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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Retratos da Precariedade - Quotidianos e Aspirações dos Jovens Trabalhadores: Lisboa, Tinta-da-China, 2019, 182 pp.]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENSÃO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Carmo, Renato Miguel do </b></font></p>     <p><font size="4"><b> Matias, Ana Rita</b></font> <font size="4"></font></p>     <p><font size="3"><b>Retratos da Precariedade - Quotidianos e Aspirações dos Jovens Trabalhadores,</b></font></p>     <p>Lisboa, Tinta-da-China, 2019, 182 pp.</p>     <p>ISBN 9789896714789</p>     <p><b>José Castro Caldas*</b>    <br> <img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0001-8224-2254">https://orcid.org/0000-0001-8224-2254</a></p>     
<p>* <a href="mailto:josecaldas@ces.uc.pt"></a> Centro de Estudos Sociais,   Universidade de Coimbra. Col&eacute;gio de S. Jer&oacute;nimo, Apartado 3087 - 3000-995 Coimbra, Portugal. <a href="mailto:josecaldas@ces.uc.pt">josecaldas@ces.uc.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Possivelmente por estar em todo lado e em muitos lugares ao mesmo tempo, a precariedade é difícil de enquadrar. Daí a dificuldade de &ldquo;um retrato&rdquo; singular e sintético e a necessidade de recorrer a representações plurais, obtidas com instrumentos variados a partir de ângulos diversos - dados estatísticos, testemunhos instantâneos dos sujeitos e pequenos filmes de experiências de vida que se desenrolam em intervalos temporais com início e termo definido. </p>      <p>Sabemos o que é a precariedade, mas só enquanto não nos pedem para a definir. É nova, ou antiga? Vemo-la antiga quando evocamos o passado pré-industrial do trabalho à jorna e de ausência, na maioria das formas de assalariamento de algo que se assemelhe a um contrato de trabalho. Surge-nos como novidade, quando a vemos submergir domínios até há bem pouco tempo protegidos por normas que conferiam segurança à relação laboral a trabalhadores - como os qualificados com diplomas do ensino superior que são objeto de investigação neste estudo - cuja experiência de vida profissional se caracterizava por carreiras contruídas numa ou algumas empresas ou na administração pública.</p>      <p>É aceleração da rotação entre empregos e sucessão de contratos de curta e curtíssima duração? Também o é. Mas encontramo-la sobretudo em formas de emprego que, à falta de melhor, designamos de informal, e além disso em longos períodos de permanência na mesma empresa e na mesma função, mesmo com contratos &ldquo;sem termo&rdquo;, feita neste caso de insegurança quanto à estabilidade da empresa ou à possibilidade de despedimento. </p>      <p>É rejeitada pelos sujeitos, ou por eles consentida? Os testemunhos são por vezes ambivalentes. Nuns casos, ou em certos momentos, os sujeitos inquiridos referem-na como uma aberração a erradicar, noutros como um novo normal, uma inevitabilidade que requer adaptação por parte dos indivíduos. Seja como for, a precariedade tende a ser experimentada, mesmo pelos que se procuram adaptar, como uma fonte de mal-estar. </p>      <p>De perguntas como estas e dos respetivos ensaios de resposta é feito este livro, onde se reúnem resultados da investigação dos autores no CIES-ISCTE e do Observatório sobre Desigualdades, eles próprios em condições precárias no momento em que os estudos decorriam. </p>      <p>Disso mesmo - de uma precariedade observada, vivida pelos próprios observadores, e da empatia que de aí resulta com os sujeitos que são objeto da própria investigação - decorre, porventura, a vivacidade destes retratos. Eis, pois, um exercício de conceptualização da condição precária, construído sem pretensões de &ldquo;distanciamento&rdquo; ou &ldquo;neutralidade&rdquo;, a partir da experiência da própria precariedade, capaz de proporcionar, sobretudo aos não precários, o acesso a uma experiência a que está a ser sujeita toda uma geração.</p>      <p>Um breve capítulo de &ldquo;contextualização estatística&rdquo;, logo a seguir à introdução, serve sobretudo para dar conta da dificuldade em caracterizar a precariedade a partir de contagens e medições baseadas nos instrumentos estatísticos disponíveis. </p>      <p>Nas estatísticas encontram-se indícios de que a taxa de emprego, mais baixa entre os jovens, tem vindo a declinar e que isso não resulta apenas do aumento da escolarização, já que a taxa de desemprego aumentou muito e continua a ser particularmente elevada nos mesmos grupos etários. Encontram-    <p> -se também marcas de uma incidência particularmente vincada do trabalho temporário e do trabalho a tempo parcial involuntário entre os mais novos, particularmente insidiosa em Portugal, como resulta de comparações com a média da União Europeia.</p>      <p>Mas a precariedade é mais do que atrito no acesso ao mercado de trabalho, maior propensão ao risco do desemprego, ou contratos de trabalho involuntariamente temporários ou a tempo parcial. Cada vez mais é trabalho assalariado (emprego) disfarçado de prestação de serviços, sob a forma do que em Portugal se convencionou chamar &ldquo;falso recibo verde&rdquo;, ou outras que por ignorância designamos como &ldquo;atípicas&rdquo;. Esse arquipélago das novas formas de trabalho dependente, sem contrato e &ldquo;à peça&rdquo;, em expansão nas redes digitais, pouca ou nenhuma expressão encontra nas estatísticas, da mesma forma que nelas não se encontram as marcas do mal-estar pessoal e social associadas à insegurança.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para conhecer as dimensões da precariedade que as estatísticas ignoram ou ocultam é preciso, como bem sabem os sociólogos, dar voz aos sujeitos da precariedade e interpretar os seus testemunhos. </p>      <p>Invariavelmente, desses relatos a condição precária emerge não como uma escolha, mas como um fruto da necessidade. Para os jovens ouvidos nos diversos estudos reunidos no livro, a precariedade surge entretecida com projetos de vida ancorados em apostas de qualificação académica, que se constroem e desconstroem por força de vicissitudes que se apresentam efémeras, mas tendem a eternizar-se. Estágios que serviriam para abrir portas a carreiras, mas que acabam por resultar em nada mais do que antecâmeras de novos estágios. Bolsas que qualificariam para a investigação, mas se eternizam, depois de doutoramentos, em sucessivas bolsas, sob a complacência de uma academia envelhecida que julga beneficiar com fragilidade profissional dos jovens talentosos que põe ao seu serviço. </p>      <p>No processo, as próprias palavras adquirem novos significados. Carreira não significaria já compromisso com uma profissão e progressão em conhecimento e responsabilidade ao longo de uma vida. Seria antes acumulação de experiências e de &ldquo;competências&rdquo;, num formato manta de retalhos, tecida em permanências efémeras, escrita e reescrita recursiva de currículos que querendo ser evidência de &ldquo;adaptabilidade&rdquo; resultam em geral para quem os vive e para quem os lê em roteiros de errâncias desprovidas de sentido.</p>      <p>Nos interstícios dessas errâncias questionam-se as qualificações adquiridas, mesmo quando não se enjeita o valor intrínseco do saber. Considera-se a emigração. É fora, no exterior, o lugar onde é dado o devido valor às competências. Existem também abismos no lugar a que outros chamam transições. Períodos de desemprego sem proteção que obrigam a regressos não desejados a casa dos pais. Depressões com ou sem apoio terapêutico. </p>      <p>A avaliar pelos testemunhos recolhidos, da vivência da condição precária parece resultar sobretudo uma modificação da relação com o tempo, presente e futuro. O presente não é mais, como foi em gerações precedentes, um tempo de preparação e maturação de projetos de vida autónoma, tornando-se um contínuo estéril, imposto pela necessidade. O futuro, pessoal ou social, deixa de ter sentido como horizonte de esperança, dando lugar a antevisões desesperadas da condição pessoal ou distópicas do destino coletivo. </p>      <p>Melhor do que os depoimentos de diversas pessoas recolhidos num momento crítico de crise de emprego, o capítulo que reporta entrevistas desfasadas no tempo (2016 e 2018), dá conta da persistência da precariedade entre os jovens escolarizados, apesar da recuperação do emprego.</p>      <p>Numa pequena amostra encontramos João, 34 anos (arquiteto no ateliê do pai em 2016, tempo de trabalho dividido em 2018 entre uma assessoria a uma Câmara Municipal, trabalho no ateliê e atividade de <i>freelancer</i>); Mónica, 24 anos, (mestre em Ciências de Educação, bolseira de investigação em 2016, candidata a bolsa de doutoramento e prestadora de serviços a recibos verdes); Carlos, 28 anos (licenciado em História, desempregado em 2016, na mesma condição em 2018); Fernando, 32 anos (engenheiro civil, explicador de matemática em 2016, emigrante em 2018); Carolina, 26 anos (bióloga desempregada em 2016, trabalhadora de <i>call-center</i> em 2018); Mafalda, 26 anos (mestre em Arte, estagiária do IEFP em 2016, emigrante em 2018); Manuel, 31 anos (geógrafo, trabalhador em <i>part-time</i> em 2016, trabalhador a termo certo em 2018). Em todos os casos, entre o estado inicial de precariedade e o estado final semelhante, múltiplas &ldquo;transições&rdquo;, sempre fora da &ldquo;zona de conforto&rdquo;. Dir-se-ia que nestas vidas pouco ou nada mudou entre crise e &ldquo;pós-crise&rdquo;. Aparentemente. Diz-nos um depoimento destacado pelos autores na conclusão do livro: &ldquo;são coisas que nos matam um bocadinho cá dentro, e também nos tornam mais maleáveis e mais permeáveis para fazerem connosco aquilo que querem, porque perdemos forças para conseguir resistir. Ficamos um pouco abertas e abertos àquilo que nos aparecer&hellip; porque nos sentimos tristes&hellip; separados de outras pessoas&hellip; Isto individualiza, separa-nos, fragmenta-nos, e isso facilita a nossa exploração&rdquo;.</p>      ]]></body>
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