmando-se como um processo de pesquisa e sistematiza&ccedil;&atilde;o da evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica resultante da investiga&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica, a MBE tem, assim, como prop&oacute;sito expl&iacute;cito tornar poss&iacute;vel a aplica&ccedil;&atilde;o mais padronizada das provas cient&iacute;ficas decorrentes da utiliza&ccedil;&atilde;o das an&aacute;lises epidemiol&oacute;gicas a certos aspetos da pr&aacute;tica m&eacute;dica, como a valida&ccedil;&atilde;o das terap&ecirc;uticas ou as recomenda&ccedil;&otilde;es cl&iacute;nicas no formato de Normas de Orienta&ccedil;&atilde;o Cl&iacute;nica (NOC).</p>     <p>Atendendo &agrave; defini&ccedil;&atilde;o institucional da MBE, emerge, pois, com razo&aacute;vel clareza a expectativa conferida ao potencial da padroniza&ccedil;&atilde;o para o refor&ccedil;o da objetividade das decis&otilde;es m&eacute;dicas, dado que nessa mesma defini&ccedil;&atilde;o &eacute; sublinhada a ideia de que esta abordagem consiste no uso consciencioso, expl&iacute;cito e criterioso da melhor evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica dispon&iacute;vel para a tomada de decis&otilde;es sobre a sa&uacute;de dos indiv&iacute;duos. Sobretudo porque se sustenta que muitos aspetos dos cuidados m&eacute;dicos dependem de fatores individuais e de julgamentos valorativos que introduzem muitas varia&ccedil;&otilde;es nas pr&aacute;ticas cl&iacute;nicas (Sacket et al<i>.</i>, 1985).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; justamente nesta ace&ccedil;&atilde;o que o pressuposto da indispensabilidade da padroniza&ccedil;&atilde;o das pr&aacute;ticas profissionais m&eacute;dicas passa a configurar-se como um imperativo cada vez mais incontorn&aacute;vel, na medida em que se preconiza que a efetiva varia&ccedil;&atilde;o e diversidade dessas pr&aacute;ticas &eacute; geradora de problemas n&atilde;o s&oacute; ao n&iacute;vel da qualidade dos cuidados de sa&uacute;de, mas tamb&eacute;m, e sobretudo, ao n&iacute;vel do controlo e da racionaliza&ccedil;&atilde;o dos custos inerentes &agrave; presta&ccedil;&atilde;o dos cuidados em contextos marcados por crescentes constrangimentos de sustentabilidade financeira.</p>     <p>Na &oacute;tica dos atores externos com responsabilidades ao n&iacute;vel da regula&ccedil;&atilde;o e do financiamento do sistema de sa&uacute;de, o tipo de evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica que &eacute; sistematizada no &acirc;mbito da MBE, bem como os instrumentos de formaliza&ccedil;&atilde;o e codifica&ccedil;&atilde;o do conhecimento que esta torna poss&iacute;veis, passam a constituir-se como crit&eacute;rios estrat&eacute;gicos de regula&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e de avalia&ccedil;&atilde;o organizacional da pr&oacute;pria qualidade do desempenho profissional dos seus intervenientes. Para al&eacute;m do seu uso enquanto crit&eacute;rio de aloca&ccedil;&atilde;o financeira de recursos, essa evid&ecirc;ncia constitui-se, igualmente, como uma base fundamental para monitorizar resultados em mat&eacute;ria de avalia&ccedil;&atilde;o da efic&aacute;cia e efici&ecirc;ncia das interven&ccedil;&otilde;es cl&iacute;nicas.</p>     <p>Todavia, e n&atilde;o obstante a &ecirc;nfase e a prioridade regulat&oacute;ria conferidas a este tipo de enfoque, &eacute; importante salientar que o facto de existirem padr&otilde;es n&atilde;o garante, por si s&oacute;, que estes sejam efetivamente seguidos (Brunsson, Jacobsson, 2000, p. 8), pelo que se torna fundamental compreender as modalidades de mobiliza&ccedil;&atilde;o das NOC no contexto pr&aacute;tico do trabalho m&eacute;dico. &Eacute; precisamente este desafio anal&iacute;tico que, em termos mais concretos, est&aacute; subjacente &agrave; discuss&atilde;o a desenvolver no presente artigo, pois independentemente das l&oacute;gicas de regula&ccedil;&atilde;o externa que hoje enquadram o setor da sa&uacute;de, &eacute; relevante empreender um esfor&ccedil;o de compreens&atilde;o relativamente &agrave;s formas de ado&ccedil;&atilde;o destes novos imperativos no modelo profissional da medicina. Tal pressup&otilde;e uma explora&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica relativamente &agrave; l&oacute;gica de constru&ccedil;&atilde;o do conhecimento m&eacute;dico e, portanto, uma compreens&atilde;o quanto ao modo como os profissionais mobilizam e efetivamente integram estes instrumentos no contexto da sua pr&aacute;tica cl&iacute;nica.</p>     <p>Neste sentido, discernir de que modos os m&eacute;dicos avaliam, discutem, adaptam, incorporam ou articulam m&uacute;ltiplas fontes de evid&ecirc;ncia (como por exemplo as hist&oacute;rias cl&iacute;nicas, exames, testes laboratoriais, experi&ecirc;ncia cl&iacute;nica, intui&ccedil;&atilde;o, discuss&atilde;o inter-pares, evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica de natureza epidemiol&oacute;gica, etc.) e, por conseguinte, como os diversos conhecimentos s&atilde;o valorizados e tendencialmente usados, partilhados e reproduzidos no contexto do seu exerc&iacute;cio profissional, constitui, portanto, um dos enfoques privilegiados para captar e compreender a coexist&ecirc;ncia (muitas vezes competitiva entre si) de diferentes &ldquo;vozes&rdquo; na medicina (Atkinson, 1995), cada uma implicando diferentes orienta&ccedil;&otilde;es e atitudes, e cada uma ajudando a reconstituir a complexidade da cultura cl&iacute;nica e a heterogeneidade das suas a&ccedil;&otilde;es pragm&aacute;ticas decorrentes da reflexividade pr&aacute;tica e do papel das pr&oacute;prias rotinas m&eacute;dicas (Berg, 1992).</p>     <p>Para proceder ao desenvolvimento deste enfoque anal&iacute;tico e, desse modo, perscrutar a forma como se desenvolvem os processos de aceita&ccedil;&atilde;o e incorpora&ccedil;&atilde;o da evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica, bem como dos instrumentos que a sistematizam (NOC), foi assumida a sele&ccedil;&atilde;o, dentro do escopo mais alargado das especialidades m&eacute;dicas existentes, do caso da Medicina Geral e Familiar (MGF). A pertin&ecirc;ncia desta escolha justifica-se pelo facto de se tratar de uma especialidade m&eacute;dica que est&aacute; ideologicamente ancorada numa ret&oacute;rica profissional que valoriza a componente biogr&aacute;fica e holista (o <i>modelo cl&iacute;nico centrado no doente</i>) (Ramos, 2008) enquanto um elemento distintivo que foi, ali&aacute;s, historicamente crucial para afirmar a diferencia&ccedil;&atilde;o desta especialidade face &agrave; medicina hospitalar mais estruturalmente baseada no modelo biom&eacute;dico (Armstrong, 1979). O que com isto se procura dizer &eacute; que, tratando-se de uma especialidade que est&aacute; muito ligada &agrave; valoriza&ccedil;&atilde;o do contexto (Jord&atilde;o, 1995; S&aacute;, 2002) e ao modo como este &ldquo;alimenta&rdquo; o conhecimento pr&aacute;tico que subjaz ao julgamento cl&iacute;nico, acaba por ser bastante privilegiada a orienta&ccedil;&atilde;o para a compreens&atilde;o situacional do todo por via do enquadramento relativo &agrave;s circunst&acirc;ncias particulares e contextuais do pr&oacute;prio doente.</p>     <p>Deste modo, e tendo como base as conce&ccedil;&otilde;es dos profissionais de MGF - algo que, como se explicitar&aacute; na sec&ccedil;&atilde;o relativa &agrave; metodologia, decorre das op&ccedil;&otilde;es da estrat&eacute;gia de investiga&ccedil;&atilde;o assumida e que &eacute; concretamente operacionalizada atrav&eacute;s de um estudo de caso centrado em dois contextos organizacionais espec&iacute;ficos- procede-se neste artigo a um trabalho de discuss&atilde;o anal&iacute;tica orientado privilegiadamente para a compreens&atilde;o das formas de valoriza&ccedil;&atilde;o, envolvimento e mobiliza&ccedil;&atilde;o que estes especialistas fazem dos instrumentos formais de padroniza&ccedil;&atilde;o, concretamente as NOC, no contexto da sua pr&aacute;tica profissional.</p>     <p>Antes, no entanto, de proceder &agrave; discuss&atilde;o anal&iacute;tica do material emp&iacute;rico, &eacute; importante tra&ccedil;ar o enquadramento geral da conceptualiza&ccedil;&atilde;o que lhe est&aacute; subjacente. Tratando-se de um modelo de an&aacute;lise que resulta da articula&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias &aacute;reas disciplinares da sociologia (designadamente a sociologia das profiss&otilde;es, da sa&uacute;de e dos estudos sociais da ci&ecirc;ncia - ESC), o mesmo acaba, no &acirc;mbito dos objetivos espec&iacute;ficos desta discuss&atilde;o<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>[1]</sup></a>, por se estruturar em torno de um enfoque que &eacute; claramente mais tribut&aacute;rio dos ESC, no sentido em que se enfatiza a problem&aacute;tica relativa ao entendimento das din&acirc;micas contingentes de negocia&ccedil;&atilde;o e de adapta&ccedil;&atilde;o local da diversidade de normas, pr&aacute;ticas e formas de conhecimento no contexto das suas pr&aacute;ticas concretas.</p>     <p>O desafio anal&iacute;tico que se coloca privilegia, assim, o entendimento das media&ccedil;&otilde;es interativas do conhecimento sem que isso implique, no entanto, descurar as inter-rela&ccedil;&otilde;es mais estruturais no quadro dos contextos gerais de mudan&ccedil;a regulat&oacute;ria no setor dos cuidados de sa&uacute;de (Moreira, 2012). O foco da abordagem passa, portanto, por aferir o impacto efetivo da incorpora&ccedil;&atilde;o das NOC no contexto da MGF, pois embora estas possam estabelecer uma nova delimita&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o de discricionariedade destes profissionais, n&atilde;o suprimem, contudo, a sua autonomia cl&iacute;nica. N&atilde;o s&oacute; porque as organiza&ccedil;&otilde;es profissionais tendem a estar frequentemente no controlo dos processos de defini&ccedil;&atilde;o e estabelecimento desses instrumentos (Raposo, 2014) ou de outros mecanismos regulat&oacute;rios similares (Chamberlain, 2009; Carapinheiro, Serra, Correia, 2013), mas tamb&eacute;m, e sobretudo, porque ao n&iacute;vel da sua utiliza&ccedil;&atilde;o as NOC s&atilde;o, afinal, objeto de transforma&ccedil;&otilde;es e adapta&ccedil;&otilde;es locais que est&atilde;o diretamente vinculadas &agrave; experi&ecirc;ncia, aos conhecimentos t&aacute;citos e tamb&eacute;m &agrave; avalia&ccedil;&atilde;o das necessidades individuais dos doentes (Serra, 2007). &Eacute; este o enquadramento que se explicitar&aacute; j&aacute; de seguida.</p>     <p>DA IMPLEMENTA&Ccedil;&Atilde;O&Agrave; RECONTEXTUALIZA&Ccedil;&Atilde;O PR&Aacute;TICA DA PADRONIZA&Ccedil;&Atilde;O</p>     <p>Um dos aspetos cruciais que enforma o enfoque anal&iacute;tico desta investiga&ccedil;&atilde;o prende-se com a demarca&ccedil;&atilde;o que &eacute; assumida face a qualquer tipo de &ecirc;nfase aprior&iacute;stica nas consequ&ecirc;ncias negativas da padroniza&ccedil;&atilde;o e no impacto pretensamente hegem&oacute;nico das NOC na pr&aacute;tica m&eacute;dica (Timmermans, Kolker, 2004). A ocorrer, tal constituiria uma forma de reificar o pr&oacute;prio conceito, designadamente porque os resultados desses processos podem ser efetivamente diversos, contradit&oacute;rios e at&eacute; imprevis&iacute;veis (Timmermans, Almeling, 2009, p. 26). Deste modo, a implementa&ccedil;&atilde;o de padr&otilde;es e protocolos, mais do que se limitar a instaurar mecanismos formais geradores de uniformiza&ccedil;&atilde;o, requer um trabalho ativo de coordena&ccedil;&atilde;o e articula&ccedil;&atilde;o (Bowker, Star, 1999) para os integrar em contextos frequentemente marcados por outros padr&otilde;es e rotinas (Berg, 1997).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Decorre, assim, desta linha de argumenta&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; a ideia de que a implementa&ccedil;&atilde;o de padr&otilde;es remete para um processo din&acirc;mico e adaptativo, mas sobretudo a &ecirc;nfase na indispensabilidade da ag&ecirc;ncia necess&aacute;ria para proceder aos v&aacute;rios equil&iacute;brios e articula&ccedil;&otilde;es entre a flexibilidade e a rigidez dos mesmos, pois no fundamental a padroniza&ccedil;&atilde;o consiste na compatibiliza&ccedil;&atilde;o entre as condi&ccedil;&otilde;es locais da pr&aacute;tica com a valida&ccedil;&atilde;o universal dos padr&otilde;es; aquilo a que Timmermans e Berg (1997) designam de &ldquo;universalidade local&rdquo;. Dito de um outro modo, a apropria&ccedil;&atilde;o de um protocolo em fun&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es locais consiste, portanto, num &ldquo;procedimento reflexivo, que contempla a possibilidade de autocorre&ccedil;&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o dos resultados da sua aplica&ccedil;&atilde;o; e &eacute; um procedimento pragm&aacute;tico, na medida em que a sua utilidade e efic&aacute;cia s&atilde;o avaliadas em fun&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas em que &eacute; mobilizado e, eventualmente, sujeito a adapta&ccedil;&atilde;o ou reformula&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Faria, 2001, p. 91).</p>     <p>Ora considerando o campo concreto da regula&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de, que tem sido efetivamente f&eacute;rtil na dissemina&ccedil;&atilde;o de mecanismos de escrut&iacute;nio externo relativamente ao exerc&iacute;cio profissional da medicina (Chamberlain, 2009), afigura-se como relevante equacionar em que medida quest&otilde;es como a distribui&ccedil;&atilde;o e a ado&ccedil;&atilde;o das NOC nos contextos institucionais concretos (Fitzgerald, Dopson, 2005), se constituem como dimens&otilde;es cruciais que remetem a abordagem para um patamar de discuss&atilde;o que integra a heterogeneidade e a contingencialidade das pr&aacute;ticas e dos conhecimentos profissionais. Pr&aacute;ticas e conhecimentos que n&atilde;o est&atilde;o, naturalmente, desprovidos das suas dimens&otilde;es e din&acirc;micas sociais pr&oacute;prias.</p>     <p>De facto, estes aspetos s&atilde;o importantes e merecem ser levados em linha de conta, at&eacute; porque contribuem para o esclarecimento de din&acirc;micas que muitas vezes tendem a ficar subsumidas nas preocupa&ccedil;&otilde;es de teor regulat&oacute;rio relativas &agrave; necessidade &ldquo;virtuosa&rdquo; da implementa&ccedil;&atilde;o da evid&ecirc;ncia e dos instrumentos formais que potencialmente asseguram a altera&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas profissionais e organizacionais. O que com esta ideia se pretende salientar &eacute;, no fundo, a constata&ccedil;&atilde;o segundo a qual a quest&atilde;o da implementa&ccedil;&atilde;o se tornou numa das principais metas das entidades regulat&oacute;rias que revelam, assim, a forte expectativa de que os profissionais alterem a sua pr&aacute;tica cl&iacute;nica em conformidade com as orienta&ccedil;&otilde;es da evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica. Mas como influenciar os profissionais a alterar as suas pr&aacute;ticas nesse sentido, quando aquilo que muita da evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica (Greenhalgh, 2006; Cabana et al.,<i> </i>1999; Grol et al.,<i> </i>1998; Burgers et al.,<i> </i>1998; Freeman, Sweeney, 2001) faz salientar &eacute; que os padr&otilde;es parecem ter pouco efeito no &acirc;mbito das decis&otilde;es m&eacute;dicas?</p>     <p>Sem d&uacute;vida que n&atilde;o t&ecirc;m faltado estrat&eacute;gias e recursos institucionais para assegurar a implementa&ccedil;&atilde;o de padr&otilde;es e para tentar contrariar a sua n&atilde;o utiliza&ccedil;&atilde;o, desde logo porque se tem verificado a crescente consolida&ccedil;&atilde;o de toda uma infraestrutura complexa de auditores, monitores e consultores para implementar e avaliar a conformidade das pr&aacute;ticas profissionais e organizacionais relativamente a esses instrumentos codificados (Power, 1999; Timmermans, Epstein, 2010). Todavia, os resultados da sua implementa&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica s&atilde;o efetivamente complexos, parciais e dif&iacute;ceis (Brunsson, Jacobsson, 2000; Fitzgerald, Dopson, 2005) e, sobretudo, evidenciam a falibilidade das abordagens mais convencionais, designadamente as estrat&eacute;gias de educa&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica que se baseiam no pressuposto de que a sistematiza&ccedil;&atilde;o, disponibiliza&ccedil;&atilde;o e difus&atilde;o de novo conhecimento podem alterar, por si s&oacute;, os comportamentos profissionais numa dire&ccedil;&atilde;o mais &ldquo;evidence-based&rdquo; (Greenhalgh, 2006). Ora n&atilde;o s&oacute; a aplica&ccedil;&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil devido ao facto de os padr&otilde;es serem gerais e abstratos quando, na pr&aacute;tica, os problemas e as opera&ccedil;&otilde;es para a resolu&ccedil;&atilde;o dos mesmos s&atilde;o sempre concretas e espec&iacute;ficas (Schon, 1983), como &eacute; frequente encontrar elevada relut&acirc;ncia em implementar padr&otilde;es em contextos de valoriza&ccedil;&atilde;o da autonomia profissional e de margens efetivas de inova&ccedil;&atilde;o (Brunsson, Jacobsson, 2000).</p>     <p>Sob este ponto de vista, uma das principais limita&ccedil;&otilde;es que tende a ser atribu&iacute;da aos modelos &ldquo;cl&aacute;ssicos&rdquo; de difus&atilde;o prende-se n&atilde;o s&oacute; com o facto de os promotores da MBE tenderem a conceber o problema da implementa&ccedil;&atilde;o acima de tudo como um problema t&eacute;cnico de disponibilidade da informa&ccedil;&atilde;o de qualidade (Dopson et al., 2003, p. 317), mas tamb&eacute;m com o facto de estes raramente reconhecerem a heterogeneidade dos contextos organizacionais, bem como as din&acirc;micas locais de negocia&ccedil;&atilde;o da sua incorpora&ccedil;&atilde;o na pr&aacute;tica (Fitzgerald, Dopson, 2005). Daqui resulta uma dificuldade concreta em compreender que a ado&ccedil;&atilde;o dos padr&otilde;es tende a ser seletiva e gradual e que, entre outros aspetos relevantes, depende muito do reconhecimento da credibilidade dos padr&otilde;es e da relev&acirc;ncia do conhecimento que estes incorporam para a resolu&ccedil;&atilde;o dos problemas espec&iacute;ficos (Brunsson, Jacobsson, 2000).</p>     <p>Os problemas de aplica&ccedil;&atilde;o dos sistemas formalizados no contexto da pr&aacute;tica cl&iacute;nica e a quest&atilde;o da pr&oacute;pria qualidade das NOC correspondem, assim, a uma dimens&atilde;o problem&aacute;tica que n&atilde;o tem cessado de suscitar, no interior do pr&oacute;prio campo da medicina, uma abundante reflex&atilde;o cr&iacute;tica<b> </b>sobre as dificuldades de tradu&ccedil;&atilde;o da evid&ecirc;ncia para a pr&aacute;tica cl&iacute;nica (Woolf, 1999; Pazart et al.,<i> </i>1998; Grilli, 2000), nomeadamente em termos da sua aplicabilidade, da potencial conflitualidade entre NOC, do seu tendencial &ldquo;anacronismo&rdquo; e da r&aacute;pida prolifera&ccedil;&atilde;o e imposi&ccedil;&atilde;o de novas NOC (Lohr et al.<i>, </i>1998). Ali&aacute;s, muitos destes problemas que t&ecirc;m interpelado os cl&iacute;nicos acabam, em grande medida, por ser os mesmos que est&atilde;o na base de v&aacute;rias iniciativas relacionadas com o desenvolvimento de esquemas de classifica&ccedil;&atilde;o sobre a qualidade da evid&ecirc;ncia (Lohr et al.,<i> </i>1998, p. 10) ou de instrumentos de qualidade espec&iacute;ficos como o <i>Strenght of Recommendation Taxonomy </i>(SORT) (Ebell et al.,<i> </i>2004), <i>The Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation</i> (GRADE), <i>The GuideLine Implementability Appraisal </i>(GLIA) (Shiffman et al.,<i> </i>2005) ou o <i>Appraisal of Guidelines for Research and Evaluation</i> (AGREE), este &uacute;ltimo visando avaliar v&aacute;rios par&acirc;metros relativos ao conte&uacute;do cient&iacute;fico, ao processo de produ&ccedil;&atilde;o da evid&ecirc;ncia e &agrave; pr&oacute;pria apresenta&ccedil;&atilde;o das NOC (Greenhalgh, 2006, pp. 142-145).</p>     <p>Um dos principais aspetos que diferencia este tipo de abordagem das an&aacute;lises mais qualitativas passa pelo facto de estas &uacute;ltimas conferirem uma maior centralidade anal&iacute;tica &agrave; compreens&atilde;o dos contextos organizacionais, nomeadamente em rela&ccedil;&atilde;o aos modos como a evid&ecirc;ncia &eacute; incorporada na pr&aacute;tica cl&iacute;nica; ao entendimento de que a ado&ccedil;&atilde;o das inova&ccedil;&otilde;es nas pr&aacute;ticas concretas consiste num processo din&acirc;mico e cont&iacute;nuo que para ser satisfatoriamente compreendido requer perspetivas de an&aacute;lise longitudinal. Pressup&otilde;e tamb&eacute;m a interpreta&ccedil;&atilde;o das a&ccedil;&otilde;es e das l&oacute;gicas caracter&iacute;sticas das pr&aacute;ticas locais, assim como a compreens&atilde;o da pr&oacute;pria reflexividade profissional que est&aacute; na base das formas de envolvimento, interpreta&ccedil;&atilde;o e mobiliza&ccedil;&atilde;o das fontes de conhecimento formal e informal nas situa&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas de trabalho (Fitzgerald, Dopson, 2005; Caria, 2005). Ali&aacute;s, n&atilde;o &eacute; de todo inusitado - mesmo em contextos de alta especializa&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica e tecnol&oacute;gica (o modelo de medicina tecnocr&aacute;tica, de que se constitui uma boa ilustra&ccedil;&atilde;o o dom&iacute;nio da transplanta&ccedil;&atilde;o hep&aacute;tica) (Serra, 2007, 2008) - que na pr&aacute;tica profissional concreta prevale&ccedil;a o primado da experi&ecirc;ncia cl&iacute;nica, circunst&acirc;ncia que conduz frequentemente &agrave; secundariza&ccedil;&atilde;o de crit&eacute;rios mais padronizados, sobretudo os de natureza estat&iacute;stica. Verifica-se, assim, que n&atilde;o obstante os proclamados m&eacute;ritos dos protocolos remeterem para um horizonte de padroniza&ccedil;&atilde;o de procedimentos, as margens de imprevisibilidade e o acionamento de saberes indeterminados acentuam l&oacute;gicas de articula&ccedil;&atilde;o e negocia&ccedil;&atilde;o, neste caso entre especialidades e entre profissionais, de car&aacute;cter fortemente contingente.</p>     <p>Assim, e em lugar de uma abordagem baseada no pressuposto das virtudes da evid&ecirc;ncia e na ideia de que a implementa&ccedil;&atilde;o pode ser melhorada por via da procura das interven&ccedil;&otilde;es mais eficazes na difus&atilde;o da evid&ecirc;ncia (Cabana et al.,<i> </i>1999; Shiffman et al., 2005; Lugtenberg et al., 2009), os enfoques mais qualitativos sublinham o car&aacute;cter multifacetado e multidimensional dos contextos locais. Em vez de uma vis&atilde;o est&aacute;tica dos contextos que os entende como realidades que podem ser observadas e medidas por crit&eacute;rios quantitativos, estas abordagens permitem explorar dimens&otilde;es relativas ao modo como os profissionais relacionam a evid&ecirc;ncia dispon&iacute;vel com as suas pr&aacute;ticas de trabalho e tamb&eacute;m ao modo como ativamente interpretam e reconstroem a sua utilidade e validade local.</p>     <p>Nesta medida, dimens&otilde;es de an&aacute;lise centradas no papel do contexto micro para a incorpora&ccedil;&atilde;o da evid&ecirc;ncia na pr&aacute;tica ou na import&acirc;ncia das culturas profissionais enquanto uma forma identit&aacute;ria e uma experi&ecirc;ncia partilhada em situa&ccedil;&atilde;o na atividade sociocognitiva (Caria, 2008, p. 769), permitem mostrar que as &ldquo;barreiras&rdquo; &agrave; implementa&ccedil;&atilde;o efetiva dos padr&otilde;es tanto integram elementos cognitivos como elementos sociais e identit&aacute;rios (Ferlie, 2005). Chamam tamb&eacute;m a aten&ccedil;&atilde;o para a necessidade de compreender os processos sociais de atribui&ccedil;&atilde;o de sentido a que &eacute; sujeito o conhecimento (seja ele expl&iacute;cito ou t&aacute;cito) (Malterud, 1995), nomeadamente em termos dos seus modos de negocia&ccedil;&atilde;o, constru&ccedil;&atilde;o e internaliza&ccedil;&atilde;o no contexto das pr&aacute;ticas e das rotinas de trabalho (Gabbay, May, 2004).</p>     <p>Ali&aacute;s, a compreens&atilde;o das pr&aacute;ticas profissionais e das suas modalidades espec&iacute;ficas de reflexividade nos contextos concretos de a&ccedil;&atilde;o mostra que as formas expl&iacute;citas e codificadas de conhecimentos n&atilde;o s&atilde;o, com efeito, as &uacute;nicas fontes de conhecimento leg&iacute;timo para os profissionais. Pelo contr&aacute;rio, importa considerar, para efeitos de compreens&atilde;o do papel do julgamento cl&iacute;nico no &acirc;mbito das pr&aacute;ticas m&eacute;dicas, a centralidade que os conhecimentos t&aacute;cito, experiencial e informal efetivamente assumem, dado que s&atilde;o justamente estas dimens&otilde;es mais incorporadas (ou &ldquo;encorpadas&rdquo;, no sentido de estarem inscritas no corpo) (Gordon, 1988; Greenhalgh et al.<i>, </i>2008; Nettleton et al.,<i> </i>2008) que permitem dar sentido &agrave;s particularidades e &agrave;s exig&ecirc;ncias dos contextos, e, consequentemente, lidar com as singularidades e conting&ecirc;ncias que a&iacute; emergem (Henry, 2006). O mesmo significa dizer que os algoritmos de decis&atilde;o das NOC acabam por se desligar paradoxalmente da complexidade da pr&aacute;tica, na medida em que o &acirc;mbito de formaliza&ccedil;&atilde;o destes instrumentos &ldquo;apenas&rdquo; institui uma l&oacute;gica inferencial da decis&atilde;o, quando esta tem subjacente um julgamento cuja perspetiva &eacute; intrinsecamente interpretativa (Huddle, 2007, p. 491).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>METODOLOGIA</p>     <p>A estrat&eacute;gia de investiga&ccedil;&atilde;o que foi desenvolvida nesta pesquisa<a href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><sup>[2]</sup></a> insere-se no quadro de uma metodologia qualitativa-intensiva, tendo a mesma sido alicer&ccedil;ada na pesquisa de terreno enquanto m&eacute;todo principal, designadamente atrav&eacute;s do recurso &agrave; observa&ccedil;&atilde;o direta (por via da participa&ccedil;&atilde;o em reuni&otilde;es m&eacute;dicas semanais)<a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><sup>[3]</sup></a>, bem como por via da realiza&ccedil;&atilde;o de sess&otilde;es de Grupos Focais.</p>     <p>No &acirc;mbito desta abordagem metodol&oacute;gica, foi conferida uma clara primazia &agrave;s preocupa&ccedil;&otilde;es de interpreta&ccedil;&atilde;o da realidade socioprofissional dos m&eacute;dicos da especialidade de MGF inseridos nos seus contextos organizacionais t&iacute;picos. Esta circunst&acirc;ncia constituiu, assim, a condi&ccedil;&atilde;o fundamental para a explora&ccedil;&atilde;o e compreens&atilde;o das conce&ccedil;&otilde;es dos profissionais de MGF relativamente &agrave; utiliza&ccedil;&atilde;o da evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica na pr&aacute;tica cl&iacute;nica atrav&eacute;s de instrumentos formais de codifica&ccedil;&atilde;o do conhecimento, como s&atilde;o por excel&ecirc;ncia as NOC.</p>     <p>De um ponto de vista mais operacional, a op&ccedil;&atilde;o pelo estudo aprofundado desta realidade traduziu-se na selec&ccedil;&atilde;o de um estudo de caso que recaiu em dois contextos organizacionais t&iacute;picos onde se desenvolve o trabalho dos m&eacute;dicos de MGF. A escolha dos casos foi pautada pela preocupa&ccedil;&atilde;o em explorar a sua exemplaridade, no sentido de os entender como casos que traduzem simultaneamente as diferen&ccedil;as organizacionais dos contextos de trabalho dos m&eacute;dicos de MGF, assim como aspetos que podem, com as devidas diferen&ccedil;as, ser transversais a esses mesmos contextos. Naturalmente que as pretens&otilde;es anal&iacute;ticas s&atilde;o sempre pautadas pela devida prud&ecirc;ncia, uma vez que estas n&atilde;o assumem como prop&oacute;sito a produ&ccedil;&atilde;o ou a extrapola&ccedil;&atilde;o de conclus&otilde;es pretensamente extens&iacute;veis a toda a realidade organizacional da MGF.</p>     <p>Em termos concretos, a sele&ccedil;&atilde;o dos contextos recaiu, por um lado, nas designadas Unidades de Cuidados de Sa&uacute;de Personalizados (UCSP), que correspondem &agrave; configura&ccedil;&atilde;o organizacional &ldquo;tradicional&rdquo; da presta&ccedil;&atilde;o dos Cuidados de Sa&uacute;de Prim&aacute;rios (CSP) por parte dos m&eacute;dicos de MGF, e, por outro, nas Unidades de Sa&uacute;de Familiar (USF), que emergiram enquanto modelo inovador de um novo figurino organizacional que corporizou uma das express&otilde;es mais vis&iacute;veis da reforma dos CSP que teve lugar a partir de 2005 (Teixeira, 2012).</p>     <p>No &acirc;mbito espec&iacute;fico da pesquisa de terreno que foi desenvolvida, assumiu um particular privil&eacute;gio o recurso &agrave; t&eacute;cnica dos Grupos Focais, tendo-se esta constituindo como o corol&aacute;rio de um percurso gradual e cumulativo de explora&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica desenvolvida no quadro de um processo pr&eacute;vio de observa&ccedil;&atilde;o direta que decorreu entre dezembro de 2011 e julho de 2012. O recurso a esta t&eacute;cnica justificou-se pelo facto de esta proporcionar a ocasi&atilde;o e o est&iacute;mulo para os membros de um determinado coletivo articularem pressupostos normativos que habitualmente n&atilde;o s&atilde;o explicitados ou que, pelo menos, n&atilde;o s&atilde;o objeto de particular reflex&atilde;o por parte dos pr&oacute;prios indiv&iacute;duos (Bloor et al.,<i> </i>2001; Barbour, 2010). Ou seja, a operacionaliza&ccedil;&atilde;o desta t&eacute;cnica n&atilde;o s&oacute; estimulou a intera&ccedil;&atilde;o dos participantes, &ldquo;encorajando-os&rdquo; a explorarem e a explicitarem as suas posi&ccedil;&otilde;es, conce&ccedil;&otilde;es ou perspetivas - bem como as eventuais diverg&ecirc;ncias ou experi&ecirc;ncias partilhadas entre o grupo -, mas tamb&eacute;m se constituiu como uma forma r&aacute;pida e eficaz de aceder diretamente a formas de comunica&ccedil;&atilde;o t&iacute;picas das intera&ccedil;&otilde;es quotidianas dos indiv&iacute;duos.</p>     <p>Em termos mais pr&aacute;ticos, o recurso a esta t&eacute;cnica de recolha de informa&ccedil;&atilde;o traduziu-se na realiza&ccedil;&atilde;o de quatro sess&otilde;es que se debru&ccedil;aram sobre as conce&ccedil;&otilde;es dos profissionais de MGF relativamente ao papel da evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica e das NOC no &acirc;mbito da sua pr&aacute;tica m&eacute;dica, tendo as mesmas decorrido entre o fim de 2012 e o in&iacute;cio de 2013.<a href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><sup>[4]</sup></a> Duas delas envolveram m&eacute;dicos especialistas com responsabilidades formativas na orienta&ccedil;&atilde;o de internos (n = 14) e as outras duas envolveram os pr&oacute;prios internos da especialidade de MGF (n = 16), sendo respetivamente divididas pelos dois contextos organizacionais j&aacute; identificados.</p>     <p>Assim, e tal como &eacute; poss&iacute;vel constatar pela leitura do <a href="#q1">Quadro 1</a> - que sintetiza as v&aacute;rias caracter&iacute;sticas do perfil dos participantes -, as sess&otilde;es de grupos focais envolveram um total de 30 m&eacute;dicos de MGF e a dimens&atilde;o dos grupos variou entre os 6 e os 8 elementos. Ao n&iacute;vel da sua composi&ccedil;&atilde;o foi privilegiado como crit&eacute;rio a sua relativa homogeneidade, n&atilde;o no sentido de os presumir como uniformes, mas por considerar que a circunst&acirc;ncia de estes grupos j&aacute; &ldquo;pr&eacute;-existirem&rdquo; se constituiu como uma dupla vantagem. Por um lado, permitiu refletir mais fielmente as l&oacute;gicas internas de funcionamento dos pr&oacute;prios grupos, e por outro, permitiu uma maior fluidez das conversa&ccedil;&otilde;es, para al&eacute;m de facilitar a an&aacute;lise das diferen&ccedil;as de perspetivas entre grupos. Os grupos constitu&iacute;ram-se, assim, como a unidade de an&aacute;lise e em cada um deles procurou-se analisar e compreender as intera&ccedil;&otilde;es ocorridas e, desse modo, o pr&oacute;prio contexto onde as ideias s&atilde;o formadas e partilhadas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="q1"></a><img src="/img/revistas/aso/n228/n228a07q1.jpg"/></p>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>DISCURSOS E RACIONALIDADES PROFISSIONAIS SOBRE O PAPEL DAS NOC NA PR&Aacute;TICA CL&Iacute;NICA DE MGF</p>     <p>Substantivando esta discuss&atilde;o com o conte&uacute;do das sess&otilde;es de Grupos Focais, importa agora explorar as dimens&otilde;es que melhor refletem o alcance e a natureza das reconfigura&ccedil;&otilde;es que permeiam a realidade profissional dos especialistas de MGF. Um destaque que rapidamente emergiu como incontorn&aacute;vel foi o que se referiu ao processo concreto da &ldquo;recente&rdquo; (iniciado em finais de 2011) implementa&ccedil;&atilde;o das NOC em Portugal, dado que o mesmo permitiu ancorar a discuss&atilde;o relativa aos aspetos espec&iacute;ficos que enquadram e modelam a pr&aacute;tica cl&iacute;nica destes profissionais. Trata-se de um processo que, com efeito, instituiu um novo enquadramento de natureza gestion&aacute;ria no mundo profissional da MGF, embora seja de grande pertin&ecirc;ncia fazer notar que, em bom rigor, o mesmo n&atilde;o se traduziu numa imposi&ccedil;&atilde;o unilateral que tenha for&ccedil;ado um contexto hostil &agrave;s prerrogativas desta especialidade (Raposo, 2014). Os m&eacute;dicos de MGF n&atilde;o foram um alvo passivo e impotente face a qualquer arbitrariedade centralista do Estado, o que &eacute; claramente convergente, fazendo o paralelo com algumas reformas pol&iacute;ticas na sa&uacute;de com incid&ecirc;ncia na realidade hospitalar, com o argumento de que a profiss&atilde;o m&eacute;dica tem denotado uma adapta&ccedil;&atilde;o resiliente (e n&atilde;o raras vezes uma incorpora&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica) aos mecanismos de regula&ccedil;&atilde;o externa (Carapinheiro, Serra, Correia, 2013).</p>     <p>Assim sendo, e relativamente ao estatuto das NOC e ao papel espec&iacute;fico que estas podem desempenhar na pr&aacute;tica cl&iacute;nica, &eacute; de destacar como um dos primeiros aspetos centrais a exist&ecirc;ncia de um entendimento bastante consensual relativamente &agrave; sua utilidade, por&eacute;m enquanto um instrumento de mera orienta&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o dispensa o questionamento cr&iacute;tico dos especialistas sobre a sua validade cient&iacute;fica, nem a sua preocupa&ccedil;&atilde;o de as ajustar aos casos concretos. A complexidade e a heterogeneidade intr&iacute;nsecas dessas situa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o concebidas como dimens&otilde;es que extravasam o &acirc;mbito mais codificado das recomenda&ccedil;&otilde;es preconizadas pelas NOC, mesmo quando a sua robustez cient&iacute;fica n&atilde;o est&aacute; propriamente em causa. Dois excertos provenientes de sess&otilde;es com m&eacute;dicos orientadores de UCSP e USF ilustram claramente esta ideia:</p>     <p>As normas s&atilde;o orienta&ccedil;&otilde;es para serem tidas em conta quando estamos na nossa pr&aacute;tica mas depois temos de as adequar aos doentes que temos em frente. E s&oacute; vamos aplicar as que n&oacute;s achamos que t&ecirc;m uma base cient&iacute;fica s&oacute;lida. (…) N&atilde;o vamos segui-las cegamente s&oacute; por serem normas da Dire&ccedil;&atilde;o Geral de Sa&uacute;de (DGS), &eacute; bom question&aacute;-las. [MO4]</p>     <p>Mas &eacute; preciso que eu tenha a certeza que aquele documento est&aacute; muito bem apoiado, que tem uma for&ccedil;a de recomenda&ccedil;&atilde;o boa. Digamos que pode securizar um bocadinho a pr&aacute;tica clinica, n&atilde;o sendo cego, para mim n&atilde;o&eacute; um documento cego (…). &Eacute; uma orienta&ccedil;&atilde;o mas n&atilde;o mais do que isto. Enquanto orienta&ccedil;&atilde;o tem interesse para a pr&aacute;tica, se eu quiser fazer trabalhos de investiga&ccedil;&atilde;o, naturalmente se todos n&oacute;s nos cingirmos por determinadas normas &eacute; mais f&aacute;cil fazer a investiga&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o mais que isto. [MO9]</p>     <p>J&aacute; no caso em que as quest&otilde;es da qualidade cient&iacute;fica das NOC n&atilde;o est&atilde;o plenamente satisfeitas, as reservas relativas &agrave;s suas potencialidades de uma aplica&ccedil;&atilde;o mais universal s&atilde;o acentuadas pela prud&ecirc;ncia de n&atilde;o as assumir como intrinsecamente v&aacute;lidas. Por essa raz&atilde;o, e tendo em conta as vicissitudes caracterizadoras do arranque intensivo e heterog&eacute;neo do processo de implementa&ccedil;&atilde;o das NOC (Raposo, 2014), acaba por n&atilde;o ser uma constata&ccedil;&atilde;o propriamente surpreendente o modo premente como se assume, enquanto requisito pr&aacute;tico, a necessidade de desenvolver nos contextos locais um exerc&iacute;cio de avalia&ccedil;&atilde;o e discuss&atilde;o cr&iacute;tica para, justamente, aferir o rigor e a credibilidade cient&iacute;fica de uma determinada NOC.<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><sup>[5]</sup></a> Trata-se, no fundo, de uma prerrogativa que decorre daquilo que foi a participa&ccedil;&atilde;o dos profissionais na modula&ccedil;&atilde;o do processo de implementa&ccedil;&atilde;o das NOC, designadamente ao terem conseguido salvaguardar a margem para o julgamento cl&iacute;nico, requisito indispens&aacute;vel para a discricionariedade profissional (Raposo, 2014; Serra, 2016):</p>     <p>Mas para n&oacute;s aplicarmos uma norma, mesmo que seja orientativa e n&atilde;o seja obrigat&oacute;ria, devemos refletir e olhar para o que l&aacute; est&aacute; escrito e para a base com que foi constru&iacute;da. E esse processo &eacute; fundamental e foi o que tent&aacute;mos fazer aqui na USF, sempre que sa&iacute;a uma norma um dos nossos interpares encarregava-se de ver o que l&aacute; estava escrito, de analisar, de ver a bibliografia em que tinha sido suportada essa norma mas tamb&eacute;m outra bibliografia que pudesse sustentar, ou n&atilde;o, o que l&aacute; estava escrito. Portanto, a evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica &eacute; fundamental mas aten&ccedil;&atilde;o &agrave; evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica que se coloca l&aacute; e ao processo como &eacute; conduzido [MO2].</p>     <p>Acresce a esta conce&ccedil;&atilde;o mais amplamente generalizada um outro aspeto que foi exclusivamente salientado pelos m&eacute;dicos internos, e que se prende com o facto de as NOC se poderem constituir - desde que comprovadamente robustas em termos do seu teor cient&iacute;fico - como um elemento facilitador da sua forma&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o s&oacute; em termos de estudo para exames mas sobretudo para trabalhos de investiga&ccedil;&atilde;o. Os aspetos relacionados com as potencialidades de uma maior sistematiza&ccedil;&atilde;o dos conhecimentos s&atilde;o, assim, uma das virtudes mais salientadas, como atesta, por exemplo, o seguinte excerto de uma interna inserida no contexto de uma USF:</p>     <p>Para mim as NOC s&atilde;o extremamente valiosas, primeiro porque n&oacute;s como m&eacute;dicos de fam&iacute;lia temos uma abrang&ecirc;ncia muito grande em termos de conhecimentos e de &aacute;reas que temos que estudar e que saber e portanto &eacute;-nos imposs&iacute;vel estudar outro tipo de artigos, de ensaios cl&iacute;nicos, as revis&otilde;es, para cada tema estarmos a rever tudo isto. As NOC de certa forma acaba por ser toda essa informa&ccedil;&atilde;o digerida por uma entidade, mais ou menos cred&iacute;vel. (<i>Risos</i>) (…) O ser obrigat&oacute;rio &eacute; outra quest&atilde;o! Mas a exist&ecirc;ncia das normas em si eu acho que &eacute; uma grande mais-valia porque at&eacute; &agrave; altura quando eu entrei no meu internato n&oacute;s n&atilde;o t&iacute;nhamos normas da DGS para estudar e, portanto, n&oacute;s estud&aacute;vamos por outras normas de orienta&ccedil;&atilde;o, por revis&otilde;es, por outro tipo de artigos. Por isso o nosso esfor&ccedil;o para sistematizar toda essa informa&ccedil;&atilde;o para estudarmos cada tema era muito superior. [MI15]</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>J&aacute; quanto aos posicionamentos relativos &agrave; aplicabilidade das NOC aos aspetos concretos do trabalho cl&iacute;nico, verifica-se que embora se confirme a aparente compatibiliza&ccedil;&atilde;o entre o conhecimento de base epidemiol&oacute;gica e os crit&eacute;rios mais pr&oacute;ximos dos fundamentos e dos pressupostos do <i>modelo cl&iacute;nico centrado no doente</i>, as rea&ccedil;&otilde;es s&atilde;o, contudo, um pouco mais ambivalentes. Assim, se &eacute; verdade que est&aacute; bastante enraizado na larga maioria dos discursos dos intervenientes das sess&otilde;es de grupos focais a ideia de que a autonomia cl&iacute;nica tem preced&ecirc;ncia sobre os aspetos mais prescritivos das NOC, no sentido em que o trabalho cl&iacute;nico pressup&otilde;e a capacidade de adapta&ccedil;&atilde;o &agrave;s din&acirc;micas e complexidades dos casos pr&aacute;ticos, o espectro da impositividade n&atilde;o estava, no entanto, plenamente dissipado para todos os profissionais. Sem d&uacute;vida que prevalece como tra&ccedil;o dominante o argumento - ali&aacute;s, amplamente reiterado em v&aacute;rios momentos das diversas sess&otilde;es - de que a perspetiva de incumprimento das NOC &eacute; algo de absolutamente &ldquo;normal&rdquo;, apenas requerendo a devida fundamenta&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica para suportar uma decis&atilde;o diferente.</p>     <p>O longo excerto que a seguir se apresenta, e que capta a discuss&atilde;o entre v&aacute;rios m&eacute;dicos orientadores do contexto da UCSP sobre o alcance e as implica&ccedil;&otilde;es da salvaguarda da justifica&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica do n&atilde;o cumprimento das NOC, elucida o sentido das considera&ccedil;&otilde;es anteriores:</p>     <p>H&aacute; especificidades na medicina que me parecem que n&atilde;o podem ser renegadas. Eu tenho de tratar o doente, n&atilde;o me posso orientar s&oacute; por uma norma, &eacute; o caso da polipatologia. (…) Eu estive com a X que me disse que eles v&atilde;o fazer as avalia&ccedil;&otilde;es dos diab&eacute;ticos atrav&eacute;s da prescri&ccedil;&atilde;o de metformina, quem n&atilde;o tiver metformina est&aacute; mal medicado. Acontece que h&aacute; diab&eacute;ticos que n&atilde;o precisam de metformina nem precisam de nada. N&atilde;o pode ser uma lei, n&atilde;o pode ser uma for&ccedil;a, n&atilde;o podemos ser avaliados dessa forma, acho que &eacute; uma orienta&ccedil;&atilde;o. (…) Eu n&atilde;o vou prescrever metformina a um doente que n&atilde;o precisa s&oacute; porque est&aacute; na norma. [MO9]</p>     <p>Mas isso est&aacute; previsto na norma, ou seja, quando h&aacute; contraindica&ccedil;&otilde;es para seguir aquela norma desde que fique registado no processo clinico o motivo por que se desobedeceu aquela norma, isso est&aacute; previsto na elabora&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria norma e portanto isso foi a atitude correta. [MO13]</p>     <p>Sim, isso foi a atitude correta, mas j&aacute; viu o que &eacute; durante uma consulta estar sempre a justificar porque &eacute; que tomou aquela atitude?! &Agrave;s tantas n&oacute;s estamos de tal maneira burocratizados que em vez de tratarmos doentes fazemos… registamos orienta&ccedil;&otilde;es. [MO9]</p>     <p>Qualquer coisa pode ser justific&aacute;vel desde que a gente justifique no processo, n&atilde;o temos esse problema. A justifica&ccedil;&atilde;o &eacute; que eu n&atilde;o estou a fazer! [MO10]</p>     <p>Com efeito, embora esta din&acirc;mica de discuss&atilde;o n&atilde;o coloque propriamente em destaque qualquer esp&eacute;cie de clivagem fundamental quanto ao entendimento de fundo acerca do privil&eacute;gio do crit&eacute;rio cl&iacute;nico face &agrave;s orienta&ccedil;&otilde;es mais prescritivas das NOC, existem algumas d&uacute;vidas quanto a esse &ldquo;equil&iacute;brio de for&ccedil;as&rdquo; que resultam muito da circunst&acirc;ncia de o processo se encontrar, nesse per&iacute;odo, numa fase relativamente embrion&aacute;ria. A esse prop&oacute;sito, e mais significativo ainda do que o facto de serem, &agrave; &eacute;poca, muito poucas as NOC efetivamente validadas, foi tamb&eacute;m a circunst&acirc;ncia de as auditorias consistirem num processo que ainda n&atilde;o se tinha operacionalizado de uma forma regular e consistente.</p>     <p>O teor destas d&uacute;vidas quanto ao eventual perfil punitivo das NOC, no sentido em que estas teoricamente estabelecem o crit&eacute;rio padronizado &agrave; luz do qual se procede &agrave; avalia&ccedil;&atilde;o do desempenho dos profissionais, faz, assim, eco de muitas das reservas que marcaram a discuss&atilde;o e a negocia&ccedil;&atilde;o de todo este processo entre as entidades promotoras (DGS, Ordem dos M&eacute;dicos e sociedades cient&iacute;ficas) e os profissionais. Ali&aacute;s, um dos focos de maior resist&ecirc;ncia e ceticismo sempre foi, justamente, a perspetiva do desenvolvimento deste processo poder traduzir-se numa l&oacute;gica de valida&ccedil;&atilde;o externa face &agrave; jurisdi&ccedil;&atilde;o profissional e comportando potenciais implica&ccedil;&otilde;es legais e profissionais nas situa&ccedil;&otilde;es de desvio &agrave; obrigatoriedade do cumprimento das NOC.</p>     <p>Nesta medida, portanto, qualquer horizonte de avalia&ccedil;&atilde;o e de exig&ecirc;ncia de transpar&ecirc;ncia que tenha como pressuposto regular as decis&otilde;es dos profissionais que s&atilde;o definidas no &acirc;mbito do seu trabalho cl&iacute;nico constitui uma s&eacute;ria amea&ccedil;a que vai &agrave; jugular da pr&oacute;pria autonomia profissional, pois reflete a perspetiva de coloniza&ccedil;&atilde;o das pr&aacute;ticas profissionais, e da vida organizacional, por parte dos crit&eacute;rios <i>managerialistas </i>(Power, 1999; Chamberlain, 2009). N&atilde;o foi, por isso, surpreendente que a evolu&ccedil;&atilde;o do processo de implementa&ccedil;&atilde;o das NOC, sobretudo na sua fase mais inicial de envolvimento, discuss&atilde;o e negocia&ccedil;&atilde;o dos pressupostos, requisitos e implica&ccedil;&otilde;es da sua materializa&ccedil;&atilde;o, se tenha centrado muito exaustivamente - a par do envolvimento na avalia&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica do conte&uacute;do cient&iacute;fico destes instrumentos - na quest&atilde;o das auditorias. Ou seja, um dos principais esfor&ccedil;os consistiu precisamente na dissipa&ccedil;&atilde;o da imagem &ldquo;negativa&rdquo; da obrigatoriedade e da penaliza&ccedil;&atilde;o inerente &agrave;s auditorias, passando a prevalecer em seu lugar a ideia de um processo formativo, pedag&oacute;gico, de aprendizagem e, acima de tudo, centrado no desempenho das organiza&ccedil;&otilde;es e n&atilde;o dos m&eacute;dicos tomados individualmente.</p>     <p>Tamb&eacute;m no caso dos internos, e conforme se pode verificar pelo excerto a seguir transcrito, algumas destas d&uacute;vidas e reservas manifestam a sua resson&acirc;ncia, sendo de notar que a &ecirc;nfase &eacute; sempre colocada no privil&eacute;gio do racioc&iacute;nio cl&iacute;nico (Montgomery, 2006). Ou seja, a perspetiva das implica&ccedil;&otilde;es nunca chega a constituir-se como um receio estruturante porque, apesar de tudo, existe a confian&ccedil;a de que a persuas&atilde;o intr&iacute;nseca desses racioc&iacute;nios - mesmo que n&atilde;o plenamente formalizados e codificados - se basta a si pr&oacute;pria para demonstrar a razoabilidade das decis&otilde;es cl&iacute;nicas:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Eu acho que tamb&eacute;m &eacute; importante definir o que vai ser a avalia&ccedil;&atilde;o e como vai ser. Eles dizem que temos de justificar um processo, se vais justificar tudo o que tens de justificar est&aacute;s tramado. (…) A quest&atilde;o &eacute; esta, eu acho que apesar de tudo se vai implementar, se algum dia fores auditado por alguma raz&atilde;o, ter&aacute;s obviamente o teu direito a justificar o teu racioc&iacute;nio cl&iacute;nico mesmo que o teu racioc&iacute;nio n&atilde;o esteja todo escrito no processo cl&iacute;nico, sen&atilde;o ficavas com grandes processos cl&iacute;nicos que at&eacute; nem d&aacute; para escrever! [MI9]</p>     <p>N&atilde;o d&aacute; para escrever tudo! Todos os nossos racioc&iacute;nios, &eacute; imposs&iacute;vel… [MI15]</p>     <p>N&oacute;s temos muito medo de sermos avaliados. Eu acho que no geral, a qualidade dos servi&ccedil;os m&eacute;dicos &eacute; relativamente razo&aacute;vel e n&atilde;o temos de ter medo de ser auditados. O erro propositado e o erro premeditado &eacute; que &eacute; uma coisa a ser investigada… Agora obviamente todos n&oacute;s vamos cometer alguns erros menores por desconhecimento, por acharmos convictamente que tal ser&aacute; o melhor quando n&atilde;o &eacute;. Temos depois &eacute; de nos justificar mediante a nossa pr&aacute;tica m&eacute;dica. Quem provavelmente nos vai auditar n&atilde;o v&atilde;o ser coveiros nem inspetores pidescos [MI9]</p>     <p>Outra das dimens&otilde;es que se revelou analiticamente importante, por remeter para aspetos que s&atilde;o nucleares no profissionalismo m&eacute;dico - e neste caso na pr&oacute;pria matriz identit&aacute;ria da especialidade de MGF -, diz respeito ao papel do julgamento profissional, na medida em que este se constitui como o elemento-chave para o desenvolvimento das compet&ecirc;ncias de natureza hermen&ecirc;utica tidas como indispens&aacute;veis para captar os aspetos significativos da condi&ccedil;&atilde;o concreta do indiv&iacute;duo. Ora se em grande medida esta conce&ccedil;&atilde;o mais n&atilde;o faz do que reatualizar um debate vetusto sobre a natureza distintiva da epistemologia m&eacute;dica (arte vs. ci&ecirc;ncia) (Malterud, 1995, 2001; Montgomery, 2006), no contexto da MGF ela ganha um redobrada acuidade, dado que no &acirc;mago desta especialidade se inscrevem pressupostos normativos sobre as potencialidades e as virtudes de uma abordagem biopsicossocial ideologicamente demarcada do enfoque biom&eacute;dico mais estruturador da medicina hospitalar (Jord&atilde;o, 1995, S&aacute;, 2002).</p>     <p>&Eacute; nessa medida que se pode entender a unanimidade dos posicionamentos dos participantes nas sess&otilde;es dos grupos focais relativamente a este aspeto, pois n&atilde;o obstante os constrangimentos concretos decorrentes da acentuada marginaliza&ccedil;&atilde;o destes fundamentos no quadro das din&acirc;micas da governa&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica (Charles-Jones et al., 2003), n&atilde;o deixa de ser not&oacute;ria uma esp&eacute;cie de lealdade intransigente aos princ&iacute;pios do modelo biogr&aacute;fico que est&aacute; subjacente ao <i>modelo cl&iacute;nico centrado no doente</i>. Tal significa, portanto, que apesar de n&atilde;o haver nenhum tipo de recusa irredut&iacute;vel em integrar a s&iacute;ntese da evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica de base epidemiol&oacute;gica na pr&aacute;tica cl&iacute;nica, o aspeto que &eacute; enfatizado e ativamente promovido &eacute; o que se refere &agrave;s dimens&otilde;es do contexto para a qual os atributos da experi&ecirc;ncia cl&iacute;nica s&atilde;o profissionalmente justificados como cruciais (Serra, 2008).</p>     <p>As normas em si n&atilde;o s&atilde;o um fim, s&atilde;o um instrumento, por isso &eacute; um progresso termos apoio cient&iacute;fico, termos uma parte bem arrumada (…). A forma como foram fundamentadas, como est&atilde;o a ser utilizadas, &agrave;s vezes deixa muito a desejar. (…) devemos ter uma parte do conhecimento que est&aacute; arrumado e dedicarmo-nos mais &agrave; pessoa, porque temos algumas coisas que est&atilde;o bem arrumadas e j&aacute; se fez o ponto da situa&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia nesta &aacute;rea. Se souber de cor ou se tiver um fluxograma que me ajude eu posso deixar de parte e utilizar o meu tempo de uma forma mais dedicada &agrave; pessoa, ou a aplicar a norma ou a trabalhar os outros aspetos desta pessoa. [MO8]</p>     <p>Lidar com uma pessoa que tem hipertens&atilde;o, tem um conjunto vasto de aspetos; os aspetos abordados pelas normas s&atilde;o 10/15/20%, se eu arrumar isso rapidamente liberto a cabe&ccedil;a para outros aspetos da vida: porque &eacute; que n&atilde;o come?; porque &eacute; que n&atilde;o sei quantos? H&aacute; um conjunto de aspetos que nunca podem ser normalizados e que s&atilde;o muito mais (MO7)… - A parte art&iacute;stica… (MO8) - Sim a parte art&iacute;stica &eacute; 75% que ocupa a cabe&ccedil;a… (…) Se eu levo muito tempo com a parte que n&atilde;o &eacute; contexto (…), se eu tiver mais ou menos as ideias mais simplificadas, e tiver mais ou menos uma hierarquia, as primeiras op&ccedil;&otilde;es…: &eacute; isto, ou aquilo, ou aquilo e aqueloutro, &eacute; r&aacute;pido. Se eu n&atilde;o tiver isto arrumado ponho-me eu a fazer quase a norma. Em cada doente estou a fazer uma norma e n&atilde;o estou a ouvir (o doente). Arruma-se a parte biom&eacute;dica, fica mais padronizado - aquilo que &eacute; padroniz&aacute;vel -, aquilo que h&aacute; mais certeza, para libertar o tempo, a tens&atilde;o, a mente, para a zona de incerteza, que existe permanentemente at&eacute; nos exames mais simples. [MO7]</p>     <p>No caso dos m&eacute;dicos orientadores da USF, e tal como os excertos anteriores colocam em destaque, esta conce&ccedil;&atilde;o relativa &agrave; l&oacute;gica de compatibiliza&ccedil;&atilde;o da padroniza&ccedil;&atilde;o com o julgamento cl&iacute;nico &eacute; denotativa de uma certa vis&atilde;o instrumental e pragm&aacute;tica relativamente aos instrumentos codificados que sistematizam a evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica de base biom&eacute;dica e epidemiol&oacute;gica (ou seja, orientada para a doen&ccedil;a), uma vez que cumprem um papel de facilitador das vertentes vistas como padroniz&aacute;veis da avalia&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica. Esta conce&ccedil;&atilde;o pragm&aacute;tica faz salientar a ideia de que as regras e as categorias universais de decis&atilde;o, mesmo decorrendo da matriz do conhecimento biom&eacute;dico, raramente se constituem como quadros &uacute;nicos de refer&ecirc;ncia, na medida em que os crit&eacute;rios de avalia&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica se v&atilde;o modificando e reconstruindo. Incluindo quando se inscrevem em algumas rotinas que, apesar de facilitarem o desenvolvimento de &ldquo;automatismos&rdquo;, se caracterizam por incorporar de modo inclusivo v&aacute;rios processos de articula&ccedil;&atilde;o entre os diversos elementos heterog&eacute;neos que constituem o microambiente dos profissionais (Berg, 1992; Atkinson, 1995; Serra, 2007).</p>     <p>Igualmente convergente com estes aspetos relativos &agrave; l&oacute;gica de articula&ccedil;&atilde;o e compatibiliza&ccedil;&atilde;o entre o potencial de padroniza&ccedil;&atilde;o dos instrumentos codificados e a centralidade do julgamento cl&iacute;nico &eacute; o caso de um outro excerto,&nbsp; mas desta feita retirado do contexto da UCSP. Tamb&eacute;m aqui &eacute; not&oacute;ria uma valoriza&ccedil;&atilde;o inequ&iacute;voca da vertente discricion&aacute;ria do julgamento profissional - e que neste caso em concreto &eacute; fortemente caucionado pelos atributos da experi&ecirc;ncia cl&iacute;nica pessoal (Montgomery, 2006) -, mesmo quando os exemplos mobilizados pelo m&eacute;dico orientador s&atilde;o, aparentemente, mais heterodoxos em termos das op&ccedil;&otilde;es cl&iacute;nicas assumidas:</p>     <p>Corremos o risco de come&ccedil;ar a tratar normas e n&atilde;o pessoas. Eu trato a hipertens&atilde;o desligada do indiv&iacute;duo, ou trato um p&eacute;, ou trato uma doen&ccedil;a qualquer. Come&ccedil;o a tratar entidades abstratas desligadas do seu contexto local. Para mim n&atilde;o &eacute; o mesmo. Estas NOC, ou outras que sejam, facilitam esta vis&atilde;o que eu acho errada. Eu posso dizer, por exemplo, que j&aacute; tratei um problema de coluna com antidepressivos. Se calhar se fosse &agrave; NOC ver como se trata uma fratura muscular ou uma lombalgia (…) no entanto naquele momento tratou-se com antidepressivos. (…) A ci&ecirc;ncia m&eacute;dica &eacute; muito vol&aacute;til, &eacute; uma ci&ecirc;ncia que vai mudando e que exige at&eacute; um esfor&ccedil;o de adapta&ccedil;&atilde;o e atualiza&ccedil;&atilde;o permanente, claro que realmente s&atilde;o precisas normas, facilita-nos o trabalho at&eacute; para saber quais s&atilde;o as &uacute;ltimas normas, as &uacute;ltimas orienta&ccedil;&otilde;es. T&ecirc;m vindo a mudar e eu tenho 30 anos de carreira e com pr&aacute;tica e j&aacute; vi muita coisa. Eu comecei o meu curso com 250 como o limite do colesterol e neste momento estamos nos 190. Claro que eu pergunto se ser&aacute; a evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica se ser&aacute; a ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica. (…) As normas valem o que valem, servem se calhar para uniformizar crit&eacute;rios, para n&oacute;s percebermos o que &eacute; que os colegas que tamb&eacute;m trabalham nisso estavam a pensar, mas n&oacute;s temos de ter bom senso, consci&ecirc;ncia do peso relativo que elas t&ecirc;m. [MO11]</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Torna-se, assim, not&oacute;rio que n&atilde;o h&aacute; propriamente uma obje&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica de car&aacute;cter irredut&iacute;vel em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s NOC, por&eacute;m a sua relativiza&ccedil;&atilde;o (que se pode traduzir numa n&atilde;o utiliza&ccedil;&atilde;o ou numa utiliza&ccedil;&atilde;o parcial) mostra que estas acabam por se subordinar &agrave;s necessidades pr&aacute;ticas ou &agrave;s exig&ecirc;ncias concretas dos aspetos mais intang&iacute;veis da avalia&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica (Checkland, 2004, pp. 962-967). Por isso, e mesmo que existam atitudes positivas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s NOC ou aos pr&oacute;prios objetivos de melhoria da qualidade cl&iacute;nica por via de um refor&ccedil;o mais consistente das decis&otilde;es que s&atilde;o suportadas por este tipo de instrumentos, o seu impacto pr&aacute;tico acaba por ser relativamente diminuto dado estes aspetos estruturantes da <i>mentalidade cl&iacute;nica</i> (Freidson, 1970) e da <i>cultura cl&iacute;nica</i> (Atkinson, 1995; Berg, 1992).</p>     <p>Um dos elementos que evidencia claramente as raz&otilde;es dessa aus&ecirc;ncia de uma obje&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s NOC ou &agrave; pr&oacute;pria MBE &eacute; o que diz respeito ao facto de existir uma crescente familiariza&ccedil;&atilde;o com as metodologias desta abordagem e um refor&ccedil;o das compet&ecirc;ncias t&eacute;cnicas que permitem aferir a qualidade cient&iacute;fica dos instrumentos codificados.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><sup>[6]</sup></a> Com efeito, esta aproxima&ccedil;&atilde;o e incorpora&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica aos crit&eacute;rios da MBE acabam por produzir reconfigura&ccedil;&otilde;es epistemol&oacute;gicas, mas tamb&eacute;m reconfigura&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias que s&atilde;o analiticamente interessantes, sendo que as mesmas s&atilde;o especialmente mais vis&iacute;veis junto dos internos<a href="#_ftn7" name="_ftnref7" title=""><sup>[7]</sup></a>. Assim, e mesmo que ao n&iacute;vel das suas conce&ccedil;&otilde;es profissionais seja bastante not&oacute;rio o impacto estruturante do marcador ideol&oacute;gico do modelo biogr&aacute;fico, adquire tamb&eacute;m um crescente protagonismo a j&aacute; referida abordagem da MBE. A vincula&ccedil;&atilde;o aos conhecimentos espec&iacute;ficos que a MBE solicita passa, de resto, a constituir-se como um elemento diferenciador e distintivo face, nomeadamente, &agrave;s outras especialidades hospitalares, tal como se pode constatar nos seguintes excertos, retirados das sess&otilde;es realizadas com internos, neste caso de uma USF:</p>     <p>Nos hospitais &eacute; muito mais utilizado o conceito de opini&atilde;o de peritos do que evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica. Enquanto n&oacute;s na MGF temos muito mais a preocupa&ccedil;&atilde;o das revis&otilde;es baseadas na evid&ecirc;ncia, na medicina hospitalar n&atilde;o, a maior parte dos nossos colegas internos hospitalares n&atilde;o t&ecirc;m essa preocupa&ccedil;&atilde;o. H&aacute; opini&atilde;o de peritos, este colega que faz assim num determinado s&iacute;tio…, mas a revis&atilde;o depois de um… v&aacute;rios artigos, &eacute; muito mais rara. (…) As normas para a reumatologia, quando houve uma discuss&atilde;o clinica, e n&oacute;s os internos que l&aacute; estavam de MGF, eram os &uacute;nicos que tinham uma no&ccedil;&atilde;o do que eram as NOC em termos de n&uacute;mero de densitometrias, de quantos em quantos anos, a que &eacute; que se referiam as normas. A &uacute;nica que as preocupava naquela altura era ter havido uma NOC que se referia &agrave; limita&ccedil;&atilde;o de utiliza&ccedil;&atilde;o dos biol&oacute;gicos. Que era aquela que lhes sa&iacute;a do bolso, de resto n&atilde;o faziam a mais pequena ideia em termos de refer&ecirc;ncias.</p>     <p>Os internos da nossa idade no mesmo ano de internato que n&oacute;s na esmagadora maioria das especialidades n&atilde;o fazem ideia do que &eacute; uma norma, quer dizer uma NOC s&atilde;o capazes de ter ouvido falar mas n&atilde;o fazem ideia do que &eacute; uma revis&atilde;o de medicina baseada na evid&ecirc;ncia… continuam a fazer uma medicina baseada na pr&aacute;tica, na imita&ccedil;&atilde;o e na experi&ecirc;ncia do dia-a-dia da equipa, portanto no consenso de peritos! [MI5]</p>     <p>Resulta destes excertos a constata&ccedil;&atilde;o de que embora as ideologias profissionais (Chauvenet, 1973) dos internos estejam enquadradas e alinhadas com os fundamentos da especialidade, tal n&atilde;o invalida que se fa&ccedil;a notar o car&aacute;cter din&acirc;mico das mesmas. Tal significa que se, por um lado, &eacute; expect&aacute;vel que a sua afirma&ccedil;&atilde;o seja moldada e mediada por estrat&eacute;gias discursivas de distin&ccedil;&atilde;o e pela produ&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica de processos de desqualifica&ccedil;&atilde;o das outas especialidades (Carapinheiro, 1991), por outro, verifica-se um investimento ideol&oacute;gico numa dimens&atilde;o cient&iacute;fica que estaria, &agrave; partida, nos ant&iacute;podas dos fundamentos desta especialidade, dado que remete para uma base mais biom&eacute;dica. &Eacute; um facto que a enfatiza&ccedil;&atilde;o do discurso humanista e da orienta&ccedil;&atilde;o holista, que s&atilde;o os pilares que conferem especificidade ideol&oacute;gica a esta especialidade, permanecem como o principal marcador das conce&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias, mas passam agora a mobilizar outros fundamentos que acentuam o refor&ccedil;o do seu estatuto e autoridade profissional, dado que a MBE conota a medicina a um perfil de maior cientificidade.</p>     <p>Uma outra dimens&atilde;o relevante prende-se com o modo como estes processos de dissemina&ccedil;&atilde;o de instrumentos de maior padroniza&ccedil;&atilde;o das pr&aacute;ticas cl&iacute;nicas acabam por desencadear din&acirc;micas adaptativas que combinam de forma comp&oacute;sita diferentes crit&eacute;rios e fontes de conhecimento (formal e informal). A reflexividade profissional que se gera traduz-se, assim, em m&uacute;ltiplos processos de discuss&atilde;o, negocia&ccedil;&atilde;o e internaliza&ccedil;&atilde;o de consensos que se v&atilde;o construindo localmente em virtude das situa&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas, potenciando, deste modo, o desenvolvimento de formas coletivas de conhecimento t&aacute;cito (Gabbay, May, 2004; Greenhalgh et al.,<i> </i>2008).</p>     <p>No fundo, o modo como os profissionais relacionam a evid&ecirc;ncia dispon&iacute;vel com as suas pr&aacute;ticas de trabalho, e tamb&eacute;m o modo como ativamente interpretam e reconstroem a sua utilidade e validade local, foram aspetos particularmente not&oacute;rios no contexto da USF, dado que as pr&aacute;ticas de discuss&atilde;o e as iniciativas desenvolvidas por estes profissionais (por exemplo, jornadas mensais com dura&ccedil;&atilde;o de um dia e dedicadas a temas variados que cobrem a realidade da MGF e dos CSP) refletem uma promo&ccedil;&atilde;o ativa de um clima de discuss&atilde;o e de pr&aacute;ticas locais de reflexividade profissional interpares (Fitzgerald, Dopson, 2005).</p>     <p>Nessa medida, os processos de incorpora&ccedil;&atilde;o da evid&ecirc;ncia formal nas pr&aacute;ticas profissionais acabam por n&atilde;o conhecer uma trajet&oacute;ria unidirecional e n&atilde;o raras vezes convocam outros tipos de conhecimentos e de evid&ecirc;ncia mais pr&oacute;ximos dos fundamentos epistemol&oacute;gicos e normativos da especialidade, podendo, portanto, ser mais valorizados na resolu&ccedil;&atilde;o concreta de problemas pr&aacute;ticos com que o grupo se depara. A mobiliza&ccedil;&atilde;o de conhecimentos formais cientificamente ancorados na MBE, assim como a valoriza&ccedil;&atilde;o dos fundamentos epistemol&oacute;gicos do <i>modelo cl&iacute;nico centrado no doente</i>, bem como o pr&oacute;prio patrim&oacute;nio de experi&ecirc;ncia cl&iacute;nica acumulada, s&atilde;o, assim, componentes que se articulam e que v&atilde;o sendo contextualmente validados e integrados. O excerto seguinte &eacute;, justamente, ilustrativo das din&acirc;micas subjacentes a estas l&oacute;gicas de reflexividade profissional, embora baseadas na racionaliza&ccedil;&atilde;o discursiva dos pr&oacute;prios profissionais:</p>     <p>O que &eacute; que tem a nossa USF? Para mim &eacute; ter espa&ccedil;o para discuss&atilde;o de tudo o resto, que &eacute; o tal 70%. (…). N&oacute;s continuamos a trabalhar a comunica&ccedil;&atilde;o, a afinar as consultas, educa&ccedil;&atilde;o para sa&uacute;de, trabalhamos as outras partes tamb&eacute;m, n&atilde;o nos deixamos invadir pela normaliza&ccedil;&atilde;o. Sentimos a necessidade de trabalhar as outras partes, onde se baseia a ci&ecirc;ncia biom&eacute;dica pura que as normas limitam-se a isso, arrumar o biom&eacute;dico puro que j&aacute; foi bem estudado e para n&oacute;s termos espa&ccedil;o para o resto que &eacute; muito mais complexo, a comunica&ccedil;&atilde;o, a rela&ccedil;&atilde;o… [MO8]</p>     <p>Estas normas estimulam o racioc&iacute;nio cl&iacute;nico, porque eu ao passar um determinado exame, uma prescri&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica ou ao recusar, eu tenho de pensar porque &eacute; que o fa&ccedil;o ou porque &eacute; que recuso e justificar. Estas normas fizeram-nos raciocinar em conjunto quando apareceram e tivemos de comentar e depois no nosso dia-a-dia sempre que achamos que n&atilde;o se aplicam as normas temos de pensar porque &eacute; que n&atilde;o se aplicam. [MO4]</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Eu acho que quase todas, se fores olhar bem, quase todas as normas trazem mais-valias &agrave; nossa pr&aacute;tica. [MO6]</p>     <p>Pelo que discutimos e n&atilde;o pela norma. [MO7]</p>     <p>A ideia fundamental que daqui se pode destacar &eacute;, ent&atilde;o, a de que a utiliza&ccedil;&atilde;o efetiva do conhecimento formal expl&iacute;cito e codificado &eacute; relativamente limitado, dado que o esfor&ccedil;o reflexivo mais expl&iacute;cito de compara&ccedil;&atilde;o, avalia&ccedil;&atilde;o e an&aacute;lise formal da evid&ecirc;ncia, n&atilde;o esvazia as dimens&otilde;es mais informais e impl&iacute;citas. As discuss&otilde;es a que o excerto faz refer&ecirc;ncia constituem-se, assim, como momentos em que a evid&ecirc;ncia &eacute; convertida em conhecimento localmente consensualizado atrav&eacute;s da avalia&ccedil;&atilde;o da sua razoabilidade quando confrontado com as preocupa&ccedil;&otilde;es, experi&ecirc;ncias e conce&ccedil;&otilde;es inscritas nas pr&aacute;ticas cl&iacute;nicas e nas rotinas dos seus contextos de trabalho.</p>     <p>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS</p>     <p>A valoriza&ccedil;&atilde;o da autonomia e do poder discricion&aacute;rio enquanto elementos constitutivos do trabalho profissional da medicina (Freidson, 1970), e que justificam, assim, o car&aacute;cter distintivo da profiss&atilde;o no modo como, para lidar com a indetermina&ccedil;&atilde;o e a complexidade, &eacute; capaz de desenvolver um racioc&iacute;nio de adapta&ccedil;&atilde;o &agrave; singularidade (Antunes, 2012; Montgomery, 2006), explicam em grande medida os resultados relativamente &ldquo;desapontantes&rdquo; que o processo de implementa&ccedil;&atilde;o e dissemina&ccedil;&atilde;o das NOC tem genericamente conhecido ao n&iacute;vel da sua baixa ades&atilde;o nas pr&aacute;ticas cl&iacute;nicas concretas dos profissionais (Timmermans, Mauck, 2005).</p>     <p>Tende, assim, a verificar-se que n&atilde;o s&oacute; as NOC s&atilde;o frequentemente &ldquo;ignoradas&rdquo;, parcialmente utilizadas ou estrategicamente mobilizadas para outro tipo de finalidades (Germov, 2005; Castel, 2009), tal como tamb&eacute;m &eacute; frequente que ao n&iacute;vel da sua utiliza&ccedil;&atilde;o, estas tendam a ser objeto de transforma&ccedil;&otilde;es e adapta&ccedil;&otilde;es locais. Tal significa que o conhecimento codificado, mesmo com a atual resson&acirc;ncia persuasiva dos novos ambientes regulat&oacute;rios, tem um papel mais circunscrito do que se poderia assumir, uma vez que as NOC tendem a ser concebidas e mobilizadas apenas como uma das componentes dos processos de julgamento e decis&atilde;o m&eacute;dica.</p>     <p>De facto, as din&acirc;micas espec&iacute;ficas das suas adapta&ccedil;&otilde;es locais (Berg, 1997; Fitzgerald, Dopson, 2005; Faria, 2001; Moreira, 2005) e a compreens&atilde;o das modalidades de mobiliza&ccedil;&atilde;o reflexiva dos diferentes tipos de conhecimento no contexto pr&aacute;tico do trabalho m&eacute;dico, constituem, nesta investiga&ccedil;&atilde;o, uma orienta&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o s&oacute; permite evitar generaliza&ccedil;&otilde;es interpretativas sobre a natureza pretensamente monol&iacute;tica do conhecimento m&eacute;dico, mas faz, acima de tudo, salientar o argumento segundo o qual os m&eacute;dicos, no contexto das suas decis&otilde;es e julgamentos cl&iacute;nicos, mobilizam diferentes racionalidades e combinam interativamente processos formais e informais (Atkinson, 1995; Berg, 1992; Malterud, 1995, 2001; Montgomery, 2006; Henry, 2006). Daqui resulta, portanto, a ideia de que se procedem a formas distintas e diferenciadas de rece&ccedil;&atilde;o, acolhimento, incorpora&ccedil;&atilde;o, adapta&ccedil;&atilde;o ou recusa dos dispositivos e ferramentas formais de padroniza&ccedil;&atilde;o e explicita&ccedil;&atilde;o das decis&otilde;es m&eacute;dicas nas pr&aacute;ticas profissionais concretas, o que &eacute; o mesmo que dizer que, em bom rigor, a padroniza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pressup&otilde;e necessariamente o esvaziamento da discricionariedade e da autonomia profissional.</p>     <p>Nesta ace&ccedil;&atilde;o, a permeabilidade &agrave; evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica acaba por ser particularmente pautada e mediada por preocupa&ccedil;&otilde;es acerca do seu valor pr&aacute;tico e da sua adequa&ccedil;&atilde;o &agrave; complexidade e exig&ecirc;ncias dos problemas concretos, pelo que se pode considerar que o conhecimento dos profissionais acaba por estar mais integrado nos contextos onde o seu trabalho &eacute; desenvolvido do que propriamente dependente, em sentido estrito, da evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica de tipo formal e codificada (Serra, 2007). Esta natureza pr&aacute;tica do conhecimento profissional funda-se em formas de reflexividade que exigem opera&ccedil;&otilde;es de tradu&ccedil;&atilde;o das diferentes fontes de conhecimento e mostra, portanto, que as NOC se tendem a revelar instrumentos intrinsecamente limitados para capturar a indetermina&ccedil;&atilde;o do conhecimento m&eacute;dico. E torna tamb&eacute;m n&iacute;tido que o essencial de muitas das principais resist&ecirc;ncias &agrave; ades&atilde;o &agrave;s NOC &eacute; consistente com a conce&ccedil;&atilde;o do cl&iacute;nico como profissional aut&oacute;nomo que procura preservar a sua jurisdi&ccedil;&atilde;o profissional enquanto o principal reduto das decis&otilde;es individuais. &Eacute;, de resto, por esta raz&atilde;o que se tende a verificar que os profissionais lidam com as normas de orienta&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica mais como op&ccedil;&otilde;es do que como verdadeiras normas (Timmermans, Mauck, 2005).</p>     <p>No caso da evid&ecirc;ncia emp&iacute;rica da presente investiga&ccedil;&atilde;o a converg&ecirc;ncia com estes aspetos &eacute;, com efeito, bastante not&oacute;ria, embora se possam sinalizar algumas diferencia&ccedil;&otilde;es relacionadas ora com a diversidade dos contextos organizacionais (UCSP/USF), ora com o estatuto dos pr&oacute;prios m&eacute;dicos a&iacute; integrados (m&eacute;dicos orientadores/internos).</p>     <p>Assim, e sistematizando v&aacute;rias observa&ccedil;&otilde;es que foram sendo apresentadas no &acirc;mbito da discuss&atilde;o sobre a integra&ccedil;&atilde;o das NOC na realidade profissional dos m&eacute;dicos de MGF, &eacute; relevante destacar, no primeiro caso, a ideia de que em qualquer um dos contextos h&aacute; um entendimento amplamente partilhado quanto &agrave; utilidade das NOC (enquanto mero instrumento de orienta&ccedil;&atilde;o); quanto &agrave; import&acirc;ncia da salvaguarda da justifica&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica quando se equaciona a necessidade do seu n&atilde;o cumprimento; quanto &agrave; import&acirc;ncia do julgamento profissional (de resto, o aspeto mais inequivocamente un&acirc;nime); e quanto &agrave; assun&ccedil;&atilde;o da razoabilidade das NOC se poderem instrumentalmente compatibilizar com a l&oacute;gica do julgamento cl&iacute;nico. O aspeto que, contudo, s&oacute; adquiriu visibilidade no contexto da USF &eacute; o que diz respeito &agrave; centralidade das pr&aacute;ticas locais de reflexividade profissional interpares, na medida em que para al&eacute;m do aspeto mais &ldquo;rotineiro&rdquo; da apresenta&ccedil;&atilde;o e discuss&atilde;o das NOC, as atividades de discuss&atilde;o, an&aacute;lise e consensualiza&ccedil;&atilde;o das conclus&otilde;es em confronto com as caracter&iacute;sticas da atividade assistencial da unidade e com a pr&aacute;tica cl&iacute;nica dos profissionais foram aspetos ativamente promovidos pelos participantes (orientadores e internos)<a href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><sup>[8]</sup></a> da USF.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No caso da segunda diferencia&ccedil;&atilde;o sinalizada, importa notar que para al&eacute;m da expressiva valoriza&ccedil;&atilde;o do valor do racioc&iacute;nio cl&iacute;nico (fazendo, ali&aacute;s, eco dos pressupostos normativos do pr&oacute;prio profissionalismo desta especialidade), h&aacute; dois aspetos que foram exclusivamente patentes na realidade dos internos. Por um lado, a ideia de que as NOC passam pragmaticamente a constituir-se como um elemento facilitador da sua forma&ccedil;&atilde;o, designadamente para a prepara&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento dos trabalhos de investiga&ccedil;&atilde;o exigidos no decurso do pr&oacute;prio internato desta especialidade. Por outro, a constata&ccedil;&atilde;o - extens&iacute;vel tanto aos internos da UCSP como da USF - de que a familiariza&ccedil;&atilde;o com as NOC e o dom&iacute;nio das compet&ecirc;ncias t&eacute;cnicas que lhes permite aferir e validar a consist&ecirc;ncia cient&iacute;fica das mesmas, os colocam num estatuto de maior idoneidade cient&iacute;fica face aos internos das outras especialidades, designadamente as hospitalares. Ou seja, a vincula&ccedil;&atilde;o aos conhecimentos espec&iacute;ficos que a MBE solicita refor&ccedil;a o perfil cient&iacute;fico da MGF e, por consequ&ecirc;ncia, concorre para a pr&oacute;pria afirma&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria de uma especialidade que foi historicamente subvalorizada nas l&oacute;gicas da divis&atilde;o social do trabalho m&eacute;dico.</p>     <p>Por fim, a an&aacute;lise que aqui foi desenvolvida &eacute; tamb&eacute;m convergente com v&aacute;rios trabalhos de investiga&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica que exploram o papel do julgamento profissional no contexto de diferentes facetas das pr&aacute;ticas cl&iacute;nicas (Atkinson, 1995; Fitzgerald, Dopson, 2005; Greenhalgh et al.,<i> </i>2008; Nettleton et al.,<i> </i>2008; Serra, 2007), na medida em que estes tendem a salientar que o conhecimento expl&iacute;cito e t&aacute;cito n&atilde;o s&atilde;o, de facto, categorias for&ccedil;osamente separadas e que a dimens&atilde;o t&aacute;cita est&aacute; sempre presente enquanto requisito indispens&aacute;vel para que o conhecimento expl&iacute;cito seja objeto de mobiliza&ccedil;&atilde;o e de transa&ccedil;&atilde;o com as situa&ccedil;&otilde;es particulares (Schon, 1983; Caria, 2005). &Eacute;, de resto, por esse motivo que os processos de incorpora&ccedil;&atilde;o da evid&ecirc;ncia formal nas pr&aacute;ticas profissionais se revelam, afinal, e n&atilde;o raras vezes, bastante err&aacute;ticos, sujeitos a m&uacute;ltiplas dire&ccedil;&otilde;es, velocidades e a formas de coexist&ecirc;ncia nem sempre harmoniosas com outros tipos de conhecimentos e de evid&ecirc;ncia que podem, justamente por isso, ser mais valorizados na resolu&ccedil;&atilde;o concreta de problemas pr&aacute;ticos, n&atilde;o obstante at&eacute; se poder reconhecer a robustez cient&iacute;fica dos pr&oacute;prios padr&otilde;es.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></p>     <!-- ref --><p>ANTUNES, J. L. (2012), <i>A Nova Medicina, </i>Lisboa, Funda&ccedil;&atilde;o Francisco Manuel dos Santos.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=102944&pid=S0003-2573201800030000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>ARMSTRONG, D. (1979), &ldquo;The emancipation of biographical medicine&rdquo;. <i>Social Science &amp; Medicine, </i>13A, pp. 1-8.</p>     <!-- ref --><p>ATKINSON, P. (1995), <i>Medical Talk and Medical Work, </i>Londres, Sage Publications.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=102947&pid=S0003-2573201800030000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>BARBOUR, R. (2010), &ldquo;Focus groups&rdquo;. <i>In</i> I. Bourgeault, R. Dingwall, R. de Vries (eds.), <i>The Sage Handbook of Qualitative Methods in Health Research, </i>London, Sage, pp. 327-352.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>BERG, M.<b> </b>(1992), &ldquo;The construction of medical disposals. Medical sociology and medical problem solving in clinical practice&rdquo;. <i>Sociology</i><i> of Health &amp; Illness, </i>14 (2), pp. 151-180.</p>     <p>BERG, M. (1995), &ldquo;Turning a practice into a science: Reconceptualizing postwar medical practice&rdquo;. <i>Social Science &amp; Medicine, </i>25, pp. 437-476.</p>     <!-- ref --><p>BERG, M. (1997), <i>Rationalizing</i><i> Medical Work. Decision-Support Techniques and Medical Practices, </i>Cambridge, MIT Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=102952&pid=S0003-2573201800030000700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BLOOR, M. et al. (2001), <i>Focus Groups in Social Research, </i>Londres, Sage.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=102954&pid=S0003-2573201800030000700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BOWKER, G., STAR, S. L. (1999), <i>Sorting</i><i> Things Out. Classification and its Consequences, </i>Cambridge, MIT Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=102956&pid=S0003-2573201800030000700009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BRUNSSON, N., JACOBSSON, B. et al. (2000), <i>A World of Standards, </i>Oxford, Oxford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=102958&pid=S0003-2573201800030000700010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>BURGERS, J. et al. (2003), &ldquo;Characteristics of effective clinical guidelines for general practice&rdquo;. <i>British Journal of General Practice, </i>53, pp. 15-19.</p>     <p>CABANA, M. et al.<i> </i>(1999), &ldquo;Why don'tphysicians follow clinical practice guidelines? A framework for improvement&rdquo;. <i>JAMA, </i>282 (15), pp. 1458-1465.</p>     <p>CARAPINHEIRO, G. (1991), &ldquo;M&eacute;dicos e representa&ccedil;&otilde;es da medicina: humanismo e tecnicismo nas pr&aacute;ticas m&eacute;dicas hospitalares&rdquo;. <i>Sociologia Problemas e Pr&aacute;ticas</i>,<i> </i>9, pp. 27-41.</p>     <p>CARAPINHEIRO, G., SERRA, H., CORREIA, T. (2013), &ldquo;Estado, medicina e pol&iacute;ticas em Portugal: fluxos e refluxos de poder&rdquo;. <i>In</i> F. Alves (coord.), <i>Sa&uacute;de e Sociedade: uma Vis&atilde;o Sociol&oacute;gica</i>, Coimbra, Afrontamento, pp. 49-74.</p>     <p>CARIA, T. (2005), &ldquo;Uso do conhecimento, incerteza e interac&ccedil;&atilde;o no trabalho cl&iacute;nico dos veterin&aacute;rios&rdquo;. <i>In</i> T. Caria (org.), <i>Saber Profissional, </i>Coimbra, Almedina, pp. 197-231.</p>     <p>CARIA, T. (2008), &ldquo;O uso do conceito de cultura na investiga&ccedil;&atilde;o sobre profiss&otilde;es&rdquo;. <i>An&aacute;lise Social,</i> XLIII (189), pp. 749-773.</p>     <p>CASTEL, P. (2009), &ldquo;What'sbehind a guideline? Authority, competition and collaboration in the French oncology sector&rdquo;. <i>Social Studies of Science, </i>39 (5), pp. 743-764.</p>     <p>CHAMBERLAIN, J. (2009), &ldquo;The changing medical regulatory context: focusing on doctor'seducational practices&rdquo;. <i>Medical Sociology Online</i>, 4 (2), pp. 26-34.</p>     <p>CHARLES-JONES, H., LATIMER, J., MAY, C. (2003), &ldquo;Transforming general practice: the redistribution of medical work in primary care&rdquo;. <i>Sociology</i><i> of Health &amp; Illness, </i>25 (1), pp. 71-92.</p>     <p>CHAUVENET, A. (1973), &ldquo;Id&eacute;ologieset <i>status</i> professionnels chez les m&eacute;decinshospitaliers&rdquo;. <i>Revue</i><i> Fran&ccedil;aise de Sociologie, </i>XIV, pp. 61-76.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>CHECKLAND, K. (2004), &ldquo;National Service Frameworks and UK general practitioners: street-level bureaucrats at work?&rdquo;. <i>Sociology</i><i> of Health &amp; Illness, </i>26 (7), pp. 951-975.</p>     <p>DOPSON, S. et al<i>. </i>(2003), &ldquo;Evidence based medicine and the implementation gap&rdquo;. <i>Health: An Interdisciplinary Journal for the Social Study of Health, Illness and Medicine, </i>7, pp. 311-330.</p>     <p>EBELL, M. et al.<i> </i>(2004), &ldquo;Strength of recommendation taxonomy (SORT): a patient-centered approach to grading evidence in the medical literature&rdquo;. <i>American Family Physician</i>, 69 (3), pp. 548-556.</p>     <p>EDDY, D. (1988), &ldquo;Variations in physician practice: the role of uncertainty&rdquo;. <i>In</i> J. Dowie, A. Elstein (eds.), <i>Professional Judgement. A Reader in Clinical Decision Making, </i>Cambridge, Cambridge University Press, pp. 45-59.</p>     <p>FARIA, M. I. (2001), &ldquo;Ci&ecirc;ncia com rede: protocolos e novas tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o na investiga&ccedil;&atilde;o biom&eacute;dica&rdquo;. <i>In</i> J. A. Nunes, M. E. Gon&ccedil;alves (orgs.), <i>Enteados de Galileu? A Semiperiferia no Sistema Mundial da Ci&ecirc;ncia</i>, Porto, Afrontamento, pp. 77-105.</p>     <p>FERLIE, E. (2005), &ldquo;Conclusion: from evidence to actionable knowledge?&rdquo;. <i>In</i> S. Dopson, L. Fitzgerald (eds.), <i>Knowledge</i><i> to Action? Evidence-Based Health Care in Context, </i>Oxford, Oxford University Press, pp. 182-197.</p>     <p>FITZGERALD, L., DOPSON, S. (2005), &ldquo;Knowledge, credible evidence, and utilization&rdquo;. <i>In</i> S. Dopson, L. Fitzgerald (eds.), <i>Knowledge</i><i> to Action? Evidence-Based Health Care in Context, </i>Oxford, Oxford University Press, pp. 132-154.</p>     <p>FREEMAN, A. C., SWEENEY, K. (2001), &ldquo;Why general practitioners do not implement evidence: qualitative study&rdquo;. <i>BMJ, </i>323, pp. 1100-1102.</p>     <!-- ref --><p>FREIDSON, E. (1970), <i>Profession</i><i> of Medicine. A Study of the Sociology of Applied Knowledge, </i>Chicago, The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=102978&pid=S0003-2573201800030000700029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>GABBAY, J., LE MAY, A. (2004), &ldquo;Evidence based guidelines or collectively constructed &ldquo;mindlines?&rdquo;. Ethnographic study of knowledge management in primary care&rdquo;. <i>British Medical Journal</i>, 329 (7473), 1013. DOI: <a href="https://doi.org/10.1136/bmj.329.7473.1013" target="_blank">https://doi.org/10.1136/bmj.329.7473.1013</a></p>     <p>GERMOV, J. (2005), &ldquo;Managerialism in the Australian public health sector: towards the hyper-rationalisation of professional bureaucracies&rdquo;. <i>Sociology of Health &amp; Illness, </i>27(6), pp. 738-758.</p>     <p>GORDON, D. (1988), &ldquo;Clinical science and clinical expertise: changing boundaries between art and science in medicine&rdquo;. <i>In</i> M. Lock, D. Gordon (eds.), <i>Biomedicine</i><i> Examined</i>, Kluwer Academic Publishers, pp. 257-295.</p>     <p>GREENHALGH, J. <i>et</i><i> al. </i>(2008), &ldquo;Tacit and encoded knowledge in the use of standardized outcome measures in multidisciplinary team decision making: A case study of in-patient neurorehabilitation&rdquo;. <i>Social Science &amp; Medicine, </i>67, pp. 183-194.</p>     <!-- ref --><p>GREENHALGH, T. (2006), <i>How</i><i> to Read a Paper. The Basics of Evidence-Based Medicine, </i>Blackwell Publishing/BMJ Books (3<sup>rd</sup> edition).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=102984&pid=S0003-2573201800030000700034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>GRILLI, R. et al.<i> </i>(2000), &ldquo;Practice guidelines developed by specialty societies: the need for a critical appraisal&rdquo;. <i>The Lancet, </i>355, pp. 103-105.</p>     <p>GROL, R. et al.<i> </i>(1998), &ldquo;Attributes of clinical guidelines that influence use of guidelines in general practice: observational study&rdquo;. <i>BMJ, </i>317, pp. 858-861.</p>     <p>HENRY, S. (2006), &ldquo;Recognizing tacit knowledge in medical epistemology&rdquo;. <i>Theoretical</i><i> Medicine and Bioethics</i>, 27, pp. 187-213.</p>     <p>HUDDLE, T. (2007), &ldquo;The limits of objective assessment of medical practice&rdquo;. <i>Theoretical</i><i> Medicine and Bioethics</i>, 28 (6), pp. 487-496.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>JORD&Atilde;O, J. G. (1995), <i>A Medicina Geral e Familiar. Caracteriza&ccedil;&atilde;o da Pr&aacute;tica e sua Influ&ecirc;ncia no Ensino Pr&eacute;-Graduado. </i>Tese de Doutoramento, Lisboa, Faculdade de Medicina, Universidade de Lisboa.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=102990&pid=S0003-2573201800030000700039&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>LOHR, K., ELEAZER, K., MAUSKOPF, J. (1998), &ldquo;Health policy issues and applications for evidence-based medicine and clinical practice guidelines&rdquo;. <i>Health Policy, </i>46, pp. 1-19.</p>     <p>LUGTENBERG, M. et al<i>. </i>(2009), &ldquo;Why don'tphysicians adhere to guideline recommendations in practice? An analysis of barriers among Dutch general practitioners&rdquo;. <i>Implementation</i><i> Science</i>, 4, p. 54.</p>     <p>MALTERUD, K. (1995), &ldquo;The legitimacy of clinical knowledge: towards a medical epistemology embracing the art of medicine&rdquo;. <i>Theoretical</i><i> Medicine</i>, 16, pp. 183-198.</p>     <p>MALTERUD, K. (2001), &ldquo;The art and science of clinical knowledge: evidence beyond measures and numbers&rdquo;. <i>The Lancet</i>, 358 (9279), pp. 397-400.</p>     <!-- ref --><p>MONTGOMERY, K. (2006), <i>How</i><i> Doctors Think. Clinical Judgment and the Practice of Medicine, </i>Oxford, Oxford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=102996&pid=S0003-2573201800030000700044&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>MOREIRA, T. (2005), &ldquo;Diversity in clinical guidelines: the role of repertoires of evaluation&rdquo;. <i>Social Science &amp; Medicine, </i>60, pp. 1975-1985.</p>     <!-- ref --><p>MOREIRA, T. (2012), <i>The Transformation of Contemporary Health Care: The Market, the Laboratory, and the Forum</i>, Londres, Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=102999&pid=S0003-2573201800030000700046&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>NETTLETON, S., BURROWS, R., WATT, I. (2008), &ldquo;Regulating medical bodies? The consequences of the ‘modernization' of the NHS and the disembodiment of clinical knowledge&rdquo;. <i>Sociology</i><i> of Health &amp; Illness, </i>30 (3), pp. 333-348.</p>     <p>PAZART, L. H., MASSOL, J., MATILLON, Y. 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A Basic Science for Clinical Medicine, </i>Boston, Little, Brown and Company.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=103011&pid=S0003-2573201800030000700053&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SCHON, D. (1983), <i>The Reflective Practitioner. How Professionals Think in Action, </i>Aldershot, Ashgate.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=103013&pid=S0003-2573201800030000700054&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>SERRA, H. (2007), &ldquo;Da constru&ccedil;&atilde;o e reprodu&ccedil;&atilde;o do conhecimento e discurso m&eacute;dicos. 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<body><![CDATA[<p>Aceite para publica&ccedil;&atilde;o a 29-09-2017.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title=""><sup>[1]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &Eacute; de enfatizar que embora o enquadramento te&oacute;rico que suporta o desenvolvimento anal&iacute;tico desta investiga&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica remeta, efetivamente, para uma problem&aacute;tica que se constr&oacute;i a partir das j&aacute; referidas articula&ccedil;&otilde;es disciplinares, o enfoque espec&iacute;fico que se mobiliza para esta discuss&atilde;o em particular, acaba por se circunscrever &agrave;s dimens&otilde;es mais diretamente conectadas com os ESC e com a sociologia m&eacute;dica, dada a especificidade dos objetivos j&aacute; referidos. Tal n&atilde;o pressup&otilde;e, todavia, desconsiderar a constata&ccedil;&atilde;o de que h&aacute; um enquadramento e um contexto geral de acentuada mudan&ccedil;a com efeitos que n&atilde;o s&atilde;o seguramente in&oacute;cuos para o pr&oacute;prio profissionalismo m&eacute;dico. Ali&aacute;s, as transforma&ccedil;&otilde;es produzidas pelo novo ambiente regulat&oacute;rio apontam para formas de coloniza&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca entre o mundo da gest&atilde;o e o mundo profissional da medicina, o que faz denotar a exist&ecirc;ncia de rela&ccedil;&otilde;es mais complexas e comp&oacute;sitas quanto ao modo como se concretizam as formas de regula&ccedil;&atilde;o na sa&uacute;de e o modo como se operam apropria&ccedil;&otilde;es estrat&eacute;gicas na l&oacute;gica da pr&oacute;pria autorregula&ccedil;&atilde;o profissional. Essa abordagem mais integrada &eacute; desenvolvida na investiga&ccedil;&atilde;o que suporta esta discuss&atilde;o mais delimitada (Raposo, 2014), pelo que &eacute; aqui explicitamente assumido um enfoque que for&ccedil;a uma certa secundariza&ccedil;&atilde;o da an&aacute;lise relativa &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es e &agrave;s estrat&eacute;gias de reconfigura&ccedil;&atilde;o profissional desta especialidade m&eacute;dica.</p>     <p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2" title=""><sup>[2]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta pesquisa foi desenvolvida no &acirc;mbito de uma tese de Doutoramento em Sociologia (Raposo, 2014). Neste artigo apresenta-se apenas uma parte dos resultados emp&iacute;ricos decorrentes dessa investiga&ccedil;&atilde;o, especificamente, e como j&aacute; referido, os que se enquadram no &acirc;mbito da discuss&atilde;o anal&iacute;tica que aqui &eacute; proposta.</p>     <p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3" title=""><sup>[3]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Relativamente &agrave; discuss&atilde;o anal&iacute;tica que &eacute; empreendida neste artigo, a mesma circunscreve-se aos resultados emp&iacute;ricos decorrentes das sess&otilde;es de Grupos Focais. Os aspetos relacionados com a observa&ccedil;&atilde;o direta n&atilde;o s&atilde;o aqui especificamente mobilizados por remeterem para uma an&aacute;lise de outra natureza. Todavia, e de uma forma indireta, essa t&eacute;cnica constituiu-se como um importante complemento das sess&otilde;es de Grupos Focais, no sentido em que ao ter implicado a presen&ccedil;a prolongada e regular do investigador nos contextos sociais em estudo, bem como o contacto direto com os profissionais e com as din&acirc;micas e rotinas organizacionais, acabou n&atilde;o s&oacute; por permitir adequar melhor o conte&uacute;do dessas sess&otilde;es, mas tamb&eacute;m por viabilizar a pr&oacute;pria negocia&ccedil;&atilde;o dos aspetos pr&aacute;ticos da sua implementa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4" title=""><sup>[4]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O gui&atilde;o estruturou-se em torno de um roteiro de quatro dimens&otilde;es centrais - &ldquo;Implementa&ccedil;&atilde;o das NOC&rdquo;; &ldquo;Especificidades da especialidade m&eacute;dica&rdquo;; &ldquo;Pr&aacute;tica m&eacute;dica e racioc&iacute;nio cl&iacute;nico&rdquo;; &ldquo;Contexto organizacional&rdquo; (Raposo, 2014) - cada uma delas comportando desdobramentos por v&aacute;rias categorias mais espec&iacute;ficas. O prop&oacute;sito principal consistiu na explora&ccedil;&atilde;o dos entendimentos, das raz&otilde;es e das conce&ccedil;&otilde;es dos profissionais envolvidos relativamente &agrave;s dimens&otilde;es referidas. Esse gui&atilde;o funcionou, acima de tudo, como um guia que permitiu assegurar a exist&ecirc;ncia de uma linha condutora, mesmo quando as discuss&otilde;es seguiram rumos sequenciais distintos. A pr&oacute;pria forma de condu&ccedil;&atilde;o foi deliberadamente flex&iacute;vel, mas suficientemente ativa para assegurar que os t&oacute;picos principais eram cobertos, dando, contudo, margem para que outros aspetos com estes relacionados pudessem emergir e ser integrados no contexto das pr&oacute;prias sess&otilde;es. J&aacute; quanto &agrave; an&aacute;lise, embora o tratamento anal&iacute;tico da informa&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica n&atilde;o tenha colocado exig&ecirc;ncias quanto &agrave; necessidade de a suportar tecnicamente com ferramentas inform&aacute;ticas espec&iacute;ficas para esse efeito, procedi &agrave; an&aacute;lise tem&aacute;tica por codifica&ccedil;&atilde;o qualitativa tendo em conta as grandes dimens&otilde;es de an&aacute;lise e o seu respetivo desdobramento pelas categorias espec&iacute;ficas (Raposo, 2014).</p>     <p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5" title=""><sup>[5]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A larga maioria das reuni&otilde;es m&eacute;dicas a que assisti foram, de facto, subordinadas &agrave; apresenta&ccedil;&atilde;o e discuss&atilde;o das NOC que, nessa fase, ainda se encontravam numa etapa de discuss&atilde;o p&uacute;blica (mas de car&aacute;cter colegial). Tal foi, apesar de tudo, mais recorrente na UCSP e n&atilde;o tanto na USF, dado que neste &uacute;ltimo caso, a agenda das reuni&otilde;es era mais diversificada, privilegiando tamb&eacute;m quest&otilde;es de gest&atilde;o relacionadas com a contratualiza&ccedil;&atilde;o de indicadores (Raposo, 2014). No entanto, em ambos os casos essa apresenta&ccedil;&atilde;o foi sempre assegurada pelos internos que tinham neste tipo de tarefa uma componente importante das suas atividades de forma&ccedil;&atilde;o nas respetivas unidades de sa&uacute;de.</p>     <p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6" title=""><sup>[6]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &Eacute; relevante fazer notar que a MGF, atrav&eacute;s da sua associa&ccedil;&atilde;o profissional (APMGF), desenvolveu no decurso da &uacute;ltima d&eacute;cada v&aacute;rias iniciativas de forma&ccedil;&atilde;o p&oacute;s-graduada avan&ccedil;ada dirigidas aos seus associados, designadamente atrav&eacute;s da promo&ccedil;&atilde;o (em conjunto com a Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evid&ecirc;ncia, CEMBE) de cursos sobre MBE que visavam fornecer aos profissionais &ldquo;no terreno&rdquo;, instrumentos e condi&ccedil;&otilde;es para melhorarem o seu desempenho (especialmente os m&eacute;dicos inseridos em USF) (Raposo, 2014). </p>     <p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7" title=""><sup>[7]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A este prop&oacute;sito &eacute; de referir que os internos desempenham um papel importante no processo de apresenta&ccedil;&atilde;o e discuss&atilde;o do conte&uacute;do das NOC no contexto das unidades onde est&atilde;o inseridos. Cabe-lhes a eles, com o devido acompanhamento dos orientadores, assegurar as apresenta&ccedil;&otilde;es das NOC. Nessas sess&otilde;es tendem a desenvolver-se discuss&otilde;es intensas (principalmente quando as NOC colidem com a experi&ecirc;ncia cl&iacute;nica) e tecnicamente muito detalhadas ao n&iacute;vel da explora&ccedil;&atilde;o de eventuais lacunas do suporte cient&iacute;fico das mesmas. Embora n&atilde;o seja um fator com um peso explicativo determinante (porque os outros m&eacute;dicos n&atilde;o est&atilde;o alheados das compet&ecirc;ncias cient&iacute;ficas de base para a avalia&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica das NOC), n&atilde;o deixa de ser importante fazer notar a circunst&acirc;ncia de que tr&ecirc;s dos nove m&eacute;dicos orientadores da USF estudada fizeram, formalmente, um curso de forma&ccedil;&atilde;o em MBE, neste caso na Faculdade de Medicina de Lisboa (Raposo, 2014).</p>     <p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8" title=""><sup>[8]</sup></a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A atestar este relativo contraste est&aacute; a participa&ccedil;&atilde;o desigual dos profissionais nas pr&oacute;prias reuni&otilde;es m&eacute;dicas. Tanto em n&uacute;mero, quanto em envolvimento. No contexto da UCSP foi not&oacute;ria uma presen&ccedil;a mais reduzida dos profissionais e um envolvimento que praticamente n&atilde;o extravasava o &acirc;mbito das NOC, ao passo que na USF esse n&uacute;mero e participa&ccedil;&atilde;o foram mais expressivos. A esta circunst&acirc;ncia n&atilde;o ser&aacute; alheio o facto de haver uma enorme preocupa&ccedil;&atilde;o por parte dos profissionais com o desempenho da unidade, tendo em conta o v&iacute;nculo da mesma aos compromissos da contratualiza&ccedil;&atilde;o que abrangem mais espec&iacute;fica e consequentemente as USF (Teixeira, 2012; Raposo, 2014). </p>     ]]></body>
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