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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[De Pandora a Eva: fontes antigas da misoginia ocidental]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper analyses the Hellenic sources of Misogyny, introducing the main contributions to an ideological and literary repertoire to which Roman culture would add with a closer impact. Then, we examine the way, within the budding Christianity, Jewish heritage, present in the Bible, relates with the classical misogynistic rhetoric, and Pandora’s myth is systematically mixed with that of Eve. We will observe how written word and its exegesis contributed decisively towards the continuity of ideas and formulae, always present, but deeply founded on cultural heritage.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p> <b>De Pandora a Eva: fontes antigas da misoginia ocidental</b> </p>     <p> <b>From Pandora to Eva: ancient sources of Western Misogyny</b> </p>      <p> <b>Maria Jos&eacute; Ferreira Lopes*</b> </p>     <p> *Faculdade  de  Filosofia  da  Universidade  Cat&oacute;lica  Portuguesa,  Braga,  Centro  de  Estudos Filos&oacute;fico-Human&iacute;sticos, Portugal </p>      <p><a href="mailto:mlopes@braga.ucp.pt">mlopes@braga.ucp.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>     <p>Este texto analisa as origens hel&eacute;nicas da Misoginia, apresentando as principais contribui&ccedil;&otilde;es para um repert&oacute;rio ideol&oacute;gico e liter&aacute;rio que a cultura de Roma acrescentar&aacute; com um impacto mais pr&oacute;ximo. Abordar-se-&aacute; depois a forma como, no seio do Cristianismo nascente, a heran&ccedil;a judaica, presente na B&iacute;blia, se relaciona com a ret&oacute;rica mis&oacute;gina cl&aacute;ssica, e o mito de Pandora &eacute; sistematicamente misturado com o de Eva. Observar-se-&aacute; como a palavra escrita e a sua exegese foram marcantes na continuidade de ideias e f&oacute;rmulas, sempre presentes, mas a que a heran&ccedil;a cultural d&aacute; maior fundamento.<sup><a href="#1" name="top1">[1]</a></sup></p>     <p><b>Palavras-chave</b>: Misoginia, Hes&iacute;odo, Atenas Cl&aacute;ssica, B&iacute;blia, Pandora e Eva, Exegese, Heran&ccedil;a Cultural.</p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>ABSTRACT</b> </p>     <p>This paper analyses the Hellenic sources of Misogyny, introducing the main contributions to an ideological and literary repertoire to which Roman culture would add with a closer impact. Then, we examine the way, within the budding Christianity, Jewish heritage, present in the Bible, relates with the classical misogynistic rhetoric, and Pandora’s myth is systematically mixed with that of Eve. We will observe how written word and its exegesis contributed decisively towards the continuity of ideas and formulae, always present, but deeply founded on cultural heritage.</p>     <p><b>Keywords</b>: Misogyny, Hesiod, Classical Athens, Bible, Pandora and Eve, Exegesis, Cultural Heritage.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>      <p>A desvaloriza&ccedil;&atilde;o e o vitup&eacute;rio da mulher s&atilde;o uma realidade comum a in&uacute;meras civiliza&ccedil;&otilde;es de todos os tempos e lugares. No entanto, a origem da sua “ret&oacute;rica” situa-se no ber&ccedil;o da civiliza&ccedil;&atilde;o ocidental. Foi Ant&iacute;patro de Tarso, fil&oacute;sofo est&oacute;ico, que, j&aacute; na &eacute;poca helen&iacute;stica, introduziu a palavra &#956;&#953;&#963;&#959;&#947;&#965;&#957;&#943;&#945; para designar o “&oacute;dio, desagrado, desconfian&ccedil;a pelas mulheres”, curiosamente numa obra em defesa do casamento (c.150 a. C.). O contexto &eacute; a refer&ecirc;ncia &agrave; reputa&ccedil;&atilde;o mis&oacute;gina da escrita (“&#964;&#8052;&#957;&#32;&#956;&#953;&#963;&#959;&#947;&#965;&#957;&#943;&#945;&#957;&#32;&#7952;&#957;&#32;&#964;&#8183;&#32;&#947;&#961;&#940;&#966;&#949;&#953;&#957;”) do tragedi&oacute;grafo Eur&iacute;pides (480-406 a.C.). <sup><a href="#2" name="top2">[2]</a></sup></p>      <p>Contudo, nem o aparecimento por escrito de considera&ccedil;&otilde;es mis&oacute;ginas coincidira com a entrada em cena da literatura grega, nem o seu aparente dom&iacute;nio na &eacute;poca cl&aacute;ssica – concretizado socialmente no confinamento ao <i>oikos</i> e no sil&ecirc;ncio oficial da mulher – est&aacute; isento de ambiguidades e excep&ccedil;&otilde;es. </p>      <p>A atitude mis&oacute;gina foi tamb&eacute;m objecto de reflex&atilde;o, nomeadamente quanto &agrave;s causas. Cerca de cem anos depois do grego Ant&iacute;patro, o romano C&iacute;cero defini-la-&aacute; com clareza, nas <i>Tusculanae Disputationes</i> (IV, 25),<sup><a href="#3" name="top3">[3]</a></sup> como “odium mulieris” e classific&aacute;-la-&aacute; como uma “aegrotatio animi” – uma doen&ccedil;a do esp&iacute;rito –, equipar&aacute;vel a outras que poderiam parecer mais graves, como a misantropia e a nega&ccedil;&atilde;o da hospitalidade. C&iacute;cero vai mais longe, ao afirmar que, subjacente a estas doen&ccedil;as do esp&iacute;rito humano, est&aacute; o medo – “metu”– de coisas de que se foge e odeia: “omnes aegrotationes animi ex quodam metu nascuntur earum rerum quas fugiunt et oderunt”. </p>      <p>O grande orador e pol&iacute;tico romano n&atilde;o seria certamente o primeiro nem o &uacute;nico a pensar desta forma, que afinal resulta da an&aacute;lise racional da quest&atilde;o. No entanto, foi na Gr&eacute;cia Antiga que se estabeleceram, com os alicerces da raz&atilde;o e da incipiente ci&ecirc;ncia, sob a esplendorosa luz do Mediterr&acirc;neo – que durante s&eacute;culos iluminou mais a beleza do efebo que a do “beau sexe” –, os t&oacute;picos fundamentais de um retrato negativo da mulher que gozar&aacute; de um porvir florescente: criatura fr&aacute;gil, irracional, luxuriosa, inst&aacute;vel, perversa e ignorante.</p>      <p>O discurso mis&oacute;gino grego, corroborado e continuado pelos romanos, acabou por ser fortalecido pela <i>auctoritas</i> de s&aacute;bios de outras origens culturais e religiosas, nomeadamente judaico-crist&atilde;s. A aparente hostilidade para com o Paganismo n&atilde;o impediu a nova ideologia dominante de ser profundamente influenciada pela cultura cl&aacute;ssica, por vezes a ponto de as tradi&ccedil;&otilde;es se confundirem. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>De facto, a hist&oacute;ria da misoginia e do vitup&eacute;rio da mulher &eacute; tamb&eacute;m a hist&oacute;ria da heran&ccedil;a cultural e, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, da palavra escrita. Dom&iacute;nio secularmente exclusivo do homem, a palavra foi sendo tamb&eacute;m um inimigo, por ac&ccedil;&atilde;o e at&eacute; supress&atilde;o, da mulher, votada ao sil&ecirc;ncio tanto por imposi&ccedil;&atilde;o, como por falta de cultura. </p>      <p>Assim, as figuras de Pandora e Eva, al&eacute;m de mitos que simbolizam a misoginia e o peso do verbo no masculino – a primeira, no mundo cl&aacute;ssico, a segunda no judaico-crist&atilde;o –, exemplificam tamb&eacute;m o peso da heran&ccedil;a cl&aacute;ssica na vertente judaico-crist&atilde; da cultura ocidental.</p>      <p><b>As filhas de Pandora</b></p>      <p>Homero, o primeiro autor grego conhecido, ter&aacute; cristalizado, pelo s&eacute;culo VIII a. C., e com o olhar do seu tempo, o fascinante ambiente da Gr&eacute;cia Mic&eacute;nica de quase meio mil&eacute;nio antes. No mundo de Ulisses – onde se combatia dez anos por uma mulher e se errava pelo Mediterr&acirc;neo outros dez para regressar aos bra&ccedil;os de uma esposa – a misoginia n&atilde;o transparece. Homem e mulher equiparam-se na forma como s&atilde;o joguetes dos caprichos dos deuses, num tempo m&iacute;tico em que mortais e imortais se misturavam. Ainda assim, a fragilidade e a impot&ecirc;ncia da mulher face &agrave; brutalidade dos her&oacute;is – recordem-se os <i>kak&agrave; &eacute;rga</i> de Aquiles (King 1987: 25) –, sedentos de gl&oacute;ria e poder e dominados pelas paix&otilde;es mais abjectas, eram gritantes: recorde-se a causa da ira de Aquiles (<i>Il&iacute;ada</i>, I, 180-187), tema da <i>Il&iacute;ada</i>, e a ang&uacute;stia de Heitor perante o futuro de Andr&oacute;maca (<i>Il&iacute;ada</i>, VI 450-465). </p>      <p>Mas Homero usa como ningu&eacute;m as palavras quer para expor os excessos masculinos (King 1987: 13-28), quer para transformar as suas personagens femininas em verdadeiras deusas: imortaliza-as como s&iacute;mbolos encantadores de diversas virtudes e sentimentos t&atilde;o profundamente humanos e intemporais que continuam a emocionar-nos tr&ecirc;s mil&eacute;nios depois. </p>      <p>Na <i>Odisseia</i>, Pen&eacute;lope simboliza, al&eacute;m da beleza, ci&ecirc;ncia dom&eacute;stica e fidelidade, a sensatez absoluta e uma intelig&ecirc;ncia que chega &agrave; ast&uacute;cia, como admite o p&eacute;rfido Ant&iacute;noo (II, 115). Na <i>Il&iacute;ada</i>, Andr&oacute;maca, por exemplo, protagoniza as primeiras representa&ccedil;&otilde;es do afecto e da dor humana mais profunda: (VI, 407-413 e 429-430). </p>      <p>Sempre cort&ecirc;s, Homero nunca critica abertamente as mulheres aparentemente culpadas, como Helena, antes sublinhando a beleza espantosa que a tornava irresist&iacute;vel (os velhos de Tr&oacute;ia, <i>Il&iacute;ada</i> III, 155), e a sua dimens&atilde;o de v&iacute;tima dos caprichos divinos (<i>Il&iacute;ada</i>, III, 426). </p>      <p>&Eacute; de facto na <i>Odisseia </i>que o poder da mulher se mostra mais ostensivamente: Ulisses est&aacute; n&atilde;o tanto &agrave; merc&ecirc; da ira de Poseidon, quanto dos caprichos das deusas que o tentam reter; &eacute; Atena que o guia e protege, chegando a infundir-lhe beleza para que caia nas boas gra&ccedil;as das mulheres; a sua incans&aacute;vel err&acirc;ncia resulta do desejo de voltar para junto de Pen&eacute;lope, cuja mortalidade &eacute; mais fascinante que as ofertas da magn&iacute;fica Calipso; junto dos Fe&aacute;cios, na sua &uacute;ltima paragem, est&aacute; &agrave; merc&ecirc; da esplendorosa Nausicaa e da sua poderosa m&atilde;e, Aret&ecirc;, que &eacute; quem realmente manda no reino; enfim, &eacute; Pen&eacute;lope que, nos seus pr&oacute;prios termos, testa e aceita Ulisses, mesmo depois da brutal exibi&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a masculina no massacre dos pretendentes. </p>      <p>O mundo hom&eacute;rico e os seus belos mitos sofrer&atilde;o numerosas altera&ccedil;&otilde;es e interpreta&ccedil;&otilde;es na posteridade. Os poetas seguintes, sobretudo os tr&aacute;gicos, elaborar&atilde;o novas vers&otilde;es e interpreta&ccedil;&otilde;es de acordo com o gosto pessoal e as preocupa&ccedil;&otilde;es do seu tempo; o Helenismo construir&aacute; par&oacute;dias e atomizar&aacute; as an&aacute;lises, culminando numa teia complexa e confusa, apenas dominada por mit&oacute;grafos envolvidos em discuss&otilde;es herm&eacute;ticas. Algumas das personagens hom&eacute;ricas – como Helena – ser&atilde;o sujeitas a ju&iacute;zos pouco favor&aacute;veis, mas o seu poder evocativo continua a despertar interpreta&ccedil;&otilde;es novas, provando a inesgot&aacute;vel riqueza do divino aedo. N&atilde;o deixa entretanto de ser curioso que o Ulisses de E&ccedil;a de Queir&oacute;s seja muito mais machista que o original…</p>      <p>Entre o s&eacute;c. VIII e o VII a. C., ocorreram na sociedade grega mudan&ccedil;as profundas que levaram a um afastamento radical do mundo de Ulisses: deixara de ser poss&iacute;vel ir para a guerra por causa de uma mulher. O arauto da mudan&ccedil;a, atrav&eacute;s do poder lapidar da palavra, foi Hes&iacute;odo, um campon&ecirc;s da Be&oacute;cia que recusava a sociedade aristocr&aacute;tica e her&oacute;ica de Homero e as suas encantadoras e poderosas mulheres.<sup><a href="#4" name="top4">[4]</a></sup> Transparece pela primeira vez o receio masculino face ao fasc&iacute;nio inexor&aacute;vel que elas exercem sobre a for&ccedil;a e a raz&atilde;o. O poeta verbaliza este medo algo insconscientemente: al&eacute;m de caracterizar as mulheres como desavergonhadas, manipuladoras, mentirosas, interesseiras e curiosas – z&acirc;ng&atilde;os predat&oacute;rios que atormentam o laborioso e sofredor abelha-homem (<i>Teogonia</i>, 590-595<sup><a href="#5" name="top5">[5]</a></sup>) –, apresenta-as como irresistivelmente sedutoras, pela beleza, ornamentos e palavra, para o indefeso homem (<i>Teogonia</i>, 585-589). E tem uma justifica&ccedil;&atilde;o imbat&iacute;vel: tal poder foi-lhes dado pelos deuses.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A mulher &eacute;, como Hes&iacute;odo n&atilde;o se cansa de repetir, um belo mal – <i>kal&oacute;n kak&oacute;n </i>–,disfar&ccedil;ado de bem (<i>Teogonia</i>, 585; <i>Os trabalhos e os dias</i>, 83); acima de tudo, uma puni&ccedil;&atilde;o, uma praga contagiosa (<i>Os trabalhos e os dias</i>, 753-755), para a qual o homem n&atilde;o est&aacute; preparado. Pior: a segunda parte do castigo de Zeus &eacute; ser igualmente imposs&iacute;vel viver sem ela (<i>Teogonia</i>, 602-605). </p>      <p>Mas o impacto das concep&ccedil;&otilde;es de Hes&iacute;odo na posteridade grega e futura ser&aacute; muito mais fundamental do que um retrato negativo, por mais lapidar que fosse: o poeta criou um mito sobre a cria&ccedil;&atilde;o da mulher que a diferenciou do homem, ao denomin&aacute;-la como outra “estirpe e ra&ccedil;a” (<i>Teogonia</i>, 591); e ainda vai mais longe ao subverter mitos antigos, de &iacute;ndole matriarcal, sobre a benfazeja deusa Pandora e atribuir-lhe a responsabilidade pelo sofrimento humano, quer devido &agrave; sua pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia, quer pela curiosidade insaci&aacute;vel que a leva a soltar todos os males contidos no vaso que trazia de presente. </p>      <p>O novo mito, que assinala a dimens&atilde;o mitopoi&eacute;tica na sua realiza&ccedil;&atilde;o m&aacute;xima e ter&aacute; repercuss&otilde;es extraordin&aacute;rias fora do Paganismo, &eacute; apresentado em duas vers&otilde;es com ligeiras varia&ccedil;&otilde;es em <i>Os trabalhos e os dias</i> e na <i>Teogonia</i>. O ponto de partida de ambas &eacute; a vingan&ccedil;a de Zeus, furioso por ter sido enganado por Prometeu, que conseguira arranjar forma de lhe roubar o fogo, de modo a ajudar os humanos. A &iacute;ndole caprichosa e vingativa dos deuses arcaicos &eacute; patente, chegando o deus supremo a dar a gargalhada que todos estamos habituados a associar aos vil&otilde;es de caricatura, quando antecipam o sucesso de um plano mal&eacute;fico…</p>      <p>Em <i>Os trabalhos e os dias</i>, Zeus prepara uma praga que, paradoxalmente, ser&aacute; vista pelo homem como uma oferta agrad&aacute;vel: “dar-lhes-ei um mal com que todos se v&atilde;o regozijar em seu cora&ccedil;&atilde;o, ao rodear de amor o mal” (57-58). &Eacute;, portanto, desde o princ&iacute;pio, um engano. Zeus d&aacute; ordens precisas a Hefesto, Atena, Afrodite e Hermes: Hefesto forma uma jovem com barro; Atena e outras deusas vestem-na e adornam-na irresistivelmente; Atena d&aacute;-lhe instru&ccedil;&atilde;o em lavores; Afrodite infunde-lhe sedu&ccedil;&atilde;o que causar&aacute; dor ao homem – “gra&ccedil;a em torno da cabe&ccedil;a/ e o desejo irresist&iacute;vel e os cuidados que devoram os membros” (65-66); Hermes transmite-lhe uma natureza desavergonhada e manipuladora – “c&iacute;nica intelig&ecirc;ncia e car&aacute;cter vol&uacute;vel” (67). O poeta insiste repetidamente no poder da palavra – “mentiras”, “palavras sedutoras”, “insuflou-lhe a voz” (78-79) –, mas aqui um verbo perverso, que brota paradoxalmente da divindade. Real&ccedil;a deste modo a dimens&atilde;o enganadora da fala, s&oacute; solucion&aacute;vel pela imposi&ccedil;&atilde;o do sil&ecirc;ncio. </p>      <p>No final da constru&ccedil;&atilde;o da nova criatura, &eacute;-lhe atribu&iacute;do o nome de Pandora, explicado pelo facto de todos os deuses terem contribu&iacute;do com algo: &eacute; um dom de todos, embora uma “ru&iacute;na para os homens” (83). Pandora &eacute; oferecida por Hermes ao pouco perspicaz Epimeteu (“o que pensa depois”), que esquece a recomenda&ccedil;&atilde;o do seu previdente irm&atilde;o Prometeu e aceita, rendido, o bel&iacute;ssimo dom. Com ela vem um outro presente: um <i>pithos</i> – jarro fechado –, que n&atilde;o uma caixa, imprecis&atilde;o resultante de um erro de tradu&ccedil;&atilde;o de Erasmo com tremendos efeitos na representa&ccedil;&atilde;o verbal e iconogr&aacute;fica do mito. Pandora abre, acto cont&iacute;nuo, a tampa, deixando escapar os males a que a humanidade tinha sido poupada antes da entrada em cena da criatura mal&eacute;fica e curiosa: fome, doen&ccedil;as, guerra, trabalho &aacute;rduo, velhice... Restou a esperan&ccedil;a, porque Zeus n&atilde;o a deixou sair, o que se presta a v&aacute;rias possibilidades interpretativas.</p>      <p>Na <i>Teogonia</i> o relato &eacute; bem mais breve e concentra a constru&ccedil;&atilde;o do instrumento de vingan&ccedil;a de Zeus em Hefesto e Atena – a deusa dos olhos brilhantes que, apesar de mulher, saiu diretamente da cabe&ccedil;a do pai, sem qualquer interven&ccedil;&atilde;o feminina –, o que n&atilde;o deixa de ser simb&oacute;lico. Sem nomear a bela criatura, nem relatar o modo como ela chega aos homens, Hes&iacute;odo passa para a defini&ccedil;&atilde;o da mulher nos seus tra&ccedil;os mais terr&iacute;veis, e apresenta o segundo castigo com que Zeus puniu o homem: se tentarem fugir &agrave; desgra&ccedil;a do casamento, morrer&atilde;o abandonados e os parentes, antes indispon&iacute;veis, ficar&atilde;o com os bens. Assim, a mulher &eacute; um duplo castigo, porque se sofre com ela e sem ela.</p>      <p>A influ&ecirc;ncia de Hes&iacute;odo na Gr&eacute;cia Cl&aacute;ssica foi avassaladora devido ao seu prest&iacute;gio, e condicionou quer a imagem e direitos da mulher, quer os costumes do casamento. </p>      <p>Foi amplamente aceite a ideia da necessidade de controlar totalmente a mulher, impondo-lhe o recolhimento e o sil&ecirc;ncio, para n&atilde;o poder exercer os seus dotes de sedutora quer pela apar&ecirc;ncia, quer pela palavra; e tirando-lhe qualquer direito civil, para que n&atilde;o tivesse capacidade econ&oacute;mica e de interven&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica: era controlada por um tutor, o <i>kyrios</i>. Todavia, continua a ser ela a transmitir a linhagem dos cidad&atilde;os.</p>      <p>Na senda do <i>kal&oacute;n kak&oacute;n</i> de Hes&iacute;odo, come&ccedil;am a surgir escritos lapidares que v&atilde;o constituir o repert&oacute;rio mis&oacute;gino que a posteridade glosar&aacute; at&eacute; &agrave; caricatura, como &eacute; norma numa cultura centrada na palavra escrita. O primeiro &eacute; o obscuro Sem&oacute;nides de Amorgos, poeta j&acirc;mbico que viveu entre Hes&iacute;odo e o dealbar da &eacute;poca cl&aacute;ssica. Dos fragmentos da sua obra destaca-se o famoso <i>Jambo das Mulheres</i>. Enquadrada pelo ambiente popular e jocoso t&iacute;pico da poesia j&acirc;mbica, a obra &eacute; uma lista de tipos – e portanto defeitos – femininos associados a um animal ou elemento espec&iacute;fico. S&atilde;o eles: porca, raposa, cadela, terra, mar, burra, gata, &eacute;gua, macaca, abelha. Veja-se o primeiro:</p>      <blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Diferente o deus fez o car&aacute;cter da mulher,</p>      <p>no in&iacute;cio. Uma f&ecirc;-la da porca de longa cerdas;</p>      <p>em sua casa tudo est&aacute; repleto de imundice,</p>      <p>em desordem ou a rolar pelo ch&atilde;o.</p>      <p>Ela pr&oacute;pria, suja, com roupas n&atilde;o lavadas, 5</p>      <p>sentada no meio do esterco, engorda. (Brasete 2005, vv.1-5)</p> </blockquote>      <p>Apesar de tudo, aparece um animal bom – a abelha, s&iacute;mbolo masculino para Hes&iacute;odo –, correspondendo a um tipo de mulher positivo.</p>      <p>Nos finais do Per&iacute;odo Arcaico, inicia-se uma transforma&ccedil;&atilde;o na cultura grega com efeitos extraordin&aacute;rios: o pensamento m&iacute;tico &eacute; substitu&iacute;do pelo dom&iacute;nio da Raz&atilde;o; e a primazia de Homero como fonte de todo o conhecimento foi ocupada pela Filosofia, enorme guarda-chuva que abrangia todas as &aacute;reas do saber, incluindo a balbuciante ci&ecirc;ncia. O homem &eacute; o centro das preocupa&ccedil;&otilde;es intelectuais e morais; a mulher &eacute; penalizada pela sua diferen&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; nova medida de todas as coisas. Mais ainda: foi tamb&eacute;m afastada da posi&ccedil;&atilde;o central que ocupara como s&iacute;mbolo de beleza e causa de paix&atilde;o. O “amor grego” tornara-se a suprema forma de afecto. A concep&ccedil;&atilde;o da filosofia do s&eacute;c. V segundo a qual a contempla&ccedil;&atilde;o da beleza masculina levava a emo&ccedil;&otilde;es sublimes subalternizou ainda mais a mulher.</p>      <p>A extraordin&aacute;ria grandeza dos fil&oacute;sofos gregos teve efeitos profundos, e as suas ideias sobre a mulher, agora fundadas numa alegada an&aacute;lise cient&iacute;fica, ficar&atilde;o gravadas por mil&eacute;nios. &Eacute; o caso das famosas afirma&ccedil;&otilde;es de Arist&oacute;teles sobre a inferioridade da mulher em obras como o <i>De Generatione Animalium</i> ou <i>Historia Animalium</i> – t&iacute;tulos latinos que dizem tudo quanto ao impacto futuro.</p>      <p>No &acirc;mbito liter&aacute;rio, a preocupa&ccedil;&atilde;o pelo homem e suas circunst&acirc;ncias afirmou a Trag&eacute;dia como a express&atilde;o art&iacute;stica fundamental. Embora as mulheres estivessem proibidas de representar, muitas das personagens principais eram femininas – precisamente as encantadoras e infelizes hero&iacute;nas hom&eacute;ricas, agora analisadas noutros pontos de vista. Na realidade, a trag&eacute;dia exp&otilde;e as perspectivas morais sobre a mulher, nomeadamente mostrando os excessos que poderiam ocorrer se n&atilde;o houvesse um forte controlo legal e social sobre ela.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na Gr&eacute;cia Cl&aacute;ssica, e sobretudo em Atenas, <sup><a href="#6" name="top6">[6]</a></sup> a mulher era definida por oposi&ccedil;&atilde;o ao homem, sobretudo em tr&ecirc;s dicotomias: escravid&atilde;o <i>vs.</i> liberdade; incontin&ecirc;ncia <i>vs</i>. autocontrolo; apetites e emo&ccedil;&otilde;es corporais <i>vs</i>. racionalidade. Consequentemente, ele era livre e cidad&atilde;o, enquanto ela era escrava das paix&otilde;es e n&atilde;o usufru&iacute;a de quaisquer direitos pol&iacute;ticos, sendo os direitos legais e econ&oacute;micos reduzidos. </p>      <p>Na trag&eacute;dia cl&aacute;ssica, segundo Roger Just, os perigos femininos s&atilde;o enquadrados em dois apartados fundamentais: o Inimigo Interno – “the enemy within” –, manifesto na ferocidade vingativa que resulta da inseguran&ccedil;a e da impot&ecirc;ncia (Eur&iacute;pides, <i>&Iacute;on</i>); passando pela excessiva express&atilde;o da dor e da fraqueza que amea&ccedil;am a cidade (&Eacute;squilo, <i>Sete contra Tebas</i>); at&eacute; &agrave; obedi&ecirc;ncia a leis divinas que leva &agrave; desobedi&ecirc;ncia &agrave;s leis humanas e &agrave; desgra&ccedil;a (S&oacute;focles, <i>Ant&iacute;gona</i>). E a Selvagem Externa – “the savage without”–: das figuras m&iacute;ticas monstruosas, normalmente femininas, &agrave;s <i>potnia theron</i> (bruxas da <i>Odisseia</i>) de matriz mediterr&acirc;nica; passando pela loucura b&aacute;rbara (Eur&iacute;pides, <i>Medeia</i>), &eacute;bria (Eur&iacute;pedes, <i>Bacantes</i>, &Eacute;squilo, <i>M&eacute;nades</i>) e amorosa (Eur&iacute;pides, <i>Hip&oacute;lito</i>, &Eacute;squilo, <i>Agam&eacute;mnon</i>).</p>      <p>Fora dos dramas extremos e cat&aacute;rticos da <i>skene</i>, que aconselhavam o controlo absoluto, na vida di&aacute;ria, a mulher acabava por assumir um papel e um poder algo consider&aacute;veis, patentes em figuras como Asp&aacute;sia e no relato de Isc&oacute;maco a S&oacute;crates no <i>Oikon&oacute;micos</i> de Xenofonte.<sup><a href="#7" name="top7">[7]</a></sup> Por&eacute;m, mesmo neste caso, mant&eacute;m-se a perspectiva paternalista: Isc&oacute;maco, na linha do uso de inspira&ccedil;&atilde;o hesi&oacute;dica, casara, aos trinta anos, com uma jovem de cerca de quinze, sa&iacute;da directamente do gineceu materno; depois, “instru&iacute;ra-a” durante alguns anos at&eacute; a deixar capaz de, na pr&aacute;tica, tomar conta da administra&ccedil;&atilde;o da <i>res familiaris</i>, de modo a que ele se dedicasse completamente &agrave; vida pol&iacute;tica. Ser&aacute; com este mesmo paternalismo que, quinhentos anos mais tarde, os contempor&acirc;neos de Trajano apreciar&atilde;o o seu casamento com a muito mais jovem Plotina.<sup><a href="#8" name="top8">[8]</a></sup></p>      <p>Isc&oacute;maco desca&iacute;ra-se, v&iacute;tima da t&eacute;cnica socr&aacute;tica, pois a opini&atilde;o oficial dos homens do seu tempo est&aacute; patente nas duras recomenda&ccedil;&otilde;es de P&eacute;ricles – o mesmo que nunca sa&iacute;a de casa sem abra&ccedil;ar Asp&aacute;sia (Plutarque, <i>Vie de P&eacute;ricl&egrave;s</i>, 24, 2-12.) – &agrave;s vi&uacute;vas da Guerra do Peloponeso, pelo menos na vers&atilde;o do aristocr&aacute;tico e conservador Tuc&iacute;dides (2, 45, 2).</p>      <p>Contudo, h&aacute; estudiosos que afirmam a exist&ecirc;ncia, precisamente &agrave; volta e na senda de S&oacute;crates,<sup><a href="#9" name="top9">[9]</a></sup> de um movimento se n&atilde;o feminista, pelo menos defensor de uma certa igualdade de capacidades entre os sexos. Esta perspectiva ter&aacute; sido sobretudo defendida por disc&iacute;pulos menos c&eacute;lebres de S&oacute;crates, como Ant&iacute;stenes, fundador da escola C&iacute;nica, e &Eacute;squines de Sfetos,<sup><a href="#10" name="top10">[10]</a></sup> grandes admiradores de Asp&aacute;sia. O par filos&oacute;fico modelo &eacute; constitu&iacute;do por Crates de Tebas e Hip&aacute;rquia, pregadores itinerantes da escola (Flaceli&egrave;re 1971: 700-701). </p>      <p>Mesmo Arist&oacute;teles, alguns anos mais tarde, acabar&aacute; por valorizar o casamento como <i>philia</i>, encetando um processo que s&oacute; no tempo de Plutarco atingir&aacute; o seu termo, equiparando-se ao <i>eros</i>. Nas artes pl&aacute;sticas, com Prax&iacute;teles (395 – 330), a beleza do corpo feminino recome&ccedil;a a ombrear com o masculino, num processo que s&oacute; no tempo de Plutarco atingir&aacute; o seu termo.</p>      <p>No &acirc;mbito da trag&eacute;dia, as palavras de Medeia e do coro das Cor&iacute;ntias na <i>Medeia</i> de Eur&iacute;pides tamb&eacute;m assinalam algo – quanto mais n&atilde;o seja, e &agrave; semelhan&ccedil;a das famosas obras aristof&acirc;nicas (<i>Lis&iacute;strata</i> e <i>Assembleia</i> <i>das</i> <i>Mulheres</i>), que a condi&ccedil;&atilde;o feminina era um tema relevante. Medeia, se bem que de credibilidade diminu&iacute;da por ser b&aacute;rbara e bruxa e estar fora de si como uma leoa<sup><a href="#11" name="top11">[11]</a></sup> – uma selvagem externa –, ousou fazer um retrato objectivo da condi&ccedil;&atilde;o da mulher:</p>     <blockquote>     <p>De tudo o que tem vida e pensamento, somos n&oacute;s, mulheres, as criaturas mais miser&aacute;veis. Em primeiro lugar necessitamos, gastando mais dinheiro do que ele merece, comprar um marido e conceder um dono ao nosso corpo – mal ainda mais forte do que o outro. […] Quando a vida dom&eacute;stica se torna pesada a um marido, ele vai procurar l&aacute; fora al&iacute;vio para o seu cora&ccedil;&atilde;o e volta-se para um amigo ou camarada da sua idade. N&oacute;s, por&eacute;m, n&atilde;o podemos ter olhos sen&atilde;o para um &uacute;nico ser. Dizem que vivemos uma exist&ecirc;ncia sem perigos, dentro de casa, ao passo que eles combatem com a lan&ccedil;a. Pobre racioc&iacute;nio! Antes queria lutar tr&ecirc;s vezes debaixo do broquel que dar &agrave; luz uma &uacute;nica vez. (Eur&iacute;pides s/d: p. 23)</p> </blockquote>     <p>Embora um pouco mais &agrave; frente assuma que as mulheres eram por natureza incapazes de praticar o bem,<sup><a href="#12" name="top12">[12]</a></sup> as Cor&iacute;ntias imediatamente lhe apontam uma luz ao fundo do t&uacute;nel da condi&ccedil;&atilde;o feminina:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p>Os homens t&ecirc;m agora des&iacute;gnios p&eacute;rfidos, j&aacute; n&atilde;o &eacute; duradoira a f&eacute; jurada aos deuses. O nosso comportamento ter&aacute; bom renome por um desvio de opini&atilde;o. Vir&aacute; um dia em que ser&aacute; honrado o sexo feminino: sobre as mulheres j&aacute; n&atilde;o pesar&aacute; uma fama injuriosa. (Eur&iacute;pides s/d: Estrofe I, p. 30)</p> </blockquote>     <p>O progresso na condi&ccedil;&atilde;o feminina que atravessa o Helenismo e atinge o auge no s&eacute;c. II da nossa era, &eacute; patente nos <i>Moralia</i> de Plutarco, nomeadamente nas <i>Condutas</i> <i>merit&oacute;rias</i> <i>das</i> <i>mulheres</i>, um repert&oacute;rio de hero&iacute;nas enquadr&aacute;veis num <i>continuum</i> encetado por Homero (Plutarque 2002: pp. 10 e <i>passim</i>). </p>      <p>Pelo tema, esta antologia tem tra&ccedil;os de elogio f&uacute;nebre e de tratado filos&oacute;fico. De facto, a obra &eacute; justificada como uma consola&ccedil;&atilde;o de uma amiga, Clea, pela morte de outra, Leontis: “se consoler &agrave; l’aide de la philosophie […] et surtout louer les qualit&eacute;s de la d&eacute;funte”, inspirando-se nas inscri&ccedil;&otilde;es masculinas gregas, de acordo com o costume romano da <i>laudatio funebris</i>. A conversa de Plutarco e Clea, partindo do elogio das qualidades da falecida, desemboca na “id&eacute;e que le sexe f&eacute;minin, du point de vue de &#108;&#8217;&#940;&#961;&#949;&#964;&#942;, n’a rien &agrave; envier aux hommes”. De facto, numa civiliza&ccedil;&atilde;o “imbu&eacute;e de la sup&eacute;riorit&eacute; masculine”, que melhor forma de “louer une femme que de l’&eacute;galer aux hommes?” (Plutarque 2002: pp. 10 e <i>passim</i>).</p>      <p>Plutarco voltar&aacute; (nas <i>Hist&oacute;rias</i> e em outras obras, como o <i>Amatorius</i>) ao tema da igualdade dos sexos no que diz respeito aos m&eacute;ritos. A &#940;&#961;&#949;&#964;&#942; &eacute; uma designa&ccedil;&atilde;o gen&eacute;rica que inclui uma s&eacute;rie de virtudes: &#963;&#973;&#957;&#949;&#963;&#953;&#962; – intelig&ecirc;ncia ao servi&ccedil;o do bem; &#966;&#961;&#972;&#957;&#951;&#956;&#945; – nobreza de sentimentos; &#940;&#957;&#948;&#961;&#949;&#970;&#959;&#962; – coragem e valentia; &#966;&#961;&#972;&#957;&#951;&#963;&#953;&#962; – prud&ecirc;ncia; &#948;&#943;&#954;&#945;&#953;&#959;&#962; – sentido da justi&ccedil;a; &#966;&#943;&#955;&#945;&#957;&#948;&#961;&#959;&#962; – fidelidade no amor; &#956;&#949;&#947;&#945;&#955;&#972;&#966;&#961;&#969;&#957; – grandeza de &acirc;nimo; &#966;&#953;&#955;&#940;&#957;&#952;&#961;&#959;&#960;&#959;&#962; – piedade/bondade.</p>      <p>Todavia, este “feminismo” do moralista de Queroneia continua muito fiel &agrave; concep&ccedil;&atilde;o tradicional dos gregos sobre o que deveria ser uma mulher honesta: a reserva, a fidelidade e a bondade continuam a ser as suas virtudes cardeais. A mulher pode apresentar virtudes masculinas como o sangue-frio, a intelig&ecirc;ncia (pol&iacute;tica, inclusive), mas s&oacute; em circunst&acirc;ncias excepcionais, pois s&atilde;o apan&aacute;gio do homem. A atitude ideal da mulher, a mais conveniente “&agrave; sua natureza” &eacute; sobretudo mostrar mod&eacute;stia e “apagamento”.</p>      <p>As atitudes mis&oacute;ginas persistiram ao longo da &eacute;poca helen&iacute;stica, glosando alguns dos t&oacute;picos dos poetas arcaicos. Pense-se na famosa cita&ccedil;&atilde;o de Menandro que coloca a mulher, o mar e o fogo no mesmo n&iacute;vel como tr&ecirc;s males: "&#920;&#902;&#923;&#913;&#931;&#931;&#913;&#32;&#922;&#913;&#921;&#32;&#928;&#939;&#929;&#32;&#922;&#913;&#921;&#32;&#915;&#933;&#925;&#905;&#32;&#932;&#929;&#906;&#932;&#927;&#925;&#32;&#922;&#913;&#922;&#908;&#925;" (<i>Fragmenta Comicorum Graecorum</i>, t. iv, p. 340). Mas a manifesta&ccedil;&atilde;o m&aacute;xima, pela quase abjec&ccedil;&atilde;o da personagem e sobretudo pelo enorme impacto na Idade M&eacute;dia e no Renascimento, ocorrer&aacute; no tempo de Plutarco: s&atilde;o os <i>Ox&iacute;moros</i> escritos pelo fil&oacute;sofo silencioso (Taciturnus) Secundus. Vejam-se algumas defini&ccedil;&otilde;es de mulher: “uma deprava&ccedil;&atilde;o que controla o corpo”; “uma leoa na vossa cama”; “uma v&iacute;bora vestida”; “um castigo quotidiano”; “um entrave &agrave; tranquilidade”; “o saque da nossa vida”; “uma guerra muito dispendiosa”; “uma besta maldosa”; “um instrumento para a procria&ccedil;&atilde;o”; “um mal necess&aacute;rio” (Philonenko 1991: 377-378). Acima de todas as frases do Taciturnus reinar&aacute; na posteridade o not&oacute;rio “&#960;&#945;&#963;&#945;&#32;&#947;&#965;&#957;&#942;&#32;&#960;&#972;&#961;&#957;&#951;” (Philonenko 1991: 374), que Jean de Meung far&aacute; ecoar na Idade M&eacute;dia Ocidental.<sup><a href="#13" name="top13">[13]</a></sup></p>      <p><b>Pandora Matrona</b></p>      <p>A forma como os romanos dos primeiros tempos definiam e enquadravam a mulher na sociedade assemelhava-se em muito &agrave; dos atenienses. Os <i>maiores</i> – antepassados – consideravam que, em paralelo com a fragilidade f&iacute;sica, a mulher sofria de <i>infirmitas consili</i> – fragilidade de esp&iacute;rito –, pelo que precisava de se submeter a um <i>tutor </i>(C&iacute;cero, <i>Pro Murena</i> XII, 27). Cat&atilde;o, o Censor, representante m&aacute;ximo das tend&ecirc;ncias conservadoras do <i>mos</i> <i>maiorum</i> – costumes dos antepassados –, expressou-se com uma clareza brutal no seu discurso no &acirc;mbito do processo de revoga&ccedil;&atilde;o da <i>Lex</i> <i>Oppia</i> (195 a. C.),<sup><a href="#14" name="top14">[14]</a></sup> reproduzido e, naturalmente, retocado, por Tito L&iacute;vio: a mulher &eacute; “indomitum animal, impotens natura”– animal indom&aacute;vel, natureza descontrolada<sup><a href="#15" name="top15">[15]</a></sup> –que era capaz de tudo, pelo que tinha de ser dominado – “frenari” (<i>Ab Vrbe condita</i>, XXXIV, 2, 12). </p>      <p>O <i>imperium viri </i>– poder do var&atilde;o –, quer do pai, quer sobretudo do marido, permitiu, pelo menos at&eacute; ao s&eacute;culo I a. C., um controlo de vida e morte sobre a mulher. Como em Atenas, era a cidad&atilde; que transmitia o direito de cidad&atilde;o, mas gozava de uma posi&ccedil;&atilde;o mais elevada gra&ccedil;as ao estatuto de matrona, que conferia <i>sanctitas</i>. Por outro lado, a romana n&atilde;o estava confinada ao lar e, mesmo com a imposi&ccedil;&atilde;o de um tutor, os seus direitos econ&oacute;micos eram bem mais amplos que em Atenas.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Sendo a civiliza&ccedil;&atilde;o romana eminentemente moral, e apesar de a beleza ser muito importante, instituiu-se um sistema de virtudes correspondentes ao ideal feminino da mulher de estatuto mais elevado, a <i>matrona</i>: <i>grauitas</i> (compostura e autoridade) e <i>comitas </i>(afabilidade), <i>industria</i> (donde o “lanam fecit” – fiou l&atilde; – repetido nos epit&aacute;fios), <i>parsimonia</i>, <i>sobrietas</i> s&atilde;o acompanhadas pela hier&aacute;tica <i>sanctitas </i>(inviolabilidade), mas as mais relevantes eram as <i>pudicitia/castitas</i> (mod&eacute;stia/castidade) (Ratti 1996: pp. 119-124), como n&atilde;o se cansam de assinalar autores como Juvenal e S&eacute;neca. </p>      <p>Apesar das numerosas demonstra&ccedil;&otilde;es de empenho pelo bem comum, narradas em tom solene por Tito L&iacute;vio, e exemplificadas pela d&aacute;diva das j&oacute;ias para ajudar na luta contra An&iacute;bal – como recordou um dos tribunos proponentes da revoga&ccedil;&atilde;o de <i>Lex</i> <i>Oppia</i> –, a marca negativa persistia, reflectindo-se nas palavras. Desde logo, as que designam a mulher s&atilde;o tamb&eacute;m imbu&iacute;das de um tom pejorativo: <i>mulier</i> (al&eacute;m do correspondente adjectivo <i>muliebris </i>e do adv&eacute;rbio <i>muliebrite</i>r) e <i>femina</i> s&atilde;o vistas como sin&oacute;nimos de fraqueza f&iacute;sica, emotividade excessiva e ligeireza nas opini&otilde;es. Mais marcante ainda foi o facto de os autores mais conceituados da cultura latina reflectirem este parecer em personagens, retratos e sobretudo frases que se tornaram antol&oacute;gicas, como “Mulier es, audacter iuras”<i> (</i>Plauto, <i>Amphytruo</i>, II, 2, 206), “varium et mutabile semper femina” (Virg&iacute;lio, <i>Aeneis</i>, IV, 569-570), e o <i>adynaton</i> aplicado por Juvenal &agrave; mulher perfeita, destinado a ser repetido na posteridade: “rara auis in terris nigroque simillima cycno” – uma ave rara na terra, muito semelhante a um cisne negro (que os antigos pensavam n&atilde;o existir) (<i>S&aacute;tira VI</i>, 165). </p>      <p>A revoga&ccedil;&atilde;o da <i>Lex</i> <i>Oppia</i> foi um momento fundamental na progressiva liberta&ccedil;&atilde;o da mulher romana em rela&ccedil;&atilde;o aos costumes dos <i>maiores</i>: demonstrou n&atilde;o apenas a surpreendente capacidade de mobiliza&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica das matronas, como o quanto uma parte da elite romana se preocupava com a condi&ccedil;&atilde;o delas. Por outro lado, acontece no in&iacute;cio da crise de crescimento provocada pela transforma&ccedil;&atilde;o de Roma numa pot&ecirc;ncia mundial, que ter&aacute; o seu auge no s&eacute;culo I a. C. Com a derrota dos Cartagineses, &uacute;ltimo rival na hegemonia do Mediterr&acirc;neo, desapareceu, por bastante tempo, uma das principais causas da vig&ecirc;ncia das virtudes tradicionais: a guerra <i>ad portas</i> – “proximus urbi / Hannibal et stantes Collina turre mariti” (An&iacute;bal &agrave;s portas de Roma e os maridos de p&eacute; na torre Colina), dir&aacute; Juvenal tr&ecirc;s s&eacute;culos depois. A outra grande causa prende-se com as riquezas imensas e as ideias novas – como o Epicurismo – que as conquistas da Gr&eacute;cia e do Oriente helenizado trouxeram: “luxuria incubuit uictumque ulciscitur orbem” (a lux&uacute;ria assaltou-nos e vingou o mundo vencido), concluir&aacute; o moralista (<i>S&aacute;tira VI</i>, vv.287-293). </p>      <p>A alta sociedade da Roma do s&eacute;culo I a. C. &eacute; povoada de mulheres que garantiram a sua imortalidade gra&ccedil;as &agrave; literatura latina e nos dias de hoje nos entram em casa atrav&eacute;s da televis&atilde;o. Os seus retratos, feitos muitas vezes por rivais pol&iacute;ticos ou amantes despeitados, transmitem uma imagem algo libertina: escandalosas como Cl&oacute;dia, musa de Catulo; individualistas como Ter&ecirc;ncia, mulher de C&iacute;cero; conspiradoras como Sempr&oacute;nia; aventureiras enfurecidas como F&uacute;lvia, inimiga implac&aacute;vel do grande orador; enfim, obrigadas a parecer honestas como a segunda mulher de C&eacute;sar, e sistematicamente caluniadas como a sua amante estrangeira Cle&oacute;patra. Parecia que, ao mesmo tempo que o <i>imperium viri</i>, as virtudes tra&ccedil;adas pelo <i>mos maiorum</i> estavam em grande parte perdidas. No entanto, encontram-se tamb&eacute;m, e precisamente na fam&iacute;lia de Augusto – que seria assombrada pela estrepitosa queda da sua &uacute;nica filha, J&uacute;lia, que arrastou ao ex&iacute;lio Ov&iacute;dio, o <i>doctor</i> <i>amoris</i> –, matronas ricas e influentes mas tradicionais nos costumes: Aur&eacute;lia, m&atilde;e de C&eacute;sar; a imperatriz L&iacute;via Drusila; Ant&oacute;nia, filha do not&oacute;rio Marco Ant&oacute;nio; Oct&aacute;via, mulher deste e irm&atilde; de Augusto. As virtudes da matrona, associadas cada vez mais ao pensamento est&oacute;ico e depois ao Cristianismo, persistir&atilde;o ao longo dos &uacute;ltimos s&eacute;culos do Imp&eacute;rio do Ocidente.</p>      <p>Algo paradoxalmente, a evolu&ccedil;&atilde;o no sentido do aumento dos direitos c&iacute;vicos da mulher, que atingir&aacute; o auge no s&eacute;culo II, vai resultar do esfor&ccedil;o de restaura&ccedil;&atilde;o das virtudes tradicionais da fam&iacute;lia romana, amea&ccedil;ada quer pela liberdade de costumes, quer pela baixa natalidade. &Eacute; disso exemplo o direito das m&atilde;es de tr&ecirc;s filhos a deixarem de ter tutor (<i>sui iuris</i>), institu&iacute;do por Augusto. Na &eacute;poca &aacute;urea do imp&eacute;rio, durante a dinastia dos Antoninos, as romanas livres gozavam de direitos civis mais amplos que as gregas. Apesar de nunca terem obtido prerrogativas pol&iacute;ticas,<sup><a href="#16" name="top16">[16]</a></sup> o direito de possu&iacute;rem e controlarem bens avultados, depois de legalmente contornada a posi&ccedil;&atilde;o do tutor, permitiu a numerosas mulheres, sobretudo das franjas mais elevadas da sociedade, uma condi&ccedil;&atilde;o privilegiada – situa&ccedil;&atilde;o nada pac&iacute;fica para alguns, como Juvenal atesta (<i>S&aacute;tira</i> <i>VI</i>, v. 457), e que acarretou persegui&ccedil;&otilde;es.</p>      <p>Mas tamb&eacute;m ocorreu uma evolu&ccedil;&atilde;o num n&iacute;vel mais relacional: como destaca Paul Veyne, a partir do s&eacute;culo II, nos c&iacute;rculos mais elevados do Paganismo, espica&ccedil;ados pelas cr&iacute;ticas crist&atilde;s &agrave; suposta deprava&ccedil;&atilde;o t&iacute;pica do Paganismo, verifica-se a cria&ccedil;&atilde;o do conceito de casal, com uma posi&ccedil;&atilde;o de igualdade partilhada por ambos os membros (Veyne 1978: pp. 37-38). Essa nova dimens&atilde;o do casamento &eacute; vis&iacute;vel numa inscri&ccedil;&atilde;o em verso, datada de 384, dedicada por Vettius Agorius Praetextatus a Aconia Fabia Paulina, sua esposa durante quarenta anos, expressa: “Paulina, companheira do meu cora&ccedil;&atilde;o, fonte de mod&eacute;stia, o la&ccedil;o de castidade e amor puro e confian&ccedil;a nascido no c&eacute;u, a quem confiei os segredos escondidos no minha mente; presente dos deuses, que unem o leito marital com la&ccedil;os de amizade e pudor” (CIL, vol. VI, n&ordm;. 1,779).<sup><a href="#17" name="top17">[17]</a></sup></p>      <p>Ainda assim, os estere&oacute;tipos mis&oacute;ginos persistem. &Eacute; de facto nos primeiros s&eacute;culos do Imp&eacute;rio Romano que encontramos as vozes mais impactantes transmitidas &agrave; Idade M&eacute;dia, que as estimou e adaptou com quase devo&ccedil;&atilde;o &agrave; sua <i>forma mentis</i>, e redescobertas pelo Renascimento. Destacam-se, pela sua influ&ecirc;ncia na posteridade, Ov&iacute;dio, S&eacute;neca, o Est&oacute;ico, e Juvenal. </p>      <p>Ov&iacute;dio, que nos seus tratados sobre o amor frivoliza a mulher e a apresenta como falsa e enganadora, sublinha, de algum modo na senda que depois Secundus Taciturnus seguir&aacute;, que todas est&atilde;o dispon&iacute;veis para serem seduzidas, bastando encontrar a estrat&eacute;gia adequada. Paralelamente, estabelece o direito do homem a seduzir impunemente, sem quaisquer entraves morais: </p>      <blockquote>     <p>Prima tuae menti ueniat fiducia, cunctas</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Posse capi; capies, tu modo tende plagas (<i>Ars amandi</i>, 1,269-271) </p>      <p>(…)Ludite, si sapitis, solas impune puellas: </p>      <p>Hac minus est una fraude tuenda fides. </p>      <p>Fallite fallentes: ex magna parte profanum (<i>Ars amandi</i>,1, 643-646)</p> </blockquote>      <p>Sunt genus: in laqueos quos posuere, cadant.<sup><a href="#18" name="top18">[18]</a></sup> </p>      <p>A <i>Consolatio ad Heluiam Matrem</i> de S&eacute;neca sintetiza as extraordin&aacute;rias qualidades de H&eacute;lvia, amiga pessoal a quem o fil&oacute;sofo queria consolar, com frases como: “non potest muliebris excusatio contingere ei a qua omnia muliebra uitia afuerunt” – “a desculpa de ser mulher n&atilde;o pode atingir uma pessoa de quem todas as falhas femininas est&atilde;o ausentes” (16, 2); e “Non te maximum saeculi malum, inpudicitia, in numerum plurium adduxit” – “O impudor, o maior mal do nosso tempo, n&atilde;o te p&ocirc;de incluir na classe mais numerosa das mulheres” (16,3) (tradu&ccedil;&atilde;o minha). </p>      <p>Mas o texto mais marcante, quer pela misoginia t&atilde;o reaccion&aacute;ria como inexor&aacute;vel, quer pela influ&ecirc;ncia dos seus versos lapidares,<sup><a href="#19" name="top19">[19]</a></sup> situa-se paradoxalmente no tempo do imperador Adriano: &eacute; a j&aacute; citada <i>S&aacute;tira VI</i> de Juvenal. </p>      <p>Juvenal ataca furiosamente todos os tipos de mulher casada, mais ou menos livres, do seu tempo, tipificadas atrav&eacute;s dos defeitos que o poeta considera relevantes: a lux&uacute;ria, que permite &agrave;s mulheres cometerem imensos crimes, e leva &agrave; entroniza&ccedil;&atilde;o dos gladiadores como &iacute;dolos supremos; a mania dos tribunais; a crueldade hist&eacute;rica e gratuita; o culto absoluto da beleza, que conduz tanto ao luxo excessivo como a pr&aacute;ticas anticoncepcionais; o pedantismo das cultas e o uso obsessivo do grego; o exerc&iacute;cio das armas, sobretudo por trazer vergonha ao marido, etc. Acima de todos os defeitos – com a excep&ccedil;&atilde;o da conspira&ccedil;&atilde;o para matar o marido… –, est&aacute; a riqueza, pois gra&ccedil;as a ela “nil non permittit mulier sibi, turpe putat nil” – “n&atilde;o h&aacute; nada que ela n&atilde;o se permita, nada que considere torpe” (VI, 457) (tradu&ccedil;&atilde;o minha). </p>      <p>Se este desabafo &eacute; compreens&iacute;vel por revelar a irrita&ccedil;&atilde;o de um Cat&atilde;o, o Censor, do s&eacute;culo II perante o processo que levou muitas mulheres a libertarem-se do controlo dos tutores e a usufruir da riqueza e do poder que esta confere, n&atilde;o deixa de ser surpreendente que, como j&aacute; foi acima referido, o poeta tamb&eacute;m critique as mulheres que n&atilde;o t&ecirc;m nenhum dos defeitos mencionados ao longo da s&aacute;tira: as Corn&eacute;lias<sup><a href="#20" name="top20">[20]</a></sup>, mulheres belas, cultas, f&eacute;rteis e nobres, mas por isso mesmo altivas, que inferiorizam o marido; e as absolutamente perfeitas, as tais <i>aves</i> <i>rarae</i>, insuport&aacute;veis pela sua superioridade – “quis feret uxorem cui constant omnia?” (VI, 166). Juvenal afigura-se, portanto, como um exemplo can&oacute;nico da defini&ccedil;&atilde;o dada por C&iacute;cero da <i>aegrotatio</i> <i>animi</i> da misoginia: v&ecirc; a mulher como uma amea&ccedil;a, a quem odeia e de quem foge.</p>      <p><b>As filhas de Eva e Pandora</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Falar da mulher no Cristianismo &eacute; falar de Eva e da exegese minuciosa das poucas linhas dos cap&iacute;tulos 2 e 3 do <i>G&eacute;nesis</i> em que a m&atilde;e da humanidade aparece. &Eacute; a Virgem Maria que de algum modo redime e compensa o alegado crime de Eva. Todavia, tal n&atilde;o foi suficiente para perdoar e esquecer. </p>      <p>A palavra escolhida e a sua interpreta&ccedil;&atilde;o constituem o centro de tudo no <i>G&eacute;nesis</i>, e os coment&aacute;rios, nem sempre concordantes, de exegetas judeus helenizados como F&iacute;lon de Alexandria, e dos grandes te&oacute;logos dos primeiros s&eacute;culos do Cristianismo – Santo Agostinho, St&ordm; Ambr&oacute;sio e S&atilde;o Paulo, mas tamb&eacute;m Tertuliano e S&atilde;o Jer&oacute;nimo, entre muitos – influenciar&atilde;o toda a Idade M&eacute;dia, e muito al&eacute;m.</p>      <p>Narrativa hebraica de origens profundas na regi&atilde;o mesopot&acirc;mica, o <i>Genesis </i>apresentava duas vers&otilde;es da cria&ccedil;&atilde;o. A vers&atilde;o <i>iavista</i> foi a preferida pelos primeiros exegetas e apresenta uma vis&atilde;o muito hierarquizada que, em conformidade com a sociedade do tempo, destaca o homem. Ad&atilde;o &eacute; criado primeiro e tem igualmente a primazia no uso da palavra: &eacute; ele, o <i>nomoteta</i>, que nomeia todos os seres criados por Deus, e que nomear&aacute; a primeira mulher. A prioridade cronol&oacute;gica de Ad&atilde;o torna desde logo a mulher secund&aacute;ria; al&eacute;m disso, ele &eacute; que foi criado &agrave; imagem – <i>imago</i> – de Deus, sendo por isso a subst&acirc;ncia, de natureza essencial. V&aacute;rios exegetas atribuem &agrave; mulher apenas a semelhan&ccedil;a – <i>similitudo</i> – por ter sido retirada da costela de Ad&atilde;o; ela &eacute; uma deriva&ccedil;&atilde;o da subst&acirc;ncia, um acidente, associada &agrave; divis&atilde;o, &agrave; diferen&ccedil;a, &agrave; degrada&ccedil;&atilde;o. Ad&atilde;o &eacute; o esp&iacute;rito, Eva a mat&eacute;ria, a carne, a apar&ecirc;ncia sedutora e enganadora dos sentidos – em linha com Plat&atilde;o mas tamb&eacute;m com a Pandora de Hes&iacute;odo. As diferen&ccedil;as na cria&ccedil;&atilde;o de homem e mulher levam, por exemplo, F&iacute;lon de Alexandria a consider&aacute;-la – talvez com influ&ecirc;ncia do mesmo mito – uma outra ra&ccedil;a. Todavia, contrariamente a Pandora, Eva &eacute; uma necessidade de Ad&atilde;o, a ajudante – mais um tra&ccedil;o subalternizante – que ele e Deus consideravam imprescind&iacute;vel. </p>      <p>Se o contexto da cria&ccedil;&atilde;o j&aacute; tornava Eva inferior a Ad&atilde;o, o seu papel na tenta&ccedil;&atilde;o da serpente torn&aacute;-la-&aacute; respons&aacute;vel pelo pecado – uma novidade que vai muito al&eacute;m do horizonte pag&atilde;o de Pandora – que expulsou a humanidade do &Eacute;den e a submeteu a todas as desgra&ccedil;as (o que, para St&ordm; Ambr&oacute;sio, nem foi t&atilde;o negativo assim…). A serpente escolheu-a por interlocutora – o que a tornou <i>instrumentum diaboli</i> – por saber que era o elo mais fraco. </p>      <p>A tradi&ccedil;&atilde;o exeg&eacute;tica fez at&eacute; h&aacute; n&atilde;o muito transparecer a ideia de que Ad&atilde;o n&atilde;o estava presente e fora v&iacute;tima inocente da sedu&ccedil;&atilde;o de Eva. Na realidade ele assistiu, passivamente, ao di&aacute;logo em que Eva menciona &agrave; serpente a interdi&ccedil;&atilde;o enunciada por Deus ao consumo dos frutos da &aacute;rvore e, satisfeita a raz&atilde;o com a resposta e recebendo dos seus sentidos a certeza da bela apar&ecirc;ncia e comestibilidade do fruto, colheu, comeu e deu a Ad&atilde;o. Ali&aacute;s, a descoberta da nudez ocorre em simult&acirc;neo, e &eacute; em conjunto que tentam remediar a situa&ccedil;&atilde;o. </p>      <p>O rid&iacute;culo da atitude de Ad&atilde;o – qual segundo Epimeteu, que depois, pateticamente, se auto-vitimiza – n&atilde;o escapou, por exemplo, a St&ordm; Agostinho. Tamb&eacute;m S&atilde;o Paulo, ressalvando que fora a mulher a tomar a iniciativa, responsabiliza o casal pelo pecado.<sup><a href="#21" name="top21">[21]</a></sup> A tradi&ccedil;&atilde;o interpretativa, de forma simplificadora, coloca sobre Eva o peso da culpa: a sua curiosidade soberba causou a perdi&ccedil;&atilde;o da humanidade. Como no mito de Pandora, o castigo vem em forma de dor, mas sobretudo pela sujei&ccedil;&atilde;o da mulher ao homem. </p>      <p>Apesar de j&aacute; se terem notado nesta breve exposi&ccedil;&atilde;o diferen&ccedil;as claras, as semelhan&ccedil;as com o mito de Pandora s&atilde;o irresist&iacute;veis: o peso do prest&iacute;gio dos moralistas pag&atilde;os e das suas palavras lapidares tamb&eacute;m o eram. Com efeito, o Helenismo, que com Alexandre Magno levou a cultura grega ao Egito e &agrave; &Aacute;sia, permeou a cultura judaica na di&aacute;spora tal como depois a crist&atilde;, e a misoginia hel&eacute;nica acentuou o pendor tradicional judaico, tendo o mito de Pandora encarnado e catalisado a ideia da mulher como armadilha sedutora e mortal (<i>Ecclesiastes</i> 7:26).<sup><a href="#22" name="top22">[22]</a></sup> A misoginia hebraica, ainda hoje vis&iacute;vel nos grupos fundamentalistas e no passado exemplificada pelos Ess&eacute;nios, tem a sua base em v&aacute;rios livros da B&iacute;blia, nomeadamente os influentes Sapienciais, como <i>Prov&eacute;rbios</i> e <i>Eclesiastes</i>, que por sua vez parecem revelar o influxo hel&eacute;nico (Phipps 1988: 39). </p>      <p>No lado crist&atilde;o, a influ&ecirc;ncia do mito de Pandora &eacute; t&atilde;o profunda que autores como Dora e Erwin Panofsky defendem que "The Fathers of the church are more important for the transmission – and transformation – of the myth of Pandora than the secular writers; in an attempt to corroborate the doctrine of original sin by a classical parallel, yet to oppose Christian truth to pagan fable, they likened her to Eve." (Phipps 1988: 42).</p>      <p>Caso exemplar &eacute; Tertuliano, que chega a apontar no <i>De corona</i> <i>Militis</i> (7, 3), que a grande diferen&ccedil;a entre Pandora e Eva – para al&eacute;m de a primeira ser um mito…– residia no local onde eram postos os ramos: na cabe&ccedil;a em Pandora, a tapar as <i>pudenda</i> em Eva. </p>     <blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se realmente houve um Pandora, a quem Hes&iacute;odo menciona como a primeira das mulheres, a cabe&ccedil;a dela foi a primeira a ser coroada pelas Gra&ccedil;as, quando recebeu presentes de todos os deuses, donde o nome de Pandora. Mas Mois&eacute;s, um profeta, n&atilde;o um poeta-pastor, descreve-nos Eva, a primeira mulher, como tendo as suas vergonhas mais naturalmente cingidas com folhas do que as t&ecirc;mporas com flores. Pandora, portanto, n&atilde;o existiu. <i>(De Corona Militis</i> 7, 3).<sup><a href="#23" name="top23">[23]</a></sup></p> </blockquote>     <p>A f&uacute;ria mis&oacute;gina de Tertuliano atinge o seu cl&iacute;max em textos como o <i>De cultu feminarum</i>, que pretende regular o comportamento e apar&ecirc;ncia das filhas de Eva e de que se reproduz <i>infra</i> um excerto em latim, para melhor se apreciar o efeito trovejante das repeti&ccedil;&otilde;es e alitera&ccedil;&otilde;es: </p>     <blockquote>     <p>Et Euam te esse nescis? (2) Viuit sententia Dei super sexum istum in hoc saeculo: uiuat et reatus necesse est. Tu es diaboli ianua; tu es arboris illius resignatrix; tu es diuinae legis prima desertrix; tu es quae eum suasisti, quem diabolus aggredi non ualuit; tu imaginem Dei, hominem, tam facile elisisti; propter tuum meritum, id est mortem, etiam filius Dei mori habuit. (Tertullien, <i>De l'ornement des femmes</i>, livre I, 1-2)<sup><a href="#24" name="top24">[24]</a></sup> </p> </blockquote>     <p>Tertuliano n&atilde;o admite a remiss&atilde;o da alegada culpa de Eva e afirma a inoc&ecirc;ncia do homem, cuja for&ccedil;a de car&aacute;cter levou o Diabo a optar por abordar o elo mais fraco. Ela seduziu o indefeso homem, traindo-o e actuando como <i>instrumentum diaboli</i>. Al&eacute;m de acusar Eva – e todas as mulheres – de terem cometido o primeiro pecado, desertando da lei divina – e a deser&ccedil;&atilde;o era crime capital –, Tertuliano vai muito mais longe: acusa a mulher de ser a causa da morte de Jesus Cristo. </p>      <p>Apesar de ser um texto mais voltado para o cristianismo, Tertuliano glosa de algum modo o mito forjado por Hes&iacute;odo: as met&aacute;foras iniciais, com a porta e o selo, apresentam semelhan&ccedil;as claras com a abertura da tampa do recipiente (<i>pithos</i>) de Pandora. Mas o que impressiona mais nesta diatribe &eacute; a viol&ecirc;ncia do ataque &agrave; mulher, cujos ecos soar&atilde;o ao longo dos tempos, ajudando a fixar palavras e linhas de pensamento.</p>      <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>      <p>O Cristianismo dos finais do Imp&eacute;rio Romano do Ocidente tornou-se o ponto de converg&ecirc;ncia de tradi&ccedil;&otilde;es que partilham o pensamento mis&oacute;gino, potenciando-se mutuamente gra&ccedil;as ao peso da heran&ccedil;a cl&aacute;ssica na experi&ecirc;ncia dos apologetas e Doutores da Igreja, quase todos retores de forma&ccedil;&atilde;o. A fortuna de que gozaram durante s&eacute;culos autores como Ov&iacute;dio, Virg&iacute;lio, Juvenal e S&eacute;neca – para n&atilde;o falar dos gregos, dependentes da transmiss&atilde;o latino-crist&atilde; devido &agrave; ignor&acirc;ncia generalizada da l&iacute;ngua –, foi ajudada pelos pr&oacute;prios Doutores, que os citavam nos seus escritos, buscando assim apoio na sua <i>auctoritas</i> de mil&eacute;nios, mas reciprocamente credibilizando e eternizando o seu verbo lapidar. </p>      <p>&Eacute; assim que vemos S&atilde;o Jer&oacute;nimo, um cr&iacute;tico feroz da mulher, a quem chama “mais amarga que a morte”, “armadilha em que se deixa prender o pecador”, “o princ&iacute;pio de todos os males” atrav&eacute;s do qual “a morte entrou neste mundo”, captora das “almas preciosas dos homens”, citar o famoso “varium et mutabile semper femina” virgiliano lado-a-lado com os livros sapienciais da B&iacute;blia (D’Alverny 1977: 110).</p>      <p>A palavra escrita e a sua exegese foram marcantes na continuidade de ideias e f&oacute;rmulas negativas sobre a mulher, a que a heran&ccedil;a cultural deu maior fundamento. Mas a sua perviv&ecirc;ncia &eacute; indissoci&aacute;vel da influ&ecirc;ncia do contexto dos tempos e das sociedades humanas, onde a desvaloriza&ccedil;&atilde;o e o vitup&eacute;rio da mulher t&ecirc;m sido dominantes e por vezes atingem a dimens&atilde;o da misoginia – que a mesma heran&ccedil;a cl&aacute;ssica apontou como <i>aegrotatio</i> <i>animi</i>. Do mesmo modo, a heran&ccedil;a do Cristianismo nascente apresenta avan&ccedil;os na condi&ccedil;&atilde;o da mulher, reconhecendo pelo menos a sua igualdade espiritual (D’Alverny 1977:108). O &acirc;mbito individual &eacute; de facto de grande relev&acirc;ncia: <i>opinion makers</i> como Juvenal e Tertuliano – que na parte final da vida se tornou her&eacute;tico –, afectados de misoginia profunda, acabaram por ter um peso muito superior que pensadores como Plutarco devido ao que agora se chama <i>soundbyte</i>, entrando com muita facilidade na “cultura popular” da Idade M&eacute;dia.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>BRASETE, Maria Fernanda (2005), “Sem&oacute;nides de Amorgos, fr.7”, in <i>&Aacute;gora. Estudos Cl&aacute;ssicos em Debate</i> 7 (2005), pp. 153-162. <a href="http://www2.dlc.ua.pt/classicos/Amorgos.pdf" target="_blank">http://www2.dlc.ua.pt/classicos/Amorgos.pdf</a>, consultado em 12 de novembro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000115&pid=S0807-8967201200020002800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>BURNS, Jasper (2007), <i>Great Women of Imperial Rome, Mothers and Wives of the Caesars</i>. New York and London: Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000117&pid=S0807-8967201200020002800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>CIC&Eacute;RON (1931), <i>Tusculanes</i>, t. II (III-V). Texte &eacute;tabli par G. Foohlen et traduit par J. Humbert. Paris : Les Belles Lettres.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000119&pid=S0807-8967201200020002800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>CIC&Eacute;RON (1946), <i>Pour L. Mur&eacute;na- pour P. Sylla</i>, Texte &eacute;tabli et trad. par Andr&eacute; Boulanger. Paris : Les Belles Lettres.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000121&pid=S0807-8967201200020002800004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>D’ALVERNY, Marie Th&eacute;r&eacute;se (1977), “Comment les th&eacute;ologiens et les philosophes voient la femme”, In: Cahiers de civilisation m&eacute;di&eacute;vale, 20e ann&eacute;e (n&deg;78-79), avril-septembre 1977. pp. 105-129, consultado apud <i>Pers&eacute;e</i>, <a href="http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/ccmed_0007-9731_1977_num_20_78_3067?luceneQuery=%28%28content%3AALVERNY" target="_blank">http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/ccmed_0007-9731_1977_num_20_78_3067?luceneQuery=%28%28content%3AALVERNY</a>, consultado em 4 de novembro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000123&pid=S0807-8967201200020002800005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>EUR&Iacute;PIDES (s.d.), <i>Medeia</i>, tradu&ccedil;&atilde;o de Cabral Nascimento. Lisboa: Cl&aacute;ssicos Inqu&eacute;rito.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000125&pid=S0807-8967201200020002800006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><i>Elegy and Iambus with the Anacreontea</i> II (1954), ed. and trans. by J.M. Edmonds. Cambridge, (Massachusetts). London: Harvard University Press, William Heineman Ltd.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000127&pid=S0807-8967201200020002800007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p><i>Fragmenta Comicorum Graecorum</i> (1839-1857=, ed. Meineke, 5 vol. Berlin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000129&pid=S0807-8967201200020002800008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Flaceli&egrave;re, R. (1971), “Le f&eacute;minisme dans l'ancienne Ath&egrave;nes”, In: Comptes-rendus des s&eacute;ances de l'Acad&eacute;mie des Inscriptions et Belles-Lettres, 115e ann&eacute;e, N. 4, pp. 698-706.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000131&pid=S0807-8967201200020002800009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>HES&Iacute;ODO (2005), <i>Teogonia</i>, <i>Trabalhos</i> <i>e Dias</i>, trad. e notas de Ana Elias Pinheiro e Jos&eacute; Ribeiro Ferreira. Lisboa: Biblioteca de Autores Cl&aacute;ssicos.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000133&pid=S0807-8967201200020002800010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>JUST, Roger (1991), <i>Women in Athenian Law and Life</i>. New York and London: Routledge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000135&pid=S0807-8967201200020002800011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Juvenal (1950), <i>Satura VI</i>. Texte &eacute;tabli et traduit par P. Labriolle et F. Villeneuve, 4<sup>e</sup>. &eacute;d. revue et corrig&eacute;e. Paris: Les Belles Lettres.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000137&pid=S0807-8967201200020002800012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>KING, K. Callen (1987), <i>Achilles. Paradigms of the war hero from Homer to the Middle Ages</i>. Berkeley, Los Angeles, Oxford: University of California Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000139&pid=S0807-8967201200020002800013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Lewis, Naphtali, and Reinhold, Meyer (eds.) (2000), <i>Roman Civilization, Selected Readings</i>, II vols., 3<sup>rd</sup>. ed. New York: Columbia University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000141&pid=S0807-8967201200020002800014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Ovide, <i>L'Art d'aimer</i>. Consultado apud <i>Itinera Electronica</i>,  <a href="http://agoraclass.fltr.ucl.ac.be/concordances/Ovide_artI/lecture/default.htm" target="_blank">http://agoraclass.fltr.ucl.ac.be/concordances/Ovide_artI/lecture/default.htm</a>, consultado em 5 de novembro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000143&pid=S0807-8967201200020002800015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Phipps,William E. (1988), “Eve and Pandora Contrasted”, in <i>Theology Today</i>,April 1988 vol. 45 no. 1, pp. 34-48.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000145&pid=S0807-8967201200020002800016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Philonenko, Marc (1991), “Les Oxymores de Secundus”, in Comptes-rendus des s&eacute;ances de L’Academie des Inscriptions et Belles-Lettres, 135e ann&eacute;e, N.2, pp. 373-389, consultado apud <i>Pers&eacute;e</i> <a href="http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/crai_0065-0536_1991_num_135_2_14985?luceneQuery=%28%2B%28content%3APHILONENKO" target="_blank">http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/crai_0065-0536_1991_num_135_2_14985?luceneQuery=%28%2B%28content%3APHILONENKO</a>, em 5 de novembro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000147&pid=S0807-8967201200020002800017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>PLUTARQUE (2002), <i>Oeuvres Morales</i>, Tome IV, texte &eacute;tabli et traduit par J. Boulogne. Paris: Les Belles Lettres.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000149&pid=S0807-8967201200020002800018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>RATTI, St&eacute;phane (1996), “Le Viol de Chiomara: sur la signification de Tite-Live 38, 24”. <i>Dialogues d’histoire ancienne</i>, vol 22, n&ordm; 1, pp. 95-131, consultado apud <i>Pers&eacute;e</i>, <a href="http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/crai_0065-0536_1991_num_135_2_14985?_Prescripts_Search_tabs1=standard&amp;" target="_blank">http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/crai_0065-0536_1991_num_135_2_14985?_Prescripts_Search_tabs1=standard&amp;</a>, em 4 de novembro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000151&pid=S0807-8967201200020002800019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>S&eacute;n&egrave;que, <i>Consolation &agrave; Helvie</i>. Consultado apud <i>Itinera Electronica</i>,  <a href="http://agoraclass.fltr.ucl.ac.be/concordances/sen_consol_helvie/" target="_blank">http://agoraclass.fltr.ucl.ac.be/concordances/sen_consol_helvie/</a>, em 6 de novembro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000153&pid=S0807-8967201200020002800020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>TERTULIANO<i>, De la couronne du soldat,</i> consultado apud <i>Itinera Electronica</i>,  <a href="http://agoraclass.fltr.ucl.ac.be/concordances/tertullien_cor_militis/lecture/1.htm" target="_blank">http://agoraclass.fltr.ucl.ac.be/concordances/tertullien_cor_militis/lecture/1.htm</a>em 10 de novembro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000155&pid=S0807-8967201200020002800021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>TERTULIANO<i>, De l'ornement des femmes</i>.Consultado apud <i>Itinera Electronica</i>, <a href="http://agoraclass.fltr.ucl.ac.be/concordances/tertullien_fem_01/lecture/1.htm" target="_blank">http://agoraclass.fltr.ucl.ac.be/concordances/tertullien_fem_01/lecture/1.htm</a> em 6 de novembro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000157&pid=S0807-8967201200020002800022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Veyne, Paul (1978), “La famille et l’amour sous le Haut-Empire romain”. <i>Annales. &Eacute;conomies, Soci&eacute;t&eacute;s, Civilizations</i>, 33e ann&eacute;e, n&ordm;1, pp. 35-63, consultado apud <i>Pers&eacute;e</i>, <a href="http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/ahess_0395-2649_1978_num_33_1_293904?luceneQuery=%28%2B%28content%3AVEYNE" target="_blank">http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/ahess_0395-2649_1978_num_33_1_293904?luceneQuery=%28%2B%28content%3AVEYNE</a>, em 4 de novembro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000159&pid=S0807-8967201200020002800023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top1" name="1">[1]</a></sup> Adaptado de uma comunica&ccedil;&atilde;o apresentada em 6 de Junho de 2012, no &acirc;mbito das “Tardes Cl&aacute;ssicas”, na Universidade do Minho.</p>      <p><sup><a href="#top2" name="2">[2]</a></sup> Trata-se de um tema de grande e longa discuss&atilde;o at&eacute; aos dias de hoje. A este prop&oacute;sito, n&atilde;o deixa de ser interessante o epis&oacute;dio narrado por Ateneu de N&aacute;ucratis, j&aacute; no s&eacute;c. III da nossa era, no <i>Deipnosophistae</i> (livro XIII, 5), segundo o qual S&oacute;focles, quando confrontado com a acusa&ccedil;&atilde;o de misoginia feita a Eur&iacute;pides, sublinhou a incoer&ecirc;ncia desta atitude com o comportamento privado do dramaturgo. </p>      <p><sup><a href="#top3" name="3">[3]</a></sup> “Por outro lado, &eacute; o medo que faz nascer em n&oacute;s as avers&otilde;es opostas a estas tend&ecirc;ncias [as paix&otilde;es excessivas por algo]. Por exemplo o &oacute;dio &agrave;s mulheres, como se v&ecirc; na <i>Misoginia</i> de At&iacute;lio; o &oacute;dio ao g&eacute;nero humano, qual se atribui a T&iacute;mon, o misantropo; o afastamento dos deveres de hospitalidade. Todas estas avers&otilde;es, que s&atilde;o tamb&eacute;m doen&ccedil;as da alma, v&ecirc;m de um certo medo que se tem das coisas de que se foge e a que se odeia” (tradu&ccedil;&atilde;o minha).</p>      <p><sup><a href="#top4" name="4">[4]</a></sup> N&atilde;o deixa de ser ir&oacute;nico que a tradi&ccedil;&atilde;o registe que o poeta mis&oacute;gino morreu assassinado por ter seduzido uma mulher.</p>      <p><sup><a href="#top5" name="5">[5]</a></sup> Utiliza-se a tradu&ccedil;&atilde;o de <i>Os trabalhos e os dias</i> e da <i>Teogonia</i> de Ana Elias Pinheiro e Jos&eacute; Ribeiro Ferreira (2005).</p>      <p><sup><a href="#top6" name="6">[6]</a></sup> A Esparta p&oacute;s-conquista da Mess&eacute;nia &eacute; uma excep&ccedil;&atilde;o consabida.</p>      <p><sup><a href="#top7" name="7">[7]</a></sup> H&aacute; no entanto quem interprete o texto como ir&oacute;nico, visto a fam&iacute;lia de Isc&oacute;maco ser, aparentemente, bastante escandalosa.</p>      <p><sup><a href="#top8" name="8">[8]</a></sup> &Eacute; essa a opini&atilde;o de Pl&iacute;nio, o Jovem, no <i>Panegyricus</i>, 83, 8.</p>      <p><sup><a href="#top9" name="9">[9]</a></sup> S&oacute;crates afirma que a natureza da mulher n&atilde;o &eacute; em nada inferior &agrave; do homem, com a excep&ccedil;&atilde;o do discernimento e da for&ccedil;a. Mas S&oacute;crates refere-se ao discernimento que se apoia no saber de experi&ecirc;ncia e educa&ccedil;&atilde;o, algo a que as gregas naturalmente n&atilde;o podiam almejar, dada a sua reclus&atilde;o e pouca instru&ccedil;&atilde;o; a intelig&ecirc;ncia – &#963;&#973;&#957;&#949;&#963;&#953;&#962; – &eacute; para ele inata. (Plutarque 2002: 10).</p>      <p><sup><a href="#top10" name="10">[10]</a></sup> Ant&iacute;stenes, fundador da escola c&iacute;nica, proclama que a virtude (&#940;&#961;&#949;&#964;&#942;) do homem e da mulher s&atilde;o a mesma; &Eacute;squines de Sphettos, no seu di&aacute;logo <i>Asp&aacute;sia</i>, sup&otilde;e admitido o princ&iacute;pio da igualdade moral dos sexos e da identidade das virtudes femininas e masculinas. (Plutarque 2002: 10).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top11" name="11">[11]</a></sup> Eur&iacute;pides caracteriza-a sistematicamente como tal.</p>      <p><sup><a href="#top12" name="12">[12]</a></sup> Al&eacute;m de declara&ccedil;&otilde;es como esta, a monstruosidade assassina da Medeia de Eur&iacute;pides indignou muitos atenienses e cimentou a j&aacute; aludida reputa&ccedil;&atilde;o mis&oacute;gina do tragedi&oacute;grafo. Creio que &eacute; clara a ambival&ecirc;ncia do autor.</p>      <p><sup><a href="#top13" name="13">[13]</a></sup> “Toutes estes, ser&eacute;s, ou futes,/ De fait ou de volent&eacute; putes” (<i>Roman de la Rose</i>, vv. 9489-9490).</p>      <p><sup><a href="#top14" name="14">[14]</a></sup> Este decreto fora promulgado em 215 a. C., no auge da Segunda Guerra P&uacute;nica, quando os recursos financeiros e humanos de Roma estavam quase arruinados, e impusera um controlo muito apertado do luxo das mulheres. Curiosamente, abrangia tamb&eacute;m o n&uacute;mero de cavalos que os carros das mulheres podiam ter… Vinte anos depois, com a Urbe enriquecida pelo imenso saque de Cartago, todos, das crian&ccedil;as aos cavalos, podiam usar ornamentos mais luxuosos do que as mulheres (<i>Ab Vrbe Condita</i>, XXIV, 1, 6). Mais do que a lei em si, o que assustou Cat&atilde;o foi a capacidade de mobiliza&ccedil;&atilde;o e press&atilde;o das mulheres, que usaram todos os recursos dos pol&iacute;ticos masculinos, passando por cima da autoridade dos maridos e at&eacute; da vergonha de se exporem publicamente que era suposto terem: “matronae nulla nec auctoritate nec uerecundia nec imperio uirorum contineri limine poterant” (Ab Vrbe Condita, XXIV, 1, 5).</p>      <p><sup><a href="#top15" name="15">[15]</a></sup> Recorde-se, no sentido oposto, o famoso “Ille potens sui” horaciano (<i>Odae</i> III,29,41): o que tem controlo total sobre si.</p>      <p><sup><a href="#top16" name="16">[16]</a></sup> Algumas imperatrizes, como L&iacute;via Drusila ou as famosas J&uacute;lias s&iacute;rias dos Severos, usufru&iacute;ram de t&iacute;tulos e poderes not&aacute;veis.</p>      <p><sup><a href="#top17" name="17">[17]</a></sup> “Paulina nostri pectoris consortio/ fomes pudoris castitatis vinculum/ amorque purus et fides caelo sata / arcana mentis cui reclusa credidi/ munus deorum qui maritalem torum / nectunt amicis et pudicis nexibus”. Tradu&ccedil;&atilde;o minha.</p>      <p><sup><a href="#top18" name="18">[18]</a></sup> “Que venha &agrave; tua mente esta primeira certeza: todas podem ser vencidas; apanh&aacute;-las-&aacute;s, estende apenas os teus la&ccedil;os. (…). Se sois s&aacute;bios, brincai apenas com as jovens raparigas: podeis faz&ecirc;-lo impunemente. Isso &eacute; menos que um engano, desde que guardeis a boa f&eacute; nas outras coisas. Enganai as enganadoras. As mulheres, na sua maioria, s&atilde;o uma ra&ccedil;a p&eacute;rfida: que caiam nas armadilhas que elas mesmas puseram.” (tradu&ccedil;&atilde;o minha).</p>      <p><sup><a href="#top19" name="19">[19]</a></sup> Entre os textos influenciados por Ov&iacute;dio e Juvenal, recorde-se a continua&ccedil;&atilde;o do <i>Roman de la Rose</i> por Jean de Meung (c. 1275) e as <i>Lamentationes</i> <i>Matheoli</i> de Mathieu de Boulogne (c. 1295), que exemplificam claramente a interpenetra&ccedil;&atilde;o das diatribes homili&eacute;ticas crist&atilde;s com a tradi&ccedil;&atilde;o mis&oacute;gina greco-latina.</p>      <p><sup><a href="#top20" name="20">[20]</a></sup> S&eacute;neca n&atilde;o parece sentir-se t&atilde;o inferiorizado, pois elogia Corn&eacute;lia pela sua const&acirc;ncia face &agrave; dor (<i>Consolatio ad Heluiam matrem</i>, 16,6).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top21" name="21">[21]</a></sup> ”Il est vrai que la femme s'est laiss&eacute;e s&eacute;duire, la premi&egrave;re, et a incit&eacute; Adam &agrave;d&eacute;sob&eacute;ir &agrave; Dieu, mais l'homme a c&eacute;d&eacute; sans r&eacute;sistance, et n'a pas fait usage de sa raison ; ils sont &eacute;galement coupables” (d’Alverny 1977: 110).</p>      <p><sup><a href="#top22" name="22">[22]</a></sup> “The Pandora motif was transferred to the Eve myth in Jewish writing after the era of the Hebrew Bible and before the Christian era. Philo, who absorbed the Hellenistic culture of Alexandria, projects onto the Hebrew Bible alien Greek ideas. His references to the poems of Hesiod show that he must have been acquainted with the Pandora myth. In his commentary on Genesis, woman is singled out as "the beginning of evil." Eve and her daughters are described in this disparaging way: "The woman, being imperfect and depraved by nature, made the beginning of sinning and prevaricating; but the man, being the more excellent and perfect creature, was the first to set the example of blushing and of being ashamed, and indeed of every good feeling and action." (Phipps 1988: 40).</p>      <p><sup><a href="#top23" name="23">[23]</a></sup> “Si fuit aliqua Pandora, quam primam feminarum memorat Hesiodus, hoc primum caput coronatum est a Charitibus, cum ab omnibus muneraretur, unde Pandora. Nobis uero Moyses, propheticus, non poeticus pastor, principem feminam Euam facilius pudenda foliis quam tempora floribus incinctam describit. Nulla ergo Pandora.” </p>      <p><sup><a href="#top24" name="24">[24]</a></sup> “E tu n&atilde;o reconheces que &eacute;s Eva? A senten&ccedil;a de Deus sobre esse sexo vive ainda nos nossos dias: &eacute; necess&aacute;rio que a condena&ccedil;&atilde;o viva. Tu &eacute;s a porta do diabo; tu &eacute;s a que tirou o selo daquela &aacute;rvore proibida: tu &eacute;s a primeira desertora da lei divina; to a que o persuadiu a ele [Ad&atilde;o] a quem o diabo n&atilde;o era suficientemente valente para atacar. Tu destru&iacute;ste t&atilde;o facilmente a imagem de Deus – o homem. Devido ao teu acto – a morte – at&eacute; o Filho de Deus teve de morrer.” (tradu&ccedil;&atilde;o minha)</p>       ]]></body><back>
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