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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENSÃO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Gaspar, Marisa C.</b></font></p>     <p><font size="3"><b>No Tempo do Bambu - Identidade e Ambivalência entre Macaenses</b></font></p>     <p>Lisboa, Instituto do Oriente, 2015, 290 pp.</p>     <p>ISBN 9789896461089</p>     <p><b>Filomena Silvano*</b>    <br>   <img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0002-7756-9292">https://orcid.org/0000-0002-7756-9292</a></p>     
<p>*CRIA, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa.    Avenida de Berna, 26-C - 1069-061 Lisboa, Portugal. <a href="mailto:fsilvano@fcsh.unl.pt">fsilvano@fcsh.unl.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>A reintegração de Macau na China aconteceu em dezembro de 1999. A partir dessa    altura, o território passou a fazer parte, com um estatuto especial - Região    Administrativa Especial de Macau (RAEM) - da República Popular da China (RPC).    Depois desse retorno político ao território da China, Macau viveu um processo    de transformação demográfica, económica e territorial fulgurante. Estendeu a    superfície de terra habitável, manteve um elevadíssimo índice de ocupação por    metro quadrado e atingiu uma das maiores taxas de crescimento económico do mundo.    Os lucros do jogo, principal atividade económica, há vários anos que ultrapassaram    os de Las Vegas. Tim Simpson (2008) fala de uma &ldquo;utopia turística&rdquo; e identifica    algumas das suas componentes: uma morfologia de justaposição (água/terra); um    regímen de exceção jurídica e política, associado à relação com um Estado poderoso;    o consumo de lazer como fator económico determinante; e a possibilidade de deslocamento    de pessoas (trabalhadores e turistas) em grande escala. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esta introdução, embora sucinta e parcial, dá-nos acesso à escala das transformações    que Macau sofreu nas últimas décadas. De facto, a transformação política, social    e cultural de Macau foi de grande envergadura, obrigando à construção, por parte    do poder, de um discurso identitário que se adaptasse à nova situação (Clayton,    2009; Lam, 2010; Silvano, 2015; Zamdonai, 2009). O livro de Marisa C. Gaspar    <i>No Tempo do Bambu - Identidade e Ambivalência entre Macaenses</i>, na medida    em que nos permite aceder às relações que se estabeleceram entre os processos    de construção das identidades respetivas de Macau e da comunidade de macaenses,    ajuda-nos a compreender as peculiaridades dessa mutação cultural. </p>     <p>Após a integração na RPC, os três grupos étnicos que habitavam Macau - Chineses    de Macau, Macaenses e Portugueses - mantiveram-se aí presentes, embora em proporções    diferentes daquelas que organizavam a população antes de 1999. A questão da    construção de um discurso identitário para o território dizia por isso respeito    a todos, conquanto de formas diferentes. Visto que os chineses de Macau correspondiam    à maioria da população, a inclusão da história do território na narrativa mais    vasta da história da China poderia então ter sido considerada como a opção mais    evidente - segundo Wai-man Lam (2010, p. 661), num inquérito de 1999, 74,1%    dos interrogados afirmavam-se orgulhosos de ser chineses e a maioria identificava-se    com a história chinesa, a sua cultura e a sua ética. Apesar disso, foi à identidade    macaense que o governo de Macau foi buscar os elementos culturais que assumiram    uma posição significativa no discurso identitário do Território: &ldquo;However, what    is intriguing is that the new Macao government consciously strengthens the coloniality    inherent in the original identity, and encourages people to take pride in their    colonial past. The colonial legacy in the old identity has not been repressed    as in other postcolonial regimes and Hong Kong but rather is boosted in the    name of the internationalization of Macao. In addition, the new government not    only endorses the existing local identity, but has also actively remolded an    originally weak local identity to make it a strong one&rdquo; (Lam, 2010, p. 657).</p>     <p>Numa situação política que corresponde a uma reintegração num estado pré-existente,    a questão que se colocou não foi a da criação de um discurso identitário que    desse existência a um novo Estado-nação - como aconteceu com os novos estados    nascidos das descolonizações -, mas antes a de um discurso que sustentasse,    no interior de um antigo Estado, a singularidade de uma região. Segundo Lam,    o hibridismo, que havia sido estrategicamente convocado pelas autoridades portuguesas,    foi, nestas circunstâncias estratégicas, também convocado pelas novas autoridades    políticas: &ldquo;(&hellip;) the Macao promoted by the colonial administration was a cultural    hybrid, which has been further elaborated by the new government. Interestingly,    while in colonial Hong Kong Britain had sought to continue its influence by    consolidating the popular beliefs of the legitimacy of free trade, the rule    of law, freedom and democracy, in colonial Macao Portugal aimed to achieve the    same objective by propagating the narrative of Macao&rsquo;s identity as constituted    by both Portuguese and Chinese culture&rdquo; (Lam, 2010, p. 662).</p>     <p>A dupla referência da identidade de partida serviu, por um lado, para sustentar    a reintegração no território da grande China, e, por outro, para afirmar a sua    especificidade - Macau quer-se aberto a outras culturas. Conforma-se também    com a lógica de &ldquo;um país, dois sistemas&rdquo;. </p>     <p>Em <i>No Tempo do Bambu</i>, Gaspar estuda, com base numa etnografia refletida,    as interações entre a construção da identidade étnica macaense e a história    recente de Macau, revelando a complexidade das dimensões envolvidas. Tendo como    ponto de partida o acompanhamento de alguns dos membros do &ldquo;Partido dos Comes    e Bebes&rdquo;, uma associação de macaenses, a antropóloga vai discutindo, solidamente    apoiada em descrições etnográficas e em convocações de ferramentas conceptuais    apropriadas, a própria ideia de &ldquo;ser macaense&rdquo;. Face à real diversidade do grupo    de pessoas que se autorrepresentam enquanto tal, acaba por optar por uma definição    abrangente de comunidade étnica: &ldquo;(&hellip;) um conjunto de pessoas cujos membros têm    em comum um nome, elementos de uma cultura, um mito de origem e uma memória    histórica (Bloch, 1998), que estão associados a um determinado território e    que possuem entre eles um sentimento de solidariedade&rdquo; (p. 95). </p>     <p>Essa mesma definição permitir-lhe-á seguir de forma coerente o seu percurso    interpretativo, acompanhando a vitalidade das dinâmicas identitárias, seguindo    os seus fluxos, os seus avanços, os seus recuos e até as suas contradições.&ldquo;(&hellip;)    existiu por parte dos atores sociais um modo constante de manipulação dos seus    atributos étnicos e culturais, assim como das ações e discursos partilhados    entre si, que lhes permitiu produzir, continuamente, identificação e diferenciação    em relação à circunstância com que se deparavam e, sistematicamente, reavaliar    todo esse processo fluído. É esse dinamismo (&hellip;) que, em último caso, define    e caracteriza a identidade macaense&rdquo; (p. 183).</p>     <p>É na parte final do livro que as zonas de sobreposição entre a identidade macaense    e o discurso identitário produzido pelo poder político de Macau são abordadas,    tornando-se clara a existência de uma convergência de interesses que foi sustentada    por práticas concretas: &ldquo;De facto, a partir dos anos 90 com os apoios substanciais    do governo de Macau injetados no associativismo macaense local e além-fronteiras,    foi possível revitalizar, estimular e intensificar toda uma nova série de iniciativas    e atividades de divulgação de Macau, da cultura e da comunidade macaenses (&hellip;)&rdquo;    (p. 192).</p>     <p>A ativação dessa convergência de interesses dá uma existência performativa    à opção, feita pelo poder, de convocar fragmentos do discurso identitário macaense    para construir um discurso identitário que sustente, ao mesmo tempo, o <i>branding</i>    de cidade necessário ao desenvolvimento do turismo (ao qual se associa a eficácia    da classificação, enquanto património da Unesco, de uma parte do Centro Histórico),    a diferenciação social e política do território face ao resto da RPC e a sua    unicidade face à população residente: &ldquo;Por outras palavras, a definição do macaense    confunde-se com a de Macau, e a de Macau com a do macaense. É a partir desta    interpretação particular da história de Macau e do produto da mesma, o qual    os macaenses podem representar, que se ficciona uma ‘identidade única de Macau&rsquo;,    por meio da fidelização de todos os seus cidadãos a este lugar único (&hellip;)&rdquo; (p.    198).</p>     <p>O livro revela ainda que, pelo seu lado, alguns macaenses ativaram essa mesma    convergência, por forma a recolocarem-se, no interior da estratificação social    contemporânea da Região Administrativa Especial de Macau, em posições mais conformes    com a representação que fazem de si próprios e das suas histórias familiares.    &ldquo;A defesa do Património Cultural de Macau por parte da atual elite macaense    revela a sua busca por uma nova lógica de regalias através de práticas legitimadoras    da comunidade em Macau que, uma vez destituída dos seus poderes de elite administrativa,    procura um protagonismo razoável na contribuição histórica, ideológica e simbólica    que Macau representa para a China&rdquo; (p. 219).</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>     <!-- ref --><p>CLAYTON, C. (2009), <i>Sovereignty at the Edge: Macau and the Question of Chineseness</i>,    Cambridge MA, Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=110133&pid=S0003-2573201900020000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>LAM, W. (2010), &ldquo;Promoting hybridity: the politics of the new Macau identity&rdquo;.    <i>The China Quarterly</i>, 203, pp. 656-674.</p>     <p>SILVANO, F. (2015), &ldquo;Musées et casinos dans une ville &ldquo;patrimoine mondial&rdquo;:    authenticité et hyperréalité, deux forms culturelles de l&rsquo;espace urbain de Macao&rdquo;.    <i>In</i> E. Fagnoni e M. Gravari-Barbas (dirs.) <i>Nouveaux musées, nouvelles    ères urbaines, nouvelles pratiques touristiques</i>, Presses de l&rsquo;Université    Laval.</p>     <p>SIMPSON, T. (2012), &ldquo;Tourist utopias: Las Vegas, Dubai, Macau&rdquo;. <i>Asia Rechearch    Institute</i>, <i>Working Paper series</i>, n.º 177.</p>     <p>ZANDONAI, S. (2009), &ldquo;Global diversity, local identity: multicultural practice    in Macau&rdquo;. <i>Intercultural Communication Studies</i>, XVIII, p. 10.</p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body><back>
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