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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O Espectro da Pobreza: História, Cultura e Política em Portugal no Século XX]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENS&Otilde;ES</b></font></p>     <p><font size="4"><b>&Aacute;GOAS, Frederico, NEVES, Jos&eacute; (orgs.)</b></font></p>     <p><font size="3"><b>O Espectro da Pobreza. Hist&oacute;ria, Cultura e Pol&iacute;tica em Portugal no S&eacute;culo XX</b></font></p>     <p>Lisboa, Mundos Sociais, 2016, 205 pp.</p>     <p>ISBN 9789898536563</p>     <p><b>Virg&iacute;lio Borges Pereira*</b></p>     <p>*Instituto de Sociologia, Departamento de Sociologia da Faculdade de Letras, Universidade do Porto, Via Panor&acirc;mica, s/n, 4150-564 Porto, Portugal. <a href="mailto:jpereira@letras.up.pt">jpereira@letras.up.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Organizado por Frederico &Aacute;goas e Jos&eacute; Neves, o livro <i>O Espectro da Pobreza. Hist&oacute;ria, Cultura e Pol&iacute;tica em Portugal no S&eacute;culo XX</i>, publicado em 2016 pela Editora Mundos Sociais, re&uacute;ne, em oito cap&iacute;tulos e uma introdu&ccedil;&atilde;o - esta &uacute;ltima, da autoria dos organizadores -, uma colet&acirc;nea de estudos que, como o t&iacute;tulo e subt&iacute;tulo da obra indicam, procura identificar modalidades significativas de tratamento historiogr&aacute;fico e cient&iacute;fico-social da pobreza em Portugal no s&eacute;culo XX. Combinando trabalhos que, com a exce&ccedil;&atilde;o da &ldquo;Introdu&ccedil;&atilde;o&rdquo;, j&aacute; tinham sido objeto de publica&ccedil;&atilde;o (no pa&iacute;s e fora deste), a presente obra constitui uma ocasi&atilde;o para integrar estudos que dificilmente se reuniriam deste modo, proporcionando, em simult&acirc;neo, a restitui&ccedil;&atilde;o de tais trabalhos num registo mais alargado ou em l&iacute;ngua portuguesa. </p>     <p>Partindo do diagn&oacute;stico de uma &ldquo;lacuna historiogr&aacute;fica&rdquo; (p. 3), a que decorre de uma menor aten&ccedil;&atilde;o aos aspetos mais orientadamente sociais do fen&oacute;meno em apre&ccedil;o na &eacute;poca contempor&acirc;nea, a colet&acirc;nea prop&otilde;e-se demonstrar o modo &ldquo;multifacetado&rdquo; como o problema da pobreza tem vindo a ser analisado no pa&iacute;s, procurando, com tal demonstra&ccedil;&atilde;o, identificar adquiridos cient&iacute;ficos e potenciais coordenadas para investiga&ccedil;&otilde;es futuras - que possam ser capazes de resolver pelo menos parte da lacuna referida. Com base nestes prop&oacute;sitos e em termos program&aacute;ticos, os organizadores relevam a necessidade de inscrever o estudo hist&oacute;rico da pobreza numa matriz multidisciplinar, que convoque saberes como os da sa&uacute;de p&uacute;blica, da economia, ou da sociologia (p. 5); sublinham, igualmente, a necessidade da respetiva inscri&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica; e real&ccedil;am, por fim, a pertin&ecirc;ncia das perspetivas que captam as experi&ecirc;ncias subjetivas de viv&ecirc;ncia da pobreza. A obra procura cumprir tais des&iacute;gnios.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O primeiro cap&iacute;tulo, da autoria de Susana Trov&atilde;o, intitulado &ldquo;Da pobreza sagrada &agrave; mendicidade como desvio. A assun&ccedil;&atilde;o pelo Estado do controlo social do mendigo-vadio&rdquo;, recupera um texto marcante da antropologia portuguesa sobre a constru&ccedil;&atilde;o da marginalidade social e da sua repress&atilde;o durante o Estado Novo. Real&ccedil;ando o significado da inscri&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica da pobreza e do mendigo na sociedade, o texto demonstra o processo de transforma&ccedil;&atilde;o a que o entendimento social e simb&oacute;lico destes esteve sujeito em Portugal. Analisando rituais e representa&ccedil;&otilde;es, a autora sublinha a vincula&ccedil;&atilde;o tradicional da pobreza ao mundo divino e o papel mediador que o &ldquo;mendigo tradicional&rdquo; exercia n&atilde;o apenas na concilia&ccedil;&atilde;o dos ricos com o sagrado, mas tamb&eacute;m em mat&eacute;ria de estratifica&ccedil;&atilde;o social e de rela&ccedil;&otilde;es entre ricos e pobres; reconstituindo testemunhos, debates intelectuais e legisla&ccedil;&atilde;o, na transi&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XIX para o s&eacute;culo XX destaca-se a emerg&ecirc;ncia da mendicidade como problema social e como fen&oacute;meno a combater no quadro de um processo de moderniza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s. A instaura&ccedil;&atilde;o do Estado Novo intensifica o lado repressivo no tratamento da mendicidade e da vadiagem, acentuando uma vis&atilde;o &ldquo;impura&rdquo; e &ldquo;perigosa&rdquo; de quem as praticava, convocando, por isso, as autoridades policiais para o seu &ldquo;tratamento&rdquo;/ &ldquo;regenera&ccedil;&atilde;o&rdquo;, o que resultar&aacute; no &ldquo;ex&iacute;lio&rdquo; da mendicidade do espa&ccedil;o p&uacute;blico.</p>     <p>O segundo cap&iacute;tulo, da autoria de Maria Rita Lino Garnel, intitulado &ldquo;Os m&eacute;dicos, a sa&uacute;de p&uacute;blica e o Estado improvidente (1890-1926)&rdquo;, restitui as origens da &ldquo;quest&atilde;o social&rdquo; em Portugal, aqui captadas a partir do modo como os problemas com a sa&uacute;de p&uacute;blica incitam um Estado de matriz liberal a reinventar, n&atilde;o sem contradi&ccedil;&otilde;es, um quadro de a&ccedil;&atilde;o para os organismos interm&eacute;dios. A autora analisa, em particular, o modo como os m&eacute;dicos diagnosticam situa&ccedil;&otilde;es sanit&aacute;rias e diferentes prioridades de a&ccedil;&atilde;o n&atilde;o apenas para profissionais, mas para o pr&oacute;prio Estado. Para al&eacute;m da import&acirc;ncia do diagn&oacute;stico das situa&ccedil;&otilde;es epid&eacute;micas - desde logo, do marco constitu&iacute;do pela peste bub&oacute;nica do Porto em 1899 -, e dos enquadramentos institucionais e sociabilit&aacute;rios que a profiss&atilde;o m&eacute;dica produz, o trabalho salienta o movimento legislativo crescente de assun&ccedil;&atilde;o de responsabilidades pelo Estado em mat&eacute;ria sanit&aacute;ria e o significado de um modelo de acompanhamento pr&oacute;ximo da evolu&ccedil;&atilde;o desta, que passa a concretizar-se, entre 1901 e 1926, com recurso &agrave; autoridade de m&eacute;dicos que assumem postos de delegados e de subdelegados de sa&uacute;de. O regime sa&iacute;do de 5 de outubro de 1910, sem colocar diretamente em causa esta l&oacute;gica e a relev&acirc;ncia das institui&ccedil;&otilde;es privadas no dom&iacute;nio da assist&ecirc;ncia, refor&ccedil;aria o interesse reformador do Estado no dom&iacute;nio da sa&uacute;de p&uacute;blica e tentaria construir uma arquitetura institucional para o seu enquadramento. Na demonstra&ccedil;&atilde;o da autora, os m&eacute;dicos, por sua vez, sem rejeitarem a pertin&ecirc;ncia de tal movimento, divergiam, em fun&ccedil;&atilde;o dos interesses diferenciados das suas posi&ccedil;&otilde;es profissionais, nas leituras que faziam sobre o momento em que a responsabilidade se tornava p&uacute;blica. </p>     <p>O terceiro cap&iacute;tulo, com autoria de Frederico &Aacute;goas e Lais Pereira, intitula-se &ldquo;Verdade, ideologia e viol&ecirc;ncia nas primeiras fotografias do povo em Portugal. O realismo cient&iacute;fico do inqu&eacute;rito &agrave; habita&ccedil;&atilde;o rural&rdquo;. Com um enfoque inscrito na hist&oacute;ria das ci&ecirc;ncias sociais, os autores analisam o uso das imagens do povo portugu&ecirc;s nas incurs&otilde;es cient&iacute;fico-sociais realizadas sobre o mundo agr&aacute;rio e rural entre os anos 1920 e 1950. Para esse efeito, identificam-se, na viragem do s&eacute;culo, os produtores das &ldquo;primeiras imagens&rdquo; e a configura&ccedil;&atilde;o de estilos e orienta&ccedil;&otilde;es est&eacute;ticas que promovem, salientando-se o significado dos cen&aacute;rios artificiais, da formaliza&ccedil;&atilde;o e do estere&oacute;tipo na sua defini&ccedil;&atilde;o. Em complemento, e sem colocar em causa a anonimiza&ccedil;&atilde;o do povo, assinala-se a emerg&ecirc;ncia de incurs&otilde;es fotojornal&iacute;sticas sobre o quotidiano urbano que contrastam e inovam relativamente &agrave;quelas primeiras imagens. Em alternativa, a afirma&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do Estado Novo &eacute; informada pela &ldquo;imposi&ccedil;&atilde;o&rdquo;, atrav&eacute;s de entidades como o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), de uma &ldquo;fotogenia&rdquo; pr&oacute;pria, amplamente configurada em torno de tipos folcl&oacute;ricos e encenados. Em oposi&ccedil;&atilde;o a este &uacute;ltimo quadro, e mais perto do final do per&iacute;odo estudado, os autores evidenciam o significado das &ldquo;imagens contrastantes&rdquo; produzidas por fot&oacute;grafos conotados com a oposi&ccedil;&atilde;o ao regime e assinalam a import&acirc;ncia da est&eacute;tica &ldquo;neorrealista&rdquo;, assim como a emerg&ecirc;ncia de um registo de &ldquo;document&aacute;rio social&rdquo;, na sua defini&ccedil;&atilde;o. Por fim, o estudo das imagens executadas, durante os anos 1940, no &acirc;mbito do Inqu&eacute;rito &agrave; Habita&ccedil;&atilde;o Rural revela uma abordagem &ldquo;cient&iacute;fica&rdquo; da imagem do povo, que &eacute;, neste caso, &ldquo;objeto&rdquo; de uma potencial fus&atilde;o com as respetivas condi&ccedil;&otilde;es de exist&ecirc;ncia. </p>     <p>Em &ldquo; ‘A poesia dos simples'. Arte popular e na&ccedil;&atilde;o no Estado Novo&rdquo;, o quarto cap&iacute;tulo, Vera Marques Alves analisa, como o subt&iacute;tulo indica, o lugar da arte popular e da na&ccedil;&atilde;o na pol&iacute;tica folclorista do SPN e do Secretariado Nacional de Informa&ccedil;&atilde;o, Cultura Popular e Turismo (SNI). Assinala, para esse efeito, a import&acirc;ncia particular de que se revestiu a constru&ccedil;&atilde;o da identidade nacional atrav&eacute;s da cultura popular levada a cabo por aqueles servi&ccedil;os do Estado Novo com fins de representa&ccedil;&atilde;o externa e que n&atilde;o deixou de contemplar objetivos de vincula&ccedil;&atilde;o das classes m&eacute;dias &agrave; est&eacute;tica nacional. Um tal trabalho, promovendo uma &ldquo;imagem ben&eacute;vola da pobreza&rdquo;, ter&aacute; na &ldquo;constru&ccedil;&atilde;o de um retrato id&iacute;lico da vida nos campos&rdquo; (p. 88) o seu cerne. Revisitando arquivos e documentos relativos &agrave; atividade do SPN/SNI neste dom&iacute;nio, a autora demonstra o trabalho detalhado de &ldquo;esteticiza&ccedil;&atilde;o&rdquo; dos objetos populares promovido pelos agentes da institui&ccedil;&atilde;o e que se consuma na constru&ccedil;&atilde;o do campon&ecirc;s como esteta e na sua defini&ccedil;&atilde;o como &ldquo;modelo ideal de povo&rdquo; (p. 100).</p>     <p>Elisa Lopes da Silva, no cap&iacute;tulo cinco, intitulado &ldquo;Recampesinar no Estado Novo. Propriedade, Estado e os seus sujeitos&rdquo;, direciona o seu olhar para a hist&oacute;ria do espa&ccedil;o rural do pa&iacute;s durante o s&eacute;culo XX e, especificamente, para as pol&iacute;ticas de coloniza&ccedil;&atilde;o interna levadas a cabo pelo Estado Novo. Num exerc&iacute;cio de hist&oacute;ria do Estado, o estudo analisa as pr&aacute;ticas da Junta de Coloniza&ccedil;&atilde;o Interna e real&ccedil;a o modo como, do ponto de vista intelectual e pol&iacute;tico, se formula o retrato de um desequil&iacute;brio populacional entre o Norte e o Sul do pa&iacute;s, cruzado com fen&oacute;menos de desemprego rural, que s&atilde;o encarados como pass&iacute;veis de ser supridos atrav&eacute;s da coloniza&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola do Sul. Na perspetiva dos autores das pol&iacute;ticas, uma tal coloniza&ccedil;&atilde;o deveria ser informada por uma reforma agr&aacute;ria capaz de &ldquo;desproletarizar&rdquo; e &ldquo;recampesinar&rdquo; o Sul do pa&iacute;s. Ainda que se tenha tratado de uma pol&iacute;tica largamente votada ao fracasso, a per&iacute;cia t&eacute;cnica e pol&iacute;tica mobilizada para a sua produ&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi negligenci&aacute;vel. O estudo reconstitui a racionalidade que lhe esteve subjacente e demonstra que, para al&eacute;m dos objetivos mais especificamente econ&oacute;micos, ela envolvia um trabalho de promo&ccedil;&atilde;o da propriedade privada da terra e de forma&ccedil;&atilde;o de propriet&aacute;rios em lugar de assalariados.</p>     <p>Em &ldquo;‘Portugal n&atilde;o &eacute; um pa&iacute;s pobre'. Comunismo, poder e economia&rdquo;, o cap&iacute;tulo seis, Jos&eacute; Neves desenvolve uma genealogia de uma formula&ccedil;&atilde;o discursiva estruturante, pelo menos entre os anos 1940 e 1974, do Partido Comunista Portugu&ecirc;s (PCP), segundo a qual &ldquo;Portugal n&atilde;o &eacute; um pa&iacute;s pobre&rdquo;. Come&ccedil;ando por um breve exerc&iacute;cio de recupera&ccedil;&atilde;o de mem&oacute;ria hist&oacute;rica sobre o PCP e sobre o lugar da ambival&ecirc;ncia na sua conce&ccedil;&atilde;o, o estudo define as condi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas que est&atilde;o subjacentes &agrave; emerg&ecirc;ncia da f&oacute;rmula em an&aacute;lise e o quadro da transforma&ccedil;&atilde;o a que os militantes comunistas a sujeitam ao perspetivarem um futuro p&oacute;s-colonial. Demarcando-se do regime, que defendia que &ldquo;Portugal n&atilde;o &eacute; um pa&iacute;s pequeno&rdquo;, segundo a an&aacute;lise proposta, o programa comunista, procurando subverter o pensamento do regime, releva um quadro de socializa&ccedil;&atilde;o alternativo, fundado numa &ldquo;promessa progressista&rdquo; e procurando &ldquo;mobilizar&rdquo; produtores para a qualifica&ccedil;&atilde;o da sua atividade (p. 133). </p>     <p>O cap&iacute;tulo sete &eacute; da autoria de Eduardo Ascens&atilde;o e intitula-se &ldquo;A barraca p&oacute;s-colonial. Materialidade, mem&oacute;ria e afeto na arquitetura informal&rdquo;. Analisa, com base num denso registo etnogr&aacute;fico e num esfor&ccedil;o de reconstitui&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica de pol&iacute;ticas urbanas, &ldquo;microbiografias de migra&ccedil;&atilde;o, constru&ccedil;&atilde;o arquitet&oacute;nica e vida quotidiana no bairro da Quinta da Serra, Prior Velho&rdquo; (p. 141), que transforma num estudo sobre a invisibilidade da cidade informal e da hist&oacute;ria social e laboral dos seus moradores na Lisboa p&oacute;s-imperial. Num exerc&iacute;cio que conjuga a documenta&ccedil;&atilde;o dos processos de domina&ccedil;&atilde;o com a an&aacute;lise de pequenas emancipa&ccedil;&otilde;es quotidianas, o estudo destaca o modo como &Aacute;frica &eacute; recriada, nestes contextos informais e invis&iacute;veis de Lisboa, enquanto espa&ccedil;o, rede de rela&ccedil;&otilde;es e de mem&oacute;ria com valor pr&oacute;prio. Ao mesmo tempo, e no que diz respeito &agrave; rela&ccedil;&atilde;o com a cidade formal, o estudo demonstra como estes processos se inscrevem em complexos quadros de desvaloriza&ccedil;&atilde;o material e simb&oacute;lica. Do ponto de vista pol&iacute;tico, advoga-se, o aprofundamento do direito &agrave; cidade dos moradores aqui analisados ganharia acuidade se retirasse consequ&ecirc;ncias do conhecimento dos processos deste modo identificados.</p>     <p>O oitavo e &uacute;ltimo cap&iacute;tulo do livro intitula-se &ldquo;A gourmetiza&ccedil;&atilde;o da comida da pobreza. O <i>presidium slow food </i>do queijo Serpa&rdquo;, sendo da autoria de Harry G. West e Nuno Domingos. O trabalho em causa convoca uma an&aacute;lise da estetiza&ccedil;&atilde;o da comida camponesa, analisando criticamente o modo de estrutura&ccedil;&atilde;o paradoxal da organiza&ccedil;&atilde;o e movimento <i>Slow Food</i> com recurso ao estudo do caso do queijo Serpa. Come&ccedil;ando por identificar, na perspetiva dos representantes do movimento <i>Slow Food</i>, o significado de que se reveste a celebra&ccedil;&atilde;o rom&acirc;ntica dos produtos camponeses e de quem os confeciona, os autores evidenciam os tra&ccedil;os elitistas de tais pr&aacute;ticas e confrontam-nas com a reconstitui&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria do fabrico do queijo de Serpa e com o exame da sua transforma&ccedil;&atilde;o em Denomina&ccedil;&atilde;o de Origem Controlada (DOC). Para al&eacute;m de revelarem um quadro de produ&ccedil;&atilde;o tradicional feito de recria&ccedil;&atilde;o e de adapta&ccedil;&atilde;o a constrangimentos, a reconstitui&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica da produ&ccedil;&atilde;o do queijo e a objetiva&ccedil;&atilde;o etnogr&aacute;fica das transforma&ccedil;&otilde;es decorrentes da DOC evidenciam recomposi&ccedil;&otilde;es significativas, vis&iacute;veis na altera&ccedil;&atilde;o do gado produtor de leite, no impacto da refrigera&ccedil;&atilde;o nas t&eacute;cnicas produtivas e numa mudan&ccedil;a na pr&oacute;pria consist&ecirc;ncia do queijo, que se adapta aos gostos dos consumidores urbanos, tornando-se, ao contr&aacute;rio do tradicional, mais &ldquo;novo&rdquo;, &ldquo;amanteigado&rdquo; e &ldquo;amolecido&rdquo; e, em suma, sustentando pr&aacute;ticas produtivas e de consumo mais <i>ricas</i>. Neste quadro, os autores identificam n&atilde;o s&oacute; o car&aacute;cter paradoxal das pr&aacute;ticas e das representa&ccedil;&otilde;es induzidas pelo movimento <i>Slow Food</i>, mas relevam tamb&eacute;m que o movimento tem uma rela&ccedil;&atilde;o desigual com as atividades dos pr&oacute;prios produtores locais.</p>     <p>Com um conte&uacute;do diverso e informado por pr&aacute;ticas de an&aacute;lise distintas mas complementares, o livro em apre&ccedil;o &eacute; um contributo muito estimulante para o estudo da pobreza no s&eacute;culo XX portugu&ecirc;s. Conjugado, por exemplo, com trabalhos sociol&oacute;gicos como os que se desenvolveram na esteira de Almeida et al. (1992), a sua leitura alarga perspetivas e constitui um convite efetivo ao desenvolvimento de trabalho multidisciplinar sobre t&atilde;o fraturante fen&oacute;meno.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></p>     <!-- ref --><p>ALMEIDA, J. F. de et al. (1992), <i>Exclus&atilde;o Social: Factores e Tipos de Pobreza em Portugal</i>, Oeiras, Celta.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=103991&pid=S0003-2573201800030001700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body><back>
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