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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[According to Rousseau, anyone living in society, the political man, always carries a mask of artificiality that covers and overrides his or her true nature. The task of education is to salvage from the oblivion of memory the essential principles of human existence, which society, by its many contingencies, compels one to forget. Through his auto-biographical writings, Rousseau labors to present himself as the prototype of a man who was able to preserve his true nature. Because of this, Rousseau was often scorned and reproached by his contemporaries. Nevertheless, he ardently strove to present himself before them and posterity exactly as he perceived himself to be, without any measure of cunning or artifice, omitting and forgetting nothing.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p> <b>M&aacute;scara e Educa&ccedil;&atilde;o em Jean-Jacques Rousseau</b> </p>     <p> <b>Mask and education in Jean-Jacques Rousseau</b> </p>      <p> <b>Cust&oacute;dia Martins*</b> </p>     <p> *Universidade do Minho, Instituto de Educa&ccedil;&atilde;o, Braga, Portugal </p>      <p><a href="mailto:custodiam@ie.uminho.pt">custodiam@ie.uminho.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>     <p>De acordo com Rousseau, o homem pol&iacute;tico, o homem que vive em sociedade, traz consigo uma m&aacute;scara de artificialidade que tapa e se sobrep&otilde;e &agrave; sua verdadeira natureza. A tarefa da educa&ccedil;&atilde;o consiste em resgatar do olvido da mem&oacute;ria os princ&iacute;pios essenciais da exist&ecirc;ncia humana, que a sociedade, pelas suas muitas conting&ecirc;ncias, nos condiciona a esquecer. Atrav&eacute;s dos seus escritos autobiogr&aacute;ficos, Rosseau esfor&ccedil;a-se por se apresentar a si pr&oacute;prio como o prot&oacute;tipo do homem que conseguiu preservar a mem&oacute;ria da sua natureza pr&oacute;pria. Por causa disso, foi ami&uacute;de criticado e mal-amado pelos seus contempor&acirc;neos. Apesar disso, esfor&ccedil;ou-se com paix&atilde;o por se apresentar perante eles e a posteridade tal qual se percebia a si pr&oacute;prio, sem mal&iacute;cia ou artif&iacute;cio, nada omitindo ou esquecendo.</p>     <p><b>Palavras-chave</b>: Autobiografia, Homem, M&aacute;scara, Educa&ccedil;&atilde;o, Artificialidade, Natureza.</p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>ABSTRACT</b> </p>     <p>According to Rousseau, anyone living in society, the political man, always carries a mask of artificiality that covers and overrides his or her true nature. The task of education is to salvage from the oblivion of memory the essential principles of human existence, which society, by its many contingencies, compels one to forget. Through his auto-biographical writings, Rousseau labors to present himself as the prototype of a man who was able to preserve his true nature. Because of this, Rousseau was often scorned and reproached by his contemporaries. Nevertheless, he ardently strove to present himself before them and posterity exactly as he perceived himself to be, without any measure of cunning or artifice, omitting and forgetting nothing.</p>     <p><b>Keywords</b>: Auto-Biography, Men, Mask, Education, Artificiality, Nature.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p>A vida de Jean-Jacques Rousseau est&aacute; representada por quatro grandes per&iacute;odos. O primeiro, dito “precoce”, ocorre entre 1728 a 1748. O segundo, “nost&aacute;lgico”, ocorre entre 1749 a 1756. O terceiro, “de esperan&ccedil;a”, entre 1756 e 1762. O quarto, “de desencanto”, entre 1763 e 1778. &Eacute; sobre este &uacute;ltimo per&iacute;odo que aqui nos iremos debru&ccedil;ar. O per&iacute;odo abarca os escritos autobiogr&aacute;ficos mais pertinentes do autor, a saber, <i>Confiss&otilde;es</i> (1770), <i>Rousseau juiz de Jean Jacques </i>(1776)e <i>Devaneios de um Caminhante Solit&aacute;rio </i>(1778). Caracteriza-se pelo reconhecimento e assun&ccedil;&atilde;o, por parte de Rousseau, do car&aacute;cter estruturalmente totalit&aacute;rio da sociedade. Na sociedade, o homem encontra-se preso e circunscrito &agrave; figura do cidad&atilde;o, enredado por um conjunto de m&aacute;scaras que mais n&atilde;o fazem do que remeter a condi&ccedil;&atilde;o humana ao esquecimento. A m&aacute;scara &eacute; necess&aacute;ria &agrave; artificialidade da vida em sociedade, enquanto modo espec&iacute;fico que o homem tem de se representar no seu seio. A mem&oacute;ria constitui, por&eacute;m, o ant&iacute;doto para a m&aacute;scara, a qual est&aacute; por isso condenada a ser banida do tempo hist&oacute;rico. &Eacute; pela recorda&ccedil;&atilde;o que se recuperam os princ&iacute;pios fundamentais da condi&ccedil;&atilde;o humana, mesmo que apenas a t&iacute;tulo de simples hip&oacute;tese. Se &agrave; mem&oacute;ria cabe o papel de resgatar e recuperar esses princ&iacute;pios, &eacute; &agrave; educa&ccedil;&atilde;o que cabe atualizar esse tempo origin&aacute;rio redescoberto pela mem&oacute;ria. &Eacute; assim que se percebe o estatuto primordial que Rousseau empresta &agrave; mem&oacute;ria. Diz o autor nas <i>Confiss&otilde;es</i>:</p>      <blockquote>     <p>Custa-me n&atilde;o s&oacute; explicar as ideias, como at&eacute; receb&ecirc;-las. Estudei os homens e creio-me um observador razo&aacute;vel: contudo, nada sei ver do que vejo; s&oacute; vejo bem aquilo de que me lembro, e s&oacute; nas minhas recorda&ccedil;&otilde;es tenho esp&iacute;rito. N&atilde;o sinto nada, n&atilde;o penetro em nada de quanto se diz, de quanto se faz, de quanto se passa na minha presen&ccedil;a. O sinal exterior &eacute; tudo que me impressiona. Em seguida, por&eacute;m, tudo isso me vem &agrave; mem&oacute;ria: recordo-me do lugar, do tempo de tom, do olhar, do gesto, da circunst&acirc;ncia; nada me escapa. Acho ent&atilde;o, pelo que se fez ou se disse, o que se pensou, e raramente me engano. (1988: 121-122)</p> </blockquote>     <p>A resposta &agrave; pergunta “quem foi Rousseau?” revela-se mais na sua vida do que em qualquer edifica&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica levada a cabo, quer pelos seus contempor&acirc;neos, quer por alguns dos seus estudiosos. &Eacute; pelo seu autorretrato, considerado a partir das leituras dos textos autobiogr&aacute;ficos, em que o recurso &agrave; mem&oacute;ria &eacute; fundamental, que devemos procurar uma resposta a essa pergunta. Afirma Rousseau: “Garanto a verdade dos factos que vos ser&atilde;o narrados, eles realmente aconteceram com o autor do texto que transcreverei. (…) eu vo-lo ofere&ccedil;o para que o examineis” (1999: 348). Mas um gesto interrogativo suplementar deve ser acrescentado ao da interpreta&ccedil;&atilde;o do texto rousseauniano. Conhecemos o autor pela obra ou conhecemos a obra pelo autor? Christopher Kelly apresenta a sua posi&ccedil;&atilde;o, que diverge da de Starobinski, ao afirmar: “Ele [Starobinsly] interpreta o pensamento de Rousseau &agrave; luz da sua personalidade tal como revelada nos seus escritos, ao passo que a presente leitura interpreta a apresenta&ccedil;&atilde;o da sua personalidade &agrave; luz do seu pensamento” (2001: 308). Mas em nosso entender, nem o autor &eacute; a mera express&atilde;o do seu g&eacute;nio liter&aacute;rio, nem a obra est&aacute; totalmente ref&eacute;m da personalidade do autor. Num primeiro momento deve-se considerar a vida e a personalidade de quem escreve. Num segundo momento, por&eacute;m, deve-se considerar a obra enquanto detentora de uma dimens&atilde;o mais alargada. Ela abandona a sua natureza particular, facultada pela biografia, e passa a ter um alcance necess&aacute;rio e generalista. </p>      <p>Cassirer afirma, relativamente &agrave; g&eacute;nese da obra de Rousseau:</p>     <blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>(…) as ideias fundamentais de Rousseau, embora brotem diretamente de sua natureza e de sua peculiaridade, n&atilde;o permanecem fechadas, nem presas nessa peculiaridade individual – que elas em sua maturidade e perfei&ccedil;&atilde;o apresentam-nos uma problem&aacute;tica objetiva v&aacute;lida n&atilde;o somente para ele pr&oacute;prio ou a sua &eacute;poca, mas que cont&eacute;m em toda a sua acuidade e determina&ccedil;&atilde;o uma necessidade interna rigorosamente objetiva [que] emerge de maneira muito gradual do solo origin&aacute;rio individual da natureza de Rousseau, e ela deve ser de certo modo arrancada desse solo origin&aacute;rio, deve ser conquistada passo a passo. (1997: 42)</p> </blockquote>     <p>Essa “necessidade interna” de que aqui fala Cassirer est&aacute; bem patente, por exemplo, no <i>Discurso sobre as Ci&ecirc;ncias e as Artes</i> (1750). O texto inaugura um per&iacute;odo pol&eacute;mico na vida do autor e apresenta-se como uma resposta para a pergunta colocada a concurso pela Academia de Dijon, sobre se o restabelecimento das ci&ecirc;ncias e das artes contribui para aperfei&ccedil;oar os costumes. Logo no in&iacute;cio &eacute;-nos apresentado um conjunto de premissas que servir&atilde;o de base e guiar&atilde;o toda a obra de Rousseau:</p>     <blockquote>     <p>&Eacute; um espet&aacute;culo grande e belo ver o homem sair a bem dizer do nada por seus pr&oacute;prios esfor&ccedil;os; dissipar, pelas luzes da sua raz&atilde;o, as trevas em que o envolvera a natureza; elevar-se acima de si mesmo; al&ccedil;ar-se pelo esp&iacute;rito at&eacute; &agrave;s regi&otilde;es celestes; percorrer a passos de gigante, assim como o Sol, a vasta extens&atilde;o do universo; e, o que &eacute; ainda maior e mais dif&iacute;cil, penetrar em si mesmo para a&iacute; estudar o homem e conhecer-lhe a natureza, os deveres e o fim. (2002: 11)</p> </blockquote>     <p>Qual a natureza do Homem? Quem &eacute; o Homem? S&atilde;o naturalmente duas quest&otilde;es centrais no pensamento do autor. E &eacute; a partir delas que uma terceira surge: Qual a condi&ccedil;&atilde;o origin&aacute;ria do Homem? Aquilo que distingue estas quest&otilde;es, mais do que a resposta espec&iacute;fica que cada uma delas exige, &eacute; o seu significado epistemol&oacute;gico global na obra de Rousseau. Assim, as duas primeiras quest&otilde;es s&atilde;o quest&otilde;es pr&eacute;vias: necessitam de ser colocadas antes de qualquer reconhecimento factual, ou seja, s&atilde;o quest&otilde;es que assumem um car&aacute;cter met&oacute;dico. A terceira quest&atilde;o possui um car&aacute;cter interpelativo na medida em que &eacute; de natureza factual, entenda-se, hist&oacute;rica. Ser&aacute; a partir dela que se desencadear&aacute; todo o processo reflexivo que subsequentemente permitir&aacute; responder &agrave;s duas quest&otilde;es iniciais. Veja-se o que Rousseau afirma no pref&aacute;cio ao <i>Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens</i> (1755):</p>     <blockquote>     <p>De que se trata, ent&atilde;o, precisamente neste Discurso? De apontar, no progresso das coisas, o momento em que, sucedendo o direito &agrave; viol&ecirc;ncia, a natureza foi submetida &agrave; lei; de explicar por qual encadeamento de prod&iacute;gios o forte p&ocirc;de resolver-se a servir o fraco, e o povo a comprar uma tranquilidade imagin&aacute;ria pelo pre&ccedil;o de uma felicidade real. (2002: 160) </p> </blockquote>     <p>Saber qual o momento em que a condi&ccedil;&atilde;o humana degenerou, aquele em que decaiu de uma condi&ccedil;&atilde;o origin&aacute;ria para outra artificial, &eacute; o tema central no pensamento de Rousseau. O caminho escolhido pelo autor para obter uma resposta a essa pergunta &eacute; duplo. N&atilde;o sendo um caminho paradoxal, &eacute; um caminho com sentidos paralelos: o sentido do particular e o sentido do gen&eacute;rico. Isso &eacute; particularmente evidente quando Rousseau diz: “&Eacute; do homem que devo falar, e a quest&atilde;o que examino indica-me que vou falar a homens (…). Defenderei, pois, com confian&ccedil;a, a causa da humanidade (…)” (2002: 159). Repare-se que Rousseau come&ccedil;a por dizer que &eacute; do homem e &eacute; para homens que vai falar, por isso deve ser feita uma interpreta&ccedil;&atilde;o literal dos termos. Ou seja, consideramos que Rousseau, atrav&eacute;s da interpela&ccedil;&atilde;o que expressamente faz aos seus leitores, cria um jogo dial&eacute;tico entre o “eu” e o “outro”. &Eacute; na din&acirc;mica desse jogo que Rousseau constr&oacute;i a sua teoria. Uma leitura sincr&oacute;nica da obra, que respeite a cronologia de composi&ccedil;&atilde;o dos textos, fez com que alguns estudiosos, como refere Gay, entendessem “(…) ter encontrado a<i> ess&ecirc;ncia de Rousseau</i> num ou noutro de seus trabalhos ou em algum de seus cintilantes epigramas” (1997: 8). E sublinha, pondo em relevo o alcance das suas palavras: </p>     <blockquote>     <p>Pior, um n&uacute;mero de estudiosos de Rousseau inferiu o suposto car&aacute;cter confuso ou autocontradit&oacute;rio de sua obra a partir do ineg&aacute;vel facto de que os seus escritos inspiravam movimentos amplamente divergentes, descurando a not&oacute;ria propens&atilde;o de disc&iacute;pulos a distorcer a filosofia de seu mestre pela sele&ccedil;&atilde;o daquilo de que necessitam. Muitos pensadores t&ecirc;m sofrido nas m&atilde;os de comentadores, mas poucos t&ecirc;m tido de suportar tanto quanto Rousseau. (<i>Ibidem</i>)</p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No entanto, uma leitura diacr&oacute;nica possibilita encontrar um princ&iacute;pio subjacente e unificador a toda a obra de Rousseau: o pr&oacute;prio Rousseau. A sua pr&oacute;pria pessoa &eacute; o elemento que congrega o processo vivencial que torna poss&iacute;vel a Rousseau apresentar-se, quer como o modelo, quer, ao mesmo tempo, como o “&uacute;ltimo homem” a tentar recuperar a sua condi&ccedil;&atilde;o origin&aacute;ria. A este prop&oacute;sito, diz Baczko que “(…) na sua imagem do mundo, Rousseau passa (…) muito facilmente dos fen&oacute;menos particulares &agrave;s caracter&iacute;sticas globais” (1974: 16). Assim, se a leitura da obra for feita, de modo sequencial, dos &uacute;ltimos escritos para os primeiros, o que encontramos &eacute; o “modelo vivo” daquele que tenta responder &agrave; quest&atilde;o inicial, a saber: qual a condi&ccedil;&atilde;o origin&aacute;ria do Homem? Partilhamos da perspectiva de Kelly quando este escreve:</p>     <blockquote>     <p>A sua perspetiva relativa &agrave; necessidade de se afirmar enquanto um modelo de comportamento na vida p&uacute;blica explica numerosos dos seus atos p&uacute;blicos tais como o abandonar Paris, a recusa em aceitar pens&otilde;es reais e posi&ccedil;&otilde;es honor&aacute;rias lucrativas e outros consp&iacute;cuos exemplos de comportamentos que enfatizam o seu n&atilde;o-interesse e independ&ecirc;ncia. (…) Este esfor&ccedil;o tamb&eacute;m explica a sua crescente vontade de identificar a sua doutrina com ele pr&oacute;prio. (2001: 311)</p> </blockquote>     <p>Por isso, as <i>Confiss&otilde;es</i>,mais de que uma apresenta&ccedil;&atilde;o de Rousseau para um julgamento perante Deus e perante os homens, encerram em si aquela tem&aacute;tica que perpassa por todo o pensamento do autor, a rela&ccedil;&atilde;o entre o estudo do indiv&iacute;duo e o estudo da humanidade. Entende nesse sentido Gauthier ser esta uma obra de estudo normativo, pois &eacute; “(…) o primeiro trabalho em que um homem verdadeiro &agrave; natureza &eacute; representado, e assim fornece o modelo com o qual todas as outras representa&ccedil;&otilde;es dos seres humanos podem ser comparadas” (2006: 108). </p>      <p>A postura cr&iacute;tica de Rousseau evidencia-se, quer pelo estilo liter&aacute;rio, quer pelo tipo de rela&ccedil;&atilde;o que pretende manter com os seus leitores. Os leitores s&atilde;o os seus interlocutores, com os quais estabelece um permanece jogo: ele pergunta, problematiza, objeta. Rousseau quer comprometer os homens e f&aacute;-lo na pessoa dos seus leitores. Sobre este aspeto, salienta Baczko: “Que os seus leitores fossem do seu tempo, ou de mais &agrave; frente, das gera&ccedil;&otilde;es seguintes, &eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o pessoal muito particular que Jean-Jacques Rousseau acaba por lhes impor a respeito da sua obra e dele pr&oacute;prio” (1974: 283). Que a postura cr&iacute;tica n&atilde;o depende apenas de uma quest&atilde;o de estilo depreende-se das seguintes palavras do autor: “(…) pe&ccedil;o aos leitores que deixem meu belo estilo de lado e apenas examinem se raciocinei bem ou mal; pois, finalmente, apenas do fato de um autor se exprimir em bons termos, n&atilde;o vejo como se possa da&iacute; concluir que esse autor saiba o que diz” (Rousseau, 2006: 141). Essa postura tenta ir mais al&eacute;m, na medida em que faz uso de uma habilidade t&aacute;tica: a invers&atilde;o dos acontecimentos. Se o <i>Discurso sobre as Ci&ecirc;ncias e as Artes</i> e o <i>Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens</i> nos apresentam o processo degenerativo do homem natural, por sua vez, &eacute; nos textos autobiogr&aacute;ficos que Rousseau apresenta a possibilidade do regresso &agrave; verdadeira natureza do homem, atrav&eacute;s da descri&ccedil;&atilde;o do processo degenerativo do cidad&atilde;o. A nosso ver, as <i>Confiss&otilde;es</i> revelam esse jogo dial&eacute;tico de forma muito n&iacute;tida. Veja-se o entendimento de Baczko relativamente a este ponto:</p>     <blockquote>     <p>Nas Confiss&otilde;es Jean-Jacques Rousseau faz &agrave; vez mais e menos do contar os acontecimentos da sua vida: ele escreve antes e sobretudo a hist&oacute;ria dos <i>estados da sua alma</i> &agrave; medida que tais acontecimentos acontecem, estes sendo para ele as <i>causas ocasionais</i> desses sentimentos e ideias. Com um grau vari&aacute;vel de exatid&atilde;o essa f&oacute;rmula aplica-se a toda a obra de Jean-Jacques, uma vez que &eacute; sempre o mundo apreendido pelo prisma da sua personalidade que ele nos apresenta. As quest&otilde;es as mais gerais e mais abstratas – o lugar do homem no universo e os princ&iacute;pios do governo pol&iacute;tico, as origens do mal moral e a rela&ccedil;&atilde;o do homem com Deus – Jean-Jacques apresenta-as n&atilde;o apenas como objetos de reflex&atilde;o, mas tamb&eacute;m como problemas pessoais, que ele integra na sua viv&ecirc;ncia. (1974: 283)</p> </blockquote>     <p>Tomando-se a si pr&oacute;prio como exemplo, Rousseau mostra o processo degenerativo do cidad&atilde;o. Quando decide falar da reforma que operou na sua vida, o seu objetivo &eacute; mostrar “(…) aos meus semelhantes um homem em toda a verdade da natureza, e esse homem serei eu. Eu s&oacute;” (1988: 21). Ideia que repete de forma ostensiva no terceiro di&aacute;logo de <i>Rousseau juiz de Jean Jacques</i>:</p>     <blockquote>     <p>De onde o pintor e apologista da natureza hoje t&atilde;o desfigurada e caluniada teria podido tirar seu exemplo? Ser&aacute; que ele n&atilde;o o encontrou no seu pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o? Ele descreveu esta natureza tal como a sentia em si mesmo. (…) Numa palavra : foi necess&aacute;rio que um homem se retratasse a si mesmo para nos mostrar o homem natural – e se o autor n&atilde;o tivesse sido t&atilde;o singular quanto os seus livros, ele jamais os teria escrito. Mas onde existe ainda esse homem da natureza que vive uma vida verdadeiramente humana; que n&atilde;o leva em considera&ccedil;&atilde;o a opini&atilde;o dos outros, e que se deixa levar pura e simplesmente pelas suas inclina&ccedil;&otilde;es e pela sua raz&atilde;o, sem atentar para o que a sociedade e o p&uacute;blico aprova ou censura? (…) Se v&oacute;s n&atilde;o me tendes pintado o vosso J.J, acreditaria que o homem natural n&atilde;o existisse mais, mas a rela&ccedil;&atilde;o marcante daquele que me haveis pintado com o Autor cujos livros li n&atilde;o me deixaria duvidar que um fosse o outro, quando nenhuma outra raz&atilde;o tinha para assim o crer. (1959: 936)</p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; num di&aacute;logo constante entre o “eu” e o “outro”, expresso no seguinte coment&aacute;rio: “Quem quer que sejais, v&oacute;s a quem o meu destino ou a minha confian&ccedil;a fizeram &aacute;rbitro deste caderno (…)” (1988:19), que Rousseau coloca em evid&ecirc;ncia o sentido &uacute;ltimo das <i>Confiss&otilde;es</i>. Rousseau descrever-se-&aacute; tal como &eacute;, sem recurso a qualquer m&aacute;scara, a qualquer tipo de artificialismo, apresentando-se como “(…) o &uacute;nico retrato de homem, pintado exatamente segundo o natural e em toda a sua verdade, que existe e que provavelmente existir&aacute; jamais” (<i>Ibidem</i>). &Eacute; nesta ansia obsessiva de busca pelo original que Rousseau, reconhecendo a dificuldade de edificar tal projeto, sente a necessidade de se manter em constante intera&ccedil;&atilde;o com os seus interlocutores. Por isso afirma:</p>     <blockquote>     <p>(…) &eacute; preciso que ele me siga em todos os desvarios do meu cora&ccedil;&atilde;o, em todos os escaninhos da minha vida; que nem um s&oacute; instante me perca de vista, com receio de que, ao encontrar na minha narra&ccedil;&atilde;o a mais pequena lacuna, o menor hiato, n&atilde;o tenha de perguntar a si mesmo: - Que fez ele durante este tempo? – e n&atilde;o tenha que me acusar por eu n&atilde;o querer dizer tudo. (1988: 70)</p> </blockquote>     <p>A exposi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica que Rousseau faz de si &eacute; reconhecidamente assumida por ele. Existe como que uma necessidade constante de vigiar as suas palavras: “No projeto que formei de me mostrar inteiramente ao p&uacute;blico (…) preciso conservar-me incessantemente debaixo dos seus olhos (…)” (<i>Ibidem</i>). O objeto de escrut&iacute;nio &eacute; articula&ccedil;&atilde;o e adequa&ccedil;&atilde;o que deve haver entre o plano do dizer e o plano do fazer, entre as palavras e a a&ccedil;&atilde;o concreta. Nas <i>Confiss&otilde;es</i> Rousseau refere a dificuldade em se ser virtuoso:</p>     <blockquote>     <p>Extra&iacute; da&iacute; esta grande m&aacute;xima de moral, talvez a &uacute;nica de utilidade pr&aacute;tica, que &eacute; a de evitar as situa&ccedil;&otilde;es que p&otilde;em os nossos deveres em oposi&ccedil;&atilde;o com os nossos interesses, e nos revelam o nosso bem no mal dos outros, convencido de que, em tais situa&ccedil;&otilde;es, mesmo que a elas tragamos um sincero amor da virtude, fraquejamos mais cedo ou mais tarde sem dar por isso, e tornamo-nos injustos e maus nas a&ccedil;&otilde;es, sem deixarmos de ser justos e bons na alma. (1988: 67)</p> </blockquote>     <p>A virtude s&oacute; &eacute; virtude, para Rousseau, se, pela sua pr&aacute;tica, estiver de acordo com o dever. Escreve Kelly a prop&oacute;sito da reforma de h&aacute;bitos e comportamentos que a dada altura Rousseau operou na sua vida:</p>     <blockquote>     <p>&Eacute; &agrave; luz desta linha de racioc&iacute;nio que se deve julgar a reforma pessoal assaz p&uacute;blica de Rousseau, empreendida poucos anos depois da publica&ccedil;&atilde;o do <i>Primeiro Discurso</i>. Ao longo de todo o relato do lan&ccedil;amento da sua carreira liter&aacute;ria nos Livros VIII e IX das <i>Confiss&otilde;es</i> especial aten&ccedil;&atilde;o &eacute; prestada &agrave; tentativa de incorporar nas suas atividades p&uacute;blicas os princ&iacute;pios que ele ensina nos seus livros. (2001: 310)</p> </blockquote>     <p>Kelly articula em tr&ecirc;s pontos o que, em sua opini&atilde;o, Rousseau pretendia quando escreveu as <i>Confiss&otilde;es</i>. Por um lado, pretendia apresentar a ideia do que significa ser um autor. Acrescentamos n&oacute;s, um autor de textos autobiogr&aacute;ficos. Diz Rousseau: “Sei perfeitamente que o leitor n&atilde;o tem grande necessidade de saber tudo isto, mas eu, eu &eacute; que tenho necessidade de lho dizer” (1988: 36). Por outro lado, pretendia afirmar a sua teoria a partir da natureza da sua pessoa e dos seus escritos, de que o homem &eacute; naturalmente bom mas as institui&ccedil;&otilde;es acabam por corromp&ecirc;-lo. Finalmente, pretendia mostrar como o homem pode ser transformado pela experi&ecirc;ncia social, e portanto, desnaturado: </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p>F&ocirc;sseis v&oacute;s, v&oacute;s mesmo, enfim, um dos meus implac&aacute;veis inimigos, deixai de o ser com as minhas cinzas, e n&atilde;o leveis a vossa cruel injusti&ccedil;a at&eacute; ao momento em que nem v&oacute;s nem eu j&aacute; seremos vivos, a fim de que, ao menos uma vez, possais prestar a v&oacute;s pr&oacute;prio a nobre justi&ccedil;a de haverdes sido generoso e bom quando pod&iacute;eis ser mau e vindicativo. (1988: 19)</p> </blockquote>     <p>Se as <i>Confiss&otilde;es</i> s&atilde;o um texto de aproxima&ccedil;&atilde;o entre o autor e o seu p&uacute;blico, a verdade &eacute; que Rousseau, ao mesmo tempo, sente urg&ecirc;ncia em “(…) apresentar ao leitor as (…) desculpas ou as (…) justifica&ccedil;&otilde;es” (1988:70) do que vai relatar. Mas porqu&ecirc; tal necessidade, pois n&atilde;o &eacute; a verdade dos factos que ser&aacute; apresentada? &Eacute; justamente esta esp&eacute;cie de hesita&ccedil;&atilde;o que confere um car&aacute;cter por vezes paradoxal aos seus textos. Repare-se por&eacute;m na justifica&ccedil;&atilde;o apresentada por Rousseau: </p>     <blockquote>     <p>Enquanto a nobre imagem da liberdade me exaltava a alma, as de igualdade, de uni&atilde;o, de do&ccedil;ura dos costumes comoviam-me at&eacute; &agrave;s l&aacute;grimas, inspirando-me um vivo desgosto por haver perdido todos estes bens. Em que erro eu me achava. Mas como este erro era natural julgava ver tudo isso na minha p&aacute;tria, porque a trazia no cora&ccedil;&atilde;o. (1988:150)</p> </blockquote>     <p>&Eacute; o conceito de “verdade” que aqui est&aacute; em jogo. Para Rousseau um “erro natural” n&atilde;o pode ser considerado como uma mentira: “Leitores vulgares, perdoai meus paradoxos, &eacute; preciso comet&ecirc;-los quando refletimos; e, digam o que disserem, prefiro ser homem de paradoxos a ser homem de preconceitos” (1999: 91). Da&iacute; as desculpas e as justifica&ccedil;&otilde;es que ele sente necessidade de fazer perante os seus leitores serem essencialmente de car&aacute;cter preventivo. Rousseau apresenta-as na tentativa de alertar os seus leitores para aquilo que possam parecer paradoxos, os quais nunca dever&atilde;o ser entendidos como mentiras ou como artificialismos. A este respeito, escreve Gauthier:</p>     <blockquote>     <p>As <i>Confiss&otilde;es</i> s&atilde;o um retrato que &eacute; para ser fiel ao seu objeto – que &eacute; para ser verdadeiro a Rousseau. Mas &eacute; tamb&eacute;m um retrato que &eacute; para ser executado de modo a ser fiel &agrave; natureza. Se somente aquilo que &eacute; verdadeiro &agrave; natureza pode ser representado de acordo com a natureza, ent&atilde;o, para que as duas fidelidades possam ser sustentadas, Rousseau deve ele pr&oacute;prio ser verdadeiro &agrave; natureza. E uma vez que Rousseau &eacute; diferente, por implica&ccedil;&atilde;o, os outros homens n&atilde;o s&atilde;o verdadeiros &agrave; natureza (…). A verdade &uacute;nica das <i>Confiss&otilde;es</i> depende da verdade &uacute;nica do seu confessor. (2006: 108)</p> </blockquote>     <p>A quest&atilde;o que permanece &eacute; a de saber como pode o homem ser fiel &agrave; sua natureza. A proposta de Rousseau &eacute; a quase prosaica: “Moldam-se as plantas pela cultura, e os homens pela educa&ccedil;&atilde;o” (1999: 8), o que aponta para uma concep&ccedil;&atilde;o do processo educativo que podemos designar por “cl&aacute;ssica”. A prop&oacute;sito desse car&aacute;cter “cl&aacute;ssico” de Rousseau, diz Casulo: </p>     <blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>E Rousseau, em que medida foi ele um cl&aacute;ssico? (…) Na realidade, ningu&eacute;m, antes de Rousseau, tinha entrevisto a recupera&ccedil;&atilde;o do humano por uma educa&ccedil;&atilde;o natural. Nem o sat&iacute;rico Juvenal e a sua <i>pueris maxima reventia debetur</i>, nem Vitorino de Feltre na pedagogia seguida na sua <i>Casa Giocosa</i>, alguma vez foram t&atilde;o longe quanto Rousseau. Nenhum deles ousou a radicalidade de, na rela&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica e tendo em vista a regenera&ccedil;&atilde;o do Homem, afirmar o puerocentrismo por sobre o poder social delegado na proemin&ecirc;ncia do educador. (2009: 24-25) </p> </blockquote>     <p>No <i>Em&iacute;lio</i> (1761), diz Rousseau a prop&oacute;sito da <i>Rep&uacute;blica</i> de Plat&atilde;o, texto no qual a concep&ccedil;&atilde;o “cl&aacute;ssica” do processo educativo tem origem: “N&atilde;o &eacute; uma obra de pol&iacute;tica, como pensam os que s&oacute; julgam os livros pelo t&iacute;tulo: &eacute; o mais belo tratado de educa&ccedil;&atilde;o jamais escrito” (1999: 12). A proposi&ccedil;&atilde;o de Rousseau conjuga uma aproxima&ccedil;&atilde;o mais do que acidental entre os dois autores. A prop&oacute;sito da concep&ccedil;&atilde;o que Plat&atilde;o tem da educa&ccedil;&atilde;o, e da sua articula&ccedil;&atilde;o com o pol&iacute;tico, escutemos Jaeger:</p>      <p>O Estado de Plat&atilde;o versa, em &uacute;ltima an&aacute;lise, sobre a alma do Homem. Que ele nos diz do Estado como tal e da sua estrutura, a chamada concep&ccedil;&atilde;o org&acirc;nica do Estado, onde muitos v&ecirc;em a medula da <i>Rep&uacute;blica</i> plat&oacute;nica, n&atilde;o tem outra fun&ccedil;&atilde;o sen&atilde;o apresentar-nos a “imagem reflexa ampliada” da alma e da sua estrutura respetiva. E nem &eacute; numa atitude primariamente te&oacute;rica que Plat&atilde;o se situa diante do problema da alma, mas antes numa atitude pr&aacute;tica: a atitude de <i>modelador de almas</i>. A forma&ccedil;&atilde;o da alma &eacute; a alavanca com a qual ele faz S&oacute;crates mover todo o Estado. O sentido do Estado, tal qual a sua obra fundamental o revela, n&atilde;o &eacute; diferente daquele que pod&iacute;amos esperar, depois dos di&aacute;logos que a precederam, o <i>Prot&aacute;goras </i>e o <i>G&oacute;rgias</i>. &Eacute;, se nos apoiarmos na sua ess&ecirc;ncia superior, a educa&ccedil;&atilde;o. (2001: 751-752)</p>      <p>Rousseau repete o mesmo gesto pr&aacute;tico de Plat&atilde;o. N&atilde;o se limita a pensar o lugar do homem no mundo, pensa sobretudo qual “deve ser” esse lugar. A esse respeito afirma O’Hagan: “(…) o seu pensamento est&aacute; unificado por um profundo naturalismo, por&eacute;m, ao mesmo tempo, animado por uma poderosa, criativa tens&atilde;o entre dois ideais conflituantes de como devemos viver” (2003: xii). O’Hagan caracteriza o naturalismo de Rousseau como um esfor&ccedil;o de colocar o homem no seu lugar natural e compreender a sua condi&ccedil;&atilde;o atual “(…) como o resultado de um processo de desenvolvimento em que o ambiente, natural e social, desempenha um papel crucial” (<i>Ibidem</i>). A resposta que formularam depende da ideia de homem que t&ecirc;m. Cada um deles sustentou a ideia de homem num mesmo alicerce, a educa&ccedil;&atilde;o. Mas que educa&ccedil;&atilde;o? Aquela que visa a forma&ccedil;&atilde;o integral do homem, a paideia no sentido grego. Sobre a paideia em Plat&atilde;o, diz Cambi:</p>     <blockquote>     <p>Plat&atilde;o fixa em seu pensamento dois tipos de <i>paideia</i>, uma – mais socr&aacute;tica -, ligada &agrave; forma&ccedil;&atilde;o da alma individual, outra – mais pol&iacute;tica -ligada aos pap&eacute;is sociais dos indiv&iacute;duos, distintos quanto &agrave;s qualidades intr&iacute;nsecas da sua natureza que os destinam a uma ou outra classe social e pol&iacute;tica. J&aacute; neste primeiro modelo de forma&ccedil;&atilde;o, ligado &agrave; condi&ccedil;&atilde;o do homem “aprisionado na caverna”, do corpo e da <i>doxa</i> (opini&atilde;o), sublinha-se o forte acento individual e dram&aacute;tico da <i>paideia</i>, cujo objetivo &eacute; o reconhecimento da espiritualidade da alma e da sua identidade contemplativa. (1999: 89)</p> </blockquote>     <p>Assim, temos por um lado Plat&atilde;o, que pretende estabelecer uma sociedade ideal atrav&eacute;s da articula&ccedil;&atilde;o entre uma vis&atilde;o pol&iacute;tica da educa&ccedil;&atilde;o e um modelo de forma&ccedil;&atilde;o das diversas classes sociais. Explica Cambi: “A cidade (…) teorizada por Plat&atilde;o v&ecirc; presentes tr&ecirc;s classes sociais: os governantes, os guardi&otilde;es e os produtores, aos quais correspondem tipos humanos e morais bastante diferentes” (1999: 90). Por outro lado, temos Rousseau, que pretende, pela educa&ccedil;&atilde;o, criar o cidad&atilde;o para a sociedade perfeita, aquela que vemos descrita no <i>Contrato Social</i> (1762). Estabelecer a compara&ccedil;&atilde;o entre o m&eacute;todo que &eacute; proposto pelos dois autores para alcan&ccedil;ar esse id&ecirc;ntico objetivo pedag&oacute;gico parece-nos por isso necess&aacute;ria e inevit&aacute;vel. Consideremos a Alegoria da Caverna de Plat&atilde;o. O seu intuito &eacute; p&ocirc;r em evid&ecirc;ncia o modo como a natureza humana est&aacute; condicionada desde a nascen&ccedil;a, condicionamento esse que, por ser t&atilde;o familiar e estar t&atilde;o enraizado no homem pelo h&aacute;bito, &eacute; entendido como sendo a sua condi&ccedil;&atilde;o natural. A caverna &eacute; uma met&aacute;fora da sociedade humana. As sombras projetadas pela luz da fogueira no fundo da caverna s&atilde;o a verdadeira realidade dos homens agrilhoados no seu interior, dos homens que vivem em sociedade, apesar de falsa por compara&ccedil;&atilde;o &agrave; realidade projetada pela luz verdadeira do sol. H&aacute; dois caminhos poss&iacute;veis para quem est&aacute; no interior caverna. Ou sai dela, ou permanece no seu interior. Quem caminha at&eacute; &agrave; luz do sol inevitavelmente acaba por reconhecer a situa&ccedil;&atilde;o alienada em que se encontrava. Plat&atilde;o descreve-o como um caminho &aacute;rduo e penoso, inicialmente feito com relut&acirc;ncia. O prisioneiro grita e protesta quando arrancado aos seus grilh&otilde;es. Liberto, ser&aacute; s&oacute; capaz de enxergar as sombras projetadas pela luz do sol, imagens difusas da verdade, s&oacute; gradualmente tornando-se capaz de fitar diretamente para os objetos iluminados, a sociedade vista sem artif&iacute;cios, e por fim olhar a pr&oacute;pria luz do sol, a fonte da desilus&atilde;o e do desencantamento, que quase o cegar&aacute;. Quem, por outro lado, se mostrar relutante em abandonar a caverna, h&aacute;-de sentir ressentimento e maldizer a aparente sobranceria de quem, tendo sa&iacute;do da caverna, tendo olhado para a sociedade com o olhar ir&oacute;nico de quem a v&ecirc; de fora, lhe vem anunciar que vive num estado de torpe ignor&acirc;ncia. O conhecimento da verdade da sua condi&ccedil;&atilde;o, nos termos da teoria da anamnese plat&oacute;nica, j&aacute; est&aacute; na posse do prisioneiro, apenas disso se tendo esquecido. Escutemos por compara&ccedil;&atilde;o Rousseau, quando diz, no <i>Em&iacute;lio</i>:</p>     <blockquote>     <p>Suponhamos que uma crian&ccedil;a tivesse ao nascer a estatura e a for&ccedil;a de um homem adulto, e sa&iacute;sse, por assim dizer, completamente armada do ventre de sua m&atilde;e, como Palas saiu do c&eacute;rebro de J&uacute;piter. Esse homem-crian&ccedil;a seria um perfeito imbecil, um aut&oacute;mato, uma est&aacute;tua im&oacute;vel e quase insens&iacute;vel; nada veria, nada ouviria, n&atilde;o conheceria ningu&eacute;m, n&atilde;o seria capaz de voltar os olhos para o que precisasse ver; n&atilde;o somente n&atilde;o perceberia objeto algum fora dele, como n&atilde;o relacionaria nenhum objeto com o &oacute;rg&atilde;o sensorial que o fizesse ser percebido; as cores n&atilde;o estariam em seus olhos, os sons n&atilde;o estariam em seus ouvidos (…). Formado de repente, esse homem tampouco seria capaz de se erguer sobre seus p&eacute;s. Precisaria de muito tempo para aprender a se manter em equil&iacute;brio, e talvez nem mesmo fizesse a tentativa (…). (1999: 44) </p> </blockquote>     <p>Este homem-crian&ccedil;a de Rousseau &eacute; o prisioneiro alienado da caverna de Plat&atilde;o, um homem com os sentidos severamente embutidos, incapaz de perceber adequadamente o que est&aacute; &agrave; volta dele, de percecionar o mundo tal qual o mundo &eacute;, e sobretudo reconhecer a sua pr&oacute;pria natureza, o reconhecimento de si. &Eacute; esse homem que Rousseau quer resgatar da sua condi&ccedil;&atilde;o de equ&iacute;voco e artificialidade. Rousseau n&atilde;o enveredar&aacute; pelo caminho nost&aacute;lgico de um regresso ao passado, tal como aparece jocosamente referido no coment&aacute;rio de Voltaire, de que “(…) sente-se vontade de andar de quatro patas, quando se l&ecirc; vossa obra” (2002: 245). Eis e r&eacute;plica de Rousseau a esse coment&aacute;rio, feita em <i>Rousseau juiz de Jean Jacques</i>, dita pela personagem pseud&oacute;nima do “franc&ecirc;s”:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p>Mas a natureza humana n&atilde;o regride se n&atilde;o retornar aos tempos de inoc&ecirc;ncia e igualdade uma vez que de tal nos afastemos; trata-se de um dos princ&iacute;pios acerca dos quais ele [Rousseau] mais insistiu. Assim o seu prop&oacute;sito n&atilde;o pode ser o de trazer os numerosos povos nem os grandes estados &agrave; sua simplicidade primeira, mas apenas parar, se poss&iacute;vel, o progresso daqueles cuja pequenez preservou de uma marcha assaz r&aacute;pida em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; perfei&ccedil;&atilde;o da sociedade e em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; deteriora&ccedil;&atilde;o da esp&eacute;cie. (1959: 935)</p> </blockquote>     <p>A esse t&iacute;tulo, explica ilustrativamente Cassirer:</p>     <blockquote>     <p>N&atilde;o se pode criar o verdadeiro saber do homem a partir da etnografia ou da etnologia Existe somente uma fonte viva para este saber: a fonte do autoconhecimento e da autorreflex&atilde;o. (…) Para distinguir o “<i>homme naturel</i>” do “<i>homme artificiel</i>”, n&atilde;o precisamos retroceder a &eacute;pocas h&aacute; muito passadas e desaparecidas – nem fazer uma viagem ao redor do mundo. Cada um traz em si o verdadeiro arqu&eacute;tipo – mas sem d&uacute;vida quase ningu&eacute;m conseguiu descobri-lo sob o seu inv&oacute;lucro artificial, sob todos os acess&oacute;rios arbitr&aacute;rios e convencionais e traz&ecirc;-lo &agrave; luz. (1997:51)</p> </blockquote>     <p>Atrav&eacute;s da educa&ccedil;&atilde;o Rousseau prop&otilde;e um caminho ascendente, que, partindo de uma situa&ccedil;&atilde;o de artificialidade, deve permitir a cada homem libertar-se individualmente da m&aacute;scara que traz consigo. Culminando no autoconhecimento enquanto gesto de reconhecimento, pela mem&oacute;ria, da natureza humana e da sua condi&ccedil;&atilde;o. Em paralelo com o que sucede na Alegoria da Caverna, Rousseau oferece-nos um Em&iacute;lio que tamb&eacute;m &eacute; libertado dos seus grilh&otilde;es, ou como diz o autor, das algemas do preconceito e da artificialidade. Mas h&aacute; uma diferen&ccedil;a. Enquanto em Plat&atilde;o e educa&ccedil;&atilde;o tem por fun&ccedil;&atilde;o levar o prisioneiro a relembrar-se da sua condi&ccedil;&atilde;o origin&aacute;ria para o poder retirar &agrave; sociedade, &agrave; qual ele mostra dificuldade em regressar, em Rousseau a educa&ccedil;&atilde;o tem por fun&ccedil;&atilde;o levar o aluno a fazer esse mesmo exerc&iacute;cio com vista a reinseri-lo na sociedade, sem que isso para ele constitua necessariamente um perigo uma dificuldade. O gesto de Rousseau &eacute; profil&aacute;tico. O problema ao qual Rousseau pretende dar resposta n&atilde;o &eacute; tornar o homem inalienado, tornando-o para isso alheado da sociedade, mas de como tornar o homem capaz de viver em sociedade sem que essa vida em sociedade for&ccedil;osamente o corrompa, tornando-o artificial e desnaturado. Em&iacute;lio &eacute; esse homem.</p>      <p>Ser&aacute; Em&iacute;lio o cidad&atilde;o apto &agrave; vida da sociedade perfeita, o cidad&atilde;o virtuoso, precisamente aquele que &eacute; capaz de reconhecer a sua natureza sem se deixar enganar pelas sombras da caverna. Por outras palavras, &eacute; aquele que n&atilde;o se deixa alienar na sociedade. Mas &eacute; tal gesto poss&iacute;vel? Para Rousseau esse gesto s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel a partir de um movimento pessoal. Se o fim &uacute;ltimo &eacute; comunit&aacute;rio, o gesto primeiro &eacute; pessoal. Da&iacute; que o papel do preceptor seja essencial na educa&ccedil;&atilde;o do aluno. Rousseau &eacute; perent&oacute;rio, quando afirma:</p>     <blockquote>     <p>(…) e eu at&eacute; gostaria que o aluno e o preceptor se considerassem de tal modo insepar&aacute;veis que o destino dos seus dias sempre fosse entre eles um objeto comum. O aluno n&atilde;o cora por seguir na inf&acirc;ncia o amigo que dever&aacute; ter quando adulto; o preceptor interessa-se por trabalhos cujo fruto dever&aacute; colher, e todo o m&eacute;rito que d&aacute; ao seu aluno &eacute; um capital que aplica em prol da sua velhice. (1999: 31)</p> </blockquote>     <p>Repare-se que tamb&eacute;m nos di&aacute;logos plat&oacute;nicos S&oacute;crates dirige-se sempre &agrave; pessoa individual. S&oacute;crates nunca tem mais do que um interlocutor ao mesmo tempo. O processo mai&ecirc;utico surge como um exerc&iacute;cio individualizado, nunca como gesto comunit&aacute;rio. Concordamos por isso com Cambi, quando afirma:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p>A forma&ccedil;&atilde;o humana &eacute; para S&oacute;crates mai&ecirc;utica e di&aacute;logo que se realiza por parte de um mestre, o qual desperta, levanta d&uacute;vidas, solicita pesquisa, dirige, problematiza (…). A <i>paideia </i>de S&oacute;crates &eacute; problem&aacute;tica e aberta; mas fixa o itiner&aacute;rio e a estrutura do processo com as escolhas que o sujeito deve realizar; consigna um modelo de forma&ccedil;&atilde;o din&acirc;mico e dram&aacute;tico, mas ao mesmo tempo individual e universal. Estamos diante de um modelo de <i>paideia</i> entre os mais lineares e densos, j&aacute; que S&oacute;crates bem reconhece o car&aacute;cter pessoal da forma&ccedil;&atilde;o, seu processo carregado de tens&otilde;es, sua tend&ecirc;ncia ao autodom&iacute;nio e autodire&ccedil;&atilde;o e o facto de ser uma tarefa cont&iacute;nua. A “pedagogia da consci&ecirc;ncia individual” orientada pela filosofia qualifica-se como, talvez, o modelo mais m&oacute;vel e original produzido pela &eacute;poca cl&aacute;ssica; caracter&iacute;sticas que, por mil&eacute;nios, tornar&atilde;o tal modelo paradigm&aacute;tico e capaz de incidir em profundidade sobre toda a tradi&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica ocidental. (1999:88-89)</p> </blockquote>     <p>Fazendo um gesto semelhante ao de S&oacute;crates, Rousseau sublinha a import&acirc;ncia de dar um cunho individual &agrave; forma&ccedil;&atilde;o do aluno, evidenciando a necessidade de uma proximidade entre os interlocutores de forma a estabelecer um compromisso, n&atilde;o se coadunando esse compromisso com o seu exerc&iacute;cio em assembleia. Escreve Rousseau: </p>     <blockquote>     <p>Nem sequer compreendo como se ousa falar em reuni&atilde;o; porquanto, a cada palavra, seria necess&aacute;rio passar revista a todas as pessoas que a&iacute; se encontram; seria necess&aacute;rio conhecer o seu car&aacute;cter, saber as suas hist&oacute;rias para termos a certeza de nada dizer que possa ofender algu&eacute;m. (1988:122)</p> </blockquote>     <p>&Eacute; atrav&eacute;s da educa&ccedil;&atilde;o que se alcan&ccedil;a o ideal de homem: o conhece-te a ti mesmo. Esse ideal corresponde ao reconhecimento e &agrave; miss&atilde;o que compete a cada homem de conservar da sua natureza. Pode-se afirmar que tragicidade do humano n&atilde;o est&aacute; em viver em comunidade, mas em alienar-se na sociedade. Viver em comunidade significa viver com os meus semelhantes, ou seja, viver com aqueles com quem se partilha a mesma natureza. Coisa diferente &eacute; o homem alienar-se na sociedade, quer porque ignora, quer porque rejeita a sua natureza, acreditando encontrar na vontade de todos a vontade geral. A procura de um ideal de homem &eacute; um dos aspetos que Jaeger mais sublinha quando descreve a <i>paideia</i> grega:</p>     <blockquote>     <p>Acima do Homem como ser greg&aacute;rio ou como suposto <i>eu </i>aut&oacute;nomo, ergue-se o Homem como ideia. A ela aspiram os educadores gregos, bem como os poetas, artistas e fil&oacute;sofos. Ora, o Homem, considerado na sua ideia, significa a imagem do Homem gen&eacute;rico na sua validade universal e normativa. Como vimos, a ess&ecirc;ncia da educa&ccedil;&atilde;o consiste na modelagem dos indiv&iacute;duos pela norma da comunidade. Os Gregos foram adquirindo gradualmente consci&ecirc;ncia clara do significado deste processo mediante aquela imagem de Homem, e chegaram por fim, atrav&eacute;s de um esfor&ccedil;o continuado, a uma fundamenta&ccedil;&atilde;o, mais segura e mais profunda que a de nenhum povo da Terra, do problema da educa&ccedil;&atilde;o. (2001:14-15)</p> </blockquote>     <p>Parece ent&atilde;o pertinente perguntar pelo sentido &uacute;ltimo da educa&ccedil;&atilde;o. Na <i>paideia</i> grega esse sentido assenta na “forma&ccedil;&atilde;o”:</p>     <blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A palavra <i>Bildung</i> (forma&ccedil;&atilde;o, configura&ccedil;&atilde;o) &eacute; a que designa do modo mais intuitivo a ess&ecirc;ncia da educa&ccedil;&atilde;o no sentido grego e plat&oacute;nico. Cont&eacute;m ao mesmo tempo a configura&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica e pl&aacute;stica, e a imagem, “ideia”, ou “tipo” normativo que se descobre na intimidade do artista. Em todo lugar onde esta ideia reaparece mais tarde na Hist&oacute;ria, ela &eacute; uma heran&ccedil;a dos Gregos, e aparece sempre que o esp&iacute;rito humano abandona a ideia de adestramento em fun&ccedil;&atilde;o de fins exteriores e reflete na ess&ecirc;ncia pr&oacute;pria da educa&ccedil;&atilde;o. (2001: 13-14)</p> </blockquote>     <p>Para Rousseau, por&eacute;m, a forma&ccedil;&atilde;o &eacute; um elemento apenas instrumental &agrave; educa&ccedil;&atilde;o. O seu sentido &uacute;ltimo &eacute;, em vez disso, manifestamente “existencial”, uma vez que &eacute; por ela que se adquire tudo aquilo de que se carece quando se nasce. As tr&ecirc;s educa&ccedil;&otilde;es de Rousseau, a da natureza, relacionada com o desenvolvimento interno das faculdades e dos &oacute;rg&atilde;os, a dos homens, relacionada com o uso que cada um faz do seu desenvolvimento, e a educa&ccedil;&atilde;o das coisas, relacionada com a aquisi&ccedil;&atilde;o da nossa experi&ecirc;ncia sobre os objetos que nos afetam, articulam-se na finalidade de dar ao homem condi&ccedil;&otilde;es para que viva de forma plena a sua exist&ecirc;ncia: “Viver n&atilde;o &eacute; respirar, mas agir; &eacute; fazer uso dos nossos &oacute;rg&atilde;os, dos nossos sentidos, das nossas faculdades, de todas as partes de n&oacute;s mesmos que nos d&atilde;o o sentimento da nossa exist&ecirc;ncia” (1999: 15). &Eacute; justamente visando este fim que Rousseau defende a necessidade, pelo menos num primeiro momento, da pr&aacute;tica de uma educa&ccedil;&atilde;o negativa, a qual, consistindo em “(…) n&atilde;o ensinar a virtude ou a verdade (…)” (1999: 91), garante “(…) proteger o cora&ccedil;&atilde;o contra o v&iacute;cio e o esp&iacute;rito contra o erro” (<i>Ibidem</i>). </p>      <p>Ao reconhecimento da natureza do homem, deve juntar-se o problema da sua conserva&ccedil;&atilde;o. O’Hagan salienta a import&acirc;ncia deste tema em Rousseau: “Ele desenvolveu-o como um tema unit&aacute;rio transversal a todo o &acirc;mbito das suas preocupa&ccedil;&otilde;es, desde a antropologia especulativa do <i>Segundo Discurso</i>, passando pela experi&ecirc;ncia educacional imagin&aacute;ria do <i>Em&iacute;lio</i> ao exerc&iacute;cio de constru&ccedil;&atilde;o de modelos pol&iacute;ticos do <i>Contrato Social</i>” (2003: xii). Com efeito, se &eacute; &agrave; mem&oacute;ria que cabe o papel de resgatar e recuperar os princ&iacute;pios fundamentais da condi&ccedil;&atilde;o humana, e &agrave; educa&ccedil;&atilde;o atualizar esse tempo origin&aacute;rio redescoberto pela mem&oacute;ria, porque se trata de um exerc&iacute;cio de mem&oacute;ria, nada impede que o esquecimento reganhe terreno e venha instalar-se novamente. Como conservar esse conhecimento? Rousseau responde: “Lembrai-vos de que, antes de ousar empreender a forma&ccedil;&atilde;o de um homem, &eacute; preciso ter-se feito homem; &eacute; preciso ter em si o exemplo que se deve propor” (1999: 93). Onde est&aacute; esse exemplo? No pr&oacute;prio Rousseau, na medida em que ele expressa, atrav&eacute;s do exemplo da sua vida, o sentimento natural de exist&ecirc;ncia pr&oacute;prio ao homem. Os textos autobiogr&aacute;ficos de Rousseau revelam um autor que, n&atilde;o conseguindo alcan&ccedil;ar o amor dos seus semelhantes em vida, ainda assim alimenta a esperan&ccedil;a de o alcan&ccedil;ar s&eacute;culos depois, e sempre no mesmo registo, dirigindo-se e comprometendo diretamente os seus leitores: “Leitores, n&atilde;o temais de mim precau&ccedil;&otilde;es indignas de um amigo da verdade; nunca esquecerei a minha divisa, mas tenho todo o direito de desconfiar dos meus ju&iacute;zos” (1999: 347-348). </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>Baczko, Bronislaw (1974), <i>Rousseau, Solitude et Communaut&eacute;</i>, Paris, Mouton.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000098&pid=S0807-8967201200020002000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Cambi, franco (1999), <i>Hist&oacute;ria da Pedagogia</i>, trad. &Aacute;lvaro Lorencini, S&atilde;o Paulo, UNESP.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000100&pid=S0807-8967201200020002000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Casulo, Jos&eacute; Carlos (2009), “Sobre a medida do cl&aacute;ssico em Rousseau”, in Cust&oacute;dia Martins, <i>A pedagogia de Jean-Jacques Rousseau: Praxis, Teoria e Fundamentos</i>, Braga, CIEd.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000102&pid=S0807-8967201200020002000003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Cassirer, Ernst (1997), <i>A quest&atilde;o Jean-Jacques Rousseau</i>, trad. Erlon Paschoal, S&atilde;o Paulo, UNESP.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000104&pid=S0807-8967201200020002000004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Gauthier, David (2006), <i>Rousseau, The Sentiment of Existence</i>, New York, Cambridge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000106&pid=S0807-8967201200020002000005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Gay, Peter (1997), “Introdu&ccedil;&atilde;o”, in Ernst Cassirer, <i>A quest&atilde;o Jean-Jacques Rousseau</i>, trad. Erlon Paschoal, S&atilde;o Paulo, pp.7-36.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000108&pid=S0807-8967201200020002000006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Jaeger, Werner (2001), <i>Paideia : A Forma&ccedil;&atilde;o do Homem Grego</i>, trad. Artur Parreira, S&atilde;o Paulo, Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000110&pid=S0807-8967201200020002000007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Kelly, Christopher (2001), “Rousseau’s <i>Confessions</i>”, in Patrick Riley (ed.) (2001), <i>Rousseau</i>, New York, pp.302-328.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000112&pid=S0807-8967201200020002000008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>O’hagan, Timothy (1999), <i>Rousseau</i>, London, Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000114&pid=S0807-8967201200020002000009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Rousseau, Jean-Jacques (1988), <i>Confiss&otilde;es</i>, trad. Fernando Lopes Gra&ccedil;a, Lisboa, Rel&oacute;gio d’&Aacute;gua.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000116&pid=S0807-8967201200020002000010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Rousseau, Jean-Jacques (1999), <i>Em&iacute;lio ou Da Educa&ccedil;&atilde;o</i>, trad. Roberto Leal Ferreira, S&atilde;o Paulo, Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000118&pid=S0807-8967201200020002000011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Rousseau, Jean-Jacques (2002), <i>Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens</i>, trad. Maria Ermantina Galv&atilde;o, S&atilde;o Paulo, Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000120&pid=S0807-8967201200020002000012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Rousseau, Jean-Jacques (2006), <i>Cartas escritas da montanha</i>, trad. Maria Constan&ccedil;a Pissarra e Maria das Gra&ccedil;as Souza, S&atilde;o Paulo, PUCSP/UNESP.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000122&pid=S0807-8967201200020002000013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       ]]></body><back>
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