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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A geógrafa Isabel André: Notas de testemunho de um percurso inovador, brilhante e livre]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de Évora Departamento de Geociências ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>COMENTÁRIO DE AUTOR</b></p>  <br/>       <p>       <p ><b>&nbsp;</b></p>   <b>A geógrafa Isabel André: </b><i>Notas de testemunho de um percurso inovador, brilhante e livre</i><a name="topi"></a><a href="#i"><sup>i</sup></a></b>        <p ><b>&nbsp;</b></p>       <p ><b>&nbsp;</b></p>   <b>Patrícia Pedro Rêgo<sup>1</sup></b></p>       <p ><sup>1</sup>Professora Auxiliar, Departamento de Geociências, Universidade de Évora, Colégio Luís António Verney, Rua Romão Ramalho, 59 7000-671 Évora. E-mail: <a  href="mailto:patrego@uevora.pt">patrego@uevora.pt</a> </p>      <blockquote>     <p>Se eu tiver que morrer    <br> Vou morrer pela vida!</blockquote> </p>      <blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Vinicius de Moraes</i></blockquote> </p>         <p ><b>&nbsp;</b></p>       <p ><b>&nbsp;</b></p>       <p>Isabel André faz parte da geração  entusiasta que chegou ao Departamento de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no imediato pós-25 de Abril de 74.</p>     <p>Espírito brilhante, vivo, confiante e  amante dos debates, impôs os seus pontos de vista e interessou-se geograficamente pelas novas temáticas sociais que o contexto revolucionário fazia chegar à Academia nesses anos de formação.</p>     <p>Pioneira em muitas iniciativas e decisões, desde logo na maternidade que abraçou no limiar da idade adulta, antes ainda de chegar à Universidade, Isabel André associava a paixão à racionalidade numa  medida desconhecida para a maioria dos seus contemporâneos. Exemplo da harmonização surpreendente entre um pensamento racional de que não abdicava (dizia, com frequência, &#8220;vou pensar no assunto&#8230;&#8221;) e o  entusiasmo, a paixão, perante cada nova descoberta (os novos conceitos, as interacções que se evidenciavam, os actores em presença, o papel dos lugares&#8230;), a sua forma de viver traduziu-se na afirmação da integridade,  evidenciada no seu percurso pessoal e profissional, e expressa num exercício constante de liberdade. Havia na Isabel André a generosidade da partilha das suas experiências e dos seus projectos com os outros, convocando-os para o  seu círculo próximo, numa medida maravilhosa, didáctica e incentivadora, embora adepta da autonomia de cada uma e de cada um. A sua vivência integradora, particularmente atenta aos mais jovens, beneficiou os seus alunos, os  discípulos, a família, os amigos. Era, contudo, exigente porque queria construir um caminho novo.</p>      <p>Desde muito cedo (finais dos anos 70) Isabel André colaborou na investigação, no  Centro de Estudos Geográficos, na linha de acção Estudos para o Planeamento Regional e Urbano. A economia e a política sempre a interessaram e, para além do contributo em projectos de planeamento, colaborou nos estudos pioneiros  na temática da Geografia Eleitoral a que dedicou, aliás, a sua tese de mestrado em 1984. </p>      <p>Foram anos de encantamento, esses anos de formação em que a Escola de Lisboa era  bafejada pelas novas correntes de pensamento que envolviam os estudantes de várias gerações, ao mesmo tempo que se beneficiava da presença dos mais velhos mestres. </p>     <p>Foi nas  primeiras aulas do Curso de Geografia que conheci a Isabel Margarida, uma inteligência generosa, aberta à amizade e à partilha, num momento em que todos nós, jovens estudantes, nos fascinávamos com a Geografia e com tudo aquilo  que através dela aspirávamos concretizar, do ponto de vista profissional.</p>      <p>Amante da escola, de aprender mas também da reflexão sobre o modo de transmitir conhecimento, iniciou,  em 1980, o percurso profissional na Academia, como docente no Departamento de Geografia na Universidade de Lisboa. Um pouco mais tarde (1992), partilhou com colegas e amigos a experiência do planeamento, da consultoria e da  avaliação de políticas públicas na empresa <i>Geoideia</i>. Esta iniciativa proporcionou à Isabel Margarida o alargamento da sua rede de amigos ao mesmo tempo que diversificou a sua experiência profissional. Alguns desses amigos  acompanharam sempre a sua vida, nomeadamente porque para além de um trabalho ou de um estudo específico foi tecendo relações humanas que fidelizou. Assim, também através dos amigos desenvolveu a sua ligação estreita a lugares  (cidades) particulares que, além de Lisboa, fazem parte da sua geografia pessoal: Barcelona, Bruxelas, Madrid, Paris, Montreal, Horta, Montemor-o-Novo&#8230;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A construção do seu  percurso académico é marcada pelos temas de investigação inovadores, ligados às suas vivências, preocupações ou sensibilidade pessoal. É, naturalmente, o caso da sua dissertação de doutoramento em Geografia Humana, pela  Universidade de Lisboa (1994), intitulada &#8220; O falso neutro em Geografia Humana: género e relação patriarcal no emprego e no trabalho doméstico&#8221;. Para além de ser um estudo pioneiro na Geografia do Género, esta tese  recebeu um prémio numa cerimónia a que assisti, na Biblioteca Municipal do Palácio Galveias, no Campo Pequeno. Contudo, o facto não aparece no currículo e, assim, todos temos dificuldade de nomear a distinção. Recordo ainda que  o prémio incluía o interesse na publicação da dissertação mas, fruto da característica da Isabel Margarida em focar-se na investigação seguinte, uma vez terminados os trabalhos desenvolvidos, a iniciativa não se concretizou.</p>      <p>Os estudos de género conferiram o maior reconhecimento à Isabel Margarida, durante a sua vida académica. Assim, por exemplo, em projectos internacionais onde participou, mesmo não  sendo essa a temática central do seu contributo, era solicitada como especialista das ciências sociais nos estudos de género. Depois, numa sequência natural, alargou a sua investigação de Geografia Social à saúde reprodutiva da  mulher, aos maus tratos às crianças e jovens, ao abandono escolar. Estas temáticas, em que as crianças e a família estão no centro da reflexão, são-lhe caras até porque as crianças voltam a estar muito presentes na sua vida por  via da chegada dos netos, na viragem do século. Quanto a estes estudos, decorrem de uma longa parceria com investigadores do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, iniciada em 1995. </p>       <p>Antes de mais professora, associava cada cara familiar, percepcionada num encontro fora da Universidade, a um aluno de geografia<a name="topii"></a><a href="#ii"><sup>ii</sup></a>.  Entretanto, testemunhei, por diversas vezes, antigos alunos que se lhe dirigiam na rua, fazendo referência entusiasta às suas aulas e ao seu contributo para o interesse em estudar  geografia.</p>      <p>Os temas ligados ao ensino e às metodologias de investigação, com particular interesse nos instrumentos metodológicos destinados a estimular os processos de  aprendizagem activa, o pensamento crítico e as metodologias participativas, foram trabalhados em estreita relação e parceria com outros colegas do ex-departamento de Geografia da Faculdade de Letras, entretanto integrado no  Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT-UL). Adepta da inovação, e confiante no futuro, viveu com entusiasmo a autonomização da Geografia e com dedicação a criação do Instituto, em 2009.</p>      <p>Desde 2004, com os projectos que liderou e em que participou, quer nacionais como europeus, a sua investigação orientou-se para os processos de inovação sócio-territorial e o desenvolvimento urbano,  para as práticas de governança socialmente inovadoras, para o estudo do papel da cultura e das artes na regeneração dos lugares.</p>      <p>Estes novos e fortes interesses de pesquisa  resultaram do encontro com outros colegas investigadores, quer no Centro de Estudos Geográficos, quer na Newcastle University e KU Leuven. O sucesso da nova etapa deveu-se tanto às qualidades de liderança da Isabel Margarida,  como ao facto de ter sabido congregar à volta destes temas um conjunto ímpar de jovens bolseiros de investigação: o Alexandre Abreu, o André Carmo, a Ana Estevéns, o Leandro Gabriel.</p>      <p>O notável percurso geográfico da Isabel Margarida André foi sendo solidamente construído através de problematizações que se foram sucedendo, como tentei exemplificar. Não foi um caminho solitário e  tive o enorme privilégio de fazer parte dos que a acompanharam desde o início. Gostávamos muito uma da outra. Eu adorava a sua inteligência, o seu entusiasmo, a sua decisão, o modo como geria o tempo. Com ela tudo parecia  possível. O convite que me foi endereçado para escrever esta nota é a primeira oportunidade que tenho de fazer uma reflexão sobre a vida da minha amiga de sempre, de ganhar sobre ela uma nova perspectiva que a engrandece porque  o seu legado à Geografia é muito significativo. E agora? Só temos que retomar a leitura dos seus textos, recordar a universalidade do seu espírito e continuar caminhando. </p>         <p ><b>&nbsp;</b></p>     <p ><b>&nbsp;</b></p>      <p><b>NOTAS </b></p>   <a name="i"></a><a href="#topi"><sup>i</sup></a> Agradeço ao geógrafo Fernando João Moreira, companheiro de vida da Isabel André, a generosidade de ter sido o primeiro leitor deste texto e os seus comentários. </p> <a name="ii"></a><a href="#topii"><sup>ii</sup></a> O Fernando João Moreira contava o episódio do reconhecido jogador de futebol a quem a Isabel Margarida perguntou, num  hotel de Liubliana, &#8220;foi meu aluno&#8230;?&#8221;.</p>      ]]></body>
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