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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Caloiros e Doutores. Um Estudo Sociológico sobre a Praxe Académica em Portugal: Lisboa, Editora Mundos Sociais, 2018, 158 pp]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENSÃO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Lopes, João Teixeira et al.</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Caloiros e Doutores. Um Estudo Sociológico sobre a Praxe    Académica em Portugal</b></font></p>     <p>Lisboa, Editora Mundos Sociais, 2018, 158 pp.</p>     <p>ISBN 9789898536662</p>     <p><b>Rui Bebiano*</b>    <br>   <img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0002-1449-2216">https://orcid.org/0000-0002-1449-2216</a></p>     
<p>*Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra. Colégio de S. Jerónimo,    Largo D. Dinis, Apartado 3087 - 3000-995 Coimbra, Portugal. <a href="mailto:ruibebiano@gmail.com">ruibebiano@gmail.com</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>A expansão do sistema universitário português trouxe consigo a reprodução,    a diversificação e o crescimento do impacto social da praxe académica, inicialmente    confinada a Coimbra e à sua universidade. Este processo, na origem circunscrito    a atividades codificadas e com uma âncora temporal limitada a momentos do ano    letivo, foi adquirindo formas que, para além do alargamento temporal das suas    manifestações, em certos casos assumiram contornos de grande violência, associados    mesmo a práticas de natureza criminosa, com um impacto e um alarme público ampliados    pela atenção da comunicação social. A esta realidade em mutação correspondeu    um crescente interesse académico, determinado pela vontade de observar e de    conhecer a dimensão sociológica, histórica e antropológica do fenómeno, associado    à perigosa deriva que tomou e à necessidade de encontrar uma saída socialmente    aceitável, fora da lógica proibicionista.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em <i>Caloiros e Doutores</i> procede-se, acima de tudo, a um levantamento    do estado da arte da produção académica sobre o tema, à sua compreensão e ainda    à tentativa de encontrar uma solução passível de ser aceite pela comunidade    estudantil e pacificamente integrada pelo meio envolvente. A equipa de sociólogos    que assina esta obra define os contornos do complexo da praxe a partir de múltiplas    perspetivas orientadoras do modo como é vivida e interpretada: como ritual de    iniciação, enquanto mecanismo de socialização, tomada como instrumento de poder,    olhada como &ldquo;tradição inventada&rdquo; (para seguir o conceito proposto por Hobsbawm),    ou então considerada uma &ldquo;instituição bastarda&rdquo;, para Everett Hughes, emanada    de uma instituição estabelecida, mas capaz de oferecer respostas sociais que    esta não pode dar.</p>     <p>A obra estende-se por cinco capítulos com objetivos naturalmente específicos.    No primeiro, procede-se a uma caracterização da especificidade portuguesa de    um fenómeno com dimensão internacional, apresentando-se uma breve revisão das    investigações já realizadas sobre o tema. Consideram-se de uma forma particularmente    objetiva os modos como têm sido tratados aspetos diversos: a definição da especificidade    da praxe, os seus objetivos sociais, as relações com aspetos como a violência    e os jogos de poder, a perceção que os próprios estudantes detêm dos seus contornos,    a relação com as vivência e os dilemas da juventude universitária, ou aspetos    mais específicos, como o consumo de álcool, a sexualidade e o sexismo ou a produção    de estereótipos sobre os próprios alunos que praticam ou que rejeitam a praxe.    No segundo capítulo, o foco da análise é colocado na origem e na história da    praxe académica em Portugal, insistindo-se na necessidade de dar um sentido    ao que se entende como tal, dada a diversidade de episódios que lhe podem ser    associados. O referencial histórico é acompanhado pela identificação de diversas    modalidades, distintas no tempo e nos diversos lugares. Procede-se também a    uma abordagem de fatores colaterais à praxe, como o humor e a boémia, as masculinidades,    o lugar das mulheres, a politização da tradição, as especificidades locais e,    num sentido totalmente diverso, a construção de movimentos alternativos, tendendo    em regra a denunciá-la e a combatê-la.</p>     <p>Os capítulos seguintes têm uma dimensão mais especificamente sociológica, associada    a inquéritos orientados e a estudos de caso. O terceiro capítulo apresenta as    conclusões de uma observação situada sobre aspetos como a relação das instituições    do ensino superior com o fenómeno, as dimensões da violência que ele necessariamente    comporta, a emergência de processos alternativos ou complementares da sua dimensão    festiva ou os processos de autorregulação e controlo. Já no quarto capítulo,    a observação é deslocada para os discursos e para as atitudes face às formas    que toma, integrando, no campo dos responsáveis pelo ensino superior, dos dirigentes    associativos e do chamado estudante comum, um leque de variáveis muito mais    amplo do que a observação empírica, tantas vezes invocada, poderá fazer supor    como parte dele. Por último, o quinto capítulo centra-se nas experiências e    rituais da praxe académica propriamente dita, como cânticos, gritos de guerra,    atividades físicas, práticas de crime e castigo, processos de ridicularização,    uso do nojo e do medo ou simulacros sexuais. Para além de outras, laterais,    mas importantes, como a interação de muitas das suas formas com o turismo e    o comércio. </p>     <p>Existem aspetos que poderiam merecer maior atenção, como o lastro histórico    dos movimentos e da legislação antipraxe, o uso político desta, incluindo as    posições diversificadas dos partidos e a ligação à atividade das autarquias,    o carácter formalmente elitista da praxe ou a sua rejeição culturalmente naturalizada    durante as décadas de 1960-1970, em particular com a valorização das atitudes    libertárias e igualitárias e a influência do movimento de Maio de 1968, mas    estas são apenas hipóteses a explorar, que de modo algum colocam em causa o    interesse fora do comum deste trabalho. Este é, pois, um livro imprescindível    para quem pretenda aprofundar o estudo de algumas das suas vertentes, para quem    frequente ou tenha frequentado o ensino superior e deseje compreender melhor    o universo no qual vive ou viveu, para quem tenha interesse em atribuir um nexo    explicativo a atitudes coletivas que em determinados momentos do ano perturbam    a vida regular das cidades dotadas de escolas do ensino superior, ou ainda para    quem procure evitar, como tem acontecido, que a sua dimensão, na aparência apenas    lúdica, dê lugar a formas de marginalização social ou a momentos incontroláveis    e extremamente negativos de perturbação do convívio estudantil e até da paz    social.</p>     <p>No final deste estudo conjunto, é sublinhado o facto de a diversidade das práticas    e modalidades que a praxe comporta não deixar de conter um sentido unificador,    daí advindo a opção metodológica de a tomar como fenómeno único, como tal verbalizado    no singular. &ldquo;Praxe&rdquo;, pois, e não &ldquo;praxes&rdquo;. Fica também claro que os dirigentes    das instituições de ensino superior, bem como os responsáveis de associações    estudantis, têm desenvolvido posições diferenciadas e até contraditórias a propósito    da rejeição do fenómeno, da consideração como positivos de alguns dos seus aspetos    - nomeadamente através do propalado argumento da dimensão &ldquo;integradora&rdquo; da praxe    - ou, o que é bem mais raro, da exclusão, perante ele, de toda a opção normativa    ou proibicionista. Muito importante também a diluição da falsa ideia que tem    circulado sobre a dimensão meramente lúdica do fenómeno. Fica, assim, clara    a sua definição e propagação como instrumento fundado no uso da força que visa    a fixação de um modelo de autoridade assente na rigidez hierárquica que configura    uma dimensão antidemocrática ao ofender direitos individuais e até a tranquilidade    ou a sensibilidade das comunidades envolventes.</p>     <p>O volume encerra positivamente, com a apresentação de recomendações de políticas    públicas sobre a praxe académica, incluindo algumas que serão da competência    do governo ou das instituições universitárias. Elas resultam das conclusões    do próprio estudo e parecem ser um excelente ponto de partida para a solução    do grave problema no qual ela se tem vindo a transformar. </p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
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