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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Expostos e duplamente vigiados: o caso do Facebook]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[With the emergence of Facebook, as with most technological achievements, opinions have emerged ranging from the most exaggerated optimism to tremendous skepticism. The fact that its appearance is closely associated with exhibitionism and voyeurism, has been a fertile field for the development of prejudices that make it difficult to unravel its complexity. The purpose of this article is to provide a portrait of Facebook, more precisely the sketch of a portrait, depicting the values, goals, and interests that are at the origin of its development along with the social surveillance that this technological tool has made possible, and to do so in a broad way that challenges theses that point to the total novelty of this network and to the homogeneity of its uses.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Expostos e duplamente vigiados: o caso do Facebook</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Exposed and doubly watched: the case of Facebook.</b></font></p>     <p><b>Maria João Simões*, Fábio Rafael Augusto**</b></p>     <p>*&#8196;CICS.NOVA.UMinho e LabCom.IFP, Universidade da Beira Interior,&#8196;FCSH,    Estrada do Sineiro - 6200-209 Covilhã, Portugal, <a href="mailto:mjsimoes@ubi.pt">mjsimoes@ubi.pt</a>.</p>     <p>** Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa,&#8196;Av. Professor    Aníbal de Bettencourt, 9 - 1600-189, Lisboa, Portugal, <a href="mailto:fabio.augusto@ics.ulisboa.pt">fabio.augusto@ics.ulisboa.pt</a>.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Expostos e duplamente vigiados: o caso do Facebook.&#8195;Tal como acontece    com a maioria dos artefactos tecnológicos, também a emergência do Facebook gerou    diversas teorias, que variam entre o mais exacerbado otimismo e um tremendo    ceticismo. O facto de o seu surgimento estar muito associado ao exibicionismo    e ao voyeurismo, tem sido campo fértil para o desenvolvimento de ideias feitas    e pré-concebidas, que dificultam o desvendar da sua complexidade. O objetivo    deste artigo é esboçar uma panorâmica sobre o Facebook, que reporte para os    valores, objetivos e interesses que estão na origem do seu desenvolvimento e    para a vigilância social que este artefacto tecnológico veio possibilitar de    um modo mais alargado, desafiando-se teses que apontam para a total novidade    desta rede e para a homogeneidade dos seus usos.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> escolha social; desenvolvimento tecnológico; usos tecnológicos;    vigilância social; vigilância organizacional.</p> <hr/>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>With the emergence of Facebook, as with most technological achievements, opinions    have emerged ranging from the most exaggerated optimism to tremendous skepticism.    The fact that its appearance is closely associated with exhibitionism and voyeurism,    has been a fertile field for the development of prejudices that make it difficult    to unravel its complexity. The purpose of this article is to provide a portrait    of Facebook, more precisely the sketch of a portrait, depicting the values,    goals, and interests that are at the origin of its development along with the    social surveillance that this technological tool has made possible, and to do    so in a broad way that challenges theses that point to the total novelty of    this network and to the homogeneity of its uses.</p>     <p><b>Keywords:</b> social choice; technological development; technological uses;    social surveillance; organizational surveillance.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>INTRODUÇÃO</p>     <p>As sociedades contemporâneas são marcadas não só por uma mudança tecnológica    acelerada, como também pelo que Han (2013) designa de fascínio tecnológico,    aspetos que dificultam uma análise mais realista e aprofundada sobre a emergência    e o impacto das tecnologias. Um <i>marketing</i> agressivo e sofisticado que    aposta em designações atraentes, muitas vezes absorvidas acriticamente pela    academia, tornam os artefactos altamente atrativos, particularmente quando são    apresentados como uma grande novidade. Centrando o debate no Facebook, estamos    perante um artefacto novo ou este apresenta-nos, de modo mais aliciante, funções    já existentes e que se encontravam dispersas em outros ambientes virtuais? Se    assim for, podemos falar deste artefacto e de outros como, por exemplo, o Twitter,    como novas redes sociais? E o que pensar da designação novos <i>media</i> sociais?    Haverá <i>media</i> que não sejam sociais?</p>     <p>O Facebook é uma rede que não para de se expandir quer em número de utilizadores,    quer nos lucros auferidos pela empresa de Zuckerberg. Tem, por outro lado, características    específicas que, em alguns aspetos, o distinguem de outras redes sociais, levando    a vincar-se de um modo mais incisivo uma fronteira entre os otimistas (que apostam    na rede e a transformam num instrumento fundamental da sua vida quotidiana,    difundem os seus benefícios e desconfiam de quem não usa o artefacto) e os tremendistas    (que rejeitam o seu uso e vêem no artefacto apenas um instrumento de voyeurismo    e narcisismo e de reforço da vigilância), como se os fenómenos sociais pudessem    ser compreendidos de um modo alheio à sua inerente complexidade.</p>     <p>O objetivo deste artigo é elaborar um retrato do Facebook, mais propriamente    o esboço de um retrato, dado ser um fenómeno ainda recente, que reporte para    os valores, objetivos e interesses que estão na origem do seu desenvolvimento,    para tendências culturais - o exibicionismo e voyeurismo - a que este artefacto    tecnológico veio dar resposta, e para o debate em torno da novidade e heterogeneidade    a que possa estar associado, sem descurar os desafios sociais e sociológicos    enfrentados. Contrariando as abordagens utópicas e distópicas, o Facebook é    analisado neste artigo enquanto uma rede social que reflete ao nível do seu    funcionamento a complexidade e heterogeneidade das sociedades contemporâneas,    assim como os novos desafios com que estas estão a ser confrontadas.</p>     <p>Na primeira secção do artigo, são apresentados os valores e interesses que    estão na base do Facebook, quando este se torna uma empresa, assim como os objetivos    traçados e os mecanismos elaborados para a sua concretização, ou seja, os caminhos    tecidos pela rede para uma maior exposição da vida pública e privada dos seus    utilizadores; a análise documental de páginas do Facebook e de aplicações permitiu    aos autores desvendar mais mecanismos conducentes à exposição dos utilizadores.    A vigilância social e as suas principais características, o modo como esta se    diferencia e articula com a vigilância organizacional e as suas principais consequências    são os aspetos tratados na segunda secção. Nas reflexões finais questionam-se    as abordagens tremendistas e otimistas sobre o Facebook, centrando a análise    no questionamento da sua novidade, enquanto artefacto tecnológico, e da homogeneidade    de usos que lhe têm atribuído, com base na desconstrução de assunções teóricas    suportadas pelo determinismo tecnológico.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O FACEBOOK: DOS OBJETIVOS AOS CAMINHOS TECIDOS PARA A TRANSPARÊNCIA</p>     <p>A análise da ideologia, dos objetivos e dos interesses que estão subjacentes    ao desenvolvimento de qualquer tecnologia, permitem uma compreensão mais aprofundada    dos seus usos (Lyon, 1992; Simões, 1995, 2005, 2006), o mesmo acontecendo com    o Facebook. Para além da criação de uma rede social, outro objetivo subjacente    à criação do Facebook é, à semelhança de qualquer empresa capitalista, a produção    de lucro. O lucro é concretizado através do desenvolvimento de um determinado    <i>software</i> e de uma Política de Utilização de Dados (PUD) assentes numa    ideologia da transparência, ideologia essa que vem dar resposta e incentiva    tendências sociais &ldquo;atuais&rdquo; como o exibicionismo e o voyeurismo social.</p>     <p>De facto, Zuckerberg, fundador do Facebook, tem vindo a apostar numa ideia    de transparência radical, considerando que se a nossa identidade é única, o    utilizador deve ser fiel a si mesmo e dar-se a conhecer na rede tal e qual como    é, não distorcendo e/ou ocultando, de alguma forma, a sua verdadeira identidade    (Kirkpatrick, 2011). Para o fundador da rede, a noção de transparência radical,    considerada um bem social, tornará o mundo melhor, não fazendo sentido a preocupação    com a privacidade num mundo que se pretende interconectado (Kirkpatrick, 2011;    Marichal, 2012).</p>     <p>Que interesses conduzirão a uma aposta na transparência total? As empresas    através das suas redes sociais têm estado a explorar a informação pessoal dos    consumidores para obterem lucro (Langlois, 2012; Jaeger, 2014; West, 2017).    Especificando melhor, para Fuchs e Sevignani (2013, pp. 288), por exemplo, no    caso do Facebook, a riqueza dos proprietários e os seus lucros &ldquo;são obtidos    através da exploração do trabalho dos utilizadores que não é pago&rdquo;. Esta assunção    é já defendida anteriormente por Fuchs (2010) quando se refere ao modelo dominante    de acumulação de capital das multinacionais ligadas às plataformas na internet.    As atividades <i>online</i>, que tanto são de divertimento como de trabalho    (daí a designação de <i>play labour</i>), criam conteúdos, redes de relações,    dados de localização, gostos e preferências, etc., ou seja, mercadorias que    são vendidas a empresas de <i>marketing</i>, as quais elaboram os perfis de    consumidores através dos interesses e comportamentos manifestados <i>online</i>.</p>     <p>O <i>marketing</i> diferenciado em função dos perfis dos utilizadores é, pois,    a base, da acumulação de capital de muitas empresas que usam plataformas de    redes sociais. O Facebook e/ou as empresas que são suas parceiras no negócio,    recolhem, armazenam, categorizam e classificam quantidades crescentes de dados:    quanto mais informação pessoal o Facebook recolher, maior será o lucro (Jaeger,    2014); podendo afirmar-se que o Facebook se tornou num poderoso meio de categorização,    classificação e criação de perfis.</p>     <p>Para uma crescente exposição da vida privada dos seus utilizadores, o Facebook    utiliza fundamentalmente três mecanismos: alterações na Política de Utilização    de Dados e o uso nesta de uma linguagem pouco clara; um <i>software</i> concebido    e algumas vezes alterado para aquele fim; a incorporação nesse <i>software</i>    de uma linguagem persuasiva e interpelativa.</p>     <p>Como adianta van Dijck (2012) não basta compreender apenas que relações sociais    são ativadas pelas redes sociais, mas também como são ativados esses impulsos    relacionais, porquê, por quem e com que objetivos. Os <i>sites</i> das redes    sociais são espaços programados e desenhados para encorajarem os utilizadores    a levar a cabo ações específicas.</p>     <p>É necessária, como afirmam Bucher (2012) e Langlois (2012), uma análise crítica    dos processos tecnoculturais que estruturam aqueles impulsos relacionais (incluindo    a escolha de amigos no Facebook), mas não subescrevemos a tese de ambos os autores    quando, influenciados teoricamente pela teoria latouriana, colocam lado a lado    os criadores, os utilizadores de tecnologias e os artefactos materiais (como    por exemplo, o <i>software</i>), enquanto agentes sociais. O <i>software</i>    não toma decisões e determina usos, é desenhado por atores sociais em função    de interesses e objetivos e, por outro, é necessário ter em conta a margem de    autonomia dos utilizadores que, dependendo de uma série de fatores sociais,    podem fazer as mais diversificadas opções.</p>     <p>Como é que o Facebook encoraja a total abertura quando esta significa desvendar    o que é privado? José Marichal (2012) aponta para a existência de uma &ldquo;arquitetura    de exposição&rdquo; que pode ser compreendida de um modo mais aprofundado através    de transformações ocorridas, como se referiu acima, quer no <i>software</i>    implementado, quer na PUD. A estes dois aspetos acrescentamos o uso de uma linguagem    engenhosa e persuasiva/interpelativa associada a esse <i>software</i>, designação    muito mais ilustrativa e abrangente do que o conjunto de &ldquo;enganos e distrações&rdquo;    enunciados por Marichal (2012), no sentido de uma maior exposição dos utilizadores.</p>     <p>MECANISMOS CONDUCENTES À TRANSPARÊNCIA: AS ALTERAÇÕES DA PUD</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Analisando as políticas de privacidade do Facebook ao longo dos anos, pode    ver-se como esta rede se transformou de um espaço privado de comunicação num    espaço cada vez mais público, com consequências para a salvaguarda da privacidade    dos utilizadores (Opsahl, 2010).</p>     <p>As sucessivas alterações na PUD do Facebook foram levadas a cabo no sentido    de uma maior invasão da privacidade dos seus utilizadores. Tem-se assistido    à passagem de uma rede social que parecia garantir um controlo completo da privacidade    dos utilizadores para uma crescente limitação do controlo dos dados pessoais    por parte destes, no sentido de uma maior facilidade de recolha, análise e venda    de informação a outras entidades (Marwick, 2012; Jaeger, 2014; Shore e Steinman,    2015).</p>     <p>As alterações foram sendo efetuadas à medida que a popularidade da plataforma    aumentou, assim como o seu número de utilizadores, estratégia muito seguida    pelas empresas que aumentam preços ou tomam medidas que podem não ser do agrado    dos utilizadores quando estes já estão ligados ao produto e não é tão fácil    abandoná-lo, depois de ponderados riscos e benefícios.</p>     <p>O Facebook é obrigado, tal como outras empresas, a informar os seus utilizadores    sobre as alterações que vão sendo efetuadas na PUD e o modo como os dados são    recolhidos. Mas apesar de o fazer, como adiantam Jaeger (2014) e Shore e Steinman    (2015), o Facebook leva a cabo essa tarefa de um modo vago e pouco transparente,    tornando-se difícil para os utilizadores perceberem as mudanças ocorridas.</p>     <p>Para uma maior compreensão do que é afirmado, Shore e Steinman (2015) destacam    três tendências. Em primeiro lugar, a partir de 2005, o Facebook tem reduzido,    de modo consistente, a informação sobre as tecnologias que usa para recolher    dados, como por exemplo, os <i>cookies</i> e os <i>weblogs</i>. Adicionalmente,    a partir de 2009, as políticas de privacidade não explicam, de modo claro, a    que entidades externas o Facebook fornece os dados. Por fim, os investigadores    têm realçado as dificuldades associadas à leitura e compreensão das políticas    de privacidade, em que se pode destacar a redução do tamanho da letra e a maior    extensão do texto que passou de 1000 para mais de 12000 palavras.</p>     <p>O carácter vago e confuso da Política de Utilização de Dados é ainda referido    por Augusto (2014) e Augusto e Simões (2017) quando comparam alguns extratos    contraditórios entre si retirados do subcapítulo &ldquo;Como utilizamos as informações    que recebemos&rdquo;, na versão de 2014.</p>     <p>Na Política de Dados (PD), versão de 2017, revista a 29 de setembro de 2016,    permanecem extratos, dos quais se apresentam alguns exemplos, que permitem leituras    ambíguas sobre a utilização que é feita dos dados dos utilizadores, tal como    a afirmação &ldquo;Guardamos os dados até deixarem de ser necessários&rdquo; (retirado do    subcapítulo &ldquo;Como posso gerir ou eliminar informações sobre mim?&rdquo;), onde fica,    desde logo, por responder a seguinte questão: &ldquo;quando deixam os dados de ser    necessários?&rdquo;.</p>     <p>No mesmo subcapítulo é possível ler &ldquo;Quando eliminas a tua conta, eliminamos    conteúdos que publicaste&rdquo;. Face a esta informação, o utilizador não fica completamente    esclarecido sobre o processo de eliminação de dados, não ficando claro se são    apagados todos os conteúdos, ou quais são os efetivamente apagados. Numa tentativa    de aprofundar esta questão, partiu-se para a análise do subcapítulo &ldquo;Qual é    a diferença entre desativar e eliminar a minha conta?&rdquo;, onde se pode ler &ldquo;As    cópias de alguns materiais (por ex.: registos) podem permanecer na nossa base    de dados, mas não se encontram associados a identificadores pessoais&rdquo;, ficando    por esclarecer de forma inequívoca que materiais permanecerão na rede após a    eliminação de uma conta.</p>     <p>Denota-se, portanto, que quando o utilizador mais atento e preocupado vai à    procura de respostas a questões diretas: Que dados recolhem? Como os utilizam?    Quem acede a eles? Aquilo que encontra é um longo percurso de meias respostas.    Percurso este que se torna labiríntico com os sucessivos <i>links</i> que vão    sendo fornecidos ao longo do texto e que vão abrindo mais e mais janelas de    texto que ao invés de fornecerem respostas claras, conduzem ao surgimento de    novas interrogações.</p>     <p>Face a uma Política de Utilização de Dados (PUD) contraditória, o utilizador    enfrenta um enorme desafio se quiser saber quando, para quê e quando são utilizados    os seus dados pelo Facebook e outras empresas. Esse desafio ainda se torna maior    se tivermos em conta, como referem Shore e Steinman (2015), a distinção entre    dois tipos de privacidade no Facebook e outras redes sociais. Um reporta para    a privacidade que pode ou não ser salvaguardada entre utilizadores, ou seja,    a capacidade de decisão destes em relação aos dados que decidem partilhar, ou    não, com outros (amigos, conhecidos, etc.). O outro tipo de privacidade relaciona-se    com o modo como o Facebook recolhe, maneja, partilha ou vende dados dos seus    utilizadores.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para Fuchs (2009), o Facebook não protege as informações que nele são depositadas,    dada a inexistência de um leque de opções que permitam que o utilizador se possa    sentir verdadeiramente seguro.</p>     <p>Face a essa situação, Hull, Lipford e Latulipe (2011), por sua vez, apontam    para a necessidade de uma &ldquo;reforma&rdquo; estrutural da PUD e do Facebook como solução    para as dificuldades que os utilizadores enfrentam no que concerne a questões    de privacidade, aspeto também defendido por Jaeger (2014).</p>     <p>Estes autores parecem não ter em conta que os meios de obtenção de lucro por    parte do Facebook colidem com uma política de privacidade que efetivamente salvaguarde    os interesses de utilizadores zelosos da sua vida privada. Como salientam Bello    (2011) e Netchitailova (2012), entre outros autores já referidos, as grandes    fontes de rendimento do Facebook são a venda de dados e o &ldquo;aluguer&rdquo; do espaço    da plataforma para propaganda.</p>     <p>Por outro lado, mesmo que houvesse a referida reforma estrutural, nenhum utilizador,    da internet se poderia sentir, hoje em dia, seguro, aspeto bem ilustrado por    Snowden quando, em 10 Junho de 2013, &ldquo;ao expor as práticas de vigilância permanente    da NSA sobre os media sociais, descreveu em detalhe a &ldquo;arquitetura de opressão&rdquo;    que lhe permitia a ele e a outros analistas intercetar metadados de três biliões    de chamadas telefónicas e interações registadas no Facebook, Google, Apple,    e outras empresas tecnológicas&rdquo; (van Dijk, 2014, pp. 197, tradução própria).</p>     <p>A informação revelada por Snowden permitiu que compreendêssemos melhor o tamanho    gigantesco dos dados recolhidos por agências de informação dos Estados e por    empresas. Para Han (2015) estamos a assistir a uma crescente fusão/articulação    nesta matéria entre o Estado vigilante e o mercado. Num contexto de crescente    recolha de informação passou a ser corrente o uso do conceito <i>Big Data</i>    que suscita a seguinte interrogação: estamos perante novos significados ou novas    modalidades de vigilância? O <i>Big Data</i> não é um fenómeno novo, é uma nova    designação para uma bem conhecida tendência; como Klauser and Albrechtslund    (2014, pp. 273, tradução própria) afirmam, &ldquo;os discursos em torno do Big Data    referem-se usualmente às sempre crescentes possibilidades de recolha, interconecção    e análise de quantidades imensas de dados relacionados com um leque alargado    de campos e domínios da vida quotidiana&rdquo;.</p>     <p>CAMINHOS MOLDADOS PARA A EXPOSIÇÃO DA VIDA PESSOAL: O <i>SOFTWARE</i> E UMA    LINGUAGEM PERSUASIVA</p>     <p>As escolhas de <i>software</i> que foram sendo feitas pelo Facebook e as suas    sucessivas alterações, vão também ao encontro da &ldquo;arquitetura de exposição&rdquo;    apontada por Marichal (2012).</p>     <p>Em primeiro lugar, a introdução do <i>feed</i> de notícias no Facebook em 2006.    O <i>feed</i> de notícias trouxe a possibilidade de cada utilizador receber    informação de forma rápida e atualizada de todos os seus amigos, como afirmam    Debatin et al. (2009) e Marichal (2012), sem que para isso tenha de consultar,    uma a uma, a página de cada amigo, como acontecia anteriormente, tarefa que    implicava necessariamente mais tempo.</p>     <p>Contudo, esta novidade, que contribuiu fortemente para o que é atualmente o    Facebook, pode conduzir a perceções erradas relativamente à forma como o Facebook    acumula informação dos seus utilizadores. O facto de o <i>feed</i> estar constantemente    a introduzir novas publicações e destas se sobreporem às anteriores, fazendo    com que as mais antigas despareceram do campo de visão do utilizador, pode conduzir    à ideia errada de que a informação disponibilizada é de carácter temporário;    porém, ela permanece na rede, sendo apenas necessário procurá-la.</p>     <p>Em segundo lugar, em 2007, o Facebook implementou a sua plataforma de aplicações.    A possibilidade de adicionar conteúdos aos perfis, partilhar fotos, jogar com    amigos, entre outras ações, passou a constituir um elemento-chave da rede. Cerca    de 70% dos utilizadores do Facebook aderiram a tais aplicações, o que demonstra    a importância que adquiriram (Hull, Lipford e Latulipe, 2011).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Porém, estas aplicações que, numa primeira fase, podem ser vistas apenas como    oportunidades para os utilizadores, constituem verdadeiras ferramentas de recolha    de informação, não só de utilizadores como também de todos os seus amigos (que    não aderiram à aplicação), por parte das empresas de aplicações. O Facebook    fornece duas opções: o utilizador ou instala a aplicação e permite a terceiros    o acesso aos dados não só do seu perfil, como dos perfis de todos os amigos,    ou recusa essa opção e não instala a aplicação; situação mais invasiva ocorre    quando a opção de disponibilizar a informação se encontra previamente selecionada    por defeito.</p>     <p>Os dados do utilizador e os dos amigos, caso opte pela aplicação, vão assim    engrossando as bases de dados das empresas de aplicações, sem que os amigos    sejam informados da situação, dos locais e das entidades pelos quais os seus    dados circulam, do tipo e quantidade de dados disponibilizados e do uso que    lhes vai ser dado. Tais procedimentos de escolha colocam incontornáveis problemas    éticos: deverá o utilizador ceder informações relativas à sua rede de amigos,    sem que os mesmos sejam informados?</p>     <p>Se pensarmos que os criadores de aplicações podem ter outras intenções que    não apenas as declaradas de proporcionar aos utilizadores momentos divertidos,    a situação torna-se ainda mais preocupante, tal como é mencionado por Hull,    Lipford e Latulipe (2011).</p>     <p>Em terceiro lugar, a disponibilização das <i>tag suggestions</i>, que permitem    que um utilizador identifique um amigo numa fotografia disponibilizada na rede,    independentemente de este saber, dar, ou não, permissão para tal, colocando    esta alteração do <i>software</i> e o seu uso os mesmos problemas éticos da    anterior.</p>     <p>Mas a PUD do Facebook e as mudanças frequentes do <i>software </i>referidos    por Marichal (2012) não são os únicos dispositivos conducentes à referida &ldquo;arquitetura    de exposição&rdquo;. Importa acrescentar um outro mecanismo que reporta para uma linguagem    engenhosa, interpelativa e persuasiva, incluída no <i>software</i>, que visa    a reação dos utilizadores no sentido de uma maior exposição da sua vida privada.</p>     <p>Quem usa o Facebook é confrontado, quando está na página da sua cronologia,    com perguntas recorrentes, entre as quais, &ldquo;O que estás a fazer?&rdquo;, &ldquo;Em que estás    a pensar?&rdquo;, &ldquo;O que estás a sentir?&rdquo;, &ldquo;Onde estás?&rdquo;, &ldquo;Com quem estás?&rdquo;, &ldquo;O que    te faz feliz?&rdquo;, &ldquo;Qual é o teu lema de vida?&rdquo;. Os utilizadores &ldquo;são convidados&rdquo;,    de modo sistemático, a partilhar aspetos da sua vida com a rede de &ldquo;amigos&rdquo;.    Como também salientam Parmeggiani e Araújo (2014), está subjacente nas perguntas    uma vocação primordial de exploração da faceta individualista dos utilizadores,    estimulando-os a manifestarem sentimentos, preferências, e a dizer o que estão    a fazer naquele preciso momento.</p>     <p>Outras maneiras mais sub-reptícias/indiretas e não formuladas em forma de pergunta    são utilizadas para induzir utilizadores a preencher mais os seus perfis. Consistem    na colocação de frases como por exemplo, &ldquo;O António estudou no Liceu Salvador    Correia&rdquo; ou &ldquo;A Maria vive em Lisboa&rdquo; no sentido de levar os utilizadores, que    ainda não o fizeram, a partilhar na rede a escola onde estudaram ou a cidade    onde vivem, à semelhança dos amigos referidos nas frases apresentadas na plataforma.</p>     <p>Ou ainda, a tentativa, por parte da rede, de cada utilizador aumentar a rede    de amigos, no sentido de ampliar o manancial de dados expostos, através do artifício    de, quando se consulta o <i>Feed</i> de Notícias, aparecerem com frequência    fotografias de amigos de amigos com a frase: &ldquo;pessoas que talvez conheças&rdquo;.</p>     <p>A persuasão também pode ser analisada através da articulação entre empresas,    por exemplo o Facebook e a empresa que fornece o jogo <i>Candy Crush</i>. Este    jogo está também disponível noutras plataformas; caso um indivíduo não seja    bem-sucedido a jogar, depois de várias tentativas, fica sem o que designam por    &ldquo;vidas&rdquo;, o que implica que durante várias horas não possa usufruir daquele jogo    ou de outro de nível superior. Uma solução é ligar-se, no âmbito do jogo, ao    Facebook e pedir &ldquo;vidas&rdquo; aos amigos; esta plataforma para estimular ainda mais    esta ligação e cativar para ela mais utilizadores, mostra de modo hierárquico    a pontuação que cada amigo teve em cada jogo. Mas, como se referiu acima, o    utilizador só se consegue inscrever na aplicação <i>Candy Crush</i> (ou outra)    na plataforma, se permitir o acesso à informação de todos os seus amigos. A    opção é esperar, até que possa jogar de novo, ou entrar na competição, fornecendo    nesse caso a informação referida às empresas produtoras de jogos.</p>     <p>É também enganadora a possibilidade de colocação ou partilha de informação    em função das categorias definidas pela rede - família, amigos próximos, amigos    e conhecidos - pois face ao número avultado de ligações que se inserem em cada    uma dessas categorias, os utilizadores dificilmente têm em mente todas as pessoas    de cada grupo-alvo de destinatários, sendo importante, em futuras investigações,    verificar até que ponto há da parte dos utilizadores a preocupação de partilhar    as suas informações em função daquelas categorias.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os utilizadores não perdem só a noção do número de destinatários e de quem    está em cada categoria, mas também da quantidade e tipo de informação disponibilizada,    aspeto constatado por Hull, Lipford e Latulipe (2011), Marichal (2012) e Augusto    (2014). No caso deste último autor, durante a pesquisa, os respondentes, quando    questionados sobre a informação que optaram por incluir na plataforma, referem    um pequeno número de dados e procuram enumerá-los. Porém, quando o entrevistador    deu a conhecer campos de preenchimento por eles não referidos, acabam por se    relembrar de muito mais informação que colocaram na rede. O mesmo ocorre em    relação ao número de amigos adicionados; no final da entrevista, a grande maioria    dos entrevistados (10 num total de 18) teve a curiosidade de se ligar ao Facebook    para comprovar o número de amigos que havia referido, constatando que o real    número era, em todos os casos, muito superior ao mencionado nas entrevistas.</p>     <p>Perante a &ldquo;arquitetura de exposição&rdquo; que se explicitou, quer através da PUD,    quer através do <i>design</i> do <i>software</i> e ainda de uma linguagem engenhosa    e interpelativa, torna-se mais difícil aos utilizadores terem uma real perceção    da informação que disponibilizam, das pessoas com quem a estão a partilhar,    e também do uso que é dado a essa informação e de que estão a ser responsáveis    por fornecer informações dos seus amigos (na rede).</p>     <p>Mas, por outro lado, os utilizadores consentem que o Facebook leve a cabo diversas    atividades, algumas já acima enunciadas, que os colocam em risco<i> </i>(Fuchs,    2009). Diversos estudos têm também salientado, como apontam Sinn e Syn (2014),    que os indivíduos se expõem mais em contexto <i>online</i> do que em contexto    <i>offline</i>, revelando maiores quantidades de informações pessoais em espaços    como as redes sociais digitais. A pouca atenção às implicações e consequências    decorrentes da instalação de uma dada aplicação é uma das constatações de Good    et al. (2007), referindo que apenas 2&#8197;% dos utilizadores têm a preocupação    de perceber, de forma clara, a troca que realizam ao usufruir daquele serviço,    o que, por sua vez, conduz a perceções erradas sobre os riscos que correm, como    é referido por Hull, Lipford e Latulipe (2011) e Sinn e Syn (2014). Além disso,    uma maior consciência da vigilância e dos riscos a ela associados não implica,    necessariamente, uma gestão mais minuciosa do nível de exposição na plataforma,    ou seja, nem sempre os utilizadores mais preocupados com o fenómeno da vigilância    são aqueles que gerem a sua conta no sentido de minimizar o seu nível de exposição    (Acquisti e Gross, 2006; Christofides, Muise e Desmarais, 2009; Augusto, 2014;    Augusto e Simões, 2017).</p>     <p>Para Marichal (2012), os utilizadores são confrontados com um conjunto de &ldquo;arranjos    institucionais&rdquo; que os leva a tomar decisões de acordo com os interesses económicos    da empresa Facebook, o que coloca em causa o livre arbítrio.</p>     <p>Marichal (2012), entre outros autores, parece, em alguns momentos, aproximar-se    do que Simões (2005) designa por determinismo social estruturalista: o Facebook,    à semelhança de outro artefacto tecnológico, é analisado como se fosse uma conspiração    tecnológica e capitalista, como se a empresa que o criou, determinasse a ação    dos seus utilizadores, menosprezando o facto de que o utilizador possui, desde    logo, a autonomia para decidir aderir, ou não, à rede, bem como, se aderir,    decidir sobre a quantidade e qualidade (mais pública ou mais privada) da informação    publicada, mesmo que a plataforma, através de uma linguagem engenhosa e persuasiva,    conduza a erros de julgamento por parte dos seus utilizadores.</p>     <p>VIGILÂNCIA: UMA &ldquo;ORQUESTRA&rdquo; ONDE PARTICIPAM VIGILANTES E VIGIADOS</p>     <p>Nas sociedades contemporâneas somos alvo de dois tipos de vigilância, tendo    em conta a sua direção: a vigilância <i>top-down</i> e a <i>bottom-up</i>. Para    distinguir estes dois tipos de vigilância, como adianta Timan e Oudshoorn (2012),    os <i>Surveillance Studies </i>apresentaram uma nova terminologia. O termo &ldquo;vigilância&rdquo;    &ldquo;reporta-se à observação de atividades levadas a cabo a partir do topo, isto    é, organizações a observarem as pessoas (&hellip;) Em contraste, o termo ‘sousveillance’    ou ‘vigilância inversa’ refere-se a práticas de observação em que o que é observado    é realizado por pessoas comuns&rdquo; (Timan e Oudshoorn, 2012, p. 169, tradução própria).    O primeiro tipo é também designado por outros autores, como Mann et al. (2003)    e Ganascia (2010), por vigilância organizacional. O termo enunciado em segundo    lugar permite-nos compreender que a vigilância não é apenas levada a cabo por    organizações de vigilância formais.</p>     <p>No contexto da vigilância organizacional, a informação é recolhida com objetivos    precisos e por agentes que podem impor o seu poder e/ou dominação, por exemplo,    o Estado e as empresas, enquanto no contexto da <i>sousveillance</i>, que designaremos    por vigilância social, a recolha de informação sobre as práticas das pessoas,    como Timan e Oudshoorn (2012) apontam, não tem que ter necessariamente um objetivo    explícito. No primeiro tipo de vigilância, os cidadãos, individualmente considerados,    são tidos como sujeitos passivos e subordinados e, no segundo tipo, como sujeitos    ativos. Embora interligados, e de uma maneira muito específica no Facebook,    aos dois tipos de vigilância estão associados poderes, resultados e consequências    diferenciadas, como se pode ver na breve caracterização de ambos que a seguir    se segue.</p>     <p>Nas sociedades contemporâneas, a vigilância organizacional foi sendo alargada,    de um modo extensivo, a todas as esferas e campos da atividade social, e de    um modo intensivo às rotinas não só da nossa vida quotidiana, como também da    vida privada, tendo-se tornado ainda global. A vigilância organizacional sempre    foi, e é cada vez mais, uma fonte de poder. O <i>design</i> e a programação    das tecnologias de vigilância não são neutrais em relação aos resultados pretendidos.    Como afirma Lyon (2001), as tecnologias de vigilância são criadas no sentido    de reforçar o poder dos regimes para os quais foram desenhadas e programadas.</p>     <p>A vigilância organizacional não é um facto novo, é, pelo contrário, o resultado    de um processo que se tem expandido e refinado ao longo da História. O seu desenvolvimento,    diversificação e sofisticação foi intensificado depois do 11 de setembro, marco    que evidenciou a crescente ameaça terrorista.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por outro lado, nas últimas décadas, largos setores da população, acreditando    que buscam uma maior segurança, passaram a estar mais disponíveis do que outrora    para fornecerem, a quem solicite, os seus dados pessoais, até aí considerados    do foro privado; acreditam mais nos benefícios da vigilância do que nos seus    potenciais riscos, defendendo mesmo que nada têm a esconder ou recear (Lyon,    2001; Marx, 2008; Simões, 2011; Stuart e Levine, 2017).</p>     <p>Os governos, as empresas e os <i>media</i> contribuem para esta situação porque    as informações e as notícias prestadas focam-se no sensacionalismo do crime,    da guerra e dos atos terroristas. A sistemática repetição de imagens sobre os    crimes e o modo sensacionalista como são descritos pelos meios de comunicação,    sempre em busca de ganhos provenientes de maiores audiências, contribuem para    sentimentos de insegurança por parte da população, o que Cohen (1980) designou    por pânico moral, o que a torna mais recetiva à aceitação dos artefactos de    vigilância.</p>     <p>Se, para a maioria dos autores, a vigilância organizacional não é um facto    novo, o mesmo não acontece com a vigilância social que só mais recentemente    tem sido teoricamente analisada, associada à emergência das redes sociais eletrónicas,    em particular o Facebook, e a mudanças culturais marcadas pelo exibicionismo    e voyeurismo; alguns setores da população tendem não só a exibir a sua vida    pessoal como também procuram conhecer a vida privada de gente famosa, de amigos    e mesmo de gente desconhecida, aspetos bastante interligados, por se estimularem    mutuamente.</p>     <p>Interessa, todavia, indagar, em futuras investigações, até que ponto o exibicionismo    e o fascínio pela vida privada dos outros são tendências recentes, ou se apenas    surgiram atualmente os meios tecnológicos para lhes dar uma maior e significativa    expressão.</p>     <p>O estudo da história, sociologia e antropologia permite-nos captar como nas    sociedades pré-modernas e nas sociedades modernas, em particular em meio rural    e cidades de menor dimensão, sempre houve um significativo escrutínio da vida    dos indivíduos por parte de habitantes desses locais: tratava-se de uma vigilância    direta, de um olhar atento e curioso que não necessitava de qualquer mediação    tecnológica.</p>     <p>Como dizia o Padre António Vieira (2014, contracapa), &ldquo;(&hellip;) sendo tão natural    no homem o desejo de ver, o apetite de ser visto é muito maior&rdquo;. O processo    de exposição mais sistemático da vida privada iniciou-se com a imprensa tabloide,    em particular revistas, que expunham a vida privada das realezas europeias e,    mais tarde, de outras elites, imprensa consumida com enorme curiosidade por    alguns setores da população.</p>     <p>A concretização do desejo de exposição pública e da vida privada até recentemente    restrito a algumas elites alargou-se, primeiro a um número bastante restrito    da população, através dos <i>reality-shows</i> das televisões.</p>     <p>Com as redes sociais eletrónicas, em particular o Facebook, assiste-se a um    processo de significativo alargamento da possibilidade de exposição da vida    pública e privada de largos setores da população e da consequente observação    da vida do outro: conhecido ou desconhecido. Como refere Ganascia (2010), hoje    em dia, com o desenvolvimento massivo das TIC, a disseminação alargada de informação,    através da rádio, TV, livros, jornais, filmes e fotografias, já não é só um    privilégio das elites e de poderosas organizações como o Estado ou as empresas.</p>     <p>O Facebook fornece o meio &ldquo;ideal&rdquo; para essas formas de fascinação de ver os    outros e de ser visto. A rede foi constituída, como se referiu, para cada um    atualizar a informação com um pendor narcisista e trivial, abrindo canais que    viabilizam e exponenciam uma tendência que tem sido associada às sociedades    contemporâneas: o voyeurismo social.</p>     <p>No Facebook, e em outras redes sociais, todos podem comunicar com todos, todos    podem expressar as suas opiniões e sentimentos, falar dos seus encontros, viagens,    casamentos, todos podem copiar e partilhar frases de amigos, conhecidos e desconhecidos,    retirar músicas e vídeos e partilhá-los, disseminando-os na internet.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A arquitetura do Facebook baseada na exposição, indo ao encontro da ideologia    da transparência de Zuckerberg, foi concebida para dar resposta e estimular    o voyeurismo e o exibicionismo (Calvert, 2000; Bumgarner, 2007). &ldquo;Através de    <i>likes</i>, atualização de <i>status</i>, fotos e outras aplicações, os utilizadores    vão construindo um <i>pastiche</i> da sua vida diária através da exposição de    aspetos da sua vida pessoal. A enfâse da plataforma está no fornecimento aos    indivíduos de uma avenida onde possam explorar e apresentar aspetos das suas    vidas aos outros&rdquo; (Marichal, 2012, pp. 28, tradução própria).</p>     <p>Esses setores da população, numa posição de autonomia que é ilusória, participam    ativamente na vigilância social, não tendo em conta que, com a enorme quantidade    de dados que disponibilizam na plataforma, estão a contribuir em larga escala    para a vigilância organizacional, essa, de facto, com poder para monitorizar,    controlar e condicionar as nossas vidas, ou seja, estão a ser também co-produtores    da vigilância organizacional e do <i>Big Data</i>.</p>     <p>Como salienta Han (2013, pp. 89, tradução própria), a &ldquo;sociedade atual do controlo    mostra uma estrutura panótica particular. Em contraposição aos moradores isolados    no Panótico de Bentham, os moradores ligam-se e comunicam intensamente entre    si. O que garante a transparência não é o isolamento de quem está incomunicável,    mas a hipercomunicação. A especificidade deste Panótico está sobretudo no facto    dos seus moradores colaborarem ativamente na sua construção e manutenção, enquanto    se auto-exibem e se desnudam&rdquo;.</p>     <p>Ambas as vigilâncias - a organizacional e a social - desafiam e colocam em    risco a privacidade, tal como a temos conhecido nas sociedades modernas, mas    fazem-no de modos diferentes: em relação à primeira temos assistido à progressiva    invasão da nossa privacidade por entidades terceiras, no caso da segunda, são    os indivíduos que apostam na &ldquo;evasão&rdquo; da sua própria privacidade.</p>     <p>Os desafios que se colocam à privacidade são um tema complexo e em crescente    debate na comunidade científica, tendo o Facebook contribuído ainda mais para    o seu incremento (Fulton e Kibby, 2017). Podemos confrontar, nesse âmbito, dois    pontos de vista: para uns parece haver uma tendência evolutiva e unilinear de    progressivo desaparecimento da privacidade. Sibilia (2008) considera que, a    despeito das preocupações que cercam o debate, mais e mais pessoas têm aderido    às redes sociais digitais, compartilhando dados particulares quotidianamente    - o que reforça a constatação de que está em curso um movimento generalizado    de &ldquo;evasão&rdquo; de privacidade ou, conforme Bauman (2008), de conformação a uma    sociedade confessional, cuja lógica afeta todos os meios de comunicação, além    de recuperar e fortalecer a oralidade e a visualidade, presentes de forma clara    ou velada na estrutura de funcionamento desses meios. No mesmo sentido, Cintia    dal Bello (2011) considera que se outrora os mecanismos de identificação feriam    a privacidade do indivíduo (moderno, romântico e introspetivo) e eram sentidos    como uma verdadeira invasão, a larga adesão às redes sociais na modernidade    tardia leva ao &ldquo;arrefecimento do eu&rdquo;; havendo uma geração que não parece preocupar-se    com o rastreamento, indexação, e controlo a que está sujeito nas redes. Futuras    investigações poderão elucidar-nos se poderão ser feitas tais generalizações.</p>     <p>Outros autores, como Ganascia (2010), têm um outro ponto de vista, optando    por identificar não uma, mas duas tendências. Se alguns setores da população,    nomeadamente jovens e crianças, estão mais preocupados com a autenticidade e    menos com a privacidade, receiam o anonimato e querem atrair as atenções sobre    si, apresentando na rede aspetos e instantes da vida privada, o que pode ser    visto como um tremendo exibicionismo, por outro lado, outros setores mostram    uma outra tendência cultural: receiam os riscos da vigilância, o que os leva    a colocar questões éticas sobre as ameaças que se colocam à liberdade e à privacidade    e a contestá-las.</p>     <p>As duas tendências são uma questão em aberto que importa acompanhar no âmbito    da investigação. A estrutura do Panótico atual, tal como é descrito por Han    (2013), é um poderoso fator de desafio à privacidade, mas não é o único. O modo    como poderosos grupos de interesse ligados à vigilância organizacional se apropriam    de dados das redes sociais, a facilidade com que hoje em dia a população fornece    a entidades terceiras dados pessoais, o modo como a vigilância eletrónica cresce    de modo exponencial e articula os outros tipos de vigilância, a facilidade com    que se aglutinam e vendem bases de dados, mostram-nos uma tendência preocupante    de desafio à privacidade; restando saber até que ponto, e se, movimentos de    cidadãos já organizados ou em vias de formação poderão contrariar a tendência    registada.</p>     <p>FACEBOOK, VIGILÂNCIAS E HETEROGENEIDADE SOCIAL: ALGUMAS REFLEXÕES FINAIS</p>     <p>Os <i>media</i> sociais tornaram-se, na primeira década de 2000, uma <i>buzzword</i>    e uma ideologia de <i>marketing</i> com o objetivo de atrair investidores e    utilizadores para plataformas como o Facebook, o LinkedIn, o Twitter, o Instagram,    o YouTube, a Wikipedia, o Blogspot, a Wordpress, entre outras (Cormode e Krishnamurthy,    2008; Fuchs, 2014). Largos setores da população aderiram à designação de redes    sociais ou <i>media</i> sociais, absorvendo também a ideia de que se tratava    de uma grande novidade, mas o que poderá surpreender é a academia absorver conceitos    vindos do meio empresarial sem a respetiva problematização e teorização. O sinónimo    de redes sociais - (novos) <i>media</i> sociais - levanta-nos também a questão    paradoxal de saber, como adianta Fuchs (2014), se há <i>media</i> que não sejam    sociais, pelo menos em algum dos seus aspetos, ou se, centrando a questão na    ideia de novidade, os <i>media</i> e redes anteriores não eram sociais.</p>     <p>O Facebook é algo de completamente novo? Ou, o que há de tão &ldquo;novo&rdquo; no Facebook    incluído na <i>web</i> 2.0, face à &ldquo;velha&rdquo; <i>web</i> 1.0? Os <i>Websites </i>2.0    combinam velhas aplicações da <i>web </i>1.0, anteriormente separadas, como    os fóruns de discussão, os <i>guest books</i>, o <i>email</i>, multimédia e    hipertexto numa plataforma do utilizador. O aumento da capacidade de transmissão    das redes de computadores (<i>bandwidth</i>) e as tecnologias de produção de    ficheiros áudio e vídeo progressivamente mais baratas (tal como as câmaras digitais)    vieram permitir uma mais rápida, fácil e barata transmissão e partilha de vários    tipos de ficheiros, contribuindo para uma crescente popularidade de conteúdos    gerados pelos utilizadores. Tais inovações permitem que as pessoas façam atualmente,    de um modo mais atrativo e rápido, o que faziam antes com outras ferramentas,    como por exemplo, os fóruns de discussão.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A moda dos <i>chats,</i> dos grupos de discussão, entre outros, deu lugar ao    Facebook, tão entusiasticamente adotado por largos setores da população, em    particular dos jovens (como tinha sucedido anteriormente com o hi5), podendo    ser considerados tecnologicamente ultrapassados todos aqueles que não o usem.    Nada poderá garantir que a moda do atrativo Facebook seja, face ao fascínio    tecnológico dominante, substituída por outra novidade tecnologicamente mais    atrativa.</p>     <p>A investigação sobre o Facebook tem sido, em diversos casos, alvo de uma grande    generalização e uniformização e de algum preconceito, como se só esta rede social    fosse o expoente máximo de exibicionismo e voyeurismo, como se todos os utilizadores    fossem iguais e usassem a rede social apenas para dar expressão aos dois últimos    aspetos enunciados.</p>     <p>Assim, importa incluir na análise o envolvimento reflexivo dos agentes humanos,    enquanto utilizadores, não se devendo ficar apenas pela conclusão de que a vida    social foi dramaticamente alterada pelas tecnologias (Fischer, 1985; Simões,    2005). Tais visões, marcadas por um ímpeto generalizador, encaixam-se, em grande    medida, no determinismo tecnológico e em algumas das suas assunções teóricas    já criticadas, no fim do século passado, por Fischer (1985). A primeira que    se poderia designar por &ldquo;impressão dos impactos da tecnologia na sociedade&rdquo;    de acordo com a qual a tecnologia &ldquo;esbarraria&rdquo; contra a sociedade transferindo    para os indivíduos, grupos e instituições as suas próprias propriedades, partindo-se    do pressuposto de que há isomorfismo entre as formas e os conteúdos, as causas    e os efeitos. O uso do telefone, por exemplo, determinaria que as relações se    tornassem mais impessoais; investigações posteriores vieram, contudo, questionar    essa relação, apontando para situações em que o telefone, pelo contrário, pode    contribuir para relações mais &ldquo;próximas&rdquo;, por exemplo, de amigos distantes geograficamente.</p>     <p>A segunda assunção teórica do determinismo tecnológico questionada (Fischer,    1985) é a da homogeneidade, segundo a qual todas as tecnologias, ao operarem    na mesma direção, produziriam efeitos homogéneos. Essa assunção apareceria,    ainda de outros modos, em asserções em que estaria implícito que todas as consequências    de uma tecnologia específica ocorreriam em paralelo ou que toda a população    seria afetada do mesmo modo, independentemente de fatores como, por exemplo,    a classe, o capital cultural, o género, a etnia, as margens de autonomia e de    escolha, entre outros. Não há, segundo o autor, razões <i>a priori</i> para    que tecnologias diferentes ou mesmo similares tenham efeitos congruentes, nem    que todos os seus efeitos necessitem de ser consistentes, nem que toda a população    reaja da mesma maneira.</p>     <p>O facto de o Facebook ter sido criado e o seu <i>design</i> balizado para o    exibicionismo e voyeurismo, não determina que todos os seus utilizadores o usem    para esse fim pré-determinado. Não se pode assumir simplesmente que a população    usa uma tecnologia porque está à mão, pelas vantagens que detém ou porque se    é induzido pela propaganda.</p>     <p>As (novas) tecnologias não são sempre aceites e assimiladas de forma passiva    pela população e podem até vir a ser simplesmente recusadas ou usadas de modo    diverso daquele para que foram projetadas (Fischer, 1985; Lyon, 1992; Burns    e Flam, 2000; Hoff, Horrocks e Tops, 2000; Simões, 1995, 2005, 2006).</p>     <p>Os atores têm cognoscibilidade e margem de manobra para moldar, embora nem    sempre sejam bem-sucedidos, os artefactos tecnológicos em função dos seus valores    e interesses. Têm, pois, usado a rede social com objetivos muito diversificados:    desde o puro exibicionismo e voyeurismo a objetivos políticos, empresariais,    de marketing, culturais, em causas sociais por ONGs, para encontrar amigos;    podendo inclusivamente optar por não usar a rede.</p>     <p>O exibicionismo e o voyeurismo não foram desencadeados por nenhuma rede tecnológica,    estas vieram apenas facilitar uma tendência social que tem vindo a adquirir    uma maior expressão. Aquelas tendências não são, por outro lado, uma característica    exclusiva do Facebook, como algumas ideias pré-concebidas podem fazer crer.    Do mesmo modo que os atores podem moldar o Facebook para os seus interesses    específicos, também moldam outros artefactos para fins não estabelecidos quando    da sua criação. Os <i>blogs</i> foram criados como espaço privilegiado de liberdade    e de expressão de opinião, mas podem ser moldados para fins exibicionistas.    Veja-se o artigo no <i>Expresso</i> de 05-06-2016 (pp. 46-50), intitulado &ldquo;Estas    mães contam tudo na internet&rdquo; em que se relata que os <i>blogs</i> são usados    por muitas mães para exibir todos os pormenores relevantes da vida das suas    crianças, desde que nascem, substituindo o diário ou o álbum de fotografias.    E ainda o artigo do <i>Diário de Notícias</i> de 02-08-2016 (p. 40), intitulado    &ldquo;Blogues: uma janela digital para o mundo das celebridades&rdquo;, onde se mostra    como os <i>blogs</i> são usados por parte de diversas celebridades televisivas    para dar a conhecer diferentes facetas das suas vidas.</p>     <p>É nesse sentido, também, que &ldquo;potencial tecnológico não é o mesmo que destino    social&rdquo; (Lyon, 1992, p. 179). O desenvolvimento tecnológico não tem efeitos    sociais preestabelecidos que sejam previsíveis, universais justos e benéficos.</p>     <p>Até que haja um maior suporte de investigação empírica, é mais aceitável assumir    que cada tecnologia pode ser usada por diferentes pessoas, de diferentes modos,    para objetivos bem diversos daqueles para a qual foi programada, ou ainda de    modo a contrariar opções e constrangimentos que são colocados à ação, conduzindo    todos os aspetos enunciados a efeitos muito diferentes (Fischer, 1985; Simões,    1995; 2005; 2006).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>É certo que a tecnologia é um fator de estruturação fundamental, uma vez que    estabelece diferentes caminhos de desenvolvimento - cada tecnologia, dada a    sua especificidade, projeta a mudança social para uma direção específica, que    seria diferente com outra tecnologia ou outro <i>design</i>, abrindo determinados    caminhos e fechando outros; não de modo autónomo, mas em inter-relação com fatores    sociais que com ela interagem, podendo produzir, por esse facto, diferenças    nos resultados obtidos (Walker, 1985; Dicken, 1991; Lyon, 1992; Simões, 1995;    2005, 2006; Burns e Flam, 2000).</p>     <p>A existência e uso de (novas) tecnologias alteram os dados materiais e sociais,    tornam-se, em muitos casos, uma condição para a ação; criando também novas oportunidades    e novos constrangimentos à ação individual, alguns destes de natureza nada benigna.    A oportunidade de exibicionismo e voyeurismo, ou outras, proporcionadas pelo    Facebook surge em simultâneo com um constrangimento, entre outros, muitas vezes    não auto-percebido: o reforço da posição dos atores sociais enquanto co-produtores    da vigilância.</p>     <p>Hoje em dia, como refere Han (2013, p. 94, tradução própria), &ldquo;não há ninguém    fora do panótico (&hellip;) nenhum muro separa o que está dentro e o que está fora.    A Google e as redes sociais que se apresentam como espaços de grande liberdade,    adotam formas panóticas&rdquo;. Mas o reforço ou reconfiguração dessas formas panóticas    não são uma questão tecnológica, nem dependerão apenas dos interesses de poderosos    grupos empresariais ou Estados. Apesar do poder diferencial, os atores sociais    terão ainda margens de autonomia, se as acionarem, para não participarem na    &ldquo;orquestra&rdquo; da vigilância e contrariarem tendências não democráticas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>     <p>FONTES</p>     <p>DIÁRIO DE NOTÍCIAS (2016), &ldquo;Blogues: uma janela digital para o mundo das celebridades    (02-08-2016)&rdquo;. Disponível em: <a href="http://www.dn.pt/media/interior/blogues-uma-janela-digital-para-o-mundo-das-celebridades-5317710.html" target="_blank">http://www.dn.pt/media/interior/blogues-uma-janela-digital-para-o-mundo-das-celebridades-5317710.html</a>    [consultado em 01-09-2016].</p>     <p>EXPRESSO (2016), &ldquo;Estas mães contam tudo na internet (05-06-2016)&rdquo;. Disponível    em: <a href="http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-06-05-Estas-maes-contam-tudo-na-internet" target="_blank">http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-06-05-Estas-maes-contam-tudo-na-internet</a>    [consultado em 01-09-2016].</p>     <p>PUD (2014), &ldquo;Política de Utilização de Dados do Facebook&rdquo;. Disponível em: <a href="https://www.facebook.com/about/privacy" target="_blank">https://www.facebook.com/about/privacy</a>    [consultado em 04-03-2014].</p>     <p>PD (2017), &ldquo;Política de Dados do Facebook&rdquo;. Disponível em: <a href="https://www.facebook.com/about/privacy" target="_blank">https://www.facebook.com/about/privacy</a>    [consultado em 31-10-2017].</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>VIEIRA, P.&#8197;A. (2014), &ldquo;Sermões Hagiográficos&rdquo;. In J. Franco, P. Calafate    (coords.), <i>Padre António Vieira: Obra Completa</i>, Lisboa, Círculo de Leitores,    tomo II, vol. XI.</p>     <p>&#10035;</p>     <p>ACQUISITI, A., GROSS, R. (2006), &ldquo;Imagined communities: awareness, information    sharing, and privacy on the Facebook&rdquo;. <i>In</i> G. Danezis, P. Golle (eds.),    <i>Privacy Enhancing Technologies. PET 2006. Lecture Notes in Computer Science</i>,    vol. 4258, Springer, Berlin, Heidelberg, pp. 36-58.</p>     <!-- ref --><p>AUGUSTO, F.&#8197;R. (2014), <i>A Vigilância à Distância de um Clique: Perceções    de Utilizadores do Facebook</i>. Dissertação de mestrado, Covilhã, Faculdade    de Ciências Sociais e Humanas da Universidade da Beira Interior.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=107662&pid=S0003-2573201900010000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>AUGUSTO, F.&#8197;R., SIMÕES, M.&#8197;J. (2017), &ldquo;To see and be seen, to know    and be known: perceptions and prevention strategies on Facebook surveillance&rdquo;.    <i>Social Science Information</i>, 56(4), pp. 596-618. <a href="https://doi.org/10.1177/0539018417734974" target="_blank">https://doi.org/10.1177/0539018417734974</a></p>     <!-- ref --><p>BAUMAN, Z. (2008), <i>Vida para Consumo: A Transformação das Pessoas em Mercadoria</i>,    Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=107665&pid=S0003-2573201900010000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>BELLO, C.&#8197;D. (2011), &ldquo;Visibilidade, vigilância, identidade e indexação:    a questão da privacidade nas redes sociais digitais&rdquo;. <i>Revista LOGOS</i>,    34(1), pp. 139-151. <a href="https://doi.org/10.12957/logos.2011.1261" target="_blank">https://doi.org/10.12957/logos.2011.1261</a></p>     <p>BUCHER, T. (2012), &ldquo;The friendship assemblage: investigating programmed sociality    on Facebook&rdquo;. <i>Television &amp; New Media</i>, 14(6), pp. 479-493. <a href="https://doi.org/10.1177/1527476412452800" target="_blank">https://doi.org/10.1177/1527476412452800</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>BUMGARNER, B.&#8197;A. (2007), &ldquo;You have been poked: exploring the uses and    gratifications of Facebook among emerging adults&rdquo;. <i>First Monday</i>, 12(11).    Disponível em <a href="https://firstmonday.org/article/view/2026/1897" target="_blank">http://firstmonday.org/htbin/cgiwrap/bin/ojs/index.php/fm/article/view/2026/1897</a>    [consultado em 16-10-2013].</p>     <!-- ref --><p>BURNS, T., FLAM, H. (2000), <i>Sistemas de Regras Sociais - Teorias e Aplicações</i>,    Oeiras, Celta Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=107670&pid=S0003-2573201900010000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>CALVERT, C. (2000), <i>Voyeur Nation: Media, Privacy, and Peering in Modern    Culture</i>, Boulder, Colorado, Westview Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=107672&pid=S0003-2573201900010000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>CHRISTOFIDES, E., MUISE, A., DESMARAIS, S. (2009), &ldquo;Information disclosure    and control on Facebook: are they two sides of the same coin or two different    processes?&rdquo;. <i>CyberPsychol Behav</i>, 12(3), pp. 341-345. <a href="https://doi.org/10.1089/cpb.2008.0226" target="_blank">https://doi.org/10.1089/cpb.2008.0226</a>.</p>     <!-- ref --><p>COHEN, S. (1980), <i>Folk</i><i> Devils and Moral Panics: The Creation of the    Mods and Rokers</i>, Oxford, Martin Robertson.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=107675&pid=S0003-2573201900010000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>CORMODE, G., KRISHNAMURTHY, B. (2008), &ldquo;Key differences between Web 1.0 and    Web 2.0&rdquo;. <i>First Monday</i>, 13(6). Disponível em: <a href="http://firstmonday.org/article/view/2125/1972" target="_blank">http://firstmonday.org/article/view/2125/1972</a>    [consultado em 20-10-2013].</p>     <p>DEBATIN, B. et al. (2009), &ldquo;Facebook and <i>online</i> privacy: attitudes,    behaviors, and unintended consequences&rdquo;. <i>Journal of Computer-Mediated Communication</i>,    15(1), pp. 83-108. <a href="https://academic.oup.com/jcmc/article/15/1/83/4064812" target="_blank">https://doi.org/10.1111/j.1083-6101.2009.01494.x</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>DICKEN, P. (1991), <i>Global Shift</i>, 2.ª ed., Londres, Paul Chapman Publishing.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=107679&pid=S0003-2573201900010000600014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>FISCHER, C. (1985), &ldquo;Studying technology and social life&rdquo;. <i>Urban</i><i>    Affairs Annual Reviews</i>, 28, pp. 284-300.</p>     <!-- ref --><p>FUCHS, C. (2009), <i>Social Networking Sites and the Surveillance Society.    A Critical Case Study of the Usage of studiVZ, Facebook, and MySpace by Students    in Salzburg in the Context of Electronic Surveillance</i>, Research Group Unified    Theory of Information ICT&amp;S Center Research Report, Salzburg, University    of Salzburg.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=107682&pid=S0003-2573201900010000600016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>FUCHS, C. (2010), &ldquo;Labour in informational capitalism&rdquo;. <i>The Information    Society</i>, 26(3), pp. 176-196. <a href="https://doi.org/10.1080/01972241003712215" target="_blank">https://doi.org/10.1080/01972241003712215</a></p>     <!-- ref --><p>FUCHS, C. (2014), <i>Social Media. A Critical Introduction</i>, Londres, Sage.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=107685&pid=S0003-2573201900010000600018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>FUCHS, C., SEVIGNANI, S. (2013), &ldquo;What is digital labour? What is digital work?    What’s their difference? and why do these questions matter for understanding    social media?&rdquo;. <i>tripleC: Communication, Capitalism and Critique</i>, 11(2),    pp. 237-293. <a href="https://doi.org/10.31269/triplec.v11i2.461" target="_blank">https://doi.org/10.31269/triplec.v11i2.461</a></p>     <p>FULTON, J., KIBBY, M. (2017), &ldquo;Milennials and the normalization of surveillance    on Facebook&rdquo;. <i>Continuum: Journal of Media &amp; Cultural Studies</i>, 31(2),    pp. 189-199. <a href="https://doi.org/10.1080/10304312.2016.1265094" target="_blank">https://doi.org/10.1080/10304312.2016.1265094</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>GANASCIA, J.&#8197;G. (2010), &ldquo;The generalized sousveillance society&rdquo;. <i>Social    Science Information</i>, 49(3), pp. 489-507. <a href="https://doi.org/10.1177/0539018410371027" target="_blank">https://doi.org/10.1177/0539018410371027</a></p>     <p>GOOD, N. et al. (2007), &ldquo;Noticing notice: a large-scale experiment on the timing    of Software License Agreements&rdquo;. Proceedings of the SIGCHI Conference on Human    Factors in Computing Systems, pp. 607-616.</p>     <!-- ref --><p>HAN, B.&#8197;C. (2013), <i>La sociedad de la transparencia</i>, Barcelona,    Herder Editorial.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=107691&pid=S0003-2573201900010000600023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>HAN, B.&#8197;C. (2015), <i>Psicopolítica</i>, Lisboa, Relógio D’Água.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=107693&pid=S0003-2573201900010000600024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>HOFF, J., HORROCKS, I., TOPS, P. (2000), &ldquo;Introduction: new technology and    the ‘crises’ of democracy&rdquo;. <i>In</i> J. Hoff, I. Horrocks, P. Tops (eds.),    <i>Democratic</i><i> Governance and New Technology</i>, Londres, Routledge,    pp. 1-10.</p>     <p>HULL, G., LIPFORD, H., LATULIPE, C. (2011), &ldquo;Contextual gaps: privacy issues    on Facebook<i>&rdquo;</i>. <i>Ethics and Information Technology</i>, 13(4), pp. 289-302.    <a href="https://doi.org/10.1007/s10676-010-9224-8" target="_blank">https://doi.org/10.1007/s10676-010-9224-8</a></p>     <p>JAEGER, E. (2014), &ldquo;Facebook messenger: eroding user privacy in order to collect,    analyze, and sell your personal information&rdquo;. <i>The John Marshall Journal of    Information Technology &amp; Privacy Law</i>, 31(3), pp. 392-421.</p>     <!-- ref --><p>KIRKPATRICK, D. (2011), <i>O Efeito Facebook</i>, Lisboa, Babel.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=107698&pid=S0003-2573201900010000600028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>KLAUSER, F., ALBRECHTSLUND, A. (2014), &ldquo;From self-tracking to smart urban infrastructures:    towards an interdisciplinary research agenda on Big Data&rdquo;. <i>Surveillance &amp;    Society</i>, 12(2), pp. 273-286. <a href="https://doi.org/10.24908/ss.v12i2.4605" target="_blank">https://doi.org/10.24908/ss.v12i2.4605</a></p>     <p>LANGLOIS, G. (2012), &ldquo;Participatory culture and the new governance of communication:    the paradox of participatory media&rdquo;. <i>Television &amp; New Media</i>, 20(10),    pp. 1-15. <a href="https://doi.org/10.1177/1527476411433519" target="_blank">https://doi.org/10.1177/1527476411433519</a></p>     <!-- ref --><p>LYON, D. (1992), <i>A Sociedade da Informação</i>, Oeiras, Celta Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=107702&pid=S0003-2573201900010000600031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>LYON, D. (2001), <i>Surveillance</i><i> Society: Monitoring Everyday Life</i>,    Buckingham, Open University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=107704&pid=S0003-2573201900010000600032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>MANN, S., NOLAN, J., WELLMAN, B. (2003), &ldquo;Sousveillance: inventing and using    wearable computing devices for data collection in surveillance environments&rdquo;.    <i>Surveillance &amp; Society</i>, 1(3), pp. 331-355. <a href="https://doi.org/10.24908/ss.v1i3.3344" target="_blank">https://doi.org/10.24908/ss.v1i3.3344</a></p>     <!-- ref --><p>MARICHAL, J. (2012), <i>Facebook</i><i> Democracy: The Architecture of Disclosure    and the Threat to Public Life</i>, Surrey, Ashgate.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=107707&pid=S0003-2573201900010000600034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
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