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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENSÃO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Neves, Barbara Barbosa, Casimiro, Cláudia (eds.)</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Connecting Families? Information &amp; Communication Technologies,    Generations, and the Life Course,</b></font></p>     <p>Bristol, Policy, Press, 2018, 302 pp.</p>     <p>ISBN 9781447339946</p>     <p><b>Cristina Ponte*</b></p>     <p>* Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Avenida    de Berna, 26 - 1069-061 Lisboa, Portugal, <a href="mailto:cristina.ponte@fcsh.unl.pt">cristina.ponte@fcsh.unl.pt</a>.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Como se vive em família em tempos e espaços marcados por meios digitais é uma    questão social com implicações para políticas públicas. Em Portugal, onde a    investigação é ainda escassa, as diferenças geracionais nos acessos são acentuadas    não só entre filhos, pais, avós e bisavós, mas também por género, em etapas    avançadas do curso de vida. Importa por isso considerar as famílias como unidade    de análise. Esta obra contribui para orientar esse conhecimento ao &ldquo;analisar    de modo crítico como se processa a interseção da vida familiar e o uso das tecnologias    de informação e comunicação (TIC) em várias gerações e numa perspetiva de curso    de vida, o que se modificou nesta penetração nas últimas duas décadas&rdquo; (p. 1).    A proposta de Bárbara Barbosa Neves e de Cláudia Casimiro mobilizou perto de    30 autores e reúne estudos que situam relações familiares em todos os continentes.  </p>     <p><i>Família </i>é aqui entendida enquanto processo dinâmico e marcado pela fluidez    de relações entre membros cuja composição se caracteriza hoje pela sua diversidade;    a <i>geração familiar</i> como grupo de pessoas que partilha diferentes níveis    de parentesco e se reconhece nos objetivos e interesses comuns; <i>curso de    vida</i> é considerado enquanto instrumento analítico e enquanto conceito teórico,    nos eixos propostos por Glen Elder: desenvolvimento físico, psicológico e social    do indivíduo ao longo da vida; tempo e lugar(es) histórico(s) da sua vida; tempo    social de acontecimentos fulcrais que vive; interdependência com vidas de outras    pessoas; e agência humana nos processos de escolha.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se estas perspetivas surgem bem sustentadas, já a caracterização das TIC nos    parece demasiado restrita, na enumeração de dispositivos (computadores, internet    e telemóveis) que serão considerados. Na desejada fertilização teórica terá    sentido enfrentar os desafios de uma definição extensiva de TIC que não as reduzam    à sua dimensão de objetos. Destaco a estabelecida teoria da &ldquo;domesticação dos    média&rdquo;, trabalhada desde os anos 1980 na Sociologia dos Média e nos Estudos    Culturais por Roger Silverstone, David Morley e outros. Esta teoria surgiu precisamente    a partir da investigação etnográfica junto de famílias, quando novas tecnologias    digitais estavam aí a chegar, desenvolveu conceitos como &ldquo;economia moral da    família&rdquo;, e marcou processos de domesticação das TIC - <i>apropriação,</i> <i>objetivação</i>,    <i>incorporação</i> e <i>conversão</i>. Considera-se que, além de <i>objetos</i>,    as TIC transportam <i>conteúdos</i> carregados de significados simbólicos, e    são apreendidas em <i>contextos</i> de consumo, numa tripla articulação que    os meios móveis vieram acentuar. Vários capítulos deste livro, de resto, incorporam    o conceito de <i>affordance</i> ligado a esta tripla articulação.</p>     <p>A obra está organizada em duas partes, a primeira com capítulos de natureza    teórica e metodológica e a segunda reunindo um conjunto de estudos empíricos.</p>     <p>No primeiro capítulo, Natascha Mauthner e Karolina Kazimierczak destacam a    relevância de teorias como construtivismo social, ator-rede e pós-humanismo    para contrariar o popularizado determinismo tecnológico - e que tende a sustentar    políticas públicas como aconteceu em Portugal com os programas e-escolas. Relativamente    ao uso de tecnologias na vida familiar e nas transições de vida, Geoffrey Mead    e Bárbara Barbosa Neves articulam recursivamente a teoria ator-rede e a teoria    da estruturação para o estudo desta relação, ilustrando cada uma com aplicações    e assinalando como as suas particularidades podem ser adequadas aos objetivos    de um campo sobre o qual &ldquo;não há uma perspetiva única e inquestionável&rdquo; (p.    53). Anabel Quan-Haase e colegas apresentam o &ldquo;individualismo em rede&rdquo; como    modelo conceptual e analítico para dar conta de transições que têm marcado famílias    e comunidades em países de modernidade avançada, como o Canadá. No ensaio onde    discute questões relacionadas com a circulação de imagens digitais, Amanda Du    Preez reflete sobre a partilha de <i>selfies</i> a partir da sua posição geracional    de mãe de um jovem que critica o modo como o expõe nesse processo. A sua reflexão,    que recorre a conceitos do filósofo Paul Virilio sobre relações espaço-tempo,    velocidade e aceleração, discute práticas parentais de vigilância digital sobre    os filhos, sobre-exposição das suas imagens, e implicações de interações momentâneas    em tempo real e logo dissolvidas.</p>     <p>Articulando e sistematizando as <i>affordances</i> de entidades digitais -    redes, <i>big data</i> e ubiquidade - na recolha e análise de informação para    o estudo de unidades de análise do curso de vida (como rotinas e transições),    Alexia Maddox discute igualmente as limitações e as questões éticas colocadas    por essas metodologias. Uma reflexão sobre benefícios e desafios de conjugar    técnicas de pesquisa é o tema do capítulo assinado por Bárbara Barbosa Neves    e colegas. O projeto multidisciplinar de investigação-ação sobre a adoção de    tecnologias em idades avançadas como meio de quebrar o isolamento social e a    solidão fez uso de metodologias mistas provenientes de áreas distintas - no    caso, sociologia e ciências da computação. A encerrar a primeira parte, o capítulo    de Cláudia Casimiro e Magda Nico revê a dupla relação entre tecnologias digitais    e família. Apresenta um levantamento de estudos sobre usos e impactos das TIC    nas relações familiares - as TIC enquanto objeto de estudo - e foca-se nas TIC    enquanto instrumento de pesquisa, no caso, <i>software</i> de análise qualitativa    de dados assistida por computador.</p>     <p>A investigação empírica dos seis capítulos da segunda parte do livro cobre    relações entre membros da mesma geração familiar e entre membros de gerações    familiares distintas, por vezes marcadas pela distância territorial - e não    só - como nas famílias migrantes. Encontramos neste conjunto de estudos um acentuar    de questões de género, de curso de vida, de posição social e mesmo da importância    do contexto onde decorrem as relações entre gerações, como é o caso de famílias    transnacionais. </p>     <p>A análise longitudinal assinada por Siyun Peng e colegas dá conta de como,    nos Estados Unidos na última década, cresceu o uso de meios digitais por parte    de <i>mulheres idosas</i> com o propósito de manter a relação com os seus filhos    adultos. Nesta &ldquo;solidariedade digital&rdquo;, contudo, as autoras identificaram que    dimensões como idade, estado de saúde, escolaridade, distância geográfica e    etnia fazem diferença nessa prática. Analisando as narrativas das próprias,    o capítulo de Sandra Cuban mostra as &ldquo;cadeias do cuidado&rdquo; a cargo de <i>mulheres    adultas</i> imigrantes, que fazem uso das tecnologias para cuidar dos seus pais    e familiares distantes, em África ou América Latina, e questiona as políticas    de imigração norte-americanas que dificultam a reunião familiar. Por sua vez,    o capítulo assinado por Yuka Sakamoto incide sobre a mediação das TIC na tensão    entre trabalho profissional e família considerando as práticas de <i>pais</i>    e de <i>mães</i> de crianças pequenas, em três áreas metropolitanas do Japão.    O estudo, que recorreu a questionários <i>online</i>, concluiu que o maior grau    de uso das TIC não fez reduzir a tensão entre aquelas duas esferas. A construção    de uma &ldquo;vigilância íntima&rdquo; e a monitorização de parceiros proporcionada pelas    tecnologias móveis é trabalhada no capítulo de Bernadette Kneidinger-Muller,    que analisa o contexto de jovens adultos alemães, e no capítulo de Jolynna Sinanan    e Larissa Hjorth, que analisam famílias com diferentes composições e origens    a viver em Melbourne, Austrália. Por último, o modo como a partilha de vídeos    e mensagens digitais pode ligar famílias colombianas afastadas geograficamente,    explorado por Catalina Patiño, destaca as oportunidades dessas narrativas digitais,    e faz notar também que o leque de competências implicadas leva a que membros    mais velhos se possam sentir esmagados pelo ritmo intenso das mudanças tecnológicas    (p. 215). </p>     <p>Os capítulos evidenciam assim tensões e contradições que emergem da relação    entre tecnologias e famílias, gerações e curso de vida, &ldquo;desconstruindo &ldquo;visões    utópicas e distópicas&rdquo;, outro dos objetivos das organizadoras (p. 3). </p>     <p>Para o prosseguimento de uma agenda de pesquisa deste campo, o texto final    que sintetiza e discute a obra, de Elizabeth Silva, aponta a exigência de &ldquo;compreender    os trabalhos do poder (institucional, corporativo, nas divisões sociais por    idade, género, sexualidade, classe e etnicidade) como forma de captar as dinâmicas    correntes das ligações digitais na vida familiar&rdquo; (p. 285). Como sublinha, &ldquo;a    intervenção das ciências sociais neste campo implica que o material de pesquisa    não seja dissociado do contexto onde se insere, a nível da sua produção, leitura,    reprodução e releitura&rdquo; (p. 287). Por isso sustenta que questões complexas de    pesquisa (como estas) implicam um ecletismo teórico que proporcione interpretações    segundo diferentes ângulos e a partir de diferentes métodos (p. 289).</p>     <p>No prefácio, Barry Wellman dava conta de como as famílias contemporâneas se    diferenciam das de há 50 anos na sua composição, possibilidades de estarem conectadas    territorialmente e nos seus &ldquo;lares em rede&rdquo;. Na perspetiva da fecundação interdisciplinar,    assinalo por isso contributos da teoria da construção mediada da realidade (Couldry    e Hepp, 2017) e destaco o estudo liderado por Ingrid Paus-Hasebrink (2019),    que investigou processos de &ldquo;fazer família&rdquo; junto de 18 famílias com crianças,    ao longo de 12 anos, indo da sua infância ao final da adolescência e de como    os média fizeram deles parte. A triangulação teórica e metodológica deste estudo    longitudinal constitui certamente um contributo para os estudos sobre TIC, famílias,    gerações e curso de vida.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>     <!-- ref --><p>COULDRY, N., HEPP, A. (2017), <i>The Mediated Construction of Reality</i>,    Londres, Polity Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108179&pid=S0003-2573201900010001200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>PAUS-HASEBRINK, I., KULTURER, J. e SINNER, P. (2019), <i>Social Inequality,    Childhood and the Media. A Longitudinal Study of the Mediatization of Socialisation</i>,    Londres, Palgrave.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108181&pid=S0003-2573201900010001200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>PONTE, C. (2019), <i>Recensão </i>&ldquo;<i>Connecting Families? Information &amp;    Communication Technologies, Generations, and the Life Course</i>, Bristol, Policy,    Press, 2018&rdquo;. <i>Análise Social</i>, 230, LIV (1.º), pp. 200-203.</p>      ]]></body><back>
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