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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Redes globais e dinâmicas regionais. Explorando o desenvolvimento das tecnologias bi-combustível em São Paulo]]></article-title>
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<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[Reseaux mondiaux et dynamiques regionales: developpement des techniques liees aux doubles-combustibles, a São Paulo (Bresil)]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Recent work within economic geography has been focusing on the reconciliation of the concept of localized learning with the evidence that long-distance knowledge networks are increasingly relevant for the innovation efforts of firms. However, less attention has been paid to the dynamic effects that may spur from plugging into global knowledge networks. Taking an evolutionary perspective, this article proposes a conceptualization of these issues at the levels of the firm, of regional networks and of institutional co-evolution. It illustrates the proposed theoretical framework with the case of the new bi-fuel technological developments in São Paulo, Brazil.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="fr"><p><![CDATA[De nombreuses recherches récentes en Géographie économique tentent de concilier la notion d’apprentissage dans un cadre territorial déterminé, avec le fait que les efforts d’innovation sont de plus en plus basés sur des réseaux à l’échelle mondiale. Mais les effets dynamiques qui résultent de l’insertion des entreprises d’une région donnée dans les réseaux mondiaux de connaissance et d’innovation, ont encore été insuffisamment étudiés. On tente ici de conceptualiser ces effets, tant au niveau des entreprises qu’à celui des réseaux régionaux d’innovation, dans une perspective évolutive. L’exemple choisi concerne le développement récent des technologies permettant l’utilisation des doubles combustibles (éthanol/essence), dans la région de São Paulo (Brésil).]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Redes globais e dinâmicas regionais. Explorando o desenvolvimento das tecnologias    bi-combustível em São Paulo</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Luís Carvalho<b>[i]</b></b></p>     <p>[i] EURICUR – European Institute for Comparative Urban Research Erasmus University    Rotterdam. E-mail: <a href="mailto:decarvalho@ese.eur.nl">decarvalho@ese.eur.nl</a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO – </b>Uma importante parte do trabalho recente da geografia económica    tem sido dedicado a conciliar noções de “aprendizagem territorializada” com    a evidência de que muitos dos esforços de criação de conhecimento e inovação    de actores locais se processam cada vez mais através de redes globais. Todavia,    tem sido dada menor atenção aos efeitos dinâmicos que resultam da participação    de actores localizados, nomeadamente empresas, em redes globais de conhecimento    e inovação. Numa perspectiva evolucionista, este artigo propõe uma conceptualização    desses efeitos ao nível da empresa, das redes regionais de inovação e co-evolução    institucional associada. Esta conceptualização é ilustrada com o caso do desenvolvimento    do <i>portfólio </i>de tecnologias bi-combustível em São Paulo, Brasil. </p>     <p><b><i>Palavras-chave: </i></b>Redes globais, dinâmicas de conhecimento regionais,    geografia económica evolucionista, bio-combustíveis, Brasil. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Global networks and regional dynamics: exploring the development of bi-fuel    technologies in São Paulo</b></p>     <p><b>ABSTRACT </b>– Recent work within economic geography has been focusing on    the reconciliation of the concept of localized learning with the evidence that    long-distance knowledge networks are increasingly relevant for the innovation    efforts of firms. However, less attention has been paid to the dynamic effects    that may spur from plugging into global knowledge networks. Taking an evolutionary    perspective, this article proposes a conceptualization of these issues at the    levels of the firm, of regional networks and of institutional co-evolution.    It illustrates the proposed theoretical framework with the case of the new <i>bi-fuel    </i>technological developments in São Paulo, Brazil. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><i>Key words: </i></b>Global networks, regional knowledge dynamics, evolutionary    economic geography, bio fuels, <i>bi-fuel vehicles</i>, Brazil. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Reseaux mondiaux et dynamiques regionales: developpement des techniques    liees aux doubles-combustibles, a São Paulo (Bresil)</b></p>     <p><b>RESUME </b>– De nombreuses recherches récentes en Géographie économique    tentent de concilier la notion d’apprentissage dans un cadre territorial déterminé,    avec le fait que les efforts d’innovation sont de plus en plus basés sur des    réseaux à l’échelle mondiale. Mais les effets dynamiques qui résultent de l’insertion    des entreprises d’une région donnée dans les réseaux mondiaux de connaissance    et d’innovation, ont encore été insuffisamment étudiés. On tente ici de conceptualiser    ces effets, tant au niveau des entreprises qu’à celui des réseaux régionaux    d’innovation, dans une perspective évolutive. L’exemple choisi concerne le développement    récent des technologies permettant l’utilisation des doubles combustibles (éthanol/essence),    dans la région de São Paulo (Brésil). </p>     <p><b><i>Mots-clés: </i></b>Réseaux mondiaux, dynamiques régionales de connaissance,    géographie économique évolutive, doubles combustibles, Brésil. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>I. INTRODUÇÃO </p>     <p>Ao longo das duas últimas décadas, uma importante parte do trabalho em geografia    económica e estudos regionais tem estudado as relações entre concentração espacial    da actividade económica, inovação e desenvolvimento regional. Ao longo deste    trajecto, conceitos como <i>clusters </i>(Porter, 1990), meios inovadores (Camagni,    1991; Maillat, 1995), regiões “aprendentes” (Asheim, 1996; Morgan, 1997) e,    mais recentemente, sistemas regionais de inovação (Cooke, 1992, 2001; Asheim    e Isaksen, 2002; Asheim e Gertler, 2005) têm tido bastante influência e encontram-se    reflectidos nas agendas políticas e estratégias de desenvolvimento de muitas    regiões. </p>     <p>Todos estes conceitos, de forma mais ou menos explícita, reconhecem a “região”    (administrativa ou não) enquanto unidade territorial relevante, ao nível da    qual se processam dinâmicas de interacção entre diferentes actores, facilitando    decisivamente processos de criação de conhecimento, aprendizagem e inovação.    A co-localização de empresas e outros actores (universidades, associações empresariais,    centros tecnológicos e de I&amp;D, etc) é essencial para a geração espontânea    de externalidades de conhecimento e de informação, conhecidas na literatura    por <i>buzz </i>(Storper e Venables, 2004). Esta co-localização é também essencial    para a coordenação das exigentes interacções inter organizacionais relacionadas    com conhecimento e inovação, na medida em que facilita um entendimento conjunto,    por via da presença de uma matriz institucional, social e cultural comum (Maskell    e Malmberg, 1999). Em contexto de intensificação da globalização, este corpo    de literatura tem decisivamente ajudado a perceber a resiliência da concentração    espacial de actividades intensivas em conhecimento e inovação. </p>     <p>Ao mesmo tempo, diversos estudos no campo das ciências organizacionais e das    cadeias de valor globais (Gereffi, <i>et al., </i>2005; Berger, 2006) têm evidenciado    esforços de inovação que ocorrem em redes de inovação de carácter transnacional.    Conceitos como “inovação aberta” (Chesbrough, 2003) ou estratégias de inovação    “meta-nacionais” (Doz <i>et al.</i>, 2001) reflectem o reconhecimento de que    muitos dos esforços de aquisição de conhecimento e inovação de empresas localizadas    se processam cada vez mais por via de interacções deliberadas com outros actores    localizados fora da “região” ou <i>milieu </i>inovador original. A crescente    literatura em torno das “comunidades globais de conhecimento”, quer epistemológica,    quer de “prática”, reflecte uma realidade similar (Amin e Cohendet, 2004). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Neste contexto, muito do trabalho recente da geografia económica tem sido feito    no sentido de integrar na literatura este nexo global-local das dinâmicas de    interacção na produção de conhecimento e inovação (Coe e Bunnell, 2003; Asheim    e Coenen, 2005). Ao conciliar as vantagens da aprendizagem localizada com a    relevância do acesso a redes globais de conhecimento e inovação, é influente    a concetualização de Bathelt <i>et al., </i>(2004), que introduz a noção de    “<i>pipelines</i>” – canais através dos quais actores geograficamente localizados    acedem deliberadamente a conhecimento global – e <i>buzz </i>– referente a externalidades    de conhecimento e informação resultantes da interacção co-localizada entre actores.    Esta capacidade de combinar o “melhor de dois mundos” é apresentada na literatura    como motor essencial de diferenciação competitiva das regiões em contexto de    globalização: <i>…high levels of buzz and many pipelines may provide firms located    in outward looking and lively clusters with a string of particular advantages    not available to outsiders </i>(Bathelt <i>et al.</i>, 2004, p. 31). </p>     <p>Apesar de inspirador, uma das limitações que pode ser apontada a este corpo    da literatura passa pela reduzida consideração dos efeitos dinâmicos resultantes    da inserção de empresas (e a nível agregado, de <i>clusters </i>ou de regiões)    em redes globais de conhecimento e inovação. Ao aceder a novas fontes de conhecimento,    uma empresa pode ver alteradas, por exemplo, as suas rotinas instaladas de inovação    empresarial e, de forma dinâmica, a natureza das suas competências tecnológicas    e de conhecimento (Zollo e Winter, 2002). Em resultado, a alteração dinâmica    da base de competências empresariais poderá ter efeitos na estrutura de diferentes    redes inter-organizacionais localizadas, para além da geração de processos de    co-evolução e adaptação institucional (Boschma, 2004). Este debate assume especial    relevância quando as políticas públicas de inovação e competitividade a nível    regional procuram cada vez mais complementar a criação de diversas plataformas,    pólos e <i>clusters </i>com a inserção dos seus actores em redes globais (incentivos    à internacionalização, estratégias de cooperação, atracção de investimento estrangeiro    intensivo em conhecimento, etc.). </p>     <p>Este artigo, posicionando-se no quadro de uma abordagem evolucionista da geografia    económica (Boschma e Frenken, 2006), pretende contribuir para este debate por    duas vias. Por um lado, combinando desenvolvimentos recentes da geografia económica    e estudos organizacionais, apresenta-se uma conceptualização dos efeitos dinâmicos    resultantes da inserção em redes globais de conhecimento e inovação ao nível    i) da empresa, nomeadamente pela especialização da base de conhecimento, ii)    da rede de interacções regionais, por exemplo pela busca de parceiros para complementar    a nova base de conhecimento e iii) da co-evolução institucional associada. Num    segundo momento, o artigo ilustra esta conceptualização com o estudo do processo    de desenvolvimento de um <i>portfólio </i>de novas tecnologias para o sector    automóvel em São Paulo, associado aos sistemas bi-combustível<i>, </i>que permitem    que um veículo automóvel se desloque a gasolina, etanol ou combinações dos dois.    Trata-se de um processo marcado pela inserção dos seus principais actores e    inventores em redes globais de inovação, com consequências ao nível da sua especialização    empresarial e da emergência de novas dinâmicas de inovação regionais em torno    de um <i>portfolio </i>de novas tecnologias “verdes” (Burtis <i>et al.</i>,    2004). </p>     <p>O artigo está organizado da seguinte forma. A secção II revê o papel das interacções    distantes nos processos de inovação localizada e os processos de evolução de    <i>clusters </i>ao longo do tempo. A secção III apresenta um enquadramento dos    efeitos dinâmicos associados à inserção de actores regionais em redes externas    de inovação e conhecimento. A secção IV ilustra a conceptualização anterior    com o processo de desenvolvimento de tecnologias bi-combustível em São Paulo,    focando a análise nas redes globais de conhecimento envolvidas e na evolução    regional associada. A secção V discute questões em aberto e implicações de política,    nomeadamente regional. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>II. REVISITANDO A INOVAÇÃO LOCALIZADA: DINÂMICAS NO ESPAÇO E NO TEMPO </p>     <p>Durante a última década, um importante corpo da geografia económica tem-se    dedicado a estudar, por um lado, i) o papel de contactos e interacções externas    à região no desenvolvimento de processos de inovação localizada e, por outro,    ii) os processos de evolução dinâmica de <i>clusters </i>e especialização regional    ao longo do tempo. Sem pretender ser exaustiva, esta secção revê alguns dos    desenvolvimentos teóricos e empíricos mais relevantes, integrando-os de seguida    (secção III) num modelo de análise das dinâmicas regionais determinadas pela    integração dos seus actores em redes globais de conhecimento e inovação. </p>     <p><b>1. Contactos externos e inovação localizada </b></p>     <p>Uma das características centrais da literatura que aborda os processos de inovação    localizada, em <i>clusters </i>de actividades relacionadas (Porter, 1990, 2000;    Becatini, 1990; Maskell, 2001) é a alegada relevância dada à co-localização    espacial de empresas e de outras entidades (universidades, agências e associações    de suporte, etc.). De acordo com estas teorias, a proximidade geográfica<a style='mso-endnote-id:edn2' href="#_edn2" name="_ednref2" title="">[ii]</a>, ao reduzir significativamente custos de coordenação    e transacção generalizados entre parceiros (Williamson, 1987), facilita a transmissão    de conhecimento (tácito) e o desenvolvimento de esforços conjuntos de inovação    atendendo à componente de sociabilidade associada a muitas das actividades envolvidas    nos processos de inovação (Lundvall e Johnson, 1994). </p>     <p>Todavia, literatura recente em geografia económica, estudos regionais e organizacionais    tem assinalado que muitos dos contactos desenvolvidos por empresas e outras    organizações fora do seu “milieu” podem ser essenciais aos seus processos de    aquisição de conhecimento, aprendizagem e inovação (Asheim e Isaksen, 2002;    Amin e Cohendet, 2004; Asheim e Coenen, 2005; McKinnon <i>et al.</i>, 2002;    Vale e Caldeira, 2007; Wolfe e Gertler, 2004). Podem ser identificados pelo    menos dois ramos de investigação, relacionados, que salientam esta realidade:    em primeiro lugar, o trabalho em torno das cadeias de valor e redes de inovação    global (Gerefi <i>et al.</i>, 2005), salientando o papel de estratégias empresariais    transnacionais no desenvolvimento de relacionamentos inter e intra empresariais,    à escala global (Coe e Bunnell, 2003; Dicken <i>et al.</i>, 2001); em segundo    lugar, os estudos derivados das noções de comunidades de prática e epistémicas    (Wenger, 1998; Knorr Cetina, 1999) recentemente trabalhados na geografia económica    no estudo de formas temporárias de co-localização ao serviço da troca e produção    de conhecimento (Maskell <i>et al.</i>, 2006; Gertler, 2008). Este corpo de    literatura identifica e explica o funcionamento de diversas formas interactivas    de troca de conhecimento – por exemplo feiras, conferências, <i>clusters </i>temporários    para o desenvolvimento de novos produtos, etc. – que, apesar de requererem contacto    <i>cara-a-cara </i>e períodos de forte interacção, podem ser desenvolvidas com    um carácter temporário, numa estrutura que se dissolve posteriormente. Na indústria    automóvel, construção naval ou maquinaria especializada (Van Winden <i>et al.</i>,    2008) é hoje em dia muito frequente a existência de plataformas temporárias    para o desenvolvimento de um novo modelo ou de uma nova tecnologia, juntando    competências de fornecedores independentes ou de diferentes departamentos de    I&amp;D de um grupo transnacional (Gereffi, 2005; Birkinshaw e Hood, 1998).    Este nexo local-global é uma realidade em muitos outros sectores e domínios    de actividade, como nos mostram diversos casos, que vão desde a biotecnologia    (Moodysson, 2008) aos <i>media </i>e indústrias criativas (Bathelt, 2005; Bathelt    e Graf, 2008). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A recente conceptualização “local-global” em termos de <i>buzz </i>e <i>pipelines    </i>(Bathelt <i>et al.</i>, 2004) tenta reconciliar todo este novo corpo teórico    e empírico revendo os anteriores conceitos de inovação localizada (Malmberg    e Maskell, 2006), assinalando que o conhecimento, ainda que tácito, pode ser    transmitido globalmente e que os processos de aprendizagem e inovação não são    exclusivos de regiões inovadoras espacialmente delimitadas. Neste trabalho distingue-se    entre os processos de aprendizagem que derivam da co-localização, por via de    externalidades de conhecimento e informação – a que é chamado <i>buzz </i>(Storper    e Venables, 2004) – e o conhecimento obtido e processado através de contactos    externos e relações de actores locais com outros parceiros espalhados no globo,    identificado como <i>pipelines </i>(Owen-Smith e Powell, 2004). A interacção    virtuosa entre estas duas “fontes” de conhecimento, informação e colaboração    tenderia a dotar <i>clusters </i>e regiões do “melhor de dois mundos”, dando-lhes    vantagens distintivas que se reforçariam cumulativamente ao longo do tempo (Giuliani,    2005; Bathelt, 2007). </p>     <p><b>2. Evolução de <i>clusters </i>e regiões ao longo do tempo </b></p>     <p>Existe hoje em dia um campo na geografia económica que estuda os processos    de inovação regional numa perspectiva evolucionista<a style='mso-endnote-id:edn3' href="#_edn3" name="_ednref3" title="">[iii]</a>.    No geral, esta perspectiva foca-se na relação interactiva entre estrutura e    agência em diferentes contextos; o seu objectivo passa pela análise dos mecanismos    sob os quais a acção humana (por exemplo empresas e suas estratégias), estruturas    e instituições co-evoluem ao longo do tempo em diferentes contextos sócio-espaciais    (Boschma e Lambooy, 1999). </p>     <p>Neste quadro de análise, um pressuposto importante é o de que o contexto territorial    em que uma empresa opera exerce forte influência no seu comportamento – regiões    e <i>clusters </i>são considerados como entidades relevantes, que afectam o    comportamento das empresas e organizações que os constituem. Por um lado, empresas,    regiões e <i>clusters </i>acumularam conhecimento e competências específicas    e territorializadas (uma certa especialização, organização, competências e divisão    de trabalho entre actores). Por outro, em linha com abordagens institucionalistas    que estudam sistemas regionais de inovação (Cooke, 2001, Asheim e Gertler, 2005),    estas entidades acumularam um conjunto de ambientes institucionais – normas,    regulamentos, valores – e capital social (Saxenian, 1994; Morgan, 1997; Scott,    1998), que afectam decisivamente a intensidade e a natureza das relações na    região, bem como a sua capacidade de aprendizagem, de re-invenção e desenvolvimento    de novas actividades. </p>     <p>Na abordagem evolucionista a <i>performance </i>de um <i>cluster </i>ou região    depende das suas capacidades dinâmicas de transferir conhecimento e gerar aprendizagem.    Os mecanismos que suportam a coordenação dessas formas de interacção (mercados,    redes inter-organizacionais) encontram-se mais ou menos enraizados num determinado    ambiente institucional (Boschma, 2004). Estas atmosferas institucionais podem    conduzir a excelentes dinâmicas de inovação (por exemplo, quando normas partilhadas    e capital social entre os actores conduzem a atitudes de experimentação), mas    podem também dificultar processos de desenvolvimento e inovação (por exemplo,    quando baixos níveis de confiança ou bloqueios regulamentares impedem contactos    fluidos e relações de mercado). Neste contexto, o desenvolvimento de um <i>cluster    </i>ao longo do tempo é visto como o resultado da co-evolução dos seus activos    específicos de competências e do seu ambiente institucional. O desenvolvimento    de um <i>cluster </i>é assim irreversível e dependente da sua história: após    os acontecimentos (muitas vezes aleatórios) que determinam a sua nascença, cada    <i>cluster </i>segue uma determinada trajectória de desenvolvimento (Boschma,    2004; Maskell e Malmberg, 2007). </p>     <blockquote>       <p>“There exists a wide diversity of trajectories that differ with respect to      which key organisations are involved (large firms, small firms, universities,      public agencies), how knowledge is transmitted and diffused through the area      (through inter-firm co-operation or through other means), which institutions      affect the innovation process, and how institutions themselves are shaped,      modified and transformed.” (Boschma, 2004, p. 1008). </p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>III. REDES GLOBAIS E DINÂMICAS REGIONAIS: UMA LEITURA DINÂMICA </p>     <p>Cruzando e integrando elementos das referências anteriores, nesta secção apresenta-se    um modelo simplificado dos impactos dinâmicos resultantes da inserção dos actores    de uma região ou <i>cluster </i>em redes globais<a style='mso-endnote-id:edn4' href="#_edn4" name="_ednref4" title="">[iv]</a><sup>    </sup>de conhecimento e inovação. O modelo conceptualiza estes impactos ao nível    i) da especialização das empresas envolvidas, ii) da evolução das suas redes    regionais e iii) da co-evolução institucional associada (fig. 1). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="f1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><img src="/img/revistas/fin/n88/n88a08f1.jpg" width="530" height="342"></p>     
<p><a href="#topf1">Fig. 1</a> – Redes globais e impactos regionais: uma conceptualização    dinâmica.</p>     <p><i><a href="#topf1">Fig. 1</a> – Global networks and regional impacts: a dynamic    framework.</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>No modelo que se apresenta, redes globais de conhecimento e inovação (<i>pipelines</i>)    são conceptualizadas como canais pelos quais se busca, desenvolve ou transfere    conhecimento relacionado com tecnologias, produtos e negócios (Ahuja e Katila,    2001; Rosenkopf e Nerkar, 2001), susceptível de apropriação. Sendo uma actividade    consumidora de recursos<a style='mso-endnote-id:edn5' href="#_edn5" name="_ednref5" title="">[v]</a><sup>    </sup>(Maskell <i>et al.</i>, 2006), considera-se que o estabelecimento de <i>pipelines    </i>tem em vista uma certa estabilidade temporal, com possibilidades de repetição    da interacção com os mesmos parceiros. </p>     <p>O argumento principal do modelo, detalhado nas secções seguintes, propõe que    a inserção de uma empresa (ou, a nível agregado, de diversas empresas regionais)    em <i>pipelines</i>, provoca efeitos dinâmicos na base de competências e de    organização da empresa, isto é. mudança ou adaptação nas suas rotinas (Nelson    e Winter, 1982). Este processo, por sua vez, acarreta efeitos de arrastamento,    no sentido em que estas novas rotinas empresariais tendem a implicar também    uma reconfiguração das respectivas redes inter-organizacionais de troca de conhecimento,    inovação e <i>buzz</i>. Estes processos tenderão a co-evoluir com dinâmicas    de adaptação institucional, gerando um <i>feedback </i>interactivo no sentido    do reforço da (nova) base de competências e especialização regional (Maskell    e Malmberg, 2007). As secções seguintes detalham sequencialmente os mecanismos    propostos. </p>     <p><b>1. Dinâmicas empresariais e de especialização </b></p>     <p>O encetar de uma colaboração por via de uma <i>pipeline</i>, em última análise,    representa a criação de proximidade “organizada” (Torre e Rallet, 2005) entre    duas organizações ou actores separados no espaço. Tal pode suceder por diversas    vias, em diferentes combinatórias de ecologias de projecto (Grabher, 2004),    envolvendo ou não capital (ver secção 2.1 e também Rychen e Zimmermann, 2008,    para uma descrição mais aprofundada de outros modos de <i>pipelines</i>). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tal como referido, estes são mecanismos frequentemente utilizados por empresas    globais com o objectivo de adquirir, desenvolver e explorar conhecimento disperso    (Doz <i>et al.</i>, 2001). No sentido de maximizar complementaridades, a inserção    na rede tenderá a gerar especialização e divisão de trabalho entre os parceiros    envolvidos, sendo este aliás o móbil principal de grande parte dos projectos    inter-empresariais. Novos esforços de I&amp;D e de aquisição de conhecimento    ao nível da empresa serão reorganizados, tendo em consideração as competências    dos parceiros da rede, na direcção das combinações mais eficientes. A empresa    ou estabelecimento local tenderá a especializar-se nas suas vantagens comparativas    e competências chave, no sentido de tirar o máximo proveito do acesso aos recursos    da rede global (Kogut e Zander, 2003). </p>     <p>Como resultado, uma empresa (ou um “nó” de uma rede global) tenderá a especializar-se    em certas actividades, e a sua base de competências registará alterações dinâmicas    (Zollo e Winter, 2002): certas competências poderão ser canalizadas para outros    pontos da rede (Cassiolato e Lastres, 2000), outras competências poderão surgir    e outras ainda ser reforçadas<a style='mso-endnote-id: edn6' href="#_edn6" name="_ednref6" title="">[vi]</a>. De acordo com a literatura    evolucionista (Nelson e Winter, 1982), está em causa um processo de mudança    e redistribuição de rotinas empresariais, em resultado de um processo de selecção    (de conhecimento, de parceiros) e de retenção (de novas rotinas numa unidade    empresarial). </p>     <p><b>2. Dinâmicas nas redes de inovação regionais </b></p>     <p>Uma vez alterada a combinatória de competências e especialização tecnológica    da empresa ou unidade empresarial são esperados ajustamentos dinâmicos nas suas    redes e relacionamentos regionais, na procura de novos parceiros que complementem    a nova base de competências, reconfigurando o seu eco-sistema local e regional    de conhecimento e inovação<a style='mso-endnote-id: edn7' href="#_edn7" name="_ednref7" title="">[vii]</a>. Estas reconfigurações    são consistentes com o trabalho recente de Hess (2004) e Jones (2008), que reconhecem    a necessidade de uma abordagem que capture a dimensão dinâmica dos fenómenos    de “embeddedness”, resultantes da actividade dos agentes em diversas escalas    espaciais. Nestes trabalhos, influenciados pelas abordagens sociológicas actor    – rede (Law e Hassard, 1999), as redes de relacionamentos (por exemplo, para    inovação) são vistas como uma realidade heterogénea, multidimensional e em mutação    frequente<a style='mso-endnote-id:edn8' href="#_edn8" name="_ednref8" title="">[viii]</a>. </p>     <p>Assim, em primeiro lugar, são esperadas mudanças quantitativas e qualitativas    na procura de qualificações por parte da empresa, com impactos nos mercados    de trabalho local e regional. Por exemplo, as suas competências podem ser agora    mais intensivas num dado tipo de produto ou serviço, requerendo competências    e qualificações distintas das anteriores. Estas novas qualificações podem vir    a ser encontradas na proximidade, ou numa região mais ampla (eventualmente não    contígua), podendo alargar (ou reduzir) a configuração geográfica da bacia de    emprego de referência. Em segundo lugar, de acordo com o novo perfil de competências    da empresa, esta poderá necessitar de aceder a novas “atmosferas” de difusão    de conhecimento e de interagir com novos parceiros, ao mesmo tempo que as competências    de anteriores parceiros poderão perder relevância; simultaneamente, o conhecimento    e informação com que a empresa contribui (competências, especialização, participação    em nichos de mercado) são agora diferentes, com consequências nos tipos de <i>buzz    </i>e difusão de conhecimento a nível regional. Finalmente, as novas competências    centrais da empresa requerem novos parceiros complementares, podendo dar origem    a novos consórcios e acordos de I&amp;D, <i>outsourcing </i>de serviços e produção,    protocolos de cooperação com centros de I&amp;D regionais, etc. Van Winden <i>et    al. </i>(2008) ilustra este fenómeno com a evolução dos acordos de investigação    de vários centros de I&amp;D universitários em regiões de transição industrial,    como o Norte de Portugal ou <i>Ruhr </i>area<i>, </i>na Alemanha – competências    de investigação e acordos de I&amp;D, por exemplo nos domínios da metalurgia,    perderam relevância para novos consórcios de I&amp;D no domínio dos novos materiais    e energia, em função das novas necessidades de uma base empresarial regional    em transformação. </p>     <p>As novas configurações e dinâmicas das redes regionais de conhecimento e inovação    tenderão a determinar fenómenos de abertura de novas <i>pipelines </i>(<a name="topf1"></a><a href="#f1">fig.1</a>),    que podem suceder pelo menos por duas vias. Por um lado, por acção deliberada    de parceiros externos, com o objectivo de aceder às novas dinâmicas localizadas    de conhecimento e inovação, por via de uma dinâmica “de fora para dentro”; por    outro, pela acção de actores locais procurando complementar a sua nova base    de competências, no sentido de aceder a competências não disponíveis da região,    ou simplesmente, de explorar conhecimento em outros pontos do globo (dinâmica    de busca “de dentro para fora”). </p>     <p><b>3. Dinâmicas de co-evolução institucional </b></p>     <p>De acordo com a leitura evolucionista, a alteração da combinatória de competências    específicas regionais, em linha com Boschma (2004) e Maskell e Malmberg (2007)    vem acompanhada e co-evolui com dinâmicas de mudança institucional<a style='mso-endnote-id:edn9' href="#_edn9" name="_ednref9" title="">[ix]</a>. A dinamização de <i>pipelines </i>e a emergência    de um novo tipo de actividades e competências regionais impulsiona mudanças    i) nos regulamentos e leis, por exemplo mudanças nos incentivos para a realização    de I&amp;D pública e privada em determinados domínios; ii) nas normas, valores    e hábitos, por exemplo no capital de confiança e interacção entre diferentes    actores regionais e iii) no surgimento (ou adaptação) de organizações de suporte    às novas competências regionais, como novas associações industriais e de desenvolvimento,    parques tecnológicos e serviços de apoio, etc. </p>     <p>Num segundo momento, a presença destas novas instituições e organizações de    suporte torna-se factor de atractividade para o reforço da (nova) base de competências    regional, que evolui dinamizando a atracção de novas redes globais à região    e o reforço de competências das suas empresas e redes. Segundo Maskell e Malmberg    (2007): </p>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&#8220;National, regional or local institutions gradually develop over time      in response to the special requirements of the presently dominating industry      and lead to further specialization by creating a favourable environment for      similar and complementary economic activity (&#8230;). Institutional adjustment      gradually increases the fit with the chosen specialization and adds to the      performance of the cluster&#8221; (p. 614).</p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>IV. O CASO DAS TECNOLOGIAS BI-COMBUSTÍVEL EM SÃO PAULO </p>     <p>A presente secção ilustra o modelo apresentado desdobrando o processo de desenvolvimento    das tecnologias bi-combustível em São Paulo, e consequente evolução regional    em torno desta nova “especialização”. Este estudo de caso foi desenvolvido durante    o mês de Dezembro de 2007 e faz parte de um estudo comparativo internacional    sobre dinâmicas de 10 <i>clusters </i>de base industrial em economias desenvolvidas    e emergentes (para mais detalhes, ver Van Winden <i>et al.</i>, 2008). Informação    qualitativa primária foi recolhida no Estado de São Paulo, em diferentes cidades,    por via de 25 entrevistas aprofundadas e semi-estruturadas, de duração compreendida    entre 60-90 minutos, com directores de I&amp;D e gerentes de empresas e grupos    transnacionais envolvidos na produção e desenvolvimento destas tecnologias,    associações e federações industriais, centros de I&amp;D e representantes do    poder político local e regional. Com vista a aumentar a fiabilidade, este leque    de informação foi complementado com a análise de informação secundária, nomeadamente    informação quantitativa e qualitativa proveniente de relatórios industriais,    trabalhos de investigação prévia, relatórios de actividades recentes de empresas    envolvidas, comunicações públicas, comunicados de imprensa, etc. </p>     <p>Antes de abordar a ilustração empírica importa fazer uma breve reflexão sobre    o conceito de “região” utilizado no estudo. O Estado de São Paulo conta presentemente    com cerca de 40 milhões de habitantes, metade dos quais na cidade e aglomeração    metropolitana principal e o restante em torno de concentrações urbanas mais    recentes, a menos de 100 km da cidade principal – caso de Campinas-Piracicaba,    São José dos Campos e Sorocaba. Um diversificado leque de actividades industriais    distribui-se hoje por estes pólos urbanos. Nas últimas duas décadas, o sector    automóvel paulista desconcentrou-se significativamente da aglomeração principal    em direcção a estes novos centros, que contam hoje não só com capacidade produtiva    instalada, mas também com bases de conhecimento apreciáveis (centros tecnológicos    e de I&amp;D universitários, mão-de-obra qualificada, etc.). Dado este pano    de fundo, tornou-se difícil delimitar <i>à priori </i>qual a “região relevante”    para a análise em causa, isto é, o processo dinâmico de desenvolvimento das    tecnologias automóvel bi-combústivel. </p>     <p>Assim sendo, durante o trabalho de terreno associado a este estudo de caso    optou-se por não estabelecer <i>à priori </i>uma delimitação rígida de “região”,    questionando os nossos interlocutores sobre os processos de desenvolvimento    recente das suas actividades em “São Paulo”. O objectivo deste procedimento    era analisar qual a percepção dos entrevistados sobre a “região relevante” para    as suas estratégias empresariais, projectos e interacções, nomeadamente para    troca de conhecimento e informação. Da análise das entrevistas emergiu de forma    clara a relevância da região constituída pela aglomeração principal e pelas    novas aglomerações urbano-industriais mencionadas. Esta região (não contígua    e radial) concentra o universo dos actores mais relevantes, possui uma elevada    qualificação da mão-de-obra e é abrangida por um quadro macro-institucional    bastante homogéneo, reconhecido como o mais avançado e estruturado do Brasil    (por exemplo leis, regulamentos, incentivos para a Ciência e Tecnologia, organizações    de suporte, etc.). Apesar de existirem algumas diferenças intra-região (nomeadamente    no passado industrial e no activismo sindical), por simplificação e para efeitos    desta ilustração, considera-se esta região não contígua como unidade relevante    de análise – referida nas secções seguintes como “São Paulo”, salvo indicação    em contrário. </p>     <p><b>1. Contexto do estudo de caso </b></p>     <p>O Estado de São Paulo é o mais importante pólo económico do Brasil, representando    em 2005 cerca de 40% do total do seu VAB – valor acrescentado bruto (IBGE, s.d.).    A cidade de São Paulo, crescentemente terciarizada, concentra o maior número    de <i>sedes </i>de empresas transnacionais na América Latina. Nos territórios    envolventes encontra-se a base industrial mais diversificada do Brasil, incluindo    sectores de forte conteúdo tecnológico, como a aeronáutica ou a biotecnologia;    mais ainda, é responsável por cerca de 13% do VAB brasileiro no que toca a <i>commodities    </i>e recursos naturais, como a cana-de-açúcar, laranja, soja ou café, para    além de recursos energéticos como petróleo e gás natural. </p>     <p>A indústria automóvel tem quase um século de história em São Paulo (o Ford    T foi o primeiro automóvel montado em São Paulo e no Brasil, em 1919), e é presentemente    uma das suas indústrias mais dinâmicas. O sector desenvolveu-se ao longo de    diversos ciclos económicos e políticos, passando pela estratégia de substituição    de importações, a partir dos anos 50, até à liberalização dos anos 90, com a    redução progressiva de restrições às importações de automóveis e suas componentes.    São Paulo concentra hoje estabelecimentos da grande maioria das construtoras    automóvel multinacionais (OEMs)<a style='mso-endnote-id:edn10' href="#_edn10" name="_ednref10" title="">[x]</a><sup>    </sup>e seus fornecedores, sendo destacadamente o maior pólo da indústria automóvel    da América Latina. </p>     <p>Simultaneamente, o Estado de São Paulo concentra a maior parte da produção    e transformação de cana de açucar do Brasil, cuja fermentação é famosa por dar    origem ao álcool etanol, reconhecido como o bio-combústivel de maior qualidade    e eficiência energética no globo (OECD, 2008). As primeiras experiências de    automóveis movidos a álcool em São Paulo datam de 1920. Todavia, foi durante    os anos 70, e em resposta ao elevado preço do petróleo e a diversos incentivos    governamentais, que a produção de etanol disparou no Brasil. Em 1986, mais de    90% dos automóveis brasileiros eram movidos a etanol combinado com gasolina    (Teixeira, 2005). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Apesar da “crise do álcool” do início dos anos 90<a style='mso-endnote-id:edn11' href="#_edn11" name="_ednref11" title="">[xi]</a>,    que determinou o retorno à hegemonia do uso da gasolina convencional, os crescentes    “argumentos verdes” (Brilhante, 1997) e desenvolvimentos tecnológicos recentes    trouxeram de volta o interesse no uso de etanol como alternativa à gasolina    convencional. Avanços na biotecnologia da cana, juntamente com a mecanização    do seu corte e a crescente eficiência energética da sua produção reanimaram    o interesse público e privado no etanol e no seu potencial na substituição,    pelo menos parcial, da gasolina. </p>     <p>É da parte dos fornecedores de sistemas automóveis que surge, no virar do século    XX, uma das mais relevantes inovações incentivadoras do uso de etanol em automóveis.    Em 2003 é lançado no Brasil o primeiro automóvel com tecnologia bi-combustível,    isto é, com motor preparado para funcionar a etanol, gasolina ou qualquer combinação    dos dois combustíveis, dando ao consumidor a liberdade de escolha, nomeadamente    em função de flutuações do preço. Em 2007, todas as OEMs no Brasil produziam    carros com esta tecnologia, totalizando 63 modelos diferentes (ANFAVEA, 2008).    O quadro I ilustra o aumento exponencial da produção e adopção deste tipo de    veículos no Brasil nos últimos anos, aproximando-se actualmente da totalidade    dos automóveis produzidos, deduzidos das exportações. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Quadro I – Veículos automóveis produzidos no Brasil 1979-2007: motor a etanol,    bi-combustível e total; milhares, anos seleccionados.</p>     <p><i>Table I – Car manufacturing in Brazil, 1979-2007: ethanol, flex-fuel and    total; thousands, selected years.</i></p>     <p><img src="/img/revistas/fin/n88/n88a08q1.jpg" width="431" height="326"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Nas secções seguintes, de acordo com o modelo detalhado na secção III, desdobra-se    o processo evolutivo de desenvolvimento das tecnologias automóvel bi-combustível    em São Paulo e o seu nexo global-local, nomeadamente no que toca ao acesso a    plataformas globais de conhecimento (IV.2), especialização intra-empresarial    (IV.3.1), dinâmicas nas redes de inovação regionais (IV.3.2) e co-evolução institucional    (IV.3.3). </p>     <p><b>2. O desenvolvimento das tecnologias <i>flex-fuel </i>no quadro de plataformas    globais de conhecimento e inovação – <i>pipelines </i></b></p>     <p>Após a liberalização dos anos 90, OEMs e respectivos fornecedores investiram    no aumento de capacidade produtiva e na modernização dos seus processos em diferentes    aglomerações urbanas do Estado de São Paulo, quer entrantes transnacionais,    quer empresas incumbentes (Mariotto, 2003). Tal como sugere a figura 2, este    processo levou a alterações significativas da estrutura de capital no seio da    indústria automóvel a operar em São Paulo, e no Brasil em geral (Shapiro, 1996).    Tal sucedeu por via de diversas operações de <i>take-over </i>de empresas nacionais    por grupos europeus e americanos, <i>joint-ventures</i>, investimentos de raiz    de grupos transnacionais, bem como de falências de empresas incumbentes. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><img src="/img/revistas/fin/n88/n88a08f2.jpg" width="586" height="373"></p>      
<p>Fig. 2 – Fornecedores de componentes automóvel no Brasil, por origem do capital,    %. </p>     <p><i>Fig. 2 – Automotive suppliers in Brazil, by origin of capital, %. </i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Estes movimentos deram origem a uma estrutura de mercado caracterizada pela    presença de estabelecimentos de grandes grupos transnacionais, a par de outros    fornecedores de capital maioritariamente nacional, mais atomizados e, no geral,    de menor capacidade técnico-financeira. No final dos anos 90 os processos de    inovação localizada por via de interacções <i>à la </i>Porter e interacções    de conhecimento são moderados e limitados à camada de empresas com maiores níveis    de capacidade de absorção. A indústria automóvel em São Paulo, com o objectivo    de servir o mercado brasileiro e latino-americano, explora cada vez mais tecnologia    desenvolvida nas <i>sedes </i>e laboratórios de I&amp;D da tríade (Cassiolato    e Lastres, 2000), por via de plataformas tecnológicas globais e de acesso restrito.    As ligações a centros de conhecimento locais como universidades são praticamente    nulas e os processos de co-desenvolvimento entre fornecedores transnacionais    e empresas locais são residuais. </p>     <p>Neste contexto, o processo de desenvolvimento de novos sistemas de injecção    de combustível (tecnologia central dos novos automóveis bi-combustível), entre    meados dos anos 90 e inícios de 2000, surge num quadro de criação de plataformas    globais de conhecimento e inovação – ou <i>pipelines </i>– de matriz intra-organizacional,    entre engenheiros e departamentos de I&amp;D de grupos transnacionais espalhados    no globo. Os grupos Robert Bosch (matriz alemã) e Magneti Marelli (matriz italiana)    foram pioneiros no registo de patentes, seguidas da Delphi (matriz norte-americana),    fornecendo actualmente toda a produção automóvel brasileira. </p>     <p>A Robert Bosch do Brasil, em Campinas, beneficiando de investigação prévia    realizada nos laboratórios de I&amp;D nos Estados Unidos, registou a primeira    patente global relacionada com as futuras tecnologias <i>flex-fuel </i>em 1988.    Esta patente, co-desenvolvida por engenheiros brasileiros e americanos, registava    a tecnologia de um sensor capaz de medir concentrações de etanol na gasolina    por via do teor de oxigénio no tanque de combustível. A partir destes esforços,    nos anos seguintes, engenheiros da unidade brasileira desenvolveram e testaram    novos sensores para misturas de etanol e gasolina em equipas de projecto com    engenheiros da matriz alemã – o objectivo passava por estabilizar parâmetros    de referência, bem como reduzir o custo ainda avultado dos sensores (Teixeira,    2005). Em meados dos anos 90, a Magneti Marelli brasileira (Hortolândia – Campinas)    enceta esforços no sentido de evitar o sistema de sensores físicos, baseando    a sua tecnologia bi-combustível numa configuração de <i>software </i>directamente    ligada ao sistema de injecção. As inovações associadas desenvolvem-se através    de equipas de projecto com engenheiros italianos e brasileiros, apesar de grande    parte do <i>know-how </i>sobre bio-combustíveis pertencer já à equipa brasileira.  </p>     <p>Durante e após a adopção inicial dos novos sistemas bi-combustível, muitas    outras empresas transnacionais em São Paulo estabeleceram <i>pipelines </i>globais    de carácter semelhante (por exemplo diversos projectos de I&amp;D temporários    intra-organizacionais), no sentido de desenvolver tecnologias complementares    – carburadores, tanques anti-corrosão, bombas de combustível, reguladores de    pressão do combustível, filtros, sistemas de arranque a frio, etc. </p>     <p>Assim, encontramos os grupos transnacionais de fornecedores de sistemas automóvel    como iniciadores deste processo de desenvolvimento tecnológico, em articulação    organizacional com outros estabelecimentos globais da corporação. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Importa salientar que este processo é decisivamente facilitado pela presença    de factores locais – por exemplo, a oferta de engenheiros e técnicos qualificados    em São Paulo desde há várias décadas. Este factor é igualmente facilitador das    dinâmicas regionais descritas nas secções seguintes. </p>     <p><b>3. Dinâmicas regionais induzidas de conhecimento e inovação </b></p>     <p><i>3.1 Dinâmicas empresariais e de especialização </i></p>     <p>O acesso a redes globais de inovação por parte de diferentes <i>players </i>do    sector automóvel em São Paulo, intensificado a partir de meados dos anos 90,    gerou alterações dinâmicas ao nível das suas rotinas e competências. Algumas    das competências anteriores foram sendo esvaziadas para centros de I&amp;D da    tríade (Cassiolato e Lastres, 2000), enquanto outras foram surgindo e outras    reforçadas em função das vantagens relativas de cada unidade empresarial (incluindo    potencial de acesso a conhecimento localizado). </p>     <p>O quadro II ilustra esta realidade, com exemplos de evolução de competências    e esforços de I&amp;D de unidades brasileiras de diferentes tipos de fornecedores    transnacionais de tecnologia automóvel ao longo da última década. Nestes exemplos    existe um denominador comum: crescente especialização em diferentes pontos das    cadeias intra-organizacionais de conhecimento global, associadas a divisão de    trabalho e mudança de rotinas ao nível da unidade empresarial. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Quadro II – Investimentos em I&amp;D em estabelecimentos locais de empresas    transnacionais (década de 1990 e 2007). </p>     <p><i>Table II –R&amp;D investments by the local offices of transnational corporations    (90’s and 2007). </i></p>     <p><img src="/img/revistas/fin/n88/n88a08q2.jpg" width="630" height="287"></p>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Actualmente, vários grupos transnacionais localizam em São Paulo pólos tecnológicos    importantes no seio da sua estratégia empresarial global – estes pólos são crescentemente    especializados, fazendo com que São Paulo se posicione como um centro de referência    no uso e desenvolvimento de tecnologias ligadas aos bio-combustíveis. A Robert    Bosch de Campinas conta hoje com cerca de 400 engenheiros a trabalhar em bio-combustíveis,    no <i>World Competence Centre for the Development of Conventional and Oxygen    Fuel Systems</i>. As suas competências há uma década eram mais diversificadas,    mas bastante menos intensivas em tecnologia desenvolvida de raiz em São Paulo.    A Magneti Marelli, também perto de Campinas, tem hoje em dia o maior centro    de I&amp;D em combustíveis fora da Europa, estimando um crescimento de 30% até    2010. </p>     <p>Ao longo da última década, as mudanças no perfil de especialização e competências    destas unidades locais têm já reflexo visível na evolução do padrão de exportações    de componentes automóvel. Conforme ilustra o quadro III, a maioria das componentes    e tecnologias associadas aos bio-combústiveis, tais como motores e sistemas    associados, tiveram um crescimento muito mais significativo do que os outros    tipos de produtos ao longo dos últimos anos. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Quadro III – Principais componentes automóveis exportadas pelo Brasil, 2000-2006.</p>     <p><i>Table III – Main auto parts exported by Brazil, 2000-2006.</i></p>     <p><img src="/img/revistas/fin/n88/n88a08q3.jpg" width="573" height="355"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><i>3.2 Dinâmicas nas redes de inovação regionais </i></p>     <p>A especialização de muitos estabelecimentos na envolvente de São Paulo, em    torno de tecnologias e soluções bi-combustível<i>, </i>está associada à emergência    na região de novas parcerias regionais para troca de conhecimento e co-desenvolvimento    de tecnologia. Após a abertura de <i>pipelines</i>, controlada por um número    restrito de actores de dimensão quase exclusivamente transnacional, começam    a ser visíveis interacções relevantes, típicas dos modelos de aprendizagem e    inovação localizada (Maskell, 2001). Todavia, a <i>embeddedness </i>destas novas    redes pode ser entendida como tendo um carácter fortemente determinado pela    dinâmica de agentes individuais, actuando em escalas espaciais diferentes, e    não propriamente vinculados a uma estrutura espacial de contactos e relações    (Hess, 2004; Jones, 2008), que apenas recentemente começa a emergir. </p>     <p>Alguns exemplos ajudam a ilustrar o fenómeno. A TI Automotive do Brasil, especialista    em sistemas de distribuição de combustível, com três unidades no Estado de São    Paulo, trabalha conjuntamente com a Ford para ajustar as especificações dos    seus sistemas e tanques de combustível aos requerimentos do etanol e, cada vez    mais, de diferentes modalidades de bio-diesel. A Magneti Marelli passou a organizar    em 2006 uma plataforma tecnológica com 13 fornecedores brasileiros (na maioria    localizados em São Paulo) para a sua linha de montagem de bicos injectores de    combustível, um dos seus produtos de mais elevada tecnologia aos quais é dada    a possibilidade de fornecer outros estabelecimentos da Magneti Marelli nos Estados    Unidos. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Noutras situações são os produtores de bio-combustíveis que dinamizam projectos    locais de desenvolvimento tecnológico, testes de combustíveis e tecnologia automóvel.    O projecto “Mistura 20”, por exemplo, associa a Bertin (bio-combustíveis) com    a Volkswagen bus, a Robert Bosch e a Cummins Engine Company (empresa americana    especializada em motores a diesel) para testes conjuntos de qualidade de bio-combustíveis,    parâmetros de mistura, bicos injectores e motores. Por outro lado, iniciativas    de cooperação público-privado começam a surgir entre empresas, universidades    e centros públicos de I&amp;D. A título de exemplo, i) a TI Automotive, o centro    de I&amp;D do Ministério da Agricultura brasileiro e fornecedores locais cooperam    para o desenvolvimento de bio-plásticos anti-corrosão; ii) a Universidade de    São Paulo e a de Campinas associaram-se numa parceria com a Delphi para novos    desenvolvimentos tecnológicos ligados ao bi-combustível. </p>     <p>Estes exemplos espelham o surgimento de novos tipos de troca de informação    e conhecimento a nível regional, isto é, novos tipos de <i>buzz</i>, que surgem    praticamente de raiz em torno do ecossistema associado às tecnologias bi-combustível    e bio-combustíveis, como se viu, tomando lugar em escalas espaciais variáveis    e por vezes não contíguas. A estas novas dinâmicas está associado também um    mecanismo de <i>feedback </i>de abertura e estabelecimento e novas <i>pipelines</i>.    Um exemplo de “dentro para fora” é o caso da participação de fornecedores especializados    da Magneti Marelli em diferentes plataformas nos Estados Unidos, para exploração    de tecnologias desenvolvidas em São Paulo; na óptica “de fora para dentro” são    exemplos as diversas ecologias de projecto entre departamentos de I&amp;D globais    temporariamente localizadas entre Brasil e os outros nós das redes transnacionais,    com o objectivo de aceder a conhecimento brasileiro relativo a tecnologia automóvel    bi-combustível (como por exemplo por parte da Saab – Suécia, ou da General Motors    – Detroit). </p>     <p><i>3.3 Dinâmicas de co-evolução institucional </i></p>     <p>Os processos de abertura de <i>pipelines</i>, especialização e dinamização    de novas redes e atmosferas de troca de conhecimento (localizadas e não localizadas)    co-evoluiram com alterações e adaptação do quadro institucional, a diferentes    níveis. Tendo sido num primeiro momento activadas por processos de agência (abertura    de <i>pipelines </i>e criação de novo conhecimento em grupos transnacionais),    o quadro de instituições e organizações de suporte co-evoluiu no sentido de    suportar e facilitar processos de criação de redes locais e ancoramento de conhecimento    no Estado de São Paulo, hoje uma referência em tecnologia automóvel relacionada    com bio-combustíveis. </p>     <p>No final da década de 90 em São Paulo, no que toca ao quadro institucional    de suporte ao sector automóvel, não existe um sistema de interacções facilitadoras    de trocas de conhecimento e eficiência colectiva entre os actores do sector.    As organizações de suporte são de carácter nacional, ainda que localizadas na    cidade de São Paulo. Apesar da tradição industrial, o capital social é considerado    bastante baixo e as interacções reduzidas. Os incentivos e regulamentos fiscais    para tracção de investimento desfavorecem São Paulo em relação a outros Estados,    e os apoios públicos para a ciência e tecnologia são organizados a nível Federal    e não acessíveis ao sector privado. O factor mais distintivo face ao resto do    Brasil é nesta altura a presença de uma certa cultura técnica e de uma classe    de engenheiros brasileiros activa e organizada, centrada em São Paulo. A Ordem    dos Engenheiros Brasileiros sedeada em São Paulo é geralmente reconhecida como    uma plataforma informal de troca de conhecimento e desenvolvimentos técnicos,    nomeadamente automóvel. </p>     <p>Não é todavia razoável considerar que o quadro macro-institucional de partida    explicou a emergência e os desenvolvimentos tecnológicos em torno das tecnologias    bi-combustível em São Paulo, apesar do contexto de liberalização da economia    brasileira ter permitido e facilitado o processo de abertura a redes globais    de inovação, bem como a oferta de engenheiros qualificados. Os primeiros fenómenos    de co-evolução institucional surgiram em resposta aos esforços tecnológicos    de grupos transnacionais localizados em São Paulo no desenvolvimento dos primeiros    sistemas bi-combustível. Motivado pelo trabalho em curso nestas ecologias de    I&amp;D privada, o Instituto de Pesquisa Tecnológica de São Paulo (IPT) do Governo    Estadual organizou em 1998 um seminário de grande impacto na difusão do potencial    das tecnologias bi-combustível na indústria automóvel, associando pela primeira    vez as OEMs no desenvolvimento conjunto dos sistemas nos seus motores. Em 2000,    a Associação Brasileira de Produtores de Cana de Açúcar, a petrolífera nacional    Petrobrás e o IPT analisaram os impactos sociais, económicos e ambientais da    tecnologia bi-combustível e, em 2002, o Governo Federal lançou o enquadramento    de benefícios fiscais e incentivos à produção de veículos bi-combustível. Este    movimento convenceu definitivamente as OEMs na adopção da tecnologia, dinamizando    todo um leque de parcerias OEM-fornecedores de sistemas no desenvolvimento de    variados modelos de veículos <i>bi-combustível</i>. </p>     <p>Face ao sucesso da tecnologia e ao posicionamento de São Paulo como <i>hub    </i>global (em função da crescente especialização intra-empresarial), o Estado    de São Paulo lançou em 2006 um generoso pacote de incentivos à I&amp;D pública    e privada em variados domínios relacionados com bio-combustíveis e tecnologias    associadas, com destaque para os sistemas bi-combustível. Complementarmente,    lançou um programa de intermediação tecnológica chamado “Tec-Days”, enquanto    plataforma facilitadora de futuros consórcios entre empresas e centros de I&amp;D.    Por via de alguns destes incentivos, o número de parcerias entre <i>players    </i>do sector automóvel, e entre estes e os produtores de bio-combustíveis tem    aumentado, dinamizando novas redes e consórcios de inovação a nível regional.    Não se traduzindo numa política de <i>cluster </i>“tradicional” (Tödtling e    Trippl, 2005), estes incentivos têm contribuído para uma interpenetração de    esforços tecnológicos em formato de plataforma, explorando complementaridades    inter sectoriais e bases de conhecimento relacionadas, contribuindo para a criação    de vantagem comparativa regional (Asheim, Boschma e Cooke, 2008). </p>     <p>O processo de co-evolução institucional, que solidificou e gerou nova interpenetração    entre o sector automóvel e o dos bio-combustíveis, levou recentemente a investimentos    do Estado de São Paulo na infra-estrutura física e organizacional do pólo de    competitividade dos bio-combustíveis, perto da aglomeração urbana de Campinas.    Esta nova infra-estrutura, em desenvolvimento, agirá como <i>think-tank </i>e    facilitador de novas parcerias inter-regionais, para além de funcionar como    suporte a actividades de intermediação e troca de conhecimento entre os actores    envolvidos, estrutura de financiamento de I&amp;D conjunta e plataforma de suporte    à definição de políticas públicas. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>V. DISCUSSÃO E CONCLUSÕES </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ao longo das secções anteriores, o artigo desdobrou as fundações teóricas de    uma conceptualização de inspiração evolucionista (Boschma e Martin, 2007) relativa    aos processos resultantes da participação de actores locais em redes globais    de conhecimento e inovação. O modelo apresentado foi ilustrado com as diferentes    etapas inter-relacionadas na emergência das tecnologias bi-combustível em São    Paulo, um processo marcado pela inserção dos seus principais actores em redes    globais, intra-organizacionais, de conhecimento e inovação. </p>     <p>As contribuições e argumentos apresentados podem ser sumariados em dois pontos    principais. Em primeiro lugar, a conceptualização apresentada sugere que algumas    micro tendências observadas ao nível da unidade empresarial, como por exemplo    a participação em <i>pipelines </i>de conhecimento e inovação, ao fazerem alterar    rotinas ao nível da empresa local, podem derivar em processos complexos de mudança    a níveis mais agregados (por exemplo, nas redes de inovação regionais e quadro    institucional), que se desviem das trajectórias prévias de especialização tecnológica    regional – ou as façam emergir, como no caso das tecnologias bi-combustível    em São Paulo. A apresentação destes mecanismos e a evidência de suporte contribui    para aprofundar a conceptualização de <i>local buzz-global pipelines </i>de    Bathelt <i>et al. </i>(2004), dando-lhe um carácter mais dinâmico. </p>     <p>Em segundo lugar, ao trabalhar no interface entre a geografia económica institucionalista    e evolucionista (Boschma e Frenken, 2006), o artigo contribui para integrar    e perceber os fenómenos de co-evolução institucional associados à emergência    de um novo quadro tecnológico. O caso das tecnologias bi-combustível espelha    o processo de emergência de um novo quadro institucional e organizacional a    diferentes escalas, a partir do processo de abertura de <i>pipelines</i>, encetado    pela acção de actores individuais (grupos transnacionais de sistemas a operar    em São Paulo). Os estádios seguintes ilustram claramente um processo de interacção    entre agência e estrutura institucional e organizacional (Boschma, 2004), no    sentido da criação de um círculo virtuoso de especialização e excelência regional    em torno da tecnologia automóvel associada aos bio-combustíveis, reforçando    as competências e cultura técnica da engenharia paulista em torno destas especializações.  </p>     <p>O argumento e a análise avançados neste artigo deixam algumas questões em aberto.    Por um lado, a conceptualização apresentada carece ainda de mecanismos teóricos    de moderação dos processos descritos, que permitam explicar melhor em que situações    será mais provável a ocorrência dos fenómenos descritos, como por exemplo a    especialização em torno de novas rotinas empresariais e a emergência de novas    redes de inovação regionais. Por outro, o artigo sugere implicitamente dois    fenómenos que carecem de conceptualização e validações empíricas mais aprofundadas.    Em primeiro lugar, não existe ainda nem teoria nem testes empíricos suficientes    associados aos fenómenos e impactos resultantes do cruzamento de dois sectores    distintos numa “região”, como por exemplo as tecnologias do sector automóvel    e bio-combustíveis. Que impactos se podem esperar do cruzamento de percursos    industriais distintos (Martin e Sunley, 2008)? Que tipos de sectores e de conhecimento    devem estar presentes para a geração de percursos virtuosos? Por outras palavras:    que tipos de “variedade” de bases de conhecimento se podem cruzar com vantagem    (Frenken <i>et al.</i>, 2007; Boschma e Iammarino, 2008)? Em segundo lugar,    a dimensão espacial concreta na qual se processam os fenómenos de co-evolução    merece uma atenção mais aprofundada. No caso de São Paulo, os processos observados    derivaram em impactos espaciais intra-regionais – nomeadamente de redistribuição    de activos de conhecimento e inovação inter aglomerações urbanas (por exemplo,    das concentrações industriais tradicionais de São Paulo metropolitano para Campinas).    Este processo de co-evolução entre dimensões espaciais, empresariais e organizacionais    merece atenção mais aprofundada, e configura consequências políticas e de gestão    urbana e intra-regional relevantes. </p>     <p>Não obstante a especificidade do caso em análise (quer pela sua dimensão quer    pela presença de activos muito específicos, como os bio-combustíveis), a conceptualização    apresentada incorpora implicações relevantes para a formatação de políticas    públicas, nomeadamente a nível regional. Por um lado, alerta para a necessidade    de prestar atenção a micro dinâmicas empresariais e aos efeitos que estas podem    trazer ao nível de estruturas e redes regionais de inovação. Num contexto em    que muitas políticas públicas a nível regional começam a complementar a implementação    de <i>clusters </i>e sistemas de inovação (Doloreux e Parto, 2005) com o acesso    de actores locais a redes globais de conhecimento (incentivos à internacionalização,    estratégias de cooperação, plataformas internacionais de I&amp;D em redes de    excelência, etc.), importa reflectir sobre os efeitos dinâmicos que se podem    esperar da abertura dessas <i>pipelines</i>. Do mesmo modo que políticas orientadas    para o <i>cluster </i>podem ter efeitos perversos e gerar <i>lock-in </i>(Todtling    e Trippl, 2005), também políticas focadas na abertura de <i>pipelines </i>podem    gerar efeitos indesejáveis, já que são susceptíveis de ter impactos ao nível    da especialização de empresas locais e redes regionais de conhecimento e inovação.    O caso de São Paulo ilustra impactos positivos da abertura de <i>pipelines</i>,    embora seja possível imaginar casos em que tal fenómeno provoque o esvaziamento    de competências regionais. Por exemplo, em situações em que a nova especialização    empresarial e rotinas resultantes não encontrem parceiros complementares na    região, levando à busca destas competências em outras regiões e a um afastamento    progressivo entre as novas rotinas e a anterior base empresarial. </p>     <p>Por outro lado, os impactos dinâmicos da participação em <i>pipelines </i>podem    derivar em novas necessidades de investimentos complementares a nível regional.    Por exemplo, o fenómeno de emergência de uma nova especialização pode implicar    necessidades de desenvolvimento de novas infra-estruturas físicas e organizacionais    para acomodar e promover o seu desenvolvimento, como por exemplo parques tecnológicos,    programas de formação específicos e outros incentivos financeiros, para I&amp;D    em consórcio. Sempre que esta nova especialização se distancie de outros sectores    da base económica regional, devem ser consideradas iniciativas de intermediação    activa (Sverrisson, 2001; Mesquita, 2007) no sentido de uma evolução regional    mais equilibrada e dinamicamente sustentável. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>AGRADECIMENTOS </p>     <p>O autor agradece o apoio financeiro da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia    (Bolsa de Doutoramento 36343 / 2007), a troca de opiniões frequentes sobre o    tema deste artigo com Willem van Winden e o apoio do IHS – Institute for Housing    and Urban Development Studies – no desenvolvimento do trabalho de campo associado    a este estudo. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>BIBLIOGRAFIA </p>     <p>Ahuja G, Katila R (2001) Technological acquisitions and the innovation performance    of acquiring firms: a longitudinal study. <i>Strategic Management Journal</i>,    22 (3):197-220. </p>     <p>Amin A, Cohendet P (2004) <i>Architectures of knowledge: firms, capabilities,    and communities</i>. Oxford University Press, USA. </p>     <p>Anfavea (2008) <i>Anuário da indústria automobilistica brasileira</i>. São    Paulo. </p>     <p>Asheim B, Boschma R, Cooke P. (2008) Constructing regional advantage: platform    policies based on related variety and differentiated knowledge bases. <i>Papers    in Evolutionary Economic Geography</i>, Utrecht University, Section of Economic    Geography. </p>     <p>Asheim B, Coenen L, Moodysson J, Vang J (2007) Constructing knowledge-based    regional advantage: implications for regional innovation policy. <i>International    Journal of Entrepreneurship and Innovation Management</i>, 7 (2):140-155. </p>     <p>Asheim B, Gertler M (2005) The geography of innovation: regional innovation    systems. <i>In </i>Fagerberg J, Mowery D, Nelson R (eds.) <i>The Oxford Handbook    of Innovation</i>, Oxford University Press, Oxford: 291–317. </p>     <p>Asheim B T (1996) Industrial districts as ‘learning regions’: A condition for    prosperity. <i>European Planning Studies</i>, 4 (4):379-400. </p>     <p>Asheim B T, Coenen L (2005) Knowledge bases and regional innovation systems:    Comparing Nordic clusters. <i>Research Policy</i>, 34 (8):1173-1190. </p>     <p>Asheim B T, Isaksen A (2002) Regional innovation systems: the integration of    local ‘sticky’and global ‘ubiquitous’ knowledge. <i>The Journal of Technology    Transfer</i>, 27 (1):77-86. </p>     ]]></body>
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<body><![CDATA[<p><a style='mso-endnote-id: edn5' href="#_ednref5" name="_edn5" title="">[v]</a> Por exemplo, identificação    e selecção de parceiros, definição de condições de transferibilidade, desenvolvimento    de confiança, etc. </p>     <p><a style='mso-endnote-id: edn6' href="#_ednref6" name="_edn6" title="">[vi]</a> Por exemplo, no caso de    uma empresa decidir especializar-se num certo grupo de competências, no sentido    de tirar o maior proveito do acesso a uma rede de conhecimento externo, reforçando    de forma dinâmica a sua capacidade de absorção (Cohen e Levintal, 1990). </p>     <p><a style='mso-endnote-id: edn7' href="#_ednref7" name="_edn7" title="">[vii]</a> Esta reorganização pode    não suceder apenas a nível local ou regional pois a firma pode também procurar    novos parceiros com competências complementares a nível global.</p>     <p><a style='mso-endnote-id: edn8' href="#_ednref8" name="_edn8" title="">[viii]</a> Para uma revisão detalhada    desta literatura, suas aplicação na geografia económica e contraste com a versões    mais convencionais inspiradas no trabalho de Granovetter (1985), ver Grabher    (2006).</p>     <p><a style='mso-endnote-id: edn9' href="#_ednref9" name="_edn9" title="">[ix]</a> É importante salientar que    a geografia económica evolucionista não explica diferenças de <i>performance    </i>e evolução regional por via de diferenças no quadro macro-institucional,    mas por via de microhistórias e evoluções de firmas a operarem no contexto regional.    Existe, assim, uma diferença chave face à abordagem institucionalista, em que    o quadro institucional é por vezes considerado variável explicada e explicativa    das diferenças e processos de desenvolvimento regional (Boschma e Frenken, 2006).  </p>     <p>“National, regional or local institutions gradually develop over time in response    to the special requirements of the presently dominating industry and lead to    further specialization by creating a favourable environment for similar and    complementary economic activity (…). Institutional adjustment gradually increases    the fit with the chosen specialization and adds to the performance of the cluster”    (p. 614). </p>     <p><a style='mso-endnote-id:edn10' href="#_ednref10" name="_edn10" title="">[x]</a> OEM: <i>Original Equipment Manufacturer</i>. </p>     <p><a style='mso-endnote-id: edn11' href="#_ednref11" name="_edn11" title="">[xi]</a> Resultante da queda do    preço do petróleo e subida do preço do açúcar nos mercados internacionais, associado    à redução drástica dos subsídios à produção de álcool (Shapiro, 1996). </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Recebido: 03/11/2008. Revisto: 05/01/2009. Aceite: 12/01/2009.</p>     ]]></body>
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<surname><![CDATA[Sverrisson]]></surname>
<given-names><![CDATA[Á]]></given-names>
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<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Translation networks, knowledge brokers and novelty construction: pragmatic environmentalism in Sweden]]></article-title>
<source><![CDATA[Acta Sociologica]]></source>
<year>2001</year>
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<page-range>313-327</page-range></nlm-citation>
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