<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0430-5027</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Finisterra - Revista Portuguesa de Geografia]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Finisterra]]></abbrev-journal-title>
<issn>0430-5027</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Centro de Estudos Geográficos]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0430-50272010000200012</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O modelo Barcelona: um exame crítico]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Abrantes]]></surname>
<given-names><![CDATA[Patrícia]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,UL - Universidade de Lisboa CEG - Centro de Estudos Geográficos ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<numero>90</numero>
<fpage>211</fpage>
<lpage>213</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0430-50272010000200012&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0430-50272010000200012&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0430-50272010000200012&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><b>O modelo Barcelona: um exame cr&iacute;tico</b> <a href="#1">[i]</a><a name="top1"></a></p>      <p>&nbsp;</p>     <p>Patr&iacute;cia Abrantes<sup>*</sup></p>      <p>*Investigadora Auxiliar do Centro de Estudos Geogr&aacute;ficos da Universidade    de Lisboa. E-mail: <a href="mailto:patricia.abrantes@campus.ul.pt">patricia.abrantes@campus.ul.pt</a>  </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>O <i>Modelo Barcelona </i>constituiu um marco fundamental no urbanismo de finais do s&eacute;culo XX, seduzindo t&eacute;cnicos e pol&iacute;ticos um pouco por todo o Mundo. Tal foi o seu sucesso que foi replicado em algumas cidades, com destaque para as latino-americanas. Entende-se por <i>Modelo Barcelona </i>o conjunto de interven&ccedil;&otilde;es de reestrutura&ccedil;&atilde;o urbana realizadas a partir dos anos 80 na cidade de Barcelona, com recurso ao planeamento estrat&eacute;gico e operacional e &agrave; gest&atilde;o p&uacute;blico-privada, numa perspectiva de desenvolvimento social e econ&oacute;mico da cidade. </p>      <p>O livro <i>El modelo Barcelona: un examen cr&iacute;tico </i>do conceituado ge&oacute;grafo espanhol Horacio Capel &eacute; o resultado aprofundado da investiga&ccedil;&atilde;o apresentada pelo autor em 2004 no <i>D&eacute;cimo Col&oacute;quio Internacional sobre Arquitectura y Patrimonio</i>. Tendo como pano de fundo um col&oacute;quio sobre arquitectura e patrim&oacute;nio, o autor n&atilde;o perdeu uma oportunidade, volvidos cerca de 25 anos do in&iacute;cio do <i>Modelo Barcelona</i>, de reflectir sobre os seus aspectos positivos e, sobretudo, sobre as suas fragilidades, evidenciadas progressivamente a partir da aprova&ccedil;&atilde;o da candidatura aos Jogos Ol&iacute;mpicos, em 1986. Atrav&eacute;s de um &#8220;olhar&#8221; experiente sobre o urbanismo produzido na cidade, com especial destaque para as obras mais recentes de regenera&ccedil;&atilde;o e reabilita&ccedil;&atilde;o da <i>Ciutat Vella </i>e de reconvers&atilde;o industrial do <i>Poblenou, </i>o autor questiona o modelo na sua componente urban&iacute;stica, focando quest&otilde;es de estrutura&ccedil;&atilde;o espacial, social e institucional, oferecendo ao leitor os elementos necess&aacute;rios para reflex&atilde;o. A an&aacute;lise do autor &eacute; enriquecida com a selec&ccedil;&atilde;o de um conjunto de fotografias reveladoras das subtilezas espaciais, sociais e pol&iacute;ticas do urbanismo praticado. </p>      <p>Os primeiros cinco cap&iacute;tulos enquadram as condi&ccedil;&otilde;es que conduziram ao desenvolvimento do modelo. A cidade do in&iacute;cio de 80 revelava profundas car&ecirc;ncias de habita&ccedil;&atilde;o e de equipamento social decorrentes da crise econ&oacute;mico-industrial, que se  vinha prolongando desde 1973, e de uma popula&ccedil;&atilde;o numerosa, resultante dos fluxos migrat&oacute;rios das d&eacute;cadas anteriores. Findo o per&iacute;odo franquista, numa &eacute;poca de forte reivindica&ccedil;&atilde;o social, a cidade inicia uma pol&iacute;tica de resolu&ccedil;&atilde;o das suas car&ecirc;ncias mas, sem os meios financeiros necess&aacute;rios para produzir nova habita&ccedil;&atilde;o, aposta na conserva&ccedil;&atilde;o e reutiliza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o constru&iacute;do com projectos urbanos de pequena escala ao n&iacute;vel dos edif&iacute;cios e do espa&ccedil;o p&uacute;blico, tentando tocar todos os bairros da cidade, centrais e perif&eacute;ricos (cap&iacute;tulo 2). Solucionadas estas car&ecirc;ncias e com a progressiva estabiliza&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mico-financeira, a que n&atilde;o &eacute; alheia a ades&atilde;o &agrave; Comunidade Europeia em 1986, com a globaliza&ccedil;&atilde;o da economia e a consequente necessidade de inser&ccedil;&atilde;o das cidades no sistemas urbanos mundiais, Barcelona aposta num conjunto de estrat&eacute;gias para promover a sua atractividade internacional. A aprova&ccedil;&atilde;o da candidatura aos Jogos Ol&iacute;mpicos em 1986 estimula projectos urbanos complexos e de grande alcance, com a indispens&aacute;vel participa&ccedil;&atilde;o da iniciativa privada (cap&iacute;tulo 3). O designado <i>Modelo Barcelona </i>tornou-se poss&iacute;vel devido a um conjunto de particularidades pol&iacute;ticas, sociais econ&oacute;micas e intelectuais. Na &oacute;ptica do autor, torna-se excessivo intitular um processo com condi&ccedil;&otilde;es t&atilde;o espec&iacute;ficas de &#8220;modelo&#8221; e replic&aacute;-lo a outras cidades (cap&iacute;tulo 4 e 5). Cada cidade tem especificidades pr&oacute;prias, merecendo ser planeada localmente, pelo que <i>no hay modelos, pero si ense&ntilde;anzas &uacute;tiles </i>(Capel, 2005: 25). </p>      <p>Nos restantes cap&iacute;tulos o autor discute os v&aacute;rios conte&uacute;dos do modelo. A promo&ccedil;&atilde;o de equipamentos urbanos e culturais de escala internacional, alguns com recurso &agrave; assinatura de arquitectos de renome (e.g. <i>Macba, F&oacute;rum das Culturas</i>) e a aposta na constru&ccedil;&atilde;o de uma cidade virada para a tecnologia e inova&ccedil;&atilde;o e para a diversidade s&oacute;cio-econ&oacute;mica  (e.g. <i>22@Barcelona, Villa Ol&iacute;mpica, Diagonal-Mar</i>), trouxe grandes benef&iacute;cios &#8211; mais turismo, mais empresas, mais habitantes &#8211;&#8211; mas tamb&eacute;m revelou fortes debilidades (cap&iacute;tulo 6). </p>      <p>No plano da estrutura&ccedil;&atilde;o espacial, o <i>Modelo Barcelona </i>&eacute; promovido como um modelo de cidade compacta (cap&iacute;tulo 7), apoiando-se em conceitos como reabilita&ccedil;&atilde;o, requalifica&ccedil;&atilde;o, regenera&ccedil;&atilde;o, novas centralidades, densidade. Contudo, a atrac&ccedil;&atilde;o de pessoas e actividades desenvolve-se de forma dispersa, impulsionada por propriet&aacute;rios rurais, promotores imobili&aacute;rios e autoridades municipais. Neste sentido, o modelo de cidade compacta, concorre com o de cidade dispersa &agrave; escala metropolitana. &Agrave; escala urbana, &eacute; questionado o paradigma de cidade compacta perpetuado pelo <i>Modelo Barcelona</i>. De facto, por for&ccedil;a da especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria, o modelo de cidade compacta faz-se em preju&iacute;zo dos espa&ccedil;os verdes, alguns semi-privatizados e outros condicionados a espa&ccedil;os ex&iacute;guos (cap&iacute;tulo 8) bem como &agrave; custa do congestionamento de tr&aacute;fego (cap&iacute;tulo 9) e da verticaliza&ccedil;&atilde;o de edif&iacute;cios (capitulo 13), mesmo, em &aacute;reas onde o que se propunha uma abertura para o Mar (e.g. Diagonal<i>-Mar</i>). </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na esfera social o modelo tamb&eacute;m tem sido posto &agrave; prova. Os grandes projectos de reabilita&ccedil;&atilde;o urbana da <i>Ciutat Vella </i>e de reconvers&atilde;o industrial do <i>Poblenou</i> fazem-se em preju&iacute;zo das classes mais populares que, pelo pre&ccedil;o elevado da habita&ccedil;&atilde;o, deixam de conseguir aceder &agrave;s &aacute;reas que outrora habitavam (Capitulo 10). A <i>Villa Ol&iacute;mpica </i>e a <i>Diagonal-Mar </i>no bairro do <i>Poblenou</i> s&atilde;o exemplos reveladores de situa&ccedil;&otilde;es s&oacute;cio-espaciais conflituosas, defraudando os objectivos preconizados de diversidade socioecon&oacute;mica. </p>      <p>No dom&iacute;nio t&eacute;cnico-institucional, s&atilde;o tamb&eacute;m apontadas s&eacute;rias cr&iacute;ticas. O desenvolvimento de parcerias p&uacute;blico-privadas na realiza&ccedil;&atilde;o e gest&atilde;o de projectos urbanos contribuiu para o incremento de uma perspectiva economicista, voltada para a especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria (cap&iacute;tulo 11) onde <i>no siempre la negociaci&oacute;n puede ser bien realizada, lo que con frecuencia repercute en beneficio de los interesses privados, que han obtenido tradicionalmente importantes rentas de la ciudad </i>(p. 57). &Agrave;s parcerias p&uacute;blico-privadas junta-se o papel de t&eacute;cnicos e pol&iacute;ticos (cap&iacute;tulo 14) e a ruptura com o planeamento urbano (cap&iacute;tulo 16). Assim, por um lado, o recurso sistem&aacute;tico a arquitectos e engenheiros, em detrimento de equipas pluridisciplinares, tem vindo a contribuir, em certos casos, para uma insensibilidade social e falta de vis&atilde;o do conjunto urbano. <i>De la impresi&oacute;n de que la obsesi&oacute;n de los arquitectos por hacer obra nueva y por dejar su sello personal, unido a una falta de sensibilidad hist&oacute;rica o a la simple incultura, les lleva mucha veces a una total desvaloralizaci&oacute;n del patrimonio existente </i>(p. 68). Por outro lado, n&atilde;o tem havido vontade de rever e utilizar os instrumentos normativos de actua&ccedil;&atilde;o urbana e metropolitana de forma mais exaustiva e articulada, procurando integrar uma vis&atilde;o de conjunto. Em todo este processo perdeu-se a capacidade de di&aacute;logo entre t&eacute;cnicos, pol&iacute;ticos e popula&ccedil;&atilde;o, pelo que o autor conclui dizendo que &eacute; importante que Barcelona volte a <i>poner a los pol&iacute;ticos y a los t&eacute;cnicos verdaderamente al servicio de los ciudadanos, de sus aspiraciones y de  sus necesidades </i>(p. 106). </p>      <p>O <i>Modelo Barcelona </i>construiu parte importante do que &eacute; hoje Barcelona cidade e metr&oacute;pole. Contudo, de um modelo com manifesta componente social, passou-se para um modelo que sobreleva a vis&atilde;o econ&oacute;mica. O ponto de ruptura parece ser a aprova&ccedil;&atilde;o da candidatura aos Jogos Ol&iacute;mpicos em 1986, construindo-se progressivamente uma cidade voltada para o exterior, em detrimento dos seus habitantes. Se n&atilde;o h&aacute; modelos, h&aacute; ensinamentos &uacute;teis, e de facto a an&aacute;lise cr&iacute;tica do autor conduz a uma reflex&atilde;o sobre o ordenamento que se pretende para outras metr&oacute;poles. Duas quest&otilde;es sobressaem no desenvolvimento de um urbanismo voltado para o projecto urbano. Por um lado, a quest&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Imp&otilde;e-se uma reflex&atilde;o sobre como dever&aacute; ser considerada a participa&ccedil;&atilde;o do cidad&atilde;o num processo que, cada vez mais, promove a gest&atilde;o p&uacute;blico-privada e a perspectiva  econ&oacute;mica. Por outro lado, a quest&atilde;o da escala. O urbanismo operacional faz-se sem uma vis&atilde;o de conjunto &agrave; escala alargada, impondo-se uma importante reflex&atilde;o sobre as incid&ecirc;ncias de tais interven&ccedil;&otilde;es, da escala urbana &agrave; metropolitana. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <a href="#top1">[i]</a><a name="1"></a> Capel H (2005) <i>El modelo de Barcelona.    </i>Ediciones del Serbal, Barcelona. </p>       ]]></body>
</article>
