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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O circo chegou à cidade! Oportunidades de inovação sócio-territorial]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article discusses the role of the arts, and the circus in particular, in engendering socially creative milieux that promote place development through social innovation. These milieux - neighbourhoods, cities or regions - typically combine diversity, tolerance, participation and collective memory - features that also characterise the circus as an artistic milieu. In order to gain a deeper understanding of the relationship between the circus and social innovation, we focus on the case of Chapitô, in Lisbon. Chapitô’s presence in the city, through a variety of activities that bring together circus arts and social inclusion, is an acquired and widely acknowledged fact. However, something seems to be preventing the possibility of a “qualitative leap” that would allow this organisation to grow in terms of the scale of its activities, on the one hand, and for it to improve its own internal pool of skills and qualifications, on the other. Some broader conclusions are then outlined as to the remarkable capacity of the circus arts to drive socio-territorial innovation, both by upgrading the urban public space and through the social inclusion of children and youths at risk.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="fr"><p><![CDATA[On discute en quelle mesure les arts, et le cirque en particulier, peuvent contribuer au développement territorial, en favorisant l’innovation sociale. La diversité tolérante, la participation et la mémoire collective qui caractérisent quartiers, villes et régions, se retrouvent dans les milieux artistiques et surtout dans le cirque. Le cas du “Chapiteau”, à Lisbonne, illustre bien cette idée. Ses multiples activités allient, comme chacun sait, les arts du cirque à la récupération sociale. Cependant il paraît avoir quelque difficulté à réaliser le saut quantitatif qui lui permettrait d’élargir son échelle d’action et d’améliorer son degré de qualification. D’une façon plus générale, les arts du cirque montrent une remarquable capacité d’innovation socioterritoriale, en permettant de valoriser l’espace public et de mieux intégrer socialement des enfants et adolescents en difficulté.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>O circo chegou à cidade! Oportunidades de inovação sócio-territorial </b></p>     <p><b>&nbsp;</b></p>     <p><b>Isabel André<sup>[i] </sup>; João Reis<sup>[i]</sup></b></p>     <p>[i] Centro de Estudos Geográficos, Universidade de Lisboa. Email: <a href="mailto:isabelandre@fl.ul.pt">isabelandre@fl.ul.pt</a>;    <a href="mailto:reis97@gmail.com">reis97@gmail.com</a> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO </b>– Este artigo discute o papel das artes, e do circo em particular,    na construção de meios socialmente criativos que impulsionam, através da inovação    social, o desenvolvimento dos lugares. Estes meios – bairros, cidades ou regiões    – conjugam normalmente diversidade, tolerância, participação e memória colectiva    e o circo, enquanto meio artístico, associa bem essas quatro características.    Para compreender mais detalhadamente a relação do circo com a inovação social    analisamos o caso específico do Chapitô, em Lisboa. A presença do Chapitô na    cidade, através de múltiplas actividades que ligam as artes circenses à inclusão    social, é um dado adquirido e amplamente reconhecido. Contudo, parece haver    alguma dificuldade em protagonizar um “salto qualitativo” que permita, por um    lado, alargar a escala de actuação desta instituição e, por outro, passar para    um patamar de qualificação mais elevado. Numa leitura mais ampla, consideramos    que as artes circenses denotam uma capacidade assinalável para impulsionarem    a inovação sócio-territorial, tanto através da qualificação do espaço público    urbano como por via da inclusão social de crianças e jovens em risco. </p>     <p><b><i>Palavras-chave: </i></b>Inovação social, inovação sócio-territorial,    meios socialmente criativos, cidade, circo. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>The circus is in town! Opportunities for socioterritorial innovation</b></p>     <p><b>ABSTRACT </b>– This article discusses the role of the arts, and the circus    in particular, in engendering socially creative milieux that promote place development    through social innovation. These milieux – neighbourhoods, cities or regions    – typically combine diversity, tolerance, participation and collective memory    – features that also characterise the circus as an artistic milieu. In order    to gain a deeper understanding of the relationship between the circus and social    innovation, we focus on the case of <i>Chapitô</i>, in Lisbon. <i>Chapitô</i>’s    presence in the city, through a variety of activities that bring together circus    arts and social inclusion, is an acquired and widely acknowledged fact. However,    something seems to be preventing the possibility of a “qualitative leap” that    would allow this organisation to grow in terms of the scale of its activities,    on the one hand, and for it to improve its own internal pool of skills and qualifications,    on the other. Some broader conclusions are then outlined as to the remarkable    capacity of the circus arts to drive socio-territorial innovation, both by upgrading    the urban public space and through the social inclusion of children and youths    at risk. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><i>Key words: </i></b>Social innovation, socio-territorial innovation, socially    creative milieux, city, circus.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Le cirque est arrivé! Des Possibilités d’innovation sociale et territoriale</b></p>     <p><b>RESUME </b>– On discute en quelle mesure les arts, et le cirque en particulier,    peuvent contribuer au développement territorial, en favorisant l’innovation    sociale. La diversité tolérante, la participation et la mémoire collective qui    caractérisent quartiers, villes et régions, se retrouvent dans les milieux artistiques    et surtout dans le cirque. Le cas du “Chapiteau”, à Lisbonne, illustre bien    cette idée. Ses multiples activités allient, comme chacun sait, les arts du    cirque à la récupération sociale. Cependant il paraît avoir quelque difficulté    à réaliser le saut quantitatif qui lui permettrait d’élargir son échelle d’action    et d’améliorer son degré de qualification. D’une façon plus générale, les arts    du cirque montrent une remarquable capacité d’innovation socioterritoriale,    en permettant de valoriser l’espace public et de mieux intégrer socialement    des enfants et adolescents en difficulté. </p>     <p><b><i>Mots-clés: </i></b>Innovation sociale, innovation socio-territoriale,    milieux socialement créatifs, ville, cirque. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>        <p>“Circo tem, antes de mais, o fascínio do espaço circular, onde a festa é      envolvente e envolvida; onde os espectadores se vêem entre si através do espectáculo      e onde todos comunicam, porque todos se referem ao ponto central que geométrica      e sensorialmente nos liga.” </p>       <blockquote>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>João dos Santos, 1981:181 </p>   </blockquote> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>I. INTRODUÇÃO </p>     <p>Os meios artísticos, ou seja, aqueles onde as artes são a principal forma de    expressão e de comunicação, são, à partida, criativos. A arte só é verdadeiramente    reconhecida quando se afasta da reprodução e faz emergir um novo objecto. Pode    ser um corte com o passado, com as expressões instituídas, mas pode ser também    uma reconstrução ou uma reinvenção do passado. É invariavelmente um novo ponto    de vista – com ou sem expressão material – com “ingredientes” que impulsionam    a mudança e que combatem a inércia. </p>     <p>A produção artística tem sido geralmente associada às elites, pelo menos aquela    que é mais reconhecida do ponto de vista social e economicamente mais valorizada.    A <i>beautification </i>da realidade e do quotidiano são preocupações que surgem    associadas aos grupos sociais e aos territórios mais favorecidos. As últimas    décadas têm observado, porém, mudanças significativas neste campo. No mundo    ocidental, a democratização da cultura e da arte tem sido uma preocupação constante    das políticas de desenvolvimento social e territorial. Com esse objectivo, os    investimentos em bibliotecas, museus, centros culturais ou escolas de arte têm-se    multiplicado. </p>     <p>Paralelamente, a arte é cada vez mais uma mercadoria. Nas sociedades pós-industriais,    ou simplesmente pós-modernas (porque também existe uma pós-ruralidade), a produção    cultural parece sobrepor-se à produção industrial. Pode mesmo falar-se do entrosamento    dos dois tipos de produção. A estética dos produtos industriais, a importância    da forma em detrimento da função, ou a importância do prazer associado aos objectos    ou às experiências são aspectos que ganham cada vez mais relevo. </p>     <p>A própria produção artística passa frequentemente pelos critérios associados    à competitividade. O debate sobre a cidade criativa é um dos melhores exemplos    da visão mercantil da cultura e das artes. De facto, Richard Florida (2002,    2008) ou Charles Landry (2000) defendem que a atracção de gente criativa é a    principal condição para captar investimento. Na sua opinião, o capital segue    as rotas traçadas pela classe criativa! </p>     <p>Nesta cidade criativa, a cultura e as artes assumem um papel principal (Hall,    2000). Por um lado, a oferta cultural é um factor de atracção importante, seja    por via da arquitectura e do espaço público que configuram as condições de habitação    da classe criativa, seja através dos espectáculos, das exposições ou de outros    eventos que preenchem os tempos de lazer desse grupo. Por outro lado, os artistas    fazem parte da classe criativa. Tanto os artistas num sentido mais tradicional    – pintores, actores, músicos, etc. – como os mais contemporâneos como os designers,    produtores de vídeo, criadores de mensagens publicitárias e outros. </p>     <p>O grande problema da cidade criativa é não ser normalmente uma cidade inclusiva.    Com frequência, a construção de uma grande sala de espectáculos, ou de um museu    no centro da cidade, leva à expulsão dos antigos residentes. Por outro lado,    as operações de regeneração urbana associadas à oferta imobiliária dirigida    à classe criativa correspondem normalmente a processos de gentrificação (Ley,    2003; Moulaert <i>et al.</i>, 2004). </p>     <p>Julgamos, no entanto, que a cidade criativa não é fatalmente exclusiva. Pode    ser uma cidade inclusiva e solidária. Ou seja, é possível falar de cidades socialmente    criativas (Gertler, 2004; Scott, 2006). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O circo é uma expressão artística com potencialidades singulares para participar    na construção de cidades socialmente criativas. Não tem uma história ligada    às elites. Até há poucas décadas, expressava-se frequentemente no espaço público    (a feira) através de pessoas que usavam os seus dotes artísticos para sobreviverem.    Mas, voltaremos ao circo mais tarde. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>II. MEIOS E LUGARES SOCIALMENTE CRIATIVOS </p>     <p>Um meio socialmente criativo não é apenas aquele que impulsiona a expressão    criativa mas também o que promove a inovação social. A inovação social é aqui    entendida como uma resposta nova para necessidades sociais não satisfeitas,    ou mesmo não reconhecidas. Essas respostas são diversas consoante as necessidades    em causa mas têm em comum a intenção de promover a inclusão social através da    transformação das relações sociais (configuradas a partir do trabalho, do género,    da etnia, etc.), nomeadamente pelo <i>empowerment </i>e pela valorização do    capital social colectivo nas comunidades mais frágeis e vulneráveis (André e    Abreu, 2006; Martinelli <i>et al</i>., 2003; Klein e Harrisson, 2007). </p>     <p>Nesta perspectiva, a inovação social está associada a iniciativas que escapam    à ordem estabelecida, na medida em que representam uma nova forma de pensar    ou de fazer algo e uma mudança social qualitativa, uma alternativa – ou até    mesmo uma ruptura – face às práticas usuais ou convencionais. “L’innovation    affronte l’institué, c’est-à dire qu’elle défait la tradition, elle dépasse    la routine et elle défie les contraintes” (Comeau, 2004: 37).</p>     <p>O conceito de <i>milieu innovateur</i>, desenvolvido por Aydalot e pelo <i>Groupe    de Recherche Européen sur les Milieux Innovateurs </i>(GREMI) a partir dos anos    80 (Aydalot, 1986), pretende essencialmente dar conta de como é que os lugares    promovem ou dificultam a inovação. Contudo, a transposição do conceito de ‘<i>milieu    innovateur’ </i>para meio socialmente inovador, ou criativo, não é linear. Embora    se encontrem pontos de convergência, sobretudo em termos dos recursos que incentivam    a inovação e a criatividade, muitos outros parâmetros são distintos. </p>     <p>A noção de plasticidade, adoptada da física, pode ajudar-nos a compreender    a natureza e as dinâmicas dos meios inovadores, em geral, e dos socialmente    criativos, em particular. “La plasticité désigne la capacité qu’ont certains    composants à s’in-former (recevoir une forme) et à se dé-former, tout en gardant    unité et cohérence. La plasticité est donc une condition nécessaire pour que    la vie apparaisse, se maintienne et puisse évoluer.” (Entrevista de Dominique    Lambert à Radio France Internationale, a propósito do livro <i>Comment les pattes    viennent au serpent. Essai sur l’étonnante plasticité du vivant</i>, Dominique    Lambert, René Rezsöhazy, Editions Flammarion, 2004). </p>     <p>Se se transpuser este conceito para os meios sócio-territoriais, a plasticidade    significa que os lugares onde a criatividade vai germinar devem ser suficientemente    flexíveis e, ao mesmo tempo, suficientemente organizados para que possam sofrer    transformações culturais, económicas e sociais sem perderem a sua identidade    (André <i>et al</i>., no prelo). </p>     <p>Os meios socialmente criativos parecem reunir quatro características principais:    <i>diversidade sócio-cultural </i>ligada à abertura ao exterior; <i>tolerância</i>,    na medida em que permitem o risco; <i>democraticidade</i>, correspondente à    participação activa dos cidadãos; memória colectiva, na medida em que assegura    a resiliência do meio. A <i>diversidade </i>potencia o contacto com o novo no    sentido da alteridade – novos-outros produtos, novos-outros saberes, novos-outros    valores – mas pode também produzir fragmentação e isolamento; a diversidade    promove a inovação na medida em que se estabelecem pontes e fluxos entre aquilo    que é diferente. A <i>tolerância </i>é uma condição necessária à possibilidade    de errar – a inovação é uma tarefa arriscada – e um meio não pode ser criativo    e inovador se penalizar os eventuais insucessos de uma iniciativa arriscada,    ou seja, se for demasiado hierarquizado, normativo ou rígido. A <i>democraticidade    </i>implica ter possibilidade e capacidade de decisão, ou seja, ter acesso à    informação e ao conhecimento necessários à escolha e à identificação de soluções    adequadas, ser socialmente reconhecida a decisão e ser exigida a responsabilização    de quem decide (André e Abreu, 2006). O diálogo faz emergir a inovação e alimenta    a criatividade. A <i>memória colectiva </i>pode prevenir a fragmentação potencialmente    associada à inovação como efeito adverso. Na medida em que sustenta a identidade    da comunidade e o sentido de pertença das pessoas, é um factor importante de    resiliência, de resistência ao choque da mudança. Contudo, a memória colectiva,    porque comporta o “peso do passado”, pode ser também um factor de inércia e    de resistência às estratégias criativas. </p>     <p>A ligação da inovação social a um determinado meio capaz de a promover e, por    outro lado, a capacidade das mudanças no território desencadearem novas respostas    e novas relações sociais remetem para a ideia de inovação sócio-territorial,    conceito que atribui ao território um papel activo nos processos de inovação    social. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>III. O CIRCO NA CONSTRUÇÃO DE MEIOS SOCIALMENTE CRIATIVOS </p>     <p>As artes, no seu conjunto, assumem um papel relevante como estímulo da inovação    social, especialmente na medida em que inspiram estratégias sociais criativas,    ou seja, que estimulam as comunidades ou os grupos mais desfavorecidos no sentido    de encontrarem novas respostas, alterando as condições e reconstruindo as relações    sociais que provocam a sua vulnerabilidade. Nas sociedades, como as europeias    ou as norte americanas, onde o sentido da transcendência se foi perdendo (quer    pela erosão da religião quer pela falência das grandes ideologias que marcaram    os séculos XIX e XX), a arte preenche, de alguma forma, esse “vazio” (Ruby,    2002, 2003). É uma via de antecipação do futuro. “Some artists express in their    work feelings or codes that forecast the future or that indicate symbolically    that the present is no longer viable.” (Smiers, 2005: 9). </p>     <p>Contudo, as artes não são apenas uma fonte de inspiração. São expressões facilitadoras    da comunicação entre diferentes culturas, na medida em que transmitem significados    que a linguagem comum tem dificuldade em revelar. Por outro lado, permitem transmitir    as emoções e os sentimentos mais profundos dos seres humanos. Por exemplo, o    terror que a <i>Guernica </i>de Picasso transmite dificilmente se poderia expressar    de outra forma, sendo facilmente captado por pessoas com pertenças culturais    diversas. A utilização de metáforas faz transcender o óbvio e comunicar para    além do discurso comum (Ruby, 2002, 2003; André e Abreu, no prelo). </p>     <p>A estetização do quotidiano (Smiers, 2005; Ley, 2003; Cachinho, 2006) tem vindo    a afirmar-se cada vez mais nas sociedades ocidentais. A pós-modernidade atribui    à estética a importância que a modernidade conferiu à função e, neste contexto,    as artes assumem uma importância crescente na vida das pessoas e das comunidades.  </p>     <p>Os argumentos referidos nos parágrafos anteriores aplicam-se também ao circo.    Importa, no entanto, ampliar a reflexão, na medida em que as artes circenses    comportam particularidades que lhes conferem um papel específico e marcante    no quadro das estratégias sociais criativas. </p>     <p>Com raízes muito antigas, entre as quais se salientam o circo romano e os saltimbancos    das feiras medievais, o circo moderno inicia-se em Inglaterra, no século XVIII,    com o teatro equestre, onde actuavam não só cavaleiros, mas também acrobatas    e palhaços. Nos países europeus onde as artes equestres eram mais desenvolvidas    e, ao mesmo tempo, naqueles onde se realizavam as grandes feiras com uma grande    panóplia de divertimentos (França, Alemanha, Itália, Rússia), rapidamente surgiram    companhias de circo cujos espectáculos tinham uma procura muito significativa.    Durante o século XIX, a procura era tão grande – particularmente em França –    que foram construídos edifícios especificamente destinados às artes circenses.    O mais emblemático era o Cirque Olympique, dos Irmãos Franconi, em Paris (Jacob,    2002). </p>     <p>O desenvolvimento do circo nos Estados Unidos da América, a partir da 3ª década    do século XIX, vai introduzir uma inovação crucial – o <i>chapiteau </i>ea consequente    possibilidade de itinerância. Esta mudança possibilita a captação de um público    muito mais vasto, o que vai permitir algum fausto para “abrilhantar” os espectáculos.    Por outro lado, o nomadismo gera uma forte coesão interna nas companhias. “Les    arts du cirque sont non seulement creatifs, mais également inclusifs. Sous la    toile du chapiteau, un néophite réalise que rien n’est possible sans les autres,    que le cirque est une aventure fondamentalement collective. Autour de la piste,    il est question de famille élargie et tous sont des enfants du voyage, des saltimbanques”    (En Piste, 2005: 15). </p>     <p>O circo atravessou uma fase difícil a partir dos anos 60 do século XX, associada    sobretudo às novas preocupações com as condições de vida dos animais, em particular    com as espécies protegidas como algumas das que integravam os espectáculos de    circo (focas ou chimpanzés). Mas a crise deveu-se também às barreiras que a    organização espacial do <i>chapiteau </i>põe à inovação tecnológica. A presença    de público quase a toda a volta da pista não permite, por exemplo, a utilização    de projecções vídeo ou a montagem de equipamentos complexos que exigem uma infraestrutura    “escondida” (Camus, 2004). </p>     <p>Como resposta à crise, o circo contemporâneo ou ‘novo circo’ emergiu no final    dos anos 70, manifestando rupturas significativas com o circo tradicional, nomeadamente:    o desaparecimento dos animais selvagens; a (re)organização do espaço dentro    do <i>chapiteau</i>; a introdução de um fio condutor das várias exibições através    de uma coreografia integradora; a adopção de novas estéticas, particularmente    ao nível da música e das cores (Camus, 2004; Jacob, 2002). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Apesar destas mudanças, o circo vai manter, em larga medida, a itinerância    e o sentido de comunidade, características que lhe podem conferir um papel importante    na cidade socialmente criativa. Por outro lado, a origem popular do circo aproxima-o,    enquanto expressão artística, das populações mais desfavorecidas. </p>     <p>Outro aspecto que confere às artes circenses um papel decisivo como instrumento    de estratégias socialmente criativas é a diversidade das expressões e a cooperação    entre os vários protagonistas. Palhaços, acrobatas, mágicos, malabaristas, músicos    e muitos outros que trabalham na pista ou na sombra constroem colectivamente    o espectáculo. No ‘novo circo’, contam uma história em conjunto utilizando linguagens    e discursos diversos. </p>     <p>A inovação social ligada ao circo faz emergir inevitavelmente o caso do <i>Cirque    du Soleil, </i>um <i>targeted growth and committed cirque </i>(<a href="http://www.cirquedusoleil.com" target="_blank">www.cirquedusoleil.com</a>,    acedido em 15 Setembro 2008). Nos anos 80, um grupo de jovens do Québec procurou    nas artes circenses um modo de sobrevivência. Apoiados por autoridades públicas    especialmente “protectoras” e inspirados pelos “ventos” de Woodstock e pela    vontade de mudar o mundo partilhada pela juventude dos anos 60, transformaram    acrobacias e magias tradicionais num circo reinventado<a style='mso-endnote-id: edn2' href="#_edn2" name="_ednref2" title="">[ii]</a><sup> </sup>que tiveram a    oportunidade de apresentar em todo o Québec em 1984, no quadro das comemorações    dos 450 anos da chegada de Jacques Cartier ao Canadá. Agitando a bandeira da    inovação e de uma conduta politicamente correcta, esse grupo de jovens, e especialmente    Guy Laliberté, o mais empreendedor e audacioso, criou, em menos de 20 anos uma    das mais reconhecidas empresas multinacionais no campo das artes (Beaunoyer,    2005). </p>     <p>O percurso de sucessos consecutivos do <i>Cirque du Soleil </i>não o impediram,    contudo, de manter um compromisso social forte em termos de inclusão social.    Através do <i>Cirque du Monde </i>e de múltiplas parcerias espalhadas pelo mundo,    a imagem mágica e espectacular do <i>Cirque du Soleil </i>tem contribuído decisivamente    para o desenvolvimento de muitas estratégias sociais criativas. No caso do seu    lugar de origem, a acção vai mais longe através da implicação directa num mega-projecto    de regeneração urbana num espaço periférico e problemático de Montreal – o bairro    de Saint-Michel (TOHU, 2008). </p>     <p>Mas, qual é afinal a magia do circo no campo da inovação social, em geral,    e da inovação sócio-territorial, em particular? As ligações entre circo e território    são várias e manifestam-se a várias escalas. Ao nível nacional e internacional,    a itinerância do circo e as rotas que traça para mobilizar o seu público. Na    cidade, o circo instala-se num espaço público e estabelece inevitavelmente uma    relação de vizinhança efémera mas intensa. No <i>chapiteau </i>e em seu redor,    a organização do espaço é um factor decisivo para o sucesso da companhia. É    necessário não só conjugar uma grande diversidade de expressões artísticas num    mesmo espaço, mas também conjugar os espaços de trabalho, de residência, de    aprendizagem ou de lazer. </p>     <p>Para discutir a relação do circo com a inovação social, importa – antes de    passarmos para o caso específico do Chapitô, em Lisboa – retomar algumas ideias    apontadas anteriormente. Já referimos que os meios socialmente criativos são    aqueles que conjugam diversidade, tolerância, participação e memória colectiva.    O circo associa bastante bem essas quatro características: (i) pluralidade de    expressões artística s, diversidade de origens geográficas dos artistas, convívio    de diferentes gerações; (ii) tolerância associada ao risco omnipresente nas    artes circenses; (iii) participação de todos – artistas e outros trabalhadores    – para produzir uma obra conjunta que depende de todos e de cada um; (iv) memória    colectiva da comunidade/companhia que atravessa frequentemente diversas gerações,    projectando-se para além dos percursos individuais. </p>     <p>Esta perspectiva do circo como veículo de inovação sócio-territorial vai ser    o fio condutor da apresentação do Chapitô. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>IV. O CHAPITÔ EM LISBOA </p>     <p>Sempre que se fala do Chapitô, vem-nos à memória a magnífica vista do estuário    do Tejo recortado pelas construções mais antigas da cidade. Um privilégio para    todos os que lá trabalham e para os que por lá passam. A localização na Costa    do Castelo, em Lisboa, tem esta mais valia que oferece aos seus públicos temporada    após temporada. O rio, o casario, a luz, ou as luzes da cidade são parte do    cenário das artes do espectáculo, com especial relevância para as artes circenses    que aqui se aprendem e mostram. Instalado neste bairro histórico, desde 1986,    o Chapitô afirmou aqui o seu papel de associação recreativa e cultural, que    também é ONG para o desenvolvimento, com estatuto de Instituição Particular    de Solidariedade Social (IPSS). O trabalho desenvolvido ao longo de mais de    duas décadas conquistou um lugar de referência na cidade pela reconhecida acção    na produção cultural e artística, bem como no campo da inclusão social. A reflexão    que aqui se apresenta é acompanhada de excertos de entrevistas realizadas a    colaboradores e antigos alunos do Chapitô<a style='mso-endnote-id:edn3' href="#_edn3" name="_ednref3" title="">[iii]</a>,    especialmente aqueles que deixaram de estar em situação de risco e construíram    até um percurso de sucesso. São sobretudo esses que nos ajudam a compreender    as artes do circo enquanto veículo de inovação social. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <table width="75%" border="1">   <tr>     <td>    <p align="center"><b>O ESSENCIAL DO CHAPITÔ </b></p>           <p align="center"><b>Estatutos oficiais </b></p>           <p align="center">IPSS/ Instituição Particular de Solidariedade Social,          ONG’D/ Organização Não Governamental para o Desenvolvimento, “Utilidade          Pública”, “Manifesto Interesse Cultural”. </p>           <p align="center"><b>Área Social </b></p>           <p align="center">Animação sócio-formativa<b>: </b>Centros Educativos da          Bela Vista e Navarro de Paiva, trabalho com jovens até aos 18 anos (protocolo          assinado com o Instituto de Reinserção Social em 1987). Casa do Castelo:          Lar de transição, apoio psicossocial a jovens com mais de 18 anos que          enfrentam dificuldades no início do seu projecto de vida (capacidade para          6 jovens). Centro de Acolhimento João dos Santos: Espaço educativo e lazer          para crianças até aos 12 anos acolhe filhos de pessoas do bairro, de colaboradores          e de jovens artistas. </p>           <p align="center"><b>Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espectáculo          (EPAOE) </b></p>           <p align="center">Funciona desde 1991 – Recebe alunos com o 9º ano em 2          cursos de nível 3 (equivalente ao 12º ano), ultrapassou os 300 diplomados          em 2006. Para amadores, em horário pós-laboral, existem Cursos de Fim          de Tarde, orientados por profissionais da casa: capoeira, malabarismo,          sapateado, caracterização, expressão dramática, técnicas circenses e ateliers          para crianças. </p>           <p align="center"><b>Companhia do Chapitô </b></p>           <p align="center">Criada em 1996, define-se como teatro do gesto/teatro          físico. A companhia possui no seu repertório mais de duas dezenas de criações          originais onde se incluem espectáculos para a infância. A actividade da          companhia é uma das faces de maior visibilidade da instituição e a sua          política de itinerância tem divulgado os seus espectáculos nacional e          internacionalmente. </p> </td>   </tr> </table>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>As múltiplas actividades do Chapitô (<a href="http://www.chapito.org" target="_blank">www.chapito.org</a>    acedido em 11 de Julho de 2008) surgem invariavelmente associadas a uma liderança    forte, uma personalidade que inspira admiração, uma figura impulsionadora. Falamos    de Teresa Ricou que, no início dos anos 80, ainda a partir da sua casa do Bairro    Alto, criou a Colectividade Recreativa e Cultural de Santa Catarina que entretanto    expandiu e consolidou no espaço da Costa do Castelo. A sua liderança, que leva    mais de 20 anos, continua hoje a marcar a intervenção social e cultural do Chapitô    na cidade, sendo indissociável do seu reconhecimento público. </p>     <p>A partir da sua formação e experiência em França, Teresa Ricou desenvolveu    uma carreira de artista de circo, tornando-se conhecida como Teté, a primeira    mulher-palhaço portuguesa. Ainda no Bairro Alto, nos anos 70, começou um trabalho    com crianças de rua que aliava a componente artística e social, e possibilitou    colaborações designadamente com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e o Ministério    da Justiça. A perspectiva de fazer das artes do circo uma forma de inclusão,    inaugurou em Portugal uma nova abordagem do problema da exclusão e marginalização    de crianças e de jovens. No âmbito da reinserção social de adolescentes, as    propostas de actividades são geralmente mais convencionais podendo incluir desde    a serralharia à panificação. Daí que não tenha sido tarefa fácil convencer os    serviços responsáveis do Ministério da Justiça acerca do potencial formativo    das artes circenses. O perfil de liderança e o extenso capital social de Teresa    Ricou foram decisivos e os resultados não se fizeram esperar. </p>      <blockquote>     <p>“Desde criança que fazia rir os outros, aqui tornei-me <i>clown.</i>” (Miguel)    </p>       <p>“Na escola primária, ralhavam-me porque fazia coisas perigosas, agora sou      professor de acrobacia.” (Pedro) </p> </blockquote>     <p>A determinação e as experiências desenvolvidas abriram portas ao posterior    reconhecimento pelas entidades públicas com tutela na área da protecção de menores.    O protocolo com os serviços tutelares de menores (Ministério da Justiça), estabelecido    em 1986, possibilitou a concessão do edifício da Costa Castelo, antigas instalações    de uma tutoria de mulheres, e a sua posterior recuperação e adaptação progressiva    a um programa de actividades sempre renovado. O combate à exclusão social através    da cultura e das artes, objectivo primordial do Chapitô, ganhou com este espaço    uma dinâmica que naturalmente escapa ao observador diletante. A ideia segundo    a qual é possível ter uma vida digna sendo artista de circo e que se pode caminhar    nessa aprendizagem com entusiasmo e ganhos de auto-estima fez o seu caminho    dentro e fora do Chapitô. </p>     <p>A acção social do Chapitô está presente em dois centros educativos (Direcção    Geral de Reinserção Social) na cidade de Lisboa – Bela Vista (Bairro da Graça)    e Navarro de Paiva (em S. Domingos de Benfica) – que acolhem crianças e jovens    do sexo masculino a cumprir medidas de internamento. A acção nos centros educativos    concentra-se na animação de <i>ateliers </i>de frequência facultativa, possibilitando    diversas actividades: circo, capoeira, música, “faz-tudo”, jogos, histórias,    teatro, horta e outras. A partir dos <i>ateliers </i>organizam-se actividades    lúdicas e artísticas que apelam à expressão individual e colectiva. Encorajar    aprendizagens dando prioridade à comunicação é o lema das equipas de animadores    que dispõem de uma coordenação e de uma retaguarda de reflexão e formação. As    apresentações públicas dão sentido e visibilidade ao trabalho desenvolvido e    podem ocorrer nos próprios centros, no espaço do Chapitô ou noutros locais.    A experiência de 26 anos na acção social e no contacto com as instituições de    reinserção social sempre exigiu elevada perseverança. Esta atitude tem sido    indispensável face às sucessivas alterações de enquadramento legal e à constante    adaptação aos condicionalismos que envolvem crianças e jovens em risco. Trata-se    de afirmar um projecto assente na capacidade de incluir crianças e jovens frequentemente    envolvidos em trajectos sem projecto, com enorme probabilidade de conduzirem    à marginalidade. </p>     <blockquote>       <p>“Para mim existem vários chapitôs. Existe a escola EPAOE a qual chamamos      todos Chapitô mas também existe o “Coas” (acção social) que também está ligado      ao Chapitô e para mim a localização geográfica do Chapitô “escola” não tem      muita importância, talvez seja mesmo uma menos valia pois por vezes desconcentra      os alunos que pensam estar sempre de férias, mas a nível do “Côas” talvez      tenha mais importância pois muitos dos miúdos que fazem parte desse projecto      saem de bairros dali próximos.” (Rui) </p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ainda no campo da inclusão, existe também a “Casa do Castelo” que acolhe jovens    com mais de 18 anos que enfrentam dificuldades e precisam de apoio e alojamento.    Outros jovens em risco que precisam de ajuda no seu processo de autonomização    também podem encontrar apoio psicossocial pontual, dispondo de uma equipa de    apoio ao desenvolvimento de um projecto de vida pessoal. Funciona igualmente    no edifício o “Centro de Acolhimento João dos Santos” para crianças dos 8 meses    aos 12 anos, residentes no bairro ou filhos de funcionários. A equipa educativa    deste centro, que recebeu o nome de um dos maiores psico-pedagogos portugueses    do século XX, tem como linha orientadora o trabalho comunitário, ou seja, a    ponte entre o Chapitô e a comunidade local. </p>     <p>Em 1990, aproveitando a promulgação pelo Ministério da Educação do diploma    que criou o ensino e as escolas profissionais, o Chapitô fundou a Escola Profissional    de Artes e Ofícios do Espectáculo (EPAOE). A escola recebe alunos com o 9º ano    (ensino básico) e oferece cursos secundários, que conferem equivalência ao 12º    ano. Com a entrada de 25 alunos (aproximadamente) em cada curso, estão em funcionamento:    o curso de Interpretação e Animação Circenses (IAC) e o curso de Cenografia,    Figurinos e Adereços (CenFA). À semelhança do que se passa com muitas outras    escolas profissionais, uma grande parte dos alunos teve percursos escolares    problemáticos no ensino básico. Embora nos anos mais recentes a situação tenda    a mudar, o ensino secundário profissional não surge, na maioria dos casos, como    uma opção, mas como solução de recurso. </p>     <blockquote>        <p>“Abandonei a escola várias vezes para trabalhar nas obras com o meu pai por      exemplo e noutros trabalhos como montador de aparelhos de ar condicionado.      Tive épocas em que trabalhava e estudava, fiz até ao 10º ano, mas não estava      a dar... A escola onde estava organizou uma visita aqui ao Chapitô e disseram-me      que eu tentasse fazer as provas de acesso para vir para aqui. No início, resisti.      Basicamente porque aqui não conhecia ninguém, era escurinho e não tinha aqui      os amigos (…). Mas, a adaptação foi rápida. Isto é uma escola mas é sobretudo      uma casa… falamos abertamente dos nossos problemas…” (Dinis) </p>       <p>“Foi a melhor coisa que me aconteceu na vida (ir para o Chapitô)… aquelas      pessoas são especiais… eu dei-me de corpo e alma! Agora o meu objectivo é      estudar para os exames nacionais e entrar na Faculdade de Letras. (Artes do      Espectáculo)” (Miguel) </p>       <p>“Graças ao Chapitô passei a ser um aluno interessado… comecei a existir como      pessoa… com o meu trabalho fui adquirindo o respeito e por vezes a admiração      dos outros.” (Rui) </p> </blockquote>     <p>Os depoimentos dos alunos que passaram pela escola do Chapitô são elucidativos    da comunidade de afectos que atravessam o ambiente e as experiências que aí    se vivem. A actividade da escola envolve a colaboração com circos profissionais    e outras companhias ligadas às artes do palco, quer para acolher os estagiários,    quer para proporcionar aos alunos o contacto com o desenvolvimento de projectos    artísticos inovadores, designadamente no âmbito do ‘novo circo’. </p>     <blockquote>       <p>“Fiz estágio de <i>clown </i>na Escola de Circo Carampa em Madrid… É uma      escola que puxa muito por nós, sobretudo no malabarismo e no tecido. Mas o      <i>clown </i>é uma coisa que se aprende mais por nós… não é uma técnica é      um trabalho.” (Miguel) </p>       <p>“Trabalhei na companhia de dança Olga Roriz em Lisboa. Quem sai daqui geralmente      não vai para circos tradicionais. As oportunidades não são muitas. Ou se vai      para uma escola fora do país ou então faz animações que é também o que eu      faço.” (Luís) </p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>“Estou a trabalhar na Companhia de Teatro Artistas Unidos.” (Cátia) </p> </blockquote>     <p>Ainda na área de formação, o Chapitô oferece cursos de fim de tarde abertos    a todo o público: capoeira, malabarismo, sapateado, expressão dramática e outros.    A oferta completa-se com <i>workshops </i>específicos para as várias faixas    etárias e <i>ateliers </i>para crianças. A formação de novos públicos merece    atenção especial através da criação de espectáculos para crianças nas tardes    de sábado e domingo. Esta diversidade de actividades parece ajudar a multiplicar    as oportunidades de trabalho e naturalmente a enriquecer a oferta cultural.  </p>     <p>A sustentabilidade financeira do Chapitô reside em grande medida na companhia    de teatro-circo e na animação. A companhia do Chapitô foi criada em 1996 e define-se    como teatro do gesto/teatro físico<a style='mso-endnote-id:edn4' href="#_edn4" name="_ednref4" title="">[iv]</a>. No    seu repertório conta com 25 criações originais que apresentou não apenas em    Portugal, como em muitos países dentro e fora da Europa, sobretudo através da    participação em festivais. As produções Chapitô fazem também animações e espectáculos    nos mais diversos lugares, desde empresas e espaços públicos a festas particulares.    Encontra-se aqui uma das principais fontes de financiamento das acções na área    social para além dos apoios das entidades oficiais. </p>     <p>Dada a ausência em Portugal de formação superior nas artes do circo, alguns    alunos têm prosseguido a sua formação noutros países, especializando-se nas    mais diversas disciplinas. Um exemplo de um percurso bem sucedido é o de João    Paulo Santos. Depois de se especializar em França no “mastro chinês” desenvolveu    uma carreira de criação de espectáculos de novo circo, que têm sido apresentados    em palcos estrangeiros e portugueses com enorme sucesso. </p>     <blockquote>       <p>“O meu trajecto formativo no Chapitô foi muito interessante pois mudou o      rumo da minha vida, foi graças ao Chapitô que, pouco a pouco, percebi que      através do trabalho se conseguia algo, de repente passei a ser um aluno aplicado      e com vontade de perceber tudo. A nível relacional também foi muito importante      pois foi ali que comecei a existir como pessoa dentro da sociedade, foi através      do meu trabalho que também fui adquirindo o respeito e por vezes a admiração      dos outros, tudo isto foi fazendo de mim alguém com vontade e capacidade de      acreditar nos seus sonhos, o que era impossível alguns anos atrás.” (João      Paulo Santos) </p> </blockquote>     <p>No entanto, depois de concluído o curso, os percursos são muito diversos: desde    a especialização fora do país ou nas escolas nacionais (os Conservatórios),    ao trabalho na televisão, no cinema e em companhias de teatro e dança. Nos bastidores,    nos palcos ou nos ecrãs muitos dos alunos formados no Chapitô têm vindo a encontrar    lugar no mundo do espectáculo, mesmo se essa ligação é ocasional através, por    exemplo, da participação na animação de eventos. Nas artes circenses, apesar    de se registar o aparecimento de alguns grupos e parelhas, a produção é escassa    e a formação requer maior qualificação. </p>     <p>Importa contudo salientar que, sendo uma instituição local, o Chapitô tem construído    uma rede de relações nacionais e internacionais significativa, que possibilitam,    de alguma forma, a ligação multi-escalar. </p>     <p>&nbsp;</p> <table width="75%" border="1">   <tr>     <td>    <p><b>REDE DE PARCERIAS DO CHAPITÔ </b></p>           ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>           <p><b>Parcerias Nacionais </b></p>           <p>&#9679&nbsp;          Ministério da Educação </p>           <p>&#9679&nbsp;          Ministério da Cultura (Instituto das Artes) </p>           <p>&#9679&nbsp;          Ministério da Justiça (Direcção Geral de Reinserção Social) </p>           <p>&#9679&nbsp;          Ministério do Trabalho e da Solidariedade (Centro Regional de Segurança          Social) </p>           <p>&#9679&nbsp;          Secretaria de Estado da Juventude (Instituto Português da Juventude) </p>           <p>&#9679&nbsp;          ANESPO – Associação Nacional das Escolas Profissionais </p>           <p>&#9679&nbsp;          Associação Castelo Colina Cultural </p>           <p>&#9679&nbsp;          CEJ – Centro de Estudos Judiciários </p>           ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&#9679&nbsp;          EGEAC – Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural </p>           <p>&#9679&nbsp;          ISPA – Instituto Superior de Psicologia Aplicada </p>           <p>&#9679&nbsp;          ISSS-COOP – Instituto Superior de Serviço Social </p>           <p>&#9679&nbsp;          Moinho da Juventude </p>           <p>&#9679&nbsp;          Plataforma Nacional das ONGD </p>           <p>&#9679&nbsp;          Rede dos Centros Culturais Portugueses </p>           <p>&nbsp;</p>           <p><b>Parcerias Internacionais </b></p>           <p>&#9679&nbsp;          Associacion de Malabaristas de Madrid – Espanha </p>           <p>&#9679&nbsp;          Banlieux d’Europe </p>           ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&#9679&nbsp;          Centre National des Arts du Cirque – Chalons sur Marne, França </p>           <p>&#9679&nbsp;          Circustheater Ellebog – Amesterdão, Holanda </p>           <p>&#9679&nbsp;          Circus Space – Londres, Inglaterra </p>           <p>&#9679&nbsp;          Creative Corporation – Berlim, Alemanha </p>           <p>&#9679&nbsp;          EFECOT – European Federation for Education of the Children of the Occupacional          Travellers – Bruxelas, Bélgica </p>           <p>&#9679&nbsp;          FEDEC – Federation Européenne des Écoles de Cirque </p>           <p>&#9679&nbsp;          European Cultural Foundation </p>           <p>&#9679&nbsp;          Opgang 2 – Dinamarca </p>           <p>&#9679&nbsp;          Peuple et Culture – Montpellier, França </p>           <p>&#9679&nbsp;          Soros Center For The Arts – Sofia, Bulgária </p>           ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Fonte: Site do Chapitô – <a href="http://chapito.org" target="_blank">http://chapito.org</a>          (acedido em 13 de Fevereiro de 2009) </p></td>   </tr> </table>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>       <p>“Um dos aspectos mais importantes é o facto de o Chapitô ser a única escola      que ensina as artes circenses o que faz também com que o nível técnico seja      muito baixo devido à falta de concorrência. Em França, por exemplo, existem      mais de 300 escolas onde se pode aprender a fazer circo, mas, de facto, do      ponto de vista curricular é a única escola a fazê-lo (…) apesar de tudo, o      Chapitô é uma escola com algumas lacunas nomeadamente em termos de espaço.      A falta de grandes espaços priva os alunos de outras disciplinas circenses      indispensáveis, como, por exemplo, a cama elástica.” (Rui) </p>       <p>“Já tive planos para ir para o Cirque du Soleil, mas acabei por desistir.      Nós aqui temos uma preparação boa porque também é psicológica, mas ao nível      das técnicas estamos longe do que se faz lá fora. Já fiz provas para uma escola      de circo em Londres mas depois não consegui financiamento nem bolsa e tive      de desistir. Estão lá cinco pessoas da minha turma, mas que foram com recursos      da família. Foi também isso que me fez mudar de planos e ir mais para o teatro...”      (Miguel) </p> </blockquote>     <p>A presença do Chapitô na cidade, através das suas actividades e da dinâmica    de participação nas suas redes culturais, é um dado adquirido e reconhecido.    Contudo, parece ainda faltar no âmbito das artes do circo e em particular do    novo circo, uma valência que possa vir a especializar e aprofundar a formação    e a divulgação. Nesse sentido, o futuro pode passar pelo “Chapitô-rio”, projecto    que parece ganhar forma nas docas de Santos. Este projecto vem sendo acalentado    há anos mas tarda em concretizar-se. Seria um equipamento cultural do maior    interesse para Lisboa, possibilitando o desenvolvimento de uma arte que tem    vindo a afirmar-se com grande êxito em muitas cidades pelo mundo fora. Pode    também residir aí uma ocasião da cidade participar, através do novo circo, em    redes culturais mais amplas, dando maior espaço e visibilidade à criação artística    nacional e colocando Lisboa no mapa global das artes do circo contemporâneas.    Terá chegado o tempo de um Chapitô para o século XXI? </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>V. REFLEXÕES FINAIS </p>     <p>A análise do Chapitô e das suas potencialidades para participar numa cidade    criativa e inclusiva pode inspirar futuras pesquisas. Salientamos dois aspectos    que nos parecem particularmente interessantes. </p>     <p>O primeiro relaciona-se com a importância da líder carismática. Como em muitas    outras instituições, e particularmente naquelas que surgem como casos de referência,    o papel individual sobrepõe-se ao protagonismo colectivo. A capacidade de liderança,    ou seja, a associação de visão (no sentido visionário), capital social, autoridade,    entusiasmo e determinação emerge como uma condição crucial para o desenvolvimento    das iniciativas mais inovadoras, transforma projectos em utopias realizáveis.    Mas este talento tem também um reverso. São raras as vezes em que os líderes    carismáticos passam o testemunho a outros, assegurando a sustentabilidade das    acções para além da sua presença. Normalmente, em determinado momento do percurso    das instituições mais inovadoras, surge o impasse: sem o líder não haveria passado    e com a permanência do líder o futuro pode estar comprometido. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O segundo liga-se à escala de acção. Instituições como o Chapitô destacam-se    ao nível local como motores importantes de inovação e de inspiração. Esta escala    é uma condição para o sucesso, ou é possível desenvolver iniciativas análogas    ao nível regional ou mesmo nacional? As “vozes” que surgiram neste artigo mostram    como as relações de proximidade são determinantes para aliar criatividade e    inclusão social. Ainda assim, julgamos que a questão das escalas é pertinente,    especialmente numa óptica multi-escalar. A ligação do bairro ao resto do mundo    é actualmente possível, fácil e potencialmente inclusiva. Por outro lado, as    fronteiras, o isolamento e a autarcia são factores de inércia e barreiras à    inovação. No caso do Chapitô, a escola profissional, sobretudo através dos estágios,    as digressões da companhia e a vinda de professores e artistas convidados estabelecem    uma ligação directa, embora nem sempre muito intensa, do local, do Bairro do    Castelo à Área Metropolitana de Lisboa (onde reside a maioria dos alunos) ao    País e ao Mundo. </p>     <p>Numa leitura mais ampla, consideramos que as artes circenses denotam uma capacidade    assinalável para impulsionarem a inovação sócio-territorial. </p>     <p>Por um lado, através da (re)valorização do espaço público urbano. Por ser uma    arte que nasceu e cresceu na rua, o circo lida bem com os espaços colectivos    (como refere João dos Santos na frase que dá início a este artigo), conferindo-lhes    brilho e alegria. Por outro lado, a expressão artística circense mostra-se especialmente    adequada enquanto veículo de inclusão social. Promove a auto-estima através    do reconhecimento público imediato (à semelhança das outras artes do palco).    Acolhe todos aqueles que participam na produção numa comunidade de afectos,    de cooperação e de inter-ajuda. Oferece uma grande diversidade de oportunidades    de expressão artística, favorecendo as várias formas de comunicação e especialmente    a corporal. </p>     <p>Podemos assim considerar que o circo pode ser um elemento central da cidade    socialmente criativa. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>BIBLIOGRAFIA </p>     <!-- ref --><p>André I, Abreu A (2006) Dimensões e espaços da inovação social. <i>Finisterra    – Revista Portuguesa de Geografia</i>, XLI(81): 121-141. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000149&pid=S0430-5027200900020000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>André I, Abreu A (no prelo) Social creativity and post-rural places: the case    of Montemor-o-Novo, Portugal. <i>Canadian Journal of Regional Science/Revue    Canadienne des Sciences Régionales, </i>special issue on <i>Social Innovation    and Territorial Development. </i></p>     <p>André I, Brito Henriques E, Malheiros J (no prelo) Inclusive places, arts and    socially creative milieux. <i>In </i>MacCallum D, Moulaert F, Hillier J, Vicari    S (eds.) <i>Social Innovation and Territorial </i><i>Development</i>. Ashgate,    London. </p>     <p>Aydalot P (1986) <i>Milieux innovateurs en Europe. </i>GREMI, Paris. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Beaunoyer J (2005) <i>Dans les coulisses du Cirque du Soleil</i>. Québec Amérique,    Montreal. </p>     <!-- ref --><p>Cachinho H (2006) Consumactor: da condição do indivíduo na cidade pós-moderna.    <i>Finisterra – Revista Portuguesa de Geografia</i>, XLI(81): 33-56. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000154&pid=S0430-5027200900020000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Camus J-Y (2004) <i>Le cirque, la quadrature du cercle. </i>Mémoire de DESS    Développement culturel et direction de projet, Université Lyon 2, Lyon. </p>     <p>Comeau Y (2004) Les contributions des sociologies de l’innovation à l’étude    du changement social. <i>Innovations Sociales et Transformations des Conditions    de Vie. Actes du Colloque </i>– 16 Avril 2004, Cahiers du CRISES, Collection    Études théoriques, ET0418: 29-44. </p>     <p>En Piste – Regroupement National des Arts du Cirque (2005) Le fabuleux destin    des arts du cirque à Montréal. <i>Projet de Politique de Développement Culturel    de la Ville de Montréal</i>, Mémoire présenté à L’Office de consultation publique    de Montréal le 14 février, Montreal. </p>     <p>Florida R (2008) <i>Who’s your city?: How the creative economy is making where    to live the most important decision of your life</i>. Basic Books, New York.  </p>     <p>Florida R (2002) <i>The rise of the creative class: And how it’s transforming    work, leisure, and everyday life. </i>Basic Books, New York. </p>     <p>Gertler M (2004) <i>Creative cities: what are they for, how do they work, and    how do we build them? </i>Canadian Policy Research Networks, Ottawa. </p>     <p>Hall P (2000) Creative cities and economic development. <i>Urban Studies</i>,    37(4): 639–649. </p>     <p>Jacob P (2002) <i>Le cirque, du theatre équestre aux arts de la piste</i>.    Larousse, Paris. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Klein J-L, Harrison D (eds.) (2007) <i>L’innovation sociale – emergence et    effets sur la transformation des sociétés</i>. Presses de l’Université du Québec,    Montreal. </p>     <p>Landry C (2000) <i>The creative City: a toolkit for urban innovators</i>. Earthscan,    London. </p>     <p>Ley D (2003) Artists, aestheticisation and the field of gentrification. <i>Urban    Studies</i>, 40(12): 2527-2544. </p>     <p>Martinelli F, Moulaert F, Swyngedouw E, Ailenei O (2003) <i>Social innovation,    governance and community building – Singocom – Scientific Periodic Progress    Report Month 18</i>, edição electrónica <a href="http://users.skynet.be/bk368453/singocom/index2.html" target="_blank">http://users.skynet.be/bk368453/singocom/index2.html</a>    [Acedido em 10 de Setembro de 2006] </p>     <p>Moulaert F, Demuynck H, Nussbaumer J (2004) Urban renaissance: from physical    beautification to social empowerment. Lessons from Bruges – Cultural Capital    of Europe 2002. <i>City</i>, 8(2): 229-235. </p>     <p>Ruby C (2003) Quels lieux de rencontre démocratiques? Des lieux de rencontre    au lieu de la rencontre. <i>EspacesTemps.net</i>, Textuel, 05.06.2003, edição    electrónica. <a href="http://espacestemps.net/document433.htm" target="_blank">http://espacestemps.net/document433.htm</a>    [Acedido em 9 de Junho de 2007] </p>     <p>Ruby C (2002) L’art public dans la ville. <i>EspacesTemps.net</i>, Actuel,    01.05.2002, edição electrónica <a href="http://espacestemps.net/document282.html" target="_blank">http://espacestemps.net/document282.html</a>    [Acedido em 9 de Junho de 2007] </p>     <p>Santos J (1981) <i>O circo e o pensar, ensaios sobre a educação II</i>, Livros    Horizonte, Lisboa. </p>     <p>Scott A (2006) Creative cities: conceptual issues and policy questions. <i>Journal    of Urban Affairs</i>, 28(1): 1-17. </p>     <p>Smiers J (2005) <i>Arts under pressure: promoting cultural diversity in the    age of globalization. </i>Zed Books, London. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>TOHU (2008) <i>Circus * Earth * People – A sustainable development initiative    in the heart of the Saint-Michel Neighbourhood. </i>TOHU, La Cité des Arts du    Cirque, Montreal. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>NOTAS</p>     <p><a style='mso-endnote-id:edn2' href="#_ednref2" name="_edn2" title="">[ii]</a> Um    dos primeiros espectáculos do Cirque du Soleil chamou-se precisamente “Cirque    Réinvinté”. </p>     <p><a style='mso-endnote-id:edn3' href="#_ednref3" name="_edn3" title="">[iii]</a> Estas    vozes que vão surgindo ao longo do texto são identificadas com nomes fictícios.    Não pretendemos dar conta das várias opiniões pessoais, mas utilizar os discursos    para ilustrar a reflexão que efectuámos sobre o Chapitô. </p>     <p><a style='mso-endnote-id:edn4' href="#_ednref4" name="_edn4" title="">[iv]</a> À    semelhança, por exemplo, do <i>Cirque du Soleil </i>ou do grupo catalão <i>La    Fura dels Baus.</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Recebido: 18/12/2008. Revisto: 14/02/2009. Aceite: 20/02/2009.</p>      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[André]]></surname>
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<surname><![CDATA[Abreu]]></surname>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Dimensões e espaços da inovação social]]></article-title>
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<surname><![CDATA[Cachinho]]></surname>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Consumactor: da condição do indivíduo na cidade pós-moderna]]></article-title>
<source><![CDATA[Finisterra - Revista Portuguesa de Geografia]]></source>
<year>2006</year>
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<page-range>33-56</page-range></nlm-citation>
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