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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Dinâmicas locais de apoio e resistência à conservação da biodiversidade: uma perspetiva das representações sociais]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Local dynamics of support and resistance to biodiversity conservation: a social representation perspective]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The local level is where biodiversity loss can be stopped. However, current literature has focused mainly on the conflicts between the legal and local spheres, without paying much attention to the local dynamics in the response to biodiversity conservation laws. This multi-method research, which took place in Natura 2000 sites in the interior Alentejo, Portugal, (1) compares the use by landowners and other residents of complex, hybrid social representations - which simultaneously accommodate arguments in support of and contesting the laws; and (2) analyzes the relationships between representations, the groups that mobilize them, and the intention to publicly support the laws at the local sphere. We discuss the consequences of our findings for social change toward sustainability.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Dinâmicas locais de apoio e resistência à conservação da    biodiversidade: uma perspetiva das representações sociais</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Local dynamics of support and resistance to biodiversity    conservation: a social representation perspective</b></font></p>     <p><b>Carla Mouro*, Paula Castro*</b></p>     <p>* CIS-IUL, ISCTE-IUL, Av. das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa, Portugal, <a href="mailto:carla.mouro@iscte-iul.pt">carla.mouro@iscte-iul.pt</a>,    <a href="mailto:paula.castro@iscte-iul.pt">paula.castro@iscte-iul.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>O nível local é aquele em que a perda de biodiversidade pode de facto ser travada.    No entanto, a literatura recente tem-se centrado principalmente no conflito    entre as esferas legal e local e tem olhado pouco para as dinâmicas locais de    resposta às leis de conservação. Esta pesquisa multi-método em zonas Natura    2000 no interior alentejano (1) compara o uso de representações sociais complexas    e híbridas - que acomodam simultaneamente argumentos de apoio e contestação    às leis - por residentes proprietários e não proprietários e (2) analisa as    relações entre as representações, os grupos que as mobilizam e a intenção de    apoiar publicamente as leis na esfera pública local. Discutem-se consequências    da pesquisa para a mudança social para a sustentabilidade.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> representações sociais híbridas; conservação da biodiversidade;    mudança social; resistência.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>The local level is where biodiversity loss can be stopped. However, current    literature has focused mainly on the conflicts between the legal and local spheres,    without paying much attention to the local dynamics in the response to biodiversity    conservation laws. This multi-method research, which took place in Natura 2000    sites in the interior Alentejo, Portugal, (1) compares the use by landowners    and other residents of complex, hybrid social representations - which simultaneously    accommodate arguments in support of and contesting the laws; and (2) analyzes    the relationships between representations, the groups that mobilize them, and    the intention to publicly support the laws at the local sphere. We discuss the    consequences of our findings for social change toward sustainability.</p>     <p><b>Keywords:</b> hybrid social representations; biodiversity conservation;    social change; resistance.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Introdução</p>     <p>Uma parte substancial do território rural português está atualmente inserida    na Rede Natura 2000, uma rede de sítios protegidos cuja regulamentação visa    assegurar a conservação da biodiversidade nos vários Estados-membro da União    Europeia. Traduzidas para legislação nacional com implementação ao nível local,    estas leis, redigidas a partir principalmente dos contributos científicos da    ecologia (Rosa e Silva, 2005), conflituam em alguns aspetos com valores e práticas    locais (Castro e Mouro, 2011, 2016; Dinnie, Fischer e Huband, 2015; Paavola,    2004; Sumares e Fidélis, 2009). As tensões que resultam deste encontro entre    as esferas legal e local têm originado respostas locais variadas às leis de    conservação, onde muitas vezes se conjugam o apoio e a resistência à aplicação    da lei (Anderson, Ford e Williams, 2017; Hovardas, Korfiatis e Pantis, 2009;    Mouro e Castro, 2012). Esta combinatória de apoio e resistência pode, no entanto,    assumir diferentes formatos consoante o modo como os grupos locais são ou não    diretamente afetados pelas leis e consoante as dinâmicas que se estabelecem    entre estes grupos. Uma pesquisa anterior mostrou, por exemplo, que a atitude    face às áreas protegidas dos residentes que lidam mais diretamente com as imposições    destas leis, como os proprietários (Mouro e Castro, 2010) ou os que dela dependem    economicamente (Bonaiuto et al., 2002), surge associada a uma forte identificação    com o lugar, enquanto nos outros residentes esta associação é menos expressiva.    Isto significa também que é comum coexistirem ao nível local diferentes, e por    vezes divergentes, representações sobre o uso do território e recursos naturais    (Anderson et al., 2017), e que é necessário aumentar o conhecimento sobre como    estas representações coexistem e são negociadas e usadas pelas comunidades locais    (Batel e Devine-Wright, 2015, p. 317). Este conhecimento pode ser útil na (re)definição    de políticas e leis de conservação para que estas sejam mais capazes de dialogar    com e integrar diferentes conhecimentos, expectativas e interesses (Anderson    et al., 2017), contribuindo para políticas mais adaptadas ao contexto de implementação    (Pinto-Correia, Gustavsson e Pirnat, 2006).</p>     <p>Todavia, embora existam já estudos a ilustrar a variedade de posições das comunidades    locais face a esta rede de sítios protegidos e às leis que a regulam, esta relação    tem sido explorada principalmente a partir do conflito entre os níveis institucional/legal    e local (Abecasis et al., 2013; Delicado et al., 2012, 2015; Paavola, 2004;    Sumares e Fidélis, 2009). Os consensos e controvérsias dentro da esfera local,    bem como os processos psicossociais que sustentam estas dinâmicas e as suas    consequências para o rumo da mudança posta em curso pelas leis são aspetos ainda    pouco estudados (Batel e Devine-Wright, 2015). E no entanto, o enfoque sobre    este nível é determinante, uma vez que é ao nível local que a batalha pela conservação    da biodiversidade será ou não ganha (Bryan, 2012, p.91) e que a direção da mudança    depende em muito do envolvimento das comunidades locais e do diálogo estabelecido    com o conhecimento local na sua diversidade (Anderson et al., 2017; Pinto-Correia,    Menezes e Barroso, 2014). A pesquisa que aqui apresentamos pretende então identificar    e comparar argumentos usados por dois grupos locais afetados de modo distinto    pelas leis de conservação - proprietários e não proprietários. Adicionalmente,    pretende-se analisar como os argumentos usados se posicionam face à esfera legal    e no âmbito das relações entre grupos na esfera pública local.</p>     <p>Para tal, recorremos à abordagem das representações sociais, que estuda a forma    como novas ideias e valores entram nas sociedades e são apropriadas e transformadas    pelos grupos que as compõem (Moscovici, 1988; Vala e Castro, 2013). Para esta    abordagem, a comunicação e interação com o Outro - nos grupos sociais, comunidades,    sociedades - é determinante para a mudança na representação e na ação (Castro    e Mouro, 2016; Devine-Wright, 2009; Elcherot, Doise e Reicher, 2011; Jovchelovitch,    2007). Pressupõe-se então que, para angariarem apoio e se fixarem na esfera    local, as novas ideias e valores precisam de ser conversadas e debatidas entre    os grupos na comunidade e que, portanto, as relações entre os grupos locais    intervêm na integração de novas ideias com as já existentes (Jaspal, Nerlich    e Cinnirella, 2013; Jovchelovitch, 2007; Vala e Castro, 2013). Nesta pesquisa    pretende-se analisar se proprietários e não proprietários, sendo afetados de    modo distinto pelas leis, usam conteúdos representacionais também distintos    para definir um projeto para o nível local (Bauer e Gaskell, 2008) que o aproxima    ou afasta dos imperativos que a esfera legal lhe propõe.</p>     <p>Na resposta local às inovações legais (Castro, 2012), o recurso a representações    complexas híbridas (Jovchelovitch, 2007), onde são conjugadas ideias contrárias,    emerge como particularmente útil, uma vez que permite simultaneamente valorizar    o que a esfera legal propõe como correto e contestar as leis com base em conhecimentos    e interesses locais (Castro e Batel, 2008). Isso também possibilita aos grupos    sociais moldar versões específicas da sua relação com as leis onde contestam    a sua aplicação sem desrespeitar as normas societais (Buijs et al., 2012; Castro    e Mouro, 2011, 2016; Jaspal et al., 2013). No contexto português, estudos recentes    evidenciam a conjugação ao nível local de argumentos de acordo com as leis de    conservação com argumentos que contestam a sua aplicação (e.&#8197;g., Mouro    e Castro, 2012; Pereira et al., 2014), no entanto não foi ainda estudado se    estes padrões híbridos de argumentação são diferentes para grupos locais que    são mais e menos afetados pelas leis.</p>     <p>Neste artigo temos então como primeiro objetivo averiguar se residentes proprietários    e não proprietários recorrem ambos a padrões híbridos de argumentação que combinam    ideias contrárias entre si. Iremos analisar também o nível de consenso angariado    pelos vários argumentos, averiguando que argumentos transcendem o nível de &ldquo;interesse    do grupo&rdquo; para se tornarem &ldquo;um projeto da comunidade&rdquo; (Bauer e Gaskell, 2008).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Um segundo objetivo visa examinar se as representações híbridas e a sua circulação    na comunidade preveem a intenção de apoiar publicamente as leis. A distinção    entre representação e ação é fundamental para compreendermos a adesão aos imperativos    de conservação, uma vez que estes dois níveis nem sempre estão alinhados entre    si (Bertoldo, Castro e Bousfield, 2014). Além disso, escolhemos ações raramente    examinadas pela pesquisa sobre conservação da biodiversidade, que simultaneamente    implicam o reconhecimento perante o Outro na comunidade de uma posição favorável    à lei e que são praticáveis pelos vários grupos locais.</p>     <p>Para responder a estes dois objetivos adotámos uma abordagem multi-método.    No primeiro estudo, examinámos a partir de entrevistas semiestruturadas (1)    que argumentos de apoio e contestação emergem como consensuais e não consensuais    nos discursos dos dois grupos aqui comparados e (2) se ambos os grupos utilizam    padrões híbridos de argumentação. O segundo estudo analisa, através de um inquérito,    a associação entre argumentos consensuais e não consensuais (identificados no    primeiro estudo) e a intenção de proprietários e não proprietários apoiarem    publicamente as leis.</p>     <p>Na próxima secção iremos primeiro situar o contexto da pesquisa e identificar    os contributos da abordagem das representações sociais para analisar a mudança    social impulsionada por novas leis, incidindo especificamente sobre a proteção    da biodiversidade. Em seguida serão apresentados os objetivos específicos, método    e análises do Estudo 1. Com base nas conclusões deste estudo, apresentamos os    objetivos específicos, método e resultados do Estudo 2. Por fim, discutimos    as consequências dos padrões de apoio e resistência encontrados para a mudança    social para a sustentabilidade.</p>     <p>A Rede Natura 2000 ao nível local - o contexto de pesquisa</p>     <p>A <i>Rede</i> <i>Natura 2000</i> é atualmente uma das principais e mais ambiciosas    iniciativas para parar a perda da biodiversidade no espaço europeu<a href="#1"><sup>[1]</sup></a><a name="top1"></a>,    cobrindo uma extensão de cerca de 20&#8197;% deste território. Apesar de manter    uma forte ancoragem na ecologia como fonte de conhecimento para a decisão sobre    o quê e como proteger (Rosa e Silva, 2005), a criação desta rede de sítios protegidos    introduziu alguma mudança no paradigma até então vigente, o da proteção da natureza    em &ldquo;reservas naturais&rdquo; (Bryan, 2012). A Rede Natura cobre assim também (e principalmente)    propriedade privada em áreas rurais, ambicionando a &ldquo;que os espaços [nela] incluídos    sejam espaços vividos e geridos de uma forma sustentável&rdquo; (ICNF)<a href="#2"><sup>[2]</sup></a><a name="top2"></a>,    e tendo com isso envolvido e afetado de forma direta e indireta diferentes atores    e grupos locais (Castro e Mouro, 2011; Dinnie et al., 2015).</p>     <p>A pesquisa que aqui apresentamos acompanhou o projeto <i>LIFE</i><i> Estepárias    </i>(LIFE07/NAT/P/0000654)<a href="#3"><sup>[3]</sup></a><a name="top3"></a>,    que decorreu entre 2009 e 2012. Este projeto foi desenhado para melhorar as    condições de <i>habitat</i> de aves estepárias características do Alentejo (abetarda,    sisão e peneireiro-das-torres), nas Zonas de Proteção Especial (ZPE) Natura    2000 de Castro Verde, Vale do Guadiana e Mourão/Moura/Barrancos. Várias das    suas intervenções no terreno contaram com a colaboração de proprietários locais    e várias ações de comunicação tiveram como público-alvo os residentes nestas    zonas.</p>     <p>Uma análise da receção local da <i>Rede Natura</i>, e destes projetos de intervenção,    não pode deixar de considerar que estas leis limitam em vários aspetos a relação    das comunidades com o território, por exemplo, ao restringirem a construção    de infraestruturas e habitações ou o tipo de cultura agrícola a adotar. Os proprietários    são dos residentes mais diretamente afetados pelas restrições e alterações impostas    (Dinnie et al., 2015; Mouro e Castro, 2010; Castro e Mouro, 2016), embora se    possa considerar que estas leis afetam globalmente a relação das comunidades    locais com os usos do território (Castro e Mouro, 2011). Neste contexto, os    valores e práticas que estas leis promovem nem sempre convergem com as perspetivas    de desenvolvimento das comunidades locais e os seus usos anteriores do território    (Carolino, 2010; Castro e Mouro, 2011, 2016; Figueiredo, 2009; Pinto-Correia    et al., 2006, 2014; Sumares e Fidélis, 2009). Assim, em Portugal, como em vários    outros Estados-membro (Alemanha, Stoll-Kleeman, 2001; Grécia, Hovardas et al.,    2009; Reino-Unido, Dinnie et al<i>.</i>, 2015), estas leis têm sido alvo de    críticas e de alguma contestação, tornada audível nomeadamente através da imprensa    regional (Castro et al., 2012; Hovardas e Korfiatis, 2008).</p>     <p>Não obstante, a relação das comunidades locais com as leis de conservação é    complexa e variada, sendo a contestação às leis frequentemente conjugada com    um apoio genérico às mesmas (Hovardas et al., 2009; Mouro e Castro, 2012; Sumares    e Fidélis, 2009). Mesmo em contextos onde a designação de novas áreas protegidas    Natura 2000 reúne elevado e consensual apoio da comunidade, são tornados evidentes    também motivos relativos ao trabalho e ao quotidiano destas comunidades que    imprimem nas respostas locais alguma resistência a estas leis (Abecasis et al.,    2013). Esta hibridização pode, no entanto, assumir diferentes contornos consoante    o modo como os grupos são afetados pelas leis. Ser afetado de forma direta ou    indireta pelas leis pode constituir um fator de diferenciação entre os modos    de representação a nível local, permitindo por exemplo distinguir as atitudes    de diferentes grupos locais face às leis de conservação (Bonaiuto et al., 2002;    Mouro e Castro, 2010). No entanto, encontramos ainda poucos estudos que adotem    esta perspetiva comparativa e que analisem como os grupos locais moldam e fixam    conteúdos representacionais e assim orientam a resposta local às novas leis.    No contexto português, Pereira e colaboradores (2014) examinaram os posicionamentos    de atores locais relativamente à criação do Parque Natural da Ilha do Pico,    também inserido em <i>Rede Natura 2000</i>. As suas análises mostraram uma conjugação    entre argumentos de apoio e contestação face à designação desta zona protegida,    sendo os últimos mais numerosos e mais específicos. Este estudo, no entanto,    não analisou se existiram diferenças entre grupos locais.</p>     <p>Outros estudos, realizados junto de comunidades inseridas em zonas <i>Natura    2000</i> no Alentejo e Algarve, inquiriram residentes proprietários e não proprietários    relativamente à sua posição face às leis de conservação (Mouro, 2011). Os proprietários    expressaram posições mais elaboradas face às leis, havendo uma associação mais    forte entre as representações e a adesão a práticas de conservação neste grupo    do que nos não proprietários (Mouro e Castro, 2010). Este resultado, indicativo    de uma maior capacidade dos proprietários de elaborar sobre as leis e sobre    as práticas de conservação por elas propostas, pode no entanto dever-se ao facto    de algumas das práticas avaliadas serem mais específicas deste grupo. Para compreender    melhor quer este grupo mais afetado por estas leis, quer as posições dos residentes    que não sendo diretamente afetados constituem também a esfera pública local    onde a relação com as leis é debatida e negociada, na presente pesquisa adotámos    também esta distinção - entre residentes proprietários e não proprietários -    para examinarmos, no Estudo 1, os padrões argumentativos presentes nos discursos    dos dois grupos.</p>     <p>ESTUDO 1 - a construção do apoio e da resistência às leis nos discursos locais</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este primeiro estudo tem como objetivos examinar se nos discursos dos dois    grupos locais aqui comparados, proprietários e não proprietários, podemos encontrar    um padrão representacional híbrido - conjugando ideias contrárias como o apoio    às leis e a contestação da sua aplicação concreta - e que formato específico    ele assume em cada grupo. Para tal, serão realizadas análises comparativas dos    conteúdos e processos representacionais que membros de cada grupo mobilizaram    em entrevistas individuais.</p>     <p>Em termos de conteúdos, pretende-se averiguar como os argumentos usados se    posicionam face a dois temas recorrentes nos debates acerca das novas leis de    conservação. O primeiro tema trata da reconfiguração das áreas rurais, de zonas    produtivas para zonas protegidas e de lazer (Corson et al., 2014; Figueiredo,    2009; Paavola, 2004). Introduz o dilema entre a definição do rural enquanto    zona de produção agrícola, com uma orientação para valores de desenvolvimento    económico, <i>vs</i>. zona de usufruto da paisagem, onde as atividades humanas    privilegiadas são o turismo e o lazer.</p>     <p>O segundo tema remete para a conceção de público que prevalece nas interações    dos peritos e instituições com as comunidades locais, nomeadamente se e em que    moldes o público deve ser incluído em decisões que o afetam. Esta conceção organiza-se    em torno de duas imagens (negativas) dos públicos por parte dos organismos oficiais    (Castro e Mouro, 2016): (1) considerá-lo como pouco interessado e/ou defendendo    exclusivamente interesses próprios (Stoll-Kleeman, 2001), e portanto transgredindo    a norma de envolvimento cívico (Castro e Mouro, 2016); e/ou (2) como ignorante    relativamente às matérias em decisão (Delicado et al., 2012), e portanto deficitário    a nível epistémico (Castro e Mouro, 2016; Dinnie et al., 2015).</p>     <p>Em termos de processos, pretendemos examinar o nível de consenso angariado    pelos argumentos apresentados por cada grupo, de modo a averiguar se algum dos    grupos emerge como mais capaz de moldar as posições locais face às leis tornando    os seus argumentos &ldquo;um projeto da comunidade&rdquo; (Bauer e Gaskell, 2008). Iremos    também comparar a frequência com que proprietários e não proprietários usam    os vários argumentos de apoio e resistência às leis de conservação para apurar    se o padrão de argumentação híbrido já encontrado em estudos nacionais anteriores    (Mouro e Castro, 2012; Pereira et al., 2014) assume características que permitem    diferenciar os grupos locais. Uma vez que os proprietários são mais diretamente    afetados pelas leis de conservação, antecipamos que mobilizem mais argumentos    de contestação às leis do que os residentes não proprietários.</p>     <p>Assim, e em síntese, este estudo averigua, (a) a nível de conteúdos, se os    argumentos mobilizados por proprietários e não proprietários legitimam ou questionam    ideias e práticas propostas pela esfera institucional/legal, e, (b) a nível    de processos, (1) que argumentos de apoio e contestação emergem como consensuais    ou não consensuais nos discursos dos dois grupos e (2) se o padrão de argumentação    híbrida difere, em termos do balanço entre argumentos de apoio e contestação,    para os dois grupos.</p>     <p>Método</p>     <p>Participantes</p>     <p>Foram realizadas 38 entrevistas individuais a residentes nas três ZPE <i>Natura    2000</i> intervencionadas no projeto LIFE Estepárias (37&#8197;% da ZPE de Castro    Verde, 32&#8197;% da ZPE do Vale do Guadiana e 32&#8197;% da ZPE de Mourão/Moura/Barrancos).    Do total de entrevistados, 55&#8197;% (<i>n</i><i>&#8197;</i>=&#8197;21) eram    proprietários de terrenos na zona (67&#8197;% eram grandes proprietários, de    áreas superiores a 100 hectares), percentagem equivalente para as três ZPE (<i>&#967;<sup>2</sup></i><sup>    </sup>(6)&#8197;=&#8197;0,979, <i>n.</i><i>&#8197;</i><i>s</i>.). Os entrevistados    tinham atividades nas áreas de gestão dos recursos naturais (agrícola, <i>n</i><i>&#8197;</i>=&#8197;14;    cinegética, <i>n</i><i>&#8197;</i>=&#8197;8), ou ligadas ao poder local (<i>n</i><i>&#8197;</i>=&#8197;3),    a associações de desenvolvimento local (<i>n</i><i>&#8197;</i>=&#8197;4) e ao    ensino (<i>n</i><i>&#8197;</i>=&#8197;3), entre outras atividades (<i>n</i><i>&#8197;</i>=&#8197;6).</p>     <p>Os participantes tinham idades compreendidas entre os 27 e os 70 anos (com    58&#8197;% entre 41 e 55 anos), e eram maioritariamente do sexo masculino (95&#8197;%).    Em termos de escolaridade, 40% completaram entre 4 e 9 anos de formação e os    restantes 60&#8197;% completaram o 12.º ano ou grau superior. A distribuição    dos participantes é equivalente para as três zonas geográficas por grupo etário    (<i>&#967;<sup>2</sup></i><sup> </sup>(4)&#8197;=&#8197;0,077, <i>n.</i><i>&#8197;</i><i>s</i>.)    e nível de escolaridade (<i>&#967;<sup>2</sup></i><sup> </sup>(2)&#8197;=&#8197;0,127,    <i>n.</i><i>&#8197;</i><i>s</i>.). Proprietários e não proprietários também    não se diferenciam por idade (<i>&#967;<sup>2</sup></i><sup> </sup>(1)&#8197;=&#8197;3,273,    <i>n.</i><i>&#8197;</i><i>s</i>.) ou escolaridade (<i>&#967;<sup>2</sup></i><sup>    </sup>(2)&#8197;=&#8197;3,225, <i>n.</i><i>&#8197;</i><i>s</i>.).</p>     <p>Procedimento</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os participantes foram numa primeira fase selecionados a partir de uma lista    de entidades locais e sequencialmente recrutados recorrendo ao método de seleção    por bola de neve. O enquadramento dado ao participante referia que o estudo    se inseria num projeto de conservação das aves estepárias da região, e que a    entrevista pretendia compreender melhor como era viver e trabalhar naquela região.    As entrevistas tiveram a duração média de 50 minutos (<i>Min</i>: 12’; <i>Máx</i>:    112’) e foram transcritas integralmente. O material textual resultante serviu    de base a uma análise de conteúdo (Bauer, 2002) que visou identificar argumentos    de apoio e de contestação à conservação da natureza e às políticas e leis que    a regulam. Foram consideradas como unidades de análise todas as expressões relativas    ao tema em investigação às quais fosse possível atribuir um sentido argumentativo    (e.&#8197;g. &ldquo;Se não se conservar, as gerações que vêm a seguir terão muitos    problemas a curto prazo&rdquo;, &ldquo;há falta de rentabilidade com tantos condicionalismos&rdquo;).    As designações atribuídas aos argumentos de apoio e de contestação, elencadas    na próxima secção, emergiram da análise dos dados. Posteriormente, foi registada    numa base de dados em spss a presença ou ausência de cada argumento em cada    uma das entrevistas. As codificações foram revistas por dois elementos da equipa    de investigação e os desacordos resolvidos caso a caso.</p>     <p>Partindo desta codificação, realizaram-se duas análises:</p>     <p>(1) <i>por argumento</i>: comparou-se a prevalência dos argumentos em cada    grupo - proprietários e não proprietários. A contagem dos argumentos visou classificar    cada argumento como consensual ou não-consensual, sendo considerados consensuais    os argumentos com frequência equivalente nos dois grupos.</p>     <p>(2) <i>por entrevista</i>: contabilizaram-se os argumentos de apoio e contestação    usados por cada participante. Esta análise visou determinar se ambos os grupos    (a) recorrem a representações híbridas, i.&#8197;e., usam argumentos quer de    apoio, quer de contestação e (b) se o fazem na mesma proporção.</p>     <p>Estas análises são apresentadas de forma detalhada na próxima secção, ilustrando    os argumentos identificados, o nível de consenso que estes angariam, e como    estes argumentos se organizam em padrões híbridos, que combinam apoio e contestação.</p>     <p>Análises</p>     <p>Foram identificados cinco argumentos de apoio e cinco argumentos de contestação    à conservação da natureza e leis que a regulam (<a href="#q1">Quadro 1</a>).    Considerando o total de participantes, e relativamente aos <i>argumentos de    apoio</i>, o mais frequente (61&#8197;%) remetia para a &ldquo;Proteção das espécies&rdquo;    em termos genéricos, onde se incluíram expressões como &ldquo;Evita a extinção das    espécies&rdquo;, &ldquo;Mantém o equilíbrio de todas as espécies&rdquo;. Com percentagens bastante    inferiores, foram salientadas também a importância da conservação da biodiversidade    a nível local/regional, quer numa vertente económica (&ldquo;fonte de recursos para    a região&rdquo;, 37&#8197;%, e.&#8197;g. favorece observação de aves no âmbito do    turismo de natureza), quer numa vertente simbólica (&ldquo;protege características    da região&rdquo;, 26&#8197;%, e.&#8197;g. abetarda ou olival tradicional como símbolos    que singularizam a região). Os argumentos menos referidos foram a conservação    da biodiversidade enquanto garantia de &ldquo;bem-estar humano&rdquo; (13&#8197;%) e com    uma &ldquo;função estética ou lúdica&rdquo; (13&#8197;%).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="q1"></a><img src="/img/revistas/aso/n229/229a08q1.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na comparação entre os grupos não encontrámos diferenças estatisticamente significativas,    excetuando uma diferença marginal no primeiro argumento, mais mobilizado pelo    grupo de não proprietários (cf. <a href="#q1">Quadro 1</a>). No global, estes    resultados indicam que os vários argumentos de apoio identificados são conhecidos    pelos dois grupos locais e estão em circulação na esfera pública local, ainda    que nesta amostra apenas o argumento de proteção das espécies assuma um carácter    mais consensual.</p>     <p>Relativamente aos <i>argumentos de contestação</i> (<a href="#q1">Quadro 1</a>),    três deles foram mencionados pela maioria dos entrevistados. Estes referem-se    à &ldquo;necessidade de envolvimento local&rdquo; nas decisões (79&#8197;%, e.&#8197;g<i>.</i>    &ldquo;ninguém se dignou a ir falar com proprietários ou agricultores&rdquo;), à ideia de    que a conservação da natureza vem &ldquo;dificultar o desenvolvimento económico&rdquo; das    comunidades (74&#8197;%, e.&#8197;g. &ldquo;não poder abrir estradas que ligam povoações&rdquo;)    e ao &ldquo;desajustamento das políticas&rdquo; ao contexto local (71&#8197;%,<i> </i>e.&#8197;g.    &ldquo;Se não mobilizar a terra ela enche-se de mato e depois não dá pastagens&rdquo;) que    torna os objetivos de proteção da natureza difíceis de concretizar. Outros dois    argumentos ocorreram com menos frequência, referindo a &ldquo;tensão global-local&rdquo;    (13&#8197;%, e.&#8197;g<i>.</i> &ldquo;Faz sentido pensar em conservação da natureza    neste concelho e não só, em todos os concelhos e em todos os lados&rdquo;<a href="#4"><sup>[4]</sup></a><a name="top4"></a>)    e a &ldquo;incontrolabilidade dos fenómenos naturais&rdquo; (11&#8197;%, e.&#8197;g. &ldquo;Para    manter o agricultor tradicional que não danifica a natureza é preciso que haja    a queda pluviométrica normal&rdquo;).</p>     <p>Comparando os dois grupos (cf. <a href="#q1">Quadro 1</a>), foram principalmente    os proprietários (86&#8197;%) quem referiu o desajuste nas políticas de conservação    (<i>vs</i>. 53&#8197;% dos não proprietários, <i>Kruskal</i><i>-Wallis p</i><i>&#8197;</i>&lt;&#8197;.05),    diferenciando-se assim também pela mais frequente mobilização de conhecimento    local específico (associado ao tipo de solo, culturas, <i>etc</i>.) para contestar    a implementação das práticas propostas pelas leis. O argumento relativo à tensão    global-local foi utilizado exclusivamente pelos proprietários (24&#8197;% <i>vs</i>.    0&#8197;% dos não proprietários,<i> Kruskal-Wallis p</i><i>&#8197;</i>&lt;&#8197;.05).</p>     <p>Em suma, o primeiro tipo de análise - por argumento - mostrou que são mobilizados    pelos entrevistados argumentos quer de apoio, quer de contestação às leis, um    padrão característico de representações híbridas. Adicionalmente, as comparações    entre os dois grupos estudados evidenciaram que estes se assemelham no uso de    argumentos de apoio e se diferenciam no uso de argumentos de contestação, mais    frequentes nos proprietários.</p>     <p>Para o segundo tipo de análise - por entrevista -, contabilizámos o uso dos    argumentos em cada entrevista, de modo a examinar se estas apresentavam de forma    sistemática conteúdos representacionais contrários entre si. Esta análise, realizada    com o <i>software</i> spss versão 20.0, mostrou que na quase totalidade das    entrevistas (95&#8197;%) foi usada uma combinatória de argumentos de apoio (<i>min</i><i>&#8197;</i>=&#8197;0<a href="#5"><sup>[5]</sup></a><a name="top5"></a>;    <i>máx</i><i>&#8197;</i>=&#8197;4) e de contestação (<i>min</i><i>&#8197;</i>=&#8197;1;    <i>máx</i><i>&#8197;</i>=&#8197;4). No entanto, em média foram usados mais argumentos    de contestação (<i>m</i><i>&#8197;</i>=&#8197;2.47; <i>dp</i><i>&#8197;</i><i>=</i><i>&#8197;</i>.95)    do que de apoio (<i>m</i><i>&#8197;</i>=&#8197;1.50; <i>dp</i><i>&#8197;</i>=&#8197;.83).    Esta diferença é estatisticamente significativa apenas no caso dos proprietários    (ver <a href="#f1">Figura 1</a>), que em média usam duas vezes mais argumentos    de contestação do que de apoio (<i>m<sub>apoio</sub></i><i>&#8197;</i>=&#8197;1.28;    <i>dp</i><i>&#8197;</i>=&#8197;.72; <i>m<sub>contestação</sub></i><i>&#8197;</i>=&#8197;2.76;    <i>dp</i><i>&#8197;</i>=&#8197;.99; <i>Kendall’s</i><i> Coef.</i> <i>p</i><i>&#8197;</i>&lt;&#8197;.000)    por entrevista; no caso dos não proprietários, os valores encontrados são estatisticamente    equivalentes (<i>m<sub>apoio</sub></i><i>&#8197;</i>=&#8197;1.76; <i>dp</i><i>&#8197;</i>=&#8197;.90;    <i>m<sub>contestação</sub></i><i>&#8197;</i>=&#8197;2.12; dp<i>&#8197;</i>=&#8197;.78;    <i>Kendall’s</i><i> Coef.</i> <i>n.</i><i>&#8197;</i><i>s</i>.).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f1"></a><img src="/img/revistas/aso/n229/229a08f1.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>As diferenças entre os grupos são também significativas: em média os proprietários    recorrem a uma variedade menor de argumentos de apoio (<i>Kruskal</i><i>-Wallis    p</i><i>&#8197;</i>&lt;&#8197;.10) e maior de argumentos de contestação (<i>Kruskal</i><i>-Wallis    p</i><i>&#8197;</i>&lt;&#8197;.05) do que os não proprietários (cf. <a href="#f1">Figura    1</a>).</p>     <p>Discussão</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As análises efetuadas ilustram a circulação nas comunidades locais estudadas    de representações sociais híbridas, onde coexistem argumentos de apoio e de    resistência às leis de proteção da biodiversidade. Este padrão é semelhante    para os dois grupos de residentes aqui comparados, embora sejam de assinalar    também algumas diferenças entre eles. Vamos começar por discutir os aspetos    em que os grupos convergem.</p>     <p>Na dimensão de apoio às leis, destacou-se a elevada mobilização de um acordo    genérico com a proteção das espécies, que remete para o valor intrínseco da    natureza, em contraste com a muito reduzida adesão aos motivos de bem-estar,    usufruto e lazer como justificação para as leis de conservação. Este resultado    indica que o apoio em geral às leis de conservação é conjugado com um afastamento    do que as leis propõem como alternativa à visão produtiva do rural (Figueiredo,    2009) e que poderia eventualmente integrar uma perspetiva multifuncional da    paisagem com contributos para a conservação das espécies (Pinto-Correia et al.,    2014). Assim, embora cerca de um terço dos entrevistados associe a conservação    da biodiversidade à proteção de características e recursos locais, não é ainda    visível nestes resultados um projeto local que simultaneamente ancore nos valores    de conservação e supere a dicotomia produção <i>vs</i>. lazer.</p>     <p>Além disso, entre os obstáculos à proteção da biodiversidade identificados,    os argumentos mais comuns - a falta de envolvimento da comunidade e os constrangimentos    ao desenvolvimento que impõe - são mencionados em uníssono pelos dois grupos    locais. Podemos portanto considerar que há um conjunto de argumentos de apoio    e contestação às leis de conservação que emerge de forma transversal nos discursos    locais aqui analisados e que se organiza para reivindicar o envolvimento das    comunidades locais na (re-) definição das leis e ancorar a definição do rural    nos valores de desenvolvimento e progresso mais do que nos de bem-estar e lazer.</p>     <p>Também se encontraram diferenças entre os dois grupos. O discurso dos proprietários    congregou mais argumentos de contestação do que de apoio às leis, enquanto nos    não proprietários os dois tipos de argumento foram usados em número equivalente.    Verificou-se também que os proprietários inquiridos recorreram a um leque maior    de argumentos de contestação do que os não proprietários, tendo-se identificado    um argumento usado exclusivamente pelos proprietários, o relativo à tensão entre    os níveis global e local (ver também Mouro, 2011). Estes resultados indicam    haver uma construção da resistência às leis mais elaborada por parte dos proprietários,    grupo que se diferencia também pelo uso de mais argumentos ancorados em conhecimento    específico e localizado para salientar desajustes ao contexto local no que é    proposto pela lei.</p>     <p>Em suma, este primeiro estudo ilustra o recurso, por parte das comunidades    locais afetadas por estas leis, a representações híbridas das leis de conservação.    Ele indica que estas representações assumem um elevado grau de partilha nos    discursos locais aqui estudados e, em alguns casos, também diferenciam os grupos    aqui comparados. Esta diferenciação mostrou como os formatos argumentativos    usados estão ajustados a inscrições sociais que refletem diferentes níveis de    relação com as leis: os proprietários, grupo mais diretamente afetado pelas    leis de conservação, mobilizaram mais argumentos de contestação e ancorados    em conhecimento local específico (Dinnie et al., 2015) do que os não proprietários.    Assim, e apesar das limitações ao nível da amostra usada, que era maioritariamente    masculina e com elevada escolaridade, as análises realizadas corroboram a importância    de comparar grupos locais afetados distintamente pelas leis.</p>     <p>Uma outra forma de avaliar as consequências das representações em circulação    para a mudança ou resistência às leis consiste em averiguar o papel dos argumentos    usados na intenção de apoiar as mesmas leis na esfera pública local. O segundo    estudo pretende, assim, mapear a relação entre as representações, os grupos    que as mobilizam e a adesão a ações públicas na comunidade, recorrendo a uma    amostra alargada dos residentes nas comunidades rurais inquiridas.</p>     <p>ESTUDO 2 - Representações e ações públicas na esfera local</p>     <p>Neste estudo avaliamos se os argumentos identificados no Estudo 1 contribuem    para prever a adesão a ações públicas locais de apoio às leis, testando se este    contributo difere para argumentos mais e menos consensuais, i.&#8197;e., usados    pelos dois ou apenas um dos grupos estudados: proprietários e não proprietários.    No caso dos argumentos consensuais, assumimos que eles materializam projetos    comuns a ambos os grupos e antecipamos que tenham um papel similar na intenção    de proprietários e não proprietários de apoiar as leis. Por sua vez, para argumentos    não consensuais, que veiculam reivindicações mais específicas de um dos grupos,    espera-se encontrar diferenças entre os dois grupos. Mais concretamente, e porque    os proprietários mostraram ter maior capacidade de uso destes argumentos, espera-se    que um argumento não consensual seja melhor preditor da intenção de apoiar publicamente    as leis no grupo de proprietários do que nos outros residentes.</p>     <p>Assim, e por outras palavras, prevemos que haja um efeito de moderação do grupo    local na relação entre argumentos e intenção de apoiar publicamente as leis    quando se trata de argumentos não consensuais, mas não para os argumentos consensuais.    Iremos averiguar isto para os dois <i>argumentos consensuais</i> mais frequentes    nas entrevistas, um de apoio, a &ldquo;proteção das espécies&rdquo;, e outro de contestação,    a &ldquo;necessidade de envolvimento local&rdquo; nas decisões institucionais. No caso dos    <i>argumentos não consensuais</i>, o Estudo 1 identificou apenas argumentos    de contestação e optámos pelo que emergiu como exclusivo dos proprietários e    que acentua a &ldquo;tensão global-local&rdquo;. Para este argumento, prevê-se que quanto    mais os proprietários minimizem a gravidade dos problemas ambientais ao nível    local, em comparação com o nível global (Lima e Castro, 2005), menor será a    sua disponibilidade para apoiar publicamente as leis.</p>     <p>A proposta acima pressupõe que a (re)construção de significados - neste caso,    sobre a conservação da biodiversidade e as leis que a regulam - ocorre não apenas    nas relações entre a esfera legal e a esfera local, mas também nas dinâmicas    locais através da procura de informação e conversação com outros na comunidade    (Devine-Wright, 2009). Neste segundo estudo vamos então examinar como o nível    de exposição dos residentes à diversidade de argumentos em circulação (Elcheroth    et al., 2011) intervém na sua decisão sobre a ação. Concretamente, avalia-se    como a <i>procura de informação sobre as leis</i> contribui para prever a intenção    de as apoiar publicamente, explorando se esta associação difere para os grupos    aqui comparados. O facto de a maioria dos argumentos identificados no Estudo    1 serem comuns aos dois grupos inquiridos leva-nos a antecipar que a procura    e troca de informação sobre estas leis sejam processos com um papel similar    sobre a intenção de apoio em ambos os grupos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Finalmente, importa definir as ações públicas a considerar. Estudos anteriores    em zonas Natura 2000 no Alentejo e Algarve (Mouro, 2011) mostraram haver uma    associação mais forte entre representações e a adesão a práticas de conservação    no grupo dos proprietários, comparando com não proprietários. No entanto, como    referimos acima, estes resultados poderiam ser explicados pelo facto de algumas    das práticas avaliadas nestes estudos serem mais específicas do grupo de proprietários.    De facto, a pesquisa sobre a receção às leis de conservação tem-se debruçado    muitas vezes sobre a adesão (1) a práticas próprias de determinados grupos,    como é o caso das práticas agrícolas (Carolino, 2010; Mouro e Castro, 2010)    e piscatórias (Delicado et al., 2012), ou (2) a práticas que expressam uma posição    de desacordo face às leis, como a intenção de protesto (Mouro, 2011). Assim,    na presente pesquisa selecionámos ações de apoio público às leis que podem ser    tidas pela comunidade em geral - de que são exemplo petições a favor das zonas    protegidas -, o que nos permite comparar a relação entre representação e disponibilidade    para a apoiar as leis em diferentes grupos locais.</p>     <p>Em suma, neste segundo estudo pretendemos averiguar como (1) argumentos consensuais    e não consensuais e (2) a procura de informação na comunidade (3) contribuem    para prever a intenção de aderir a ações públicas de apoio às leis que possam    ser colocadas em prática por ambos os grupos aqui estudados.</p>     <p>Método</p>     <p>Participantes</p>     <p>Realizou-se um inquérito telefónico a 600 residentes, com 18 ou mais anos,    nas três áreas de intervenção do projeto já referidas. A amostra era assim composta    por 225 participantes da zona de Castro Verde (38&#8197;%), 152 do Vale do Guadiana    (25&#8197;%) e 223 da zona de Mourão/Moura/Barrancos (37&#8197;%). O método    de amostragem utilizado foi o da representatividade por quotas, com base nas    proporções encontradas no ine (Censos, 2001) para as categorias Sexo, Idade    e Situação profissional por freguesia.</p>     <p>A maioria dos participantes (54&#8197;%) era do sexo feminino. A média de idades    para o total da amostra rondou os 49 anos (<i>dp</i><i>&#8197;</i>=&#8197;18    anos) e, quanto à situação profissional, 50&#8197;% dos participantes no inquérito    estava no ativo. O tempo de residência na localidade era em média de 35 anos.    Um terço dos participantes tinha até à escolaridade primária completa, outro    terço completou entre cinco e nove anos de escolaridade e o último terço tinha    escolaridade superior ao 9.º ano. As três zonas apresentam uma distribuição    semelhante dos participantes por grupo etário (<i>&#967;<sup>2</sup></i><sup>    </sup>(10)&#8197;=&#8197;6.642, <i>n.</i><i>&#8197;</i><i>s</i>.), situação    profissional (<i>&#967;<sup>2</sup></i><sup> </sup>(2)&#8197;=&#8197;.510, <i>n.</i><i>&#8197;</i><i>s</i>.),    tempo de residência (<i>f</i> (2,599)&#8197;=&#8197;1.270, <i>n.</i><i>&#8197;</i><i>s</i>.)    e nível de escolaridade (<i>&#967;<sup>2</sup></i><sup> </sup>(8)&#8197;=&#8197;7.342,    <i>n.</i><i>&#8197;</i><i>s</i>.).</p>     <p>A percentagem de proprietários, 28.3&#8197;% da amostra (<i>n</i><i>&#8197;</i>=&#8197;170),    era também equivalente para as três zonas. Destes, 40&#8197;% eram proprietários    de terrenos com dimensões co mpreendidas entre os 10<i> </i>e os 250<i> </i>hectares.    Procedeu-se à comparação das características sociodemográficas de proprietários    e não proprietários, para averiguar possíveis diferenças estruturais entre os    grupos. Verificou-se não haver diferenças significativas por grupo etário (<i>&#967;<sup>2</sup></i><sup>    </sup>(5)&#8197;=&#8197;10.495, <i>n.</i><i>&#8197;</i><i>s</i>.) e níveis de    escolaridade (<i>&#967;<sup>2</sup></i><sup> </sup>(6)&#8197;=&#8197;9.496,    <i>n.</i><i>&#8197;</i><i>s.</i>). O grupo de proprietários era composto por    menos mulheres (43&#8197;% <i>vs</i>. 58&#8197;%; <i>&#967;<sup>2</sup></i><sup>    </sup>(1)&#8197;=&#8197;11.323, <i>p</i><i>&#8197;</i>&lt;&#8197;.01) e por    mais pessoas no ativo (58&#8197;% <i>vs</i>. 47&#8197;%; <i>&#967;<sup>2</sup></i><sup>    </sup>(1)&#8197;=&#8197;5.925, p&#8197;&lt;&#8197;.05) do que o grupo de não    proprietários.</p>     <p>Procedimento</p>     <p>Os dados foram recolhidos com recurso a um questionário estruturado. As variáveis    e os itens utilizados no estudo são apresentados de modo detalhado no <a href="#q2">quadro    2</a> e operacionalizam as seguintes dimensões de análise:</p>     <p>(a) <i>Argumentos consensuais</i> na comunidade: de apoio (&ldquo;proteção das espécies&rdquo;)    e de contestação (&ldquo;necessidade de envolvimento local&rdquo; nas decisões)</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>(b) <i>Argumento não consensuais</i> na comunidade: de contestação (&ldquo;tensão    global-local&rdquo;)<a href="#6"><sup>[6]</sup></a><a name="top6"></a></p>     <p>(c) Procura de informação que permite aceder à diversidade de representações    a circular na comunidade</p>     <p>Estas variáveis foram consideradas como preditoras da intenção de apoio público    às leis de conservação (<a href="#q2">Quadro 2</a>).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="q2"></a><img src="/img/revistas/aso/n229/229a08q2.jpg"/></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Resultados</p>     <p>Realizou-se uma regressão múltipla tendo como variável critério a intenção    de apoiar publicamente as leis. Nesta análise foi testado o efeito moderador    do grupo local sobre a relação entre as variáveis preditoras (<a href="#q2">Quadro    2</a>) e a intenção de apoio. Esta análise foi efetuada controlando o papel    das variáveis sociodemográficas correlacionadas significativamente com a variável    critério, nomeadamente a escolaridade dos participantes (<i>r</i><i>&#8197;</i>=&#8197;-.08,    <i>p</i><i>&#8197;</i>&lt;&#8197;.05) e a extensão dos terrenos indicada pelos    proprietários (<i>r</i><i>&#8197;</i>=&#8197;-.24, <i>p</i><i>&#8197;</i>&lt;&#8197;.000).    As moderações foram colocadas no último passo do modelo, recorrendo ao método    <i>step-wise</i> de modo a serem apresentadas apenas as interações estatisticamente    significativas. É o resultado deste último passo que apresentamos no <a href="#q3">Quadro    3</a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="q3"></a><img src="/img/revistas/aso/n229/229a08q3.jpg"/></p>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Globalmente, o conjunto de variáveis em análise contribuiu para explicar cerca    de 35&#8197;% da variância das respostas relativas à intenção de apoio público    às leis (<a href="#q3">Quadro 3</a>). Tal como esperado, o contributo dos <i>argumentos    consensuais</i> - &ldquo;proteção das espécies&rdquo; e &ldquo;necessidade de envolvimento local&rdquo;    - para um maior apoio público às leis não se diferencia por grupo local.</p>     <p>Também como esperado, o <i>argumento não consensual</i>, relativo à &ldquo;tensão    global-local&rdquo;, assume um peso distinto consoante o grupo, sendo significativo    o efeito de moderação previsto (<i>b</i><i>&#8197;</i>=&#8197;-.129, <i>p</i><i>&#8197;</i>&lt;&#8197;.001).    Este argumento tem impacto apenas na intenção dos proprietários, que estão menos    dispostos a aderir a ações públicas de apoio às leis de conservação quando desacentuam    a gravidade dos problemas ambientais locais face aos globais (<i>b</i><i>&#8197;</i>=&#8197;-.245,    <i>p</i><i>&#8197;</i>&lt;&#8197;.000). No caso dos não proprietários, esta    relação não é estatisticamente significativa (<i>b</i><i>&#8197;</i>=&#8197;-.019,    <i>n.</i><i>&#8197;</i><i>s.</i>).</p>     <p>A procura de informação tem um papel positivo na intenção de apoio (<i>b</i><i>&#8197;</i>=&#8197;.333,    <i>p</i><i>&#8197;</i>&lt;&#8197;.000), que não se diferencia por grupo local.    Assim, quanto maior a procura de informação e exposição à diversidade de ideias    a circular na comunidade, maior a intenção dos residentes de aderir às ações    públicas de apoio.</p>     <p>Discussão</p>     <p>Este segundo estudo examinou como conteúdos representacionais que angariam    diferentes graus de consenso nos discursos locais contribuem para a intenção    de apoiar publicamente as leis de conservação. Os resultados evidenciaram que    argumentos consensuais têm um papel similar nas decisões de proprietários e    não proprietários, o que corrobora a proposta de constituírem elementos partilhados    das representações em circulação. Por sua vez, o argumento não consensual, que    diferenciou os grupos no Estudo 1, teve aqui um peso significativo também apenas    nas escolhas do grupo que o mobilizou, os proprietários. Este era um argumento    de contestação, o que reforça a conclusão já avançada no estudo anterior de    que é no grupo de proprietários que encontramos um formato de resistência mais    elaborado face às leis de conservação.</p>     <p>Além disso, explorámos o contributo de processos representacionais orientados    para a procura e troca de informação na comunidade para a intenção de adotar    ações de apoio às leis. O resultado encontrado indica que a conversação sobre    as zonas protegidas favorece ações públicas de apoio às leis e que este processo    é similar para os dois grupos. Assumindo que estes são processos determinantes    para que a mudança nas representações e práticas ocorra (Devine-Wright, 2009;    Elcheroth et al., 2011), este resultado mostra que os debates sobre as leis    a nível local podem ter um papel muito relevante no apoio às políticas públicas.</p>     <p>Em suma, este segundo estudo, no qual inquirimos uma amostra alargada das comunidades    locais, corrobora resultados do estudo anterior e reforça a importância de comparar    diferentes grupos locais para melhor compreender o ritmo e a direção da mudança.    Não obstante, a comparação aqui efetuada partiu de grupos definidos <i>a priori</i>,    não esgotando a possibilidade de haver outras distinções igualmente úteis (e.&#8197;g.    caçadores e gestores de caça, Dinnie et al. 2015) para diferenciar a forma como,    dentro das comunidades, as pessoas respondem às políticas de conservação. Além    disso, por constrangimentos no tempo de aplicação, foram usados indicadores    com poucos itens, o que torna relevante replicar os resultados obtidos com medidas    mais robustas.</p>     <p>Conclusões</p>     <p>Esta pesquisa pretendeu contribuir para caracterizar as dinâmicas locais de    apoio e resistência às leis de conservação da biodiversidade nas comunidades    residentes em zonas Natura 2000, comparando grupos locais que são afetados de    modo distinto por estas leis: proprietários e não proprietários. Apesar de ser    ao nível local que a perda da biodiversidade pode efetivamente ser travada,    a relação das comunidades locais com as leis que regulam a rede Natura tem sido    examinada principalmente a partir do conflito entre os níveis institucional/legal    e local (Abecasis et al., 2013; Delicado et al., 2012, 2015; Paavola, 2004;    Sumares e Fidélis, 2009), tendo havido pouca atenção às dinâmicas entre os vários    grupos que compõem a esfera local.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Procurando contribuir para colmatar esta lacuna na literatura, os dois estudos    apresentados centraram-se sobre processos psicossociais que sustentam dinâmicas    locais e compararam proprietários e não proprietários a comunicar sobre as novas    leis. Corroborando estudos anteriores (Mouro e Castro, 2012; Pereira et al.,    2014), o padrão argumentativo identificado, em grande medida partilhado pelos    dois grupos, concede um apoio genérico às leis enquanto reivindica maior envolvimento    da comunidade na redefinição das mesmas e projeta como um objetivo importante    para o futuro da comunidade o desenvolvimento económico. O consenso que estas    representações híbridas angariam a nível local sugere que os grupos se coordenam    para expressar um projeto comum para as suas comunidades (Corson et al., 2014),    que neste caso resiste às reconfigurações do espaço rural de zonas produtivas    para zonas (exclusivamente) de lazer e bem-estar (Figueiredo, 2009), e que lhes    confere um papel ativo nas decisões sobre o seu futuro (Castro e Mouro, 2016;    Dinnie et al., 2015).</p>     <p>Identificámos também indicadores de uma resistência mais elaborada e consistente    por parte dos proprietários. Concretamente, este grupo recorre a mais argumentos    de contestação e a uma estratégia de desacentuar a necessidade de conservação    ao nível local (ver também Mouro e Castro, 2012) que não emergiu nos não proprietários.    Neste sentido, os proprietários apresentaram-se como o grupo com maior capacidade    de mobilizar diferentes tipos de argumento face à aplicação das leis. Como ficou    patente nesta pesquisa, uma das consequências para a mudança social desta configuração    representacional, composta por mais elementos de resistência, é a de tornar    mais complexa a relação entre as representações e a intenção de apoio às leis    neste grupo. Por outras palavras, pelo facto de terem posições face às leis    mais complexas, com mais fatores a intervir na sua decisão de atuar em defesa    das leis, torna-se mais difícil prever e incentivar o apoio às leis no grupo    de proprietários.</p>     <p>A adoção de uma abordagem comparativa e multi-método contribuiu para avançar    na compreensão destas dinâmicas locais. Por um lado, no seu conjunto, a pesquisa    realizada mostrou que os proprietários são o grupo que mais recorre a argumentos    de resistência e contestação, embora se verifique que estes argumentos são em    grande medida conhecidos pelos outros residentes, sugerindo uma mobilização    dos dois grupos em torno de um projeto comum. Conhecer as expectativas e interesses    do nível local pode ajudar a estabelecer diálogos entre visões alternativas    e (re)criar políticas e leis mais adaptadas ao contexto e incentivando o envolvimento    local na geração de soluções (Anderson et al., 2017; Pinto-Correia et al., 2006).    Um exemplo desse contributo para a conservação da biodiversidade poderá passar    pela manutenção/ criação de paisagens multifuncionais, um formato de gestão    do território que ancora em características contextuais e em conhecimento local;    no entanto, a manutenção de uma visão produtivista do território (visível no    Estudo 1) pode colocar em causa o sucesso deste tipo de solução (Pinto-Correia    et al., 2014). Neste sentido, seria também relevante, em estudos futuros, averiguar    o modo como as dinâmicas locais afetam e são afetadas pelas representações e    ações relativas a outras políticas que incluem regulamentação para a conservação    da biodiversidade na paisagem rural, como a Política Agrícola Comum.</p>     <p>Por outro lado, esta pesquisa contribuiu também para destacar a importância    da conversação e exposição à diversidade de argumentos em circulação a nível    local para a decisão de apoiar políticas públicas. Assim, as interações locais    podem contribuir para disseminar e consolidar a expressão de resistência a novas    leis de conservação - como ilustrámos no Estudo 1 e Carolino (2010) tinha também    sugerido relativamente às políticas agro-ambientais -, mas também ter um papel    positivo na adesão às ações de apoio público às leis (Estudo 2).</p>     <p>Em suma, conhecer os conteúdos e processos que organizam os encontros na esfera    pública local permite-nos compreender melhor quais os promotores de negociação    e transformação das representações e ações locais (Batel e Devine-Wright, 2015;    Jovchelovitch, 2007). Examinar consensos e a expressão de formas híbridas de    argumentação contribuiu para identificarmos os elementos que, num determinado    momento, mais concorrem para o apoio e resistência locais à direção apontada    pelas leis. E também para refletirmos sobre o facto de que um acordo genérico    com as leis, que se apresenta destituído das vivências locais, encerra em si    mesmo possibilidades de resistência. No caso da rede <i>Natura 2000</i>, este    pode ser um indicador de como as fronteiras entre o social e o natural, instituídas    e reificadas nas leis por exemplo através do dilema produção <i>vs</i>. lazer,    dificultam a emergência de discursos, narrativas e práticas locais alternativas,    que consigam ir para além desta dicotomia.<a href="#7"><sup>[7]</sup></a><a name="top7"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>     <p>ABECASIS, R.&#8197;C. et al. (2013), &ldquo;Implications of community and stakeholder    perceptions of the marine environment and its conservation for MPA management    in a small Azorean island.&rdquo; <i>Ocean</i><i> and Coastal Management</i>, 84,    pp. 208-219.</p>     <p>ANDERSON, N.&#8197;M., Ford, R.&#8197;M., Williams, K.&#8197;J. (2017), &ldquo;Contested    beliefs about land-use are associated with divergent representations of a rural    landscape as place&rdquo;. <i>Landscape</i><i> and Urban Planning</i>, 157, pp. 75-89.</p>     <p>BATEL, S., Devine-Wright, P. (2015), &ldquo;Towards a better understanding of people’s    responses to renewable energy technologies: Insights from Social Representations    Theory&rdquo;. <i>Public</i><i> Understanding of Science</i>, 24(3), pp. 311-325.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>BAUER, M.&#8197;W. (2002), &ldquo;Análise de conteúdo clássica: uma revisão&rdquo;. <i>In</i>    M. Bauer, G. Gaskell (eds.), <i>Pesquisa Qualitativa com Texto, Imagem e Som:    Um Manual Prático</i>, Petrópolis, RJ, Vozes, pp. 189-217.</p>     <p>BAUER, M.&#8197;W., Gaskell, G. (2008), &ldquo;Social representations theory: a progressive    research programme for social psychology&rdquo;. <i>Journal</i><i> for the Theory    of Social Behaviour</i>, 38(4), pp. 335-353.</p>     <p>BERTOLDO, R., Castro, P., Bousfield, A.&#8197;B.&#8197;S. (2014), &ldquo;Pro-environmental    beliefs and behaviors: two levels of response to environmental social norms&rdquo;.    <i>Revista Latinoamericana de Psicología</i>, 45(3), pp. 437-448.</p>     <p>BONAIUTO, M. et al. (2002), &ldquo;Local identity processes and environmental attitudes    in land use changes: The case of natural protected areas&rdquo;. <i>Journal</i><i>    of Economic Psychology</i>, 23(5), pp. 631-653.</p>     <p>BRYAN, S. (2012), &ldquo;Contested boundaries, contested places: The Natura 2000    network in Ireland&rdquo;. <i>Journal</i><i> of Rural Studies</i>, 28(1), pp. 80-94.</p>     <p>BUIJS, A., Hovardas, T., Figari, H., et al. (2012), &ldquo;Understanding people’s    ideas on natural resource management: research on social representations of    nature&rdquo;. <i>Society</i><i> and Natural Resources</i>, 25(11), pp.1167-1181.</p>     <p>CAROLINO, J. (2010), &ldquo;The social productivity of farming: a case study on landscape    as a symbolic resource for place-making in Southern Alentejo, Portugal&rdquo;. <i>Landscape</i><i>    Research</i>, 35(6), pp. 655-670.</p>     <p>CASTRO, P. (2012), &ldquo;Legal innovation for social change: exploring change and    resistance to different types of sustainability laws&rdquo;. <i>Political</i><i> Psychology</i>,    33, pp. 105-121.</p>     <p>CASTRO, P., Batel, S. (2008), &ldquo;Social representation, change and resistance:    on the difficulties of generalizing new norms&rdquo;. <i>Culture</i><i> and Psychology</i>,    14(4), pp. 475-497.</p>     <p>CASTRO, P., Mouro, C. (2011), &ldquo;Psycho-social processes in dealing with legal    innovation in the community: Insights from biodiversity conservation&rdquo;. <i>American    Journal of Community Psychology</i>, 47, pp. 362-373.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>CASTRO, P., Mouro, C., gouveia, R. (2012), &ldquo;The conservation of biodiversity    in protected areas: Comparing the presentation of legal innovations in the national    and the regional press&rdquo;. <i>Society</i><i> and Natural Resources</i>, 25, pp.    539-555.</p>     <p>CASTRO, P., Mouro, C. (2016), &ldquo;‘Imagining ourselves’ as participating publics:    an example from biodiversity conservation&rdquo;. <i>Public</i><i> Understanding of    Science</i>, 25(7), pp. 858-872.</p>     <p>CORSON, C., Gruby, R., Witter, R., et al. (2014), &ldquo;Everyone’s solution? Defining    and redefining protected areas at the convention on biological diversity&rdquo;. <i>Conservation</i><i>    and Society</i>, 12(2), pp. 190-202.</p>     <p>DELICADO, A. et al. (2012), &ldquo;Pescadores, conhecimento local e mudanças costeiras    no litoral Português&rdquo;. <i>Revista de Gestão Costeira Integrada</i>, 12(4), pp.    437-451.</p>     <!-- ref --><p>DELICADO, A., Truninger, M., Figueiredo, E., et al. (2015), <i>Terras de Sol    e de Vento: Dinâmicas Sociotécnicas e Aceitação Social das Energias Renováveis    em Portugal</i>, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=105816&pid=S0003-2573201800040000800018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>DEVINE-WRIGHT, P. (2009), &ldquo;Rethinking nimbyism: The role of place attachment    and place identity in explaining place-protective action&rdquo;. <i>Journal</i><i>    of Community and Applied Social Psychology</i>, 19(6), pp. 426-441.</p>     <p>DINNIE, E., Fischer, A., Huband, S. (2015). &ldquo;Discursive claims to knowledge:    the challenge of delivering public policy objectives through new environmental    governance arrangements&rdquo;. <i>Journal</i><i> of Rural Studies</i>, 37, pp. 1-9.</p>     <p>ELCHEROTH, G., Doise, W., Reicher, S. (2011), &ldquo;On the knowledge of politics    and the politics of knowledge: How a social representations approach helps us    rethink the subject of political psychology&rdquo;. <i>Political</i><i> Psychology</i>,    32(5), pp. 729-758.</p>     <p>FIGUEIREDO, E. (2009). &ldquo;One rural, two visions - Environmental issues and images    on rural areas in Portugal&rdquo;. <i>European</i><i> Countryside</i>, 1(1), pp. 9-21.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>HOVARDAS, T., Korfiatis, K.&#8197;J., Pantis, J.&#8197;D. (2009), &ldquo;Environmental    representations of local communities’ spokespersons in protected areas&rdquo;. <i>Journal</i><i>    of Community and Applied Social Psychology</i>, 19(6), pp. 459-472.</p>     <p>HOVARDAS, T., Korfiatis, K.&#8197;J. (2008), &ldquo;Framing environmental policy    by the local press: Case study from the Dadia Forest Reserve, Greece&rdquo;. <i>Forest    Policy and Economics</i>, 10(5), pp. 316-325.</p>     <p>JASPAL, R., Nerlich, B., Cinnirella, M. (2014), &ldquo;Human responses to climate    change: Social representation, identity and socio-psychological action&rdquo;. <i>Environmental    Communication</i>, 8(1), pp. 110-130.</p>     <p>LIMA, M.&#8197;L., Castro, P. (2005). &ldquo;Cultural theory meets the community:    worldviews and local issues&rdquo;. <i>Journal</i><i> of Environmental Psychology</i>,    25(1), pp. 23-35.</p>     <p>MOSCOVICI, S. (1988), &ldquo;Notes towards a description of social representations&rdquo;.    <i>European</i><i> Journal of Social Psychology</i>, 18(3), pp. 211-250.</p>     <!-- ref --><p>MOURO, C. (2011). <i>Perspectivas Locais sobre a Conservação da Biodiversidade:    Representações e Dinâmicas Identitárias Associadas a Inovações Legais</i>. Tese    de doutoramento, Lisboa, Instituto Universitário de Lisboa, ISCTE-IUL. <a href="https://repositorio.iscte-iul.pt/handle/10071/9980" target="_blank">https://repositorio.iscte-iul.pt/handle/10071/9980</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=105827&pid=S0003-2573201800040000800028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>MOURO, C., Castro, P. (2010), &ldquo;Local communities responding to ecological challenges    - A psycho-social approach to the Natura 2000 Network&rdquo;. <i>Journal</i><i> of    Community and Applied Social Psychology</i>, 20(2), pp. 139-155.</p>     <p>MOURO, C., Castro, P. (2012), &ldquo;Cognitive polyphasia in the reception of legal    innovations for biodiversity conservation&rdquo;. <i>Papers</i><i> on Social Representations</i>,    21(1), pp. 3.1-3.21.</p>     <!-- ref --><p>JOVCHELOVITCH, S. (2007), <i>Knowledge</i><i> in Context: Representations,    Community and Culture</i>, Londres, UK, Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=105830&pid=S0003-2573201800040000800031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>PAAVOLA, J. (2004), &ldquo;Protected areas governance and justice: theory and the    European Union’s Habitats Directive&rdquo;. <i>Environmental Sciences</i>, 1(1), pp.    59-77.</p>     <p>PEREIRA, M. et al. (2014), &ldquo;Conflitos territoriais em áreas protegidas de pequenas    ilhas: a &ldquo;ilha montanha&rdquo; do Pico (Açores-Portugal)&rdquo;. <i>Revista de Geografia    e Ordenamento do Território</i>, 1(5), pp. 207-231.</p>     <p>PINTO-CORREIA, T., Gustavsson, R., Pirnat, J. (2006), &ldquo;Bridging the gap between    centrally defined policies and local decisions-Towards more sensitive and creative    rural landscape management&rdquo;. <i>Landscape</i><i> Ecology</i>, 21(3), pp. 333-346.</p>     <p>PINTO-CORREIA, T., Menezes, H., Barroso, L.&#8197;F. (2014), &ldquo;The landscape    as an asset in Southern European fragile agricultural systems: contrasts and    contradictions in land managers attitudes and practices&rdquo;. <i>Landscape</i><i>    Research</i>, 39(2), pp. 205-217.</p>     <p>ROSA, H.&#8197;D., Silva, J.&#8197;M. (2005), &ldquo;From environmental ethics to    nature conservation policy: Natura 2000 and the burden of proof&rdquo;. <i>Journal</i><i>    of Agricultural and Environmental Ethics</i>, 18(2), pp. 107-130.</p>     <p>STOLL-KLEEMANN, S. (2001), &ldquo;Barriers to nature conservation in Germany: a model    explaining opposition to protected areas&rdquo;. <i>Journal</i><i> of Environmental    Psychology</i>, 21(4), pp. 369-385.</p>     <p>SUMARES, D., Fidélis, T. (2009), &ldquo;Local perceptions and postures towards the    spa ‘Ria de Aveiro’&rdquo;. <i>Journal</i><i> of Integrative Environmental Sciences</i>,    6(2), pp. 121-137.</p>     <p>VALA, J., et al. (1998), &ldquo;Validation of polemical social representations: introducing    the intergroup differentiation of heterogeneity&rdquo;. <i>Social Science Information</i>,    37(3), pp. 469-492.</p>     <p>VALA, J., Castro, P. (2013), &ldquo;Pensamento social e representações sociais&rdquo;.    <i>In</i> J. Vala, M.&#8197;B. Monteiro (orgs.), <i>Psicologia Social</i>, Lisboa,    Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 569-602.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Recebido a 15-01-2016. </b></p>     <p><b>Aceite para publicação a 15-06-2018.</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#top1"><sup>[1]</sup></a><a name="1"></a><a href="http://ec.europa.eu/environment/nature/natura2000/index_en.htm" target="_blank">http://ec.europa.eu/environment/nature/natura2000/index_en.htm</a></p>     <p><a href="#top2"><sup>[2]</sup></a><a name="2"></a> <a href="http://www.icnf.pt/portal/naturaclas/rn2000" target="_blank">http://www.icnf.pt/portal/naturaclas/rn2000</a></p>     <p><a href="#top3"><sup>[3]</sup></a><a name="3"></a> <a href="http://www.lifeesteparias.lpn.pt/" target="_blank">http://www.lifeesteparias.lpn.pt/</a></p>     <p><a href="#top4"><sup>[4]</sup></a><a name="4"></a> A designação usada remete    para um processo psicossocial estudado em psicologia ambiental, que consiste    no balanço entre a preocupação ambiental expressa quando considerados os níveis    local e global (Lima e Castro, 2005). O argumento identificado neste estudo    manifesta preocupação com o nível local, mas faz depender a aprovação da regulamentação    para este nível da sua generalização para um nível mais global, assumindo assim    um registo de resistência às novas leis - e é por isso considerado um argumento    de contestação. Já em pesquisa anterior o padrão aqui encontrado - expressar    a mesma (moderada) preocupação com os níveis local e global - emergiu como característico    de quem adota uma visão do mundo individualista, que se afasta de uma resolução    de problemas ambientais com base em regulamentação e alteração de comportamentos    (Lima e Castro, 2005).</p>     <p><a href="#top5"><sup>[5]</sup></a><a name="5"></a> Dois dos participantes não    referiram argumentos de apoio.</p>     <p><a href="#top6"><sup>[6]</sup></a><a name="6"></a> Embora os itens usados não    estejam necessariamente operacionalizados na estrutura típica de argumentos,    adotámos a mesma designação do Estudo 1 de modo a mais facilmente estabelecer    ligações interpretativas entre os dois estudos.</p>     <p><a href="#top7"><sup>[7]</sup></a><a name="7"></a> Esta pesquisa, alojada no    cis-iul [uid/psi/03125/2013] sob coordenação da segunda autora, foi parte integrante    do projeto LIFE Estepárias &ldquo;Conservação da Abetarda, Sisão e Peneireiro-das-torres    nas estepes cerealíferas do Baixo Alentejo&rdquo;. Foi financiada a 75&#8197;% pela    Comissão Europeia [LIFE07/NAT/P/654] e por uma bolsa de pós-doutoramento à primeira    autora [poch/sfrh/bpd/93564/2013]. A lista de beneficiários e co-financiadores    do projeto pode ser consultada em <a href="http://www.lifeesteparias.lpn.pt/" target="_blank">http://www.lifeesteparias.lpn.pt/</a>.</p>     ]]></body>
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