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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[“Dos fracos não reza a história”. Os Heróis do Mar e a invenção do nacionalismo pop]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[“History always favors the winners”: Heróis do Mar and the invention of nationalist pop in the 1980s]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Pioneers in performing international pop styles in Portugal, the group Heróis do Mar initiated an historical revisionism of the Portuguese Discoveries, exalting both the spirit of crusade and the so-called Portuguese universalism. Assuming that audiovisual culture was a key element in the Portuguese cultural life in the 1980s, and that the Portuguese Discoveries found in pop music a new form of transmission and celebration, in this article I analyze the emergence of Portuguese nationalist pop through the practices, rituals, and discourses of Heróis do Mar, a group that developed a peculiar relationship between pop music, nation, and the uses of History.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p><font size="4"><b>&ldquo;Dos fracos não reza a história&rdquo;. Os Heróis do Mar e a invenção    do nacionalismo <i>pop </i></b></font></p>     <p><font size="3"><b>&ldquo;History always favors the winners&rdquo;: <i>Heróis</i><i> do    Mar</i> and the invention of nationalist pop in the 1980s</b></font></p>     <p><b>Marcos Cardão*</b>    <br>   <img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0001-9260-9654">https://orcid.org/0000-0001-9260-9654</a></p>     
<p>*Centro de Estudos Comparatistas, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa,    Alameda da Universidade — 1649-004 Lisboa, Portugal. <a href="mailto:marcos.cardao@gmail.com">marcos.cardao@gmail.com</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>&ldquo;Dos fracos não reza a história&rdquo;. Os Heróis do Mar e a invenção do nacionalismo    <i>pop</i>.&#8195;Precursora na difusão de estilos <i>pop</i> híbridos tributários    das principais correntes internacionais, a banda Heróis do Mar instituiu novas    práticas performativas e discursivas, empreendendo uma revisitação do período    dos Descobrimentos, que exaltava tanto o espírito de cruzada, quanto o universalismo    português. Admitindo que a cultura audiovisual passou a ser o eixo gravitacional    da vida cultural portuguesa nos anos 80, e que os Descobrimentos portugueses    encontraram na música <i>pop</i> um novo meio de transmissão, neste artigo pretende-se    analisar a emergência do nacionalismo <i>pop</i> através dos rituais performativos    dos Heróis do Mar, uma banda que desenvolveu uma relação peculiar entre música    <i>pop</i>, nação e usos da História, e se tornou num dos principais impulsionadores    da imaginação nacional.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> nacionalismo; história; Descobrimentos; música moderna.</p> <hr/>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>Pioneers in performing international pop styles in Portugal, the group <i>Heróis</i><i>    do Mar</i> initiated an historical revisionism of the Portuguese Discoveries,    exalting both the spirit of crusade and the so-called Portuguese universalism.    Assuming that audiovisual culture was a key element in the Portuguese cultural    life in the 1980s, and that the Portuguese Discoveries found in pop music a    new form of transmission and celebration, in this article I analyze the emergence    of Portuguese nationalist pop through the practices, rituals, and discourses    of Heróis do Mar, a group that developed a peculiar relationship between pop    music, nation, and the uses of History.</p>     <p><b>Keywords:</b> nationalism; History; Portuguese Discoveries; popular music.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>INTRODUÇÃO</p>     <p>Os Heróis do Mar foram uma das bandas <i>pop</i> mais originais e polémicas    no início da década de 1980. A banda, que escolheu para nome a primeira estrofe    do hino de Portugal, protagonizou uma série de polémicas e agitou o meio cultural    português através da criação de uma música que pretendia ser simultaneamente    <i>pop</i>, portuguesa, dançável e moderna.</p>     <p>Adotando desde o início da carreira uma estratégia confrontacional, que contribuiu    para extremar a ideia de espetáculo <i>pop</i>, os Heróis do Mar foram precursores    na difusão de estilos <i>pop</i> híbridos tributários das principais correntes    <i>pop</i> internacionais (Cidra, Félix, 2010). Muniram-se para o efeito de    adereços associados ao império português e instituíram novas práticas performativas    e discursivas, através das quais se revisitava o período dos Descobrimentos,    exaltando tanto o espírito de cruzada, quanto o universalismo português. Os    Heróis do Mar iniciaram uma nova corrente na música <i>pop</i> portuguesa, transversal    aos principais movimentos estéticos dos anos 80, quer o denominado &ldquo;<i>rock</i>    português&rdquo;, uma corrente à qual a banda nunca se pretendeu vincular, quer a    chamada &ldquo;música moderna portuguesa&rdquo;, que deu origem a estilos musicais alternativos    na segunda metade dos anos 80 (Guerra, 2013). A nova corrente, que ora em diante    designarei nacionalismo <i>pop</i>, distinguir-se-ia por veicular narrativas    que efetuavam uma leitura parcial da História de Portugal, mais próxima de uma    celebração nacionalista do que de um distanciamento crítico.</p>     <p>Não obstante a importância de outras temáticas constitutivas da identidade    nacional, como a valorização histórica da cruzada, a matriz rural portuguesa,    a decadência e o atraso relativamente a outras nações europeias, ou as relações    com Espanha, os Descobrimentos Portugueses foram provavelmente a temática mais    trabalhada do nacionalismo português nos anos 80, ganhando novo folgo com o    ciclo comemorativo iniciado com a criação da Comissão Nacional para as Comemorações    dos Descobrimentos Portugueses em 1986 e com a realização da <i>Expo 98</i>.    Com o lema &ldquo;Os Oceanos - um Património para o Futuro&rdquo;, a <i>Expo</i> 98 contribuiu    para reavivar o papel dos oceanos nos discursos e representações do nacionalismo    português. Todas estas iniciativas terão contribuído para criar uma nova memória    histórica sobre os Descobrimentos e reforçar o peso desta temática no imaginário    nacional.</p>     <p>Enquanto género fundacional e legitimador, a história desempenha um papel fundamental    na formação e difusão de uma consciência nacional e na fixação de uma memória    coletiva através da seleção das temáticas mais marcantes da singularidade nacional    (Catroga <i>et al</i>., 1998; Matos, 2008). Embora os historiadores profissionais    acreditem que estão numa posição privilegiada para interpretar o passado histórico,    e a universidade continue a ocupar uma posição determinante na divulgação do    conhecimento histórico, existem outras formas de transmitir a história, construir    uma relação com o passado e estabelecer uma memória e consciência nacional.    Nomeadamente através dos <i>media</i> e da cultura popular, que permitem &ldquo;desafiar    a hegemonia da universidade enquanto produtor e disseminador de investigação    e conhecimento, criando instituições paralelas que desempenham a mesma função    em relação ao passado&rdquo; (Chakrabarty, 2006, p. 109).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As investigações históricas sobre a &ldquo;memória da nação&rdquo; (Bethencourt e Curto,    1991); sobre o impacto da cultura popular de matriz rural na abordagem de temas    relacionados com a identidade portuguesa (Leal, 2000a); o modo como se imaginou    um nacionalismo comunista (Neves, 2008); sínteses sociohistóricas sobre a identidade    nacional (Sobral, 2012); ou, especificamente, análises sobre o modo como a cultura    popular urbana articulou e disseminou os temas do nacionalismo português abriram    novos horizontes aos estudos sobre o nacionalismo português.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><![if !supportFootnotes]>[1]    <![endif]>   </a><sup></sup></p>     <p>Não obstante a riqueza e a diversidade dos trabalhos mencionados, ainda faltam    estudos sobre o nacionalismo português feitos a partir da análise dos discursos    e representações da cultura popular urbana. Como António Manuel Hespanha constatou,    há outras áreas a realizar leituras parciais da História de Portugal, especialmente    do período dos Descobrimentos, e a produzir e reinventar as representações da    identidade portuguesa:</p>     <p>Esta mundividência do passado nas suas relações com o presente transcende largamente    o círculo dos historiadores e inscreve-se numa das componentes da cultura pública    (<i>pop-culture</i>) portuguesa dos nossos dias. Apenas a título de breve referência,    evoco a música <i>pop</i> que, quando aborda temas da história portuguesa, os    trata neste registo amigável de uma visão docemente glorificante [Hespanha,    2002, p. 348].</p>     <p>Admitindo que a cultura audiovisual passou a ser o eixo gravitacional da vida    cultural portuguesa nos anos 80, e que o período dos Descobrimentos encontrou    na música <i>pop</i> um novo meio de transmissão e celebração, neste artigo    pretende-se analisar a emergência do nacionalismo <i>pop</i> através das práticas,    discursos e &ldquo;rituais performativos&rdquo; (Frith, 1996, p. 204) dos Heróis do Mar,    uma banda que desenvolveu uma relação singular entre música <i>pop</i>, nação    e história, cujas práticas performativas e discursivas permanecem por investigar.    Mesmo quando se aproximaram de estilos mais comerciais, gravando temas <i>pop</i>    convencionais, como &ldquo;Amor&rdquo; (Single - Polydor, 1982), os Heróis do Mar continuaram    a fazer alusões à portugalidade e ao orgulho de ser português, desta feita através    da produção de <i>videoclips</i>, sendo provavelmente a primeira banda a utilizar    esse meio para criar uma síntese visual de teor nacionalista. O carácter sistemático    com que trabalharam sobre os temas associados à portugalidade transformou a    banda num dos principais agentes e impulsionadores da imaginação nacional (Anderson,    2012; Billig, 1991).</p>     <p>Partindo do princípio de que a cultura popular urbana não se limita a refletir,    reproduzir ou simplificar realidades pré-existentes, e de que o passado não    existe independentemente das representações que dele se fazem, neste artigo    argumentar-se-á que o exercício de retrospeção histórica iniciado pelos Heróis    do Mar favoreceu a reinvenção do nacionalismo português nos anos 80, ainda que    a forma prescritiva com que a banda trabalhou um ideal de portugalidade fosse    marcada por paradoxos e contradições. Não por que a banda estivesse a deturpar    a &ldquo;realidade histórica&rdquo; com narrativas efabuladas e ficcionais sobre a história    de Portugal, mas por que pretendia definir à partida o terreno da sua receção.    Ao conferir ao aparato nacionalista um aspeto central, a banda parecia esquecer    que a sua música era igualmente <i>pop</i>, internacional e cosmopolita. Ou    seja, a banda elidia que se inseria num género <i>pop</i> internacional, com    &ldquo;horizontes de expectativa&rdquo; que lhe eram próprios, e partilhava práticas performativas    e discursivas com outras bandas internacionais. Com efeito, a música dos Heróis    do Mar possuía códigos e convenções associadas a um género musical específico,    e a sua leitura não se esgotava numa idealização da portugalidade, por mais    voluntariosa e &ldquo;autêntica&rdquo; que esta fosse, nem se traduzia numa dicotomia simplista    entre a forma e o conteúdo.</p>     <p>Ao longo do artigo procurar-se-á dar conta das ambiguidades que caracterizaram    a carreira artística dos Heróis do Mar e analisar-se-á as possibilidades e limitações    do nacionalismo no campo internacional da música <i>pop</i>, não esquecendo    que o processo de construção de identidades nacionais é mais internacional do    que a mitologia nacionalista sugere. Complementar-se-á esta análise descrevendo    a emergência, mediação e a evolução histórica de uma banda que se afigura central    para apreciar as transformações político-culturais ocorridas na década de 1980,    um período ainda insuficientemente trabalhado pela historiografia.</p>     <p>&ldquo;BRAVA DANÇA DOS HERÓIS&rdquo;</p>     <p>Embora não tenham uma fisionomia ou identidade própria, as décadas são uma    forma convencional de circunscrever um intervalo de tempo e de identificar quais    os temas, tendências e configurações discursivas predominantes numa época. Considerados    a antítese dos anos 60, que foram caracterizados pelos movimentos de descolonização    e pela proliferação de utopias políticas transformadoras, os anos 80 são normalmente    associados a um tempo de normalização política, emergência do neo-liberalismo    e transformação cultural.</p>     <p>Na passagem da década de 1970 para os anos 80 várias formas e géneros culturais    foram perdendo protagonismo e foram afastadas do centro da vida pública e mediática.    No campo da música popular assistiu-se à perda de notoriedade da canção de intervenção    (Cardão, 2015), e ao desaparecimento de um conjunto de funções programáticas    que a ela estavam associadas, e ao surgimento do chamado &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;,    que introduziu uma nova geração de músicos e intérpretes, expostos às principais    tendências internacionais, que não se identificava com as premissas estéticas    e ideológicas da canção de intervenção, nem com a denominada música ligeira.</p>     <p>Seguindo a formulação de Raymond Williams sobre a existência de três momentos    culturais em cada formação histórico-social (Williams, 1977), poder-se-ia dizer    que o &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo; foi o fenómeno cultural &ldquo;emergente&rdquo; no início    dos anos 80, a canção de intervenção o momento &ldquo;residual&rdquo;, enquanto a música    ligeira seria ainda o momento cultural &ldquo;dominante&rdquo;. A música ligeira adquiriu    novo fôlego cultural e mediático com o rejuvenescimento do Festival RTP da Canção,    um evento que favoreceu a emergência de novos intérpretes e géneros musicais    e foi o espetáculo mediático escolhido pela administração da RTP para iniciar    as emissões regulares a cores em 1980.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Projetado por uma indústria fonográfica que anteviu no cantar em português    um novo nicho comercial para a classe média, sobretudo jovens, que procurava    seguir os padrões de consumo e os estilos de vida europeus, o &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;    foi um movimento plural, que abarcou diversas tendências e estilos musicais.    Transversal a este movimento foi o aparecimento de uma nova corrente <i>pop</i>,    que também cantava em português, embora fosse distinta do &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;,    que iniciou um trabalho de celebração da portugalidade e do período dos Descobrimentos    e inventou aquilo que designo por <i>nacionalismo pop</i>.</p>     <p>De acordo com uma cronologia política, que tende a impor a sua narrativa a    outros fenómenos da sociedade, nomeadamente culturais, e a isolar Portugal dos    contextos externos, os anos 80 seriam marcados pela despolitização da sociedade    portuguesa e pelo início do processo de redefinição identitária decorrente da    integração europeia. Poder-se-ia ver no aparecimento dos Heróis do Mar um reflexo    das transformações políticas que ocorriam no país. Porém, esta opção negaria    a autonomia do campo cultural e omitiria uma história internacional mais ampla,    onde os Heróis do Mar se inscreviam - a história da música <i>pop</i> internacional.</p>     <p>Se se admitir que o impacto do nacionalismo depende mais das suas manifestações,    nomeadamente das formas de circulação na esfera pública, do que das ideias mais    ou menos concisas que possa conter e transmitir, poder-se-á dizer que várias    bandas <i>pop</i>, entre as quais os Heróis do Mar, Sétima Legião, Anamar, Madredeus    ou os Da Vinci (Cardão, 2018), autorizam que se fale de uma corrente nacionalista    na música popular portuguesa. De importância desigual, todas estas bandas colocaram    em circulação formações discursivas e performativas que estabeleciam conexões    com a identidade nacional e sustentavam a criação de uma nova gramática identitária    na música <i>pop</i>. Porém, nenhuma delas teve o impacto mediático, a consistência    e a coesão formal dos Heróis do Mar. Uma banda que oferece um domínio empírico    vasto, em larga medida por investigar, composto por fonogramas, mediação crítica,    entrevistas, imagens, <i>videoclips</i>, etc., e permite avançar novas hipóteses    interpretativas no estudo do nacionalismo português e, paralelamente, iniciar    um estudo exploratório sobre a história global da música <i>pop</i> e o surgimento    e renegociação dos géneros musicais em Portugal.</p>     <p>Os géneros musicais não possuem fronteiras definidas, mas reportam-se a um    conjunto de práticas e estilos partilhados, além de servirem para organizar    histórias e compreender a criação, circulação e o consumo de música popular    (Fabbri, 2004). Há autores que tendem a salientar o papel da economia na criação    de géneros musicais, mencionando as estratégias das companhias fonográficas    para expandir o seu negócio através da criação de novos géneros musicais (Negus,    1999). Outros optam por realizar abordagens mais formalistas, afirmando que    os géneros são essencialmente marcadores que moldam as experiências e as expectativas    dos ouvintes (Frith, 1998, pp. 70-95).</p>     <p>Sem descurar a importância do aspeto económico, que foi decisivo para a afirmação    e mediatização do &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;, os géneros musicais articulam um    conjunto de formações discursivas, técnicas, <i>performances</i> e atitudes    referentes a uma determinada comunidade musical que, no campo da música popular    urbana, ultrapassa as fronteiras nacionais e os exclusivismos identitários.    Se é a partir dos géneros que se experiencia a música, e se estes são determinantes    para atribuir significado ao que ouvimos e estabelecer relações, ou comunidades    de gosto, entre bandas e estilos musicais, então a sua discussão poderá aclarar    vários aspetos da carreira artística dos Heróis do Mar e deslocar aquilo que    é alegadamente nacional, local ou particular para um campo transnacional.</p>     <p>Os Heróis do Mar surgiram em 1981 e eram compostos por Rui Pregal da Cunha    (voz), Paulo Pedro Gonçalves (guitarra), Pedro Ayres Magalhães (letrista e guitarra-baixo),    Carlos Maria Trindade (sintetizadores) e António José de Almeida (bateria).    Tanto Paulo Gonçalves, como Pedro Ayres Magalhães, fizeram parte do embrionário    movimento <i>punk</i> em Portugal, fundando em 1978 a banda Os Faíscas. Os dois,    juntamente com Carlos Maria Trindade, fundariam em 1979 a banda Corpo Diplomático,    que seria a primeira banda a aproximar-se da estética <i>pós-punk/new-wave</i>    em Portugal e que editaria apenas um álbum, intitulado &ldquo;Música Moderna&rdquo; (LP    - Da Nova, 1980). Num espaço curto de tempo, os futuros membros dos Heróis do    Mar tinham tocado em diversas bandas, interpretado vários estilos musicais,    e pretendiam agora criar uma banda <i>pop</i> que não secundarizasse uma ideia    de espetáculo. Mais do que a raiva niilista associada ao <i>punk</i>, ou a negatividade    do <i>pós-punk</i> (Butt, Eshun, Fisher, 2016), os Heróis do Mar absorveram    a dinâmica do faça-você-mesmo (&ldquo;do it yourself&rdquo;) e a vontade de inquietar, fundindo-as    com a ambição de notoriedade e sucesso comercial, sem descurar a inovação estilística.</p>     <p>O primeiro álbum da banda, intitulado &ldquo;Heróis do Mar&rdquo; (LP - Polydor, 1981),    produzido por António Pinho<a  href="#_ftn2" name="_ftnref2" title=""><![if !supportFootnotes]>[2]    <![endif]>   </a>, foi provavelmente o fonograma que suscitou mais polémica após o 25 de    Abril de 1974. As letras do álbum mencionavam uma série de mitos e narrativas    ficcionais de Portugal e privilegiavam uma visão imperialista e heroicizada    da história, exaltando inclusivamente o espírito de cruzada com contornos bélicos    e &ldquo;militaristas&rdquo; (Trindade, 2015, p. 291). Nomeadamente no tema &ldquo;Saudade&rdquo;, que    recuperava um vocábulo com conotações nacionalistas, e cuja letra aludia à dimensão    messiânica da construção imperial, mencionando o repouso de um guerreiro, provavelmente    depois de um ato de bravura militar decorrente do processo de cruzada, um dos    aspetos constitutivos da mitologia da portugalidade: &ldquo;Ao redor desta fogueira    (saudade)/&#8194;Enquanto as armas descansam (saudade)/&#8194;Peito rasgado    de amor (saudade)/&#8194;Troa o rufar do tambor (saudade)&rdquo;.</p>     <p>Da autoria de Pedro Ayres Magalhães, as letras construíam uma versão idealizada    da História de Portugal, através das quais se tecia um olhar profético de um    Portugal de natureza espiritual e providencial, em que tudo parecia ser sublimação.    No tema &ldquo;Brava dança dos heróis&rdquo; atribuía-se à história um estatuto fundador    e legitimador da nacionalidade, afirmando: &ldquo;Dos feitos a glória há-de perdurar/&#8194;Mesmo    se a morte nos apagar/&#8194;Brava dança dos heróis/&#8194;Dos fracos não reza    a história/&#8194;Cantemos alto nossa vitória&rdquo;. A exaltação dos feitos imperiais    era colocada ao serviço de uma narrativa histórica que voltava a trabalhar um    dos temas marcantes para afirmar a singularidade portuguesa. A par da aventura,    audácia e determinação, a narrativa da experiência imperial não esquecia o papel    da ciência e da técnica, ambas fundamentais para a afirmação do apregoado pioneirismo    português na &ldquo;abertura do mundo&rdquo;, presentes por exemplo na letra do tema &ldquo;Olhar    no Oriente&rdquo;: &ldquo;Ciência, fé do sábio/&#8194;Decisão/&#8194;Compasso, mapa aberto/&#8194;É    luz do mar deserto/&#8194;Decisão/ (&hellip;) Lá se vão/&#8194;Os heróis, os heróis&rdquo;.</p>     <p>Fora das histórias romanceadas de Portugal e dos portugueses ficava a história    da violência exercida no processo de colonização, as formas exploração, a escravatura,    o trabalho forçado, as conversões culturais e religiosas, o racismo, etc. Alguns    destes temas foram abordados por intérpretes da música popular portuguesa ligados    historicamente à canção de intervenção, entre os quais, Sérgio Godinho<a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title=""><![if !supportFootnotes]>[3]    <![endif]>   </a>, Vitorino<a href="#_ftn4" name="_ftnref4" title=""><![if !supportFootnotes]>[4]    <![endif]>   </a> e Fausto Bordalo Dias<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title=""><![if !supportFootnotes]>[5]    <![endif]>   </a>, o que indiciava uma clivagem de interpretações sobre o período dos Descobrimentos    na música popular portuguesa na passagem da década de 1970 para os anos 80,    um tema que dividia igualmente a esquerda e a direita no campo político.</p>     <p>No início dos anos 80, a esquerda foi perdendo progressivamente a capacidade    de persuasão e de imaginário político e começaram a surgir no espaço público    temas como o património, a portugalidade e a identidade nacional.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title=""><![if !supportFootnotes]>[6]    <![endif]>   </a> São em parte os novos protagonistas culturais, como os Heróis do Mar, a    veicular esses temas, designadamente através de narrativas históricas imaginárias,    imagens estilizadas e deliberadamente polémicas, <i>performances</i> elaboradas    e sentido coreográfico. Todas estas características, definidoras de um estilo    próprio que oferecia ao público um sistema de valores alternativo no início    dos anos 80, confluíram numa música <i>pop</i> moderna que estava em sintonia    com o movimento internacional da chamada &ldquo;<i>new pop</i>&rdquo;, também designado    &ldquo;<i>synth pop</i>&rdquo; ou &ldquo;<i>new romantic</i>&rdquo; (Stanley, 2013, pp. 528-539; Rimmer,    1995, pp. 539-544).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A expressão &ldquo;<i>new pop</i>&rdquo; foi cunhada por Paul Morley (Morley, 2004, p.    622), à época jornalista no <i>New Musical Express</i> (Sinker, 2018), uma publicação    britânica pioneira no jornalismo musical. Em termos genéricos, a expressão refere-se    a características partilhadas por estilos <i>pop</i> híbridos, com texturas    musicais sintéticas, que, em vez da guitarra elétrica e de <i>performances</i>    decalcadas de um princípio de autenticidade, maioritariamente associadas ao    <i>rock</i>, conferiam centralidade aos sintetizadores, ao artifício e à dança.    A prática da dança fora, aliás, reabilitada pelo &ldquo;<i>new pop</i>&rdquo;, após se entender    que esta era uma atividade frívola e alienante, associada a estilos de vida    e a formas de entretenimento comerciais e ligeiras, como o género &ldquo;<i>disco-sound</i>&rdquo;.</p>     <p>O &ldquo;novo <i>pop</i>&rdquo; atribuía ainda uma importância acrescida à imagem, dando    origem a uma série de <i>performances</i> estilizadas e à criação de personagens    fictícias que desafiavam as convenções sobre a integridade e autenticidade do    artista. A propensão para a artificialidade fez com que os músicos e intérpretes    do &ldquo;novo <i>pop</i>&rdquo; abandonassem a posição de marginalidade associada ao <i>rock</i>    e acolhessem as possibilidades abertas pelos meios de comunicação de massas,    o que incluía a produção de <i>videoclips</i>, fotografias promocionais, dar    entrevistas, a presença em programas de televisão e a ambição de conquistar    os lugares cimeiros das tabelas de venda.</p>     <p>As classificações por género musical e as perceções sobre o valor relativo    de cada género são centrais nos debates sobre música popular. A inserção dos    Heróis do Mar numa corrente <i>pop</i> internacional permite contextualizar    o significado das suas <i>performances</i> e relativizar as suas pretensões    nacionalistas. A juntar ao pendor imperialista das letras e dos adereços, onde    constavam tambores, alabardas, escudos, estandartes, etc., a dimensão coreográfica    da banda também causou grande polémica no início dos anos 80. Com efeito, os    trajes medievais, roupas com aspiração historicista, alusões à portugalidade,    e as bandeiras com as insígnias da cruz de Cristo, usadas nas apresentações    ao vivo e nas fotografias promocionais, foram bastante criticadas na imprensa,    que conotou a banda com a extrema-direita e o saudosismo do período salazarista.</p>     <p>O jornalista António Duarte - autor de um livro pioneiro sobre o fenómeno <i>pop-rock</i>    em Portugal, <i>A Arte Eléctrica de Ser Português</i>.<i> 25 Anos de Rock n&rsquo;    Portugal</i> (Bertrand, 1984) -, realizou a primeira grande entrevista aos Heróis    do Mar no semanário <i>Se7e</i>. A entrevista intitulada &ldquo;Heróis do Mar. Uma    banda fascista?&rdquo;, continha um pequeno texto introdutório que dizia: &ldquo;Fascistas    no <i>rock</i> português? A dúvida surge, pela primeira vez, com o canto e a    estética dos Heróis do Mar, um grupo novo de gente conhecida que parece ter    saído dos livros de feitos da Legião Portuguesa, ou das cartilhas de bem fazer    da Mocidade Portuguesa&rdquo;.&#8197;<a  href="#_ftn7" name="_ftnref7" title=""><![if !supportFootnotes]>[7]    <![endif]>   </a><sup></sup></p>     <p>Assumindo desde o início uma postura de desconfiança em relação às práticas    discursivas e performativas da banda, António Duarte chegou a dizer que a imagem    dos Heróis do Mar era &ldquo;objetivamente fascista&rdquo;. Pedro Ayres Magalhães, o porta-voz    da banda, tentava afastar-se das acusações do entrevistador, afirmando que a    imagem fazia parte da estética da banda e estava inserida numa ideia de espetáculo    <i>pop</i> que valorizava a componente cenográfica. Sobre a existência de um    aparato militarista e guerreiro na banda, Ayres Magalhães admitia que a &ldquo;epopeia    portuguesa&rdquo; tinha sido uma fonte de inspiração: &ldquo;rodeámos todo este trabalho    de uma atmosfera épica. Ora, a epopeia não tem cor - é sentida por gente de    todos os quadrantes&rdquo;.&#8197;<a  href="#_ftn8" name="_ftnref8" title=""><![if !supportFootnotes]>[8]    <![endif]>   </a><sup></sup></p>     <p>Antes da oficialização do comemorativismo histórico, por exemplo, através da    criação da Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses    em 1986, os Heróis do Mar reintroduziam a temática dos Descobrimentos no espaço    público e colocavam-na no centro das suas narrativas e <i>performances</i>.    Quando o imaginário imperial parecia ter desaparecido do espaço público e se    encetava o novo ciclo europeu, os Heróis do Mar iniciavam uma celebração do    princípio universalista da &ldquo;epopeia&rdquo;, e dos imaginários imperiais, através de    uma nova dinâmica <i>pop</i> e performativa, fortemente investida pela emoção    e formalmente sofisticada. Para evitar conotações políticas, a banda readaptou    alguns elementos, afirmando por exemplo que o seu interesse pelos Descobrimentos    se comparava ao interesse que os norte-americanos tinham pelo <i>western</i>    e que fazia parte de um &ldquo;filme <i>pop</i>&rdquo; que a banda estava a realizar com    o intuito de celebrar o lado aventureiro dos portugueses. Quer a ideia de aventura,    quer a componente fantasiosa faziam parte da <i>performance</i> <i>pop</i>,    mas foram principalmente as referências à história do império a dar singularidade    e visibilidade mediática à banda.</p>     <p>Ainda que procurassem esvaziar politicamente os seus rituais performativos    à luz das práticas da cultura <i>pop</i>, os Heróis do Mar não deixaram de afrontar    os meios ligados à esquerda política, nomeadamente quando agendaram o seu primeiro    espetáculo ao vivo para o dia 25 de novembro de 1981, ou quando decidiram colocar    um anúncio no <i>Se7e</i> para tentar pôr termo à polémica sobre o seu alegado    fascismo, o qual incluía a frase de Fidel Castro: &ldquo;A história nos absolverá&rdquo;.</p>     <p>Condicionados por uma conjuntura política que lhes era adversa, e que os próprios    procuravam desafiar, o epíteto de &ldquo;banda fascista&rdquo; traduzia a dificuldade em    aceitar uma banda que colocava no centro das suas narrativas e <i>performances</i>    a temática nacionalista e empreendia um revivalismo histórico através da música    <i>pop</i>. Como António Araújo refere: &ldquo;No Portugal dos anos 80, o revivalismo    tinha um significado político intenso, já que surgia na sequência de uma ruptura    (&hellip;). Em face dela, qualquer redescoberta do passado era, por natureza, contra-revolucionária    e, nessa medida, tinha um sentido ideológico tão definido quanto profundo&rdquo; (Araújo,    2016, p. 25).</p>     <p>A referência a outros aspetos do percurso político de Pedro Ayres Magalhães    contribuíu para agudizar as críticas. O jornalista do <i>Se7e</i>, Belino Costa,    chegou a mencionar a ligação de Pedro Ayres Magalhães a um grupo de extrema-direita    da Faculdade de Letras, intitulado AXO, dizendo que Ayres Magalhães teria ocultado    deliberadamente essa ligação. Seguidamente afirmava: &ldquo;Tu és o autor das palavras    do primeiro álbum e são essas que poderão ter leituras ideológicas controversas.    É, pois, natural que se fale das tuas próprias convicções políticas&rdquo;.&#8197;<a href="#_ftn9" name="_ftnref9" title=""><![if !supportFootnotes]>[9]    <![endif]>   </a><sup></sup></p>     <p>Outras publicações periódicas confrontaram igualmente os Heróis do Mar com    o uso de simbologia imperial e a apologia dos Descobrimentos. Por exemplo, numa    entrevista conduzida por Trindade Santos para a publicação <i>Música &amp; Som</i><a href="#_ftn10" name="_ftnref10" title=""><![if !supportFootnotes]>[10]    <![endif]>   </a>, Pedro Ayres Magalhães dizia que se identificava com o legado dos Descobrimentos    portugueses: &ldquo;não me venhas dizer que, para um povo que descobriu mais que um    mundo e conquistou boa parte dele, um passado de aventura, romântico, luta e    viagem não têm significado&rdquo;.<a  href="#_ftn11" name="_ftnref11" title=""><![if !supportFootnotes]>[11]    <![endif]>   </a><sup></sup></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A banda parecia apostada em mobilizar os mitos fundadores da consciência nacional,    restaurar uma versão esquecida e contestada da História de Portugal e, simultaneamente,    distanciar-se da identificação política com o fascismo, à qual alguns jornalistas    queriam associar a banda. Na entrevista, Pedro Ayres Magalhães dizia ainda que    a tentativa de enquadrar a banda segundo uma grelha político-ideológica estava    desajustada e não se aplicava às formas de identificação da sua geração. Recusando    quer a mediação intelectual, quer o julgamento político da imprensa conotada    com a esquerda, que apelidava de ser paternalista e anacrónico, Pedro Ayres    Magalhães afirmava que uma geração particular, que estava historicamente ligada    à militância anti-fascista, não podia ser proprietária dos &ldquo;significados coletivos&rdquo;    e dos símbolos de uma história que considerava comum. A afirmação indiciava    a existência de uma clivagem geracional, além de política, em torno do uso de    referentes associados à identidade portuguesa e a presença de visões contrastantes    sobre o que poderia significar a portugalidade na música <i>pop</i>.</p>     <p>As práticas discursivas criadas num determinado momento histórico permitem    perceber quais os conceitos existentes para explicar uma realidade, mas também    as formas de a condicionar, ou mesmo inviabilizar. No caso dos Heróis do Mar,    a dificuldade em separar o sentimento nacionalista do posicionamento político    dos seus membros terá conduzido ao aparecimento do epíteto de &ldquo;banda fascista&rdquo;,    que até pode traduzir a conjuntura política e de a periodizar em termos essencialmente    políticos, mas que não explica integralmente um fenómeno como os Heróis do Mar.    A opção por traduzir a banda através do conceito de nacionalismo, cujo uso académico    só se generalizou em meados da década de 1980<a href="#_ftn12" name="_ftnref12" title=""><![if !supportFootnotes]>[12]    <![endif]>   </a>, teria sido mais abrangente e possibilitaria ver os Heróis do Mar enquanto    agentes autónomos, e não determinados pela conjuntura política, na construção    de um imaginário nacional. Como, aliás, sugeriam as declarações dos membros    da banda, que colocavam sistematicamente as suas narrativas e <i>performances</i>    no âmbito de um trabalho sobre a identidade nacional, inclusive quando eram    confrontados com as semelhanças com outras bandas internacionais, como os britânicos    Spandau Ballet e os Ultravox, que trabalhavam igualmente a dimensão épica e    desenvolviam exercícios de retrospeção histórica. A esse respeito, Pedro Ayres    Magalhães dizia: &ldquo;mas o passado deles não é o nosso! Nós somos portugueses (&hellip;)    parece-me leviana a estratégia de tomar de assalto as formas que nos chegam    lá de fora, adornando-as com textos em português&rdquo;.<a  href="#_ftn13" name="_ftnref13" title=""><![if !supportFootnotes]>[13]    <![endif]>   </a><sup></sup></p>     <p>Mesmo admitindo que faziam parte de uma constelação de bandas <i>pop</i> que    se inseria num género específico, Pedro Ayres Magalhães acreditava que a demanda    dos Heróis do Mar por uma especificidade portuguesa os distinguiria das demais    bandas. O sentido profundo que os Heróis do Mar atribuíam à portugalidade impedia-os    de ter uma abordagem construtivista da identidade nacional. Como se fossem dados    adquiridos, e não tivessem sido sujeitos a um processo de seleção e estilização,    os Heróis do Mar trabalhavam no sentido de reavivar os temas esquecidos e, simultaneamente,    mais contestados, da identidade nacional. A incapacidade de olhar para a identidade    nacional com um distanciamento crítico conduziu inclusivamente a uma tentativa    de prescrever uma interpretação unívoca para traduzir a sua música, esta era    incompatível com a imaginação internacional e as (re)apropriações que poderiam    fazer os seus ouvintes.</p>     <p>NOVAS POLÉMICAS PORTUGUESAS</p>     <p>Empenhados em afirmar-se fora de um espaço de expressão dominado pelos valores    conotados com a esquerda, os Heróis do Mar procuravam posicionar-se como porta-vozes    de uma nova geração que queria construir o seu imaginário em torno de uma ideia    de passado português, mas que partilhava os valores e representações da cultura    <i>pop</i> internacional, aproximando-se assim dos ideais de autorrealização    e hedonismo e encontrando na cultura <i>pop</i> uma forma de identificar-se    com o seu tempo. Esta aspiração da banda, simultaneamente idealista e contraditória,    tinha todavia um lado prescritivo. Nomeadamente quando Ayres Magalhães afirmava    que a intenção da banda passava por nacionalizar a sua música: &ldquo;o nosso objetivo    - conseguido ou não - é nacionalizar a expressão plástica, demasiadamente atingida    pelas interferências estrangeiras. Tentámos nacionalizar a música que fazemos&rdquo;.<a href="#_ftn14" name="_ftnref14" title=""><![if !supportFootnotes]>[14]    <![endif]>   </a><sup></sup></p>     <p>Independentemente da impossibilidade de concretizar a nacionalização de um    género que era híbrido e internacional, e que não se conformava a um lugar ou    reivindicação identitária, a intenção nacionalista confirmava que a banda tinha    uma agenda própria e um sentido programático para concretizá-la.</p>     <p>Em 1983, Pedro Ayres Magalhães, Miguel Esteves Cardoso, Ricardo Camacho, Isabel    Castaño, Francisco Sande e Castro e Pedro Bidarra criaram a editora Fundação    Atlântica (Companhia de Discos de Portugal). Com o intuito de suprir a dificuldade    em obter discos em Portugal e encontrar novos mecanismos de distribuição, a    editora foi pioneira no campo da edição de música independente em Portugal.    Inspirados pela editora britânica Factory - que dispunha de uma equipa criativa    composta por um produtor (Martin Hannett) e um <i>designer</i> gráfico (Peter    Saville), que conferiram um som distinto e uma imagem singular ao seu catálogo    musical -, a Fundação Atlântica colocou todos os intervenientes na estrutura    da editora, ocupando-se da criação gráfica, repertório, produção musical e arranjos.</p>     <p>A par de editarem artistas portugueses que consideravam ilustrativos de uma    ideia de portugalidade e vanguarda musical - Sétima Legião, Anamar, Né Ladeiras,    ou o máxi-single de Pedro Ayres Magalhães, intitulado &ldquo;O Ocidente Infernal/Adeus    Torre de Belém&rdquo; -, a Fundação Atlântica prosseguiu uma estratégia de curadoria,    investindo na edição de artistas estrangeiros relevantes no campo da música    independente. O catálogo evocava tanto uma ideia de portugalidade, como apelava    a referências musicais anglo-saxónicas mais em voga na altura. Embora se viesse    a revelar economicamente insustentável, a Fundação Atlântica foi uma tentativa    de transformação cultural a partir da música <i>pop</i>, que passou por implementar    uma &ldquo;política de autor&rdquo;, decisiva para a afirmação da música independente em    Portugal, mas que contribuiu também para banalizar alguns referentes associados    à portugalidade, como o nome da editora indicava.</p>     <p>Animada pelo espírito &ldquo;faça-você-mesmo&rdquo;, a Fundação Atlântica foi determinante    para a legitimação cultural dos que nela participaram e deu a conhecer o trabalho    de parceria de Pedro Ayres Magalhães (compositor) e Miguel Esteves Cardoso (letrista),    uma dupla prolífica no campo da edição musical nos anos 80, que gravou fonogramas    com Manuela Moura Guedes, &ldquo;Flor sonhada/Foram cardos foram prosas&rdquo; (Single -    Valentim de Carvalho, 1981); Né Ladeiras, &ldquo;Alhur&rdquo; (EP - EMI, 1982); Sétima Legião,    &ldquo;Glória&rdquo; (Single - Fundação Atlântica, 1983); As Doce, &ldquo;Esperança&rdquo; (Single -    Polygram, 1984). Um <i>single</i> que incluía o tema &ldquo;Barquinho da Esperança&rdquo;,    que As Doce levaram ao Festival RTP da Canção de 1984, ano da sua última participação    no evento, depois de terem ganho, em 1982, com o tema &ldquo;Bem Bom&rdquo; (Cardão, 2015).</p>     <p>Miguel Esteves Cardoso, popularmente conhecido como MEC, foi provavelmente    o protagonista mais mediático da &ldquo;nova cultura de direita&rdquo; que emergiu nos anos    80 (Araújo, 2016, pp. 26-28). Afirmando-se monárquico e &ldquo;conservador não por    natureza, mas por convicção&rdquo; (Cardoso, 1990b, p. XI), Miguel Esteves Cardoso    foi fulcral para a afirmação e difusão de uma nova corrente nacionalista, que    se caracterizaria por ser popular, idealmente sem abstrações e excessos líricos    e mediada pelo humor. Opondo-se à ideia de orgulho nacional isolacionista e    à idealização saudosista do passado, Miguel Esteves Cardoso introduzia um nacionalismo    cosmopolita, indefinido sob o ponto de vista político, ainda que o autor se    identificasse como sendo de direita, que incluía vária referências internacionais,    mas que pretendia estar próximo de uma ideia portugalizada banal e comum.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Embora desenvolvesse uma atividade na área da investigação científica - a sua    tese de doutoramento foi sobre a saudade, o sebastianismo e o Integralismo Lusitano,    chegando a publicar em 1982 um artigo na <i>Análise Social</i><a href="#_ftn15" name="_ftnref15" title=""><![if !supportFootnotes]>[15]    <![endif]>   </a> -, foi a partir da crítica musical que Miguel Esteves Cardoso ganhou notoriedade.    Escreveu para várias publicações, incluindo a <i>Música &amp; Som</i>, <i>O    Jornal</i> e o <i>Se7e</i>, onde publicou textos que referenciavam a música    <i>pop</i> que se produzia no Reino Unido. Os textos de Miguel Esteves Cardoso    sobre música foram posteriormente publicados no livro <i>Escrítica Pop</i> (1982),    que deu início à sua carreira de autor com grande sucesso comercial. Nos diversos    livros que publicou - <i>Os Meus Problemas</i> (1986), <i>As Causas das Coisas</i>    (1988), <i>As Minhas Aventuras na República Portuguesa</i> (1990) -, abordou    temáticas como a identidade nacional, a língua portuguesa e os usos e costumes    portugueses, etc. Escreveu também para programas de humor - <i>Hermanias</i>    (1984) ou <i>Humor de Perdição</i> (1988) -, campanhas publicitárias e, em 1987    e 1989, foi candidato independente pelo Partido Popular Monárquico (PPM) às    eleições para o Parlamento Europeu, onde desenvolveu uma campanha inovadora,    com tempos de antena que contaram com a participação de Paulo Portas e Pedro    Ayres Magalhães.</p>     <p>A popularidade que Miguel Esteves Cardoso adquiriu enquanto crítico de música    foi transversal a orientações políticas e as polémicas que veio a protagonizar    no início dos anos 80 contribuíram para desorganizar algumas das dicotomias    estabelecidas entre esquerda e direita. Designadamente a polémica com o jornalista    António Duarte sobre a existência do &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;, ou a polémica    com o então deputado do Partido Socialista, José Niza - músico e compositor,    autor do tema &ldquo;E depois do Adeus&rdquo;, e diretor de Programas da RTP no final da    década de 1970 -, sobre a chamada Lei da Rádio, que estabelecia um regime de    proteção legal para a música cantada em português.</p>     <p>No início dos anos 80, assistiu-se à expansão do <i>pop-rock</i> cantado em    língua portuguesa, houve um investimento generalizado na edição de fonogramas    de intérpretes portugueses e o interesse manifestado por vários meios de comunicação    de massa em divulgá-los. Em particular no <i>Se7e</i>, que foi uma &ldquo;espécie    de órgão oficioso desta nova música que se instala rapidamente no quotidiano    de uma geração&rdquo; (Dionísio, 1993, p. 328). Com efeito, o <i>Se7e</i> realizou    uma cobertura detalhada sobre a emergência do &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;, tendo    sido um dos principais responsáveis pela sua mediatização. Fê-lo inicialmente    através de uma atitude crítica em relação a outros géneros musicais, como o    <i>disco-sound</i>, um género relativamente invisível em Portugal, que desafiou    a hegemonia do <i>rock</i> no final da década de 1970, e era normalmente considerado    um género artificial e fútil.<a  href="#_ftn16" name="_ftnref16" title=""><![if !supportFootnotes]>[16]    <![endif]>   </a> Depois, através da seleção de uma discografia <i>rock</i> designada &ldquo;de    qualidade&rdquo; para os leitores; receção e patrocínio das principais bandas de &ldquo;<i>rock</i>    português&rdquo;. Através do lançamento de concursos, como o &ldquo;Caça ao <i>Rock</i>&rdquo;,    que se destinava a descobrir novos talentos na área do <i>rock</i>. E através    das diversas reportagens publicadas sobre o &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;. Uma das    quais mencionava os nomes mais importantes do género em Portugal, incluindo    intérpretes como Adelaide Ferreira, Salada de Frutas, Rui Veloso, UHF, GNR,    Táxi, Trabalhadores do Comércio, deixando de fora os Heróis do Mar, que o jornalista    António Duarte caracterizaria assim: &ldquo;<i>rock</i> não, disco-militar sim&rdquo;.<a href="#_ftn17" name="_ftnref17" title=""><![if !supportFootnotes]>[17]    <![endif]>   </a> Os próprios Heróis do Mar recusavam ser associados ao <i>rock</i>, declaravam-se    inclusivamente &ldquo;anti-<i>rock</i>&rdquo;, e preferiam ser descritos como banda <i>pop</i>,    o que veio a proporcionar uma polémica sobre as diferenças entre o <i>rock</i>    e o <i>pop</i>, que teve como pano de fundo entendimentos diferenciados sobre    a modernidade musical.</p>     <p>Na mesma altura em que publicações especializadas, como o <i>New Musical Express</i><a href="#_ftn18" name="_ftnref18" title=""><![if !supportFootnotes]>[18]    <![endif]>   </a>, falavam do <i>rock</i> enquanto género do passado e jornalistas, como    Paul Morley, proclamava as virtudes do &ldquo;novo <i>pop</i>&rdquo;, o <i>Se7e</i> apadrinhava    o &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;, reconhecendo nele uma série de qualidades e denominadores    comuns. A começar pela língua, entre outras características associadas historicamente    ao género <i>rock</i>, como a autenticidade, espontaneidade, a proximidade a    formas de contestação, denuncia e revolta (Grossberg, 1993; Frith, 2004). Sem    referir que antes do chamado &ldquo;<i>boom</i> do <i>rock</i> português&rdquo; já tinha    havido um movimento de <i>rock</i> em Portugal (Cardão, 2013), nem encetar uma    reflexão crítica sobre o processo que conduziu à codificação de géneros musicais,    como o <i>rock</i>, o <i>Se7e</i> encarregou-se de promover o &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;,    que via como uma nova revolução:</p>     <p>Cantando tanto na rua como na rádio, o <i>rock</i> português instalou-se já    no nosso quotidiano (&hellip;) Tudo isto expresso em palavras que agora todos entendem,    falando de coisas que todos conhecem, que todos sentem. O <i>I love you</i>    mal pronunciado foi agora substituído pelo &ldquo;Olhó Robot&rdquo; e o &ldquo;Chico Fininho&rdquo;.    Esta é a grande revolução&rdquo;.<a  href="#_ftn19" name="_ftnref19" title=""><![if !supportFootnotes]>[19]    <![endif]>   </a><sup></sup></p>     <p>A emblematização do <i>rock</i> enquanto género adequado para articular as    esperanças e os anseios da juventude, denúncia social, ou rejeição global do    sistema, parecia realizar um prolongamento da política por outros meios, todavia    sem se especificar de que modo o conteúdo político podia ser articulado, nem    de que formas ele se revestia. A par da idealização política, que estabelecia    uma função programática para o <i>rock</i>, semelhante à que tinha existido    anteriormente para a canção de intervenção, ainda que elidisse que o <i>rock</i>    estava igualmente inserido nos mecanismos da indústria fonográfica, o <i>Se7e</i>    operava uma dignificação do &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo; através de uma leitura em    grande medida nacionalista.</p>     <p>A mediação nacionalista alicerçada aos interesses mercantis foi predominante    na divulgação do &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;. Foi deste modo que a editora Valentim    de Carvalho investiu na promoção dos seus artistas, dizendo a propósito do primeiro    disco de Rui Veloso, &ldquo;Ar de <i>Rock</i>&rdquo; (LP - EMI/VC, 1980) - considerado o    inventor do &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo; e um modelo da sua pretensa especificidade    -, &ldquo;você continua a achar estúpido comprar discos portugueses&rdquo;. Ou através do    anúncio que mencionava: &ldquo;1981 foi um ano bom para a música popular portuguesa,    temos 50 boas razões para o afirmar&rdquo;, identificando posteriormente os artistas    portugueses que faziam parte do catálogo da editora.</p>     <p>Miguel Esteves Cardoso procurou problematizar a denominação &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;,    dizendo que esta mobilizava um conjunto de generalizações nacionalistas, interpretações    abusivas e que o género era pobre sob o ponto vista conceptual. Tendo como pretexto    o álbum de estreia dos UHF, &ldquo;À Flor da Pele&rdquo; (LP - EMI/VC, 1981), que se inseria    no género <i>rock</i>, Miguel Esteves Cardoso mencionava a artificialidade da    categoria, criada por empresários e jornalistas, e as falsas expectativas que    alimentava. Para Miguel Esteves Cardoso, a comparação dos UHF com outras bandas    <i>rock</i> ser-lhes-ia favorável, mas a sua nacionalidade constituiria um obstáculo:    &ldquo;Atrevo-me a dizer que, caso tivessem nascido em Coventry ou Palo Alto, seriam    bastantes bons&rdquo; (Cardoso, 1990a, p. 322). Além de ironizar sobre o papel da    mediação nacionalista, Miguel Esteves Cardoso mencionava a indigência formal    do &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;: &ldquo;julgam-se as canções pelas letras e fecham-se os    olhos à confrangedora escassez de nobreza e invenção musicais&rdquo; (Cardoso, 1990a,    p. 323).</p>     <p>António Duarte, por seu turno, confiava no vigor do &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;    e a prova empírica de que existia era porque era feito por portugueses: &ldquo;Fácil.    É <i>Rock</i>. É feito por portugueses - <i>rock</i> português&rdquo;.<a href="#_ftn20" name="_ftnref20" title=""><![if !supportFootnotes]>[20]    <![endif]>   </a> Esta correspondência banal evidenciava o papel da mediação nacionalista,    à qual se acrescentava a determinação em apoiar o movimento, solicitando inclusive    apoios oficiais. Acreditava-se que a sua publicitação conduziria a um processo    de seleção natural, e que este se traduziria na profissionalização dos músicos.</p>     <p>António Duarte invetivava seguidamente Miguel Esteves Cardoso, sublinhando    como este não tinha sido tão crítico quando se tratou dos Heróis do Mar, designadamente    quando afirmou que estes produziam &ldquo;canções portuguesas&rdquo;. António Duarte criticava    ainda a propensão para teorizar sobre o &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;, ou refletir    sobre o género, dizendo que o mais importante era existirem músicos a tocar    do que críticos a escrever sobre o assunto.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A polémica prosseguiu, com Miguel Esteves Cardoso a criticar as terminologias    de António Duarte, e a separação que estabelecia entre cultura e divertimento,    própria de quem se situaria à esquerda do espectro político. Depois justificou    a sua predileção pelos Heróis do Mar, dizendo que estes faziam canções portuguesas    porque estavam inseridos numa &ldquo;tradição lírica portuguesa que facilmente se    encontra em poetas como Afonso Lopes Vieira&rdquo;.<a href="#_ftn21" name="_ftnref21" title=""><![if !supportFootnotes]>[21]    <![endif]>   </a><sup></sup></p>     <p>Embora procurasse ser mais elaborado a explicitar e diferenciar os géneros    musicais, Miguel Esteves Cardoso também acabaria por reenviar o debate para    o campo da identidade nacional, naturalizando a pretensa portugalidade dos Heróis    do Mar. Ou seja, a desconstrução que Miguel Esteves Cardoso operava da categoria    &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo;, quer enquanto género, quer identificando o &ldquo;nacionalismo    banal&rdquo; que caracterizava a sua mediação<a  href="#_ftn22" name="_ftnref22" title=""><![if !supportFootnotes]>[22]    <![endif]>   </a>, não acontecia quando abordava o género <i>pop</i>, nem quando referia    bandas da sua predileção, como os Heróis do Mar. Estes, dizia, ofereciam um    &ldquo;contributo influente à dignidade da música portuguesa&rdquo;<a  href="#_ftn23" name="_ftnref23" title=""><![if !supportFootnotes]>[23]    <![endif]>   </a>, em grande medida por causa da sua ousadia formal. Em relação às narrativas    e imagens da banda que convocavam temas da identidade nacional estilizados por    coreografias <i>pop</i> sofisticadas, Miguel Esteves Cardoso omitia o seu carácter    construído, ignorando a sua semelhança formal com outras encenações produzidas    por bandas <i>pop</i> internacionais, que partilhavam o mesmo género.</p>     <p>À incapacidade de António Duarte se distanciar das mitologias ligadas ao <i>rock</i>,    e de as traduzir dentro do âmbito do nacionalismo banal, juntava-se a dificuldade    de Miguel Esteves Cardoso discutir os artificialismos das convenções <i>pop</i>    e, sobretudo, refletir sobre o modo como o nacionalismo (dos Heróis do Mar)    também construía e inventava a identidade portuguesa. Ainda que nunca enunciassem    o conceito, o nacionalismo foi o elemento discursivo central nesta disputa.    Fosse de cariz banal, ou orgânico, ambos os intervenientes na polémica olhavam    para a identidade nacional como algo aparentemente natural e inquestionável,    apenas discordando dos elementos que ela podia acolher.</p>     <p>Para os seus promotores, o &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo; satisfazia um desejo de    autonomia cultural e autoestima nacional, além de ser um nicho comercial para    os promotores de espetáculo e editoras. Nação e mercado foram elementos discursivos    que voltaram a ser convocados nas discussões sobre a chamada Lei da Rádio, dando    origem a uma nova polémica que teve a música popular como objeto, o que evidenciava    a relevância do campo enquanto marcador de dissentimento e forma de ler a sociedade    e a cultura em Portugal nos anos 80.</p>     <p>O deputado José Niza foi o autor da Lei de Proteção da Música Portuguesa em    1981 (Lei n.º 12/81), aprovada por unanimidade na Assembleia da República, que    estabelecia um regime de proteção à música vocal ou instrumental de autores    portugueses através da fixação de percentagens mínimas de tempo de emissão pelas    estações emissoras de radiodifusão e radiotelevisão, que se traduzia na obrigação    de transmitir 40&#8197;% de música portuguesa. A lei decorria do processo de    integração europeia e pretendia ser um projeto de salvaguarda da &ldquo;individualidade    cultural&rdquo; de cada estado-membro, que passava pela proteção da língua portuguesa,    estímulo à criatividade musical, proteção dos intérpretes portugueses e o reforço    da sua expressão económica. Em nome da especificidade portuguesa e da dinamização    do mercado discográfico interno, a distribuição de música, que estava inserida    em circuitos de produção e circulação globais, passava a ser organizada nacionalmente.</p>     <p>Miguel Esteves Cardoso criticou a nova Lei no artigo &ldquo;Tangem as guitarras de    Alcácer e Sebastião não aparece&rdquo;, originalmente publicado no <i>Jornal de Letras</i>.    Nele ridicularizava o &ldquo;provincianismo tacanho&rdquo; da Lei, dizendo: &ldquo;O <i>rock</i>    americano, em versão Arraiolos, debitado com uma embaraçante pronúncia, é nosso,    beneficiaria dos 50&#8197;%. É a recuperação da nossa tresmalhada cultura nacional&rdquo;    (Cardoso, 1990a, p. 186). Ao posicionar-se contra a Lei, salientando o seu &ldquo;pervertido    nacionalismo&rdquo;, Miguel Esteves Cardoso baralhava as associações habituais entre    direita e nacionalismo, que tendiam a colocar a direita no âmbito das formas    retrógradas e isolacionistas de nacionalismo. Ao protecionismo da Lei, e a sua    submissão a um imperativo da nacionalidade, Miguel Esteves Cardoso contrapunha    a liberdade de escolha do consumidor. Este argumento colocava-o como defensor    da modernidade cosmopolita e fazia com que qualquer medida para travar a distribuição    de música através de quotas ou outras barreiras alfandegárias fosse visto como    culturalmente conservador, exclusivista e provinciano (Grazia, 2005, p. 8).</p>     <p>Os promotores da Lei acreditavam, por seu turno, que o estímulo à produção    de &ldquo;música nacional&rdquo; se refletiria na crescente qualidade das bandas e intérpretes    portugueses e, consequentemente, na sua profissionalização. José Niza estava    convencido de que esta contribuiria para &ldquo;uma melhoria significativa e progressiva    do panorama da música portuguesa, isto é, da cultura e da própria língua    portuguesa&rdquo;.<a href="#_ftn24" name="_ftnref24" title=""><![if !supportFootnotes]>[24]    <![endif]>   </a> Mencionando a colonização cultural de um país periférico como Portugal,    José Niza afiançava que a nova Lei fortaleceria a identidade e a especificidade    portuguesa, ainda que o fizesse independentemente da qualidade do artista e    do género musical em que este se inseria. Prevalecia na Lei o princípio segundo    o qual a música feita por instrumentistas, compositores ou interpretada por    autores com cidadania portuguesa, obteria proteção legal.</p>     <p>No início dos anos 80, Miguel Esteves Cardoso personificou a emergência de    um novo intelectual de direita com grande impacto mediático que podia ser simultaneamente,    e seletivamente, conservador e nacionalista, sem deixar de ser cosmopolita e    urbano. Cúmplice dos Heróis do Mar, ambos protagonizaram polémicas centrais    para a redefinição e complexificação de conceitos como nacionalismo, ao mesmo    tempo que contribuíram para afirmar intelectualmente a emergência de uma sensibilidade    <i>pop</i>, até à data inexistente. Esta viria a ser central numa nova fase    da carreira artística dos Heróis do Mar, que se distanciariam das temáticas    marcadamente nacionalistas para passar a gravar temas <i>pop</i>, aparentemente    banais, como &ldquo;Amor&rdquo; e &ldquo;Paixão&rdquo;.</p>     <p>&ldquo;OS GUERREIROS TAMBÉM SE APAIXONAM&rdquo;</p>     <p>Em 1982, os Heróis do Mar editaram o <i>single</i> &ldquo;Amor&rdquo;, o primeiro disco    de platina em Portugal, com capa da autoria do artista Paulo Nozolino. Depois    da crítica generalizada ao seu primeiro disco, os Heróis do Mar decidiram gravar    um tema comercial, voltado para as pistas de dança, com o intuito de se libertarem    definitivamente das acusações de &ldquo;banda fascista&rdquo;. Porém, esta decisão foi novamente    criticada no semanário <i>Se7e</i>, por se entender que a banda estava a ceder    às lógicas comerciais da indústria fonográfica e a traçar uma via simplista    e inconsequente para defender a sua neutralidade política.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quando a banda parecia ter abdicado da simbologia nacionalista e gravara um    tema <i>pop</i> sem aparentes conotações políticas, voltava a ser confrontado    com críticas, desta feita por causa das características <i>pop</i> do tema.    Com sintetizadores analógicos e a influência da música de dança, o tema &ldquo;Amor&rdquo;    pretendia afirmar as possibilidades da <i>pop</i> contra o convencionalismo    do <i>rock</i>, quer em termos de sensibilidade, quer enquanto valor estético,    não hesitando em privilegiar o afeto e o divertimento em vez de uma ideia de    autenticidade. O objetivo era criar um tema que fosse simultaneamente agradável,    estimulante e dançável, sem que essas características fossem consideradas menores    ou descartáveis. Pretendia-se, no fundo, validar estética e culturalmente a    música <i>pop</i>, autonomizando-a enquanto género, de modo a retirá-la das    leituras pejorativas efetuadas por um jornalismo cultural que privilegiava mediatamente    o &ldquo;<i>rock</i> português&rdquo; e tendia a equiparar a música pop ao entretenimento    vazio.</p>     <p>À exceção das crónicas efetuadas por Miguel Esteves Cardoso, a receção crítica    da música <i>pop</i> era praticamente inexistente. No <i>Se7e</i>, a música    <i>pop</i> só era notícia quando uma banda <i>pop</i> conhecida visitava Portugal,    como sucedeu com os Spandau Ballet, que atuaram ao vivo no programa &ldquo;Febre de    Sábado de Manhã&rdquo; de Júlio Isidro. Nessa ocasião, Gary Kemp, o compositor da    banda, foi entrevistado por António Duarte, que o confrontou com as suas opções    políticas. António Duarte queria saber se os Spandau Ballet eram efetivamente    neo-nazis, uma vez que o nome Spandau evocava o campos de concentração nazis    e a banda tinha na capa do seu primeiro disco uma imagem de uma estátua de um    atleta grego sem cabeça que, segundo António Duarte, se inspiraria nos Jogos    Olímpicos de Berlim de 1936. Depois de rejeitar as associações ao nazismo, dizendo    inclusive que era socialista e militante do Partido Trabalhista britânico, Gary    Kemp foi confrontado com a estética <i>pop</i> da banda, desvalorizada por António    Duarte, que a qualificava de superficial, fácil e assente sobretudo em imagens    fortes e roupas extravagantes. Por fim, questionava-se se a música dos Spandau    Ballet era &ldquo;para dançar e não para pensar?&rdquo;.<a href="#_ftn25" name="_ftnref25" title=""><![if !supportFootnotes]>[25]    <![endif]>   </a><sup></sup></p>     <p>Semelhante às críticas feitas aos Heróis do Mar, o guião da entrevista continha    uma súmula das principais críticas feitas ao género <i>pop</i> pelo <i>Se7e</i>.    Embora partissem de preconceitos ou julgamentos de gosto que eram partilhados    pela crítica musical ligada ao <i>rock</i>, os detratores da música <i>pop</i>    assumiam que este era um género irremediavelmente ligado à cultura comercial    e, como tal, superficial, efémero, vocacionado para o entretenimento e caracterizado    pela repetição exaustiva de fórmulas de sucesso que facilitariam a identificação    do ouvinte. A divisão entre o <i>rock</i> e o <i>pop</i> estabeleceu-se historicamente    através de categorias mutuamente exclusivas, com o <i>rock</i> a ser associado    à seriedade, sinceridade, marginalidade e autenticidade, enquanto o <i>pop</i>    era visto como um divertimento trivial e &ldquo;inautêntico&rdquo; (Frith, 1996, p. 71;    Keightley, 2004, p. 128).</p>     <p>A edição do <i>single</i> &ldquo;Amor&rdquo;, que foi também editado em <i>maxi-single</i>    exclusivamente destinado às pistas de dança, evidenciava o interesse dos Heróis    do Mar em criar uma nova sensibilidade <i>pop</i> e fundar um espaço cultural    alternativo que se norteava pela fruição e o hedonismo. A música era o veículo    escolhido para concretizar esta tarefa e os espaços noturnos de diversão os    lugares de eleição para performatizá-la. Não só o ritual de dançar nas discotecas    fazia parte das sociabilidades dos membros da banda, como após o sucesso do    tema &ldquo;Amor&rdquo;, que seria adotado por vários <i>disc-jockeys</i> e radialistas,    esses espaços passaram a ser integrados nas digressões dos Heróis do Mar. A    afirmação da vitalidade da música <i>pop</i> atribuir importância acrescida    à dança, acreditando-se que esta podia representar uma experiência renovada    de fruição para a juventude urbana, modificar hábitos e sociabilidades.</p>     <p>Destituída de solenidade, a afirmação de uma nova sensibilidade <i>pop</i>    passava também por afrontar o jornalismo cultural dominante, visando especificamente    aqueles que pretendiam publicar críticas informadas e pretensamente isentas.<a href="#_ftn26" name="_ftnref26" title=""><![if !supportFootnotes]>[26]    <![endif]>   </a> À pedagogia e à postura doutrinária, ou iluminada, contrapunha-se o estilo    descontraído e vagamente populista dos Heróis do Mar que, por exemplo, elogiavam    artistas de música ligeira, como Marco Paulo: &ldquo;Tem um sítio, e no que ele está    a fazer é o melhor. Ele o Dino Meira. No que fazem são os melhores. Eu acho    bom&rdquo;.<a href="#_ftn27" name="_ftnref27" title=""><![if !supportFootnotes]>[27]    <![endif]>   </a><sup></sup></p>     <p>O sucesso do tema &ldquo;Amor&rdquo; projetou os Heróis do Mar para os palcos internacionais,    a banda chegou a ser considerada a melhor banda europeia na revista inglesa    <i>The Face</i>. A banda chegou a fazer a 1.ª parte de espetáculos de bandas    como os King Crimson ou os Roxy Music. Desempenhando um papel central na gestão    da sua carreira artística, as digressões internacionais evidenciaram a preocupação    da banda com os aspetos coreográficos e cenográficos, onde a centralidade atribuída    à portugalidade, o elemento diferenciador da banda, não era esquecida. Pedro    Ayres Magalhães chegou a afirmar: &ldquo;A música que nós fazemos não se envergonha    ao pé da música de lado nenhum, só que não é igual ao que os outros fazem -    é portuguesa&rdquo;.<a  href="#_ftn28" name="_ftnref28" title=""><![if !supportFootnotes]>[28]    <![endif]>   </a><sup></sup></p>     <p>Mesmo no terreno internacional da música <i>pop</i>, Pedro Ayres Magalhães    parecia acreditar que a diferença fundamental dos Heróis do Mar advinha do facto    de eles serem portugueses. Fosse uma crença banal na capacidade diferenciadora    da identidade nacional, uma vontade deliberada em nacionalizar o género <i>pop</i>,    ou inventar uma <i>pop</i> que espelhasse um ideário nacionalista, a afirmação    de Pedro Ayres Magalhães confrontava-se com a imaginação internacional da <i>pop</i>    e com a capacidade de os ouvintes exercerem individualmente os seus julgamentos    e apropriações. Longe de ser um idioma que podia ser preenchido com vários conteúdos,    reais ou imaginários, o género <i>pop</i> continha um conjunto circunscrito    de convenções que lhe davam sentido. Ou seja, a &ldquo;forma já continha o seu próprio    conteúdo&rdquo; (White, 1987, p. XI), e a sua eventual transformação não dependia    de um ato de vontade, por mais voluntarioso que este fosse.</p>     <p>Ao contrário do que sugeria Pedro Ayres Magalhães, a identidade portuguesa    não era um facto ou dado adquirido, nem resultava da consolidação e amadurecimento    de um conjunto de marcadores culturais existentes num determinado território,    mas antes uma construção que procedia à seleção e manipulação desses mesmos    marcadores. Apesar de nunca ser declarada ou assumida, a seleção e manipulação    dos referentes da portugalidade era evidente no <i>videoclip</i> do tema &ldquo;Amor&rdquo;,    que constituía mais uma forma inovadora da banda promover o tema e criar um    novo lugar para a imaginação nacional.</p>     <p>Após a criação da MTV (Music Television) em 1981 - que iniciou as suas emissões    com a exibição do <i>videoclip</i> &ldquo;Video killed the radio star&rdquo;, dos Buggles,    um título premonitório para um canal televisivo que veio a alterar o paradigma    no campo da mediação e divulgação musical -, assistiu-se à crescente importância    da produção de <i>videoclips</i>. Organizou-se inclusive o ciclo intitulado    &ldquo;<i>Videoclips</i>, Anos 80&rdquo;, comissariado por Miguel Esteves Cardoso, no Centro    de Arte Moderna da Gulbenkian em fevereiro de 1986, em que se exibiram vários    <i>videoclips</i> internacionais, apresentados enquanto obras autónomas e não    como suportes ou meios de divulgação de músicos ou intérpretes. Na segunda metade    dos anos 80, os <i>videoclips</i> passaram a ser objeto de cobertura noticiosa    e a ser recenseados nas principais publicações periódicas.</p>     <p>Autónomo da letra da canção, que contemplava a temática amorosa e repetia no    refrão &ldquo;o amor&hellip; não me mataste o desejo&rdquo;, o <i>videoclip</i> continha várias    sequências com monumentos históricos associados à portugalidade, nas quais o    imaginário imperial parecia encontrar uma &ldquo;expressão plena&rdquo; (Bethencourt, 1999,    p. 446).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Vestidos com roupas que tinham aspirações historicistas, os Heróis do Mar foram    filmados junto de monumentos históricos, que serviam de cenário a uma <i>performance</i>    musical que justapunha iconoclastia <i>pop</i> e ritual patriótico. Em vez de    se encetar uma desconstrução da memória do império, ou distanciar-se criticamente    das suas mitologias, a banda optava por celebrá-lo e estilizá-lo. Havia inclusivamente    uma sequência com os membros da banda junto ao túmulo de Luís de Camões, com    a mão sobre o peito, ensaiando uma espécie de homenagem patriótica ao representante    máximo da epopeia portuguesa. Noutra sequência, os membros da banda transportavam    bandeiras portuguesas que eram posteriormente lançadas, como se fossem dardos,    para caírem junto ao mar.</p>     <p>Mais do que um simples instrumento que fazia parte da campanha promocional    da banda, o <i>videoclip</i> inaugurava um novo espaço para performatizar a    nação. Pela primeira vez um <i>videoclip pop</i> percorria os espaços simbólicos    associados aos Descobrimentos e contribuía para reforçar a imaginação nacional.    Contrariamente à noção estabelecida de que as imagens do <i>videoclip</i> devem    constituir um prolongamento da letra da canção, ou sublinhar o seu conteúdo,    os Heróis do Mar exploraram os limites desta correspondência, como se quisessem    demonstrar que a forma visual era tão importante quanto o conteúdo. Ao autonomizar    as imagens de outras determinantes, e deste modo construir uma narrativa visual    sintética sobre a portugalidade, os Heróis do Mar estavam a sugerir que as imagens    não eram inferiores às letras, nem à música que se ouvia e dançava. Através    de uma nova narrativa visual, que era deliberadamente parcial e fragmentária,    os Heróis do Mar renovavam e expandiam o papel da <i>performance</i> na música    <i>pop</i> e ofereciam ao nacionalismo português uma representação visual <i>pop</i>    até então inédita.</p>     <p>CONCLUSÃO</p>     <p>Os Heróis do Mar deixaram um lastro material de documentos (discos, adereços,    <i>performances</i>, <i>videoclips</i>, práticas discursivas) fundamentais para    a formação e difusão de uma nova representação da identidade portuguesa e a    invenção e sustentação do nacionalismo <i>pop</i>. O carácter sistemático com    que empreenderam uma revisitação apologética dos Descobrimentos portugueses    colocou a banda como um dos principais agentes do nacionalismo português. A    banda contribuiu para deslocar o debate sobre a identidade portuguesa dos discursos    eruditos ou institucionais para o campo da cultura pop(ular), e ensaiou uma    nova relação entre a história, nação e a música <i>pop</i>. A reinvenção do    nacionalismo português dependeu de um processo contínuo de produção e reprodução    da identidade nacional, e este passou igualmente pela música <i>pop</i>, com    os os Heróis do Mar a contribuir para a construção de uma visão simultaneamente    singular e contraditória da nacionalidade, que era composta por elementos instáveis,    mas nem por isso menos eficazes para o reforço da imaginação nacional.</p>     <p>No seu idealismo e persistência, os Heróis do Mar quiseram criar um nacionalismo    exemplar<a href="#_ftn29" name="_ftnref29" title=""><![if !supportFootnotes]>[29]    <![endif]>   </a>, que teria continuidade no projeto Madredeus com a releitura de temas históricos    conotados com a portugalidade<a href="#_ftn30" name="_ftnref30" title=""><![if !supportFootnotes]>[30]    <![endif]>   </a>, nomeadamente a &ldquo;saudade&rdquo; (Leal, 2000b). Um idealismo que pressupunha uma    correspondência entre a invenção da nação e a música <i>pop</i>, como se esta    fosse uma realidade meramente local ou obedecesse aos preceitos de um ideário    nacionalista.</p>     <p>Não obstante a insistência em estabelecer uma equivalência entre lugar, música    <i>pop</i> e identidade nacional, atribuindo ao território e à cultura portuguesa    o poder de determinar o sentido da sua música, os Heróis de Mar integravam-se    num movimento <i>pop</i> global, partilhando códigos e rituais performativos    com várias bandas internacionais, que à época desenvolviam igualmente exercícios    de revisitação histórica e alegorias nacionais. Nesse sentido, a vontade de    atribuir um sentido nacional à música diminuía a capacidade dos ouvintes se    apropriarem dela, eventualmente para se aproximarem das principais tendências    internacionais ou produzir subjetividades transnacionais. Por mais voluntarioso    que fosse, o idealismo prescritivo da banda, e a vontade de inventar uma <i>pop</i>    de matriz nacional, utilizava as convenções de um género musical que era global.    A pretensão de reconfigurar o nacionalismo português a partir das práticas discursivas    e performativas da música <i>pop</i> talvez tenha ignorado que este exercício    de retrospeção histórica e imaginação nacional já estava inscrito no género    musical em que a banda se inscrevia.<a href="#_ftn31" name="_ftnref31" title=""><![if !supportFootnotes]>[31]    <![endif]>   </a><sup></sup></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>     <p>FILMES E DOCUMENTÁRIOS</p>     <p>ARAÚJO, J.&#8197;C. (2012) &ldquo;Os 30 anos da edição do single Amor&rdquo;, <i>TVI 24</i>,    30 de junho de 2012.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>GOMES, A. (2012) &ldquo;Baseado numa história verídica&rdquo; (entrevista a Pedro Ayres    de Magalhães), <i>Canal Q</i>, 23-07-2012.</p>     <p>PINHEIRO, J.&#8197;F., PIRES, J.&#8197;P. (2002), <i>Brava Dança</i> (Filmes    do Tejo).</p>     <p>INTERNET</p>     <p><a href="http://bravadanca.blogspot.pt" target="_blank">http://bravadanca.blogspot.pt</a></p>     <p><a href="http://www.sinfonias.org/mais/musica-portuguesa-anos-80/artigos" target="_blank">http://www.sinfonias.org/mais/musica-portuguesa-anos-80/artigos</a></p>     <!-- ref --><p>ANDERSON, B. [2012 (1983)], <i>Comunidades Imaginadas: Reflexões sobre a Origem    e a Expansão do Nacionalismo,</i> Lisboa, Edições 70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108790&pid=S0003-2573201900020000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>ARAÚJO, A. (2016) D<i>a Direita à Esquerda - Cultura e Sociedade em Portugal,    dos Anos 80 à Actualidade,</i> Porto Salvo, Edições Saída de Emergência.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108792&pid=S0003-2573201900020000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>BETHENCOURT, F. (1999) &ldquo;A memória da Expansão&rdquo;. <i>In</i> F. Bethencourt, K.    Chaudhuri (dirs.) <i>História da Expansão Portuguesa, </i>vol. V (Último Império    e Recentramento, 1930-1998), Lisboa, Círculo de Leitores, pp. 442-480.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>BETHENCOURT, F., CURTO, D.&#8197;R. (1991), <i>A Memória da Nação</i>, Lisboa,    Sá da Costa.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108795&pid=S0003-2573201900020000200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BILLIG, M. (1991), <i>Banal Nationalism</i>, Londres, Thousand Oaks, Nova Deli,    Sage Publications.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108797&pid=S0003-2573201900020000200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>BUTT, G., ESHUN, K., FISHER. M. (2016), <i>Post-Punk</i>.<i> Then and Now,    </i>Londres, Repeater Books.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108799&pid=S0003-2573201900020000200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>CARDÃO, M. (2013), &ldquo;A juventude pode ser alegre sem ser irreverente. O concurso    Yé-Yé de 1966-67 e o luso-tropicalismo banal&rdquo;. <i>In</i> N. Domingos, E. Peralta,    <i>A Cidade e o Colonial</i>.<i> Dinâmicas Coloniais e Reconfigurações Pós-Coloniais</i>,    Lisboa, Edições 70, pp. 319-359.</p>     <p>CARDÃO, M. (2015), &ldquo;Pois Claro! Música, política e desejo no Festival RTP da    Canção (1975-1982)&rdquo;. <i>Ler História</i>, 67, pp. 29-45.</p>     <p>CARDÃO, M. (2018), &ldquo;Foram oceanos de amor. Os Descobrimentos Portugueses na    cultura pop dos anos 80&rdquo;. New Perspectives on Luso-Tropicalism. <i>Portuguese</i><i>    Studies Review,</i> 26(1), pp. 99-148.</p>     <!-- ref --><p>CARDOSO, M.&#8197;E. (1990a), <i>Escrítica</i><i> Pop</i>.<i> Um Quarto da    Quarta Década do Rock 1980-1982, </i>Lisboa, Assírio e Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108804&pid=S0003-2573201900020000200010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>CARDOSO, M.&#8197;E. (1990b), <i>As Minhas Aventuras na República Portuguesa,</i>    Lisboa, Assírio e Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108806&pid=S0003-2573201900020000200011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>CATROGA, F. <i>et al</i>. (1998), <i>História da História em Portugal</i>.<i>    Séculos XIX-XX</i>.<i> Da Historiografia à Memória Histórica,</i> Lisboa, Temas    e Debates.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108808&pid=S0003-2573201900020000200012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>CHAKRABARTY, D. (2006) &ldquo;A global and multicultural discipline of history?&rdquo;.    <i>History and Theory, </i>45, pp. 101-109.</p>     <p>CIDRA, R., FÉLIX, P. (2010), &ldquo;Pop-Rock&rdquo;. <i>In</i> S. Castelo-Branco (ed.),    <i>Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, L-P</i>, Lisboa, Temas e    Debates/Círculo de Leitores, pp. 1035-1056.</p>     <!-- ref --><p>DIONÍSIO, E. (1993), <i>Títulos, Acções, Obrigações</i>.<i> A Cultura em Portugal    (1974-1994</i>), Lisboa, Salamandra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108812&pid=S0003-2573201900020000200015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>FABBRI, F. (2004), &ldquo;A theory of musical genres: two applications&rdquo;. S. Frith    (ed.), <i>Critical Concepts in Media and Cultural </i>Studies, vol. III<i> -    Popular Music Analysis</i>, Londres/Nova Iorque, Routledge, pp. 7-35.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>FRITH, S. (1996), <i>Performing Rites</i>.<i> On the Value of Popular Musi</i>c,    Cambridge/Massachusetts, Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108815&pid=S0003-2573201900020000200017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>FRITH, S. (2004), &ldquo;Towards an aesthetic of popular music&rdquo;. <i>In</i> S. Frith    (ed), <i>Critical Concepts in Media and Cultural Studies</i>,<i> </i>vol. IV,    <i>Music and Identity</i>, Londres/Nova Iorque, Routledge pp. 32-47.</p>     <p>GRAZIA, V. (2005), <i>Irresistible Empire</i>.<i> America&rsquo;s Advance through    Twentieth-Century Europe</i>, Cambridge/Londres, The Belknap Press of Harvard    University Press.</p>     <p>GROSSBERG, L. (1993), &ldquo;The framing of rock: rock and the new conservatism&rdquo;.    <i>In </i>T. Bennett et al. (eds.), <i>Rock and Popular Music</i>, Londres/Nova    Iorque, Routledge, pp. 193-208.</p>     <!-- ref --><p>GUERRA, P. (2013), <i>A Instável Leveza do Rock: Génese, Dinâmica e Consolidação    do Rock Alternativo em Portugal (1980</i>-<i>2010),</i> Porto, Edições Afrontamento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108820&pid=S0003-2573201900020000200021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>HESPANHA, A. (2002), &ldquo;A História na cultura portuguesa contemporânea&rdquo;. <i>In</i>    F. Peres, <i>Panorama da Cultura Portuguesa no Século XX, </i>Porto, Edições    Afrontamento/Fundação Serralves, pp. 325-350.</p>     <p>KEIGHTLEY, K. (2004), &ldquo;Reconsidering rock&rdquo;. <i>In</i> S. Frith et al., <i>Cambridge    Companion to Pop and Rock, </i>Cambridge, Nova Iorque, Cambridge University    Press, pp. 109-142.</p>     <!-- ref --><p>LEAL, J. (2000a), <i>Etnografias Portuguesas (1870-1970)</i>.<i> Cultura Popular    e Identidade Nacional,</i> Lisboa, Dom Quixote.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108824&pid=S0003-2573201900020000200024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>LEAL, J. (2000b), &ldquo;The making of saudade. National identity and ethnic psychology    in Portugal&rdquo;. <i>In</i> T. Dekker, J. Helsloot, C. Wijers (eds.), <i>Roots and    Rituals</i>.<i> </i><i>The Construction of Ethnic Identities,</i> Amsterdão,    Het Spinhuis, pp. 267- 287.</p>     <!-- ref --><p>MATOS, S.&#8197;C. (2008), <i>Consciência Histórica e Nacionalismo: Portugal    - S</i>éculos XIX e XX, Lisboa, Livros Horizonte.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108827&pid=S0003-2573201900020000200026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>MORLEY, P. (2004), W<i>ords and Music</i>.<i> A History of Pop in the Shape    of the City,</i> Londres, Bloomsbury.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108829&pid=S0003-2573201900020000200027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>NEGUS, K. (1999), <i>Music Genres and Corporate Cultures</i>, Londres, Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108831&pid=S0003-2573201900020000200028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>NEVES, J. (2008), <i>Comunismo e Nacionalismo em Portugal</i>.<i> Política,    Cultura e História no Século </i>XX, Lisboa, Tinta-da-China.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108833&pid=S0003-2573201900020000200029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>RIMMER, D. (1995) &ldquo;The birth of new pop&rdquo;. <i>In</i> H. Kureishi, J. Savage,    <i>The Faber Book of Pop</i>, Londres, Faber and Faber, pp. 539-544.</p>     <!-- ref --><p>SINKER, M. (2018), <i>Hidden Landscape once a Week: The Unruly Curiosity of    the British Music Press from the ‘60s to the ‘80s by Those Who Made it Happen</i>,    Londres, Strange Attractor Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108836&pid=S0003-2573201900020000200031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>SOBRAL, J.&#8197;M. (2012), <i>Portugal, Portugueses: Uma Identidade Nacional</i>,    Lisboa, Fundação Manuel Martim dos Santos.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108838&pid=S0003-2573201900020000200032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>STANLEY, B. (2013), <i>Yeah, Yeah, Yeah</i>.<i> The Story of Modern Pop</i>,    Londres, Faber and Faber.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108840&pid=S0003-2573201900020000200033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>TRINDADE, L. (2014), &ldquo;O gosto do <i>Se7e </i>- Uma história cultural do semanário    <i>Se7e </i>(1978-1982)&rdquo;. <i>Ler</i><i> História,</i> 67, pp. 45-61.</p>     <p>TRINDADE, L. (2015), &ldquo;Dividing the waters: the sea in Portuguese post-revolutionary    popular music&rdquo;. <i>Portuguese Journal of Social Science</i>, 14(3), pp. 287-301.</p>     <!-- ref --><p>WHITE, H. (1987), <i>The Content of the Form: Narrative Discourse and Historical    Representation</i>, Baltimore/Londres, The John Hopkins University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108844&pid=S0003-2573201900020000200036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>WILLIAMS, R. (1977), <i>Marxism and Literature, </i>Oxford/Nova Iorque, Oxford    University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=108846&pid=S0003-2573201900020000200037&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p>CARDÃO, M. (2019), &ldquo;&#8197;‘Dos fracos não reza a História&rsquo;. Os Heróis do Mar    e a invenção do nacionalismo <i>pop</i>&rdquo;. <i>Análise Social</i>, 231, LIV (2.º),    pp. 256-283.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Recebido a 23-06-2017.</p>     <p>Aceite para publicação a 02-10-2018.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title=""><sup>[1]</sup></a> V. o estudo pioneiro do historiador Luís Trindade    (2015) sobre o papel do mar e da memória do império português na obra dos Heróis    do Mar e de Fausto Bordalo Dias.</p>       <p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2" title=""><sup>[2]</sup></a> António Avelar Pinho é músico e produtor. Foi    membro fundador da Filarmónica Fraude (1967) e da Banda do Casaco (1973). Em    1980, entrou para o Departamento Nacional de Artistas e Repertório da Valentim    de Carvalho e foi produtor de vários artistas portugueses, entre os quais os    Heróis do Mar, Táxi, Rui Veloso, As Doce, Né Ladeiras, Tonicha, Herman José,    etc.</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3" title=""><sup>[3]</sup></a> Sérgio Godinho, músico e intérprete, é autor    de uma obra multifacetada e inclui no seu repertório temas que incidem sobre    o amor, a crítica social, o quotidiano, etc. Em 1979, Sérgio Godinho gravou    o tema &ldquo;Os conquistadores&rdquo;, incluído no fonograma &ldquo;Campolide&rdquo; (LP, Orfeu - 1979),    cuja letra mencionava o carácter violento da colonização, nomeadamente as conversões    culturais forçadas, referindo: &ldquo;Com uma espada de madeira proferindo sentenças/&#8194;enterrada    que ela foi no coração doutras crenças/&#8194;enterrada que ela foi, sua sombra    era uma cruz/&#8194;exigindo aos que morriam que gritassem: Jesus!/&#8194;com    um caixilho de madeira imortalizando o saque/&#8194;colorindo na vitória as    armas brancas do ataque/&#8194;até que povos massacrados foram dizendo: Basta&rdquo;.    Não era a primeira vez que Sérgio Godinho abordava a temática colonial na sua    obra, antes já havia gravado o tema &ldquo;Os demónios de Alcácer Quibir&rdquo;, incluindo    no álbum &ldquo;De pequenino se torce o destino&rdquo; (LP, Diapasão - 1977). </p>      <p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4" title=""><sup>[4]</sup></a> Vitorino, músico e intérprete, pautou a sua carreira    por conjugar textos engajados sob o ponto vista político com arranjos musicais    feitos a partir da música tradicional do Alentejo. Em 1983, Vitorino gravou    o tema &ldquo;A Queda do Império&rdquo;, incluído no fonograma &ldquo;Flor de la Mar&rdquo; (LP, EMI-VC,    1983), no qual alude ao papel da escravatura durante o colonialismo: &ldquo;Pátria    de negreiros/&#8194;vive e foge a morte&rdquo;.</p>      <p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5" title=""><sup>[5]</sup></a> Fausto, músico e intérprete, combinou na sua    obra a crítica social com alusões a episódios da História de Portugal, sobretudo    dos Descobrimentos, e encetou um processo de estilização de géneros musicais    tradicionais. Em 1982, Fausto gravou o álbum &ldquo;Por este rio acima&rdquo; (LP, Triângulo    - 1982), inspirado na obra de Fernão Mendes Pinto, &ldquo;Peregrinação&rdquo; (Trindade,    2015).</p>       <p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6" title=""><sup>[6]</sup></a> Em março de 1978 instaurou-se oficialmente o    25 de Abril como Dia da Liberdade e o 10 de Junho como Dia de Portugal e das    Comunidades. Fernando Namora foi o orador convidado do Dia de Portugal de 1978,    no qual afirmou: &ldquo;Ser português, vitalmente português, pertencer a um padrão    humano específico, mas que não se fecha sobre si próprio é, quanto a mim, ser    universalista (&hellip;). Não fizemos apenas a nossa história, fomos dos povos que    fizemos também a história do mundo&rdquo;, <i>Diário de Lisboa</i>, 12 de junho 1978,    p. 8.</p>      <p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7" title=""><sup>[7]</sup></a> António Duarte (entrevista) &ldquo;Heróis do Mar. Uma    banda fascista?&rdquo;, <i>Se7e</i>, 18-11-1981, p. 20.</p>      <p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8" title=""><sup>[8]</sup></a> <i>Ibidem</i>.</p>      <p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9" title=""><sup>[9]</sup></a> Belino Costa, &ldquo;Os Heróis também se apaixonam&rdquo;,    <i>Se7e</i>, 18-08-1982, p. 10.</p>      <p><a href="#_ftnref10" name="_ftn10" title=""><sup>[10]</sup></a> Fundada em 1977, a revista <i>Música &amp; Som</i>    era propriedade da editora Diagrama e teve como diretor António L. Mendonça    e Bernardo Brito e Cunha como redator principal. A partir do n.º 113 a revista    passou a chamar-se <i>Vídeo, Música &amp; Som</i> e deixou de se publicar em    1987.</p>      <p><a href="#_ftnref11" name="_ftn11" title=""><sup>[11]</sup></a> Trindade Santos, &ldquo;Mais vale andar no mar alto&rdquo;,    <i>Música &amp; Som</i>, fevereiro de 1982, s/p.</p>      <p><a href="#_ftnref12" name="_ftn12" title=""><sup>[12]</sup></a> Os estudos internacionais sobre o nacionalismo    só surgiram na década de 1980 com a publicação de obras como: <i>Imagined communities</i>    (Anderson, 1983); <i>Nations and nationalism </i>(Gellner, 1983); <i>The Invention    of Tradition</i> (Hobsbawm, Ranger, orgs., 1983); <i>State and Nation in the    Third World: the Western State and African nationalism</i> (Smith,1983); <i>Lieux</i><i>    de mémoire</i> (Pierre Nora, org., 1984-1992); e <i>The Ethnic Origins of Nations</i>    (Smith, 1986).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref13" name="_ftn13" title=""><sup>[13]</sup></a> Trindade Santos, &ldquo;Mais vale andar no mar alto&rdquo;,    <i>Música &amp; Som</i>, fevereiro de 1982, s/p.</p>      <p><a href="#_ftnref14" name="_ftn14" title=""><sup>[14]</sup></a> <i>Ibidem</i>.</p>      <p><a href="#_ftnref15" name="_ftn15" title=""><sup>[15]</sup></a> &ldquo;Misticismo e ideologia no contexto cultural    português: a saudade, o sebastianismo e o integralismo lusitano&rdquo;. <i>Análise    Social</i>, 72-73-74, XVIII (3.°-4.°-5.°), pp. 1399-1408.</p>      <p><a href="#_ftnref16" name="_ftn16" title=""><sup>[16]</sup></a> V., por exemplo, o artigo S/a, &ldquo;A cultura contra    o som da moda&rdquo;, <i>Se7e</i>, 18-07-1979, p. 8.</p>      <p><a href="#_ftnref17" name="_ftn17" title=""><sup>[17]</sup></a> António Duarte (entrevista) &ldquo;Heróis do Mar.    Uma banda fascista?&rdquo;, <i>Se7e</i>, 18-11-1981, p. 20.</p>      <p><a href="#_ftnref18" name="_ftn18" title=""><sup>[18]</sup></a> Miguel Esteves Cardoso chegou a escrever um    artigo sobre a importância do jornalismo musical de publicações como o <i>New    Musical Express</i>, intitulado &ldquo;Sem o NME o <i>pop</i> não teria <i>pop</i>&rdquo;,    <i>Se7e</i>, 29-04-1981, p. 18.</p>      <p><a href="#_ftnref19" name="_ftn19" title=""><sup>[19]</sup></a> S/a, &ldquo;<i>Rock</i> português&rdquo;, <i>Se7e</i>, 24-06-1981,    p. 17.</p>      <p><a href="#_ftnref20" name="_ftn20" title=""><sup>[20]</sup></a> António Duarte, &ldquo;<i>Rock</i> português. Vive    e deixa viver&rdquo;, <i>Se7e</i>, 17-11-1982, p. 14.</p>      <p><a href="#_ftnref21" name="_ftn21" title=""><sup>[21]</sup></a> Miguel Esteves Cardoso, &ldquo;<i>Rock</i> português    não morre. Deixa-se morrer&rdquo;, <i>Se7e</i>, 17-11-1982, p. 14.</p>      <p><a href="#_ftnref22" name="_ftn22" title=""><sup>[22]</sup></a> Segundo Michael Billig, &ldquo;O nacionalismo banal    opera com palavras prosaicas e rotineiras, que encaram a nação como um dado    adquirido, e que, ao fazê-lo, habitam-nas. Pequenas palavras, em vez de frases    memoráveis, que oferecem lembretes constantes, mas pouco conscientes, da terra    natal, tornando a ‘nossa&rsquo; identidade nacional inesquecível&rdquo; (Billig, 1991, p.    93).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref23" name="_ftn23" title=""><sup>[23]</sup></a> Miguel Esteves Cardoso, &ldquo;<i>Rock</i> português    não morre. Deixa-se morrer&rdquo;, <i>Se7e</i>, 17-11-1982, p. 14.</p>      <p><a href="#_ftnref24" name="_ftn24" title=""><sup>[24]</sup></a> José Niza, &ldquo;Da quantidade surgirá a qualidade&rdquo;,    <i>Se7e</i>, 03-06-1981, p. 8.</p>       <p><a href="#_ftnref25" name="_ftn25" title=""><sup>[25]</sup></a> António Duarte (entrevista a Gary Kemp), &ldquo;Claro    que não somos neo-nazis&rdquo;, <i>Se7e</i>, 08-07-1981, p. 21.</p>      <p><a href="#_ftnref26" name="_ftn26" title=""><sup>[26]</sup></a> Procurando confrontar os defeitos do jornalismo    musical, Miguel Esteves Cardoso referia: &ldquo;em <i>pop</i> uma opinião vale tanto    como outra. O mais que se pode pedir é que esteja bem expressa, e divirta um    pouco, exaspere um pouco, estimule um pouco quem a lê&rdquo; (Cardoso, 1990a, p. 16).</p>       <p><a href="#_ftnref27" name="_ftn27" title=""><sup>[27]</sup></a> Manuela Paraíso, &ldquo;Por mares nunca dantes navegados&rdquo;,    <i>Música &amp; Som</i>, novembro/dezembro, 1982, p. 16.</p>      <p><a href="#_ftnref28" name="_ftn28" title=""><sup>[28]</sup></a> <i>Idem</i>, p. 14.</p>      <p><a href="#_ftnref29" name="_ftn29" title=""><sup>[29]</sup></a> À posteriori, os Heróis do Mar fizeram uma releitura  triunfalista da sua carreira artística, afirmando o seu pioneirismo na apresentação  e celebração de temas da identidade portuguesa. V., por exemplo, os programas  televisivos da autoria de José Carlos Araújo, &ldquo;Os 30 anos da edição do single  Amor&rdquo;, TVI24, 30-06-2012. Disponível em <a href="https://www.youtube.com/watch?v=P1FToXtqBa0" target="_blank">https://www.youtube.com/watch?v=P1FToXtqBa0</a>  (Consultado em maio de 2017); Aurélio Gomes, &ldquo;Baseado numa história verídica&rdquo;  (entrevista a Pedro Ayres de Magalhães), Canal Q, 23-07-2012, Disponível em <a href="https://www.youtube.com/watch?v=nUjskPb0ubQ" target="_blank">https://www.youtube.com/watch?v=nUjskPb0ubQ</a>  (Consultado em maio de 2017). Ver igualmente o documentário realizado por José  Francisco Pinheiro e Jorge Pereirinha Pires &ldquo;Brava Dança&rdquo; (Filmes do Tejo, 2007).  Numa entrevista publicada no jornal <i>Blitz</i>, Pedro Ayres de Magalhães disse,  inclusivamente, que o tempo havia dado razão à banda: &ldquo;Naquela altura, tudo o  que preconizávamos veio a acontecer: a cultura sobre a coisa portuguesa, de que  era proibido falar; a comida, o vinho, o entretenimento, o cinema português, a  imagem de Portugal, a música em Portugal (&hellip;).      <p> A relação com o passado colonial, com os PALOPs, a Lusofonia. A música africana    em Lisboa. Isso era a nossa guerra, num momento em que a mentalidade dominante    era a do internacionalismo sem fronteiras&rdquo;, Lia Pereira, &ldquo;Como os Heróis do    Mar ajudaram a construir um Portugal&rdquo;, <i>Blitz</i>, fevereiro de 2013. Disponível    em <a href="http://blitz.sapo.pt/principal/update/2017-03-05-Como-os-Herois-do-Mar-ajudaram-a-construir-um-Portugal-novo" target="_blank">http://blitz.sapo.pt/principal/update/2017-03-05-Como-os-Herois-do-Mar-ajudaram-a-construir-um-Portugal-novo</a>    (Consultado em maio de 2017).</p>     <p><a href="#_ftnref30" name="_ftn30" title=""><sup>[30]</sup></a> Os Madredeus são um agrupamento musical criado    em 1986 por Pedro Ayres Magalhães (viola) e Rodrigo Leão (sintetizadores), Teresa    Salgueiro (voz), Gabriel Gomes (acordeão), Francisco Ribeiro (violoncelo). Fundadores    de um estilo musical assente maioritariamente em instrumentos acústicos, os    Madredeus construíram um universo narrativo e performativo perfilhando um ideal    de portugalidade ancestral através da evocação de valores e sentimentos conotados    com a ruralidade, saudade, fatalismo, patriotismo.</p>      <p><a href="#_ftnref31" name="_ftn31" title=""><sup>[31]</sup></a> O artigo foi desenvolvido no âmbito das atividades    de investigação avançada do Projeto UID/ELT/00509/2013, no Grupo CITCOM do Centro    de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.</p>       ]]></body>
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