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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A Descoberta do Inconsciente no Século XIX Português]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The notion of unconsciousness belongs to the current mapping of the inner space. Nobody knows what it is or where it resides. However, one generally believes in its autonomous existence. This essay deals with the intellectual history of the subject in the Portuguese nineteenth century. The regional nature of this approach should not be diminished because some of the European major proponents of this concept were indeed Portuguese. One should consider, for instance, the Abbot Faria, a European pioneer of the hypnotism. We analyze three aspects of the concept of the unconscious: the unconscious as a source of creativity, the manipulable unconscious, and the unconscious as a perfect state of the psyche. In particular, the contributions of Abbot Faria, Cândido de Figueiredo, Bettencourt Raposo, Miguel Bombarda and José de Lacerda will be also analyzed. Each of these authors argues for a rich and paradoxical notion of the unconscious.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p> <b>A Descoberta do Inconsciente no S&eacute;culo XIX Portugu&ecirc;s</b> </p>     <p> <b>The discovery of the unconscious in the portuguese nineteenth century</b> </p>      <p> <b>Manuel Curado*</b> </p>     <p> *Universidade do Minho, Departamento de Filosofia, Braga, Portugal </p>      <p><a href="mailto:curado.manuel@gmail.com">curado.manuel@gmail.com</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>     <p> A no&ccedil;&atilde;o de inconsciente faz parte da atual cartografia do espa&ccedil;o interior. Ningu&eacute;m sabe do que se trata, nem onde reside. Todavia, acredita-se na sua exist&ecirc;ncia de um modo geral. O presente ensaio ocupa-se da hist&oacute;ria intelectual do assunto em Portugal durante o s&eacute;culo XIX. A natureza regional desta abordagem n&atilde;o dever&aacute; ser diminu&iacute;da porque alguns dos protagonistas europeus do assunto foram portugueses. Pense-se, por exemplo, no Abade de Faria, um pioneiro europeu do hipnotismo. S&atilde;o analisados tr&ecirc;s aspetos da no&ccedil;&atilde;o de inconsciente: o inconsciente enquanto fonte da criatividade, o inconsciente manipul&aacute;vel, e o inconsciente enquanto perfei&ccedil;&atilde;o do psiquismo. Em particular, ser&atilde;o comentados os contributos do Abade de Faria, C&acirc;ndido de Figueiredo, Bettencourt Raposo, Miguel Bombarda e Jos&eacute; de Lacerda para o assunto. Cada um destes autores defende uma no&ccedil;&atilde;o de inconsciente rica e paradoxal. </p>     <p><b>Palavras-chave</b>: inconsciente, consci&ecirc;ncia, hist&oacute;ria intelectual, s&eacute;culo XIX.</p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>ABSTRACT</b> </p>     <p> The notion of unconsciousness belongs to the current mapping of the inner space. Nobody knows what it is or where it resides. However, one generally believes in its autonomous existence. This essay deals with the intellectual history of the subject in the Portuguese nineteenth century. The regional nature of this approach should not be diminished because some of the European major proponents of this concept were indeed Portuguese. One should consider, for instance, the Abbot Faria, a European pioneer of the hypnotism. We analyze three aspects of the concept of the unconscious: the unconscious as a source of creativity, the manipulable unconscious, and the unconscious as a perfect state of the psyche. In particular, the contributions of Abbot Faria, C&acirc;ndido de Figueiredo, Bettencourt Raposo, Miguel Bombarda and Jos&eacute; de Lacerda will be also analyzed. Each of these authors argues for a rich and paradoxical notion of the unconscious. </p>     <p><b>Keywords</b>: unconsciousness, consciousness, intellectual history, nineteenth century.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Paris, Lisboa, &Iacute;ndia e Austr&aacute;lia</b></p>      <p>Aproximava-se o final do s&eacute;culo XIX quando C&acirc;ndido de Figueiredo (1846-1925) publicou o romance <i>Lisboa no Ano Tr&ecirc;s Mil</i>. Este famoso autor de dicion&aacute;rios, membro da Academia, conta o que se passou durante a visita de um hipnotizador a Lisboa. O protagonista da sua obra epistolar foi a uma sess&atilde;o sugestiva de um tal &Acirc;ngelo Das, doutor e conde. Os termos utilizados pelo dicionarista e escritor (hipnotizador, vida sugestiva, sono hipn&oacute;tico) podem surpreender, mas s&atilde;o rapidamente interpretados como descri&ccedil;&otilde;es de um fen&oacute;meno que havia sido anteriormente denominado magnetismo, magnetismo animal, mesmerismo, fariismo e braidismo, e que posteriormente passou a ser conhecido como hipnotismo. As pessoas ainda hoje consultam terapeutas, psic&oacute;logos, psicanalistas, psiquiatras e outros profissionais em busca da resolu&ccedil;&atilde;o de problemas de ordem afetiva, cognitiva ou comportamental. O romance de C&acirc;ndido de Figueiredo tem tudo para n&atilde;o surpreender um leitor contempor&acirc;neo. Afinal, o narrador parece procurar aux&iacute;lio junto de um especialista do psiquismo humano. A surpresa surge, contudo, quando se repara que isso de facto n&atilde;o acontece. N&atilde;o est&aacute; em causa nenhum tipo de problema mental que precise de uma viagem &agrave;s mem&oacute;rias esquecidas do narrador e aos segredos do seu cora&ccedil;&atilde;o emocional. O assunto n&atilde;o &eacute; de todo pessoal. O cliente do hipnotizador n&atilde;o est&aacute; interessado nas suas pr&oacute;prias mem&oacute;rias, nem apresenta problemas afetivos a resolver. Ele sabe que o Doutor Das o pode levar a conhecer todo o passado e todo o futuro. Basta escolher a &eacute;poca hist&oacute;rica que se deseja visualizar e manifestar essa prefer&ecirc;ncia ao hipnotizador. Deste ponto de vista, este romance de 1892 &eacute; exclusivamente uma obra de fic&ccedil;&atilde;o. O cliente do Conde pergunta-se com espanto, “Que deveria eu fazer durante o sono hipn&oacute;tico? Ocorreu-me uma grande e leg&iacute;tima ambi&ccedil;&atilde;o: viver no futuro; guindar-me ao v&eacute;rtice das civiliza&ccedil;&otilde;es vindouras, e estirar a vista por todo o passado, abrangendo num lance de olhos todas as sociedades extintas e todo o quadro ingente dos progressos humanos. Devia ser um momento assombroso” (2003: 8). </p>      <p>Este texto merece reflex&atilde;o. A imagina&ccedil;&atilde;o de C&acirc;ndido de Figueiredo &eacute; um enigma da hist&oacute;ria intelectual oitocentista. Por que raz&atilde;o o autor associa t&eacute;cnicas de acesso ao inconsciente a &eacute;pocas hist&oacute;rias distantes no tempo? A viagem ao inconsciente de uma pessoa atrav&eacute;s de t&eacute;cnicas hipn&oacute;ticas possibilita o acesso ao passado humano em geral, e n&atilde;o ao passado do pr&oacute;prio sujeito hipnotizado, e o acesso ao futuro da humanidade, para al&eacute;m do tempo de vida do cliente do hipnotizador. O inconsciente n&atilde;o &eacute; visto como um reposit&oacute;rio das experi&ecirc;ncias privadas de algu&eacute;m mas como uma inst&acirc;ncia do psiquismo humano com as propriedades que o escritor argentino Jorge Lu&iacute;s Borges atribui ao &aacute;lefe num dos seus contos, um ponto de todos os pontos, um ponto a partir do qual se pode ver qualquer outro ponto do mundo, esteja ele no passado distante ou no futuro remoto. O hipnotizador &Acirc;ngelo informa o seu cliente de que existem dificuldades t&eacute;cnicas para se aceder a qualquer &eacute;poca hist&oacute;rica, mas que n&atilde;o s&atilde;o muito grandes e derivam apenas da disponibilidade de agenda da pessoa para as muitas sess&otilde;es necess&aacute;rias. Havendo tempo, ser&aacute; poss&iacute;vel conhecer diretamente qualquer data no passado ou no futuro. Diz ele, “para ler toda a hist&oacute;ria do futuro, seria mister um sono hipn&oacute;tico de muitos meses ou de muitos anos, e &agrave; dificuldade acresceria o perigo” (<i>ibid.</i>). Compreendendo essas dificuldades, o <i>alter-ego</i> de C&acirc;ndido de Figueiredo opta por uma data precisa do futuro, o ano tr&ecirc;s mil. No decurso da sess&atilde;o hipn&oacute;tica, o sugestionado consegue visualizar que nessa altura o pa&iacute;s mais poderoso do mundo ser&aacute; a Austr&aacute;lia e que todas as pessoas da terra falar&atilde;o uma s&oacute; l&iacute;ngua, o Volap&uuml;k. S&atilde;o muitos os aspetos interessantes desta fantasia liter&aacute;ria de 1892. A representa&ccedil;&atilde;o angustiada que um intelectual europeu finissecular faz sobre a decad&ecirc;ncia futura da Europa e o desaparecimento do seu pr&oacute;prio pa&iacute;s &eacute; digna de nota. O mesmo pode ser afirmado a respeito do sonho ut&oacute;pico de todos os homens falarem uma s&oacute; l&iacute;ngua, um sonho surpreendente num beletrista portugu&ecirc;s, porque a hist&oacute;ria cultural lusitana nunca foi atormentada pela diversidade lingu&iacute;stica, sendo este um assunto que se associa imediatamente &agrave; Europa Central. A utiliza&ccedil;&atilde;o da t&eacute;cnica do observador estrangeiro para a cr&iacute;tica social do final do s&eacute;culo XIX &eacute;, talvez, o aspeto do texto cujo passado &eacute; mais facilmente identific&aacute;vel devido ao honroso paradigma das <i>Cartas Persas</i>, de Montesquieu. Estes aspetos enquadram uma representa&ccedil;&atilde;o do inconsciente humano que &eacute; rica em surpresas. </p>      <p>O problema filos&oacute;fico &eacute; este: um leitor contempor&acirc;neo n&atilde;o se reconhece neste conceito de inconsciente. Parece faltar tudo o que &eacute; relevante para a defini&ccedil;&atilde;o de inconsciente que se pode encontrar em qualquer obra de refer&ecirc;ncia da nossa &eacute;poca. Falta a liga&ccedil;&atilde;o &agrave; vida pessoal; falta a determina&ccedil;&atilde;o do comportamento e a influ&ecirc;ncia sobre os estados de sa&uacute;de do sujeito; falta o sil&ecirc;ncio do inconsciente e o papel que a linguagem desempenha na recupera&ccedil;&atilde;o desses dados quase inacess&iacute;veis e na interpreta&ccedil;&atilde;o dos pequenos sinais que apontam para essa inst&acirc;ncia do psiquismo humano. O romance de C&acirc;ndido de Figueiredo representa um inconsciente em tudo diferente: n&atilde;o parece ter liga&ccedil;&atilde;o &agrave; vida pessoal; n&atilde;o determina o comportamento do hipnotizado; n&atilde;o influencia o estado de sa&uacute;de; com a t&eacute;cnica correta, tem muito a dizer; n&atilde;o depende da interpreta&ccedil;&atilde;o de sinais e, neste sentido, &eacute; mais silencioso do que a no&ccedil;&atilde;o de inconsciente da nossa &eacute;poca; n&atilde;o &eacute; decisivo na vida das pessoas porque estas podem viver sem aceder aos dados possibilitados pelo seu pr&oacute;prio inconsciente. Esta pequena lista de diferen&ccedil;as causa surpresa, como se disse. No entanto, este texto da &uacute;ltima d&eacute;cada do s&eacute;culo XIX portugu&ecirc;s s&oacute; &eacute; surpreendente <i>para n&oacute;s</i>; dificilmente causaria surpresa junto dos contempor&acirc;neos do famoso dicionarista, escritor e tradutor. Ali&aacute;s, a obra &eacute; recordada devido &agrave; cr&iacute;tica social bem-humorada, aqui e ali mordaz, do Portugal da &eacute;poca, lido do ponto de vista de um observador estrangeiro do futuro remoto, e n&atilde;o devido ao seu contributo para a no&ccedil;&atilde;o de inconsciente. A falta de surpresa de uns e a surpresa de outros s&atilde;o reveladoras das vicissitudes desta no&ccedil;&atilde;o importante para a representa&ccedil;&atilde;o da mente humana. </p>      <p>A falta de surpresa de uns tem uma boa justifica&ccedil;&atilde;o. Recuando de 1892 para tr&aacute;s, at&eacute; ao in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX, encontram-se outras grandes manifesta&ccedil;&otilde;es desta no&ccedil;&atilde;o de inconsciente. Jos&eacute; Cust&oacute;dio de Faria, universalmente conhecido como Abade de Faria (1746-1819), prop&otilde;e uma conce&ccedil;&atilde;o semelhante na sua obra <i>Da Causa do Sono L&uacute;cido, ou Estudo da Natureza do Homem</i>, publicada em Paris, em franc&ecirc;s, em 1819. Para o Abade de Faria, um portugu&ecirc;s natural de Goa, na &Iacute;ndia, o sono l&uacute;cido, que considera uma forma aperfei&ccedil;oada do sonambulismo natural, tem a propriedade de desenvolver nos hipnotizados “conhecimentos sublimes, que n&atilde;o tinham jamais adquirido pelo estudo e que, al&eacute;m disso, abarcam todo o espa&ccedil;o de tempo e de lugar; ou seja, o passado, o futuro e todas as dist&acirc;ncias. &Eacute; certo que esses conhecimentos s&atilde;o muitas vezes misturados com erros graves, mas n&atilde;o deixam de atingir tamb&eacute;m em certas ocasi&otilde;es verdades constantes” (II.1). Os epoptas do Abade de Faria, um neologismo que ele usa para designar aqueles que veem tudo de forma manifesta (II.2), t&ecirc;m uma intui&ccedil;&atilde;o que &eacute; “uma frui&ccedil;&atilde;o simult&acirc;nea de fun&ccedil;&otilde;es semelhantes &agrave;s dos cinco sentidos e para al&eacute;m deles, sem entraves de qualquer dist&acirc;ncia de tempo e de lugar. Significa que ela abarca todas as propriedades do corpo acess&iacute;veis ao homem e muitas outras que lhe s&atilde;o inacess&iacute;veis, sem que o passado, o futuro e a dist&acirc;ncia coloquem qualquer obst&aacute;culo” (II.10). Como se v&ecirc;, o livro parisiense, apartado por mais de sete d&eacute;cadas do livro lisboeta, oferece uma no&ccedil;&atilde;o semelhante de inconsciente. Esta inst&acirc;ncia da vida mental possibilita dados que ultrapassam em muito o tempo de vida de cada pessoa que &eacute; ‘magnetizada’, ‘sugestionada’ ou hipnotizada. As dificuldades de aceder a esses dados s&atilde;o igualmente pequenas. Faria alude a uma mistura de verdades e de erros, mas o seu pensamento &eacute; claro ao afirmar que n&atilde;o h&aacute; obst&aacute;culos nesse acesso.</p>      <p>Para se compreender a natureza excecional que este livro atribui &agrave; inst&acirc;ncia an&iacute;mica, que retrospectivamente se poderia considerar uma das primeiras representa&ccedil;&otilde;es da no&ccedil;&atilde;o de inconsciente, &eacute; necess&aacute;rio elencar as propriedades que Faria v&ecirc; nela. C&acirc;ndido de Figueiredo, interessado profissionalmente nos estudos lingu&iacute;sticos, n&atilde;o sublinha o trabalho da linguagem no acesso &agrave; mem&oacute;ria profunda. O seu hipnotizador realiza gestos com mestria: “sem pronunciar uma palavra mais, sentou-se defronte de mim … Abriu as m&atilde;os e espalmou-mas nas regi&otilde;es temporais, obrigando-me a fixar os olhos no seu olhar, vivo, penetrante e ao mesmo tempo im&oacute;vel” (<i>ibid.</i>). O Conde limita-se a dar um comando verbal para que o hipnotizado escreva tudo o que v&ecirc;. O papel diminuto da linguagem no acesso ao inconsciente &eacute; compensado pela utopia futura de uma l&iacute;ngua comum a todos os povos da terra. Para o Abade de Faria, o magnetismo hipn&oacute;tico manifesta o dom pentecostal das l&iacute;nguas. Para ele, os epoptas t&ecirc;m alegadamente a capacidade de compreender l&iacute;nguas estrangeiras que n&atilde;o estudaram, e a capacidade complementar de ler o pensamento dos outros, na condi&ccedil;&atilde;o de ser est&aacute;vel (III.9). Faria e Figueiredo apoucam o papel instrumental da linguagem como via de acesso ao inconsciente mas compensam esta limita&ccedil;&atilde;o com refer&ecirc;ncias &agrave; utopia da supera&ccedil;&atilde;o das diferen&ccedil;as lingu&iacute;sticas entre os povos e as pessoas. Entre um e o outro h&aacute; uma diferen&ccedil;a subtil. O dom das l&iacute;nguas que o primeiro julga ver nos seus epoptas, com tra&ccedil;os evang&eacute;licos &oacute;bvios, &eacute; transformado pelo segundo num assunto meramente humano: os povos do futuro falar&atilde;o a l&iacute;ngua artificial de Johann Martin Schleyer (1831-1912). </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Pequenas diferen&ccedil;as surgem tamb&eacute;m a respeito dos correlatos da visualiza&ccedil;&atilde;o hipn&oacute;tica. O Abade de Faria n&atilde;o limita os poderes do sono hipn&oacute;tico ao que existe, esteja no passado ou no futuro, mas entra no campo modal do que poderia existir e n&atilde;o chega a existir de facto. Este tra&ccedil;o &eacute; surpreendente. Diz ele: “o ouvido, por exemplo, n&atilde;o pode escutar aquilo que n&atilde;o se diz; mas nos epoptas escuta o que foi dito outrora e o que se dir&aacute; um dia. No entanto, h&aacute; tamb&eacute;m ocasi&otilde;es em que ouvem o que nunca foi dito e o que nunca se dir&aacute; jamais” (III.4). Figueiredo, como se viu, aceita que os hipnotizados acedam a todo o passado e a todo o futuro, no sentido em que s&atilde;o coisas que j&aacute; existiram ou que existir&atilde;o realmente. N&atilde;o &eacute; equacionado o problema modal de o futuro poder ser diferente; o hipnotizado v&ecirc; um futuro que existe assim como o presente tamb&eacute;m existe e o passado j&aacute; existiu. Faria, pelo contr&aacute;rio, outorga aos seus clientes em estado de sono l&uacute;cido a capacidade de poder visualizar os poss&iacute;veis, mesmo que nunca aconte&ccedil;am realmente. Sublinhe-se novamente este ponto, nas suas pr&oacute;prias palavras: “il est aussi des occasions o&ugrave; ils &eacute;coutent ce qui n’a jamais &eacute;t&eacute; dit, et ce qui ne se dira jamais”. Figueiredo limita a ideia vertiginosa de se poder aceder ao campo infinito do poss&iacute;vel fazendo com que o seu hipnotizado s&oacute; veja o que existiu ou existir&aacute; realmente, e n&atilde;o o que poderia ter existido, mas n&atilde;o existiu, e o que poder&aacute; existir, mas que nunca existir&aacute;. </p>      <p>&Agrave; linguagem e &agrave; possibilidade, h&aacute; que acrescentar a compreens&atilde;o que uma pessoa tem das outras. A rela&ccedil;&atilde;o entre hipnotizador e hipnotizado parece descrever o acesso completo de uma pessoa &agrave;s mem&oacute;rias de outra pessoa. Estes dois autores do s&eacute;culo XIX portugu&ecirc;s equacionam o problema de modo muito diferente. &Acirc;ngelo Das n&atilde;o acede &agrave;s mem&oacute;rias pessoais do cliente que o procura, e este, por sua vez, n&atilde;o intui o que as pessoas do futuro sentir&atilde;o. Os epoptas de Faria, pelo contr&aacute;rio, s&atilde;o descritos como possuindo o dom da intui&ccedil;&atilde;o ilimitada dos estados de esp&iacute;rito &agrave; sua volta. O concentrador ou hipnotizador n&atilde;o tem, por sua vez, o dom da intui&ccedil;&atilde;o sobre o concentrado ou sobre o catal&eacute;ptico. (Faria recusou as designa&ccedil;&otilde;es de magnetismo animal, fluido magn&eacute;tico e magnetizador, propondo as de <i>concentration</i>, <i>concentrateurs</i> e <i>concentr&eacute;s</i>.) O que o Abade afirma sobre a capacidade de clarivid&ecirc;ncia, ou intui&ccedil;&atilde;o total sobre as emo&ccedil;&otilde;es e os pensamentos de outras pessoas, n&atilde;o &eacute;, pois, imitado por Figueiredo. O viajante no tempo futuro n&atilde;o tem o dom de intuir o que se passa no cora&ccedil;&atilde;o das pessoas que encontra, limitando-se a falar com elas e a ler a sua correspond&ecirc;ncia. O hipnotizador n&atilde;o tem o dom da intui&ccedil;&atilde;o, tal como o concentrador de Faria. </p>      <p>Apesar destas pequenas diferen&ccedil;as, v&ecirc;-se que C&acirc;ndido de Figueiredo baseou o seu romance fant&aacute;stico numa tradi&ccedil;&atilde;o muito velha sobre os alegados poderes do inconsciente humano. Na &uacute;ltima d&eacute;cada do s&eacute;culo XIX, este romancista contribuiu para limitar o inconsciente aos seres humanos e ao conjunto das coisas que existem ou existir&atilde;o de facto. O processo que medeia entre estas sete d&eacute;cadas pode ser interpretado como uma tend&ecirc;ncia para privatizar o inconsciente, localiz&aacute;-lo com precis&atilde;o em pessoas concretas que vivem vidas aut&oacute;nomas. Esta privatiza&ccedil;&atilde;o do inconsciente acompanhou uma id&ecirc;ntica privatiza&ccedil;&atilde;o da consci&ecirc;ncia. Afinal, se o Abade acreditava que os epoptas t&ecirc;m o dom da intui&ccedil;&atilde;o do que se passa na mente de outras pessoas, a consci&ecirc;ncia humana n&atilde;o &eacute; totalmente subjetiva do seu ponto de vista. Algu&eacute;m poder&aacute; sentir o que outra pessoa est&aacute; a sentir. Esta possibilidade era totalmente inaceit&aacute;vel pela ci&ecirc;ncia do final do s&eacute;culo XIX. Faria rir autores como Bettencourt Raposo ou Bombarda. Neste sentido, aconteceu uma privatiza&ccedil;&atilde;o de todo o edif&iacute;cio mental, seja consciente, seja inconsciente. Passou a ser inconceb&iacute;vel que estes aspetos da mente humana possam unir diferentes pessoas. Faria, como &eacute; evidente, n&atilde;o &eacute; o in&iacute;cio desse processo. Ser&aacute; poss&iacute;vel encontrar na tradi&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica europeia, para n&atilde;o mencionar a filos&oacute;fica ou a religiosa, manifesta&ccedil;&otilde;es anteriores da curiosidade a respeito da alegada capacidade de existir uma intui&ccedil;&atilde;o ilimitada sobre os estados an&iacute;micos das outras pessoas.<sup><a href="#1" name="top1">[1]</a></sup> Ser&aacute; tamb&eacute;m poss&iacute;vel identificar muitos exemplos de teorias que irmanam o psiquismo humano a um psiquismo mais alargado, como o pampsiquismo antigo, moderno e, at&eacute;, oitocentista (e.g. a teoria da vibra&ccedil;&atilde;o universal de Miguel Bombarda). Figueiredo n&atilde;o &eacute;, por seu lado, o ponto final dessa tend&ecirc;ncia; &eacute; um ponto interm&eacute;dio, que auxilia a compreender como &eacute; que uma no&ccedil;&atilde;o muito vasta foi diminuindo o seu escopo progressivamente. &Eacute; agora evidente por que raz&atilde;o a surpresa dos seus contempor&acirc;neos se limitou &agrave; cr&iacute;tica social do romance, mas n&atilde;o parece ter inclu&iacute;do os tra&ccedil;os com que o autor caracterizou o sono hipn&oacute;tico ou as t&eacute;cnicas de acesso &agrave; paradoxal mem&oacute;ria do futuro. </p>      <p>O inconsciente, a linguagem, a intui&ccedil;&atilde;o e a visualiza&ccedil;&atilde;o s&atilde;o faculdades ou inst&acirc;ncias da mente humana. Viu-se como estes dois autores relacionam algumas destas inst&acirc;ncias entre si. A rela&ccedil;&atilde;o entre o inconsciente e os estados conscientes, determinando ou n&atilde;o a vontade consciente e o comportamento, &eacute; um aspeto decisivo da no&ccedil;&atilde;o hodierna. A tradi&ccedil;&atilde;o em que Faria e Figueiredo se inserem inclu&iacute;a uma rela&ccedil;&atilde;o especial entre o inconsciente e o estado de sa&uacute;de. O Abade menciona muitas vezes a capacidade de o estado hipn&oacute;tico curar por si mesmo as doen&ccedil;as de que padece o hipnotizado. Havendo um aux&iacute;lio exterior, essa cura ser&aacute; muito mais r&aacute;pida e eficaz; n&atilde;o havendo esse aux&iacute;lio, as caracter&iacute;sticas do inconsciente determinam o estado de sa&uacute;de da pessoa. O sono l&uacute;cido de Faria parece amplificar as capacidades curativas do sono normal: “est&aacute; fora de d&uacute;vida que, se uma doen&ccedil;a, por mais grave que seja, for acompanhada pelo sono l&uacute;cido, ter&aacute; sempre todas as facilidades que conv&ecirc;m a esse estado ben&eacute;fico para ser tratada sem nenhum aux&iacute;lio externo” (III.). Faria acrescenta imediatamente o que justifica o poder curativo do sono l&uacute;cido. O inconsciente parece uma manifesta&ccedil;&atilde;o da sabedoria da natureza no ser humano. Diz ele, “atrav&eacute;s deste meio, a natureza conserva ainda no doente todos os direitos maternais para o curar, se for auxiliada por um guia h&aacute;bil” (III.8).</p>      <p>Est&atilde;o aqui v&aacute;rios aspetos da no&ccedil;&atilde;o de inconsciente que n&atilde;o ir&atilde;o desaparecer t&atilde;o cedo. O primeiro deles &eacute; o de que o inconsciente &eacute; ben&eacute;fico por si mesmo. Numa tradi&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica completamente diferente da tradi&ccedil;&atilde;o religiosa do Abade de Faria e da tradi&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria de C&acirc;ndido de Figueiredo, haveremos de reencontrar esta ideia na observa&ccedil;&atilde;o de Miguel Bombarda quando afirmou que a consci&ecirc;ncia &eacute; um acidente, &eacute; um obst&aacute;culo desagrad&aacute;vel, e quando deu a entender que todos os seres humanos seriam muito mais felizes se vivessem <i>sem</i> consci&ecirc;ncia, isto &eacute;, de forma autom&aacute;tica, de um modo literalmente inconsciente. </p>      <p>Um segundo aspeto tem a ver com o equil&iacute;brio entre as diversas faculdades ou partes da estrutura da mente humana. A alus&atilde;o do Abade de Faria aos direitos maternais da natureza (“la nature conserve encore sur le malade tous ses droits maternels pour le soigner”, III.8) denunciam um mal-estar em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; atividade consciente e volunt&aacute;ria das pessoas, como se o peso das decis&otilde;es livres que se tomam ao longo da vida danificasse, de algum modo, o estado de sa&uacute;de das pr&oacute;prias pessoas. &Eacute; curioso ver como tradi&ccedil;&otilde;es t&atilde;o diferentes sobre o inconsciente compartilham uma vis&atilde;o comum. A recomenda&ccedil;&atilde;o que estas tradi&ccedil;&otilde;es fazem &eacute; a de que &eacute; melhor viver a dormir, apoucando sempre que poss&iacute;vel a esfera da decis&atilde;o consciente. Esta recomenda&ccedil;&atilde;o acabou por influenciar a perce&ccedil;&atilde;o comum, entendimento que se manifesta, por exemplo, no conselho para ter uma boa noite de sono antes de decidir assuntos importantes. Esta forma de olhar para a atividade consciente denuncia um inc&oacute;modo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; vida acordada, uma ang&uacute;stia em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s decis&otilde;es que se t&ecirc;m de tomar. A segunda metade do s&eacute;culo XIX, pela m&atilde;o dos m&eacute;dicos psiquiatras e dos publicistas que apoiavam a interpreta&ccedil;&atilde;o materialista das rela&ccedil;&otilde;es entre o c&eacute;rebro e a mente, ir&aacute; levar &agrave;s &uacute;ltimas consequ&ecirc;ncias este mal-estar em rela&ccedil;&atilde;o ao comportamento livre, defendendo a tese de que a consci&ecirc;ncia &eacute; impotente para influenciar as decis&otilde;es dos indiv&iacute;duos, agindo estes por determina&ccedil;&atilde;o completa do inconsciente.</p>      <p>Um terceiro aspeto ter&aacute; um futuro rico e preocupante. Trata-se da capacidade de direcionar o inconsciente, de aproveitar de algum modo as suas virtudes. O Abade de Faria foi um dos primeiros autores a reparar no papel do guia h&aacute;bil na descida ao estado sonamb&uacute;lico, magn&eacute;tico, concentrado ou hipn&oacute;tico. Este guia h&aacute;bil poder&aacute; auxiliar a natureza a curar uma enfermidade, como afirma com otimismo; Figueiredo sublinha, por sua vez, o acesso a informa&ccedil;&atilde;o que poder&aacute; ser usada para satisfazer interesses ben&eacute;ficos ou de outra natureza. Numa obra de cr&iacute;tica social, o mundo do ano tr&ecirc;s mil serve de compara&ccedil;&atilde;o com os anos noventa do s&eacute;culo XIX. Como &eacute; evidente, se &eacute; poss&iacute;vel conhecer o ano tr&ecirc;s mil, por maioria de raz&atilde;o ser&aacute; poss&iacute;vel saber o que se passar&aacute; meia d&uacute;zia de anos no futuro de algu&eacute;m, podendo usar-se essa informa&ccedil;&atilde;o de modo eventualmente prejudicial. A possibilidade de determinar inconscientemente o comportamento de algu&eacute;m e de realizar, em consequ&ecirc;ncia, objetivos menos nobres, faz parte da hist&oacute;ria rica e atribulada desta no&ccedil;&atilde;o. </p>      <p><b>II</b></p>      <p><b>Uma Descoberta Popular e Acad&eacute;mica</b></p>      <p>Estes dois autores, j&aacute; pouco conhecidos, s&atilde;o exemplos do modo como a no&ccedil;&atilde;o de inconsciente se foi constituindo ao longo do s&eacute;culo XIX portugu&ecirc;s. Os seus contributos para a precis&atilde;o deste conceito s&atilde;o muito relevantes porque apontam para uma parte da mente humana cuja exist&ecirc;ncia se suspeitava h&aacute; muito tempo. Mais, s&atilde;o ind&iacute;cios de que a mente humana tem uma estrutura, e que, precisamente por isso, n&atilde;o pode ser um efeito secund&aacute;rio desprez&iacute;vel da atividade do c&eacute;rebro. Tomando o exemplo destes autores, s&atilde;o muitas as perguntas que se podem colocar a respeito da hist&oacute;ria intelectual deste conceito: como &eacute; que se descobriu esta parte importante da atual representa&ccedil;&atilde;o da mente humana? Como &eacute; que surgiu este conceito t&atilde;o importante para a avalia&ccedil;&atilde;o que o Direito faz do comportamento humano? Em que &eacute;poca &eacute; que se <i>reparou</i> no assunto? </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Estas quest&otilde;es s&atilde;o muito grandes e &eacute; dif&iacute;cil responder com detalhe a cada uma delas. A no&ccedil;&atilde;o de inconsciente &eacute; hoje t&atilde;o importante que muitas &aacute;reas do saber a reclamam: ela est&aacute; presente na Medicina, na Psicologia, no Direito e na Filosofia. Para al&eacute;m destas &aacute;reas, outras existem que reclamam o conceito e o utilizam amplamente, de modos menos &oacute;bvios. Alguns bi&oacute;logos pensam que &eacute; importante que esteja na explica&ccedil;&atilde;o dos padr&otilde;es das formas biol&oacute;gicas e em certos comportamentos animais. Na Ci&ecirc;ncia da Computa&ccedil;&atilde;o o mesmo acontece, porque esta tenta simular estruturas cognitivas em sistemas t&eacute;cnicos que n&atilde;o sentem o que quer que seja, e que s&atilde;o, por conseguinte, literalmente inconscientes. Todas as ci&ecirc;ncias que chocam de frente com o problema da criatividade humana tamb&eacute;m t&ecirc;m de identificar a certa altura a fonte de onde promanam as ideias novas. </p>      <p>Como se v&ecirc;, o assunto &eacute; muito vasto. A no&ccedil;&atilde;o de inconsciente come&ccedil;ou a ser investigada muitas d&eacute;cadas <i>antes</i> de Freud. Existe hoje uma ideia clara de como a no&ccedil;&atilde;o se estruturou, gra&ccedil;as aos trabalhos de Lancelot Law Whyte (1960), Henri Ellenberger (1970), de Alison Winter (1998) e de Frank Tallis (2002), entre outros. O caso portugu&ecirc;s &eacute; menos conhecido e, n&atilde;o fora o protagonismo do Abade de Faria em Fran&ccedil;a, pareceria completamente marginal. Esta perspetiva s&oacute; pode derivar de um conhecimento insuficiente do detalhe do contributo portugu&ecirc;s para a no&ccedil;&atilde;o de inconsciente. &Eacute; verdade que muitas destas ideias atravessavam toda a Europa ocidental; o caso portugu&ecirc;s revela, contudo, duas caracter&iacute;sticas muito acentuadas. A primeira &eacute; a quantidade elevada de autores que escreveram sobre este assunto, em n&uacute;mero que indicia uma grande curiosidade pelo tema. A segunda &eacute; a r&aacute;pida aplica&ccedil;&atilde;o do conceito a situa&ccedil;&otilde;es concretas, nomeadamente nos relat&oacute;rios m&eacute;dico-legais (Bombarda, J&uacute;lio de Matos), na interpreta&ccedil;&atilde;o de aspetos do fen&oacute;meno religioso (Jos&eacute; Alfredo Mendes de Magalh&atilde;es), e na formula&ccedil;&atilde;o de teorias completas do psiquismo humano (Bettencourt Raposo, Jos&eacute; de Lacerda, etc.). </p>      <p>Infelizmente, boa parte destes autores s&atilde;o desconhecidos do p&uacute;blico culto. A estrela de Freud teve uma luz t&atilde;o intensa que eclipsou muitos autores anteriores, incluindo os portugueses. Em Portugal existiu um grande n&uacute;mero de autores que, dentro e fora das universidades, publicaram obras sobre aspetos da mente humana, contribuindo assim para a descoberta da no&ccedil;&atilde;o de inconsciente. Ao longo do s&eacute;culo XIX, v&aacute;rios autores continuaram o legado do Abade de Faria. Pense-se em autores como Augusto Soares Ramalho, que dedica ao assunto a sua disserta&ccedil;&atilde;o inaugural em Medicina, com o t&iacute;tulo <i>Os Sonhos: Estudo de Psicofisiologia</i> (1881); Joaquim Martins Teixeira de Carvalho, que publicou em 1888 uns <i>Estudos sobre Sugest&atilde;o e suas Aplica&ccedil;&otilde;es. I. Terap&ecirc;utica Sugestiva</i>; nesse mesmo ano, o m&eacute;dico a&ccedil;oriano Gil Mont’Alverne de Sequeira publica o seu <i>Hipnotismo e Sugest&atilde;o</i>, um livro que teve duas edi&ccedil;&otilde;es, em 1888 e em 1889; o m&eacute;dico Hip&oacute;lito Francisco &Aacute;lvares dedicou a sua disserta&ccedil;&atilde;o inaugural do final do curso m&eacute;dico &agrave; quest&atilde;o <i>O Que &eacute; o Hipnotismo? Suas Aplica&ccedil;&otilde;es, Vantagens e Perigos</i> (1889); o c&oacute;nego Manuel Anaquim publicou <i>A Moderna Quest&atilde;o do Hipnotismo</i> (1895) e, poucos anos depois, <i>O Hipnotismo</i> (1906); o m&eacute;dico Jos&eacute; Caetano de Sousa e Lacerda, que introduziu em Portugal a quest&atilde;o da neurastenia, interessou-se pelo inconsciente na s&eacute;rie de artigos com o t&iacute;tulo comum de <i>Hipnologia</i>, que publicou em 1897 nos <i>Arquivos de Medicina</i>; o pedagogo Manuel Ferreira-Deusdado e o m&eacute;dico J. Bettencourt Ferreira exploraram as liga&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis entre a educa&ccedil;&atilde;o e o hipnotismo no seu livro conjunto <i>A Sugest&atilde;o Hipn&oacute;tica na Educa&ccedil;&atilde;o</i> (1897). </p>      <p>O interesse que estes autores de Oitocentos criaram foi t&atilde;o grande que haveria de continuar durante as primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX. Os autores acad&eacute;micos n&atilde;o se esqueceram do assunto. Ant&oacute;nio Caetano Freire Egas Moniz, futuro Pr&eacute;mio Nobel da Medicina, interessou-se pelo assunto, publicando <i>As Novas Ideias sobre o Hipnotismo (Aspetos M&eacute;dico-Legais)</i>, na <i>Revista da Universidade de Coimbra</i> (1914), e uma monografia c&eacute;lebre sobre <i>O Abade de Faria na Hist&oacute;ria do Hipnotismo</i> (1925). Egas Moniz &eacute; o exemplo perfeito de como as tradi&ccedil;&otilde;es popular, filos&oacute;fica e m&eacute;dica a respeito do inconsciente se estimularam mutuamente. Alberto Pimentel, Filho, equaciona a no&ccedil;&atilde;o de subconsci&ecirc;ncia nas suas li&ccedil;&otilde;es de <i>Psico-Fisiologia</i> (1916), e Faria de Vasconcelos dedica uma parte importante das suas <i>Li&ccedil;&otilde;es de Psicologia Geral</i> &agrave; quest&atilde;o do inconsciente (1925). A rece&ccedil;&atilde;o de Freud em Portugal aumentou o interesse pelo assunto, iniciando uma tradi&ccedil;&atilde;o intelectual muito diferente da oitocentista. </p>      <p>O esp&iacute;rito do movimento intelectual do s&eacute;culo XIX foi, talvez, mais aproveitado por autores populares. No grande n&uacute;mero destes autores, destacam-se figuras como Ant&oacute;nio Ba&ccedil;am Correia, que publicou uma pequena biblioteca sobre estes assuntos, nomeadamente <i>O Segredo do Poder. Magnetismo Pessoal e Hipnotismo</i> (1910), <i>Como Vencer Pela Nossa Vontade: Curso de Magnetismo Pessoal, Influ&ecirc;ncia &agrave; Dist&acirc;ncia e Terap&ecirc;utica Magn&eacute;tica Sugestiva</i> (1926), e j&aacute; mais tarde, mas ainda com mentalidade oitocentista, <i>Hipnotismo e Sugest&atilde;o</i> (1935). Ant&oacute;nio Gon&ccedil;alves Leit&atilde;o publica v&aacute;rios t&iacute;tulos dedicados ao hipnotismo, em 1913, 1917 e 1918. No in&iacute;cio da Rep&uacute;blica, Jos&eacute; Pestana publica <i>A Sugest&atilde;o e o Hipnotismo na Medicina </i>(1917). A estes autores, muitos outros haveria que acrescentar. Os cultivadores do ocultismo esp&iacute;rita no pa&iacute;s tamb&eacute;m tinham muitas coisas a dizer sobre o inconsciente, autores hoje pouco conhecidos, como Jo&atilde;o Antunes (1885-1956), <i>O Hipnotismo e a Sugest&atilde;o</i> (1912), <i>A Hipnologia Transcendental: O Hipnotismo e a Sugest&atilde;o</i> (1913), <i>O Espiritismo</i> (1914), <i>A Psicologia Experimental</i> (1917); Afonso Ac&aacute;cio Martins Velho, <i>O Magnetismo: Curso Completo de Magnetologia Experimental: A Terap&ecirc;utica Magn&eacute;tica e as Possibilidades da Hipno-Magnetologia</i> (1913); Augusto de Castro, com o seu <i>Tratado de Ci&ecirc;ncias Ocultas: Sonambulismo, Espiritualismo, Espiritismo e Grafologia, Investiga&ccedil;&otilde;es Cient&iacute;ficas sobre Trabalhos de Charcot, Liebault e Bernheim</i> (s/d); e Ant&oacute;nio Lobo Vilela, <i>Paling&eacute;nese</i> (1930) e <i>Hip&oacute;teses Metaps&iacute;quicas</i> (1940). Muitos mais haver&aacute; que acrescentar a este pequeno invent&aacute;rio.</p>      <p><b>III</b></p>      <p><b>A Perfei&ccedil;&atilde;o Humana &eacute; Inconsciente</b></p>      <p>Estes autores populares n&atilde;o tinham nenhuma teoria derradeira sobre o inconsciente nem sobre a arquitetura da mente humana. O seu assunto n&atilde;o era, de um modo geral, a compreens&atilde;o da mente humana. Muitos deles recusaram a elabora&ccedil;&atilde;o de uma teoria e contentaram-se em descrever as suas impress&otilde;es e os casos paradigm&aacute;ticos da alegada influ&ecirc;ncia do inconsciente. O padr&atilde;o geral &eacute; este: &eacute; poss&iacute;vel atrav&eacute;s de t&eacute;cnicas de manipula&ccedil;&atilde;o da aten&ccedil;&atilde;o chegar a estados profundos da estrutura da mente humana. Todos estes aspetos s&atilde;o importantes: a recusa de uma teoria; o dom&iacute;nio de uma parte da mente humana atrav&eacute;s de t&eacute;cnicas que se foram apurando ao longo do tempo; e a no&ccedil;&atilde;o de que todas as partes da mente humana est&atilde;o interligadas, e que, por exemplo, manipulando a aten&ccedil;&atilde;o, uma das estruturas da consci&ecirc;ncia humana, &eacute; poss&iacute;vel aceder a registos da mem&oacute;ria muito profundos, e determinar, dessa forma, alguns comportamentos futuros e estados de sa&uacute;de. </p>      <p>O ponto alto destas investiga&ccedil;&otilde;es pioneiras sobre o inconsciente encontra-se na defesa surpreendente da tese de que toda a humanidade seria muito mais feliz, muito mais produtiva e muito mais inteligente se vivesse de forma totalmente inconsciente. Estas ideias s&atilde;o curiosas, e &eacute; necess&aacute;rio adotar a perspetiva correta para as compreender. Muitos autores do s&eacute;culo XIX portugu&ecirc;s iniciaram um combate intelectual terr&iacute;vel contra a ideia de que os seres humanos s&atilde;o livres e respons&aacute;veis pelo seu comportamento. O centro do seu ataque foi a no&ccedil;&atilde;o de consci&ecirc;ncia. A pergunta que os ocupava era esta: qual &eacute; o papel que tem a consci&ecirc;ncia humana na determina&ccedil;&atilde;o do comportamento? A resposta que eles encontraram tem diretamente a ver com a no&ccedil;&atilde;o de inconsciente.</p>      <p>Pedro Ant&oacute;nio Bettencourt Raposo (1853-1937), um m&eacute;dico com voca&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica e liter&aacute;ria, publicou na importante revista <i>O Positivismo</i> o artigo “O Esp&iacute;rito: Primeiros Tra&ccedil;os” (1878-1879). Trata-se de um programa completo para compreender a mente humana, sobretudo a parte mais dif&iacute;cil, a mente acordada, vigilante e consciente. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O programa de investiga&ccedil;&atilde;o sobre a mente humana de Bettencourt Raposo prop&otilde;e o seguinte: “N&atilde;o h&aacute; esp&iacute;rito, h&aacute; impress&otilde;es. Estas, e s&oacute; elas, s&atilde;o ideias, s&atilde;o consci&ecirc;ncia, mem&oacute;ria, imagina&ccedil;&atilde;o, vontade, etc. … como a impress&atilde;o &eacute; movimento … no chamado esp&iacute;rito n&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o movimento” (1878-79: 430). Como se v&ecirc;, a estrat&eacute;gia intelectual para compreender a totalidade da mente humana, aqui representada pela palavra ‘esp&iacute;rito’, baseia-se no processo percetivo. Bettencourt Raposo procura tra&ccedil;ar o percurso que medeia entre as impress&otilde;es sobre os &oacute;rg&atilde;os dos sentidos at&eacute; &agrave; atividade mental mais complexa. Para o autor de <i>Sono: Tra&ccedil;os Gerais da sua Fisiologia</i> (1880), a vida mental humana resume-se ao percurso que vai das impress&otilde;es sobre os sentidos at&eacute; ao c&eacute;rebro, num movimento vibrat&oacute;rio de propaga&ccedil;&atilde;o de sinais. Se esse movimento vibrat&oacute;rio n&atilde;o para nunca e abrange as v&aacute;rias &aacute;reas do c&eacute;rebro, ent&atilde;o a consci&ecirc;ncia n&atilde;o serve para nada. Esta &eacute; apenas um efeito secund&aacute;rio da atividade do c&eacute;rebro, um efeito sem influ&ecirc;ncia causal no comportamento humano.</p>      <p>Repare-se que o assunto &eacute; a vida mental tal como ela se manifesta na consci&ecirc;ncia. Poder-se-ia perguntar, precisamente, qual &eacute; o crit&eacute;rio para se afirmar que existe de todo uma mente em geral, ou at&eacute; mesmo s&oacute; a parte v&iacute;gil dessa mente? O assunto pode ser ilus&oacute;rio. No mundo do Doutor Bettencourt Raposo h&aacute; muitas ilus&otilde;es e a den&uacute;ncia das mesmas. Com mais uma ilus&atilde;o, n&atilde;o se alteraria nada de significativo. Bettencourt Raposo choca de frente com um problema que ter&aacute; um grande desenvolvimento durante o s&eacute;culo XX, nomeadamente o crit&eacute;rio de Turing para defini&ccedil;&atilde;o do que pode ser considerado ‘pensar’, ‘mente’, e ‘consci&ecirc;ncia’. Bettencourt Raposo procurou um modo de abalar o facto absoluto de as pessoas sentirem que sentem: “afirmamos que temos esp&iacute;rito porque sentimos que o temos, ou, o que vale o mesmo, porque o esp&iacute;rito se sente a si pr&oacute;prio, tem consci&ecirc;ncia de que existe, como tamb&eacute;m tem consci&ecirc;ncia de que tem consci&ecirc;ncia” (1878-79: 431). Esta &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o que cada um tem com a sua pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia. Mas como &eacute; que se sabe que as outras pessoas s&atilde;o igualmente conscientes? E n&atilde;o apenas as pessoas: como &eacute; que se sabe onde come&ccedil;a a vida mental no conjunto dos animais? Bettencourt Raposo n&atilde;o sabia, tal como se continua a n&atilde;o saber, responder a este tipo de quest&otilde;es. Para ele, &eacute; insatisfat&oacute;rio concluir que a evid&ecirc;ncia da consci&ecirc;ncia deriva das impress&otilde;es sobre os sentidos; al&eacute;m disso, n&atilde;o se pode basear numa verifica&ccedil;&atilde;o de rea&ccedil;&otilde;es exteriores dos corpos de outras pessoas e dos animais porque, da falta de rea&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o se pode concluir nada sobre o sentir consciente. A vontade, poder de iniciativa ou espontaneidade, n&atilde;o pode ser crit&eacute;rio da consci&ecirc;ncia porque tamb&eacute;m depende do facto de ser sentida. Se se alargar o problema a todos os seres vivos, tem-se uma dificuldade sem solu&ccedil;&atilde;o porque n&atilde;o se sabe identificar o in&iacute;cio da vida mental na hist&oacute;ria da terra e dos animais. O mundo do Abade de Faria ficou completamente para tr&aacute;s; passou a ser impens&aacute;vel. </p>      <p>At&eacute; este momento, Bettencourt Raposo d&aacute; ao seu leitor problemas bem equacionados, apesar de n&atilde;o ter solu&ccedil;&atilde;o para nenhum deles. O que &eacute; inaceit&aacute;vel &eacute; a sequ&ecirc;ncia de ideias que desenvolve em consequ&ecirc;ncia destes problemas. Como Bettencourt Raposo n&atilde;o conseguiu resolver o problema das outras mentes e do crit&eacute;rio da identifica&ccedil;&atilde;o da consci&ecirc;ncia nos seres vivos, e como sabe que isso &eacute; absurdo porque, obviamente, as outras pessoas t&ecirc;m consci&ecirc;ncia e os animais tamb&eacute;m parecem ter, acaba por negar a consci&ecirc;ncia na experi&ecirc;ncia imediata que cada um tem dela. O seu projeto torna-se o da “demonstra&ccedil;&atilde;o da n&atilde;o exist&ecirc;ncia dos chamados atos do esp&iacute;rito” (1878-79: 431). A vida mental passa a ser, deste ponto de vista, “uma hip&oacute;tese essencialmente desnecess&aacute;ria” (<i>ibid</i>.). Est&aacute;-se em presen&ccedil;a da mais famosa teoria sobre o papel da mente na ordem natural que a segunda metade do s&eacute;culo XIX produziu: o epifenomenismo da consci&ecirc;ncia.</p>      <p>N&atilde;o se compreende, por&eacute;m, como &eacute; que Bettencourt Raposo justifica que a natureza se tenha dado ao inc&oacute;modo de produzir uma estrutura mental, que &eacute; constante e n&atilde;o desaparece na vida pessoas, que &eacute; universal e que todas as pessoas t&ecirc;m, mas que alegadamente n&atilde;o serve para nada. O autor de <i>Tentando as Asas</i> (1888) estava t&atilde;o convencido de que a consci&ecirc;ncia &eacute; um efeito secund&aacute;rio sem import&acirc;ncia da atividade do c&eacute;rebro que nunca chegou a reparar de todo na quest&atilde;o filos&oacute;fica. Afinal, se n&atilde;o serve para nada ter consci&ecirc;ncia, por que raz&atilde;o &eacute; que ela existe de todo? Sem resposta para esta quest&atilde;o, a estrat&eacute;gia argumentativa de Bettencourt Raposo para garantir que a consci&ecirc;ncia desaparece do seu lugar cimeiro na vida mental humana passa pela den&uacute;ncia da sua irrelev&acirc;ncia. Este &eacute; o &acirc;mago da tese epifenomenista: a consci&ecirc;ncia existe mas n&atilde;o serve para nada. </p>      <p>A cr&iacute;tica de Bettencourt Raposo ao comportamento livre ajudou, contudo, a que se pensasse no papel do inconsciente. S&atilde;o muitos os factos que o autor dos <i>Estudos Filos&oacute;ficos e Fisiol&oacute;gicos sobre a Vida e Algumas das suas Manifesta&ccedil;&otilde;es</i> (1877) inventaria para afirmar a exist&ecirc;ncia de uma vida mental inconsciente. Eis alguns. As impress&otilde;es sobre a medula n&atilde;o s&atilde;o conhecidas pelo c&eacute;rebro. As impress&otilde;es sensoriais desaparecem depois de um per&iacute;odo de tempo, mas o movimento celular a que deram origem n&atilde;o desaparece, o que significa que o c&eacute;rebro continua a trabalhar esses dados sem que deles a pessoa tenha consci&ecirc;ncia. Afirma Bettencourt Raposo que “a impress&atilde;o que fora consciente deixou ap&oacute;s si uma impress&atilde;o mitigada inconsciente” (1878-79: 439). Como o c&eacute;rebro <i>nunca</i> est&aacute; em descanso, nem durante a vig&iacute;lia, nem durante o sono, a atividade cerebral de que se <i>n&atilde;o</i> tem consci&ecirc;ncia est&aacute; na origem dos sonhos e, em casos especiais, das alucina&ccedil;&otilde;es. A informa&ccedil;&atilde;o que &eacute; recebida pelo c&eacute;rebro para al&eacute;m dos limiares da perce&ccedil;&atilde;o constitui um outro exemplo de atividade cerebral inconsciente. A periferia do campo visual &eacute;, por exemplo, uma zona que continua a receber impress&otilde;es sensoriais, s&oacute; que delas n&atilde;o se tem consci&ecirc;ncia.</p>      <p>O crit&eacute;rio que o autor de <i>Sonetos</i> (1936) toma para separar as impress&otilde;es que se tornam conscientes das que n&atilde;o se tornam conscientes &eacute; a intensidade do movimento e da vibra&ccedil;&atilde;o: “para que haja consci&ecirc;ncia, &eacute; preciso … que os movimentos materiais tenham certa intensidade … as a&ccedil;&otilde;es menos en&eacute;rgicas tomar&atilde;o parte na impress&atilde;o, como n&atilde;o poderia deixar de ser, mas parte n&atilde;o consciente” (1878-79: 54). Bettencourt Raposo avan&ccedil;a com uma classifica&ccedil;&atilde;o dos v&aacute;rios tipos de impress&otilde;es. Existem as impress&otilde;es sensoriais que se tornam conscientes, as revivescentes, como as mem&oacute;rias que s&atilde;o recordadas devido a algum movimento celular no c&eacute;rebro, as arquivadas, que se associam a determinadas c&eacute;lulas para registar eventos determinados que podem mais tarde ser recordados, e as inconscientes, que influenciam o comportamento mas de que o sujeito n&atilde;o tem consci&ecirc;ncia. Esta tipologia anuncia as futuras classifica&ccedil;&otilde;es de consciente, subconsciente e inconsciente. Como &eacute; evidente, Bettencourt Raposo n&atilde;o explica por que raz&atilde;o as impress&otilde;es especialmente energ&eacute;ticas se tornam conscientes; afinal, h&aacute; na natureza movimentos muito mais energ&eacute;ticos e violentos do que os que acontecem no c&eacute;rebro humano, e n&atilde;o &eacute; devido a isso que t&ecirc;m consci&ecirc;ncia. O problema da prova tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; abordado: como se prova que o trabalho inconsciente realizado pelo c&eacute;rebro &eacute; menos energ&eacute;tico do que o trabalho consciente? Afinal, se muito do trabalho cerebral &eacute; inconsciente, como &eacute; que se prova que &eacute; menos energ&eacute;tico do que o trabalho cerebral que d&aacute; origem &agrave; consci&ecirc;ncia? Qual &eacute; a diferen&ccedil;a entre a alegada energia da vig&iacute;lia e a alegada falta de energia do sono durante os per&iacute;odos hipnag&oacute;gicos entre esses estados?</p>      <p>Reparar neste enigma e, sobretudo, tentar solucion&aacute;-lo era coisa que n&atilde;o interessava de todo a Bettencourt Raposo, tal como n&atilde;o interessava a Augusto Rocha, a C&acirc;ndido de Pinho, a Miguel Bombarda, a J&uacute;lio de Matos, a Alves Correia e a todos aqueles que os fil&oacute;sofos mais conservadores da &eacute;poca, como Manuel Pinheiro de Almeida e Azevedo e Jos&eacute; Maria Rodrigues, classificavam de materialistas. N&atilde;o interessava porqu&ecirc;? Todos estes autores estavam completamente obcecados pelo problema filos&oacute;fico da determina&ccedil;&atilde;o do comportamento humano, assunto conhecido na altura como o problema do livre-arb&iacute;trio, e que hoje se reconhece debaixo do r&oacute;tulo do problema do determinismo e da liberdade. Os r&oacute;tulos podem ser diferentes mas o que sempre esteve em causa foi o que faz com que cada pessoa decida de um modo ou de outro, fa&ccedil;a isto ou aquilo. O que &eacute; que determina o comportamento humano? A resposta de Bettencourt Raposo &eacute; clara: “o motor dos nossos atos s&atilde;o as nossas impress&otilde;es, os estados do nosso sistema nervoso, sem o interm&eacute;dio estranho, e muito menos interm&eacute;dio arbitr&aacute;rio e livre” (1878-79: 67). </p>      <p>Se a consci&ecirc;ncia n&atilde;o joga o papel de intermedi&aacute;rio entre as impress&otilde;es recebidas pelos sentidos e as a&ccedil;&otilde;es que as pessoas realizam, h&aacute; uma continuidade imediata entre as impress&otilde;es e os comportamentos. <i>No meio n&atilde;o h&aacute; nada</i>. &Eacute; claro que <i>parece</i> haver: parece que h&aacute; vontade, que existe a iniciativa pr&oacute;pria, que h&aacute; criatividade, que h&aacute; espontaneidade e liberdade, que as pessoas t&ecirc;m desejos pr&oacute;prios e inten&ccedil;&otilde;es. A lista do que pode ocupar o lugar do intermedi&aacute;rio &eacute; grande, mas resume-se em duas palavras: mente consciente. S&oacute; que, como se viu, para Bettencourt Raposo, esta existe mas n&atilde;o desempenha nenhum papel. A den&uacute;ncia sistem&aacute;tica da impot&ecirc;ncia da consci&ecirc;ncia tornou-se o melhor argumento de apoio &agrave; exist&ecirc;ncia de uma inst&acirc;ncia mental inconsciente. O que aparta uma inst&acirc;ncia da outra &eacute; apenas a hipot&eacute;tica e n&atilde;o demonstrada intensidade da vibra&ccedil;&atilde;o. Ao afastar a consci&ecirc;ncia, Bettencourt Raposo fica com o mesmo processo de propaga&ccedil;&atilde;o dos sinais celulares, com a exce&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o &eacute; consciente: “assim como as impress&otilde;es conscientes podem tornar-se inconscientes, assim tamb&eacute;m a mem&oacute;ria pode ser inconsciente, isto &eacute;, podem as impress&otilde;es reviver sem que se tornem conscientes” (1878-79: 443). Estas impress&otilde;es que podem reviver sem que se tornem conscientes constituem a vida mental inconsciente. O distinto m&eacute;dico tentar&aacute; defender o automatismo total do tr&acirc;nsito inconsciente das impress&otilde;es at&eacute; aos comportamentos. Contudo, como o processo &eacute; inacess&iacute;vel &agrave; consci&ecirc;ncia, e como tem uma vastid&atilde;o que ultrapassa a capacidade racional dos seres humanos, segue-se que a ignor&acirc;ncia sobre a atividade inconsciente ser&aacute; interpretada, para todos os efeitos, como criatividade do pr&oacute;prio inconsciente. N&atilde;o se sabe como &eacute;; acredita-se que funciona sem influ&ecirc;ncia da mente consciente porque est&aacute; &eacute; alegadamente irrelevante; interpreta-se o que se sabe e o que n&atilde;o se sabe como processo inconsciente; em conclus&atilde;o, atribui-se ao inconsciente o privil&eacute;gio de determinar toda a vida mental. Este argumento resume o pensamento de Bettencourt Raposo. &Eacute; digno de nota que um autor t&atilde;o perspicaz n&atilde;o tenha reparado que este argumento &eacute; inaceit&aacute;vel. </p>      <p>A raz&atilde;o para este resultado encontra-se na atra&ccedil;&atilde;o que este autor tinha pelas vantagens de uma vis&atilde;o do mundo em que a consci&ecirc;ncia n&atilde;o desempenha nenhum papel &uacute;til, podendo, at&eacute;, ser prejudicial. As consequ&ecirc;ncias desta teoria aplicam-se a muitas &aacute;reas de atividade. Veja-se como. Esta &eacute; a descri&ccedil;&atilde;o de um mundo em que a vontade n&atilde;o tem nenhum papel. &Eacute; claro que <i>parece</i> que as pessoas t&ecirc;m vontade pr&oacute;pria, mas, quando se considera os factos, v&ecirc;-se que a vontade livre &eacute; ilus&oacute;ria. Este &eacute; um mundo sem sujeitos. Bettencourt Raposo afirma sem ambiguidade isto mesmo: “prescindamos do sujeito do verbo sentir; n&atilde;o vimos j&aacute; que a consci&ecirc;ncia, que a mem&oacute;ria, s&atilde;o a impress&atilde;o, s&atilde;o o movimento? … O movimento existe, existir &eacute; sentir, sentir &eacute; existir” (1878-79: 448). Este mundo tamb&eacute;m n&atilde;o tem a&ccedil;&atilde;o livre nem de iniciativa das pessoas. N&atilde;o h&aacute; imagina&ccedil;&atilde;o criadora, porque, diz Bettencourt Raposo, “a imagina&ccedil;&atilde;o provaria a exist&ecirc;ncia em n&oacute;s de um <i>quid</i> alheio &agrave;s leis gerais do universo, de um esp&iacute;rito dotado de autonomia”. E conclui imediatamente: “temos de recusar a autonomia da imagina&ccedil;&atilde;o” (1878-79: 53). N&atilde;o h&aacute; hesita&ccedil;&otilde;es nem escolhas. N&atilde;o h&aacute; criatividade tamb&eacute;m, porque, afirma, “&eacute; t&atilde;o autom&aacute;tica a descoberta cient&iacute;fica, uma inven&ccedil;&atilde;o mec&acirc;nica … como o mais disparatado sonho” (1878-79: 54). A ideologia cegou a tal ponto o discernimento do grande m&eacute;dico que ele n&atilde;o se apercebeu de como &eacute; inaceit&aacute;vel tudo o que afirma. Uma descoberta cient&iacute;fica tem o mesmo valor que o sonho mais disparatado? S&atilde;o ambos ‘autom&aacute;ticos’? Num mundo que &eacute; interpretado de um modo t&atilde;o implaus&iacute;vel quanto este, &eacute; evidente que tamb&eacute;m n&atilde;o acontecem crimes. Parece a qualquer pessoa razo&aacute;vel que existem crimes e criminosos no mundo. A honra (duvidosa) de poder ser responsabilizado por um crime, e de poder ser punido devido a ele, &eacute; impens&aacute;vel para uma teoria da mente deste tipo. Como &eacute; evidente, se o mundo &eacute; desta forma, a teoria faz recomenda&ccedil;&otilde;es de cursos de a&ccedil;&atilde;o a seguir. Est&aacute; aberto o processo de den&uacute;ncia da vontade, do sujeito, da liberdade, da iniciativa, da criatividade e, at&eacute;, do crime. </p>      <p>Bettencourt Raposo e uma gera&ccedil;&atilde;o inteira de intelectuais portugueses afadigaram-se a aplicar de modo geral &agrave; sociedade portuguesa esta teoria da mente. Tudo isto seria muito interessante se fosse apenas um debate intelectual em que se esgrimem argumentos. Estes autores garantiam aos seus leitores que as suas teorias estavam baseadas no maior rigor cient&iacute;fico poss&iacute;vel, nos factos mais provados em que se pode pensar. O pr&oacute;prio Bettencourt Raposo faz retoricamente muitas confiss&otilde;es de ignor&acirc;ncia esclarecida: se n&atilde;o conhece os factos, tamb&eacute;m n&atilde;o adianta qualquer explica&ccedil;&atilde;o. Diz ele, por exemplo, “n&atilde;o compreendemos, n&atilde;o explicamos, mas tamb&eacute;m n&atilde;o nos assaltam temores de chegar ao absurdo” (1878-79: 432). Diz ele, tamb&eacute;m, que “n&atilde;o temos por ora reunidos dados bastantes para uma boa interpreta&ccedil;&atilde;o, e por isso nos abstemos” (1878-79: 443). Estas confiss&otilde;es extraordin&aacute;rias s&atilde;o em n&uacute;mero elevado no texto, e transmitem uma impress&atilde;o de grande honestidade intelectual. O drama de autores que acreditam que s&atilde;o intelectualmente honestos &eacute; o de n&atilde;o terem espa&ccedil;o para verem que as suas teorias s&atilde;o completamente implaus&iacute;veis e descrevem um mundo de aut&oacute;matos, n&atilde;o de seres humanos normais, acordados e livres. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Estas teorias, contudo, a coberto da ret&oacute;rica falaciosa do Positivismo, n&atilde;o ficaram nas estantes das bibliotecas ou dentro das paredes das academias. Estes autores sofisticados tinham de garantir posi&ccedil;&otilde;es influentes no aparelho do Estado, nos hospitais e nas academias. Fazer pela vida implicava retirar o poder a quem o detinha. N&atilde;o h&aacute; nenhuma novidade nisto. Estas teorias da consci&ecirc;ncia in&uacute;til e do inconsciente soberano foram rapidamente aproveitadas em todas as &aacute;reas da vida social. Apenas um exemplo flagrante. Se n&atilde;o h&aacute; iniciativa das pessoas, estas tamb&eacute;m n&atilde;o poder&atilde;o ter a iniciativa de cometer um crime. Muitos autores da &eacute;poca lutaram frontalmente contra uma legisla&ccedil;&atilde;o penal que responsabilizasse os autores dos crimes. O combate mais importante aconteceu com o debate intermin&aacute;vel em torno dos crimes cometidos por alienados mentais. Mas <i>todos</i> os crimes viram reduzidas as suas penas, ao longo dos anos, devido a estas teorias da desresponsabiliza&ccedil;&atilde;o penal. Ali&aacute;s, a linha de fronteira entre crimes cometidos por loucos e crimes cometidos por pessoas no uso da sua raz&atilde;o &eacute; suficientemente clara para permitir uma aplica&ccedil;&atilde;o de penas sem problemas. No s&eacute;culo XIX nada disto era evidente, sobretudo porque existiam teorias como a do criminoso nato, de Lombroso, que afirmava que algumas pessoas j&aacute; eram criminosas mesmo que <i>ainda n&atilde;o</i> tivessem cometido factualmente o crime. A distin&ccedil;&atilde;o entre alienados e pessoas normais tamb&eacute;m n&atilde;o era nada clara, e alguns autores afirmavam que qualquer crime era j&aacute; obra de alienados mentais. Era a teoria do crime como pr&oacute;dromo da loucura. A estas pseudo-teorias h&aacute; que acrescentar a degenera&ccedil;&atilde;o, as muitas teorias da hereditariedade m&oacute;rbida e a teoria do crime como manifesta&ccedil;&atilde;o at&aacute;vica de comportamentos violentos do passado. Todas estas teorias fant&aacute;sticas viam boa parte da humanidade em estado deca&iacute;do e interpretavam os comportamentos individuais como totalmente influenciados pelo passado coletivo e pelo estado degenerado. </p>      <p>Entre n&oacute;s, e na mesma &eacute;poca em que Bettencourt Raposo defendia a sua teoria da consci&ecirc;ncia in&uacute;til, Alves Correia, por exemplo, publicava na revista <i>Era Nova</i>, de 1880, a sua proposta de aplica&ccedil;&atilde;o das investiga&ccedil;&otilde;es sobre o c&eacute;rebro e da reflex&atilde;o sobre a mente humana &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o penal e &agrave;s reformas sociais, no texto “O crime e a responsabilidade”. Para Alves Correia, destas verdades cient&iacute;ficas e filos&oacute;ficas &eacute; que “se deduz logicamente a irresponsabilidade moral dos criminosos que, em consequ&ecirc;ncia da sua organiza&ccedil;&atilde;o cerebral ser defeituosa, n&atilde;o podem fazer uma aprecia&ccedil;&atilde;o justa das a&ccedil;&otilde;es a que est&atilde;o submetidos, e praticam atos prejudiciais para a sociedade mas que eles julgam bons e necess&aacute;rios” (1880: 303). Para que n&atilde;o haja qualquer d&uacute;vida sobre o assunto, Alves Correia diz com todas as letras que os crimes acontecem devido &agrave; “responsabilidade da sociedade que n&atilde;o educa os seus membros inferiores” (1880: 395). Estas palavras s&oacute; podem significar que a sociedade n&atilde;o colocou no inconsciente dessas pessoas o controlo do seu comportamento. </p>      <p>Estas teorias sobre o crime derivam em linha direta dos debates intelectuais sobre a natureza da mente humana. Como &eacute; evidente, estes debates tiveram amplas consequ&ecirc;ncias em assuntos muito concretos como a legisla&ccedil;&atilde;o penal, a vida penitenci&aacute;ria, os asilos manicomiais, as escolas e a educa&ccedil;&atilde;o, e o culto do corpo, da sa&uacute;de e da juventude atrav&eacute;s da educa&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica. As consequ&ecirc;ncias foram ainda mais dram&aacute;ticas porque estes debates deram origem a propostas eug&eacute;nicas violentas. Muitos autores desejaram fazer interven&ccedil;&otilde;es mais musculadas nos indiv&iacute;duos degenerados, impedindo, por exemplo, a sua reprodu&ccedil;&atilde;o, ou fazendo coisas ainda piores. O pr&oacute;prio Alves Correia aponta para este caminho quando afirma que “os elementos inferiores reproduzem-se com uma facilidade espantosa sem que por algum meio os governos pensem em intervir neste estado de coisas”. Em consequ&ecirc;ncia, a sua recomenda&ccedil;&atilde;o &eacute; a de que “a sociedade tem o direito de impedir a produ&ccedil;&atilde;o de indiv&iacute;duos inferiores inaptos para a luta pela exist&ecirc;ncia” (1880: 560). A &ecirc;nfase na determina&ccedil;&atilde;o inconsciente do comportamento e o ataque ao papel desempenhado pela consci&ecirc;ncia influenciaram, como se v&ecirc;, a produ&ccedil;&atilde;o legislativa, a vida dos tribunais e a &eacute;tica. Ao lado das tradi&ccedil;&otilde;es popular, filos&oacute;fica, religiosa e m&eacute;dica a respeito do inconsciente, ser&aacute; necess&aacute;rio colocar a tradi&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica e a tradi&ccedil;&atilde;o biopol&iacute;tica de interven&ccedil;&atilde;o do Estado nos assuntos &iacute;ntimos dos cidad&atilde;os.<sup><a href="#2" name="top2">[2]</a></sup> </p>      <p>Todas estas ideias estavam no ar da &eacute;poca. O Doutor Miguel Bombarda (1851-1919) chega a afirmar que o comportamento mais correto dos seres humanos acontece na <i>aus&ecirc;ncia</i> de consci&ecirc;ncia: “&Eacute; sabido que um ato autom&aacute;tico – n&atilde;o sei at&eacute; se o diga dos atos intelectuais – tem maior grau de probabilidade de caminhar perfeito quando &eacute; inconsciente, isto &eacute;, quando a alma est&aacute; ausente, do que quando acompanhado de consci&ecirc;ncia” (1898: 244). Os processos org&acirc;nicos que decorrem de modo inconsciente s&atilde;o, pois, o modelo da perfei&ccedil;&atilde;o humana para este m&eacute;dico republicano. A exist&ecirc;ncia da consci&ecirc;ncia nos seres humanos &eacute; um defeito, uma imperfei&ccedil;&atilde;o. O grande psiquiatra parece mostrar uma inveja da condi&ccedil;&atilde;o animal. Os seres humanos possuem consci&ecirc;ncia mas seriam muito mais felizes se fossem como os animais. Pior ainda: como os animais parecem ter formas pouco desenvolvidas de consci&ecirc;ncia, os seres humanos seriam ainda mais perfeitos se fossem como as m&aacute;quinas, totalmente desprovidas de senci&ecirc;ncia. A avers&atilde;o de Bombarda em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; consci&ecirc;ncia &eacute; t&atilde;o grande que considera que esta &eacute; um obst&aacute;culo ao comportamento humano perfeito. Como n&atilde;o pode negar a sua exist&ecirc;ncia, acaba por consider&aacute;-la como uma ilus&atilde;o. Uma exist&ecirc;ncia enganosa n&atilde;o serve para nada e n&atilde;o influencia a sorte biol&oacute;gica dos indiv&iacute;duos. &Eacute; claro que at&eacute; mesmo as ilus&otilde;es t&ecirc;m de ser explicadas. A &uacute;nica forma de explica&ccedil;&atilde;o que Bombarda aceita &eacute; a do acidente. Com todas as letras: a consci&ecirc;ncia &eacute; um acidente (1898: 275). Mais uma vez, a cegueira ideol&oacute;gica impediu que o distinto m&eacute;dico reparasse nos erros desta conce&ccedil;&atilde;o da mente humana. A tese do acidente obrigaria a que se provasse, pelo menos, por que raz&atilde;o o acidente &eacute; permanente e universal e por que raz&atilde;o a alegada ilus&atilde;o tem uma estrutura est&aacute;vel. Os acidentes n&atilde;o costumam ter nenhuma destas propriedades.</p>      <p>Em par&aacute;grafos com antecipa&ccedil;&otilde;es not&aacute;veis de exemplos de Freud em <i>A Psicopatologia da Vida Quotidiana</i>, de 1901, Bombarda identifica um n&iacute;vel elevado de complexidade psicol&oacute;gica <i>mesmo nas cadeias de associa&ccedil;&otilde;es inconscientes</i>. Fen&oacute;menos como o <i>lapsus linguae</i>, a criatividade, a gesticula&ccedil;&atilde;o, a indiscri&ccedil;&atilde;o e as manifesta&ccedil;&otilde;es fision&oacute;micas das inten&ccedil;&otilde;es privadas revelam que as associa&ccedil;&otilde;es neuronais inconscientes s&atilde;o construtoras de sentido psicol&oacute;gico. Bombarda continua o legado de Bettencourt Raposo. Tamb&eacute;m ele repara que a vida mental inconsciente tem uma dimens&atilde;o superior &agrave; que se poderia esperar: “na inconsci&ecirc;ncia h&aacute; atividades em muito mais vasta extens&atilde;o. Ainda n&atilde;o se conseguiram medir as profundidades da vida ps&iacute;quica inconsciente”. Esta verifica&ccedil;&atilde;o, merit&oacute;ria em si mesma, fez com que formulasse em consequ&ecirc;ncia um programa completo para a investiga&ccedil;&atilde;o do inconsciente: “n&atilde;o &eacute; muito pensar que as observa&ccedil;&otilde;es ter&atilde;o de se multiplicar &agrave; medida que estes factos se tornarem mais conhecidos e que o campo da inconsci&ecirc;ncia, j&aacute; hoje t&atilde;o iluminado pelos estudos de psiquiatria e de hipnologia, se alargar&aacute; cada vez mais” (1898: 287).</p>      <p>A vida perfeita e saud&aacute;vel deveria ser inconsciente. Para Bombarda, todos os seres humanos deveriam ser aut&oacute;matos que n&atilde;o sentissem o que quer que seja. Como se compreende, est&aacute; posi&ccedil;&atilde;o &eacute; muito dif&iacute;cil de sustentar. Bombarda parece mentir a si pr&oacute;prio ao reconhecer que algumas experi&ecirc;ncias conscientes influenciam o curso da evolu&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica. Ao fazer o invent&aacute;rio de diferen&ccedil;as individuais que o ambiente pode favorecer, Bombarda coloca, surpreendentemente, a sensa&ccedil;&atilde;o subjetiva de prazer: “Se a varia&ccedil;&atilde;o importa uma vantagem para o ser ... porque traga consigo uma sensa&ccedil;&atilde;o de prazer derivada do mesmo facto da adapta&ccedil;&atilde;o ... se, repito, a varia&ccedil;&atilde;o &eacute; vantajosa, pelo seu pr&oacute;prio uso grava-se mais fundamente e, portanto, aumenta a probabilidade para os filhos de a herdarem. … &Eacute; a sele&ccedil;&atilde;o” (1898: 230). </p>      <p>Este argumento &eacute; muito importante. O que vale para o prazer pode ser generalizado a qualquer outra sensa&ccedil;&atilde;o consciente. N&atilde;o se compreenderia que n&atilde;o fosse assim. Afinal, a sensa&ccedil;&atilde;o de prazer &eacute; uma manifesta&ccedil;&atilde;o da consci&ecirc;ncia. Se as pessoas n&atilde;o t&ecirc;m consci&ecirc;ncia de que sentem prazer, ent&atilde;o n&atilde;o h&aacute; prazer. &Eacute; axiom&aacute;tico que n&atilde;o h&aacute; prazeres inconscientes. Todos os prazeres s&atilde;o conscientes. Bombarda n&atilde;o o afirma ostensivamente mas tamb&eacute;m n&atilde;o o recusa. Pela l&oacute;gica interna do seu texto, a sensa&ccedil;&atilde;o de prazer deve ser interpretada como um exemplo protot&iacute;pico de uma classe. As sensa&ccedil;&otilde;es conscientes de prazer (ou de dor, ou de vermelho, ou de sexo) <i>fazem diferen&ccedil;a</i> na hist&oacute;ria da evolu&ccedil;&atilde;o. Uma descri&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica do processo evolutivo tem de as tomar em considera&ccedil;&atilde;o. O prazer &eacute; uma vantagem para o indiv&iacute;duo. Se isto &eacute; verdadeiro para esta parte da consci&ecirc;ncia, ent&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; verdadeiro para a totalidade da consci&ecirc;ncia. Em resumo, &eacute; melhor a consci&ecirc;ncia do que a inconsci&ecirc;ncia. </p>      <p>As contradi&ccedil;&otilde;es da tese que defende a vida mental inconsciente s&atilde;o evidentes. Bombarda, por&eacute;m, nunca abandonar&aacute; a sua ideia de que a consci&ecirc;ncia &eacute; um epifen&oacute;meno causalmente impotente e que seria bem melhor acabar de vez com esse epifen&oacute;meno irritante e que n&atilde;o vale nada. </p>      <p>O fasc&iacute;nio por uma humanidade rob&oacute;tica, que se mova <i>exclusivamente</i> de forma inconsciente, sem sentir o que quer que seja, mostra-se tamb&eacute;m nas obras do m&eacute;dico Jos&eacute; Caetano de Sousa e Lacerda (1861-1911). Como Bettencourt Raposo, este cl&iacute;nico, irm&atilde;o do m&uacute;sico Francisco de Lacerda, tinha uma sensibilidade est&eacute;tica apurada, chegando a publicar volumes de poesia (<i>Hecatombe</i>, 1888, e <i>Flor de P&acirc;ntano</i>, 1889) e reflex&otilde;es sobre educa&ccedil;&atilde;o (<i>Esbo&ccedil;os de Patologia Social e Ideias sobre Pedagogia Geral</i>, 1901). Esta sensibilidade &eacute; dif&iacute;cil de conciliar com o elogio de uma vida desprovida de consci&ecirc;ncia. O Doutor Jos&eacute; de Lacerda tinha, contudo, argumentos racionais para apoiar a sua vis&atilde;o da mente humana. Do seu ponto de vista, quando se come&ccedil;a uma tarefa nova, a consci&ecirc;ncia est&aacute; especialmente atenta e alta. Quando j&aacute; se domina na perfei&ccedil;&atilde;o essa tarefa, a consci&ecirc;ncia deixa de existir e at&eacute; se pode realizar de forma autom&aacute;tica. Isto para ele &eacute; o modelo perfeito da explica&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es entre inconsciente e consciente na esp&eacute;cie humana: “a consci&ecirc;ncia, maximamente viva no in&iacute;cio da respetiva aprendizagem n&ecirc;urica, vai-se embotando tanto mais quanto mais perfeita esta vai sendo”. Como se sabe, o f&iacute;sico alem&atilde;o Erwin Schr&ouml;dinger defender&aacute; muito mais tarde, nas suas Confer&ecirc;ncias Tarner, ideias semelhantes, publicadas no ensaio <i>Mind and Matter</i> (1985: 14-18). Para o Doutor Lacerda, a consci&ecirc;ncia esteve presente no in&iacute;cio da vida na terra, mas, com a evolu&ccedil;&atilde;o e aperfei&ccedil;oamento durante milh&otilde;es de anos, alguns seres conseguiram <i>n&atilde;o</i> ser conscientes, e o futuro &eacute; precisamente isso: a perfei&ccedil;&atilde;o dos organismos acontecer&aacute; no futuro quando todos forem inconscientes. Nas suas pr&oacute;prias palavras, “a consci&ecirc;ncia &eacute; uma maneira infantil e decrescente das sensibilidades n&ecirc;uricas … &eacute; um estado inferior e transit&oacute;rio das recetividades nervosas, indispens&aacute;vel para a obten&ccedil;&atilde;o do automatismo … na evolu&ccedil;&atilde;o da s&eacute;rie viva, a consci&ecirc;ncia foi pouco a pouco esmorecendo at&eacute; de todo se extinguir, como aptid&atilde;o anacr&oacute;nica e in&uacute;til” (1897: 124-5). O Doutor Lacerda n&atilde;o se deu ao inc&oacute;modo de explicar a sua teoria fant&aacute;stica: nada teve a dizer que explique por que raz&atilde;o a consci&ecirc;ncia parece a toda a gente estar ligada aos animais superiores e aos seres humanos, e s&oacute; a ele parecer que est&aacute; ligada a seres primitivos do in&iacute;cio da vida na terra, sendo, como afirma, “um neurofen&oacute;meno curioso” (<i>ibid</i>.). O Doutor Lacerda tamb&eacute;m n&atilde;o se deu ao inc&oacute;modo de explicar por que raz&atilde;o viver sem sentir nada &eacute; uma vantagem em rela&ccedil;&atilde;o a viver sentindo alguma coisa. Como &eacute; evidente, tamb&eacute;m n&atilde;o se deu ao inc&oacute;modo de provar a ideia curiosa de que “o c&eacute;rebro atual chegar&aacute;, no decorrer do porvir, ao inteiro automatismo” (1897: 126).</p>      <p><b>IV</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Algumas Conclus&otilde;es</b></p>      <p>Como interpretar estas ideias t&atilde;o extraordin&aacute;rias? Em primeiro lugar, &eacute; necess&aacute;rio reparar na longevidade dos modelos de inconsciente que, ao longo do s&eacute;culo XIX, foram sendo propostos. O inconsciente como fonte da criatividade manifesta-se em C&acirc;ndido de Figueiredo, mas tamb&eacute;m na ideia de Bombarda e Lacerda de que os seres humanos poderiam ser muito melhores se forem totalmente autom&aacute;ticos. O inconsciente como modelo de perfei&ccedil;&atilde;o do psiquismo manifesta-se no Abade de Faria, que lhe atribui poderes terap&ecirc;uticos e cognitivos excecionais, e atinge o seu ponto alto na defesa de uma humanidade futura totalmente inconsciente, porque ficar&aacute; inevitavelmente desprovida de consci&ecirc;ncia. O inconsciente como inst&acirc;ncia mental manipul&aacute;vel, seja de cima para baixo (trabalhando a aten&ccedil;&atilde;o e os gestos para se chegar &agrave;s mem&oacute;rias profundas), seja de baixo para cima (trabalhando os determinantes inconscientes do comportamento), atravessa todo o s&eacute;culo XIX portugu&ecirc;s. Faria desenvolve as t&eacute;cnicas de manipula&ccedil;&atilde;o, Figueiredo leva-as &agrave;s &uacute;ltimas consequ&ecirc;ncias na sua fantasia liter&aacute;ria, os psiquiatras procuraram t&eacute;cnicas associativas para influenciar os processos inconscientes. Nenhum destes modelos desapareceu, e todos tiveram, e continuam a ter, amplo sucesso junto do p&uacute;blico popular, n&atilde;o acad&eacute;mico. Os aspetos mais fantasiosos dos modelos do Abade e de Figueiredo, como a capacidade de visualizar &eacute;pocas remotas e at&eacute; mundos poss&iacute;veis, continuam, surpreendentemente, a merecer a aten&ccedil;&atilde;o de muitas pessoas, como se v&ecirc; pelo sucesso de autores como Dolores Cannon. O que concluir, pois? Os modelos n&atilde;o s&atilde;o cient&iacute;ficos e nunca foram provados. As ideias sobre a mente humana s&atilde;o manifestamente implaus&iacute;veis. As representa&ccedil;&otilde;es oitocentistas do inconsciente continuam a influenciar muitas &aacute;reas da vida contempor&acirc;nea, da literatura ao Direito, da Psicologia &agrave;s teorias filos&oacute;ficas sobre a mente. Pior do que tudo, n&atilde;o h&aacute; progresso evidente no conceito de inconsciente, nem, ali&aacute;s, no conceito de consci&ecirc;ncia. Apesar de todos estes defeitos, este assunto continua a merecer uma aten&ccedil;&atilde;o continuada. Tudo isto diz muito sobre todos n&oacute;s. </p>      <p>Repare-se, em segundo lugar, que os grandes te&oacute;ricos oitocentistas do inconsciente n&atilde;o s&atilde;o autores menores. &Eacute; verdade que existiram muitos autores populares que divulgaram o assunto junto do p&uacute;blico leitor. Contudo, figuras como Bettencourt Raposo, Miguel Bombarda e Jos&eacute; de Lacerda fizeram parte da elite intelectual do final do s&eacute;culo XIX portugu&ecirc;s. Ideias semelhantes foram defendidas, por exemplo, por distintos professores de Medicina, como C&acirc;ndido de Pinho (1879-80 e 1882), e por publicistas com reputa&ccedil;&atilde;o na sua &eacute;poca, como Silva Gra&ccedil;a (1880-81). Que o assunto tenha merecido centenas de p&aacute;ginas de autores populares e de autores que tinham uma reputa&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica a defender tamb&eacute;m diz muito sobre todos n&oacute;s. </p>      <p>Em terceiro lugar, veja-se como as v&aacute;rias conce&ccedil;&otilde;es de inconsciente parecem apontar para um modelo final. A defesa da ideia de que todos os seres humanos viveriam melhor se forem aut&oacute;matos inconscientes faz nascer um embara&ccedil;o intelectual enorme. Poder-se-ia perguntar o que leva tantas personalidades cultas a sentirem-se manifestamente desconfort&aacute;veis com a esfera consciente das suas decis&otilde;es? N&atilde;o &eacute; aceit&aacute;vel que se veja neste processo de estrutura&ccedil;&atilde;o do conceito de inconsciente um resultado de investiga&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas que for&ccedil;aram, de algum modo, os autores a conformarem-se com a import&acirc;ncia do inconsciente e com a menoriza&ccedil;&atilde;o da consci&ecirc;ncia. Bettencourt Raposo, Bombarda e Lacerda, entre outros, poderiam afirmar que apenas os motivou os resultados s&eacute;rios da ci&ecirc;ncia positiva. O problema &eacute; o de que a no&ccedil;&atilde;o de inconsciente tem caracter&iacute;sticas semelhantes tanto em autores m&aacute;gico-religiosos (n&atilde;o se esque&ccedil;a que Faria era originalmente um br&acirc;mane hindu), quanto em autores cient&iacute;ficos. Exemplo disso est&aacute; a cren&ccedil;a de que o inconsciente &eacute; uma manifesta&ccedil;&atilde;o dos direitos maternais da natureza sobre os seres humanos, uma perfei&ccedil;&atilde;o a que se deve voltar para garantir a sa&uacute;de, como queria o Abade, para adquirir conhecimentos supra-humanos, como queria Figueiredo, para ter um comportamento mais eficiente, como queria Bombarda, e para alcan&ccedil;ar o fim &uacute;ltimo da humanidade, depois das enfermidades da inf&acirc;ncia coletiva, como a doen&ccedil;a da consci&ecirc;ncia, como queria Lacerda. Nada disto tem a ver com a ci&ecirc;ncia, e tudo isto diz muito sobre todos n&oacute;s.</p>      <p>Um quarto aspeto tem a ver com a influ&ecirc;ncia destas ideias sobre o inconsciente. Nenhuma destas teorias morreu, apesar de parecerem completamente absurdas. Estas teorias est&atilde;o, por exemplo, bem vivas nos tribunais e na legisla&ccedil;&atilde;o penal de muitos pa&iacute;ses, em que os determinantes inconscientes da a&ccedil;&atilde;o criminosa s&atilde;o amplamente inflacionados para apoucar os crimes e para atenuar as penas. H&aacute; sempre uma teoria do inconsciente ao servi&ccedil;o de algu&eacute;m para desresponsabilizar os indiv&iacute;duos que cometeram crimes. O que se passa nos tribunais nasceu, obviamente, no s&eacute;culo XIX por a&ccedil;&atilde;o destes te&oacute;ricos do inconsciente. Sabe-se que as suas teorias s&atilde;o cientificamente erradas, que s&atilde;o t&atilde;o fant&aacute;sticas quanto as ideias do Abade de Faria e a imagina&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria de C&acirc;ndido de Figueiredo, mas ainda n&atilde;o desapareceram as aplica&ccedil;&otilde;es amplas que tiveram nos tribunais, na teoria da educa&ccedil;&atilde;o, na pr&aacute;tica psicoterap&ecirc;utica, na cl&iacute;nica m&eacute;dica e na explica&ccedil;&atilde;o dos processos de criatividade art&iacute;stica. As teorias est&atilde;o erradas, mas os filhos das teorias est&atilde;o bem vivos. Tamb&eacute;m isto diz muito sobre todos n&oacute;s.</p>      <p>Para terminar, se h&aacute; alguma coisa a valorizar nestas obras, &eacute; o facto de terem equacionado com grande for&ccedil;a o papel da inst&acirc;ncia inconsciente da vida mental humana. O s&eacute;culo XIX portugu&ecirc;s foi palco de uma guerra terr&iacute;vel dos seus intelectuais mais not&aacute;veis contra a no&ccedil;&atilde;o de alma, tentando naturalizar na &iacute;ntegra a vida mental humana. Curiosamente, ao descobrirem o inconsciente, descobriram tamb&eacute;m a profundidade da alma. N&atilde;o estava na inten&ccedil;&atilde;o deles descobrir qualquer profundidade num assunto que pensavam que era ilus&oacute;rio e n&atilde;o existente. Como a vida das ideias &eacute; muito complexa, estes autores acabaram por demonstrar que o tal assunto que n&atilde;o existe &eacute;, afinal, dotado de grande profundidade. Dizendo de outro modo: para que algo tenha a propriedade de ter grande profundidade, &eacute; evidente que tem de existir. S&oacute; podemos estar gratos a estes autores. Os seus erros foram t&atilde;o grandes que s&oacute; os podemos felicitar. Vimo-nos ao espelho nesses erros. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <p><b>Fontes Prim&aacute;rias</b></p>      <!-- ref --><p>Bombarda, Miguel(1898), <i>A Consci&ecirc;ncia e o Livre-Arb&iacute;trio</i>, Lisboa, Ant&oacute;nio Maria Pereira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000072&pid=S0807-8967201200020000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Correia, N. Alves (1880-81), “O crime e a responsabilidade”, <i>Era Nova</i>, 1, pp. 302-310, 390-400 e 553-560.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000074&pid=S0807-8967201200020000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Faria, Abb&eacute; (2005), <i>De la cause du sommeil lucide</i>, Intr. Serge Nicolas, Paris, L’Harmattan [1819].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000076&pid=S0807-8967201200020000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Figueiredo, C&acirc;ndido de (2003), <i>Lisboa no Ano Tr&ecirc;s Mil. Revela&ccedil;&otilde;es Arqueol&oacute;gicas Obtidas pela Hipnose</i>, Lisboa, Frenesi [1892].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000078&pid=S0807-8967201200020000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Gra&ccedil;a, Silva (1880-1881), “As sobre-excita&ccedil;&otilde;es da atividade cerebral”, <i>Era Nova: Revista do Movimento Contempor&acirc;neo</i>, pp. 32-43.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000080&pid=S0807-8967201200020000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Gra&ccedil;a, Silva (1880-1881). “As energias ps&iacute;quicas”, <i>Era Nova: Revista do Movimento Contempor&acirc;neo</i>, pp. 127-134.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000082&pid=S0807-8967201200020000900006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Gra&ccedil;a, Silva (1880-1881). “Os nervos vaso-motores”, <i>Era Nova: Revista do Movimento Contempor&acirc;neo</i>, pp. 235-240 e 256-266.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000084&pid=S0807-8967201200020000900007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Lacerda, Jos&eacute; Caetano de Sousa e (1895), <i>Os Neurast&eacute;nicos. Esbo&ccedil;o de um Estudo M&eacute;dico e Filos&oacute;fico</i>, Pref. de Sousa Martins, Lisboa, M. Gomes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S0807-8967201200020000900008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Lacerda, Jos&eacute; de (1897), “Hipnologia”, <i>Arquivo de Medicina</i>, I, pp. 60-63, 124-128, 176-179, 399-403, 573-580.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000088&pid=S0807-8967201200020000900009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Magalh&atilde;es, Jos&eacute; Alfredo Mendes de (1896), <i>Os Milagres de Lourdes como Terap&ecirc;utica Psicol&oacute;gica</i>, Disserta&ccedil;&atilde;o inaugural apresentada &agrave; Escola M&eacute;dico-Cir&uacute;rgica do Porto, Porto, Imprensa Portuguesa.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000090&pid=S0807-8967201200020000900010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Pinho, C&acirc;ndido Augusto Correia de (1879-80), “A teoria dos reflexos e o automatismo nas fun&ccedil;&otilde;es da vida nervosa”, <i>O Positivismo. Revista de Filosofia</i>, vol. 2, pp. 89-99 e 232-237.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000092&pid=S0807-8967201200020000900011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Pinho, C&acirc;ndido Augusto Correia de (1882), “As representa&ccedil;&otilde;es da motricidade no processo mental”, <i>Revista Cient&iacute;fica</i>, vol. I, n&ordm; 3, mar&ccedil;o, pp. 154-158; vol. I, n&ordm; 4, abril, pp. 180-183.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000094&pid=S0807-8967201200020000900012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Raposo, Pedro Ant&oacute;nio Bettencourt (1877), <i>Estudos Filos&oacute;ficos e Fisiol&oacute;gicos sobre a Vida e algumas das suas Manifesta&ccedil;&otilde;es</i>, Lisboa, Tipografia Editora de Matos Moreira &amp; C.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000096&pid=S0807-8967201200020000900013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->&ordf;.</p>      <!-- ref --><p>Raposo, Pedro Ant&oacute;nio Bettencourt (1878-79, 1879-80, 1880-81), “O esp&iacute;rito. Primeiros tra&ccedil;os”, <i>O Positivismo</i>, vol. I, pp. 430-449; vol. II, pp. 53-59 e pp. 197-202; vol. III, pp. 45-70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000098&pid=S0807-8967201200020000900014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Raposo, Pedro Ant&oacute;nio Bettencourt (1880), <i>O Sono. Tra&ccedil;os Gerais da sua Fisiologia</i>, Lisboa, Tipografia Nova Minerva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000100&pid=S0807-8967201200020000900015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Sequeira, Mont’Alverne de (1889), <i>Hypnotismo e Sugest&atilde;o. Esbo&ccedil;o de Estudo</i>, 2&ordf; ed., Lisboa, Witer &amp; C.ie.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000102&pid=S0807-8967201200020000900016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p><b>Estudos</b></p>      <!-- ref --><p>Darmon, Pierre (1989), <i>M&eacute;decins et assassins &agrave; la Belle &Eacute;poque. La m&eacute;dicalisation du crime</i>, Paris, Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000105&pid=S0807-8967201200020000900017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Eigen, Joel Peter (2004), <i>Unconscious Crime. Mental Absence and Criminal Responsibility in Victorian London</i>, Baltimore, Johns Hopkins University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000107&pid=S0807-8967201200020000900018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Ellenberger, Henri F. (1970), <i>The Discovery of the Unconscious. The History and Evolution of Dynamic Psychiatry</i>, New York, Basic Books.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000109&pid=S0807-8967201200020000900019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Schr&ouml;dinger, Erwin (1985). <i>Mente y materia. Conferencias Tarner</i>, trad. Jorge Wagensberg, Barcelona, Tusquets [1956].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000111&pid=S0807-8967201200020000900020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Tallis, Frank (2002), <i>Hidden Minds. A History of the Unconscious</i>, New York, Arcade.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000113&pid=S0807-8967201200020000900021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Whyte, Lancelot Law (1960), <i>The Unconscious before Freud</i>, New York, Basic Books.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000115&pid=S0807-8967201200020000900022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Winter, Alison (1998), <i>Mesmerized. Powers of Mind in Victorian England</i>, Chicago, The University of Chicago Press.<sup><a href="#3" name="top3">[3]</a></sup>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000117&pid=S0807-8967201200020000900023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p> <sup><a href="#top1" name="1">[1]</a></sup> Veja-se, por exemplo, como Boyle, um dos protagonistas cient&iacute;ficos mais famosos da Royal Society of London, investigou esta estranha hip&oacute;tese, em Michael Hunter, ed., <i>The Occult Laboratory: Magic, Science and Second Sight in Late 17th-Century Scotland</i> (Woodbridge, The Boydell Press, 2001). Kant d&aacute; sinal de um interesse semelhante, muito cr&iacute;tico, ali&aacute;s, no seu <i>Sonhos de um Vision&aacute;rio Explicados pelos Sonhos da Metaf&iacute;sica</i> (1766). </p>      <p><sup><a href="#top2" name="2">[2]</a></sup> &Eacute; indubit&aacute;vel que s&atilde;o necess&aacute;rios estudos detalhados sobre os casos judiciais portugueses em que se invocou a determina&ccedil;&atilde;o inconsciente do comportamento como causa do crime, &agrave; luz do que j&aacute; foi feito para os casos franceses, por Pierre Darmon (1989), e para os casos ingleses, por Joel Peter Eigen (2004), entre outros. </p>      <p><sup><a href="#top3" name="3">[3]</a></sup> Agrade&ccedil;o ao Doutor V&iacute;tor Moura o convite para proferir as confer&ecirc;ncias “A Reflex&atilde;o sobre a Vida Mental no S&eacute;culo XIX Portugu&ecirc;s”, no <i>IX Encontro da Sociedade Portuguesa de Filosofia</i>, na Universidade do Minho, a 9 de setembro de 2011, e “A No&ccedil;&atilde;o de Inconsciente em Portugal no S&eacute;culo XIX”, no <i>X Simp&oacute;sio Luso-Galaico de Filosofia</i>, na Universidade do Minho, a 28 de outubro de 2011. Agrade&ccedil;o ao Doutor David Sim&oacute;n Lorda a integra&ccedil;&atilde;o da confer&ecirc;ncia “Un mundo degenerado: sucesos y miserias de los psiquiatras portugueses del siglo diecinueve”, nas <i>IX Jornadas Nacionales AEN de Historia de la Psiquiatr&iacute;a, “Raz&oacute;n, Locura y Sociedad. Una Mirada a la Historia desde el Siglo XXI”</i>, em Ourense (Galicia), a 6 de outubro de 2012. Agrade&ccedil;o aos Doutores Ana Leonor Pereira e Jo&atilde;o Rui Pita o convite para fazer a confer&ecirc;ncia plen&aacute;ria “A Descoberta do Inconsciente no S&eacute;culo XIX Portugu&ecirc;s”, no <i>1&ordm; Congresso Internacional de Hist&oacute;ria Interdisciplinar da Sa&uacute;de</i>, na Faculdade de Farm&aacute;cia da Universidade de Coimbra, a 18 outubro de 2012. Agrade&ccedil;o &agrave; Doutora Maria Ant&oacute;nia Jardim o convite para fazer a confer&ecirc;ncia “Degenera&ccedil;&atilde;o e Loucura em Fernando Pessoa”, no col&oacute;quio <i>Os Chap&eacute;us Psicol&oacute;gicos de Pessoa</i>, na Universidade Fernando Pessoa, Porto, a 18 de outubro de 2012. Agrade&ccedil;o ao Dr. Joaquim Domingues um texto seu sobre o Abade de Faria, ainda n&atilde;o publicado; ao Dr. Jos&eacute; Morgado Pereira a indica&ccedil;&atilde;o da obra do Dr. Jos&eacute; de Lacerda; e a Cristina Costa o trabalho conjunto sobre o Abade de Faria.</p>      ]]></body>
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