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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[“A Banca ao Serviço do Povo”: Política e Economia durante o PREC (1974-1975): Lisboa, Imprensa de História Contemporânea, 2018, 356 pp]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENSÃO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Noronha, Ricardo</b></font></p>     <p><font size="3"><b>&ldquo;A Banca ao Serviço do Povo&rdquo;: Política e Economia durante    o PREC (1974-1975)</b></font></p>     <p>Lisboa, Imprensa de História Contemporânea, 2018, 356 pp.</p>     <p>ISBN 9789899838888</p>     <p><b>José Nuno Matos*</b>    <br>   <img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0001-8772-6223">https://orcid.org/0000-0001-8772-6223</a></p>     
<p>*Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa. Avenida Professor Aníbal    de Bettencourt, 9 - 1600-189 Lisboa, Portugal. <a href="mailto:jose.matos@ics.ulisboa.pt">jose.matos@ics.ulisboa.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>A revolução que ocorreu em Portugal entre 1974 e 1975 não constitui um processo    de fácil diagnóstico. Em primeiro lugar, pela passagem de inúmeros acontecimentos    num breve período de tempo. Em segundo, por ter sido marcado pelo conflito de    projetos, ideias, valores e práticas, passível de se estender à reflexão em    seu torno. Assim, o processo revolucionário em curso (PREC) tende a ser representado    ou como uma fase de transição particularmente instável, caracterizada pelo descalabro    financeiro e pela tentativa de assalto ao poder ensaiada pelo Partido Comunista    Português (PCP) e pela extrema-esquerda, ou como a pura expressão de um povo    revolucionário, frustrada por uma conjura à qual o PCP não é estranho. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Perante este cenário, <i>&ldquo;A Banca ao Serviço do Povo&rdquo;: Política e Economia    durante o PREC (1974-1975)</i>, da autoria de Ricardo Noronha, vem refundar    este campo de estudos, desenvolvendo uma rigorosa abordagem em termos quer de    pesquisa empírica, quer do suporte teórico-político. Produzida no âmbito da    tese doutoramento em História Contemporânea, a sua pertinência historiográfica    reside, desde logo, no modo como o objeto é construído. A nacionalização da    banca, tema central da investigação, é analisada a partir de uma dinâmica social    originada por lutas operárias. Sob este ponto de vista, devedor das teses do    <i>operaismo</i> italiano, em particular da obra de Mario Tronti, aquilo que    à primeira vista parece resultar de um expediente governamental parte, indiretamente,    de uma iniciativa formulada desde baixo e por protagonistas anónimos. Como tal,    uma grande parte da obra é dedicada ao estudo deste sujeito político, tanto    da sua composição técnica, ou seja, da condição socioeconómica e respetivo lugar    no sistema de produção e na sociedade da altura, como da sua composição política,    isto é, do conjunto dos comportamentos adotados face à primeira. </p>     <p>Este sujeito, conforme é descrito ao longo do livro, não se limita a reproduzir    uma posição subalterna no novo quadro institucional, invertendo-o e sujeitando-o    a uma nova lógica de ação que o autor, a partir de Walter Benjamim, designa    de <i>verdadeiro estado de exceção</i>. É esta rutura operada no fluxo linear    da história que, de acordo com a tese proposta, conduzirá ao esboço de um novo    modelo de <i>governamentalidade</i>, termo cunhado por Michel Foucault, adaptado    no seu conteúdo e na sua forma ao desafio com que se confrontava.</p>     <p>A obra começa por se debruçar pelo período que antecede a revolução, nomeadamente    nas características do modelo económico-produtivo português. Após a II Guerra    Mundial, este viria a atravessar um surto de desenvolvimento industrial e urbano    sem que, contudo, se verificasse uma mudança significativa quer da sua posição    no sistema económico mundial, continuando a situar-se na sua semiperiferia,    quer das suas relações sociais de trabalho. Apesar do aumento dos salários,    o seu valor estava longe de corresponder aos praticados noutros países da Europa,    levando milhares de pessoas a optar pela emigração. Os aparelhos repressivos    do Estado asseguravam desta forma a manutenção das taxas de lucro do núcleo    monopolista, composto por um pequeno número de grupos económicos com negócios    em várias áreas, da agricultura à finança. Neste quadro, a resposta do Estado    Novo à escalada inflacionária, fruto de uma conjuntura mundial recessiva, revelou-se    incapaz de levar a cabo, por uma via redistributiva, os planos de modernização    social idealizados pelo marcelismo. </p>     <p>O aumento de greves e a conquista de direções dos sindicatos corporativos pela    oposição assinalavam uma mais vasta radicalização política, na qual se incluíam    estudantes, operários industriais e colarinhos-brancos, que se intensificará    até ao 25 de abril. As lutas então desenvolvidas, como paralisações espontâneas    ou a resistência às investidas policiais, e os objetivos que as mobilizavam,    em particular aumentos salariais acima dos níveis de inflação, refletiam uma    recomposição sociotécnica da força de trabalho, mais jovem e qualificada, dificilmente    enquadrável pelo corporativismo repressivo do Estado Novo.</p>     <p>Uma das principais teses avançadas nesta obra é a da perpetuação deste surto    reivindicativo após as operações desencadeadas pelo Movimento das Forças Armadas    (MFA). A alteração das regras do jogo permitiu o aumento da escalada de luta;    cedo, a greve passou à ocupação, muitas vezes organizadas por comissões de trabalhadores    (CT), num processo que envolvia não só fábricas, mas igualmente terras, casas,    ou mesmo órgãos de comunicação social. Neste novo mundo, virado ao contrário,    a Intersindical passa a opor-se a algumas das greves e parte do corpo militar,    nomeadamente o que compunha o Comando Operacional do Continente (COPCON), responsável    pelo controlo e mediação dos conflitos, acabou por se tornar uma parte interessada    nos mesmos. </p>     <p>A sequência de acontecimentos gerada pela proposta de lei de greve avançada    pelo II Governo Provisório, com o apoio do PCP, é apontada pelo autor como um    dos exemplos mais notórios destas clivagens. Alguns dos seus ditames, como a    proibição das greves por solidariedade, a aprovação do <i>lock-out</i> patronal    ou a possibilidade de requisição civil por parte do governo, corporificavam,    na aceção das CT, uma tentativa de normalização das relações sociais entre capital    e trabalho. É neste contexto que a TAP, paralisada por uma greve, é ocupada    por companhias militares, e que os trabalhadores da Lisnave, como resposta quer    a estas operações, quer à lei da greve, convocam uma manifestação entre o Cais    do Sodré e o Ministério do Trabalho, na Praça de Londres, ilegalizada pelo governo.    Em ambos os casos, tanto na TAP, como na Lisnave, o que estava em jogo era a    afirmação de um poder operário no seio das unidades produtivas, a traduzir-se    no aumento dos salários, mas também na redução dos horários, no saneamento de    gestores ou na própria organização do trabalho. O modo como o regimento de fuzileiros    reagiu à chegada da manifestação, abrindo alas aos seus participantes e desrespeitando    as ordens superiores, era demonstrativo da impotência do Estado, inclusive na    gestão dos seus próprios corpos repressivos. </p>     <p>É contra este cenário que o presidente da República António de Spínola, com    o apoio de organizações de extrema-direita e de algumas empresas, apela à mobilização    de uma &ldquo;maioria silenciosa&rdquo; a 28 de setembro. A frustração dos seus intentos,    fruto da colaboração entre militares e civis, é expressão, segundo o autor,    de um <i>verdadeiro estado de exceção</i>, cujo destrono passaria por um outro    tipo de abordagem. Ao invés da via repressiva, a intervenção do Estado na economia,    defendida no Plano Melo Antunes, representa a alternativa aos desafios colocados    a partir tanto das ruas, como dos gabinetes dos grandes grupos. Estes eram suspeitos    de diversos atos de sabotagem económica, como desvio de fundos ou, simplesmente,    uma política de investimento financeiro que, à semelhança do passado, continuava    a privilegiar as grandes empresas em detrimento do pequeno e médio tecido produtivo.    A desconfiança em relação a estas práticas, aliada ao apoio de algumas empresas    à oposição de direita, contribui, de acordo com Ricardo Noronha, para uma nova    vaga de lutas operárias, focadas no controlo operário sobre as atividades económico-produtivas    e na defesa de uma política anti-monopolista. </p>     <p>A tentativa de golpe militar a 11 de março viria a contribuir para o reforço    e legitimação destes objetivos. O envolvimento da banca no financiamento das    forças militares golpistas, encabeçadas por Spínola, contribui para que a sua    nacionalização surgisse como uma opção cada vez mais óbvia. O papel desempenhado    pelo Sindicato dos Bancários revelar-se-ia fulcral neste processo. Desde os    primeiros dias da revolução que esta organização havia não só realizado um conjunto    de propostas de reforma do setor, como também desenvolvido uma atividade de    fiscalização e vigilância sobre atos de gestão e concessão de crédito, assumindo-se    assim como um contrapoder denunciante dos intentos conspiratórios do grande    capital financeiro. Se o primeiro ensaio golpista, a 28 de setembro, produziu    material empírico de suporte a este argumento, a segunda tentativa, a 11 de    março, vinha corroborar a tese, levando o sindicato a ocupar as instalações    e a impedir a sua imediata reabertura.</p>     <p>Apesar de não constar no programa do MFA, o Conselho da Revolução decreta a    nacionalização da banca (e de todos os negócios por ela detidos) quatro dias    depois, peça essencial à construção de uma via portuguesa para o socialismo.    Um dos principais argumentos vincados nesta obra, e que neste sentido a distingue    de uma grande parte da produção académica em torno do tema, é a de que a reorientação    do Estado após o 11 de março não reproduz a agenda e a lógica do movimento que    teve início em maio de 74, mas sim a sua tentativa de contenção, administração    e institucionalização. Mais do que um programa ideológico a executar, o socialismo    surge como a mais eficaz forma de gerir a economia à disposição, face aos vários    condicionalismos. Assim, e a título de exemplo, o controlo operário da produção,    em vigor no seio de algumas empresas, deveria ser objeto de um enquadramento    regulamentar específico, de forma a compatibilizar-se com a racionalização e    modernização das estruturas económico-financeiras. Neste âmbito, a avaliar pelas    mudanças ocorridas na banca nacionalizada, organismos como sindicatos ou CT    tornam-se elementos chave na definição de metas e na gestão das instituições.  </p>     <p>Na sua generalidade, as linhas mestras da <i>governamentalidade</i> socialista    são objeto de consenso entre as várias forças partidárias. O &ldquo;socialismo&rdquo; havia-se    tornado num significante cujos significados, da esquerda à direita, não aparentavam    grandes discrepâncias. O epicentro da crise político-militar que se iria desenvolver    não se localiza, conforme é defendido, no papel económico a desempenhar pelo    Estado, mas sim nos critérios que devem determinar a organização responsável    pela condução de tal empreendimento. O resultado das eleições para a Assembleia    Constituinte, nas quais o Partido Socialista obteve o maior número de votos,    conduz a um volte face na correlação de forças. A contestação ao IV Governo    Provisório, liderado por Vasco Gonçalves, faz-se sentir um pouco por todo o    país sob diferentes maneiras: por via de manifestações e apelos à ordem mais    a sul; através de ataques bombistas mais a norte. Entre os militares, o Documento    do Grupo dos Nove, redigido por Melo Antunes e assinado por nove membros do    Conselho da Revolução, propõe uma via alternativa à sugerida pelo Documento-Guia    da Aliança Povo/MFA, defendendo uma transição pacífica e democrática para uma    sociedade sem classes. Nos últimos dias de um verão quente, a assembleia do    MFA, reunida em Tancos, confirmaria a afirmação de um campo político mais moderado,    visível na nova composição do Conselho da Revolução e do VI Governo Provisório,    nomeado dias depois. O Sindicato dos Bancários não seria imune a estas mudanças,    traduzidas na vitória de uma lista composta por membros afetos ao PS, ao Partido    Popular Democrático (PPD) e ao Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado    (MRPP) nas eleições para a direção, em agosto de 1975. Estavam assim criadas    as condições políticas necessárias à reversão das reformas económicas socialistas,    um processo iniciado durante o VI Governo Provisório e que se estenderia após    o golpe militar de 25 de novembro, o qual viria a por cobro ao que restava do    <i>verdadeiro estado de exceção. A</i> nacionalização da banca, contudo, não    foi colocada em causa, prova do impacto político que a havia originado.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma das críticas que se poderá apontar a esta investigação é o menor enfoque    à dinâmica social e política que levou a que <i>a governamentalidade socialista</i>    deixasse de ser a única hipótese em cima da mesa. A lógica de burocratização    e cooptação que lhe é inerente terá contribuído, certamente, para a diminuição    do vigor do movimento operário. A par deste, contudo, existe toda uma outra    mobilização em sentido contrário, a sul e a norte, cuja análise da composição    social e política - do camponês semiproletário ao retornado - poderia ter sido    aprofundada. Trata-se, todavia, de um pormenor incapaz de retirar qualquer importância    a esta obra, fundamental à compreensão do que foi o PREC e das implicações do    mesmo na reconfiguração das estruturas económicas, sociais e políticas com que    hoje nos confrontamos. </p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
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