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</front><body><![CDATA[ <div>       <p align="right"><b>TEXTO</b></p>       <br>       <p><b>&nbsp;</b></p>       <p><b>A Serra<sup>(<a href="#i"><sup>i</sup></a><a name="topi"></a>)</sup>.Comunidade (pequeno bilhete, sete anos depois)</b></p>       <p>&nbsp;</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>Alexandra Lucas Coelho<sup>1 </sup><a href="#ii"><sup>ii</sup></a><a name="topii"></a></b></p>       <p><sup>1</sup> Jornalista </p>       <p><b>&nbsp;</b></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>&nbsp;</b></p>       <p><i>Os estabelecimentos humanos raro sobem at&eacute; aos cumes mais elevados.</i></p>       <p>Orlando Ribeiro</p>       <p>&nbsp;</p>       <p>Ao s&eacute;timo glaciar ficou como est&aacute;. Depois o tempo come&ccedil;ou a trabalhar no granito. Vieram pastores, celtas, e veio o imp&eacute;rio romano, diz-se que at&eacute; J&uacute;lio C&eacute;sar. e quando </p>       <p>O imp&eacute;rio se foi, continuaram a vir n&oacute;madas, transumantes, pastores vestidos de pele e burel, surrobeco e pelica, com manta, cajado, alforge de p&atilde;o, um corno para gordura ou azeitonas, uma aferrada para cozer batatas ou tirar leite. Punham coleiras com picos nos c&atilde;es para os lobos n&atilde;o lhes saltarem ao pesco&ccedil;o. Havia lobos, raposas, javalis, v&iacute;boras, lagartos, &aacute;guias, corvos, trutas nas lagoas e ovelhas nos cov&otilde;es cobertos de erva tenra durante o estio. De abril a Outubro, os rebanhos de todos subiam a serra pastoreados &agrave; vez. Quem tinha 20 ovelhas, pastoreava um dia, quem tinha 40, dois, quem tinha 100, cinco. A isto chamava-se correr a andana ou correr a volta. Quando chegava a noite, os pastores arrumavam os rebanhos nas malhadas, lugar onde os cov&otilde;es est&atilde;o rodeados de rochas, e enrolavam-se na manta, ao abrigo de alguma lapa, at &eacute; &agrave; manh&atilde; seguinte. Dormir dizia-se que era amanhoar. </p>       <p>L&aacute; em cima, despontavam ran&uacute;nculos brancos, sarga&ccedil;os amarelos, campainhas, fetos, zimbro. Fazia-se queijo de ovelha e mel de urze. A terra dava o que d&aacute; no alto, centeio e batata, nos pr&eacute;dios que a gente do vale cultivava, em subidas regulares. Gente de passagem, gado sazonal, era isto. Mas alicerces, n&atilde;o. </p>       <p>At&eacute; que sousa Martins, futuro santo, prop&ocirc;s &agrave; sociedade de Geografia uma expedi&ccedil;&atilde;o &agrave;s alturas. Por volta de 1880, a tuberculose progredia como &#8220;o mal do s&eacute;culo&#8221;, a altitude podia ser a salva&ccedil;&atilde;o e aquela era a serra. O t&iacute;sico alfredo C&eacute;sar Henriques quis ser o primeiro a estabelecer-se, comprovando a pureza de ar e &aacute;gua. H&aacute; fotografias do abrigo que mandou construir debaixo de uma fraga em 1882, num entusiasmo pulmonar. Chamou-lhe Casa da fraga. Foi a primeira de v&aacute;rias, milagrosamente poucas, ao longo do trilho que leva &agrave; lagoa. </p>       <p>O Observat&oacute;rio. A Casa do tel&eacute;grafo, mais tarde do Correio. A Casa de afonso Costa. A Pens&atilde;o Montanha, para 30 doentes, junto &agrave; Cabe &ccedil;a do Preto, uma daquelas pedras com forma humana a que os cientistas chamam antropoglifites. O estado fez a &#8220;pousada exclusivamente destinada a viajantes e excursionistas, com a demora m&aacute;xima de tr&ecirc;s dias (quatro quartos, sala de leitura, quarto de banho, fog&otilde;es) &#8221;, ainda hoje descrita no egr&eacute;gio &#8220;Guia de Portugal&#8221;, e plantou pinheiros, abetos e castanheiros pelas encostas. Apareceu a estrada, a capela e o caf &eacute; que tamb&eacute;m era pens&atilde;o e cria&ccedil;&atilde;o de c&atilde;es. Mas em n&atilde;o querendo, at&eacute; de Ver&atilde;o se ia pelos caminhos sem ver ningu&eacute;m. </p>       <p>Gargantas, circos, ravinas, escadas de gigantes, entaladas. Nomes de pastores: lagoa comprida, escura e do peix&atilde; o, poios brancos e poio do judeu, cov&atilde;o dos c&acirc;ntaros e d&#8217;ametade, da mulher e do urso, do vidual e do bicho, do ferro e das canelas, frag &atilde;o do corvo e do passar&atilde;o, frag&otilde;es das candeeiras, fragas da cruz, da morte, da estrela e da batalha, penhas dos abutres e do gato, moreia do alforfa e do z&ecirc;zere, cabe&ccedil;a do velho e da velha, vale do rossim e das &eacute;guas, seixo branco, mondeguinho. </p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tr&ecirc;s rios a nascer. 147 dias de nevoeiro, 117 de chuva, 35 de neve. </p>       <p>E no inverno, ningu&eacute;m a s&eacute;rio. Os trilhos ficavam cortados durante dias. Quando passou a haver estradas, as estradas ficavam cortadas durante dias. S&oacute; no Observat&oacute;rio havia luz nas casas de granito. Durante anos a gente do Observat&oacute;rio viveu isolada da fam&iacute;lia, rondada por lobos e sem ver gente. O correio era uma mulher que subia a serra a p&eacute; pelo atalho, no meio das feras e do frio. L&aacute; em baixo, no vale, nasciam filhos de cada vez que os do Observat&oacute;rio vinham de visita &agrave; fam&iacute;lia. Mas era dif&iacute;cil falar. O inverno fecha a gente, p&otilde;e-na para dentro. Um homem sozinho no cimo de uma serra torna-se imperme&aacute;vel. Se a sua natureza n&atilde;o o tira dali &eacute; porque a sua natureza tamb&eacute;m &eacute; aquilo. </p>       <p>A gente acrescentava vogais, dizia a i&aacute;gua, o cuarro. S&atilde;o das primeiras palavras de que me lembro. </p>       <p>O frio era escuro e soprava. O calor era branco e cheirava a sab&atilde;o de len &ccedil;&oacute;is a corar ao sol. No Ver&atilde;o, as casas abriam-se pela estrada fora, da Casa da fraga at&eacute; &agrave; lagoa. Um Ver&atilde;o dormimos no sanat&oacute;rio. Tinha muitas casas de banho abandonadas, de um lado e do outro. Noutro Ver&atilde;o dormimos na Casa do Correio. Tinha um rato. De dia, aprend&iacute;amos o tel&eacute;grafo e &agrave; noite a via l&aacute;ctea. Houve o Ver&atilde;o da Casa da Galeria e o Ver&atilde;o da Casa Dividida. O Ver &atilde;o dos 39 Degraus no Caf&eacute; do samuel e o Ver&atilde;o em que as meninas viram aquilo dos rapazes. </p>       <p>Algumas pedras eram grandes como casas. Outras montavam-se como animais. Tinham musgos, e o dorso quente. Nas noites de Lua Cheia, a serra era a Lua, as pedras ficavam brancas. Nas noites de Lua nova, via-se o p&oacute; das estrelas, era o cimo da terra. </p>       <p>Mas quando o turismo come&ccedil;ou a subir, o pico mais alto n&atilde;o era ali, gra &ccedil;as aos c&eacute;us e &agrave; &uacute;ltima glacia&ccedil;&atilde;o. </p>       <p>E a 1380 metros continu&aacute;mos a respirar. </p>       <p>Lisboa, 22 de Julho de 2008 </p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>Comunidade </b>(pequeno bilhete, sete anos depois) </p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Viajei muitas vezes com Orlando Ribeiro. N&atilde;o em pessoa, claro, nem sequer em livro, mas com uma ideia de comunidade. Era o Mediterr&acirc;neo, em todas as suas margens e extens&otilde;es, Ocidente-Oriente. O Levante, essa invoca&ccedil;&atilde;o. </p>       <p>N&atilde;o vem da universidade, n&atilde;o me lembro de o estudar, n&atilde;o sei como num curso de comunica &ccedil;&atilde;o n&atilde;o t&iacute;nhamos uma cadeira de geografia, mas n&atilde;o t&iacute;nhamos. Orlando Ribeiro chegou-me em viagem, veio com os &aacute; rabes, com as oliveiras, saber at&eacute; onde v&atilde;o e como isso nos une, o azeite, o p&atilde;o, o vinho, o queijo, o tomate, o peixe pescado antes de todo este horror, das mortes entre sul e norte, do muro na &aacute;gua, da barb&aacute;rie nas areias onde n&atilde;o mais me sentarei para comer entre barcos, junto a onde o alfabeto nasceu. </p>       <p>Tenho uma pequena primeira edi&ccedil;&atilde;o de <i>Mediterr&acirc;neo, Ambiente e Tradi&ccedil;&atilde;o</i> que queria ter comigo agora, mas estou no interior de Minas Gerais, a milhares de quil&oacute;metros desse mar. E no entanto, vejo nesta serra pedras que levam ao meu come&ccedil;o. Orlando Ribeiro &eacute; a constru&ccedil;&atilde;o de um n&oacute;s, pensamento que conhece a raiz porque a transporta, al&eacute;m, e al &eacute;m, e al&eacute;m, para que seja mais e n&atilde;o menos. Para que todos sejamos mais. </p>       <p>Pedra do Papagaio, 25 de Junho de 2015 </p>       <p>&nbsp;</p>       <p>Recebido: Junho 2015. Aceite: Outubro 2015. </p>       <p>&nbsp;</p>       <p>&nbsp;</p>       <p><b>NOTAS</b></p>       <p>&nbsp;</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#topi"><sup>i</sup></a><a name="i"></a> A primeira parte deste texto (&#8220;A Serra&#8221;) saiu em 2008 na revista <i>Ego&iacute;sta</i>. </p>       <p><a href="#topii"><sup>ii</sup></a><a name="ii"></a> <b>Alexandra Lucas Coelho</b> nasceu em Lisboa. Tem carteira de jornalista desde Janeiro de 1987. Publicou cinco livros: &#8220;Oriente Pr&oacute;ximo&#8221; (2007), &#8220;Caderno afeg&atilde;o&#8221; (2009), &#8220;Viva M&eacute;xico&#8221; (2010), &#8220;tahrir&#8221; (2011) e &#8220;Vai, Brasil&#8221; (2013). Em 2012 lan&ccedil;ou o seu primeiro romance, &#8220;e a noite roda&#8221; e em 2014 o segundo, &#8220;O Meu amante de Domingo&#8221;. </p> </div>      ]]></body>
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