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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Projected as the final conference in a Symposium on “Philosophy in the Academy”, this article addresses the subject of “Philosophy beyond Academy”. The objective is above all to show how philosophy transcends the usual academic references. Philosophy encompasses logic, ethics, epistemology, aesthetics, but it is mainly inhabited by wisdom: it is in accordance with existence. Therefore, philosophy is “a discursive practice holding life as its object, reason as its means and happiness as its end”. Thus, more than how to learn philosophy, it is important to learn how to philosophize.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p> <b>A filosofia para al&eacute;m da academia</b> </p>     <p> <b>Philosophy beyond academy</b> </p>      <p> <b>Ac&iacute;lio da Silva Estanqueiro Rocha*</b> </p>     <p> *Universidade do Minho, Centro de Estudos Human&iacute;sticos, Braga, Portugal </p>      <p><a href="mailto:acilio@ilch.uminho.pt">acilio@ilch.uminho.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>     <p> Num Simp&oacute;sio sobre “A Filosofia na Academia”, importa, no seu encerramento, versar o tema “A Filosofia para al&eacute;m da Academia”. O objectivo &eacute; sobretudo mostrar como a filosofia transcende as refer&ecirc;ncias acad&eacute;micas habituais. Ela abrange a l&oacute;gica, a &eacute;tica, o conhecimento, a est&eacute;tica, mas &eacute; sabedoria que a preenche: ela est&aacute; aqui em un&iacute;ssono com a exist&ecirc;ncia. Ent&atilde;o, a filosofia &eacute; “uma pr&aacute;tica discursiva que tem a vida por objecto, a raz&atilde;o por meio e a felicidade por fim”. Por isso, mais que aprender filosofia, importa aprender a filosofar. </p>     <p><b>Palavras-chave</b>: Filosofia, Ironia, Modo de Viver, Exist&ecirc;ncia, Conhecimento, Sabedoria.</p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>ABSTRACT</b> </p>     <p> Projected as the final conference in a Symposium on “Philosophy in the Academy”, this article addresses the subject of “Philosophy beyond Academy”. The objective is above all to show how philosophy transcends the usual academic references. Philosophy encompasses logic, ethics, epistemology, aesthetics, but it is mainly inhabited by wisdom: it is in accordance with existence. Therefore, philosophy is “a discursive practice holding life as its object, reason as its means and happiness as its end”. Thus, more than how to learn philosophy, it is important to learn how to philosophize. </p>     <p><b>Keywords</b>: Philosophy, Irony, Way of Life, Existence, Epistemology, Wisdom.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p>&Eacute; com um misto de j&uacute;bilo e de emo&ccedil;&atilde;o que procedo &agrave; honrosa incumb&ecirc;ncia de encerrar este IX&ordm; Simp&oacute;sio Luso-Galaico de Filosofia<sup><a href="#1" name="top1">[1]</a></sup>, sobre “A Filosofia na Academia”, este ano realizado no <i>campus</i> de Gualtar da Universidade do Minho, precisamente no Audit&oacute;rio do Instituto de Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas. Achei por bem, tratando-se do acto de encerramento, considerar o tema “A Filosofia para al&eacute;m da Academia”.</p>      <p><i>a) “A filosofia n&atilde;o &eacute; uma doutrina, mas uma actividade”</i></p>      <p>Clarifiquemos este ponto de partida: a inevitabilidade da filosofia radica na natureza do ser humano; por isso mesmo, n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio que o estudioso de filosofia esteja na Academia, mas que se interesse por assuntos t&atilde;o pregnantes como a linguagem e o conhecimento, a moral e a &eacute;tica, a religi&atilde;o, a pol&iacute;tica, o direito, a arte, temas e problemas cient&iacute;ficos, e em torno deles deseje, com disponibilidade para o di&aacute;logo e o debate, ampliar a sua capacidade cognoscitiva e raciocinativa. No fundo, como afirma Wittgenstein, "a filosofia n&atilde;o &eacute; uma doutrina, mas uma actividade"<sup><a href="#2" name="top2">[2]</a></sup>.Poder&aacute; ainda asseverar-se como a filosofia estrutura todas esses temas, e contribui, com as suas exig&ecirc;ncias de l&oacute;gica, para que o pensamento n&atilde;o se apresente como inarticulado, ilus&oacute;rio ou falacioso; e, al&eacute;m disso, ser-lhe-&aacute; poss&iacute;vel ir ainda mais al&eacute;m, afora da causalidade dos factos, habilitando-se a imaginar, a criar, no exerc&iacute;cio da sua capacidade de pensar – o que se revela imprescind&iacute;vel quando se quer ser feliz e viver autenticamente.</p>      <p>Apraz-me rememorar o testemunho de Epicuro, bem expresso nesta sua Carta: "Epicuro a Meneceu, sauda&ccedil;&otilde;es. Que ningu&eacute;m hesite em dedicar-se &agrave; filosofia enquanto jovem, nem se canse de o fazer depois de velho, porque ningu&eacute;m &eacute; demasiado jovem nem muito velho para desenvolver a sa&uacute;de do esp&iacute;rito. Ora, quem disser que a sua hora de filosofar ainda n&atilde;o chegou, ou que ela j&aacute; passou, assemelhar-se-&aacute; a um homem que diz que &eacute; demasiado cedo ou demasiado tarde para a felicidade. Logo, tanto o jovem como o velho devem filosofar: este, para que permane&ccedil;a jovem, na grata frui&ccedil;&atilde;o do bem que o passado lhe ofertou; aquele, para que possa encarar sem receios o futuro, e com isso conseguir ser, a um tempo, jovem e velho. Por conseguinte, &eacute; preciso reflectir sobre as causas que podem produzir a felicidade: se a tivermos, temos tudo, mas se n&atilde;o a tivermos, tudo faremos para a possuir"<sup><a href="#3" name="top3">[3]</a></sup>. Na verdade, trata-se de uma atitude t&atilde;o v&aacute;lida no s&eacute;culo III a.C., em Atenas, como no dealbar do s&eacute;culo XXI, em qualquer parte do mundo.</p>      <p>A reflex&atilde;o filos&oacute;fica permite, pois, que aquele que a exerce possa expandir os seus conhecimentos, podendo relacion&aacute;-los com outras &aacute;reas do saber, avaliando o passado, discernindo o presente ou modelando o futuro, como sujeito que pensa e age, ciente de seus limites e possibilidades. Na situa&ccedil;&atilde;o actual, caracterizada, como adiante diremos, pela profus&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es, por uma intromiss&atilde;o ininterrupta e por vezes desabrida dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, abrindo horizontes &eacute; certo, mas originando tamb&eacute;m – quantas vezes – um crescente confusionismo, a capacidade cr&iacute;tica de esclarecer-se e de esclarecer &eacute; hoje mais importante que nunca.</p>      <p>Por isso mesmo, um facto indesment&iacute;vel nos nossos dias &eacute; a sedu&ccedil;&atilde;o exercida por problemas e escritos de filosofia, apesar da aparente extenua&ccedil;&atilde;o dos grandes sistemas filos&oacute;ficos neste in&iacute;cio de s&eacute;culo. Compreende-se: antes de mais, a filosofia configura-se naquilo que Husserl denominou <i>Lebenswelt</i> ou “mundo da vida”; ela indaga as virtualidades humanas da exist&ecirc;ncia; a filosofia &eacute;, constitutivamente, necess&aacute;ria &agrave; condi&ccedil;&atilde;o humana, porque os fins da vida humana n&atilde;o s&atilde;o os bens materiais, mas os ideais da exist&ecirc;ncia, as modula&ccedil;&otilde;es da cultura, os procedimentos e meios &eacute;ticos para o desenvolvimento harm&oacute;nico da autonomia, num contexto de liberdade dos humanos.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>b) “&Eacute; a </i>admira&ccedil;&atilde;o<i> que impele ao conhecimento”</i></p>      <p>Arist&oacute;teles – o “Mestre dos que sabem”, como se lhe referiu Dante na <i>Divina Com&eacute;dia</i> – cuidou tamb&eacute;m de defender a indispensabilidade da filosofia: "Ou n&atilde;o &eacute; preciso filosofar ou deve-se filosofar; se deve filosofar-se, h&aacute; que filosofar; se n&atilde;o &eacute; preciso filosofar, para o mostrar, h&aacute; ainda que filosofar"<sup><a href="#4" name="top4">[4]</a></sup>. Estamos perante uma argumenta&ccedil;&atilde;o cuja for&ccedil;a est&aacute; tanto mais na posi&ccedil;&atilde;o negativa – "n&atilde;o &eacute; preciso filosofar" – quanto ela carece da prova pertinente: s&oacute; <i>filosofando</i> &eacute; poss&iacute;vel defender tal posi&ccedil;&atilde;o, que o mesmo &eacute; defender a inevitabilidade da filosofia. E – de acordo ainda com o Estagirita – &eacute; a <i>admira&ccedil;&atilde;o</i> que impele ao conhecimento; por esta, os indiv&iacute;duos tornam-se conscientes da sua ignor&acirc;ncia: &eacute; por amor ao conhecimento que se busca conhecer e n&atilde;o por qualquer interesse trivial: "Foi, com efeito, pela admira&ccedil;&atilde;o que os homens, assim hoje como no come&ccedil;o, foram levados a filosofar, sendo primeiramente abalados pelas dificuldades mais &oacute;bvias, e progredindo em seguida pouco a pouco at&eacute; resolverem problemas maiores: por exemplo, os fen&oacute;menos da lua, os do sol e das estrelas e a g&eacute;nese do universo. Ora, perceber uma dificuldade e admirar-se &eacute; reconhecer a pr&oacute;pria ignor&acirc;ncia; por isso, tamb&eacute;m quem ama os mitos &eacute;, de certa maneira, fil&oacute;sofo, porque o mito resulta do maravilhoso. Pelo que, se foi para fugir &agrave; ignor&acirc;ncia que filosofaram, claro est&aacute; que procuraram a ci&ecirc;ncia pelo desejo de conhecer, e n&atilde;o em vista de qualquer utilidade"<sup><a href="#5" name="top5">[5]</a></sup>. A relev&acirc;ncia da admira&ccedil;&atilde;o est&aacute; bem presente na emerg&ecirc;ncia do “esp&iacute;rito filos&oacute;fico”.</p>      <p>Todavia, satisfeita a admira&ccedil;&atilde;o, por via do saber, logo surge a d&uacute;vida, pois o processo cognoscitivo somente se desenvolve mediante a comprova&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica. O conhecimento n&atilde;o se d&aacute; de forma f&aacute;cil, imediata, por simples observa&ccedil;&atilde;o da realidade ou no contacto com o conhecimentos pr&eacute;vios: todos e cada um de n&oacute;s descobrimo-nos num mundo em que a exist&ecirc;ncia &eacute; sentir, pensar e agir; e esta exist&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; uma exist&ecirc;ncia tranquila: &eacute; uma exist&ecirc;ncia problem&aacute;tica. Podemos dizer que a filosofia manifesta-se como tal quando os seres humanos exigem justifica&ccedil;&otilde;es <i>racionais</i> que validem ou invalidem as cren&ccedil;as quotidianas. Ora, tal racionalidade implica uma tr&iacute;plice exig&ecirc;ncia: desde logo, racional na medida em que algo &eacute; argumentado, debatido e compreendido; depois, racional porque &eacute; argumentando e debatendo que se conhecem as condi&ccedil;&otilde;es e os pressupostos dos nossos pensamentos e os dos outros; por fim, racional significa respeitar certas regras de l&oacute;gica e coer&ecirc;ncia do pensamento para que um argumento tenha sentido, se chegue a conclus&otilde;es suscept&iacute;veis de serem discutidas, reflectidas e compreendidas tamb&eacute;m pelos outros.</p>      <p><i>c)</i> “‘Sapere aude!’<i> Tem a coragem de fazer uso do teu pr&oacute;prio entendimento!</i>”</p>      <p>Ter&aacute; sido tamb&eacute;m a admira&ccedil;&atilde;o em ver a &aacute;gua mudar de estado que sugeriu a Tales de Mileto ser ela a for&ccedil;a original criadora de todos os seres. Mas h&aacute; uma velha hist&oacute;ria sobre Tales que Plat&atilde;o recolhe no <i>Teeteto</i> e que ao longo dos tempos serviu para ilustrar as incompreens&otilde;es que o “esp&iacute;rito contemplativo” provocava entre os encomiavam a “pr&aacute;tica” e o “realismo”. "Tal como, quando Tales observava os astros e olhava para cima, caiu num po&ccedil;o. Conta-se que uma bela e graciosa serva tr&aacute;cia disse uma piada a prop&oacute;sito, visto, na &acirc;nsia de conhecer as coisas do c&eacute;u, deixar escapar o que tinha &agrave; frente, debaixo dos p&eacute;s. Esta gra&ccedil;a serve para todos os que se dedicam &agrave; filosofia"<sup><a href="#6" name="top6">[6]</a></sup>. De certo modo, o encontro entre Tales e a jovem tr&aacute;cia compendiar&aacute; todas as tens&otilde;es e incompreens&otilde;es entre o mundo da vida e a teoria, desde Arist&oacute;fanes (dramaturgo grego, tido como o maior representante da com&eacute;dia antiga), a Moli&egrave;re, um dos mestres da com&eacute;dia sat&iacute;rica, a quem se deve o c&eacute;lebre dito “ridendo castigat mores” (a rir se castigam os costumes), at&eacute; a contemporaneidade.</p>      <p>No entanto, &eacute; curioso verificar que Arist&oacute;teles transmite de Tales um epis&oacute;dio de sinal contr&aacute;rio: "Tomemos como exemplo o que se conta acerca de Tales de Mileto (…). Consta que o censuravam por ser pobre, atribuindo isso &agrave; inutilidade da filosofia. O facto &eacute; que, devido aos seus conhecimentos de astronomia, previu a proximidade de uma boa colheita de azeite; quando ainda era Inverno, alugou com o pouco de dinheiro que tinha todos ao lagares de Mileto e Quios, gastando apenas uma pequena soma, j&aacute; que n&atilde;o havia outras ofertas mais avultadas. Quando chegou o tempo da colheita, e porque muita gente acudiu ao mesmo tempo e com urg&ecirc;ncia &agrave; busca de lagares, arrendou-os ao pre&ccedil;o que bem entendeu, n&atilde;o s&oacute; obtendo uma soma elevada de dinheiro como provando que era f&aacute;cil, para os fil&oacute;sofos, tornarem-se ricos se o desejassem, embora n&atilde;o fosse essa, de facto, a meta das suas aspira&ccedil;&otilde;es. Tales ter&aacute; dado, assim, ao que consta, prova inequ&iacute;voca da sua sabedoria"<sup><a href="#7" name="top7">[7]</a></sup>. Como sabemos, Arist&oacute;teles distingue bem entre o “mero viver” e o “viver bem”: importa n&atilde;o olvidar que este envolve duas dimens&otilde;es – a actividade moral e a intelectiva.</p>      <p>Tales de Mileto foi denominado o protofil&oacute;sofo, por ser o primeiro a buscar um fundamento de toda a realidade (<i>arch&eacute;</i>), que, segundo ele, &eacute; a “&aacute;gua”. A filosofia suspeita sempre dos meros acasos; a ess&ecirc;ncia da filosofia &eacute; a busca de um fundamento, isto &eacute;, a <i>raz&atilde;o de ser</i> das coisas. Dar-nos a consci&ecirc;ncia disso mesmo, dar-nos uma certa ideia do limite que n&atilde;o somos capazes de franquear &eacute; aquilo que Kant pretendeu fazer com a sua filosofia cr&iacute;tica; neste sentido, Kant converteu-se no melhor advogado de Tales face ao atrevimento da bela jovem tr&aacute;cia, e inverte os pap&eacute;is: j&aacute; n&atilde;o &eacute; a realidade terrena que nos conduz ao realismo, mas sim a teoria, a reflex&atilde;o cr&iacute;tica, ao mostrar a futilidade e a pequenez do imediato<sup><a href="#8" name="top8">[8]</a></sup>. Esta &eacute; a atitude cr&iacute;tica, que se funda na raz&atilde;o iluminista kantiana segundo a qual todas as produ&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas devem passar pelo crivo da reflex&atilde;o.</p>      <p>Segundo Kant, "<i>o Iluminismo </i>[Aufkl&auml;rung]<i> &eacute; a sa&iacute;da do homem de sua menoridade, pela qual ele pr&oacute;prio &eacute; respons&aacute;vel</i>. A <i>menoridade</i> &eacute; a incapacidade de se servir do entendimento sem a orienta&ccedil;&atilde;o de outrem. &Eacute; a si pr&oacute;prio que deve atribuir-se essa menoridade, uma vez que ela n&atilde;o resulta da falta de entendimento, mas da falta de decis&atilde;o e de coragem para usar o pr&oacute;prio entendimento sem a orienta&ccedil;&atilde;o de outrem. <i>Sapere aude!</i> Tem a coragem de fazer uso do teu pr&oacute;prio entendimento! Eis o lema do Iluminismo [<i>Aufkl&auml;rung</i>]"<sup><a href="#9" name="top9">[9]</a></sup>. Neste sentido, a Ilustra&ccedil;&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m a esperan&ccedil;a de que os humanos, por meio do uso da raz&atilde;o, se libertem da opress&atilde;o da supersti&ccedil;&atilde;o, da ignor&acirc;ncia e da autoridade, fontes de heteronomia; mas somente pelo uso cr&iacute;tico da raz&atilde;o &eacute; que ser&aacute; poss&iacute;vel a libera&ccedil;&atilde;o dessas heteronomias, possibilitando-se experi&ecirc;ncias de autonomia.</p>      <p><i>d) “O</i> <i>homem</i> &eacute; o &uacute;nico <i>animal que ri”</i></p>      <p>No entanto, o <i>rir</i> manifesta uma outra dimens&atilde;o que supera o comportamento vulgar da jovem escrava tr&aacute;cia. &Eacute; a “raz&atilde;o ir&oacute;nica” que pode transcender a “raz&atilde;o cr&iacute;tica” quanto &agrave; sua capacidade subversiva: numa cultura que j&aacute; absorveu a cr&iacute;tica at&eacute; a tornar inofensiva, a ironia pode tornar-se o &uacute;nico recurso por domesticar; e talvez seja mesmo a forma de resist&ecirc;ncia que menos precisa de certezas.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na verdade, a raz&atilde;o tem algo a ver com estas situa&ccedil;&otilde;es-limite, porque ela &eacute; tamb&eacute;m uma faculdade que subjaz a estas dificuldades e em que o riso e o choro podem ser a sua sublima&ccedil;&atilde;o. Ora, interroga-se Henri Bergson, no seu livro intitulado precisamente <i>O Rir:</i> "Como &eacute; poss&iacute;vel que um facto t&atilde;o importante, na sua simplicidade, n&atilde;o tenha merecido aten&ccedil;&atilde;o mais aturada dos fil&oacute;sofos?"<sup><a href="#10" name="top10">[10]</a></sup>. Todavia, remonta a Arist&oacute;teles a afirma&ccedil;&atilde;o de que "o <i>homem</i> &eacute; o &uacute;nico <i>animal que ri</i>"<sup><a href="#11" name="top11">[11]</a></sup>, tornando o ris&iacute;vel uma prerrogativa humana; mas, para al&eacute;m de Bergson, tamb&eacute;m Freud, Victor Hugo, Baudelaire, Kierkegaard, Nietszche, Jank&eacute;levitch, entre outros, foram fil&oacute;sofos que tomaram a s&eacute;rio a significa&ccedil;&atilde;o humana do rir.</p>      <p>Com efeito, "n&atilde;o h&aacute; comicidade fora do que &eacute; propriamente <i>humano</i>. Uma paisagem poder&aacute; ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia; nunca ser&aacute; ris&iacute;vel. Riremos de um animal, mas porque nele teremos surpreendido uma atitude de homem ou certa express&atilde;o humana. Riremos de um chap&eacute;u, mas o que se ridiculariza n&atilde;o &eacute; o peda&ccedil;o de feltro ou palha, mas a forma que os homens lhe deram, o capricho humano de que ele tomou o molde". (…) V&aacute;rios definiram o homem como “um animal que sabe rir”. Poderiam tamb&eacute;m bem ter podido defini-lo como um animal que faz rir, pois se outro animal o conseguisse, ou algum objecto inanimado, seria por semelhan&ccedil;a com o homem, pela marca que o homem a&iacute; imprime ou pelo uso que o homem faz dele"<sup><a href="#12" name="top12">[12]</a></sup>. O rir &eacute;, pois, um acto especificamente humano.</p>      <p>Rimo-nos ainda quando se percebe, em situa&ccedil;&otilde;es concretas, que h&aacute; uma substitui&ccedil;&atilde;o das respostas adequadas e previs&iacute;veis por respostas mec&acirc;nicas e r&iacute;gidas: "Numa sociedade de puras intelig&ecirc;ncias, provavelmente n&atilde;o se choraria mais, mas talvez se risse ainda; enquanto almas invariavelmente sens&iacute;veis, harmonizadas em un&iacute;ssono com a vida, onde qualquer acontecimento se prolongaria em resson&acirc;ncia sentimental, n&atilde;o conheceriam nem compreenderiam o rir"<sup><a href="#13" name="top13">[13]</a></sup>. A vida estimula em todos os seres vivos uma capacidade de adapta&ccedil;&atilde;o mediante mecanismos de resposta com vista &agrave; normalidade dos comportamentos.</p>      <p>Por isso mesmo, Henri Bergson conecta o riso com a vida: "A nossa escusa, para abordar o problema, &eacute; que n&atilde;o teremos em vista encerrar a fantasia c&oacute;mica numa defini&ccedil;&atilde;o. Vemos nela, acima de tudo, algo de vivo. Por mais ligeira que ela seja, trat&aacute;-la-emos com o respeito que se deve &agrave; vida. Limitar-nos-emos a v&ecirc;-la crescer e a desabrochar. De forma em forma, por grada&ccedil;&otilde;es insens&iacute;veis diante de nossos olhos, ela realizar&aacute; singulares metamorfoses. N&atilde;o desprezaremos nada do que virmos. Talvez, ali&aacute;s, com esse contacto ass&iacute;duo, ganhemos alguma coisa mais flex&iacute;vel que uma defini&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica: um conhecimento pr&aacute;tico e &iacute;ntimo, como o que nasce de longa camaradagem"<sup><a href="#14" name="top14">[14]</a></sup>. Se &eacute; verdade que se trata de um fen&oacute;meno fisiol&oacute;gico atrav&eacute;s de movimentos do corpo, a sua origem est&aacute; ligada ao esp&iacute;rito: "O c&oacute;mico exige, enfim, para produzir todo o seu efeito, algo como uma anestesia moment&acirc;nea do cora&ccedil;&atilde;o. Ele dirige-se &agrave; pura intelig&ecirc;ncia"<sup><a href="#15" name="top15">[15]</a></sup>. Na sua g&eacute;nese est&aacute; uma interpreta&ccedil;&atilde;o a prop&oacute;sito de uma certa situa&ccedil;&atilde;o, sejamos nela part&iacute;cipes ou apenas espectadores.</p>      <p>N&atilde;o admira que o rir e a alegria sejam centrais tamb&eacute;m no pensamento de Nietzsche, e nisso ser&aacute; seguido por Bergson. Por exemplo, o pr&oacute;prio t&iacute;tulo do livro <i>A Gaia Ci&ecirc;ncia </i>[“Le Gai Savoir”, <i>O Alegre Saber</i>] expressa essa dimens&atilde;o. Em <i>Para Al&eacute;m do Bem e do Mal, </i>chega a reivindicar que se fa&ccedil;a uma hierarquia dos fil&oacute;sofos a partir da qualidade e intensidade de suas risadas: "N&atilde;o obstante aquele fil&oacute;sofo que, como bom ingl&ecirc;s, procurou criar, em todas as cabe&ccedil;as pensantes, uma m&aacute; reputa&ccedil;&atilde;o do riso – “O riso &eacute; um defeito da natureza humana, que qualquer cabe&ccedil;a pensante se dever&aacute; esfor&ccedil;ar por superar” (Hobbes) –, gostaria de me permitir estabelecer uma classifica&ccedil;&atilde;o dos fil&oacute;sofos, de acordo com o n&iacute;vel do seu riso (…)"<sup><a href="#16" name="top16">[16]</a></sup>. A verdade &eacute; que o rir apenas ocorre entre os humanos e &eacute; sempre sinal de uma certa jovialidade interiormente desfrutada.</p>      <p>O riso enaltecido por Nietzsche, sobretudo n’<i>A Gaia Ci&ecirc;ncia </i>e em <i>Assim falava Zaratustra</i>, ao lado da sua vertente cr&iacute;tica, possui igualmente um profundo car&aacute;cter afirmativo e criador, que n&atilde;o estar&aacute; presente na teoria bergsoniana. No entanto, em conson&acirc;ncia com Bergson, Nietzsche enfatiza no aforisma 327 d’<i>A Gaia Ci&ecirc;ncia</i>, que o que poderia despertar o riso &eacute; a pat&eacute;tica situa&ccedil;&atilde;o do homem que se tornou pe&ccedil;a de um esquema maquinal pr&eacute;-existente e desprovido de vitalidade, a que ele simplesmente se adequou de modo passivo e irreflectido. Mostra-o logo na ep&iacute;grafe que criou para figurar na primeira p&aacute;gina d’<i>A Gaia Ci&ecirc;ncia: </i>"Moro na<i>minha pr&oacute;pria casa</i><i>,/</i><i>Nunca imitei</i> nada em algu&eacute;m./E <i>rio</i>-me de <i>todos</i>os <i>mestres</i>,/Que<i>nunca se riram</i>de <i>si tamb&eacute;m</i><i>.</i> (<i>Inscri&ccedil;&atilde;o</i>por <i>cima</i>da <i>minha porta</i>)"<sup><a href="#17" name="top17">[17]</a></sup>.</p>      <p>Morar na sua pr&oacute;pria casa &eacute; reconhecer-se como <i>singular</i>, n&atilde;o imitar a outrem, n&atilde;o reproduzir gestos mec&acirc;nicos e viciosos (como Bergson mostrar&aacute; no cap&iacute;tulo III do seu livro). Ou seja, &eacute; manter-se atento &agrave;s demandas e mudar de acordo com as exig&ecirc;ncias vitais e n&atilde;o pura e simplesmente acatar e adequar-se comodamente &agrave; rigidez de esquemas pr&eacute;-estabelecidos. O mestre que nunca ri de si &eacute; um mestre preconceituoso, portanto inconscientemente ris&iacute;vel devido &agrave; cristaliza&ccedil;&atilde;o de suas ideias que n&atilde;o s&atilde;o revistas, repensadas, por terem assumido contornos absolutos com pretens&otilde;es de perenidade. J&aacute; o "mestre que ri de si" n&atilde;o se vincula &agrave; falsa seguran&ccedil;a de algum pensamento pretensamente inquestion&aacute;vel; ao inv&eacute;s, mant&eacute;m-se atento ao devir da vida e &agrave;s potenciais perspectivas por explorar.</p>      <p><i>Assim falava Zaratustra </i>&eacute; dos escritos em que Nietzsche p&ocirc;s em pr&aacute;tica o compromisso assumido n’<i>A Gaia Ci&ecirc;ncia</i>. Certamente &eacute; contra estes “mestres que n&atilde;o riem de si”, express&otilde;es do “esp&iacute;rito de gravidade” – Sartre dir&aacute; mais tarde, o “esp&iacute;rito de s&eacute;rio” – por impedirem a viv&ecirc;ncia da graciosidade, a que Zaratustra destina uma das principais m&aacute;ximas de seu s&eacute;timo discurso: "N&atilde;o &eacute; com a c&oacute;lera, mas com o riso que se mata. Vamos, matemos o esp&iacute;rito de gravidade!"<sup><a href="#18" name="top18">[18]</a></sup>. O rir &eacute;, pois, profundamente cr&iacute;tico, mas nada imp&otilde;e: &eacute; t&atilde;o mais libertador quanto desperta de situa&ccedil;&otilde;es de subjuga&ccedil;&atilde;o. Neste sentido, o rir &eacute; tamb&eacute;m um exerc&iacute;cio da liberdade no modo como &eacute; vivido, o que responsabiliza tanto o que recorre ao humor como o que nele participa.</p>      <p><i>e) “A filosofia &eacute; uma atitude no mundo, n&atilde;o uma absten&ccedil;&atilde;o”</i></p>      <p>Nesta sequ&ecirc;ncia, importa observar que a filosofia n&atilde;o &eacute; um exerc&iacute;cio mental exterior e abstracto, completamente alheio a quem o realiza, indiferente &agrave; paix&atilde;o existencial que est&aacute; na sua pr&oacute;pria origem. A filosofia &eacute; um exerc&iacute;cio espiritual e uma certa maneira de viver<sup><a href="#19" name="top19">[19]</a></sup>. Outras disciplinas do pensamento podem ser desenvolvidas nas costas da vida ou nela pouco influir: um cientista pode comportar-se de acordo com umas normas enquanto exerce a sua profiss&atilde;o e com outras quando vive; este dualismo &eacute; perfeitamente conjug&aacute;vel. Em filosofia, n&atilde;o; um fil&oacute;sofo n&atilde;o &eacute; s&oacute; um pensador, &eacute; tamb&eacute;m um homem real; o seu modo de pensar &eacute; insepar&aacute;vel do seu modo de ser<sup><a href="#20" name="top20">[20]</a></sup>. A atitude filos&oacute;fica, se decorre do quotidiano, n&atilde;o &eacute; a ele redut&iacute;vel; pressup&otilde;e sempre que a quotidianidade seja inquirida reflexivamente quer &agrave; partida quer &agrave; chegada.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Conforme Merleau-Ponty escreve a Sartre, "a filosofia &eacute; uma atitude no mundo, n&atilde;o uma absten&ccedil;&atilde;o; ela n&atilde;o est&aacute; reservada ao fil&oacute;sofo de profiss&atilde;o, e ele manifesta-a fora dos seus livros"<sup><a href="#21" name="top21">[21]</a></sup>. Que sentido tem hoje este apelo, quando as filosofias se concebem mais para serem pensadas, muitas vezes atreitas somente &agrave; dial&eacute;ctica (leg&iacute;tima) das objec&ccedil;&otilde;es e das refuta&ccedil;&otilde;es, quando os pensadores, muito embora relevem a pr&aacute;tica, esta n&atilde;o &eacute; vista como uma poss&iacute;vel arte de viver? Neste ponto, e no quadro da filosofia contempor&acirc;nea, n&atilde;o podemos deixar de recorrer a Michel Foucault e &agrave; sua peculiar an&aacute;lise do “cuidado de si”, que ele mesmo perscrutou na filosofia antiga<sup><a href="#22" name="top22">[22]</a></sup>, e que o levou a desenvolver a ideia de uma <i>est&eacute;tica da exist&ecirc;ncia</i> ligada a um certo “estilo de vida”. A este prop&oacute;sito, observou: "a quest&atilde;o do estilo &eacute; central na experi&ecirc;ncia antiga: estiliza&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o a si-mesmo, estilo de conduta, estiliza&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o aos outros. A Antiguidade n&atilde;o cessou de p&ocirc;r a quest&atilde;o de saber se era poss&iacute;vel definir um estilo comum a esses diferentes dom&iacute;nios de conduta"<sup><a href="#23" name="top23">[23]</a></sup>. &Eacute; que a &eacute;tica assim concebida tem muito a ver com o modo da sua comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, com a forma da sua mensagem, aliada a uma certa manifesta&ccedil;&atilde;o de liberdade.</p>      <p>De facto, Foucault procurou extrair de obras de pensadores da filosofia, grega e romana, ou de arquivos organizacionais (<i>v.g.</i>, sistemas de cl&iacute;nica, do asilo e prisional), <i>antologias de exist&ecirc;ncia </i>que se tornaram vis&iacute;veis no choque com o poder estabelecido: o <i>sujeito &eacute;tico</i> apenas pode transformar a sua vida em <i>obra</i>, ou mesmo para a&iacute; tender, numa luta permanente contra as for&ccedil;as sociais que a&iacute; se op&otilde;em ou da&iacute; derivam; portanto, a sua an&aacute;lise de sistemas n&atilde;o recai numa retirada para uma vida afastada das lutas p&uacute;blicas, ou para uma &eacute;tica individualizada: "a liberdade &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o ontol&oacute;gica da &eacute;tica, mas a &eacute;tica &eacute; a forma reflectida que toma a liberdade"<sup><a href="#24" name="top24">[24]</a></sup>. Ademais, na rela&ccedil;&atilde;o a si e aos outros, o sujeito &eacute;tico pode transmitir, com a sua exist&ecirc;ncia, uma elabora&ccedil;&atilde;o do bem mediante as categorias e formas do belo.</p>      <p>A ac&ccedil;&atilde;o do “intelectual espec&iacute;fico”, de que Foucault se reclama, desvia-se de qualquer liga&ccedil;&atilde;o com o universal; neste aspecto, rompe "com a ambi&ccedil;&atilde;o totalizante daquilo que chamava o “intelectual universal” – qual mestre absoluto da verdade: "o que desejo fazer – afirma na sua &uacute;ltima entrevista – &eacute; um uso da filosofia que permita limitar os dom&iacute;nios de saber"<sup><a href="#25" name="top25">[25]</a></sup>; ela resulta de um dom&iacute;nio de verdade “local” e dum saber “especializado”, que recusa as pretens&otilde;es universais do pensamento. Na verdade, o autor preferiu envolver-se em movimentos de resist&ecirc;ncia descentralizados, n&atilde;o unificados e muito menos disciplinados: "Se, no s&eacute;culo XIX, o socialismo cient&iacute;fico emergiu das <i>utopias,</i> no s&eacute;culo XX a socializa&ccedil;&atilde;o real emergir&aacute; talvez das <i>experi&ecirc;ncias</i>"<sup><a href="#26" name="top26">[26]</a></sup>. O “intelectual espec&iacute;fico” p&otilde;e em ac&ccedil;&atilde;o uma &eacute;tica que, para ser de resist&ecirc;ncia pontual, n&atilde;o &eacute; menos socialmente exposta<sup><a href="#27" name="top27">[27]</a></sup>; por contraposi&ccedil;&atilde;o com Sartre – o “intelectual universal” –, Foucault teve uma vida consagrada ao estudo de sistemas espec&iacute;ficos da sociedade ocidental e quis-se inserido em lutas espec&iacute;ficas com vista a actos de libera&ccedil;&atilde;o.</p>      <p>A est&eacute;tica da exist&ecirc;ncia, escreve Foucault, &eacute; "(…) a arte reflectida de uma liberdade percebida como jogo de poder"<sup><a href="#28" name="top28">[28]</a></sup>; se <i>liberdade</i> e <i>poder</i> est&atilde;o intimamente ligados, importa advertir o elo estreito entre resist&ecirc;ncia e poder; n&atilde;o h&aacute; poder sem resist&ecirc;ncia e resist&ecirc;ncia sem poder: se a resist&ecirc;ncia pode representar um obst&aacute;culo, o poder pode utilizar as resist&ecirc;ncias para desenvolver novas estrat&eacute;gias<sup><a href="#29" name="top29">[29]</a></sup>. &Eacute; imposs&iacute;vel desligar a resist&ecirc;ncia dos jogos de poder, sabendo-se como estes s&atilde;o utilizados para constituir um certo tipo de rela&ccedil;&atilde;o com a verdade, e em que as sociedades constituem e sujeitam as nossas identidades.</p>      <p><i>f) Os homens como fins, isto &eacute;, as </i>pessoas<i>, s&atilde;o denominados “fins objectivos”</i></p>      <p>Das muitas defini&ccedil;&otilde;es que se t&ecirc;m dado a esta antiga arte de filosofar, “a filosofia como vulnerabilidade” &eacute; uma das mais peculiares. Eis alguns tra&ccedil;os pr&oacute;prios dessa vulnerabilidade: ser-se consciente que &eacute; mais interessante o que nos surpreende que aquilo que nos d&aacute; raz&atilde;o; demorar as respostas e evitar sobretudo a precipita&ccedil;&atilde;o; desconfiar da seguran&ccedil;a ostentosa; n&atilde;o se sentir incomodado perante perguntas a que n&atilde;o se sabe responder mas que tamb&eacute;m n&atilde;o pode rejeitar; fugir do enquistamento nas suas diversas formas – intelectual, moral ou pol&iacute;tica; estar &agrave; vontade na inquieta&ccedil;&atilde;o; deixar-se invadir por uma incorrig&iacute;vel curiosidade. N&atilde;o &eacute; que o fil&oacute;sofo seja um personagem inc&oacute;modo (h&aacute;-os at&eacute; acomodat&iacute;cios em extremo), mas &eacute; a incomodidade que &eacute; uma atitude filos&oacute;fica<sup><a href="#30" name="top30">[30]</a></sup>. De facto, as “morais recebidas” – est&aacute;ticas, exteriores – variam certamente mas n&atilde;o mudam: por princ&iacute;pio, elas exibem respostas acabadas a quest&otilde;es ainda n&atilde;o postas. Os que se servem dessas respostas tornam-se r&iacute;gidos como reflexos da imposi&ccedil;&atilde;o de uma lei; n&atilde;o s&atilde;o mais que pr&eacute;-ju&iacute;zos – ju&iacute;zos recebidos de fora –, que se nos imp&otilde;em espontaneamente sem a media&ccedil;&atilde;o reflexiva. O problema das ideias recebidas – no caso, pouco importa que sejam boas – &eacute; que nos impulsionam a agir como aut&oacute;matos: “para tal quest&atilde;o, tal resposta”; elas induzem um comportamento sem reflex&atilde;o, sem o fundamento em que se baseia o homem “consciente de si”: este funda o seu ju&iacute;zo mais na reflex&atilde;o e n&atilde;o na moral j&aacute; acabada. J&aacute; isso, segundo Bergson, constitu&iacute;a uma base da ironia e fonte do rir.</p>      <p>Pela filosofia podemos considerar a diferen&ccedil;a entre <i>o que &eacute;</i> e o que <i>deve ser</i>, pois tamb&eacute;m ela nos manifesta as exig&ecirc;ncias da liberdade e da dignidade da pessoa humana, como refer&ecirc;ncias incondicionais. Foi Kant quem o enunciou de modo magistral, como o &uacute;nico fim especificamente moral ou “fim independente” com que contamos, isto &eacute;, ser humano revestido de “valor absoluto”, que requer um <i>imperativo categ&oacute;rico</i>. Enquanto os fins relativos apenas constituiriam “fins subjectivos”, como s&atilde;o os que qualquer um de n&oacute;s se prop&otilde;e realizar, os homens como fins, isto &eacute;, as <i>pessoas</i>, s&atilde;o denominadas por Kant “fins objectivos”, como expressa a famosa passagem da <i>Fundamenta&ccedil;&atilde;o da Metaf&iacute;sica dos Costumes</i>: "Os seres cuja exist&ecirc;ncia depende, n&atilde;o em verdade da nossa vontade, mas da natureza, t&ecirc;m contudo, se s&atilde;o seres irracionais, apenas um valor relativo como meios e por isso se chamam <i>coisas</i>, ao passo que os seres racionais se chamam <i>pessoas</i>, porque a sua natureza os distingue j&aacute; como fins em si mesmos, quer dizer como algo que n&atilde;o pode ser usado como simples meio e que, por conseguinte, limita nessa medida todo o arb&iacute;trio (e &eacute; um objecto de respeito). Estes n&atilde;o s&atilde;o portanto meros fins subjectivos cuja exist&ecirc;ncia tenha <i>para n&oacute;s</i> um valor como efeito da nossa ac&ccedil;&atilde;o, mas sim <i>fins objectivos</i>, quer dizer coisas cuja exist&ecirc;ncia &eacute; em si mesma um fim, e um fim tal que n&atilde;o se pode p&ocirc;r nenhum outro no seu lugar em rela&ccedil;&atilde;o ao qual essas coisas servissem apenas <i>como</i> meios; porque de outro modo nada em parte alguma se encontraria que tivesse <i>valor absoluto</i>; mas se todo o valor fosse condicional, e, por conseguinte, contingente, em parte alguma se poderia encontrar um princ&iacute;pio pr&aacute;tico supremo para a raz&atilde;o"<sup><a href="#31" name="top31">[31]</a></sup>. Por isso, acrescenta Kant, noutra passagem n&atilde;o menos famosa da mesma obra, o homem n&atilde;o tem pre&ccedil;o, mas dignidade: "aquilo que constitui a condi&ccedil;&atilde;o s&oacute; gra&ccedil;as &agrave; qual qualquer coisa pode ser um fim em si mesma, n&atilde;o tem somente um valor relativo, isto &eacute;, um pre&ccedil;o, mas um valor intr&iacute;nseco, isto &eacute;, dignidade"<sup><a href="#32" name="top32">[32]</a></sup>. Nisto, Kant perscrutou uma das dimens&otilde;es incontorn&aacute;veis da “Filosofia para al&eacute;m da Academia”: a filosofia &eacute; inconformismo, e mesmo rebeldia, quando n&atilde;o se resigna a ser apenas express&atilde;o do seu tempo, quando prefere ser evoca&ccedil;&atilde;o a ser reflexo.</p>      <p>Desde o julgamento de S&oacute;crates que sabemos que a filosofia mant&eacute;m uma rela&ccedil;&atilde;o tensa com o <i>status quo</i><sup><a href="#33" name="top33">[33]</a></sup>. Ontem, S&oacute;crates queria tornar os homens melhores e mais justos; hoje, as suas interroga&ccedil;&otilde;es sobre a virtude e o bem s&atilde;o tamb&eacute;m as nossas, embora as nossas respostas sejam necessariamente diversas; se ent&atilde;o a tarefa estava facilitada com a filosofia debatida na pra&ccedil;a p&uacute;blica, hoje, com as novas tecnologias, quando o pensamento &eacute; instigado a tornar-se espect&aacute;culo – a simplesmente fazer audi&ecirc;ncia –, pode n&atilde;o ser mais que um outro retorno a uma nova sof&iacute;stica, que S&oacute;crates pertinazmente combateu.</p>      <p><i>g)</i> <i>“A coruja de Minerva levanta voo s&oacute; ao entardecer…”</i></p>      <p>&Eacute; verdade que a leitura do jornal da manh&atilde; era, para Hegel, “a ora&ccedil;&atilde;o do homem moderno”. Schopenhauer n&atilde;o hesitava em ilustrar os seus racioc&iacute;nios com uma cita&ccedil;&atilde;o do <i>Times</i> londrino, ao lado de um dito de Plat&atilde;o ou de Arist&oacute;teles. O “esp&iacute;rito fil&oacute;sofo” n&atilde;o ser&aacute; desprezar a actualidade jornal&iacute;stica, mas n&atilde;o ser&aacute; tamb&eacute;m confinar a esta a realidade; deveria ser tentar compreender as coisas que se passam a partir das que n&atilde;o se passam, explicar as coisas que se contam pelas que se silenciam e recordar que o real n&atilde;o &eacute; intermitente ainda que algumas informa&ccedil;&otilde;es sobre ele tantas vezes o sejam<sup><a href="#34" name="top34">[34]</a></sup>. Hoje, como no passado, importa a busca de um novo socratismo: recorde-se que j&aacute; S&oacute;crates preconizava para o filosofar um m&eacute;todo em dois tempos – a <i>ironia</i> e a <i>mai&ecirc;utica</i>, recusando o “pronto a pensar”.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Essa proposi&ccedil;&atilde;o hegeliana, <i>“a coruja de Minerva levanta voo s&oacute; ao entardecer…</i>,<sup><a href="#35" name="top35">[35]</a></sup> torna-a s&iacute;mbolo da filosofia, pois o olhar penetrante e observador da ave estrigiforme, a sua arg&uacute;cia e hipersensibilidade, a sua potente capacidade de vis&atilde;o e audi&ccedil;&atilde;o que enxerga e ouve tudo em redor, faz dela o s&iacute;mbolo da filosofia. Por outro lado, Minerva &eacute; uma deusa romana, cuja equivalente grega &eacute; Athena. Deste modo, se o discurso democr&aacute;tico e a defesa do pluralismo existem na actualidade, tal remonta &agrave; Gr&eacute;cia antiga, em que a reflex&atilde;o filos&oacute;fica transcendeu os pr&eacute;-ju&iacute;zos da &eacute;poca, como noutros per&iacute;odos posteriores. O sentido de supera&ccedil;&atilde;o de cada tempo hist&oacute;rico foi sempre uma das caracter&iacute;sticas da atitude filos&oacute;fica: ela &eacute; capaz de pensar e manifestar-se discursivamente para al&eacute;m do discurso da moda, da influ&ecirc;ncia dos media ou do interesse imediatista. A frase de Hegel enfatiza sem d&uacute;vida que a filosofia procura ver claro e desvendar, nas sombras da obscuridade, as leis da vida, os segredos da natureza, o sentido da hist&oacute;ria.</p>      <p>A filosofia deve levar a <i>pensar</i>, ao inquirir o suporte das nossas opini&otilde;es, dos nossos conhecimentos, das nossas cren&ccedil;as, das raz&otilde;es do que aceitamos e fazemos, do valor das nossas ideias e ideais, isso na esperan&ccedil;a que as nossas convic&ccedil;&otilde;es profundas, sejam elas mudadas ou n&atilde;o, sejam ao menos esclarecidas racionalmente; tal atitude pode servir aos outros de quadro para a sua pr&oacute;pria concep&ccedil;&atilde;o do mundo e das tarefas humanas. Apesar de dispormos de muitas informa&ccedil;&otilde;es e opini&otilde;es sobre a natureza e sobre n&oacute;s mesmos, n&atilde;o temos o h&aacute;bito de nos interrogarmos sobre a validade dos nossos pensamentos e das nossas escolhas. Importa examinar tudo isso, porque ilusionamo-nos mais facilmente do que julgamos e porque a verdade e a coer&ecirc;ncia carecem de ser indagadas<sup><a href="#36" name="top36">[36]</a></sup>. Neste sentido, um fil&oacute;sofo n&atilde;o deve estar dominado pelas circunst&acirc;ncias, mas avali&aacute;-las num horizonte mais amplo; ent&atilde;o, a filosofia ser&aacute; tamb&eacute;m um modo de apreciar a vida.</p>      <p>Para melhor ressaltar o sentido da reflex&atilde;o filos&oacute;fica como supera&ccedil;&atilde;o de cada tempo hist&oacute;rico, servimo-nos destas profundas interroga&ccedil;&otilde;es de T. S. Eliot: <i>"Onde est&aacute; a vida que perdemos vivendo? Onde est&aacute; a sabedoria que perdemos com o conhecimento? Onde est&aacute; o conhecimento que perdemos com a informa&ccedil;&atilde;o?"</i><sup><a href="#37" name="top37">[37]</a></sup> Por outras palavras, convir&aacute; discernir os modos de saber, inquirindo os n&iacute;veis da <i>informa&ccedil;&atilde;o</i>, do <i>conhecimento</i> e da <i>sabedoria.</i></p>      <p><i>h) Onde est&aacute; o conhecimento que perdemos com a informa&ccedil;&atilde;o?</i></p>      <p>O que a <i>informa&ccedil;&atilde;o</i> nos apresenta s&atilde;o factos e dados prim&aacute;rios do que ocorre; ela faculta-nos dados, <i>bits</i>, diz-nos <i>o que &eacute;:</i> pode ser digitalizada, arquivada e transmitida; hoje, encontramo-la em redes: com rapidez se consulta a internet – um gigantesco dep&oacute;sito de informa&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#38" name="top38">[38]</a></sup>. Com efeito, um dos tra&ccedil;os caracter&iacute;sticos das sociedades hodiernas &eacute; sem d&uacute;vida configurado pela revolu&ccedil;&atilde;o informacional, que parece originar uma esp&eacute;cie de unifica&ccedil;&atilde;o – aparente – do mundo. Sem d&uacute;vida, somos hoje testemunhas privilegiadas do tr&acirc;nsito a uma aldeia global, pela qual se verifica alguma <i>continuidade</i> de um s&eacute;culo (XX) a outro (XXI); na aldeia global, a Humanidade viu-se reduzida &agrave; informa&ccedil;&atilde;o moment&acirc;nea, que n&atilde;o apenas transmite factos reais mas pode tornar <i>real</i> o <i>ficcional</i>. J&aacute; n&atilde;o existem barreiras naturais, oceanos ou continentes, montanhas ou vales, que criem fortalezas ou tracem fronteiras; hoje circula o poder de estar em todas as partes pela imagem e pela palavra.</p>      <p>Com a globaliza&ccedil;&atilde;o, o mais pequeno acontecimento torna-se vis&iacute;vel e, <i>aparentemente</i>, mais compreens&iacute;vel; no entanto, n&atilde;o h&aacute; rela&ccedil;&atilde;o directa entre a amplitude de informa&ccedil;&atilde;o e a compreens&atilde;o do mundo. Este &eacute; o novo dado do s&eacute;culo que se iniciou: a <i>informa&ccedil;&atilde;o</i> n&atilde;o gera necessariamente <i>comunica&ccedil;&atilde;o</i>. A pr&oacute;pria express&atilde;o “sociedade de informa&ccedil;&atilde;o” – tamb&eacute;m se usa “sociedade de comunica&ccedil;&atilde;o” –, pode ser equ&iacute;voca; em rigor, toda a sociedade, pelo facto de o ser, &eacute; de informa&ccedil;&atilde;o e de comunica&ccedil;&atilde;o; o que varia &eacute;, por um lado, a natureza e a dimens&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o e da comunica&ccedil;&atilde;o e, por outro, as mudan&ccedil;as que, em cada <i>&eacute;poca</i> e <i>sociedade</i>, afectaram e afectam as formas de se relacionar, de aprender, de trabalhar, em suma, de viver.</p>      <p>Este &eacute; um dos n&oacute;s g&oacute;rdios de hoje: a ruptura entre informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o, ou a dificuldade em passar de uma a outra. Sabia-se que as culturas eram diferentes, mas pensava-se que a mesma informa&ccedil;&atilde;o podia ser mais ou menos aceite por todos; apercebemo-nos do contr&aacute;rio: h&aacute; um fosso que se escava entre informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o. Descobrimos esta verdade emp&iacute;rica, por vezes dolorosamente, ao n&iacute;vel dos Estados-na&ccedil;&otilde;es; encontramo-la de forma mais intensa a n&iacute;vel das grandes regi&otilde;es – como a Uni&atilde;o Europeia – e mais difusa &agrave; escala mundial. &Eacute; um determinado modelo universalista da informa&ccedil;&atilde;o e da rela&ccedil;&atilde;o entre informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o que est&aacute; em crise.</p>      <p>Por sua vez, o <i>conhecimento</i>, aferindo informa&ccedil;&atilde;o recebida, hierarquiza a sua import&acirc;ncia significativa, indagando princ&iacute;pios gerais suscept&iacute;veis de a ordenar; assim, se, por um lado, &eacute; verdade que o conhecimento carece da informa&ccedil;&atilde;o, o importante hoje &eacute; que, com o acesso facilitado &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, esta vale cada vez menos; o importante n&atilde;o &eacute; j&aacute; ter informa&ccedil;&atilde;o: quem quiser t&ecirc;-la, tem-na. O que importa sobremaneira &eacute; discriminar informa&ccedil;&atilde;o relevante daquela que n&atilde;o &eacute;, quer dizer, separar informa&ccedil;&atilde;o do lixo.</p>      <p>Sem d&uacute;vida, o <i>conhecimento</i> &eacute; bem diverso: &eacute; um saber que, a partir de muitos dados, mediante indu&ccedil;&atilde;o, dedu&ccedil;&atilde;o, ou analogia, diz-nos n&atilde;o o que &eacute;, mas o que <i>pode fazer-se</i>. Gaston Bachelard, n'<i>A Forma&ccedil;&atilde;o do Esp&iacute;rito Cient&iacute;fico</i>, afirma que "&eacute; necess&aacute;rio reflectir para medir e n&atilde;o medir para reflectir"<sup><a href="#39" name="top39">[39]</a></sup>; a&iacute; sust&eacute;m que "conhecemos <i>contra</i> um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos mal feitos, superando o que, no pr&oacute;prio esp&iacute;rito, faz obst&aacute;culo &agrave; espiritualiza&ccedil;&atilde;o". Para o esp&iacute;rito cient&iacute;fico, "todo o conhecimento &eacute; resposta a uma quest&atilde;o" e pressup&otilde;e um intenso labor; afirma o mesmo autor: "uma verdade cient&iacute;fica &eacute;, por ess&ecirc;ncia, uma verdade que tem um futuro"<sup><a href="#40" name="top40">[40]</a></sup>.</p>      <p>Ent&atilde;o, o progresso do conhecimento revela-se como um “erro decrescente”. Em <i>Conjecturas e Refuta&ccedil;&otilde;es</i>, Karl Popper afirma que o “racionalismo cr&iacute;tico” – orienta&ccedil;&atilde;o que perfilha – "deve ser considerado como um convite para um acordo ou uma conven&ccedil;&atilde;o", clarificando como as normas da cr&iacute;tica racional e da verdade objectiva ensinam o homem a aplicar o “m&eacute;todo de ensaio e erro” em todos os campos, especialmente no da ci&ecirc;ncia, e "a descobrir qu&atilde;o pouco se sabe e quanto &eacute; o que n&atilde;o se sabe"; ajuda-o outrossim a "tomar consci&ecirc;ncia de que deve o seu enriquecimento &agrave;s cr&iacute;ticas de outras pessoas e de que o homem razo&aacute;vel est&aacute; disposto a ouvir as cr&iacute;ticas"<sup><a href="#41" name="top41">[41]</a></sup>. Ent&atilde;o, &agrave; medida que vamos aprendendo com os erros (refuta&ccedil;&otilde;es), o nosso conhecimento aumenta, pelo que a ci&ecirc;ncia &eacute; um outro dep&oacute;sito, mas desta vez, n&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o, mas de teorias e modelos, que nos permite dizer <i>como</i> fazer isto ou aquilo.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>i)“Onde est&aacute; a sabedoria que perdemos com o conhecimento?”</i></p>      <p>No entanto, o conhecimento cient&iacute;fico tem tamb&eacute;m os seus limites: a ci&ecirc;ncia &eacute; um saber instrumental que nos mostra o que <i>se pode</i> fazer, mas de modo nenhum o que <i>se deve</i> fazer. Ora, pouco podemos dizer dos valores a partir do conhecimento; com o neopositivismo, a ci&ecirc;ncia, de certo modo, pretendeu erigir-se como guia, eliminando os valores. Todavia, do que <i>devemos fazer ou n&atilde;o</i>, acerca do “viver bem” (Arist&oacute;teles), isto &eacute;, de uma vida realizada, do sentido &uacute;ltimo da exist&ecirc;ncia, sobre o amar e o odiar, sobre o belo, disso tudo a ci&ecirc;ncia pouco sabe; disso, certamente, se encarrega a <i>sabedoria:</i> esta &eacute; uma forma de saber, que, superior &agrave; ci&ecirc;ncia, portanto tamb&eacute;m &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, <i>ensina a viver</i>, e revela, de entre o muito que se pode fazer, o que <i>merece</i> ser feito.</p>      <p>Todavia, as coisas n&atilde;o s&atilde;o ainda assim t&atilde;o claras; claramente que n&atilde;o, pois os ritmos de desenvolvimento destas tr&ecirc;s formas de saber s&atilde;o muito distintas: &eacute; imenso o volume de p&aacute;ginas <i>web</i>, que se expande cada vez mais e a um ritmo fren&eacute;tico (duplicando em cada trimestre). J&aacute; o ritmo do desenvolvimento do <i>conhecimento</i> &eacute; mais complexo; o portef&oacute;lio de ci&ecirc;ncia v&aacute;lida tem-se vindo a duplicar aproximadamente cada quinze anos (que &eacute; tamb&eacute;m o ritmo de revistas cient&iacute;ficas especializadas e de ramifica&ccedil;&atilde;o de especialidades cient&iacute;ficas). E ningu&eacute;m duvidar&aacute; que o horizonte de novos conhecimentos &eacute; um daqueles onde pulsa verdadeiramente o que pode designar-se como progresso. Poder&iacute;amos, ent&atilde;o, arriscar a afirma&ccedil;&atilde;o: ambos – informa&ccedil;&atilde;o e conhecimento – crescem em progress&atilde;o geom&eacute;trica, mas a informa&ccedil;&atilde;o f&aacute;-lo tendencialmente cada trimestre, o conhecimento cada quinze anos<sup><a href="#42" name="top42">[42]</a></sup>.</p>      <p>&Eacute; efectivamentea <i>sabedoria</i> que liga o conhecimento &agrave;s op&ccedil;&otilde;es vitais ou aos valores que podemos escolher, com vista a estabelecer como “viver melhor”. Atente-se que a <i>sabedoria</i> de que dispomos n&atilde;o &eacute; muito maior da que tinham Conf&uacute;cio, Buda, S&oacute;crates ou Jesus, e n&atilde;o parece ter melhorado muito nos &uacute;ltimos tr&ecirc;s mil anos; e, o que &eacute; pior, n&atilde;o sabemos bem como produzi-la. T&atilde;o pouco diria que retrocedeu, mas sim que &eacute; quase uma constante que variou pouco ou nada nos &uacute;ltimos s&eacute;culos. Essa a raz&atilde;o pela qual obras como <i>&Eacute;tica a Nic&oacute;maco</i> (Arist&oacute;teles), <i>Serm&atilde;o da Montanha</i> (Jesus de Nazar&eacute;), <i>Da const&acirc;ncia do s&aacute;bio</i> (S&eacute;neca), os <i>Serm&otilde;es</i> do Padre Ant&oacute;nio Vieira, e tantas outras, t&ecirc;m hoje o mesmo valor que no tempo da respectiva publica&ccedil;&atilde;o, enquanto – como dizia Whitehead – a ci&ecirc;ncia progride com os seus cl&aacute;ssicos, mas ningu&eacute;m que deseje saber &oacute;ptica l&ecirc; hoje Newton. Ora, se tiv&eacute;ssemos progredido em sabedoria como o fazemos em conhecimento, esses velh&iacute;ssimos textos morais careceriam de valor, como j&aacute; n&atilde;o tem a mesma valia que outrora o <i>Tratado Elementar de Qu&iacute;mica</i>, de Lavoisier. Neste sentido, julgo que a ci&ecirc;ncia se movimenta entre o n&iacute;vel dainforma&ccedil;&atilde;o e do conhecimento, enquanto a filosofia actua entre o da ci&ecirc;ncia e o dasabedoria, de maneira que n&atilde;o existe informa&ccedil;&atilde;o propriamente filos&oacute;fica<sup><a href="#43" name="top43">[43]</a></sup>, mas pode sim haver conhecimento filos&oacute;fico que alcan&ccedil;a o seu acme na sabedoria.</p>      <p><i>j) “As demandas de justi&ccedil;a s&atilde;o condi&ccedil;&otilde;es (n&atilde;o necess&aacute;rias) da felicidade</i></p>      <p>Com efeito, &eacute; nos cl&aacute;ssicos que nos damos conta das mais l&iacute;dimas e percucientes verdades, que parecem terem sido escritas hoje. Atente-se ao di&aacute;logo ente o sofista Tras&iacute;maco e S&oacute;crates, para ilustrar isso mesmo: "(…) Aqui tens meu excelente amigo, aquilo que eu quero dizer, ao afirmar que h&aacute; um s&oacute; modelo de justi&ccedil;a em todos os Estados – o que conv&eacute;m aos poderes constitu&iacute;dos. Ora estes &eacute; que det&ecirc;m a for&ccedil;a. Donde resulta, para quem pensar correctamente, que a justi&ccedil;a &eacute; a mesma em toda a parte: a conveni&ecirc;ncia do mais forte (…)"<sup><a href="#44" name="top44">[44]</a></sup>. Parece, pois, que a Humanidade pouco evoluiu no terreno dos valores.</p>      <p>Como j&aacute; analis&aacute;mos, a sociedade contempor&acirc;nea oferece possibilidades enormes de transmiss&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o que nenhum vision&aacute;rio de &eacute;pocas passadas teria podido imaginar. N&atilde;o obstante, &eacute; a sociedade da solid&atilde;o; uma sociedade de frustra&ccedil;&otilde;es, da depress&atilde;o, da multiplicidade de transtornos ps&iacute;quicos. Poder&iacute;amos cham&aacute;-la a sociedade da abund&acirc;ncia de meios e car&ecirc;ncia de fins. Esta situa&ccedil;&atilde;o j&aacute; foi lapidarmente definida de um modo gr&aacute;fico: inverteram-se os extremos do mito plat&oacute;nico da <i>caverna</i> (em lugar das Ideias, as sombras).</p>      <p>E no que concerne aos excessos de individualismo exacerbado e da onda de corrup&ccedil;&atilde;o que grassa na nossa sociedade, veja-se a advert&ecirc;ncia de C&iacute;cero: "H&aacute; duas maneiras de cometer injusti&ccedil;a, pela for&ccedil;a ou pela ast&uacute;cia: a ast&uacute;cia parece de algum modo ser a maneira da raposa, a for&ccedil;a, a do le&atilde;o; as duas s&atilde;o coisas completamente indignas do homem, mas a ast&uacute;cia &eacute; ainda mais execr&aacute;vel. E de tudo o que leva o nome de injusti&ccedil;a, nenhuma &eacute; mais criminosa que a injusti&ccedil;a daqueles que, no pr&oacute;prio momento em que mais enganam, o fazem de tal modo que parecem gente de bem"<sup><a href="#45" name="top45">[45]</a></sup>. Em suma: em rela&ccedil;&atilde;o aos antigos, a diferen&ccedil;a espiritual e intelectiva n&atilde;o &eacute; t&atilde;o grande como parece: o homem &eacute; sempre o mesmo; infelizmente, os humanos n&atilde;o perdem os defeitos que tinham, por vezes n&atilde;o conservam as virtudes<sup><a href="#46" name="top46">[46]</a></sup>.</p>      <p>As demandas de justi&ccedil;a s&atilde;o <i>condi&ccedil;&otilde;es</i> da felicidade; e, acrescente-se, s&atilde;o condi&ccedil;&otilde;es <i>necess&aacute;rias</i> da felicidade. Isso n&atilde;o diminui a responsabilidade de cada um; ao inv&eacute;s, refor&ccedil;a-a, j&aacute; que somos respons&aacute;veis por n&oacute;s mesmos, titulares de direitos, sujeitos de justi&ccedil;a. Embora felicidade e justi&ccedil;a apontem para distintos sujeitos respons&aacute;veis (a <i>felicidade</i> para cada um de n&oacute;s como pessoas, a <i>justi&ccedil;a</i> para cada um de n&oacute;s como cidad&atilde;os), s&atilde;o interconexas: a justi&ccedil;a &eacute; condi&ccedil;&atilde;o da felicidade, torna-a poss&iacute;vel, dela carecemos para a tornar poss&iacute;vel, mas n&atilde;o &eacute; condi&ccedil;&atilde;o suficiente de felicidade (para ser feliz, n&atilde;o basta viver numa sociedade justa). Que a justi&ccedil;a seja condi&ccedil;&atilde;o de felicidade como parte do seu conte&uacute;do, desde logo amplia o significado da ideia de felicidade porque alarga o que &eacute; relevante para a realizar; amplifica o nosso mundo moral enquanto pessoas e enquanto cidad&atilde;os, mas tamb&eacute;m o tornam mais fr&aacute;gil e dif&iacute;cil, como projecto submetido a condi&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o s&atilde;o apenas nossas mas sociais; o que, por outro lado, torna mais patente a nossa responsabilidade, pois o que somos como sujeitos aparecer&aacute; no que fazemos, e tamb&eacute;m no plexo das cren&ccedil;as, valores, princ&iacute;pios e fins expl&iacute;citos perante os outros e n&oacute;s mesmos; o valor do que somos n&atilde;o poder&aacute; estar fora do que fazemos: o sentido e o valor da nossa vida &eacute; o que fazemos nela e com ela<sup><a href="#47" name="top47">[47]</a></sup>. A nossa responsabilidade &eacute; o que nos liga, como sujeitos, &agrave;s ac&ccedil;&otilde;es que realizamos em rela&ccedil;&atilde;o com os outros – o &uacute;nico espa&ccedil;o por onde irradia a racionalidade.</p>      <p>Isto porque n&atilde;o se lobriga fundamento &eacute;tico nas nossas condutas quando estas se fundam nas perspectivas em que cada um se enclausura. &Eacute; esta uma das consequ&ecirc;ncias extremas do individualismo contempor&acirc;neo, posto que ao desaparecer toda a exig&ecirc;ncia de fundamenta&ccedil;&atilde;o, o arb&iacute;trio descansa sobre si mesmo [a exig&ecirc;ncia de <i>fundamenta&ccedil;&atilde;o</i> &eacute; o melhor ant&iacute;doto contra o <i>fundamentalismo</i>]. Trata-se de um individualismo hedonista, onde n&atilde;o existe <i>imperativo categ&oacute;rico,</i> dada a flexibilidade em que a pr&oacute;pria vida se move. Este <i>viver sem ideal</i> traz consigo um descompromisso c&iacute;vico cujas repercuss&otilde;es sociais se manifestam com clareza na actual crise, uma das maiores do p&oacute;s-guerra.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>l) “N&atilde;o se pode pensar filosoficamente por outra pessoa”</i></p>      <p>Insistamos ainda na rela&ccedil;&atilde;o entre <i>filosofia</i> e <i>ci&ecirc;ncia. </i>A rela&ccedil;&atilde;o entre a hip&oacute;tese e a experi&ecirc;ncia &eacute; o aspecto mais decisivo da ci&ecirc;ncia: "Quando reflectimos um pouco, apercebemo-nos do lugar ocupado pela <b>hip&oacute;tese</b>; verificamos que o matem&aacute;tico n&atilde;o poder&aacute; prescindir dela, o mesmo se passando com o experimentador. Ent&atilde;o, perguntamo-nos se todas estas constru&ccedil;&otilde;es eram suficientemente s&oacute;lidas e admitiu-se que um simples sopro as poderia derrubar. Ser c&eacute;ptico a tal ponto &eacute; ainda ser superficial. Duvidar de tudo ou acreditar em tudo, s&atilde;o duas solu&ccedil;&otilde;es igualmente c&oacute;modas, pois uma e outra dispensam-nos de reflectir"<sup><a href="#48" name="top48">[48]</a></sup>. Uma hip&oacute;tese surge de quest&otilde;es, de observa&ccedil;&otilde;es pr&eacute;vias e das consequ&ecirc;ncias de teorias cient&iacute;ficas, como proposta explicativa de um fen&oacute;meno ou da correla&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel entre m&uacute;ltiplos fen&oacute;menos; a hip&oacute;tese interv&eacute;m, pois, activamente e de modo criativo no progresso cient&iacute;fico.</p>      <p>Tal elemento distintivo, n&atilde;o p&otilde;e em quest&atilde;o o que as aproxima: nas suas origens estiveram unidas, e s&oacute;, ao longo dos s&eacute;culos, a f&iacute;sica, a qu&iacute;mica, a astronomia ou a psicologia se foram autonomizando da sua matriz filos&oacute;fica comum; ambas procuram responder a <i>perguntas</i> suscitadas pelo real, a que as ci&ecirc;ncias correspondem com <i>solu&ccedil;&otilde;es</i> (para resolver a quest&atilde;o) e a filosofia com <i>respostas</i> (para explicar a quest&atilde;o). Hoje em dia, as ci&ecirc;ncias pretendem explicar como &eacute; que as coisas funcionam, enquanto a filosofia se preocupa mais com o que elas significam para n&oacute;s; quando a ci&ecirc;ncia versa um qualquer assunto (mesmo quando estuda as pr&oacute;prias pessoas) deve adoptar o ponto de vista <i>impessoal</i>, enquanto na filosofia &eacute;-se sempre consciente que o conhecimento tem necessariamente um <i>sujeito</i>. A ci&ecirc;ncia aspira a conhecer o que h&aacute; e o que acontece; a filosofia reflecte acerca do que representa para n&oacute;s o que sabemos que acontece e que existe. A ci&ecirc;ncia multiplica as &aacute;reas de conhecimento e as perspectivas, isto &eacute;, fragmenta e especializa o saber; a filosofia preocupa-se em relacionar os saberes, tentando inscrev&ecirc;-los num panorama que abranja a diversidade dessa aventura unit&aacute;ria que &eacute; pensar. A ci&ecirc;ncia desmonta as apar&ecirc;ncias do real em elementos te&oacute;ricos invis&iacute;veis, ondulat&oacute;rios ou corpusculares, matematiz&aacute;veis, mas a filosofia recupera a realidade<i> humanamente vital </i>onde decorrem as perip&eacute;cias da nossa exist&ecirc;ncia concreta. N&atilde;o se olvide, por&eacute;m, que os mais importantes problemas filos&oacute;ficos, ao longo da hist&oacute;ria da filosofia, foram motivados por preocupa&ccedil;&otilde;es ligadas &agrave; ci&ecirc;ncia (incluindo-se a matem&aacute;tica, a f&iacute;sica, a biologia).</p>      <p>Historicamente aconteceu que algumas perguntas come&ccedil;aram por ser da compet&ecirc;ncia da filosofia – a natureza, o movimento dos astros, por exemplo – e depois tiveram solu&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica; noutros casos, quest&otilde;es aparentemente resolvidas cientificamente foram depois tratadas a partir de d&uacute;vidas filos&oacute;ficas (por exemplo, a passagem da geometria euclidiana &agrave;s geometrias n&atilde;o euclidianas). &Eacute; prov&aacute;vel que certas perguntas a que hoje a filosofia tenta responder recebam amanh&atilde; solu&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, e de certeza que futuras solu&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas contribuir&atilde;o decisivamente para respostas filos&oacute;ficas vindouras, assim como n&atilde;o seria a en&eacute;sima vez que o trabalho dos fil&oacute;sofos orientaria ou daria inspira&ccedil;&atilde;o a alguns cientistas. S&oacute; podemos estar certos de que <i>nunca</i> nem a ci&ecirc;ncia nem a filosofia ter&atilde;o falta de perguntas &agrave;s quais tentar responder. Todavia, existe uma diferen&ccedil;a importante entre ci&ecirc;ncia e filosofia que n&atilde;o se refere aos resultados de ambas, mas ao modo de chegar at&eacute; eles: "pode-se investigar cientificamente por outra pessoa, mas n&atilde;o se pode pensar filosoficamente por outra pessoa"<sup><a href="#49" name="top49">[49]</a></sup>, embora os grandes fil&oacute;sofos tanto nos tenham ajudado a pensar. Talvez pud&eacute;ssemos acrescentar que as descobertas da ci&ecirc;ncia tornam mais f&aacute;cil a tarefa dos cientistas posteriores, enquanto os contributos dos fil&oacute;sofos tornam cada vez mais complexo (e mais profundo) o empenho de quem continua a pensar.</p>      <p><i>m)“Criar conceitos sempre novos &eacute; o objectivo da filosofia”</i></p>      <p>Numa acep&ccedil;&atilde;o mais comum, "a principal ocupa&ccedil;&atilde;o da filosofia &eacute; questionar e esclarecer algumas ideias muito comuns que usamos todos os dias sem pensar nelas. Um historiador pode perguntar-se que aconteceu num determinado momento do passado, mas um fil&oacute;sofo perguntar&aacute;, “O que &eacute; o tempo?” Um matem&aacute;tico pode investigar as rela&ccedil;&otilde;es entre os n&uacute;meros, mas um fil&oacute;sofo perguntar&aacute;, “O que &eacute; um n&uacute;mero?” Um f&iacute;sico perguntar&aacute; de que s&atilde;o feitos os &aacute;tomos ou o que &eacute; que explica a gravidade, mas um fil&oacute;sofo perguntar&aacute; como podemos saber que existe algo fora das nossas mentes. Um psic&oacute;logo pode investigar como &eacute; que as crian&ccedil;as aprendem uma linguagem, mas um fil&oacute;sofo perguntar&aacute;, “O que faz uma palavra significar alguma coisa?” Qualquer pessoa pode perguntar se est&aacute; mal introduzir-se no cinema sem pagar, mas um fil&oacute;sofo perguntar&aacute;, “O que torna uma ac&ccedil;&atilde;o boa ou m&aacute;?”"<sup><a href="#50" name="top50">[50]</a></sup> Todavia, por muitas respostas filos&oacute;ficas dadas &agrave; pergunta sobre que &eacute; o tempo, mais complexa ser&aacute; ainda a indaga&ccedil;&atilde;o sobre o que &eacute; a justi&ccedil;a; e, como as interroga&ccedil;&otilde;es sobre o tempo ou a justi&ccedil;a nunca cessar&atilde;o, jamais estar&atilde;o definitivamente clarificadas as respostas j&aacute; dadas a essas quest&otilde;es.</p>      <p>J&aacute;, para Merleau-Ponty, importa que a filosofia "esteja perto da experi&ecirc;ncia e, todavia, que ela n&atilde;o se limite ao emp&iacute;rico, que restitua em cada experi&ecirc;ncia a cifra ontol&oacute;gica de que est&aacute; interiormente marcada; nestas condi&ccedil;&otilde;es, por dif&iacute;cil que seja imaginar o futuro da filosofia, duas coisas parecem seguras: por um lado, ela n&atilde;o ter&aacute; jamais a convic&ccedil;&atilde;o de deter, com os seus conceitos, as chaves da natureza ou da hist&oacute;ria, por outro, n&atilde;o renunciar&aacute; ao seu radicalismo, a essa busca dos pressupostos e fundamentos que produziram as grandes filosofias"<sup><a href="#51" name="top51">[51]</a></sup>. Da&iacute; que a tarefa filos&oacute;fica seja tamb&eacute;m criar novos conceitos que correspondam &agrave;s inst&acirc;ncias da vida e do real.</p>      <p>Neste sentido, e "mais rigorosamente, a filosofia &eacute; a disciplina que consiste em <i>criar</i> conceitos. (…) &Eacute; porque o conceito deve ser criado que ele remete para o fil&oacute;sofo como &agrave;quele que o tem em pot&ecirc;ncia, ou que dele tem a pot&ecirc;ncia e compet&ecirc;ncia. N&atilde;o se pode objectar que a cria&ccedil;&atilde;o se diz sobretudo do sens&iacute;vel e das artes, j&aacute; que a arte faz existir entidades espirituais, e j&aacute; que os conceitos filos&oacute;ficos s&atilde;o tamb&eacute;m “sensibilia”. A falar verdade, as ci&ecirc;ncias, as artes, as filosofias, s&atilde;o igualmente criadoras, embora s&oacute; &agrave; filosofia caiba criar conceitos em sentido restrito. (…). Nietzsche determinou a tarefa da filosofia quando escreveu: “Os fil&oacute;sofos n&atilde;o devem mais contentar-se em aceitar os conceitos que lhes s&atilde;o dados, para somente os limpar e os fazer reluzir, mas &eacute; necess&aacute;rio que comecem os por fabricar, criar, afirmar e persuadir os homens a utiliz&aacute;-los. Em suma, at&eacute; ao presente cada um confiava nos seus conceitos, como num dote milagroso vindo de um algum mundo igualmente milagroso”, mas importa substituir a confian&ccedil;a pela desconfian&ccedil;a, e &eacute; dos conceitos que o fil&oacute;sofo deve desconfiar mais, enquanto ele mesmo n&atilde;o os tiver criado (Plat&atilde;o sabia isso bem, embora tenha ensinado o contr&aacute;rio...)<sup><a href="#52" name="top52">[52]</a></sup>. Plat&atilde;o dizia que era necess&aacute;rio contemplar as Ideias, mas primeiro teve de criar o conceito de Ideia. Que valeria um fil&oacute;sofo do qual se pudesse dizer: n&atilde;o criou nenhum conceito, n&atilde;o criou os seus conceitos?"<sup><a href="#53" name="top53">[53]</a></sup>. O intuito &eacute;, pois, tratar o pensamento como cria&ccedil;&atilde;o, experimenta&ccedil;&atilde;o e viagem.</p>      <p>Deleuze e Guattari quiseram romper o n&oacute; que liga classicamente o ser &agrave; representa&ccedil;&atilde;o, inserindo-se na senda de Nietzsche, e j&aacute; antes de Espinosa e Leibniz; de certo modo, uma concep&ccedil;&atilde;o quase pragm&aacute;tica do conceito, na medida em que o seu sentido se confunde com a variedade das suas fun&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas, dos casos pr&aacute;ticos envolvidos, das v&aacute;rias aplica&ccedil;&otilde;es<sup><a href="#54" name="top54">[54]</a></sup>. "O conceito filos&oacute;fico n&atilde;o se refere ao vivido por compensa&ccedil;&atilde;o, mas consiste, por sua pr&oacute;pria cria&ccedil;&atilde;o, em erigir um acontecimento que sobrevoe todo o vivido, n&atilde;o menos que qualquer estado de coisas. Cada conceito talha o acontecimento, retalha-o &agrave; sua maneira. A grandeza de uma filosofia avalia-se pela natureza dos acontecimentos a que os seus conceitos nos convocam, ou que ela nos torna capazes de depurar em conceitos. &Eacute; necess&aacute;rio por isso experimentar nos seus m&iacute;nimos detalhes o v&iacute;nculo &uacute;nico, exclusivo, dos conceitos com a filosofia como disciplina criadora. O conceito pertence &agrave; filosofia e s&oacute; a ela pertence"<sup><a href="#55" name="top55">[55]</a></sup>. Neste sentido, um conceito nunca est&aacute; s&oacute;: "cada conceito remete para outros conceitos, n&atilde;o somente na sua hist&oacute;ria, mas no seu devir ou nas suas conex&otilde;es presentes"<sup><a href="#56" name="top56">[56]</a></sup>; quer dizer, um conceito n&atilde;o s&oacute; pode vir de outros conceitos, mas tem um <i>devir,</i> &eacute; uma <i>multiplicidade</i>. Note-se ainda que tratar o pensamento como <i>cria&ccedil;&atilde;o</i> &eacute; uma forma de conceber a vida como uma “obra de arte” – nisto, Deleuze converge com Foucault –, ligada &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de singularidades e diferen&ccedil;as.</p>      <p>Em contraposi&ccedil;&atilde;o com a filosofia, "a ci&ecirc;ncia n&atilde;o tem por objecto os conceitos, mas fun&ccedil;&otilde;es que se apresentam como proposi&ccedil;&otilde;es em sistemas discursivos. (…) Uma no&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica &eacute; determinada n&atilde;o por conceitos mas por fun&ccedil;&otilde;es ou proposi&ccedil;&otilde;es"<sup><a href="#57" name="top57">[57]</a></sup>. Assim, a fun&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica renuncia &agrave; tentativa que o conceito perfaz em dar consist&ecirc;ncia ao infinito e ao virtual, pois ela abranda o movimento infinito, criando assim uma reflexividade coextensiva ao movimento; neste aspecto, a ci&ecirc;ncia &eacute; ideogr&aacute;fica, mais animada por uma tens&atilde;o espiritual que por uma intui&ccedil;&atilde;o espacial: ao inv&eacute;s do conceito que se absolutiza no sobrevoo do real, a fun&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica estabelece-se no fluxo do real. Ora, o conceito n&atilde;o se confunde com uma proposi&ccedil;&atilde;o, pois ele n&atilde;o tem um valor de verdade, n&atilde;o se refere a estados de coisas, como &eacute; o caso das proposi&ccedil;&otilde;es da ci&ecirc;ncia. Como cria&ccedil;&atilde;o singular, o conceito reporta-se a um acontecimento, ele pr&oacute;prio &eacute; um <i>acontecimento</i>. Assim, “com os conceitos, a filosofia faz surgir acontecimentos”, ao passo que “a arte, com as sensa&ccedil;&otilde;es, erige monumentos”, enquanto “a ci&ecirc;ncia, com suas fun&ccedil;&otilde;es, constr&oacute;i estados de coisas”.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>n) “N&atilde;o se pode aprender a filosofia, mas a filosofar”</i></p>      <p>Georges Canguilhem afirmou, numa bela express&atilde;o: "A filosofia &eacute; uma reflex&atilde;o para quem toda a mat&eacute;ria estranha &eacute; boa, e dir&iacute;amos, de bom grado, para quem toda a boa mat&eacute;ria &eacute; estranha"<sup><a href="#58" name="top58">[58]</a></sup>. Com efeito, sem a filosofia, sem essa inquiri&ccedil;&atilde;o racional com que o esp&iacute;rito prossegue a compreens&atilde;o da realidade, poderemos de facto vir a ter indiv&iacute;duos muito adaptados &agrave; “vida pr&aacute;tica”, como t&atilde;o insistentemente hoje reclamam os fautores duma sociedade tecnocr&aacute;tica (afinal, como queria, no seu tempo, a jovem escrava tr&aacute;cia); no entanto, poder&atilde;o ser h&aacute;beis fabricadores de est&aacute;tuas, mas nunca se ter&atilde;o interrogado acerca do belo; ser&atilde;o excelentes construtores de obras de bet&atilde;o, mas desconhecem as vias pr&oacute;prias do conhecimento humano; ser&atilde;o distintos gestores do dinheiro alheio, mas sem se terem interrogado sobre o sentido da vida, sobre o bem e o mal. Deste modo, a filosofia n&atilde;o pode ter por objecto formar nestes ou naqueles valores, nalguns ide&aacute;rios, mas capacitar intelectualmente o sujeito para os reflectir todos, incluindo aqueles que pessoalmente possa subestimar.</p>      <p>Em suma, o que &eacute; filosofia? Valha a seguinte defini&ccedil;&atilde;o, proposta por Andr&eacute; Comte-Sponville<sup><a href="#59" name="top59">[59]</a></sup>: a <i>filosofia &eacute; uma pr&aacute;tica discursiva</i> (faz-se, como dizia Epicuro, “por discursos e racioc&iacute;nios”) <i>que tem a vida por objecto, a raz&atilde;o por meio e a felicidade por fim</i>. Esta tem ao menos o m&eacute;rito de indicar uma direc&ccedil;&atilde;o, bem claramente assinalada desde os gregos, que &eacute; a da sabedoria. Que posso conhecer? Que devo fazer? O que me &eacute; permitido esperar? Essas tr&ecirc;s quest&otilde;es convergem para uma quarta, que n&atilde;o &eacute; tanto "O que &eacute; o homem?", como queria Kant<sup><a href="#60" name="top60">[60]</a></sup>, mas "Como viver?".</p>      <p>Afinal, trata-se de pensar melhor para viver melhor. Isso n&atilde;o exime de escolha. Quem poderia, a essa quest&atilde;o, responder em meu lugar? Mas que valeria a minha resposta se foi apenas a minha? Julgo que Foucault responde a esta incontorn&aacute;vel quest&atilde;o: "Chamemos “Filosofia”, se quiserem, esta forma de pensamento que se interroga, n&atilde;o certamente sobre o que &eacute; verdadeiro e o que &eacute; falso, mas sobre o que faz com que haja e possa haver verdadeiro e falso (…). Chamemos “filosofia” a forma de pensamento que se interroga sobre o que permite ao sujeito ter acesso &agrave; verdade, a forma de pensamento que tenta determinar as condi&ccedil;&otilde;es e os limites do acesso do sujeito &agrave; verdade. Pois bem, se chamarmos a isto “filosofia”, creio que poder&iacute;amos chamar de “espiritualidade” a pesquisa, a pr&aacute;tica, a experi&ecirc;ncia pelas quais o sujeito opera sobre si-mesmo as transforma&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para ter acesso &agrave; verdade. Chamaremos ent&atilde;o “espiritualidade” o conjunto das buscas, pr&aacute;ticas e experi&ecirc;ncias, tais como as purifica&ccedil;&otilde;es, as asceses, as ren&uacute;ncias, as convers&otilde;es do olhar, as modifica&ccedil;&otilde;es da exist&ecirc;ncia, etc., que constituem, n&atilde;o para o conhecimento, mas para o sujeito, para o ser mesmo do sujeito, o pre&ccedil;o a pagar para ter acesso &agrave; verdade"<sup><a href="#61" name="top61">[61]</a></sup>. &Eacute; mister que a vida esteja em conson&acirc;ncia com a verdade, e que a verdade se reflicta em fun&ccedil;&atilde;o do viver. Filosofia &eacute;, nessa perspectiva, simult&acirc;nea e inseparavelmente, discurso e modo de vida, “escolha de vida” ou “maneira de comportar-se”.</p>      <p>Na verdade, a filosofia situa-se na encruzilhada entre o universal (da raz&atilde;o) e o singular (de uma exist&ecirc;ncia): por isso ela se aproxima das ci&ecirc;ncias (a raz&atilde;o, em ambos os casos, &eacute; a mesma), por isso ela se aproxima das artes (a subjectividade, em ambos os casos &eacute; a mesma), sem contudo confundir-se nem com estas (as artes), que n&atilde;o t&ecirc;m a ver com o raciocinar, nem com aquelas (as ci&ecirc;ncias), que n&atilde;o t&ecirc;m a ver com o viver. Ent&atilde;o, a filosofia n&atilde;o &eacute; apenas nem uma ci&ecirc;ncia nem uma arte, mas como que a perp&eacute;tua tens&atilde;o entre esses dois p&oacute;los: &eacute; como que uma ci&ecirc;ncia improv&aacute;vel, &agrave; for&ccedil;a de ser subjectiva, e como uma arte improv&aacute;vel, &agrave; for&ccedil;a de ser racional. Se Descartes tivesse tido &ecirc;xito, ser&iacute;amos todos cartesianos. Se Kant tivesse tido &ecirc;xito, ser&iacute;amos todos kantianos. Se Husserl tivesse tido &ecirc;xito, ser&iacute;amos todos fenomen&oacute;logos. E a filosofia seria t&atilde;o objectiva, t&atilde;o impessoal, t&atilde;o indiferente, quanto a f&iacute;sica ou a matem&aacute;tica. Se Descartes tivesse tido &ecirc;xito, se Kant tivesse &ecirc;xito, se Husserl tivesse tido &ecirc;xito, a filosofia n&atilde;o teria mais interesse: ela teria entrado no “caminho seguro de uma ci&ecirc;ncia”, como dizia Kant, e seria o fim da filosofia.</p>      <p>Aonde quero, pois, chegar? Simplesmente, a isto: a filosofia s&oacute; vive pelo imposs&iacute;vel que traz em si, que &eacute; um sujeito racional. Como se poderia parar de filosofar! Seria preciso conhecer tudo, o que n&atilde;o se pode, ou renunciar a pensar, o que n&atilde;o se deve. Esta, a for&ccedil;a motriz d’<i>A Filosofia para al&eacute;m da Academia</i>, condensada na proposi&ccedil;&atilde;o kantiana, "n&atilde;o se pode aprender a filosofia, mas a filosofar"<sup><a href="#62" name="top62">[62]</a></sup>. Com efeito, a filosofia s&oacute; vive pelo imposs&iacute;vel que traz em si, que &eacute; uma raz&atilde;o subjectiva, que &eacute; um sujeito racional: como se poderia parar de filosofar! Seria preciso conhecer tudo, o que n&atilde;o se pode, ou renunciar a pensar, o que n&atilde;o se deve<sup><a href="#63" name="top63">[63]</a></sup>. N&atilde;o se trata de aprender um saber j&aacute; conclu&iacute;do por outros que qualquer pessoa pode ficar a saber.</p>      <p>Trata-se, sim, de um <i>m&eacute;todo</i>, isto &eacute;, um caminho para o pensar, uma forma de olhar e de argumentar. Como Kant enuncia mais longamente: "Entre todas as ci&ecirc;ncias racionais (<i>a priori</i>), s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel aprender a matem&aacute;tica, mas nunca a filosofia (a n&atilde;o ser historicamente); no que respeita &agrave; raz&atilde;o, o m&aacute;ximo que se pode &eacute; aprender a <i>filosofar.</i> (…) S&oacute; &eacute; poss&iacute;vel aprender a filosofar, ou seja, exercitar o talento da raz&atilde;o, fazendo-a seguir os seus princ&iacute;pios gerais em certas tentativas filos&oacute;ficas j&aacute; existentes, mas sempre reservando &agrave; raz&atilde;o o direito de investigar aqueles princ&iacute;pios at&eacute; mesmo nas suas fontes, confirmando-os ou rejeitando-os"<sup><a href="#64" name="top64">[64]</a></sup>. S&oacute; filosofando se podem perscrutar os enigmas da vida, apreender os segredos da natureza, auscultar o sentido da hist&oacute;ria, examinando-se a si mesmo enquanto sujeito pensante e criador de cultura.</p>      <p>Meus caros, filosofar &eacute; sobretudo pensar mais longe que aquilo que se sabe, inquirir mais profundamente a raz&atilde;o de ser das coisas, buscar mais profundamente as exig&ecirc;ncias do “bem viver”, isto &eacute;, de uma vida realizada.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top1" name="1">[1]</a></sup> S&atilde;o estes os <i>Simp&oacute;sios Luso-Galaicos de Filosofia,</i> realizados at&eacute; ao momento, ora em Braga, ora em Santiago de Compostela, com as respectivas actas publicadas (em livros ou revistas): <b>I</b> - <i>Pensar a Europa</i>, 10 de Dezembro de 1999, Campus de Gualtar, Universidade do Minho, Braga; <b>II</b> - <i>Europa: Mito e Raz&atilde;o</i>, 26-27 de Outubro de 2000, Campus Sul, Universidade de Santiago de Compostela; <b>III</b> - <i>Justi&ccedil;a, Poder e Cidadania</i>, 30 de Novembro de 2001, Campus de Gualtar, Universidade do Minho, Braga; <b>IV</b> - <i>Galiza-Portugal: Miradas Cruzadas, </i>28-29 de Novembro de 2002, Campus Sul, Universidade de Santiago de Compostela; <b>V</b> - <i>Europa, Cidadania e Multiculturalismo, </i>7-8 de Maio de 2004, Casa Museu de Mon&ccedil;&atilde;o da Universidade do Minho; <b>VI</b> - <i>Desafios do S&eacute;culo XXI</i>, 11-12 de Novembro de 2005, Galeria Sargadelos, Santiago de Compostela; <b>VII</b> - <i>O Papel dos Intelectuai</i>s, 27-28 de Abril de 2007, Campus de Gualtar, Universidade do Minho, Braga; <b>VIII</b> - <i>Raz&atilde;o Ecol&oacute;gica</i>, 11-12 de Junho de 2009, Faculdade de Filosofia, Praza de Mazarelos, Santiago de Compostela; <b>IX</b> - <i>A Filosofia na Academia</i>, 28-29 de Outubro de 2011, Campus de Gualtar, Universidade do Minho, Braga.</p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top2" name="2">[2]</a></sup> Ludwig Wittgenstein, <i>Tratado L&oacute;gico-Filos&oacute;fico</i> (1921), 4.112, trad. M. S. Louren&ccedil;o, Lisboa, Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian, 1995, p. 62.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000094&pid=S0807-8967201200020000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top3" name="3">[3]</a></sup> Epicure, <i>Lettre &agrave; M&eacute;n&eacute;c&eacute;e</i>. Paris, &Eacute;ditions Fernand Nathan, 1982, p. 76.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000096&pid=S0807-8967201200020000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top4" name="4">[4]</a></sup> Cf. Aristote, <i>Protreptique</i>, frag. 6 D&uuml;ring<i>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000098&pid=S0807-8967201200020000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></i></p>      <p><sup><a href="#top5" name="5">[5]</a></sup> Arist&oacute;teles, <i>Metaf&iacute;sica</i>, Livro I, 2, trad. V. Cocco, intr. e notas de J. Carvalho, Coimbra, Atl&acirc;ntida, 1969, p. 11.</p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top6" name="6">[6]</a></sup> Plat&atilde;o, <i>Teeteto</i>, 174<i>&ordf;</i>, trad. A. M. Nogueira e M. Boeri, Lisboa, Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian, 2005, pp. 247-248.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000101&pid=S0807-8967201200020000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Cf. tamb&eacute;m Daniel Innerarity, <i>A Filosofia como uma das Belas-Artes</i>, Lisboa, Editorial Teorema, 1996, p. 125 ss.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000102&pid=S0807-8967201200020000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top7" name="7">[7]</a></sup> Arist&oacute;teles, <i>Pol&iacute;tica </i>[edi&ccedil;&atilde;o bilingue], 1259<i>a</i> 9-18, trad. A. C. Amaral e e C. C. Gomes, Lisboa, Veja, 1998, pp. 88-89.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000104&pid=S0807-8967201200020000300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p><sup><a href="#top8" name="8">[8]</a></sup> D. Innerarity, <i>op. cit.</i>, pp. 125-128.</p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top9" name="9">[9]</a></sup> Emmanuel Kant, <i>Qu’est-ce que les Lumi&egrave;res</i> (1784), trad. J.-F. Poirier, Paris, Garnier-Flamarion, 1991, p. 43.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000107&pid=S0807-8967201200020000300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top10" name="10">[10]</a></sup> Henri Bergson, ?Le rire: essai sur la signification du comique” (1900), <i>Œuvres</i>, Paris, Presses Universitaires de France, 1970, p. 388.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000109&pid=S0807-8967201200020000300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> Cf. tamb&eacute;m D. Innerarity, op. cit., p. 140.</p>      <p><sup><a href="#top11" name="11">[11]</a></sup> Aristote, <i>Parties des </i><i>Animaux</i>, III, 10, 673 <i>a</i> 8</p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top12" name="12">[12]</a></sup> H. Bergson, ?Le rire: essai sur la signification du comique”, <i>op. cit.</i>, p. 388.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000112&pid=S0807-8967201200020000300011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p><sup><a href="#top13" name="13">[13]</a></sup> <i>Ib.</i>, pp. 388-389.</p>      <p><sup><a href="#top14" name="14">[14]</a></sup> <i>Ib.</i>, p. 387.</p>      <p><sup><a href="#top15" name="15">[15]</a></sup> <i>Ib.</i>, p. 389.</p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top16" name="16">[16]</a></sup> Friedrich Nietzsche, <i>Para Al&eacute;m do Bem e do Mal </i>(1886), &sect; 294, trad. e notas de C. Moruj&atilde;o, C&iacute;rculo de Leitores, 1996, p. 254.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000117&pid=S0807-8967201200020000300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top17" name="17">[17]</a></sup> Friedrich Nietzsche, <i>Le Gai Savoir</i> (1882), ed. G. Colli et M. Montinari, Paris, Gallimard, 1967, p. 67.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000119&pid=S0807-8967201200020000300013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top18" name="18">[18]</a></sup> Friedrich Nietzsche, <i>Assim falava Zaratustra: um livro para todos e para ningu&eacute;m</i> (1883), I Parte, “Do Ler e do Escrever” [S&eacute;timo Discurso de Zaratustra], trad. Paulo O. Castro, C&iacute;rculo de Leitores, 1996, p. 47.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000121&pid=S0807-8967201200020000300014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><sup><a href="#top19" name="19">[19]</a></sup> Pierre Hadot, <i>La Philosophie comme Mani&egrave;re de Vivre</i>, Paris, Paris, &Eacute;ditions Albin Michel, 2001, p. 66.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000123&pid=S0807-8967201200020000300015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p><sup><a href="#top20" name="20">[20]</a></sup> D. Innerarity, <i>op. cit.</i>, p. 10.</p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top21" name="21">[21]</a></sup> Maurice Merleau-Ponty, “Lettre de M. Merleau-Ponty &agrave; J.-P. Sartre” (8 juillet 1953), <i>in</i> ID., <i>Parcours Deux</i>, Paris, Verdier, 2000, p. 150.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000126&pid=S0807-8967201200020000300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top22" name="22">[22]</a></sup> Michel Foucault, <i>Le Souci de Soi</i>, Paris, Gallimard, 1984.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000128&pid=S0807-8967201200020000300017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p><sup><a href="#top23" name="23">[23]</a></sup> Michel Foucault, “Le retour de la morale” (1984), <i>in</i> ID., <i>Dits et &Eacute;crits</i>, vol. IV, Paris, Gallimard, 1994, p. 698.</p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top24" name="24">[24]</a></sup> Michel Foucault, “L'&eacute;thique du souci de soi comme pratique de libert&eacute;” (1984), <i>in</i> ID., <i>Dits et &Eacute;crits</i>, vol. IV, <i>op. cit.</i>, p. 712.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000131&pid=S0807-8967201200020000300019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><sup><a href="#top25" name="25">[25]</a></sup> Michel Foucault, “Le retour de la morale” (1984), <i>op. cit.</i>, p. 707.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000133&pid=S0807-8967201200020000300020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top26" name="26">[26]</a></sup> Cf. Michel Foucault, “Par-del&agrave; le bien et le mal” (1971), <i>in</i> ID., <i>Dits et &Eacute;crits</i>, vol. II, Paris, &Eacute;ditions Gallinard, 1994, p. 234.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000135&pid=S0807-8967201200020000300021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top27" name="27">[27]</a></sup> Esta &eacute;tica tomou, na obra como na vida do autor, formas concretas cuja coer&ecirc;ncia deve ser  sublinhada: oposi&ccedil;&atilde;o ao poder dos homens sobre as mulheres, dos pais sobre os filhos, da psiquiatria sobre os doentes mentais, da medicina sobre a  popula&ccedil;&atilde;o, da administra&ccedil;&atilde;o sobre a vida das popula&ccedil;&otilde;es (Cf. Michel Foucault, “Pourquoi &eacute;tudier le pouvoir: la question du sujet” [Entretien],  <i>in</i> Hubert Dreyfus / Paul Rabinow, <i>Michel Foucault: un parcours philosophique</i>, Paris, Gallimard, 1984, p. 301.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000137&pid=S0807-8967201200020000300022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top28" name="28">[28]</a></sup> Michel Foucault, <i>Histoire de la Sexualit&eacute;</i>, t. 2, <i>L'usage des plaisirs, </i>Paris, Gallimard, 1984, p. 277.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000139&pid=S0807-8967201200020000300023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top29" name="29">[29]</a></sup> Michel Foucault, <i>Histoire de la sexualit&eacute;</i>, t. 1, <i>La volont&eacute; de savoir</i>, Paris, Gallimard, 1976, p. 125-127.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000141&pid=S0807-8967201200020000300024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Cf. tamb&eacute;m Ac&iacute;lio da Silva Estanqueiro Rocha, “‘Genealogia’, Poder e Subjectividade: perspectivas e aporias em Foucault”, <i>Diacr&iacute;tica,</i> n&ordm; 9, 1994, pp. 5-36.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000143&pid=S0807-8967201200020000300025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top30" name="30">[30]</a></sup> Cf. Fernando Savater / Jos&eacute; Luis Pardo, <i>Palavras Cruzadas: um convite &agrave; filosofia </i>[1998], trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Fim de S&eacute;culo, 2008, p. 39.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000145&pid=S0807-8967201200020000300026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top31" name="31">[31]</a></sup> Immanuel Kant, <i>Fundamenta&ccedil;&atilde;o da Metaf&iacute;sica dos Costumes</i> (1785), trad. P. Quintela, Coimbra, Atl&acirc;ntida, 1960, pp. 66-67.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000147&pid=S0807-8967201200020000300027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p><sup><a href="#top32" name="32">[32]</a></sup> <i>Ib.</i>, pp. 76-77.</p>      <p><sup><a href="#top33" name="33">[33]</a></sup> D. Innerarity, <i>op. cit.,</i> p. 102 ss.</p>      <p><sup><a href="#top34" name="34">[34]</a></sup> Cf. Fernando Savater / Jos&eacute; Luis Pardo, <i>op. cit.</i>, pp. 42-43.</p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top35" name="35">[35]</a></sup> G. W. F. Hegel, <i>Principes de la Philosophie du Droit</i>, traduit et annot&eacute; par J.-F. Kerv&eacute;gan, Paris, P.U.F., 1998, p. 88.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000152&pid=S0807-8967201200020000300028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top36" name="36">[36]</a></sup> R. H. Popkin / A. Stroll / G. W. Felker, <i>Philosophie Efficace</i>, Paris, Zelos, 1980, pp. 20, 23.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000154&pid=S0807-8967201200020000300029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top37" name="37">[37]</a></sup> T. S. Eliot, <i>The Rock</i>, 1932.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000156&pid=S0807-8967201200020000300030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top38" name="38">[38]</a></sup> Emilio Lamo de Espinosa, <i>El Pa&iacute;s</i>, 22 Janeiro 2004, p. 13.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000158&pid=S0807-8967201200020000300031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top39" name="39">[39]</a></sup> Gaston Bachelard, <i>La Formation de l’Esprit Scientifique</i>, Paris, Vrin, 1938, p. 213.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000160&pid=S0807-8967201200020000300032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top40" name="40">[40]</a></sup> Gaston Bachelard, <i>L’Activit&eacute; Rationaliste de la Physique Contemporaine</i>, Paris, P.U.F., 1951, p. 28.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000162&pid=S0807-8967201200020000300033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top41" name="41">[41]</a></sup> Karl R. Popper, <i>Conjectures and Refutations: the Growth of Scientific Knowledge</i> [1962], London/New York, Routledge, 2002, p. 516.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000164&pid=S0807-8967201200020000300034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p><sup><a href="#top42" name="42">[42]</a></sup> Seguimos aqui de perto as reflex&otilde;es de Lamo de Espinosa, <i>op.cit.</i></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top43" name="43">[43]</a></sup> Fernando Savater, <i>As Perguntas da Vida</i>, trad. M. A. Pedrosa, Lisboa, Publica&ccedil;&otilde;es Dom Quixote, 1999, p. 18.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000167&pid=S0807-8967201200020000300035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top44" name="44">[44]</a></sup> Plat&atilde;o, <i>Rep&uacute;blica</i>, Livro I, 339<i>a</i>, trad. M. H. Rocha Pereira, Lisboa, Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian, p. 24.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000169&pid=S0807-8967201200020000300036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p><sup><a href="#top45" name="45">[45]</a></sup> Cic&eacute;ron, <i>Les Devoirs</i> [<i>De Officiis</i>, 44 a.C.], XIII, 41 [texte &eacute;tabli et traduit par Maurice Testard, Paris, Les Belles Lettres, 1970, p. 125].</p>      <p><sup><a href="#top46" name="46">[46]</a></sup> “Entrevista com Maria Helena da Rocha Pereira”, <i>P&uacute;blico</i>, 6 Setembro 2001, p. 46.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><sup><a href="#top47" name="47">[47]</a></sup> Cf. Carlos Thiebaut, <i>Invitaci&oacute;n a la Filosof&iacute;a</i>, Madrid, Acento Editorial, 2003, pp. 250-251, 303.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000173&pid=S0807-8967201200020000300038&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top48" name="48">[48]</a></sup> Henri Poincar&eacute;, <i>La Science et l’Hypoth&egrave;se</i>, Paris, Flammarion, 1968, pp. 23-24.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000175&pid=S0807-8967201200020000300039&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Cf. Fernando Savater, <i>As Perguntas da Vida</i>, <i>op. cit.</i>, pp. 20-23 (que seguimos de perto).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000176&pid=S0807-8967201200020000300040&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p><sup><a href="#top49" name="49">[49]</a></sup> Cf. F. Savater, <i>op. cit.</i>, pp. 23-24.</p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top50" name="50">[50]</a></sup> Thomas Nagel, <i>What does it all mean?</i> Oxford University Press, 1987, p. 5.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000179&pid=S0807-8967201200020000300041&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top51" name="51">[51]</a></sup> Maurice Merleau-Ponty, "Partout et nulle part", <i>in</i> ID., <i>&Eacute;loge de la philosophie et autres essais.</i> Paris, Gallimard, 1953, p. 238.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000181&pid=S0807-8967201200020000300042&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><sup><a href="#top52" name="52">[52]</a></sup> Friedrich Nietzsche, "Posthumes" (1884-1885), <i>Œuvres philosophiques</i>, XI, Paris, Gallimard, pp. 215-216 [sobre “a arte da desconfian&ccedil;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000183&pid=S0807-8967201200020000300043&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->a”].</p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top53" name="53">[53]</a></sup> Gilles Deleuze / F&eacute;lix Guattari, <i>Qu’est-ce que la philosophie?</i>, Paris, Les &Eacute;ditions de Minuit, 1991, pp. 10-11.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000185&pid=S0807-8967201200020000300044&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p><sup><a href="#top54" name="54">[54]</a></sup> "O conceito de um p&aacute;ssaro n&atilde;o est&aacute; no seu g&eacute;nero ou na sua esp&eacute;cie, mas na composi&ccedil;&atilde;o de suas posturas, de suas cores e de seus cantos: qualquer coisa de indiscern&iacute;vel que &eacute; menos uma sinestesia que uma sineidesia". <i>Ib.</i>, 25-26.</p>      <p><sup><a href="#top55" name="55">[55]</a></sup> <i>Ib.</i>, p. 37.</p>      <p><sup><a href="#top56" name="56">[56]</a></sup> <i>Ib.</i>, p. 24.</p>      <p><sup><a href="#top57" name="57">[57]</a></sup> <i>Ib.</i>, p. 111.</p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top58" name="58">[58]</a></sup> <i>"La philosophie est une r&eacute;flexion pour qui toute mati&egrave;re &eacute;trang&egrave;re est bonne, et nous dirions volontiers pour qui toute bonne mati&egrave;re est &eacute;trang&egrave;re"</i><i>.</i> Georges Canguilhem, <i>Le Normal et le Pathologique</i>, Paris, P.U.F., 1966, 2&ordf; ed., p. 7&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000191&pid=S0807-8967201200020000300045&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a href="#top59" name="59">[59]</a></sup> Andr&eacute; Comte-Sponville / Luc Ferry, <i>La Sagesse des Modernes</i>, Paris, Robert Laffont, 1998, p. 508.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000192&pid=S0807-8967201200020000300046&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top60" name="60">[60]</a></sup> Immanuel Kant, <i>Logique </i>(1800), trad. J. Tissot, Paris, Chez Ladrange, 1840, p. 27.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000194&pid=S0807-8967201200020000300047&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top61" name="61">[61]</a></sup> Michel Foucault, <i>L’Herm&eacute;neutique du Sujet</i> (Cours au Coll&egrave;ge de France: 1981–1982), Paris, Seuil/Gallimard, 2001, pp. 16-17&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000196&pid=S0807-8967201200020000300048&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><sup><a href="#top62" name="62">[62]</a></sup> I. Kant, <i>Logique</i>, <i>op. cit.</i>, p. 28.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000197&pid=S0807-8967201200020000300049&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p><sup><a href="#top63" name="63">[63]</a></sup> Cf. Andr&eacute; Comte-Sponville / Luc Ferry, <i>op. cit.</i>, pp. 508-509.</p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top64" name="64">[64]</a></sup> ID., (1781), <i>Cr&iacute;tica da Raz&atilde;o Pura,</i> trad. Manuela P. Santos e Alexandre F. Moruj&atilde;o, Lisboa, Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian, pp. 660-661.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000200&pid=S0807-8967201200020000300050&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       ]]></body><back>
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