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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENSÃO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>SCHMIDT, Luísa</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Portugal: Ambientes de Mudança. Erros, Mentiras e Conquistas,</b></font></p>     <p>ISBN 9789896444181</p>     <p><b>Carlos Fortuna</b>*</p>     <p>* CES, Universidade de Coimbra, Colégio de S. Jerónimo, Apartado 3087 - 3000-995    Coimbra, Portugal, <a href="mailto:cfortuna@fe.uc.pt">cfortuna@fe.uc.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Portugal: Ambientes de Mudança. Erros, Mentiras e Conquistas </i>é um trabalho    que reúne textos de <i>natureza</i> e de <i>tempos</i> diversos publicados anteriormente    no formato de crónicas regulares do jornal <i>Expresso</i>. Textos preparados    para contextos públicos amplos, reflexões destinadas a denunciar e a alertar-nos    sobre a condição ambiental do país, com um registo ora local, ora nacional,    ora internacional, por vezes mais virados para o Estado e a sua ação, inação    e incongruências, outras vezes para a sociedade civil e as suas fraquezas e    incoerências, sempre com um tom de apelo às nossas energias para a denúncia    do mal que está o nosso ambiente, de um lado, e a nossa mobilização para a sua    urgente melhoria, do outro. Os textos agora recolhidos em livro, uns mais longos    do que outros, são, porém, inteligentemente comedidos na sua extensão.</p>     <p>É importante registar o trabalho de reedição deste material a que a autora    se entrega. O efeito final é muito positivo e acaba por conferir a esta coletânea    um estatuto que foge por completo à vulgar coleção em formato livro a que se    dedicam alguns comentadores/cronistas, entregues a manifesto exercício hedonista.    Este livro encontra-se num plano distinto e não se confunde com aquela <i>banalização</i>    da crónica/opinião jornalística. Desde logo porque nestas 400 páginas se desenrola    a história política e ambiental de um país inteiro. Atenção às escolas e às    universidades&hellip; estamos perante um inusitado retrato, quase um manual, da questão    ambiental portuguesa.</p>     <p>Na verdade, os textos deste <i>Portugal: Ambientes de Mudança</i>, recobrindo    um largo período de 25 anos, surgem atualizados através de um duplo estratagema:    por um lado, numa espécie de atualização heurística, os textos surgem aqui enquadrados    numa temática ou secção determinada e ganham assim um sentido renovado; por    outro lado, no que diria tratar-se de um palimpsesto narrativo, aquela agregação    temática gera um diálogo diacrónico feito de tempos diferenciados da condição    ambiental portuguesa, pós 1990. Desta dupla aproximação de textos resulta uma    intertextualidade que amplia os contornos de cada uma das nove temáticas escolhidas    e acaba por conferir a toda a obra uma densidade narrativa de elevadíssimo interesse.    Ao lê-la percorremos a história contada em pequenos fascículos do que foi -    e há-de ser - o futuro ambiental português.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Cada uma destas nove secções traz consigo uma oportuna introdução. Aí os leitores    são advertidos contra o que de outro modo poderia ser o estranhamento de ver    tempos desencontrados unidos por objetos ambientais diversos, mas na verdade    comuns. A esta introdução de cada temática a autora junta também uma breve resenha    a que chama &ldquo;tendências&rdquo;, na qual dá conta daquilo que melhorou, do que se mantém    mais ou menos inalterado e do que piorou nestes anos. Assim, cada secção tem    um passado, mas tem sobretudo uma determinada &ldquo;tendência&rdquo; à sua frente, quer    dizer, à nossa frente, que a autora oferece para nossa inquietação política    e intelectual. É muito rico o trajeto pelo qual a autora nos conduz. É um percurso    feito de sínteses, de datas, de personagens, de (in)eficientes dispositivos    regulatórios, de experiências pontuais e finalmente de balanços sobre a pobre    portugalidade ambiental. Mas não é tudo! A quase todos os textos agora renascidos    juntam-se umas 10 ou 20 linhas esclarecedoras do seu surgimento, a chamada &ldquo;ficha    de artigo&rdquo;. Resulta desta (re)organização dos textos que este é como um belo    livro de contos. Cada secção tem sempre um princípio, meio e fim, como fazem    os bons e breves contos, que permite que sejam lidas sofregamente na sua autonomia    própria. Chega-se sempre ao fim. Quer-se sempre passar ao texto seguinte.</p>     <p>Parece ser indiferente saber por onde começar a ler o <i>Portugal: Ambientes    de Mudança</i>. A cada passo, a cada entrada, há sempre um aprazível e esclarecedor    relato a percorrer, uma memória da nossa condição ambiental a recordar, um avanço    a reconhecer, uma denúncia pública a fazer ou uma revolta interior e coletiva    a acalentar. Se não tivermos, como sucede no meu caso pessoal, uma temática    preferida definida à partida, podemos desobedecer livremente, irreverentes,    à estrutura organizativa interna que nos é proposta. Sim, estamos autorizados,    enquanto leitores/as, a seguir aquilo que Walter Benjamin aconselhava fazer-se    com a sua própria obra: isto é, a <i>descolecionar</i> a coleção e a ler cada    capítulo isoladamente e pela ordem que muito bem desejarmos. A ser assim, começar,    por exemplo, pelo capítulo das alterações climáticas, pode desafiar-nos a prolongar    a leitura com as questões do ordenamento territorial, ou a conservação da natureza    e das florestas&hellip; não apenas as nossas, mas também as de outras latitudes. De    igual modo, quem preferir começar pela questão da água, por certo vai desejar    seguir para o desastre do nosso litoral, ou para o problema dos resíduos urbanos.</p>     <p>Ao referir-me a esta liberdade de escolha relembro uma pequena história sobre    Marshall McLuhan, o proeminente estudioso da comunicação social moderna, mais    conhecido pelo tratamento pioneiro da &ldquo;aldeia global&rdquo;. McLuhan confessou uma    vez a um jornalista que sempre que buscava na livraria um novo livro e não dispunha    de qualquer referência especial, fazia as suas escolhas depois de ler a página    69 dos possíveis livros a comprar. Porquê a página 69? Porque nessa altura,    explicou McLuhan, já entrámos no enredo a sério e a narrativa encontra-se no    seu auge. Os prolegómenos, as descrições iniciáticas, as apresentações das personagens    ficaram já para trás. Dali em diante, só nos espera a trama verdadeira, o autêntico    desenlace da história. Enfim, é a página 69 que decide se devemos ou não comprar    aquele livro. Confesso que repetidas vezes dou comigo a exercitar esta experiência.    Assim, mal abri o livro, como não podia deixar de ser, fui visitar a página    69. Deparei-me com uma daquelas páginas em papel cinzento que prenuncia leitura    sombria. Nela, todavia, encontrei uma viva descrição da evolução da natureza    dos nossos lixos urbanos e industriais e das técnicas da sua recolha. Tudo mudou,    também entre nós, lê-se, fruto da concentração urbana e do desenfreado aumento    do consumo, iniciados, uma e outro, na longínqua década de 60. Da lixeira de    Beirolas, à beira de Lisboa, ou melhor à beira do martirizado rio Tejo, passando    pelos trabalhos de preparação da Expo 98, ou da polémica da coincineração até    à recente criação dos CIRVER (Centros Integrados de Recuperação, Valorização    e Eliminação de Resíduos Perigosos) abre-se perante nós uma luminosa reflexão    sobre o caminho português dos lixos e do seu tratamento. A página 69 que era    cinzenta por fora revelava afinal um irresistível colorido por dentro, salpicado    de memórias da nossa portuguesa meninice, já que a discussão não deixa de trazer    à colação, como os sociólogos sabem fazer bem, os modos recuados de resolução    do lixo lá de casa, entregue à diligência do &ldquo;almeida&rdquo;, de vassoura em riste,    apostado em despejar o balde forrado a papel de jornal deixado à porta.</p>     <p>A descrição da autora fez-me reencontrar nesta página o lixo que a antropóloga    Mary Douglas declarou um dia não passar de natureza<i> fora do lugar</i> (<i>Purity    and Danger), </i>o que é o mesmo que afirmar que se trata de matéria eminentemente    social. Como comprovam dezenas e dezenas de estudos sobre a dimensão socioambiental    do lixo, sobretudo do lixo urbano, há vidas estruturadas e desigualdades sociais    que se desenrolam em seu redor. Casos como os do entulho derramado na beira    da estrada, a geladeira abandonada na mata, o colchão sub-repticiamente abandonado    na esquina da cidade, ou, numa nota manifestamente localista, os carrinhos de    supermercado que enxameiam o leito de tantos dos nossos rios, continuam infelizmente    a assinalar um país sujo e uma mentalidade ambiental (ou será uma cidadania?)    que carece de profunda limpeza e reciclagem. Tal como o drama das lixeiras a    céu aberto não terminou como poderíamos julgar (vejam-se as perversas microlixeiras    clandestinas), também a polémica da coincineração não foi totalmente estancada    com o surgimento da política dos &ldquo;3 Rs&rdquo;<b> </b>(Reduzir, Reutilizar e Reciclar).     <p> É no possível desencontro institucional dos reguladores e das empresas dedicadas    à questão que reside, segundo a autora, o grande risco de que tudo possa ficar    aquém do que uma cidadania ambiental deve significar.</p>     <p>O teste McLuhan não engana! Este livro tem de ser lido. O <i>Portugal: Ambientes    em Mudança</i>, <i>(Erros, Mentiras e Conquistas</i>) faz-nos desejar que a    mudança bata finalmente à porta da nossa cidadania.</p>     <p>Se alguém preferir canonicamente começar a lê-lo pelo princípio, depois de    uma curta e muito clara introdução, depara-se com as nove secções temáticas.    A primeira trata desse recurso estratégico e absolutamente crucial do nosso    futuro coletivo - a água. A abordagem está associada à análise do sistema de    esgotos e do seu tratamento. Entre os progressos alcançados nos últimos 25 anos,    entremeados com muitas incúrias e incompetências gritantes, a autora deixa-nos    um alerta para o risco de involução e retrocesso no panorama hidráulico nacional.    Nada está seguro e consolidado neste domínio, como, de resto, sucede também    em matéria tratada na segunda secção - os <i>resíduos urbanos, industriais e    hospitalares</i>.</p>     <p>A secção 3 dedica-se à questão dos &ldquo;ares, das poluições e da saúde pública&rdquo;.    <i>Stadtluft macht frei</i> - <i>os ares da cidade libertam</i> - gritavam os    camponeses alemães do séc. XIV em busca de uma cidade livre de constrangimentos    e que lhes garantisse uma vida decente. Foi um logro da história e, como se    sabe, o anunciado desejo não chegou a concretizar-se. Tal como os camponeses    de então, também nós temos de gritar, 700 anos depois, pelos mesmos desígnios    de melhoria de qualidade dos &ldquo;ares da cidade&rdquo;. Nas cidades do Portugal de hoje,    assevera-nos a autora, &ldquo;o sistema de informação pública da qualidade do ar&hellip;    perdeu qualidade por interrupção de medição e análise; algumas estações estão    desativadas e inexplicavelmente, continuam a ser &ldquo;secretos&rdquo; os dados do autocontrolo    das grandes indústrias&rdquo;. Sem informação adequada não há cidadania (ambiental    ou outra) que seja sustentável.</p>     <p>Na secção 4 <i>- &ldquo;Alterações climáticas: das emissões às políticas</i>&rdquo;&hellip; -    não é necessário descrever mesmo que a traços muito grossos os contributos das    restantes 6 secções do <i>Portugal: Ambientes de Mudança</i>. Sublinho apenas    que elas nos presenteiam com uma série de temas inadiáveis: <i>Energias: das    clássicas às renováveis; Ordenamento do Território e Paisagem; Conservação da    natureza, floresta e biodiversidade; O litoral e o mar</i>&hellip; e a terminar, <i>Cidadania,    participação e informação</i>.</p>     <p>Em síntese, este é um livro que traz consigo o entusiasmo de todos os livros    sobre a coisa pública, pois, ao longo de um pouco mais de 400 páginas, tanto    nos retrata e faz olhar para o nosso passado ambiental recente, como interpela    o nosso presente e nos desafia e <i>mobiliza</i> para ajustarmos contas com    o nosso futuro. As crónicas da Luísa Schmidt são um património tremendo de conhecimento    e militância ambiental que fazem dela uma pessoa pública e agente interventor    com décadas de ação determinada no cenário intelectual e cultural lusófono.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Resta uma palavra final sobre a alegria contida na escrita da autora. Não se    trata de escrever bem. Trata-se de o saber fazer com inegável inteligência e    perspicácia. Só quem sabe escrever assim usa a linguagem metafórica para aprofundar    os assuntos, não para os aligeirar. Sabe bem ler-se que &ldquo;nem água vai, nem água    vem&rdquo; para tratar da hidráulica portuguesa. É bom saber que &ldquo;Cá se fazem cá se    lixam&rdquo; (p. 71) a enunciar uma ajustada retórica sobre os resíduos urbanos deste    país. Ou como não nos apraz saber que &ldquo;mais vale prevenir do que apagar&rdquo; (p.    272) para referir a imperiosa necessidade de antecipar a solução e pôr termo    à tormenta dos devastadores incêndios florestais que, como o livro mostra, já    se anunciavam há muito para os anos próximos que haviam de vir.</p>      ]]></body>
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