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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Para lá da “Geringonça”. O Governo de Esquerdas em Portugal e na Europa: Lisboa, Contraponto, 2017, 232 pp]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de Aveiro Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território GOVCOPP]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENSÃO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Freire, André</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Para lá da &ldquo;Geringonça&rdquo;. O Governo de Esquerdas em Portugal    e na Europa,</b></font></p>     <p>Lisboa, Contraponto, 2017, 232 pp.</p>     <p>ISBN 9789896661434</p>     <p><b>Patrícia Silva*</b>    <br>   <img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0002-7044-2723">https://orcid.org/0000-0002-7044-2723</a></p>     
<p>*GOVCOPP, Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território, Universidade    de Aveiro. Campus Universitário de Santiago - 3810-193 Aveiro, Portugal. <a href="mailto:patriciasilva@ua.pt">patriciasilva@ua.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>A rápida consolidação do sistema partidário português estruturou-se em torno    de duas dimensões essenciais. A primeira relaciona-se com o rápido fechamento    das estruturas de interação e de formação do governo, com o Partido Socialista    e o Partido Social Democrata (e pontualmente o CDS-Partido Popular) a monopolizar    a formação de governos em Portugal. Um segundo importante legado da democratização    reporta-se à ausência de coligações à esquerda, com a exclusão permanente do    Partido Comunista e do Bloco de Esquerda da governação nacional. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O dia 10 de novembro de 2015 marca, provavelmente, o maior desafio à estabilidade    destas dimensões do sistema partidário. Esta é a data da assinatura dos acordos    bilaterais entre os partidos da esquerda parlamentar (PS, Bloco de Esquerda,    Partido Comunista Português e Partido Ecologista &ldquo;Os Verdes&rdquo;), formando uma    solução inédita que levaria, poucas horas depois, à queda do segundo e curtíssimo    governo de Pedro Passos Coelho com Paulo Portas. </p>     <p>Embora seja naturalmente prematuro afirmar-se que esta coligação marca uma    transformação no sistema partidário português, a originalidade desta solução    não deixa de ser um marco histórico não apenas na democracia portuguesa, como    também no contexto da Europa Ocidental, onde este tipo de solução governativa    se tornou rara, particularmente no contexto da recente crise económica. </p>     <p>O livro de André Freire é, neste contexto, um importante marco documental.    <i>Para lá da &ldquo;Geringonça&rdquo;</i> joga habilmente com a designação que Paulo Portas    pejorativamente colocou no léxico político e que políticos - incluindo António    Costa - e alguns comentadores importaram, retirando-lhe, gradualmente, a conotação    negativa. Embora tire partido da expressão - assumindo que não é um entusiasta    da palavra - o livro de André Freire vai muito além do relato histórico das    dinâmicas que se geraram até à tomada de posse de um governo minoritário com    um acordo de incidência parlamentar após as eleições de 2015.</p>     <p>A habilidade do livro estende-se à conceção da capa. Por um lado, o autor arquiteta    a metáfora de um governo das esquerdas permitir quebrar muros históricos; por    outro lado, traz para a capa um marco histórico que perpassa todo o livro. Com    efeito, André Freire procura esclarecer o leitor relativamente aos fatores que    adiaram a emergência de uma solução do tipo governo de esquerdas, quando se    tratou de um padrão de formação de governo muito comum noutros países da Europa    Ocidental após 1989. Além disso, o autor considera as potenciais consequências    destas soluções governativas explorando não apenas o contexto nacional, mas    colocando o caso português numa perspetiva comparada com o resto da Europa.    A identificação do contexto, processo e efeitos da geringonça é, já de si, um    interessante exercício que a Introdução do livro cumpre com grande clareza.</p>     <p>Os quatro capítulos que estruturam este livro alternam entre o revisitar do    extenso trabalho académico que autor tem desenvolvido ao longo da última década    e o trabalho de interpretação e descodificação de eventos políticos que André    Freire ofereceu a um público mais alargado, frequentemente com base na sua investigação.    Este equilíbrio torna a leitura do livro apelativa, sem sacrificar o rigor analítico    e conseguindo estender o alcance dos resultados académicos aos leitores mais    distantes da escrita científica. </p>     <p>O exercício académico está sobretudo vertido na segunda e na última partes    do livro, dedicadas à análise das razões pelas quais um entendimento à esquerda    foi apenas possível cerca de 26 anos após a queda do Muro de Berlim. Neste exercício    são apresentados os fatores históricos que permitiram consolidar um &ldquo;cordão    sanitário&rdquo; em vota dos partidos da esquerda radical - recordando a deriva revolucionária    do PCP na transição para a democracia e o conflito central que então emergiu    entre o PCP e o PS e PSD relativamente à natureza do regime que se deveria instaurar    em Portugal no seguimento do período revolucionário: PS e o PSD defendiam um    regime democrático liberal representativo à semelhança dos países da Europa    Ocidental; enquanto o PCP defendia uma democracia popular na esfera da URSS.    Os partidos a favor da democracia liberal precisavam de dar sinais ao PCP da    existência de um amplo apoio social, de forma a bloquear a solidez eleitoral    e organizacional que o PCP detinha na altura. É, assim, no contexto histórico    que Freire encontra as razões da inviabilidade de qualquer entendimento com    os comunistas, particularmente face à recusa sistemática do Partido Socialista    (e não do PCP). </p>     <p>Embora este conflito em torno da escolha do regime explique, em larga medida,    a forma como se moldou o sistema partidário - e a exclusão permanente do PCP    da arena de governação - torna-se um argumento mais frágil para explicar a exclusão    do BE e, ainda, a recusa de acordos à esquerda após o fim da Guerra Fria, quando    este tipo de soluções se tornou relativamente comum pela Europa. Como fica claro    no livro, da recusa histórica do PS em costurar entendimentos com os partidos    à sua esquerda, passamos a uma fase em que estes partidos rejeitavam estas soluções,    mesmo num contexto em que o eleitorado defendia entendimentos governativos entre    as esquerdas. </p>     <p>O autor discorre aqui sobre os argumentos de ordem programática, recordando    a distância (ideológica) que separa os partidos e o receio dos líderes partidários    relativamente a uma diluição das diferenças entre partidos - embora o autor    relativize este argumento, notando como as diferenças ideológicas não impediram    entendimentos à esquerda em outros países europeus. Além disso, o autor nota    que a forma como o sindicalismo se encontra organizado permitiu reforçar as    clivagens já existentes; juntamente com a ausência de experiências de sucesso    à escala autárquica que pudessem servir de modelo. </p>     <p>O aprofundado exercício de identificação das variáveis explicativas da ausência    de entendimentos entre as esquerdas é acompanhado por uma reflexão sobre as    consequências desta falta de entendimento - desde o desequilíbrio no sistema    político, até à marginalização das esquerdas (e, portanto, do eleitorado que    representam) das soluções (e responsabilidades) governativas, com reflexo numa    tendência para a &ldquo;cartelização do sistema político e económico em Portugal&rdquo;    (p. 99). Além disso, o autor reforça a ideia destacada por António Costa no    prefácio do livro da importância de um novo equilíbrio de forças para o reforço    da qualidade da democracia, mais inclusiva e com maior diversidade de soluções.  </p>     <p>Para além de oferecer uma profunda e rigorosa análise dos fatores que limitaram    a emergência de entendimentos entre os partidos da esquerda, o autor oferece    em dois capítulos a sua leitura crítica ao desenrolar dos eventos, dando nota    clara do seu empenho cívico na constituição desta solução. É esse o grande contributo    das partes I e III do livro. Nelas, Freire junta um corpo alargado de textos    de opinião que escreveu para o jornal <i>Público</i> entre 2009 e 2016, que    permitem não apenas documentar o contexto e o processo de preparação de um governo    de esquerda plural - ancorando a sua leitura e análise dos eventos em investigação    científica - como também permite denotar a simpatia do autor pela solução governativa    encetada em 2015 - que, de resto, fica bem vincada com o convite ao primeiro-ministro    para assinar o prefácio do livro.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>André Freire oferece-nos a sua leitura aos primeiros sinais de abertura a uma    solução governativa de esquerda, tomando como ponto de partida a coligação PS-BE    firmada após as eleições autárquicas intercalares em Lisboa (2007), com a sua    primeira premonição de que se a experiência corresse bem, poderia ser replicada    ao nível nacional. </p>     <p>Adiante, na terceira parte do livro, é oferecida ao leitor o contexto e o processo    particular até à formalização do acordo das esquerdas, que o autor apelida de    &ldquo;verdadeira revolução democrática&rdquo; (p. 165). Para tal, o autor remonta às eleições    europeias de 2014 e, em particular, ao efeito destes resultados eleitorais nas    mudanças de liderança do Partido Socialista. É, aliás, no contexto das primárias    que então se realizam que André Freire destaca a abertura do líder para respeitar    as &ldquo;aspirações dos eleitores representados pelos partidos à sua esquerda&rdquo;, assumindo    a possibilidade de &ldquo;confrontar a esquerda radical para a assunção de responsabilidades    governativas&rdquo; (p. 130). </p>     <p>Esta terceira parte do livro permite, assim, ir além das barreiras históricas    que explicam a dificuldade de entendimentos à esquerda, dedicando-se às questões    contextuais específicas de 2015, que impulsionaram o acordo: desde as questões    no plano económico e as suas implicações no posicionamento ideológico do PSD,    que inviabilizaram acordos com o PS. É ainda esclarecida a importância da renovação    geracional do Partido Socialista, muito menos marcados pela divisão histórica    entre as esquerdas. Aqui, André Freire reconhece a importância do &ldquo;jogo de cintura&rdquo;    de António Costa, mas não deixa de reconhecer que a crise dos partidos socialistas    por toda a europa - que a gíria popularizou por <i>pasokização, </i>numa referência    à implosão do PASOK grego no contexto da crise económica - impulsionou um posicionamento    estratégico do PS. A história da geringonça é, por fim, a história de <i>todos</i>    os seus protagonistas, destacando a abertura do BE (potencialmente impulsionado    pelo aparecimento do Livre, o novo partido de esquerda pelo qual o autor se    candidatou em 2015, e que não é esquecido neste livro) e do PCP para firmar    acordos. </p>     <p>Esta terceira parte termina com a apresentação do manifesto da <i>Vaca Voadora    - </i>uma plataforma<i> </i>da blogosfera onde vários académicos e personalidades    de esquerda produzem &ldquo;opinião sobre tudo o que diga respeito não só a solução    política ela mesma - ao seu passado, presente e futuro, às suas possibilidades    e riscos - bem como às políticas que vão sendo propostas&rdquo; (p. 182). A designação    do manifesto recorre a uma piada que António Costa usou para deixar clara a    mensagem de que &ldquo;não há impossíveis&rdquo;. Talvez faltasse a este livro uma reflexão    sobre os potenciais efeitos da geringonça sobre o PSD, dadas as implicações    que a solução inédita de um governo suportado pelos partidos de esquerda terá    sobre a leitura de futuros resultados eleitorais, pois a <i>geringonça</i> abriu    margem para uma diversidade de soluções governativas, maior do que aquela a    que o PSD estava habituado. </p>     <p>O ineditismo da geringonça no contexto nacional e em contraciclo com a Europa    marcará, seguramente, a narrativa da democracia portuguesa - com este livro    de André Freire a afigurar-se como um importante documento de síntese e um contributo    de capital importância para o conhecimento deste momento particular. Apenas    a história e os próximos escrutínios eleitorais poderão confirmar se este compromisso    histórico poderá &ldquo;levantar voo e voar&rdquo;, mudando &ldquo;para sempre o sistema partidário&rdquo;    - como Paulo Portas profetizara - e como, seguramente, seria o desejo de André    Freire. </p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
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