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<institution><![CDATA[,Universidade de Évora Departamento de Física ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENS&Otilde;ES</b></font></p>     <p><font size="4"><b>CASTRO, Jos&eacute; Esteban, FOWLER, Bridget, GOMES, Lu&iacute;s (eds.)</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Time, Science and the Critique of Technological Reason. Essays in Honour of Herm&iacute;nio Martins</b></font></p>     <p>Londres, Palgrave Macmillan, 2018, 390 pp.</p>     <p>ISBN 9783319715186</p>     <p><b>Jo&atilde;o Pr&iacute;ncipe*</b></p>     <p>*Departamento de F&iacute;sica, Universidade de &Eacute;vora, Col&eacute;gio Lu&iacute;s Ant&oacute;nio Verney, Rua Rom&atilde;o Ramalho, 59 - 7002-554, &Eacute;vora, Portugal. <a href="mailto:jpps@uevora.pt">jpps@uevora.pt</a></p> <hr/>     <p> </p>     <p>Passados tr&ecirc;s anos da morte de Herm&iacute;nio Martins (1934-2015), antigos colegas e distintos membros de Universidades do Reino Unido uniram-se para lhe prestar uma homenagem em nome da academia brit&acirc;nica, na forma de um livro com contribui&ccedil;&otilde;es de autores que dialogam com o seu pensamento, t&oacute;picos, ou que d&atilde;o testemunho do seu trabalho e papel no ensino superior e na investiga&ccedil;&atilde;o em ci&ecirc;ncias sociais naquele pa&iacute;s. </p>     <p>Nas duas &uacute;ltimas d&eacute;cadas de vida, Herm&iacute;nio Martins refletiu sistematicamente sobre a tecnoci&ecirc;ncia, culminando esse trabalho com a publica&ccedil;&atilde;o do seu livro <i>Experimentum Humanum: Civiliza&ccedil;&atilde;o Tecnol&oacute;gica e Condi&ccedil;&atilde;o Humana</i> (2011). Esta obra &eacute; uma contribui&ccedil;&atilde;o fundamental para uma sociologia filos&oacute;fica da tecnologia, na qual se analisa as consequ&ecirc;ncias, de transforma&ccedil;&atilde;o e de totaliza&ccedil;&atilde;o, para a humanidade do avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico acelerado num quadro dominado pela marketiza&ccedil;&atilde;o de tudo. De facto, o todo da sua obra, que abrange um leque amplo de problem&aacute;ticas que v&atilde;o da filosofia das ci&ecirc;ncias, passando pelas reflex&otilde;es sobre o tempo e a transforma&ccedil;&atilde;o social, at&eacute; ao estudo do per&iacute;odo do Estado Novo e da mudan&ccedil;a social e pol&iacute;tica do Portugal contempor&acirc;neo, comprova ter ele sido um praticante not&aacute;vel de uma sociologia filos&oacute;fica e historicamente reflexiva, a qual se foi fazendo para al&eacute;m das distin&ccedil;&otilde;es e espartilhos das &aacute;reas disciplinares institucionalmente can&oacute;nicas, inspirando-se frequentemente em pensadores fora de moda (no que seguiu a inspira&ccedil;&atilde;o de <i>ma&icirc;tres &agrave; penser</i> como Ant&oacute;nio S&eacute;rgio), desde que neles encontrasse reflex&otilde;es pertinentes para a compreens&atilde;o da nossa condi&ccedil;&atilde;o humana, indo al&eacute;m do <i>status quo</i> disciplinar que se recusava a enfrentar tais quest&otilde;es.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O livro que agora se apresenta agrupa um conjunto de textos os quais, por um lado, mostram o reconhecimento da import&acirc;ncia de Martins no quadro do pensamento sociol&oacute;gico anglo-sax&oacute;nico, e por outro permitem introduzir o leitor &agrave; vida e obra do homenageado. Entre os autores que se associaram neste <i>festschrift</i> contam-se os seguintes acad&eacute;micos: Jos&eacute; Esteban Castro, Professor Em&eacute;rito de Sociologia da Universidade de Newcastle e Investigador Principal do CONICET (Argentina); Bridget Fowler, Professora Em&eacute;rita da Universidade de Glasgow; Steve Fuller, detentor da C&aacute;tedra Auguste Comte da Universidade de Warwick, Fellow da Royal Society of Arts, da UK Academy of Social Sciences e da European Academy of Sciences and Arts; Mike Gane, Professor Em&eacute;rito de Sociologia da Universidade de Loughborough; Jos&eacute; Lu&iacute;s Garcia, Investigador Principal do ICS-UL; Lu&iacute;s Gomes, leitor na Universidade de Glasgow; Helena Mateus Jer&oacute;nimo, Professora no ISEG-UL; Richard Kilminster, Honorary Research Fellow em Sociologia da Universidade de Leeds; Peter McMylor, Professor de Sociologia na Universidade de Manchester; Stephen Mennell, Professor Em&eacute;rito de Sociologia da University College Dublin e membro da Royal Irish Academy e da Acadaemia Europaea; William Outhwaite, Professor Em&eacute;rito da Universidade de Newcastle e membro da Academy of Social Sciences; Roland Robertson, Distinguished Service Professor da Universidade de Pittsburgh; Leslie Sklair, Professor Em&eacute;rito de Sociologia e de Filosofia da LSE; Charles Turner, Professor Associado da Universidade de Warwick; Laurence Whitehead, Senior Research Fellow in Politics no Nuffield College, da Universidade de Oxford.</p>     <p>Este reconhecimento internacional &eacute; felizmente acompanhado por um razo&aacute;vel reconhecimento no seu pa&iacute;s de origem, o qual se manifestou em volumes coletivos quais <i>Raz&atilde;o</i><i>, Tempo e Tecnologia: Estudos em Homenagem a Herm&iacute;nio Martins</i> (Imprensa de Ci&ecirc;ncias Sociais, 2006), co-editado por Manuel Villaverde Cabral, Jos&eacute; Lu&iacute;s Garcia e Helena Mateus Jer&oacute;nimo, ou <i>&Eacute;vora Studies in the Philosophy and History of Science. In Memorian Herm&iacute;nio Martins </i>(Caleidosc&oacute;pio, 2015) editado por Jo&atilde;o Pr&iacute;ncipe, ou na publica&ccedil;&atilde;o da obra p&oacute;stuma <i>As Mudan&ccedil;as de Regime em Portugal no s&eacute;culo XX </i>(Imprensa de Ci&ecirc;ncias Sociais, 2018), organizada por Rui Gra&ccedil;a Feij&oacute;. </p>     <p>O livro inicia-se com uma ampla introdu&ccedil;&atilde;o da pena de Bridget Fowler, &agrave; qual se seguem uma entrevista a Herm&iacute;nio Martins, conduzida por Helena Mateus Jer&oacute;nimo, um tocante depoimento biogr&aacute;fico de sua esposa Margaret Martins, tr&ecirc;s depoimentos de colegas e alunos e uma s&eacute;rie de 12 estudos sobre t&oacute;picos centrais para os seus interesses intelectuais e c&iacute;vico-pol&iacute;ticos. Estes estudos foram agrupados em tr&ecirc;s r&uacute;bricas: 1.&ordf; Thomas Kuhn e a teoria das Revolu&ccedil;&otilde;es Cient&iacute;ficas, valorizando-se assim a contribui&ccedil;&atilde;o fundamental presente no artigo de 1972 &ldquo;The Kuhnian ‘Revolution' and its implications for Sociology&rdquo;, o primeiro ensaio em l&iacute;ngua inglesa escrito por um soci&oacute;logo sobre a obra de Kuhn; 2.&ordf; Patrimonialismo e desenvolvimento social em Portugal; 3.&ordf; Estruturas sociais e o <i>ethos</i> tecno-cient&iacute;fico: a abordagem feita a partir da teoria social. A maioria dos estudos (9 dos 12) inscrevem-se nesta &uacute;ltima r&uacute;brica.</p>     <p>A admira&ccedil;&atilde;o pelas qualidades de Herm&iacute;nio Martins &eacute; geral: Bridget Fowler designa-o como sendo &ldquo;a great mind&rdquo; sublinhando a sua perspic&aacute;cia anal&iacute;tica, a vastid&atilde;o das suas leituras e uma capacidade de mem&oacute;ria &iacute;mpares, bem como um not&aacute;vel sentido &eacute;tico e pol&iacute;tico. Na introdu&ccedil;&atilde;o, a autora, em cuja obra se destacam trabalhos sobre feminismo marxista, sociologia da cultura e sobre Pierre Bourdieu, fornece ao leitor uma vis&atilde;o de conjunto da obra de Herm&iacute;nio Martins.</p>     <p>&nbsp;A entrevista, datada de 2011, exibe as preocupa&ccedil;&otilde;es do homenageado, por exemplo a falta de interesse pela teoriza&ccedil;&atilde;o nas ci&ecirc;ncias sociais entre n&oacute;s ou os atuais mecanismos de domina&ccedil;&atilde;o na Academia.</p>     <p>Quanto aos estudos presentes no volume:</p>     <p>William Outhwaite d&aacute;-nos uma perspetiva atual sobre as quest&otilde;es levantadas no artigo de 1972 sobre Kuhn, nomeadamente sobre a discuss&atilde;o sobre os paradigmas nas ci&ecirc;ncias sociais e sobre a sociologia do conhecimento cient&iacute;fico (SSK).</p>     <p>Bridget Fowler, ao considerar o estatuto art&iacute;stico da fotografia no quadro dos seus interesses pelas mudan&ccedil;as culturais, usa como fontes te&oacute;ricas os trabalhos de Pierre Bourdieu e de Herm&iacute;nio Martins, considerando que a contribui&ccedil;&atilde;o deste &eacute; mais ajustada ao reconhecimento atual da fotografia como uma forma de arte maior.</p>     <p>Lu&iacute;s Gomes usa t&oacute;picos de hist&oacute;ria da literatura, estudando em detalhe a vida e obra de Vasco Mousinho de Quevedo (1570-1631), para iluminar o car&aacute;cter ideol&oacute;gico do Estado Novo atrav&eacute;s dos ju&iacute;zos sobre o car&aacute;cter patri&oacute;tico das obras liter&aacute;rias.</p>     <p>Jos&eacute; Lu&iacute;s Garcia descreve a trajet&oacute;ria intelectual do homenageado para depois analisar geneticamente o imperativo tecnol&oacute;gico atual, associado a uma vers&atilde;o do princ&iacute;pio da plenitude e concluindo pela desconex&atilde;o, em geral, entre o atual imperativo que promove o ativismo tecnol&oacute;gico e a considera&ccedil;&atilde;o racional dos fins humanos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Charles Turner considera os desenvolvimentos do questionamento colocado pelo artigo de Martins <i>Time and Theory in Sociology</i> (1974), no qual surgem dois conceitos chave, o de &ldquo;cesurismo&rdquo; e o de &ldquo;nacionalismo metodol&oacute;gico&rdquo;. Turner assinala que do ponto de vista macro-sociol&oacute;gico existe um renovar do interesse te&oacute;rico pela quest&atilde;o do tempo hist&oacute;rico-sociol&oacute;gico.</p>     <p>Steve Fuller retoma a tem&aacute;tica martiniana das consequ&ecirc;ncias do neodarwinismo, da biotecnologia e da eugenia marketizada, analisando os interesses pela eugenia e pelo trans-humanismo de alguns dos mais distintos pensadores e membros da Fabian Society e mostrando a deriva neo-liberal desta associa&ccedil;&atilde;o, a qual inicialmente desenvolveu um pensamento socialista associado &agrave; forma&ccedil;&atilde;o do Partido Trabalhista Brit&acirc;nico.</p>     <p>Peter McMylor estuda a obra de dois pensadores da tecnologia, Marshall McLuhan and R&eacute;gis Debray, sob a perspetiva de sociologia hist&oacute;rica reflexiva de &Aacute;rp&aacute;d Szakolczai, o qual se ocupou do estudo das condi&ccedil;&otilde;es sociais e pol&iacute;ticas que permitem avan&ccedil;os conceptuais revolucion&aacute;rios.</p>     <p>Richard Kilminster aborda novas perspetivas sobre Karl Marx, mostrando o processo de constru&ccedil;&atilde;o, feito a partir de sucessivas edi&ccedil;&otilde;es das obras de Marx (maioritariamente p&oacute;stumas), do estatuto cient&iacute;fico do pensamento marxista. Os textos anteriores a 1848 s&atilde;o considerados em detalhe, mostrando-se como muitos dos conceitos chave de Marx eram partilhados por contempor&acirc;neos (sobretudo franceses); o estudo termina com uma detalhada an&aacute;lise das <i>Teses sobre Feurbach</i>. </p>     <p>Stephen Mennell analisa as diferen&ccedil;as e mudan&ccedil;as de pron&uacute;ncia da l&iacute;ngua inglesa no Reino Unido e nos Estados Unidos ao longo dos s&eacute;culos, seguindo a inspira&ccedil;&atilde;o de estudos anteriores de Norbert Elias, mostrando os mecanismos do processo de regula&ccedil;&atilde;o que produzem uma pron&uacute;ncia hegem&oacute;nica, assinalando a diferen&ccedil;a entre as duas na&ccedil;&otilde;es, e mostrando nomeadamente o papel dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o (ex: BBC) e das classes sociais (ex: papel da classe m&eacute;dia norte-americana). </p>     <p>Mike Gane trata da hist&oacute;ria dos movimentos estudantis dos anos de 1960 no Reino Unido e nos Estados Unidos, mostrando como o radicalismo estudantil foi associado ao car&aacute;cter gratuito e p&uacute;blico do sistema de educa&ccedil;&atilde;o, favorecendo assim os adeptos de perspetivas neoliberais que t&ecirc;m defendido com sucesso a substitui&ccedil;&atilde;o do modelo republicano da Universidade pelo modelo do estudante como cliente. </p>     <p>Laurence Whitehead considera a acelera&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica patente na prolifera&ccedil;&atilde;o dos telem&oacute;veis e da Internet e as suas consequ&ecirc;ncias para o funcionamento dos regimes democr&aacute;ticos; contrariamente &agrave;s perspetivas totalizantes e mono-causais, o autor defende que as mudan&ccedil;as (a inclusividade sendo uma delas) n&atilde;o ser&atilde;o radicais, independentemente do contexto nacional, notando em particular a divis&atilde;o digital em pa&iacute;ses mais pobres, como &eacute; o caso do M&eacute;xico; o autor cr&ecirc; que partidos pol&iacute;ticos, divis&otilde;es &eacute;ticas e de classe persistir&atilde;o. </p>     <p>No &uacute;ltimo estudo do volume, &ldquo;Thinking about think tanks: politics by techno-scientific means&rdquo;, Stephen Turner mostra como as conclus&otilde;es que s&atilde;o utilizadas para a decis&atilde;o pol&iacute;tica (no sentido de &ldquo;policy&rdquo;) resultam cada vez mais de estudos estat&iacute;sticos e n&atilde;o da narrativa hist&oacute;rica, sendo esses estudos realizados por grupos de &ldquo;tecnologia social&rdquo; (<i>Think tanks</i>). O autor detalha um estudo de caso ao considerar o Massachusetts Bureau of Labour no per&iacute;odo 1869-1920 e termina referindo que a institucionaliza&ccedil;&atilde;o dos <i>Think tanks</i> tem hoje nas mudan&ccedil;as populistas, associadas ao ressurgimento de uma direita que prop&otilde;e um poder carism&aacute;tico, um novo e s&eacute;rio advers&aacute;rio.</p>     <p>No seu conjunto, este livro constitui uma boa introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; obra e problem&aacute;ticas desenvolvidas por Herm&iacute;nio Martins e tamb&eacute;m um excelente est&iacute;mulo &agrave; nossa auto-estima coletiva, &agrave; curiosidade intelectual e ao esp&iacute;rito de inqu&eacute;rito. </p>      ]]></body>
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