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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O Culto do Divino: Migrações e Transformações: Lisboa, Edições 70, 2017, 332 pp.]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENSÃO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Leal, João</b></font></p>     <p><font size="3"><b>O Culto do Divino: Migrações e Transformações, Lisboa, Edições 70, 2017, 332 pp.</b></font></p>     <p>ISBN 9789724420035</p>     <p><b>José Mapril<sup>1</sup></b>    <br> <img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0001-5993-9029">https://orcid.org/0000-0001-5993-9029</a></p>     
<p><sup>1</sup> Centro em Rede de Investiga&ccedil;&atilde;o em Antropologia, Nova FCSH. Avenida de Berna, 26-C - 1069-061 Lisboa, Portugal. <a href="mailto:jmapril@gmail.com">jmapril@gmail.com</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>O mais recente livro de João Leal, intitulado <i>O Culto do Divino</i>, debruça-se sobre as festas do Espírito Santo (FES), também designadas por impérios ou festas do divino, as suas viagens e as suas transformações. Através de uma análise etnográfica e histórica, o autor mostra como esta festa viajou dos Açores (para um aprofundamento das FES em Santa Bárbara e noutras ilhas ver Leal, 1994) para a América do Norte (EUA e Canadá) e para o Brasil e como no processo se foi transformando, de formas distintas, de acordo com os contextos. Nestes trânsitos vemos como diversos grupos sociais - camponeses, e/imigrantes, elites eclesiásticas, intelectuais e políticos e grupos afrodescendentes - se apropriam e transformam estas &#8220;composições rituais&#8221; para pensar e agir sobre os mundos que os rodeiam. Uma das preocupações centrais identificada logo nas páginas iniciais é o papel e a importância das próprias comunidades, que a &#8220;partir de baixo&#8221;, fomentaram estes trânsitos e reconfiguraram práticas e significados. </p>      <p>O livro está organizado em 11 capítulos, divididos em três secções. A primeira secção, intitulada &#8220;Viagens na América do Norte&#8221;, foca as FES em East Providence, Toronto, San Jose e o regresso aos Açores. Nesta primeira secção, percebemos de que forma este ritual se foi transformando, adquirindo novos significados e incorporando novas dinâmicas, nas próprias <i>performances</i> do &#8220;<i>script ritual</i>&#8221;, e como essas transformações regressaram aos Açores, sendo adotadas e/ou criticadas. As disputas em torno da autenticidade, inovação ou tradição das &#8220;<i>Queens</i>&#8221; são disso reveladoras. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na segunda secção, &#8220;Identificações de uma festa&#8221;, João Leal discute a relação entre património, objetificação etnográfica e política e os impérios açorianos, através de uma análise da sua candidatura a património mundial da UNESCO. Emerge daqui o papel das diásporas e da &#8220;quase-nação açoriana transnacional&#8221; nos processos de patrimonialização das FES. </p>      <p>Na terceira secção (&#8220;O divino nos trópicos&#8221;), analisa-se a relação das FES com os cultos afro-brasileiros, mais concretamente com o Tambor de Mina, em São Luís do Maranhão, de forma a mostrar a sua articulação com outras entidades. Nestes capítulos analisam-se, entre outros temas, as reconfigurações dos símbolos do Espírito Santo, a relação com múltiplas entidades espirituais, o campo dos cultos afro-brasileiros em São Luís, as discussões sobre sincretismos e os diferentes modos, e tempos, de articulação entre Mina e o Divino. </p>      <p>Ao longo destas viagens, o autor explora um conjunto de argumentos (sempre em diálogo com um vasto leque de debates antropológicos clássicos e contemporâneos) dos quais destacaria três, dada a sua importância para pensar a plasticidade do ritual e, simultaneamente, o seu potencial de empoderamento. </p>      <p>O primeiro - o argumento central - procura mostrar como as FES não são meramente &#8220;ornamentais&#8221;, mas realizam um trabalho de conexão entre pessoas e entre estas e os deuses; elas produzem tanto o religioso como o social. &#8220;Este livro argumenta (&#8230;) que as festas do Espírito Santo (ou Festas do Divino) são tecnologias rituais determinantes para a construção de vários tipos de conexões envolvendo deuses, homens e mulheres. As festas são &#8216;festa&#8217;, mas são também esse trabalho - festivo - de fabrico simultâneo do religioso e do social. Neste sentido, este livro é tanto sobre as festas do Espírito Santo como sobre os modos de produção simultâneos da religião e da vida social (&#8230;)&#8221; (Leal, 2017, p. 13).</p>      <p>Esta é uma etnografia das práticas rituais associadas à devoção ao ES, as suas mudanças e reconfigurações, mas também como estas (re)constroem o social, num sentido performativo, de fazer e refazer pertenças, coletivos e sociabilidades. </p>      <p>Este &#8220;trabalho da festa&#8221; leva a um segundo argumento: as viagens do divino revelam um &#8220;vaivém entre unidade e diversidade&#8221; que &#8220;não diz apenas respeito à composição etnográfica das festas, mas aos seus significados.&#8221; Nas palavras do autor: &#8220;(&#8230;) ao viajar, o culto do Divino diversificou-se, diferenciou-se, transformou-se. Os processos através dos quais essa diversificação ocorreu não são fáceis de identificar, devido à escassez de fontes. Mas, onde existe informação, esta sugere que esses processos envolvem, em quantidades variáveis, inspiração - em modelos rituais preexistentes - e improvisação cultural (Ingold e Hallam, 2007) - criadora de novas soluções rituais. Essa improvisação cultural tanto pode ser pragmática, procurando criar ajustamentos a novas condições materiais e sociais, como <i>playful</i>, isto é, orientada para a exploração de novas potencialidades expressivas. A recriação - e a sua lógica de autenticidade - é importante em muitos contextos, mas a hibridização é em muitos casos a nota dominante. Há também casos de &#8216;regresso às origens&#8217;. Alguns desses processos de transformação têm uma autoria que pode ser conhecida. Noutros casos, sabemos que aconteceram, mas não como nem por influência de quem.&#8221; (Leal, 2017, pp. 65 e 66)</p>      <p>Assim, nalguns casos encontramos uma preocupação com a &#8220;autenticidade&#8221; enquanto noutros a centralidade reside no hibridismo e nos modos de articulação com tradições religiosas distintas. Em ambos, vislumbramos um processo de &#8220;invenção da tradição&#8221; (Hobsbawm e Ranger, 1983) que, mais uma vez, remete para a plasticidade da prática ritual.</p>      <p>Em todos estes contextos - e este é o terceiro argumento - o culto do divino revela também um princípio de autonomia religiosa e social. Religiosa, porque &#8220;subverte as relações de poder vigentes no quadro do catolicismo&#8221; (Leal, 2017, p. 378), e social (e política), porque empodera &#8220;grupos populares (ou com ancestralidade popular): camponeses nos Açores, imigrantes na América do Norte, segmentos afrodescendentes de baixo rendimento em São Luís.&#8221; (Leal, 2017, p. 379). É através dele que se constroem coletivos e se fazem reivindicações no espaço público. Este é também um campo (num sentido Bourdieusiano) no qual se produzem hierarquias - prestígio, renome e carisma - e se disputam argumentos como formas de legitimação e questionamento.</p>      <p>Vemos, assim, como o ritual não é algo estático e definido atemporalmente, nem tão pouco supérfluo, mas sim uma dimensão da vida social que dialoga com as realidades circundantes, transformando-se em conformidade, e fazendo e refazendo factos sociais e identidades coletivas.</p>      <p>Metodologicamente, o culto do divino é uma etnografia longitudinal, que mobiliza múltiplas escalas de análise, contextos (entre os Açores, a América do Norte e o Brasil) e posições de enunciação, sempre numa profícua articulação com a história. É esta complexa abordagem que permite revelar as múltiplas facetas e transformações do culto do divino no mundo contemporâneo. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por tudo isto, o novo livro de João Leal é uma excelente etnografia de trânsitos rituais e um valioso contributo para os estudos antropológicos sobre transnacionalismo, <i>performance</i> e ritual, cristianismo, mais concretamente para o que tem sido designado pelo &#8220;atlântico cristão&#8221;, e sobre cultos afro-brasileiros e os modos de articulação entre universos religiosos. </p>      ]]></body>
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