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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENSÃO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Brasão, Inês</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Dons e Disciplinas do Corpo Feminino,</b></font></p>      <p>Porto, Deriva, 2017, 232 pp.</p>     <p>ISBN 9789898701275</p>     <p><b>Rita Ávila Cachado*</b>    <br> <img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0003-4715-5686">https://orcid.org/0000-0003-4715-5686</a></p>     
<p>* Ccies-iul, iscte. Edif&iacute;cio ISCTE, Avenida das For&ccedil;as Armadas - 1649-026 Lisboa, Portugal. <a href="mailto:rita.cachado@iscte-iul.pt">rita.cachado@iscte-iul.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Podemos incluir este livro de Inês Brasão em três campos da produção académica sobre o Estado Novo: nos contributos para perceber melhor como operou o fascismo à portuguesa relativamente às mulheres; no seio da produção histórica sobre o Estado Novo em geral; no nicho disciplinar dos estudos feministas em Portugal. Um quarto campo emerge da leitura de <i>Dons e Disciplinas do Corpo Feminino</i>, o da divulgação científica. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Recebi este livro na mesma altura em que li dois romances, que, partindo de corpos femininos que vivem na atualidade e que refletem frequentemente sobre a vida das suas mães e avós, nos ajudam a perceber o que terá sido crescer mulher no Estado Novo e chegar ao tempo pós-revolucionário com liberdade no papel e limitações na educação feminina: os livros <i>A Gorda</i>, de Isabela Figueiredo, e <i>Eliete</i>, de Dulce Maria Cardoso. Trazer estas referências literárias a uma recensão serve também para localizar o livro de Inês Brasão num conjunto de obras que, cumprindo os requisitos académicos, prestam-se a ser lidas &ldquo;como um romance&rdquo;, tomando de empréstimo a expressão (e título de obra) de Daniel Pennac. O livro de Inês Brasão não tem ambições literárias, nem os romances referidos pretendem constar nos repositórios académicos, mas tendo em conta que a literatura científica em Portugal raramente tem em vista ser lida por um público alargado, <i>Dons e Disciplinas do Corpo</i> <i>Feminino</i> contribui para alargar o leque de leitores não académicos.</p>      <p>Recentemente, Diogo Ramada Curto na crónica &ldquo;O Estado Novo e o mundo da edição&rdquo; (Revista E, <i>Expresso</i> 11-05-2019), elencou um conjunto de estudos sobre o Estado Novo onde refere em primeiro lugar o livro <i>Portugal e os Fascismos</i>, de Fernando Rosas (2019), e na qual o nome de Inês Brasão surge entre outros autores, num parêntesis. Não desvirtuando o artigo de Ramada Curto, nem os autores em boa hora elencados, diria que o trabalho de Inês Brasão tanto neste livro agora recenseado, como n&rsquo;<i>O Tempo das Criadas</i> (2012), merece devida inscrição na história da literatura sobre o Estado Novo, sobretudo por contribuir para a discussão sobre os limites do fascismo português, ou, dito de outra forma, para a compreensão da dimensão fascista deste regime político. </p>      <p>Inês Brasão balança entre avançar ou pedir licença à literatura de que se socorreu, para designar o Estado Novo como fascista, talvez porque a primeira versão deste livro, um trabalho académico não publicado, tenha 20 anos. Mas a posição fica clara quando se refere ao Estado Novo comparando-o a &ldquo;outros regimes fascistas&rdquo;. O carácter conservador que a autora destaca no regime salazarista, mais do que revolucionário, como aconteceu com &ldquo;outros regimes fascistas&rdquo;, e a especificidade identitária que contrariou o espaço de liberdade conquistado durante a Primeira República, através por exemplo de uma singularidade no ser católico (almejando a santidade), determinam que o fascismo português não tenha sido tão exuberante e impulsivo como outros. No entanto, ao longo dos anos, impôs a incorporação, na população portuguesa, e sobretudo nas mulheres, de uma forma de estar que bloqueou severamente às mulheres o acesso ao espaço público (urbano) nas suas várias vertentes (formação, trabalho assalariado, lazer).</p>      <p>De resto, o livro tem citações de sobra para lembrar como era antes do 25 de Abril, e sobretudo nos anos de consolidação da ditadura, mas há uma que reflete o peso incrível que recaía sobre as mulheres portuguesas e não deixa dúvidas sobre o que é, e como se formou em Portugal durante a ditadura, uma &ldquo;ideologia de género&rdquo; (p.53), bem diferente do atual julgamento heteronoemativo sobre os avanços nos direitos sexuais: &ldquo;O que desejamos é que se imponham pelo seu modo de vestir e pela pureza dos seus costumes, sendo as mais elegantes, mas também as mais corretas; sendo as mais sérias, mas também as mais alegres; sendo as mais virtuosas, mas também as mais atraentes e simpáticas&rdquo; (<i>Boletim da Mocidade Portuguesa Feminina</i> de 02-06-1939, p. 1, citado por Brasão, 2017, p. 65).</p>      <p>O livro traz-nos assim (i) informação aprofundada sobre o passado recente do país; (ii) análise não hermética; e (iii) fundamentos para as discussões atuais. Parte, sobretudo, do trabalho de análise das publicações da secção feminina da Mocidade Portuguesa, que contêm amplas informações sobre a forma como o Estado Novo construiu uma imagem na qual as mulheres portuguesas que cresceram nesse tempo, facilmente se refletem: refreios relativamente a comportamentos em geral e relativamente ao corpo em particular pautaram os objetivos, bem-sucedidos, da moral propagada. Dirigida especificamente às raparigas crescidas, mas ainda não adultas, é vasta a produção analisada por Inês Brasão sobre comportamentos, posturas, atitudes idealizadas e impostas através de um discurso, narrativa mesmo, com astúcia, para modelar a mulher.</p>      <p>Para quem começa por ler o índice e a bibliografia, não se deixe enganar, há uma gralha importante no elenco bibliográfico, Jorge Crespo e a sua <i>História do Corpo</i>, mas este é bem recuperado na análise, embora não constitua referência central. O que faria falta na bibliografia e no texto, seria um maior número de referências a trabalhos escritos por mulheres, que permanecem nos repositórios académicos (nem sempre <i>online</i>). Contudo, a bibliografia usada no livro é relevante para quem hoje se dedica ao estudo do estigma associado ao corpo e às construções sociais, históricas, económicas e políticas da imagem do corpo.</p>      <p>Tentámos aqui uma recensão, mas a melhor está precisamente na nota da autora, &ldquo;Vinte anos depois&rdquo; (pp. 7-11). E o que nos diz? Que este livro não trata só de género, mas também de classe. Que não foi só o Estado Novo em si, mas outras instâncias da sociedade que formaram os dons e disciplinas do corpo feminino. Que este processo não se fez só de adaptação, de &ldquo;conformidade&rdquo; (p. 89), mas também de resistência. E mostra a relação com o presente, e como os debates atuais podem beneficiar desta história. </p>      <p>Será útil começar a leitura pela página 100, onde surge um quadro síntese sobre as mulheres e os seus tipos, &ldquo;legítimos&rdquo; e &ldquo;não legítimos&rdquo;. Nele, por exemplo, temos a &ldquo;noiva&rdquo; de um lado e a &ldquo;flirteadora&rdquo; do outro, mas é preciso mergulhar nos capítulos para perceber os contornos deste longo processo de categorização.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>REFER&Ecirc;NCIAS   BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>CARDOSO, D.&#8197;M. (2018), <i>Eliete</i>, Lisboa, Tinta-da-China.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=112068&pid=S0003-2573201900030001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>CRESPO, J. (1991), <i>A História do Corpo</i>, Lisboa, Difel.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=112070&pid=S0003-2573201900030001000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>CURTO, D.&#8197;R. (2019), &ldquo;O Estado Novo e o mundo da edição&rdquo;. <i>Revista E, Jornal Expresso</i>, 11-05-2019, pp. 66-67.</p>      <!-- ref --><p>FIGUEIREDO, I. (2017), <i>A Gorda</i>, Lisboa, Caminho.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=112073&pid=S0003-2573201900030001000004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>PENNAC, D. (1998 [1992]), <i>Como um Romance</i>, Lisboa, Asa.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=112075&pid=S0003-2573201900030001000005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body><back>
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