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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENSÃO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Garcia, José Luís et al. (eds.)</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Media and the Portuguese Empire,</b></font></p>     <p>Londres, Palgrave Macmillan, 217, 355 pp.</p>     <p>ISBN 9783319617923</p>     <p><b>Júlia Leitão de Barros*</b></p>     <p>*  Escola Superior de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, Instituto Polit&eacute;cnico de Lisboa. Campus de Benfica do IPL, 1549-014, Lisboa, Portugal. <a href="mailto:jbarros@escs.ipl.pt">jbarros@escs.ipl.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>José Luís Garcia, Chandrika Kaul, Filipa Subtil e Alexandra Santos abrem a introdução ao livro <i>Media and Portuguese Empire</i>, com uma afirmação que é também um aviso prévio: &ldquo;Modern empires and communication have influenced each other in complex ways&rdquo; (p. 1). A influência não é linear. A comunicação é aqui tomada não como efeito de um qualquer processo determinado, mas como parte integrante deste, por uma razão: &ldquo;communication processes constitute culture, and that culture constitutes, rather than merely reflects, society&rdquo; (<i>idem</i>). O objeto de estudo remete para lógicas de organização de perceções da realidade, discursos e práticas de dominação e resistência, de configuração variável, no tempo e no espaço, que impedem a tentação de reduzir os estudos da área da comunicação ao descortinar de instrumentos de controlo e legitimação ideológica ou estratégias identitárias de representação. A abertura teórica e metodológica presente neste volume firma-se na convocação de dois autores clássicos da teoria da comunicação, o canadiano Harold Innis e o norte-americano James Carey que, pelo carácter seminal dos seus contributos, constituem um referencial para a feição exploratória dos estudos culturais da comunicação. De Carey retiram a recusa em ver a comunicação como transmissão, tomando-a como cultura, ritual, partilha e conservação da comunidade no tempo. Ignis é convocado enquanto precursor da problemática presente nesta obra: as relações entre os <i>media</i> e os sistemas imperiais e as suas implicações sociais. </p>      <p>O propósito é reunir estudos de diferentes áreas académicas, com contributos que empirica e teoricamente possam trazer compreensão à reflexão sobre o império como espaço comunicacional, com um traço comum: &ldquo;incorporate the media as actors or agents in cultural, political and social struggles&rdquo; (p. 2). A adoção de uma estrutura que segue uma linha temporal, do século XIX ao final do século XX, do colonial ao pós-colonial, que integra diferentes escalas temporais, facilita a convergência de objetos e metodologias e torna a trama desta linha de investigação mais densa e sugestiva. No mesmo sentido, embora o foco esteja no império colonial português, vários artigos sobrepõem, fazem confluir, ou concorrer, diferentes espaços comunicacionais, o metropolitano, o transnacional, o transfronteiriço e o regional. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O livro abre com um estudo comparativo, de Chandrika Kaul, entre a experiência imperial britânica e portuguesa, que parte dos artigos presentes neste volume para introduzir o debate sobre a extensão, importância e vínculo das propagandas imperiais, em diferentes contextos históricos. Ainda na longa duração, abrangendo o período que vai do século XVI ao século xx, Antonio Hohlfeldt avalia a tardia, desigual e tensa introdução e consolidação, no império português, da imprensa, rádio e cinema, apontando momentos-chave e comparando o caso português com outros modelos imperiais. Obrigando a descentrar o foco da metrópole, ao questionar a circulação da imprensa, aqui entendida num sentido lato, dos jornais à literatura, para os territórios coloniais, incluindo o Brasil. Pelas questões levantadas nestes dois textos, a par da constatação dos desafios e limites da avaliação sistémica, sobrevém a pertinência dos 15 artigos seguintes, coletados neste livro, assentes em investigação empírica, de temática diversa, com contributos valiosos para a reconstituição de configurações mediáticas concretas. Interpelam a versão de Estado colonial de fracos recursos, dependente do apoio externo, tão cara à historiografia, matizando demarcações de território e balizas temporais, aproximando aparatos de violência física e simbólica.</p>      <p>O império português, no final do século XIX e início do século XX, complexifica-se olhado do ponto de vista de Goa, Portugal, ou das colónias de África. Sandra Ataíde Lobo, analisando a prosperidade, a partir do final do século XIX, da imprensa periódica vernacular, maioritariamente bilingue, publicada pelas elites hindus de Goa e pelas castas subalternas católicas, chama a atenção para a importância da língua na definição de esferas públicas e na gestão das relações locais, regionais e coloniais. Abrindo terreno para outras análises que se detenham na perseguição, indiferença ou proteção das línguas nativas pelos estados coloniais. Paulo Jorge Fernandes realça o papel dos jornais, no último quartel do século XIX, nomeadamente na crise do <i>Ultimatum</i> de 1890,  salientando: &ldquo;the bird of a new ideology, a radical nationalism of a colonialist nature&rdquo; (p. 102). O contexto em que a defesa do império, e em particular de África, surge como uma prioridade nacional, presente nos regimes monárquico e republicano na metrópole. No mesmo período, segundo Maria Cristina Portella Ribeiro, um setor do movimento republicano, em Angola, formado por &ldquo;filhos do país&rdquo;, lançava jornais e constituía &ldquo;a considerable current of opinion in favour of the independence of the territories which then comprised Angola&rdquo; (p. 118). Reclamava o fim da escravidão, a igualdade racial e até o ensino da língua Kimbundu. Seria reprimido pela monarquia liberal e pela I República. Isadora Ataíde Fonseca, seguindo o modelo de análise proposto por Hallin e Mancini, compara os sistemas mediáticos construídos nas cinco colónias portuguesas africanas, entre 1842 e 1926, apontando para a consolidação da imprensa como plataforma de debate político, de diferentes projetos coloniais, com audiência restrita, pertencente a uma elite que acabaria silenciada no regime do Estado Novo. Já na fase final da I República, e de novo a partir da metrópole, sobre a influência das lutas raciais nos eua, trazidas pelos meios de comunicação social, José Luís Garcia, apresenta-nos a voz incisiva do jornalista mulato Manuel Domingues, anarquista que, entre 1919 e 1922, no jornal a <i>Batalha</i>, escreveu &ldquo;the first words in imperial Portugal to make an argument in favour of independence for Africa, in a coherent, public form, in a large-circulation&rdquo; (p. 126). A colonização irrompe como um crime, e a imprensa como meio imprescindível de luta para denunciar a violência, a escravidão, o trabalho forçado, e até a ideologia racista da sociedade portuguesa. Uma voz que obriga a reconfigurar os limites do debate colonial, em véspera do Estado Novo, na metrópole. Para este regime que, como nenhum outro, aprofundou a vertente imperial da identidade nacional, tornando a independência nacional dependente de uma excecional herança colonial, remetem os restantes artigos, seja pela análise do âmbito dos seus instrumentos de propaganda e censura, nas formas de resistência, ou na herança pós-colonial.</p>      <p>Daniel Melo apresenta-nos a centralidade da censura no processo de dominação colonial no Estado Novo, reduzindo a esfera pública, diminuindo o potencial crítico e reflexivo. Interesssa-lhe a regularidade e extensão da censura nos territórios coloniais (censura política, económica, social, moral e até a autocensura), articulada com instituições, discursos e práticas propagandísticas e repressivas, advertindo para a capacidade de aperfeiçoamento deste aparato de controlo. Corroboram-no os três artigos seguintes. Nelson Ribeiro ao analisar a consolidação da Radio Clube de Moçambique (1932-1964), cuja gestão comercial colocaria a emissora, no final dos anos 30, entre as maiores do continente africano, surpreende a cooperação entre o setor privado e o programa imperial do Estado Novo. Joana Ramalho aborda a mobilização de meios materiais e simbólicos presentes no mega-evento, a Exposição do Mundo Português, de 1940, um ato de propaganda interna e externa, de difusão da vocação civilizadora dos povos inferiores, sublinhando a dimensão pedagógica e de entretenimento. Destaque-se também o artigo de Claudia Castelo que explora a campanha sistemática do regime para colocar ao seu serviço o lusotropicalismo, a versão benigna do colonialismo português. Desvenda uma nova estrutura estatal, o Gabinete dos Negócios Políticos do Ministério do Ultramar, que em articulação com os serviços de censura, a partir 1960, contribuiu para disseminar e naturalizar, em texto e fotografia, a narrativa do luso-tropicalismo. José Ricardo Cavalheiro, numa abordagem já explorada pelo antropólogo Nuno Domingos, avalia o vínculo da cultura popular ao lusotropicalismo através da construção mediática da imagem do futebolista negro, Eusébio. Vertente de análise fértil, ampliada por Afonso Ramos, numa análise da &ldquo;guerra de representação&rdquo; travada pelo regime nos <i>media</i> internacionais, com recurso a agências de comunicação e colaborações cúmplices com o colonialismo português, como o relato visual da África portuguesa, de Volkmar Wentzel, na <i>National Geographic</i>, aqui analisado. Tânia Alves, num estudo sobre a cobertura da eclosão da guerra colonial em jornais de Lisboa, avalia o desempenho da imprensa nacional na construção de um imaginário colonial, mas também os seus limites. Sobre estes se debruça, igualmente, Teresa Duarte Martinho valorizando a luta anti-colonialista no campo do discurso, na Guiné e Cabo Verde, nos orgãos de comunicação do PAIGC, assinalando o fim do monopólio de informação português. Em parte, a génese de um novo ambiente mediático onde se inscrevem as ficções, imagens e símbolos mobilizados pelas narrativas nacionalistas angolanas, analisadas por Alexandra Santos e Filipa Subtil. O volume encerra com Rita Ribeiro e Joaquim Costa a lançarem uma interrogação sobre o lugar do império na viragem do século XX. </p>      <p>A problemática lançada neste livro exigirá de investigações futuras a mesma persistência no espírito crítico e dialogante com outras àreas das ciências sociais, nomeadamente da antropologia, de forma a permitir uma maior compreensão das distintas reconfigurações da experiência imperial, resultantes das relações que se vão estabelecendo entre os diferentes discursos e práticas, porque o fim dos governos coloniais já provou não ser sinónimo de descolonização do mundo.</p>      ]]></body>
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