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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Identidade e literatura: O Eu, o Outro, o Há]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The main issue (dealt with from a theoretical point of view and with reference to three paradigmatic examples): the almost compelling impulse of creators to say “I am the Other/I am Others”, that can be explained by the very essence of the creative act. In the more radical cases of identitarian oscillation there are, in the field of literature, different ways out of the “dilemma of the name”. In the work of Fernando Pessoa through dissociation and dramatization of the ‘I’ (thus making of all his work, including the ortonimous one, a heteronymic, or heterographic construction); in the case of Paul Celan through a tragic annulation of the ‘I’, by means of an absolute poetry in which a ‘Id’, the voice of language itself, speaks from the ruins of nameless barbarity; in the work of Maria Gabriela Llansol, through a triple path: the discursive one (the entangled voices of the text); the one of genre (the unique case of autobiography turning out to be a “signography”); and the philosophical one (the leap from the level of the ‘I’ to that of the ‘There is’, from a simultaneously personal/impersonal writing to a form of wiring at a distance from oneself and one’s own name).]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p> <b>Identidade e literatura: O Eu, o Outro, o H&aacute;</b> </p>     <p><b>Identity and literature: The “I”, the OTHER, the “THERE IS”</b></p>     <p><b>Jo&atilde;o Barrento*</b> </p>     <p> *Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas, Lisboa, Portugal </p>      <p><a href="mailto:jobarrento@mail.telepac.pt">jobarrento@mail.telepac.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>     <p> A quest&atilde;o de fundo (abordada de um ponto de vista te&oacute;rico, e com tr&ecirc;s exemplos): o gesto, quase compulsivo, dos criadores para dizer “Eu sou Outro/Outros”, explic&aacute;vel pela pr&oacute;pria natureza desse acto criador. Nos casos mais radicais de oscila&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria, s&atilde;o diversas, na sua rela&ccedil;&atilde;o com a escrita, as “sa&iacute;das” encontradas para o “dilema do nome”. Em Fernando <i>Pessoa</i>, atrav&eacute;s da <i>dissocia&ccedil;&atilde;o e dramatiza&ccedil;&atilde;o do Eu</i> (toda a Obra, incluindo a ort&oacute;nima, &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o heter&oacute;nima, ou heter&oacute;grafa); em Paul <i>Celan</i>, pela <i>anula&ccedil;&atilde;o tr&aacute;gica do Eu</i>, pela via de uma poesia absoluta, em que um Isso, a pr&oacute;pria voz da linguagem, fala a partir das ru&iacute;nas da barb&aacute;rie sem nome; em Maria Gabriela <i>Llansol</i>, por uma tripla via: <i>discursiva</i> (a das vozes do texto); <i>genol&oacute;gica</i> (o caso singular da “autobiografia” transformada em “signografia”); e <i>filos&oacute;fica</i> (o salto do plano do Eu para o do “H&aacute;”, do registo pessoal/impessoal para a escrita &agrave; dist&acirc;ncia de si e do nome).</p>     <p><b>Palavras-chave</b>: Identidade-alteridade; representa&ccedil;&atilde;o-autorrepresenta&ccedil;&atilde;o; Fernando Pessoa, Paul Celan; Maria Gabriela Llansol </p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>ABSTRACT</b> </p>     <p> The main issue (dealt with from a theoretical point of view and with reference to three paradigmatic examples): the almost compelling impulse of creators to say “I am the Other/I am Others”, that can be explained by the very essence of the creative act. In the more radical cases of identitarian oscillation there are, in the field of literature, different ways out of the “dilemma of the name”. In the work of Fernando<i> Pessoa</i> through <i>dissociation and dramatization</i> of the ‘I’ (thus making of all his work, including the ortonimous one, a heteronymic, or heterographic construction); in the case of Paul <i>Celan</i> through <i>a tragic annulation of the ‘I’</i>, by means of an absolute poetry in which a ‘Id’, the voice of language itself, speaks from the ruins of nameless barbarity; in the work of Maria Gabriela<i> Llansol</i>, through a triple path: the <i>discursive </i>one (the entangled voices of the text); the one of <i>genre</i> (the unique case of autobiography turning out to be a “signography”); and the<i> philosophical</i> one (the leap from the level of the ‘I’ to that of the ‘There is’, from a simultaneously personal/impersonal writing to a form of wiring at a distance from oneself and one’s own name).</p>     <p><b>Keywords</b>: Identity-alterity; representation and self-representation; Fernando Pessoa, Paul Celan; Maria Gabriela Llansol </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Tentemos um primeiro esbo&ccedil;o de resumo dos problemas a tratar. Leio na capa do “&Iacute;psilon” (suplemento do <i>P&uacute;blico</i>) de 15 de Abril de 2011: “O meu nome &eacute; Philip Roth e escrevo livros”! Tipicamente americano (&eacute; evidente o eco de John Ford), este gesto de se autonomear e, com alguma ingenuidade, atribuir a esse “nome pr&oacute;prio” a escrita de livros. Na Europa, o nome e a sua liga&ccedil;&atilde;o directa &agrave; escrita foi sempre muito mais problem&aacute;tico, que o mesmo &eacute; dizer, a quest&atilde;o da <i>identidade</i> foi sempre um <i>problema</i> – etimologicamente: um promont&oacute;rio a ultrapassar, algo que &eacute; lan&ccedil;ado para al&eacute;m de si e nos pode lan&ccedil;ar para al&eacute;m de n&oacute;s.</p>      <p>O problema da identidade e a identidade como problema est&atilde;o presentes na literatura europeia desde muito cedo (e j&aacute; na forma antiga do “di&aacute;logo”, que, na filosofia ou na literatura, atenua desde logo a afirma&ccedil;&atilde;o excessiva do Eu, ao desdobr&aacute;-lo em <i>personae</i>, e situando-o em contexto dial&oacute;gico): encontramo-lo no uso do pseud&oacute;nimo ou do nome liter&aacute;rio desde os Cancioneiros medievais; em formas “dramatizadas” como o chamado <i>Rollengedicht</i> alem&atilde;o do s&eacute;culo XVIII, em que o poeta se esconde por detr&aacute;s de uma ou mais personagens; no jogo das m&aacute;scaras e da impessoalidade em todos os momentos pr&eacute;-modernos do s&eacute;culo XIX, dos Romantismos (o alem&atilde;o e o ingl&ecirc;s, em particular com H&ouml;lderlin e Keats) aos poetas que mais explicitamente preparam e antecipam a modernidade, ou j&aacute; a constituem: Baudelaire, Rimbaud e Mallarm&eacute;, mas tamb&eacute;m Robert Browning e os seus “mon&oacute;logos dram&aacute;ticos”<sup><a href="#1" name="top1">[1]</a></sup>; e, naturalmente, na maior parte dos autores dos Modernismos, Val&eacute;ry ou Eliot, Gottfried Benn ou Pessoa, para s&oacute; mencionar alguns, e poetas. </p>      <p>No mesmo dia e no mesmo jornal – e destaco este caso pelo contraste radical com o americano Philip Roth –, o escultor portugu&ecirc;s Rui Chafes, que na sua &aacute;rea espec&iacute;fica se alimenta exemplarmente de algumas daquelas tradi&ccedil;&otilde;es, instado a falar de si e da “sua” Obra, assume um gesto, mais europeu, de “pudor” de si e do nome, falando exclusivamente atrav&eacute;s daqueles que o formaram (que constituiram a sua identidade art&iacute;stica, e s&atilde;o parte intr&iacute;nseca dela), a come&ccedil;ar por um dos seus mestres maiores, o escultor alem&atilde;o Tilman Riemenschneider. Rui Chafes come&ccedil;a por afirmar: “Nasci em 1266 numa pequena aldeia que j&aacute; n&atilde;o existe, na Franc&oacute;nia, Baviera...”, e nunca sair&aacute; deste registo distanciado.</p>      <p>A partir destes dois exemplos podemos colocar a quest&atilde;o de fundo, que abordaremos em primeiro lugar de um ponto de vista te&oacute;rico, e depois documentaremos com tr&ecirc;s exemplos bem diferentes. Este gesto, quase compulsivo, dos criadores para dizer: “Eu sou Outro/Outros” explicar-se-&aacute; talvez pela pr&oacute;pria natureza desse acto criador: nada nasce apenas a partir de um Eu (emp&iacute;rico ou transcendental), o processo &eacute; sempre mais complexo. Nenhum Eu se constitui sem um Outro, a identidade s&oacute; &eacute; compreens&iacute;vel em rela&ccedil;&atilde;o com uma, ou v&aacute;rias, alteridades. Isto &eacute; sabido h&aacute; bastante tempo, e hoje pac&iacute;fico.</p>      <p>Mas, no caso da literatura, a vertente espec&iacute;fica do problema &eacute; desde logo determinada por um aspecto particular, que tem a ver com <i>a media&ccedil;&atilde;o da linguagem verbal</i>. “N&atilde;o temos a linguagem, &eacute; ela que nos tem a n&oacute;s” (Karl Kraus); “N&atilde;o meu, n&atilde;o meu &eacute; quanto escrevo...” (F. Pessoa); “Eu n&atilde;o sou eu nem sou o outro...” (M&aacute;rio de S&aacute;-Carneiro), etc. Ou seja: h&aacute; um para-al&eacute;m-da-linguagem que o sujeito n&atilde;o controla (o sujeito de escrita, e tamb&eacute;m o de fala: veja-se o final do <i>Tractatus</i> de Wittgenstein). E &eacute; esse <i>al&eacute;m-de</i> que move a escrita. Por isso, sobretudo desde os Romantismos, &eacute; mais forte a consci&ecirc;ncia dos limites, deste estar <i>aqu&eacute;m-de</i> (das capacidades expressivas da linguagem), que afecta necessariamente o sujeito e a sua identidade. Instalam-se formas v&aacute;rias de cepticismo e “perspectivismo” (com especial destaque, e incid&ecirc;ncias liter&aacute;rias, no caso de Nietzsche) e imp&otilde;e-se a ideia da n&atilde;o-coincid&ecirc;ncia do Eu (uma <i>pluralidade</i> de manifesta&ccedil;&otilde;es) consigo e com a linguagem – consigo, isto &eacute;: com o seu <i>si(-mesmo)/Selbst</i>. Mas, que(m) &eacute; esse <i>si(-mesmo)</i>, que n&atilde;o se confunde com o Eu? Uma <i>ess&ecirc;ncia</i> determinante?</p>      <p>A literatura moderna, e alguma contempor&acirc;nea, por&aacute; ent&atilde;o em causa a <i>mesmidade-do-ente</i> que se manifesta no terreno particular do Ser da Literatura, impl&iacute;cita no pr&oacute;prio conceito de <i>id(em)-entidade</i>. Discutiremos isto com a ajuda de alguns fil&oacute;sofos: Heidegger (e a identidade como “co-perten&ccedil;a”), Ricoeur (e a diferen&ccedil;a entre identidade e ipseidade), Levinas (e a no&ccedil;&atilde;o do H&aacute;), Jos&eacute; Gil (e o caso particular de Pessoa). E veremos, com tr&ecirc;s exemplos concretos (de poetas, ou n&atilde;o: Fernando Pessoa, Paul Celan e Maria Gabriela Llansol), como nos casos mais radicais de oscila&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria, de autores nos quais se agudiza a rela&ccedil;&atilde;o com a linguagem enquanto mat&eacute;ria visceral, para l&aacute; das suas fun&ccedil;&otilde;es meramente comunicativas ou representativas, s&atilde;o diversas, na sua rela&ccedil;&atilde;o com a escrita, as “sa&iacute;das” encontradas para o “dilema do nome” (desconhecido da multid&atilde;o daqueles que, na literatura, dizem “Eu” aproblematicamente):</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>a. Em Fernando <b>Pessoa</b>, atrav&eacute;s da <i>dissocia&ccedil;&atilde;o e dramatiza&ccedil;&atilde;o do Eu</i>, que leva a que toda a sua Obra (incluindo a ort&oacute;nima) seja uma constru&ccedil;&atilde;o heter&oacute;nima (ou heter&oacute;grafa);</p>      <p>b. Em Paul <b>Celan</b> (e noutros poetas que escrevem no cone de sombra negra do holocausto, como o russo Ossip Mandelstam, o italiano Primo Levi ou a judia-alem&atilde; Nelly Sachs), pela <i>anula&ccedil;&atilde;o tr&aacute;gica do Eu</i>, rasurado pelo pr&oacute;prio movimento aniquilador da Hist&oacute;ria, mas afirmando-se pela via de uma poesia absoluta, em que um Isso, a pr&oacute;pria voz da linguagem, fala a partir das ru&iacute;nas da barb&aacute;rie sem nome;</p>      <p>c. Em Maria Gabriela <b>Llansol</b>, por uma tripla via: <i>discursiva</i> (a das vozes que falam no seu texto); <i>genol&oacute;gica</i> (a das formas ou g&eacute;neros, particularmente o caso singular da “autobiografia” transformada em “signografia”); e <i>filos&oacute;fica</i>, que implica um salto do plano do Eu para o do “H&aacute;”, do registo pessoal/impessoal para a escrita &agrave; dist&acirc;ncia de si e do nome, fora do social, da Hist&oacute;ria e da mem&oacute;ria pessoal, e perto do Aberto (Rilke) – no espa&ccedil;o do H&aacute; sem Eu, uma esp&eacute;cie de l&iacute;quido amni&oacute;tico ou de murm&uacute;rio do Ser que produz a energia que se liberta no acto de escrita e leva quem escreve para fora-de-si (<i>hors de soi / hors du moi</i>). Maria Velho da Costa colocou um dia a problem&aacute;tica da escrita em Llansol nos seguintes termos: “Tento evitar o tom universalizante do &iacute;ntimo que &eacute; o de Maria Gabriela Llansol”. E Eduardo Prado Coelho, comoentando esta afirma&ccedil;&atilde;o, lan&ccedil;a luz sobre o paradoxo: “suspeito que em Llansol n&atilde;o h&aacute; propriamente ‘universaliza&ccedil;&atilde;o do &iacute;ntimo’; porque o ‘&iacute;ntimo’ j&aacute; &eacute; ‘vivido’ como ‘universal’, foi o pr&oacute;prio sujeito que se ‘universalizou’ por dentro (e a separa&ccedil;&atilde;o dentro/fora deixou de fazer sentido).” (Prado Coelho, 1992: 124-125).</p>      <p><b>1. Auto-retrato / autor-e-trato</b></p>      <p>Ao reunir alguns documentos digitais pertinentes para este tema da auto-representa&ccedil;&atilde;o, da identidade e do auto-retrato, aconteceu-me um lapso de escrita (ou da m&atilde;o) que teria consequ&ecirc;ncias imediatas para a mat&eacute;ria que aqui nos interessa. Em vez de escrever “auto-retrato”, saiu-me “autor-e trato”. Reescrevendo o lapso numa folha em branco, a imagem visual da transforma&ccedil;&atilde;o de auto-retrato em autor-e-trato sugeriu-me de imediato uma s&eacute;rie de aspectos fundamentais para a problem&aacute;tica que nos ocupa, transformando essa folha numa esp&eacute;cie de espelho e de “esquema” do meu pensamento. Vejamos como ficou a folha depois das muitas anota&ccedil;&otilde;es, para depois as comentar:</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="f1"> <img src="/img/revistas/dia/v26n3/26n3a02f1.jpg">     
<p>&nbsp;</p>      <p>O lapso &eacute; revelador do que pode ser qualquer auto-representa&ccedil;&atilde;o ou auto-retrato modernos: aquilo que se entende normalmente por uma representa&ccedil;&atilde;o de si (auto-retrato), desdobrou-se nos dois momentos envolvidos, o <i>agente</i> (autor) e a <i>ac&ccedil;&atilde;o</i> (o “trato”) correspondendo aqui o <i>trato</i> (tratamento) &agrave; trans-forma&ccedil;&atilde;o ou trans-figura&ccedil;&atilde;o, des-figura&ccedil;&atilde;o, hetero-representa&ccedil;&atilde;o <i>de si</i> (<i>auto</i>). Mas a imagina&ccedil;&atilde;o, e o impacto visual da nova imagem da palavra-express&atilde;o, despoletam ainda outras associa&ccedil;&otilde;es: por exemplo com <i>tracto</i>, <i>tra&ccedil;o</i>, <i>retractar(-se)</i>, que, de facto, est&atilde;o presentes na etimologia latina de “retratar”, e tamb&eacute;m, pela reitera&ccedil;&atilde;o contida em “tratos”, da quest&atilde;o do<i> duplo</i> ou do <i>m&uacute;ltiplo</i> (n&atilde;o no sentido <i>pop</i> ou p&oacute;s-moderno, mas no da cria&ccedil;&atilde;o de variantes de si)... Ligar, pela c&oacute;pula “e” e pelos h&iacute;fens, o “autor” (o fazer, ou o seu agente) e os tratamentos de si que ele opera, significa, ao mesmo tempo, confundir origem e objecto, ligar e distanciar essas duas metades do fen&oacute;meno, introduzindo no processo de auto-representa&ccedil;&atilde;o uma dial&eacute;ctica aberta do auto <i>versus</i> hetero, da id-entidade <i>versus</i> alter-idade. Auto-representar-se (vir &agrave; presen&ccedil;a pela media&ccedil;&atilde;o da escrita) significa <i>dar tratos</i> a si mesmo; e toda a quest&atilde;o se centra ent&atilde;o em saber que <i>entidade</i> &eacute; essa que se liga ao <i>id(em)</i>, se o Si, ou o Si-mesmo (o <i>Selbst</i> alem&atilde;o) s&atilde;o vers&otilde;es essencializadas, transcendentais do Eu, ou outras, estranhas ao Eu, mas nascidas dele. Neste caso, corresponderiam, n&atilde;o a formas de id-entidade (redu&ccedil;&atilde;o ao mesmo), mas de <i>ipseidade</i>, uma forma particular de alteridade que Paul Ricoeur define como aquela em que essa alteridade n&atilde;o vem juntar-se de fora ao Eu, mas “faz parte do teor de sentido e da constitui&ccedil;&atilde;o ontol&oacute;gica da ipseidade”, que &eacute; um “soi-m&ecirc;me en tant que autre” (e n&atilde;o se fica por uma compara&ccedil;&atilde;o) (Ricoeur, 1990: 385). &Eacute; o pr&oacute;prio no lugar do Outro (este &eacute; tamb&eacute;m o modo como Goethe v&ecirc; a rela&ccedil;&atilde;o entre tradu&ccedil;&atilde;o e original, nas Notas ao <i>Div&atilde; Ocidental-oriental</i>).</p>      <p>O aparecimento inesperado do <i>autor</i> nesta cena nova leva naturalmente a toda a problem&aacute;tica da quest&atilde;o autoral em literatura, da rela&ccedil;&atilde;o da m&atilde;o (e do corpo) que escreve com o que &eacute; escrito: o “n&atilde;o meu, n&atilde;o meu &eacute; quanto escrevo”, de Pessoa, as leituras psicanal&iacute;ticas (lacanianas) do <i>Isso</i> (<i>&ccedil;a</i>) que me escreve, ou, numa linha n&atilde;o psicanal&iacute;tica, a percep&ccedil;&atilde;o de Llansol de que uma <i>consci&ecirc;ncia</i> (e n&atilde;o j&aacute; um inconsciente) a escreve: “H&aacute; <i>algo maior do que eu</i>, ou seja, diferente de mim, que escreve e mant&eacute;m a Obra, &eacute; <i>uma consci&ecirc;ncia muito mais vasta</i> do que aquela que poderia ser a fonte do meu corpo; &eacute; uma serenidade muito maior do que aquela que tenho dia a dia” (Esp&oacute;lio de M. G. Llansol, caderno 1.12, p. 386 [1982]).</p>      <p>A minha providencial folha sugere-me ainda que ao <i>tratar o/do Eu</i> em literatura ou arte se opera sempre uma <i>desloca&ccedil;&atilde;o do Eu</i>: quem o faz &eacute; um <i>autor</i>, e ao faz&ecirc;-lo (ao figurar-se) desfigura-se. O que era <i>auto-</i> sofre um tratamento de estranhamento, no espelho da sua questiona&ccedil;&atilde;o ou indaga&ccedil;&atilde;o <i>de si</i> – e <i>des-autoriza</i> qualquer pretens&atilde;o de figura&ccedil;&atilde;o “verdadeira” ou “aut&ecirc;ntica” (Manuel Gusm&atilde;o fala, a este prop&oacute;sito, de “instabiliza&ccedil;&atilde;o autoral”: cf. Gusm&atilde;o, 2011: 91). Numa entrevista recente sa&iacute;da no primeiro n&uacute;mero da revista <i>online</i> <i>Cinema</i>, Georges Didi-Huberman lembra, na senda de Derrida, que filosofia <i>&eacute; </i>autobiografia, mas <i>pensar &eacute; deixar de se ver a si pr&oacute;prio no espelho do objecto</i>, isto &eacute;, ensaiar-se: no ensaio, diz Didi-Hubermann, “n&atilde;o tenho necessidade de falar de mim” (Didi-Huberman, 2010); e eu pr&oacute;prio constato, em <i>O G&eacute;nero Intranquilo. Anatomia do ensaio e do fragmento</i>: o ensaio n&atilde;o arma o cerco ao Eu, mas “&agrave; verdade poss&iacute;vel e inexpugn&aacute;vel do seu objecto” (Barrento, 2010: 23). Tamb&eacute;m em Llansol &eacute; poss&iacute;vel constatar como <i>o H&aacute; da escrita</i> – a respira&ccedil;&atilde;o impessoal do texto – &eacute; a energia que circula no acto de escrever, e leva quem escreve para <i>fora do Eu, mas n&atilde;o de si</i>, se esse Si / <i>Selbst</i> for uma esp&eacute;cie de fundo residual que conduz a m&atilde;o de quem escreve. E uma das figuras de m&iacute;sticos presentes na sua Obra desde o in&iacute;cio, Mestre Eckhart, sugere j&aacute; num dos seus serm&otilde;es (com a ep&iacute;grafe <i>Quasi stella matutina</i>...) que a imagem, tamb&eacute;m a de mim, est&aacute; em mim, mas eu s&oacute; a posso ver num espelho que &eacute; como que o “intelecto de Deus”, de onde ela nasce em forma de “anjo”, criatura-outra. Do outro lado do espelho, a minha imagem n&atilde;o pode ser outra coisa sen&atilde;o o Outro-de-mim (Mestre Eckhart, 2009: 302). Giorgio Agamben trata tamb&eacute;m, num dos cap&iacute;tulos de <i>Profana&ccedil;&otilde;es</i> (“O ser especial” Agamben, 2005: 75-82), desta quest&atilde;o da imagem, que atravessa toda a especula&ccedil;&atilde;o escol&aacute;stica, ao perguntar-se se a imagem &eacute; subst&acirc;ncia ou acidente, para responder que &eacute; acidente, “o modo daquilo que &eacute; insubstanci&aacute;vel”, quer se trate da imagem-reflexo (no espelho, <i>eikon</i>) ou da imagem-representa&ccedil;&atilde;o (interior, <i>eidolon</i>). Num caso como noutro, como sugere tamb&eacute;m Eckhart, a imagem depende do sujeito: de um sujeito que a provoca pela exposi&ccedil;&atilde;o ao espelho, ou que a cria a cada instante em si mesmo (o “Eu imaginante”). Mas acontece – e este &eacute; o aspecto que mais nos interessa agora – que esse eu imaginante &eacute; aquele que <i>se desdobra</i> (em imagens de si), aquele que, quando diz Eu (e ao <i>dizer</i> objectiva-se e cinde-se), est&aacute; a falar, n&atilde;o de si, mas de uma imagem de si. H&aacute;, assim, um eu gerador ao qual se reportam todas as imagens que produz de <i>si mesmo-outro</i> (estamos na problem&aacute;tica dos heter&oacute;nimos pessoanos, ou tamb&eacute;m das vozes que falam no texto de Llansol, a que voltaremos), que s&atilde;o da sua “esp&eacute;cie”, mas n&atilde;o se confundem com ele, porque a imagem &eacute; mera apar&ecirc;ncia, sombra ou fantasma. A linha de separa&ccedil;&atilde;o entre realismo e modernidade passa pelo lugar onde come&ccedil;am a afastar-se estas duas formas de imagem: a imagem que se apega a uma <i>apar&ecirc;ncia</i> a que chama realidade (o <i>furor do real</i>), e a imagem que “<i>faz apari&ccedil;&atilde;o</i>” e assombra (o <i>fulgor do invis&iacute;vel</i> tornado vis&iacute;vel, por exemplo em M. G. Llansol) (vd., sobre isto, o livro de Tom&aacute;s Maia, <i>Assombra. Ensaio sobre a origem da imagem</i>).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>“Tratar” relaciona-se ainda com “tratado”, uma forma de escrita que n&atilde;o teria nada a ver com o que aqui nos interessa, nem com os autores escolhidos, se n&atilde;o se desse o caso de ela n&atilde;o ser apenas escrita sistem&aacute;tica com pretens&atilde;o de exaustividade e objectividade, como geralmente &eacute; entendida. Mas ela nem sempre &eacute; isso, existem desde a Idade M&eacute;dia outras formas de tratado, como aqueles de que fala Walter Benjamin no Pr&oacute;logo ao livro sobre o drama do Barroco. Nesses tratados, cujo objectivo &eacute; a busca de uma “ess&ecirc;ncia n&atilde;o delimit&aacute;vel do verdadeiro” e cujo m&eacute;todo “&eacute; caminho n&atilde;o directo”, ou desvio, o tratado faz-se de ren&uacute;ncias conscientes (do mesmo modo que qualquer auto-representa&ccedil;&atilde;o, ou auto-retrato, renuncia definitivamente, na modernidade, &agrave; pretens&atilde;o de dar a totalidade do Eu, ou a sua “objectividade”), assumindo uma condi&ccedil;&atilde;o fragment&aacute;ria como a do mosaico, que vive da “rela&ccedil;&atilde;o entre a elabora&ccedil;&atilde;o microl&oacute;gica e a escala do todo”, e s&oacute; encontra o seu “conte&uacute;do de verdade” (relativa) “atrav&eacute;s da mais exacta descida ao n&iacute;vel dos pormenores” (Benjamin, 2004: 14-15). </p>      <p><b>2. O Eu: reflexo e refrac&ccedil;&atilde;o, entre Romantismo e Modernidades</b></p>      <p>Des&ccedil;amos ent&atilde;o um pouco mais ao n&iacute;vel do pormenor da hist&oacute;ria e da problem&aacute;tica da identidade na literatura ocidental dos &uacute;ltimos dois s&eacute;culos. Uma das formas mais comuns de trazer o Eu a primeiro plano, transformando-o com isso desde logo em objecto de controv&eacute;rsia ou problema, &eacute; a da auto-representa&ccedil;&atilde;o do Eu, nas modalidades do <i>auto-retrato</i> (mais frequente nas artes pl&aacute;sticas) e da <i>autobiografia</i> (mais pr&oacute;pria da escrita). Das duas se tratar&aacute; aqui, j&aacute; que as diversas grada&ccedil;&otilde;es da exposi&ccedil;&atilde;o, do velamento ou da distancia&ccedil;&atilde;o do Eu se aplicam a uma como a outra, e tamb&eacute;m na literatura o auto-retrato surge com alguma frequ&ecirc;ncia. Ou de forma expl&iacute;cita, como no exemplo de <i>Self-portrait in a Convex Mirror</i>, do americano John Ashbery – ali&aacute;s inspirado num c&eacute;lebre quadro do pintor maneirista Parmigianino com o mesmo t&iacute;tulo –, em que uma busca implac&aacute;vel de si resulta numa sistem&aacute;tica distor&ccedil;&atilde;o de si; ou tamb&eacute;m disseminada, na Obra de poetas para quem a par&oacute;dia e a auto-ironia s&atilde;o modos de permanentemente se retratarem retractando-se em planos de-formantes, num desconcertante narcisismo antinarc&iacute;sico, em que o enamoramento de si resulta no desejo de perseguir o outro-de-si (o caso exemplar de Ad&iacute;lia Lopes); de modo impl&iacute;cito, nos poetas que praticam mais abertamente a metapoesia, tra&ccedil;ando por essa via um auto-retrato po&eacute;tico mais ou menos completo (casos de Vasco Gra&ccedil;a Moura – “feito a sangu&iacute;nea, prefiro-me artes&atilde;o” – ou, de modo diferente, Manuel de Freitas – “&Eacute; t&atilde;o dif&iacute;cil escrever um poema / que n&atilde;o fale da morte”); na projec&ccedil;&atilde;o de si em personagens marcadamente autobiogr&aacute;ficas, praticada por alguns autores de uma fic&ccedil;&atilde;o do estranhamento (Kafka poderia ser aqui refer&ecirc;ncia maior); e h&aacute; ainda os casos, raros como o de Maria Gabriela Llansol, de uma escrita quase sempre na primeira pessoa que n&atilde;o &eacute; um Eu (mas uma Voz, ou um rev&eacute;rbero do <i>H&aacute;</i>, a voz impessoal que fala a partir do pr&oacute;prio Ser: trataremos deste caso com mais desenvolvimento na parte final). Finalmente, o auto-retrato liter&aacute;rio faz-se com frequ&ecirc;ncia em muitos poemas que s&atilde;o verdadeiras artes po&eacute;ticas, auto-retratos psicol&oacute;gicos, ou “autopsicografias”. A mais conhecida ser&aacute; certamente a de Pessoa, mas h&aacute; outras, e podemos j&aacute; avan&ccedil;ar com um brev&iacute;ssimo coment&aacute;rio de dois casos c&eacute;lebres e paradigm&aacute;ticos que mostram como, no espa&ccedil;o de um s&eacute;culo, se passou de uma consci&ecirc;ncia soberana e desproblematizada do Eu para a sua extrema problematiza&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica (isto &eacute;, que sabe da n&atilde;o-inoc&ecirc;ncia do Eu, evidenciando, pelo contr&aacute;rio, a crise do sujeito trazida pela modernidade est&eacute;tica e filos&oacute;fica a partir de meados do s&eacute;culo XIX, a que ainda nos referiremos adiante). Os casos mencionados s&atilde;o os de Goethe e de Pessoa, respectivamente representados por um &uacute;nico poema (do de Pessoa bastar-nos-&aacute; a primeira estrofe):</p>  <table> <tr> <td> <i>Autopsicografia</i> </td> <td> <i>Como irei eu partilhar...</i> </td> </tr> <tr> <td valign="top">     <br> O poeta &eacute; um fingidor     <br> Finge t&atilde;o completamente     <br> Que chega a fingir que &eacute; dor     <br> A dor que deveras sente. </td> <td valign="top">     <br> Como irei eu partilhar     <br> A vida, entre fora e dentro,     <br> Se a todos tudo quero dar,     ]]></body>
<body><![CDATA[<br> P’ra viver sob um s&oacute; tecto?     <br> [...] Toda a vida tenho escrito     <br> Como penso, como sinto,     <br> E assim, meus caros, me divido,     <br> Sou sempre um s&oacute;, e n&atilde;o minto. </td> </tr> </table>      <p>Se em Goethe encontramos um testemunho linear e nada complexo de um Eu com unidade e centro, sem fingimento nem m&aacute;scaras, e no qual escrever, pensar e sentir se correspondem, j&aacute; em Pessoa, na sua apod&iacute;ctica defini&ccedil;&atilde;o do poeta como “fingidor” de um figimento total e sem resto (agora de um “Ele” e n&atilde;o de um Eu, o que &eacute; j&aacute; ind&iacute;cio de um distanciamento), aqueles tr&ecirc;s elementos se dissociam e o que resta &eacute; o paradoxo de um fingimento que, levado ao extremo, &eacute; a mais aguda forma da autenticidade de quem escreve (mas n&atilde;o necessariamente de quem l&ecirc;, bem menos complexo, como mostram as outras estrofes de “Autopsicografia” ou o poema “Isto”).</p>      <p>Na evolu&ccedil;&atilde;o desta problem&aacute;tica, que dos primeiros Romantismos chega at&eacute; aos Modernos, encontramos, na literatura e tamb&eacute;m no pensamento, um leque de posi&ccedil;&otilde;es que vai do <i>Eu que diz Eu</i> (a posi&ccedil;&atilde;o dos crentes de si, como Goethe, Victor Hugo ou o anarquista Max Stirner, que, em <i>O &Uacute;nico e a Sua Propriedade</i>, tem como lema “A minha causa &eacute; exclusivamente o que &eacute; meu (...), n&atilde;o &eacute; uma causa universal, mas sim... <i>&uacute;nica</i>, tal como eu”, ou “Coloquei a minha causa sob o signo de <i>mim mesmo</i>”: Stirner, 2004: 9-11 e <i>passim</i>) ao que <i>n&atilde;o diz Eu</i> (porque o objectiva: &eacute; j&aacute; o caso, como veremos, de um poeta cl&aacute;ssico-rom&acirc;ntico-moderno como H&ouml;lderlin), at&eacute; &agrave;queles que <i>deixam de poder dizer Eu</i> de forma aproblem&aacute;tica e dizem N&atilde;o-Eu ou “n&atilde;o meu, n&atilde;o meu...” (todos os que aprendem a li&ccedil;&atilde;o de Nietzsche e do cepticismo filos&oacute;fico, do pr&oacute;prio Nietzsche a Pessoa, mas tamb&eacute;m a Brecht ou Benjamin, que a partir dos anos vinte evita o Eu nos seus ensaios). O anarquista Max Stirner, por exemplo, transforma o Eu numa fortaleza, ou num ref&uacute;gio, contra todas as formas de colectivos, partidos, ideologias humanitaristas hip&oacute;critas, etc. Mas a afirma&ccedil;&atilde;o de identidade libert&aacute;ria do anarquismo n&atilde;o liberta, encerra o indiv&iacute;duo na pris&atilde;o, afinal estreita, do seu Eu. O s&eacute;culo XIX ainda o faz, mas tudo isso se esboroa depois do golpe de Nietzsche sobre a coes&atilde;o do sujeito e a possibilidade de afirmar um Eu sem brechas. Os Romantismos mais “modernos”, o alem&atilde;o e o ingl&ecirc;s, apercebem-se j&aacute; dessas fracturas, tematizam-nas e tratam-nas literariamente, entre outras atrav&eacute;s da problem&aacute;tica do<i> duplo</i> (em E. T. A. Hoffmann ou Guy de Maupassant), ou tamb&eacute;m j&aacute; da <i>express&atilde;o impessoal</i>, e mesmo da proposta de um “<i>grau zero da express&atilde;o</i>” subjectiva (aquilo que Benjamin ir&aacute; designar de <i>das Ausdruckslose</i>), na poesia tardia e na po&eacute;tica de H&ouml;lderlin, de inspira&ccedil;&atilde;o grega antiga e de antecipa&ccedil;&atilde;o dos Modernos. Este &uacute;ltimo caso (e tamb&eacute;m o do destaque dado &agrave; “capacidade negativa”, &agrave; aus&ecirc;ncia de “identidade pr&oacute;pria” do “car&aacute;cter po&eacute;tico” do “poeta-camale&atilde;o” por John Keats) &eacute; particularmente significativo, pela insist&ecirc;ncia em tr&ecirc;s momentos que contribuem para despersonalizar a express&atilde;o, superando j&aacute; o subjectivismo e o “impressionismo” rom&acirc;nticos: 1) aquilo a que H&ouml;lderlin, nos coment&aacute;rios ao <i>&Eacute;dipo</i> e &agrave; <i>Ant&iacute;gona</i>, de S&oacute;focles, chama “a lei do c&aacute;lculo”; 2) uma “l&oacute;gica po&eacute;tica” particular e j&aacute; claramente moderna, que faz coincidir “imagina&ccedil;&atilde;o, emo&ccedil;&atilde;o e racioc&iacute;nio” numa expressividade branca da “pura palavra” servida pelo processo da “interrup&ccedil;&atilde;o anti-r&iacute;tmica” da poesia tr&aacute;gica antiga, que quebra a empatia; e 3) uma forma especial de<i> pathos</i> que n&atilde;o &eacute; grandiloquente (<i>&agrave; la</i> Victor Hugo), mas resulta antes numa <i>dic&ccedil;&atilde;o hier&aacute;tica,</i> que tem em P&iacute;ndaro o seu exemplo antigo maior (e nalguns filmes de Jean-Marie Straub e Dani&egrave;lle Huillet a sua melhor correspond&ecirc;ncia moderna): &eacute; o modo particular, h&ouml;lderliniano, de exprimir as “<i>&oacute;rbitas ex-c&ecirc;ntricas</i>” da experi&ecirc;ncia po&eacute;tica (Llansol ir&aacute; falar, em <i>H&ouml;lder de H&ouml;lderlin</i>, da “estrutura do <i>poema-poente</i>”, sugerindo que essas &oacute;rbitas s&atilde;o “poli&eacute;dricas”, j&aacute; que a&iacute; “tudo se ir&aacute; passar ent&atilde;o em frases breves, / fazendo rodar o poliedro do tempo”: Llansol, 1993: [7]).<sup><a href="#2" name="top2">[2]</a></sup></p>      <p>Depois, &eacute; o tempo de algumas figuras proto-modernas, como Baudelaire ou Rimbaud, questionarem o Eu e as possibilidades da sua autenticidade po&eacute;tica: ou porque essa identidade se desvanece na aliena&ccedil;&atilde;o das alegorias da vida urbana moderna (&eacute; a problem&aacute;tica da aliena&ccedil;&atilde;o, da perda e do reencontro do Eu-j&aacute;-outro no meio da multid&atilde;o, na poesia “p&oacute;s-Correspond&ecirc;ncias” e nos <i>Pequenos Poemas em Prosa</i> de Baudelaire, ou tamb&eacute;m em contos como<i> O Homem da Multid&atilde;o</i>, de Edgar Allan Poe); ou ent&atilde;o porque na segunda metade do s&eacute;culo, na sequ&ecirc;ncia da crise do sujeito cartesiano supostamente id&ecirc;ntico a si mesmo, se instala aquilo a que Manuel Gusm&atilde;o chamou “a instabiliza&ccedil;&atilde;o autoral”, ou a “alteriza&ccedil;&atilde;o” dos Modernos, que, desde a camuflagem do “poeta-camale&atilde;o” de Keats, se continuar&aacute; at&eacute; ao s&eacute;culo XX, com Rimbaud e a po&eacute;tica da dissocia&ccedil;&atilde;o do “JE est un autre”; com Mallarm&eacute; (ao apagar o Eu no enunciado do poema, mais tarde expresso na impessoaliza&ccedil;&atilde;o, no “objectivo correlativo” no lugar do Eu, em T. S. Eliot); com o recurso &agrave;s m&aacute;scaras do mon&oacute;logo dram&aacute;tico de R. Browning, com o “fingimento” de Pessoa; ou no poema <i>Post-scriptum</i>, de Artaud, citado por Gusm&atilde;o, onde se sugere que perguntar “Quem sou?” significa j&aacute; estilha&ccedil;ar o Eu – ou melhor, o seu corpo, “mon corps actuel” (o que n&atilde;o deixa de ser importante, dada a diferen&ccedil;a que instaura entre o “EU sou Antonin Artaud” e o instante do meu corpo no acto de o <i>dizer</i>) (Gusm&atilde;o, 2011: 11-23 e 84-111).</p>      <p>A mesma problem&aacute;tica se encontra, mais tarde, nos c&eacute;lebres fragmentos de Benjamin (tr&ecirc;s dos &uacute;ltimos de <i>O Livro das Passagens</i>) em que este autor se coloca a quest&atilde;o do “Quem sou?” e do nome pr&oacute;prio, interrogando-se sobre a sua substancialidade ou a sua natureza acidental, sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre o “ser” e o “chamar-se”, enfim, sobre “o mist&eacute;rio do nome pr&oacute;prio”. Para Benjamin, “o que eu sou”, que est&aacute; para al&eacute;m do nome, quando muito se reflecte no nome pr&oacute;prio, &eacute; o reflexo “daquilo que j&aacute; foi”, “do que foi vivido”, “o h&aacute;bito de uma vida vivida”, o substrato de uma “experi&ecirc;ncia”. Quando diz que “o nome s&oacute; pode ser reconhecido em contextos de experi&ecirc;ncia”, quando sugere que somos n&oacute;s que “nos ligamos a um nome” (por uma ac&ccedil;&atilde;o animada pelo impulso mim&eacute;tico), ou quando afirma que o “brilho” original do nome que corresponde ao Ser &eacute; objecto de uma “mimese” (“Ser” deve entender-se aqui como a vertente da “verdade”, coincid&ecirc;ncia consigo pr&oacute;prio, como “ess&ecirc;ncia de linguagem”, n&atilde;o mera nomea&ccedil;&atilde;o acidental, que &eacute; a sua vertente instrumental da linguagem), est&aacute; a dizer que “eu” sou aquilo com que me identifico pela ac&ccedil;&atilde;o, pelo fazer. Esse fazer &eacute; o do <i>verbo</i>, n&atilde;o o do nome, nem mesmo o do nome que diz “eu” (&eacute; rara a pergunta “quem sou?” nos textos de Benjamin, que, como se disse, cedo deixou de usar o pronome pessoal no que escrevia). O mesmo dir&aacute; mais tarde tamb&eacute;m Maria Gabriela Llansol, no di&aacute;rio que escreve para e com Verg&iacute;lio Ferreira, onde lemos: “toda a linguagem est&aacute; assente no nome”, mas “o eu como nome &eacute; nada”, “o nome por que nos chamam n&atilde;o &eacute; um consistente”; “um verbo &eacute; mais forte do que o nome”, porque “o nome exclui o que o verbo admite e diz”. E, falando de si e de Verg&iacute;lio Ferreira, conclui: “o nosso verbo &eacute; escrever” (Llansol, 1996: 40, 48). </p>      <p>No s&eacute;culo XIX, em especial na sua segunda metade, assiste-se a um questionar em catadupa, e em v&aacute;rios campos, do dom&iacute;nio da Raz&atilde;o, da teoria cl&aacute;ssica do sujeito e da “fic&ccedil;&atilde;o” do Eu. <i>Marx</i> desenvolver&aacute; uma teoria da aliena&ccedil;&atilde;o e reifica&ccedil;&atilde;o dos sujeitos no mundo mercantilizado (de que Benjamin se servir&aacute; largamente na sua an&aacute;lise da Modernidade a partir de Baudelaire); <i>Nietzsche</i> dar&aacute; o golpe de miseric&oacute;rdia decisivo nas fic&ccedil;&otilde;es do <i>sujeito</i> coeso, do <i>Eu</i> aut&oacute;nomo e uno (que tamb&eacute;m <i>Freud</i> ir&aacute; denunciar como uma ilus&atilde;o, com a t&oacute;pica freudiana do sujeito: <i>Super ego – Ego – Id</i>, e a imagem do Eu como um <i>iceberg</i> de que s&oacute; a ponta &eacute; vis&iacute;vel), do <i>conhecimento</i> objectivo e da <i>linguagem</i> como seu instrumento privilegiado. A filosofia anti-metaf&iacute;sica, anti-substancialista, relativista e perspectivista de Nietzsche ser&aacute; porventura a maior influ&ecirc;ncia sobre a escrita e o pensamento dos “modernos” a partir de finais do s&eacute;culo XIX. Denunciando como meras “hip&oacute;teses” as “fic&ccedil;&otilde;es” do Eu, do conhecimento e do “mundo verdadeiro”, Nietzsche abalar&aacute; (juntamente com a psican&aacute;lise) os alicerces do individualismo e da seguran&ccedil;a burgueses, instaurando uma crise do sentido de que at&eacute; hoje (at&eacute; Llansol) n&atilde;o recuper&aacute;mos. O sujeito deixa de ser inst&acirc;ncia determinante, para ser visto como determinado por factores de ordem ideol&oacute;gica, hist&oacute;rica e ps&iacute;quica. A filosofia de Nietzsche (particularmente nos fragmentos p&oacute;stumos, mais do que nos livros publicados) operar&aacute; uma desmontagem da no&ccedil;&atilde;o de sujeito, da fragmenta&ccedil;&atilde;o do Eu e do seu descentramento, propor&aacute; uma teoria do conhecimento de marca relativista, que levar&aacute; bastante longe, com as propostas de revis&atilde;o do substancialismo e da metaf&iacute;sica (o Ser d&aacute;-se em graus, n&atilde;o de forma absoluta pr&eacute;-determinada; n&atilde;o existem sentidos <i>a priori</i>, atr&aacute;s ou acima das coisas; a multiplicidade do real deve ser medida “ao fio do corpo”; o cepticismo &eacute; uma “paix&atilde;o”, n&atilde;o o da negatividade, do desespero do niilismo passivo, mas o das “experi&ecirc;ncias”, do niilismo activo, etc...), para afirmar uma filosofia do “perspectivismo” que haveria de ter consequ&ecirc;ncias determinantes, nomeadamente na hermen&ecirc;utica e nas po&eacute;ticas modernas. A crise da linguagem e o cepticismo que se instalam a partir do Fim-de-S&eacute;culo e alcan&ccedil;am o seu ponto alto no <i>Tratado</i> de Wittgenstein s&atilde;o uma consequ&ecirc;ncia muito directa destas ideias, que ir&atilde;o encontrar eco em documentos-chave como a <i>Carta de Lord Chandos</i>, de Hugo von Hoffmansthal, um dos textos fundamentais da <i>cr&iacute;tica da linguagem</i>, e do monismo filos&oacute;fico, nos come&ccedil;os do s&eacute;culo XX. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A este sentimento de insufici&ecirc;ncia da linguagem iria reagir, de modos diversos, a <i>poesia</i> das primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX, nomeadamente Fernando Pessoa, que, para superar esse <i>mal-estar consigo pr&oacute;prio, com o mundo e com a linguagem</i>, inventaria os heter&oacute;nimos, diversificando as vis&otilde;es do mundo e os usos da linguagem.</p>      <p><b>3. Pessoa: o Eu estilha&ccedil;ado</b></p>      <p>Tratarei de forma mais breve o “caso Pessoa”, que &eacute; certamente muito mais familiar do que os outros dois. Come&ccedil;aria por lembrar que conv&eacute;m <i>analisar em contexto</i> (pessoal e epocal) a problem&aacute;tica da divis&atilde;o do Eu, do fingimento e das m&aacute;scaras. Em primeiro lugar, como vimos, trata-se de <i>fen&oacute;menos que v&ecirc;m de tr&aacute;s</i>, mas ganham em Pessoa uma visibilidade extrema, pela prolifera&ccedil;&atilde;o de heter&oacute;nimos (muitos deles j&aacute; vindos da &Aacute;frica do Sul, e n&atilde;o apenas nascidos da imagina&ccedil;&atilde;o dese pai m&iacute;tico, Alberto Caeiro), mas tamb&eacute;m pela recep&ccedil;&atilde;o e mitifica&ccedil;&atilde;o de que o pr&oacute;prio Pessoa foi objecto. Por outro lado, essa visibilidade traduz-se numa espectacularidade muito particular, a dos jogos das m&aacute;scaras, que s&atilde;o o modo pr&oacute;prio que Pessoa encontra para encenar a sua impot&ecirc;ncia – que n&atilde;o era s&oacute; dele, mas dos tempos, como mostra, por exemplo, muita poesia do Expressionismo alem&atilde;o sua contempor&acirc;nea, mas com a qual n&atilde;o teve contacto directo. Mas Pessoa ser&aacute; (com Raul Brand&atilde;o na prosa e S&aacute;-Carneiro na poesia) um dos poucos exemplos da literatura portuguesa da &eacute;poca onde o niilismo e o desencanto profundos que grassavam pela Europa &eacute; mais vis&iacute;vel. O resto era uma alegre inconsci&ecirc;ncia ou o espect&aacute;culo circense de uns arremedos de Futurismo de imita&ccedil;&atilde;o e pouca dura. Quando digo que se trata de “fen&oacute;menos que v&ecirc;m de tr&aacute;s” n&atilde;o penso apenas na tradi&ccedil;&atilde;o europeia do s&eacute;culo XIX, de que j&aacute; falei, mas tamb&eacute;m, a n&iacute;vel pessoal, da bagagem liter&aacute;ria e filos&oacute;fica, an&oacute;mala para a &eacute;poca em Portugal, que Fernando Pessoa traz consigo da &Aacute;frica do Sul. &Eacute; evidente a import&acirc;ncia que, neste contexto, poder&atilde;o ter tido poetas como Shakespeare, um caso de escrita m&uacute;ltipla, desdobrada em personagens, multipl&acirc;nica, prism&aacute;tica e universal; alguns dos poetas, ingleses e franceses, lidos por Pessoa, e que evidenciam uma pr&aacute;tica de jogo de m&aacute;scaras e uma escrita j&aacute; do fingimento ou da inven&ccedil;&atilde;o de mundos (penso em Browning, mas tamb&eacute;m em Baudelaire e alguns simbolistas, como Jules Laforgue). Do outro lado, o das leituras filos&oacute;ficas, sabe-se que Pessoa leu, pelo menos indirectamente (pelas liga&ccedil;&otilde;es que tinha a Berkeley), um filos&oacute;fo pouco referido como Ernst Mach, mas muito influente pela sua filosofia “sensacionista”, da dissolu&ccedil;&atilde;o do sujeito racional em feixes de sensa&ccedil;&otilde;es (como mostrei em “Ismos em converg&ecirc;ncia, ou: O sensacionismo portugu&ecirc;s fala alm&atilde;o”, Barrento, 1987: 51-83); e que sobretudo Nietzsche haveria de ter, em variad&iacute;ssimos aspectos, uma influ&ecirc;ncia e uma presen&ccedil;a importantes na sua Obra<sup><a href="#3" name="top3">[3]</a></sup>.</p>      <p>Destaco apenas duas ou tr&ecirc;s ideias de fundo sobre a problem&aacute;tica do Eu em Pessoa, avan&ccedil;ando algumas teses sobre a constru&ccedil;&atilde;o heteron&iacute;mica, j&aacute; que se trata de mat&eacute;ria mais conhecida e discutida (embora nem sempre consensual, nem levada &agrave;s &uacute;ltimas consequ&ecirc;ncias). Come&ccedil;o por lembrar o pr&oacute;prio Pessoa (em carta a Gaspar Sim&otilde;es), quando afirma que nas “fic&ccedil;&otilde;es do Eu” nunca se chega ao “disfarce absoluto”, isto &eacute;, a alteridade nunca &eacute; total. Um segundo aspecto importante &eacute; o de que o Eu e essas suas fic&ccedil;&otilde;es formam um todo: ou seja, nessa constru&ccedil;&atilde;o n&atilde;o h&aacute; exterior, nem um centro que controle o jogo. Vai-se mais longe em Pessoa do que num poeta anterior como Robert Browning, como j&aacute; sugeri num outro livro: “enquanto a obra de Pessoa &eacute; o documento de um permanente e total desencontro e des-controlo (quem controla quem no jogo dos heter&oacute;nimos?, pergunta, e bem, Eduardo Louren&ccedil;o), Browning <i>&eacute;</i> ainda todos os Outros que inventa. Aqui reside a diferen&ccedil;a entre um <i>jogo</i> do distanciamento que veicula uma vis&atilde;o do mundo e da arte diversificada mas enraizada num sistema de valores, e o desespero tragic&oacute;mico de um radical desenraizamento que traz as marcas da negatividade total, que impede o reencontro dos estilha&ccedil;os do Eu e n&atilde;o legitima qualquer tentativa de s&iacute;ntese harmonizadora, ainda poss&iacute;vel em Browning. Pessoa, esse pergunta: ‘Deus n&atilde;o tem unidade / Como a terei eu?’” (cf. Barrento, 1987: 111). O intelecto, que poderia ser esse centro que falta, ou “n&atilde;o sustenta o mundo”, como sugere Yeats em “Sailing to Bizantium” (“the center does not hold”), ou n&atilde;o &eacute; inst&acirc;ncia soberana, livre e determinante: &eacute; uma maldi&ccedil;&atilde;o, uma doen&ccedil;a da nostalgia vitalista dos Modernos, um espinho cravado nessa predisposi&ccedil;&atilde;o vitalista recalcada – em Pessoa, Benn, Kandinsky e outros. Em terceiro lugar, se as fic&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o absolutas, se n&atilde;o h&aacute; exterior nem centro de controlo, ent&atilde;o tamb&eacute;m n&atilde;o pode existir um Pessoa ort&oacute;nimo (i. &eacute;: de nome pr&oacute;prio, certo, no seu lugar: <i>ortos</i>). Ou ent&atilde;o deixou de existir a partir do momento em que inventou (lhe nasceram) os heter&oacute;nimos (os nomes-outros). Daqui se pode concluir que a inst&acirc;ncia geradora de orto- e heter&oacute;nimos &eacute; uma matriz ausente, um lugar des-centrado, uma &oacute;rbita ex-c&ecirc;ntrica, um espa&ccedil;o in-forme, um inconsciente est&eacute;tico (e talvez existencial, quando, apesar de tudo, se coloca a pergunta “Quem sou?”).</p>      <p>A tese global que daqui extraio &eacute; a seguinte: todo o Pessoa escrito/de escrita &eacute; uma constela&ccedil;&atilde;o heteron&iacute;mica, e por isso um Eu que n&atilde;o tem auto-retrato, mas t&atilde;o somente hetero-retratos (incluindo o pseudo-‘pr&oacute;prio’). Ele pr&oacute;prio &eacute; mais uma m&aacute;scara de si, ou da grande e &uacute;nica m&aacute;scara que o explica (?) e abarca: a m&aacute;scara do geometrismo (do intelecto), mas em tens&atilde;o com a nostalgia vitalista recalcada de que falei, uma forma de nostalgia que em muitos modernos &eacute; sublima&ccedil;&atilde;o de outra coisa. Tentaremos ainda ir um pouco mais longe, com a ajuda de duas aproxima&ccedil;&otilde;es recentes, e bastante distintas, &agrave; problem&aacute;tica da identidade em Pessoa – as de Manuel Gusm&atilde;o e Jos&eacute; Gil –, e estabelecendo, por antecipa&ccedil;&atilde;o, j&aacute; alguns contrastes com o caso pr&oacute;ximo e distante de Maria Gabriela Llansol. No ensaio, j&aacute; citado, “Anonimato ou alteriza&ccedil;&atilde;o?”, Manuel Gusm&atilde;o v&ecirc; Pessoa como “autor de autores”, multipolar e em di&aacute;logo m&uacute;ltiplo e descentrado; por outro lado, e ecoando Jos&eacute; Gil, afirma-se que “os heter&oacute;nimos s&atilde;o formas particulares de devir autor”, modalidades de um devir-outro. A ser assim, parece-me ser poss&iacute;vel que exista, na constru&ccedil;&atilde;o pessoana, um duplo movimento (que confirma a minha tese de Pessoa como heter&oacute;nimo de si mesmo): o “movimento de metamorfose do autor em heter&oacute;nimos” e o da “heteronimiza&ccedil;&atilde;o (defensiva) do autor Pessoa”. Neste duplo movimento, que &eacute; uma oscila&ccedil;&atilde;o entre a “ostens&atilde;o da singularidade” (no poema “Isto”, uma arte po&eacute;tica em que diz Eu) e a “pretens&atilde;o de universalidade” (na “Autopsicografia”, uma outra po&eacute;tica, mas do distanciamento do Eu atrav&eacute;s da terceira pessoa), se joga toda a teoria do fingimento em Pessoa, fingimento esse, diz ainda Gusm&atilde;o, remetendo para Nietzsche, que &eacute; uma verdade-mentira em sentido extra-moral (puramente est&eacute;tico, ficcional, e n&atilde;o &eacute;tico) (Gusm&atilde;o, 2011: 105-111). Completaria esta reflex&atilde;o com uma observa&ccedil;&atilde;o e uma conclus&atilde;o: a complexidade n&atilde;o dualista do problema do fingimento deve p&ocirc;r-nos de sobreaviso em rela&ccedil;&atilde;o a qualquer forma de simplismo (eu <i>versus</i> outro, quando na verdade esse outro s&atilde;o muitos outros), de tenta&ccedil;&atilde;o de recolocar o “autor” no centro ou do jogo do fingimento como o oposto da sinceridade. De facto, em Pessoa esse jogo &eacute; levado ao ponto de o fingimento se tornar ele mesmo... a mais genu&iacute;na forma de sinceridade (de certo modo, foi tamb&eacute;m este aspecto que interessou mais a M. G. Llansol na sua ocupa&ccedil;&atilde;o de muitos anos com a personagem Pessoa, que haveria de transformar na figura de Aoss&ecirc;).</p>      <p>Por seu lado, no seu &uacute;ltimo livro sobre mat&eacute;ria pessoana – <i>O Devir-Eu de Fernando Pessoa</i> – Jos&eacute; Gil traz uma sugestiva imagem para dar a complexidade (mas tamb&eacute;m a unidade tensa) do universo-Pessoa: a imagem do Eu-Pessoa como “um <i>espa&ccedil;o interior implodido</i>” e cheio de uma multid&atilde;o, contendo em si, como o Eu de “Tabacaria”, todos os sonhos do mundo, mas sendo, &agrave; parte isso, um <i>nada</i>. A outra ideia central &eacute; a de uma no&ccedil;&atilde;o de Eu como um esp&eacute;cie de recept&aacute;culo para todos os outros, “um mapa que recobre outros mapas, &agrave; maneira de um palimpsesto”. Este novo mapeamento, em dois regimes (o do “eu-plano-multid&atilde;o” e o do “eu-pele” ou “eu-oceano”), permite a Jos&eacute; Gil rever toda a problem&aacute;tica do Eu em Pessoa, para concluir: 1) que esse Eu n&atilde;o &eacute; j&aacute; um “sujeito” de nenhuma esp&eacute;cie, mas um puro plano, “pura superf&iacute;cie de circula&ccedil;&atilde;o de fluxos de sensa&ccedil;&otilde;es” (imagem que pode conter uma contradi&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; do Eu como espa&ccedil;o interior implodido); 2) que esse Eu n&atilde;o &eacute; o outro, o mais cl&aacute;ssico nos comentadores de Pessoa, o que sofreria de “falta ontol&oacute;gica” de “uma vida simplesmente humana”; para Gil, esse Eu n&atilde;o &eacute; nenhum Eu em perda (de humanidade), mas t&atilde;o somente um Eu que possibilita a escrita. Desfaz-se assim a distin&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o operacional segundo F. Gil, entre “o eu emp&iacute;rico” e “o eu substancial vazio”, figuras est&aacute;ticas que substitui pela din&acirc;mica de “eu-plano-multid&atilde;o”, que n&atilde;o ser&aacute; ponto de chegada, mas ponto de partida (entre outras coisas, do nascimento e da vida dos heter&oacute;nimos). E conclui: se conviermos em que esse Eu-plano-multid&atilde;o n&atilde;o &eacute; propriamente um Eu, ent&atilde;o ele ser&aacute; “o lugar de onde sai a plenitude da vida”. Contrariando todas as leituras (o “erro dos leitores”) que tomam o Eu negativado por oposi&ccedil;&atilde;o ao Eu emp&iacute;rico do Esteves, Fernando Gil consegue chegar a uma quase quadratura do c&iacute;rculo: mostrar que afinal o que atrai (melhor, o que subjuga) o leitor nesta poesia &eacute; o seu “poder de vida”, que, “por contamina&ccedil;&atilde;o e osmose, pode ser libertador” (pergunto-me: “poder de vida”, ou pot&ecirc;ncia de pensamento, ainda e sempre?). Daqui a chegar tamb&eacute;m &agrave; ideia de que “toda a poesia de Fernando Pessoa visa a espontaneidade e a singularidade absolutas” &eacute; um passo. Assim sendo, o leitor &eacute; levado, “n&atilde;o a abismar-se num Eu oco sem fundo, mas a entrar, como &Aacute;lvaro de Campos, ‘na subst&acirc;ncia do mundo’” (Gil, 2010: 9-33). Toda a argumenta&ccedil;&atilde;o se orienta no sentido de contrariar leituras correntes, para explicar o novo modo como o artista Pessoa “capta” (melhor, “subjuga por osmose”) o seu leitor, implicando, com todos os filtros da impessoalidade, e apesar deles, a exist&ecirc;ncia de um sujeito forte. </p>      <p>Esta leitura marca uma diferen&ccedil;a assinal&aacute;vel entre Pessoa e Maria Gabriela Llansol, ou a sua leitura dele: Llansol, tendendo para uma express&atilde;o do H&aacute; do mundo no texto, dilui e anula o Eu no todo do Ser. Na carta a Casais Monteiro sobre a g&eacute;nese dos heter&oacute;nimos, Pessoa fala da sua “tend&ecirc;ncia org&acirc;nica e constante para a despersonaliza&ccedil;&atilde;o e para a simula&ccedil;&atilde;o”. Em Llansol, o que encontramos &eacute; a certeza de que o Eu que escreve (ou vive) <i>n&atilde;o &eacute; centro</i> que se divida e estilhace ou despersonalize, <i>mas parte</i> que quer dissolver-se e fundir-se, anular-se e n&atilde;o afirmar-se. Deste modo, Pessoa enclausura-se em si, enquanto Llansol se derrama no universo vivo. E quanto a ter todos os sonhos do mundo, tamb&eacute;m nela n&atilde;o h&aacute; sonhos nem utopias: o mundo n&atilde;o tem aqui subst&acirc;ncia nem forma, &eacute; visionado como espa&ccedil;o din&acirc;mico (do) Aberto em que o Eu se insere. N&atilde;o h&aacute; fragmenta&ccedil;&atilde;o nem simula&ccedil;&atilde;o: o Eu de Llansol indistingue-se das vozes que povoam o seu texto, a sua marca &eacute; uma “sinceridade” outra que a fingida de Pessoa. A rela&ccedil;&atilde;o fundamental que Heidegger estabelece entre “identidade” e “diferen&ccedil;a”, para definir um princ&iacute;pio de identidade que articula pensamento e Ser (a partir de Parm&eacute;nides), com vista &agrave; aproxima&ccedil;&atilde;o de uma forma de “verdade” para o “ser do ente” (a da unidade do ente consigo mesmo, que em Llansol corresponde a uma “converg&ecirc;ncia”), estar&aacute; porventura mais presente em Llansol do que em Pessoa. Em Heidegger, essa converg&ecirc;ncia d&aacute; pelo nome de “co-perten&ccedil;a” (<i>Zusammengeh&ouml;rigkeit</i>) entre identidade e diferen&ccedil;a, uma identidade que assenta numa “media&ccedil;&atilde;o, rela&ccedil;&atilde;o, s&iacute;ntese: a uni&atilde;o, numa unidade”, do Homem (o pensamento e a “escuta do Ser”, em Parm&eacute;nides) e do Ser (enquanto presen&ccedil;a e fundo do ente). Este ponto de vista exige um salto para l&aacute; do dualismo ocidental (do sujeito e <i>seu</i> objecto), e &agrave; lei desta rela&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua e co-determinante de Homem e Ser chama Heidegger <i>das Ge-stell</i>: um posicionamento rec&iacute;proco, “o modo de uma atribui&ccedil;&atilde;o de lugares que coloca o homem e o ser um em rela&ccedil;&atilde;o com o outro”. O acto deste encontro, que diz muito sobre o modo como tamb&eacute;m Llansol v&ecirc; a rela&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua dos seres, buscando no confronto a sua id-entidade, chama-se em Heidegger <i>Er-eignis</i>: em sentido corrente, “acontecimento”, mas neste contexto ser&aacute; melhor traduzir, literalmente, por “co-propria&ccedil;&atilde;o” origin&aacute;ria, primordial, isto &eacute; uma constela&ccedil;&atilde;o de <i>co-perten&ccedil;a</i> de duas coisas singulares, e pr&oacute;prias (<i>eigen</i>) (Heidegger, 1968: 253-310). N&atilde;o andamos longe das no&ccedil;&otilde;es llansolianas do <i>m&uacute;tuo</i> ou do <i>ambo</i>.</p>      <p><b>4. Paul Celan: o Eu rasurado</b></p>      <p>Bem diferente &eacute; o modo como a problem&aacute;tica da identidade se coloca num poeta como Paul Celan. Aqui n&atilde;o h&aacute; lugar para jogos. E a &uacute;nica m&aacute;scara presente &eacute; a da morte. Estamos na ponta final de todos os humanismos e no reino do totalitarismo, da nulifica&ccedil;&atilde;o do humano, da redu&ccedil;&atilde;o a zero do indiv&iacute;duo no beco sem sa&iacute;da da Hist&oacute;ria. N&atilde;o h&aacute; aqui lugar para o l&uacute;dico, ainda que os jogos sejam s&eacute;rios; s&oacute; para <i>o tr&aacute;gico</i> (e para a “morte livre”, forte express&atilde;o alem&atilde; para “suic&iacute;dio”, que Paul Celan escolheu num dia de Abril de 1970, entregando-se &agrave;s &aacute;guas do Sena). E no entanto – ou talvez por isso mesmo – esta poesia, contrariamente &agrave;s leituras que a dizem herm&eacute;tica e imposs&iacute;vel depois de Auschwitz, n&atilde;o &eacute; monol&oacute;gica nem autot&eacute;lica: &eacute; dial&oacute;gica (aprendeu a s&ecirc;-lo com Martin Buber, e poderia tamb&eacute;m ter sido com Levinas) e apresenta clareiras de esperan&ccedil;a no corpo da sua linguagem altamente cinzelada, da sua <i>fala</i> l&iacute;mpida e inconfund&iacute;vel, em pleno territ&oacute;rio da “l&iacute;ngua dos assassinos”. Por isso o poema de Celan, que “traz na mem&oacute;ria o que h&aacute; de mais sombrio e problem&aacute;tico”, n&atilde;o pode ter j&aacute; nada a ver com uma tradi&ccedil;&atilde;o em que imperava “aquela ‘harmonia’ que, mais ou menos despreocupadamente, se ouviu com o que h&aacute; de mais terr&iacute;vel, ou ecoou a seu lado” (Celan, 1996: 29-30). O poema &eacute; agora a fala de um Eu que se dirige “a um Tu apostrof&aacute;vel”, e &eacute; “na sua ess&ecirc;ncia dial&oacute;gico” (Celan, <i>idem</i>: 34), faz-se a partir de uma inten&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&atilde;o e encontro – mesmo sendo “poesia absoluta”, o poema imposs&iacute;vel nos limites da express&atilde;o.</p>      <p>“O poema &eacute; solit&aacute;rio. &Eacute; solit&aacute;rio e vai a caminho” (Celan, <i>idem</i>: 57): n&atilde;o &eacute; express&atilde;o de um Eu dividido, mas de um Eu que incorpora um Tu, um Outro. A sua alteridade n&atilde;o &eacute; radical, porque <i>o outro est&aacute; a&iacute;</i>, l&aacute;, perto ou longe, mas num horizonte de esperan&ccedil;a – apesar de n&atilde;o ser esta a leitura mais habitual desta poesia tantas vezes sombria, el&iacute;ptica, por vezes gelada e negra:</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mais negro no negro, estou mais nu.</p>      <p>S&oacute; quando sou falso sou fiel.</p>      <p>Sou tu quando sou eu. </p>      <p>(Celan, 1993: 13) </p>      <p>Mas, quem &eacute; este tu? O outro. Mas, que outro? O outro do Eu, dele indissoci&aacute;vel. Mesmo na mais radical solid&atilde;o de um campo de exterm&iacute;nio, o Eu n&atilde;o se sustenta sem o seu reverso, a sua dist&acirc;ncia de si, que d&aacute; para o outro. Na mesma linha, um outro <i>topos</i> desta poesia de fortes contrastes: o da indissociabilidade do Sim e do N&atilde;o, ainda e sempre do Eu e do Outro, da luz e da sombra:</p>      <p>Fala –</p>      <p>Mas n&atilde;o separes o N&atilde;o do Sim.</p>      <p>D&aacute; &agrave; tua senten&ccedil;a igualmente o sentido:</p>      <p>d&aacute;-lhe a sombra.</p>      <p>[...]</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Fala verdade quem diz sombra. </p>      <p>(Celan, <i>idem</i>: 67) </p>      <p>O N&atilde;o &eacute; o lado mais obscuro do Eu, e apesar de tudo apenas sua sombra. De sombra se fala, n&atilde;o de trevas, que tamb&eacute;m as h&aacute; nesta poesia. Mas do meio delas fala ainda muitas vezes (por exemplo nos poemas do esp&oacute;lio) um eu que, por mais rasurado e solit&aacute;rio que esteja, &eacute; ainda Eu:</p>      <p>[...]</p>      <p>Sou eu, eu,</p>      <p>estava entre v&oacute;s, estava</p>      <p>aberto, era</p>      <p>aud&iacute;vel, toquei-vos, a vossa respira&ccedil;&atilde;o</p>      <p>obedeceu, sou</p>      <p>eu ainda, mas voc&ecirc;s</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>est&atilde;o a dormir.</p>      <p>[...]</p>      <p>(Celan, <i>idem</i>: 85)</p>      <p>Eu ainda, mas em muitos poemas reduzido a Nada, a p&oacute;, sob o peso tr&aacute;gico da consci&ecirc;ncia da sua vulnerabilidade, da sua aniquila&ccedil;&atilde;o pela Hist&oacute;ria:</p>      <p>Salmo</p>      <p>Ningu&eacute;m nos moldar&aacute; de novo em terra e barro,</p>      <p>ningu&eacute;m animar&aacute; pela palavra o nosso p&oacute;.</p>      <p>Ningu&eacute;m.</p>      <p>Louvado sejas, Ningu&eacute;m.</p>      <p>Por amor de ti queremos</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>florir.</p>      <p>Em direc&ccedil;&atilde;o</p>      <p>a ti.</p>      <p>Um Nada</p>      <p>fomos, somos, continuaremos</p>      <p>a ser, florescendo:</p>      <p>a rosa do Nada, a</p>      <p>de Ningu&eacute;m.</p>      <p>Com</p>      <p>o estilete claro-de-alma,</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>o estame ermo-de-c&eacute;u,</p>      <p>a corola vermelha</p>      <p>da purp&uacute;rea palavra que cant&aacute;mos</p>      <p>sobre, oh sobre</p>      <p>o espinho<i>. </i></p>      <p>(Celan, <i>idem</i>: 103-105) </p>      <p>Algumas <i>quest&otilde;es</i> se levantam a partir destes exemplos (e do que podemos ler nos textos metapo&eacute;ticos de Paul Celan), quanto &agrave; problem&aacute;tica da identidade e ao estatuto do Eu. Uma primeira ideia &eacute; a de que o Eu muda de estatuto, de atributos e de condi&ccedil;&atilde;o, se a sua rela&ccedil;&atilde;o dominante for com a <i>Hist&oacute;ria</i> (Celan), com o <i>Ser</i> (H&ouml;lderlin, talvez tamb&eacute;m Llansol) ou <i>consigo pr&oacute;prio</i> (Pessoa). Daqui, a pergunta: que Eu fala numa poesia como a do judeu ap&aacute;trida Paul Celan? A partir de que lugar negativo intoler&aacute;vel, ou esperan&ccedil;a messi&acirc;nica aud&iacute;vel? Seja qual for a resposta, &eacute; claro que Celan veio desmentir – como que a partir de dentro, do pr&oacute;prio &acirc;mago da poesia – a afirma&ccedil;&atilde;o de Adorno sobre a impossibilidade da poesia depois de Auschwitz. Ou ent&atilde;o Adorno queria dizer que a poesia – o Eu de algum modo ainda mais ing&eacute;nuo, ou tamb&eacute;m mais mental, que falava na poesia anterior ao holocausto – se tornou <i>outra</i> nesse contexto hist&oacute;rico, e que esse outro &eacute; indiz&iacute;vel. Talvez porque a&iacute; o Eu &eacute; o seu <i>corpo</i>, a sua condi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; j&aacute; mental, nem meramente vivencial, mas existencial e “experiencial” (no sentido de algu&eacute;m que passa por uma <i>ex-peri&ecirc;ncia</i>, ou seja, que faz uma <i>travessia de risco</i>). Celan dir&aacute;, como Benjamin a prop&oacute;sito dos protagonistas do drama barroco, que essa condi&ccedil;&atilde;o &eacute; “criatural” – est&aacute; fora da Hist&oacute;ria, mas submetida &agrave; sua cegueira, da moral e do pr&oacute;prio psiquismo humano. A sua “trag&eacute;dia” n&atilde;o &eacute; j&aacute; a anterior, a do esp&iacute;rito ou da civiliza&ccedil;&atilde;o (diagnosticada por pensadores como Georg Simmel, Max Weber ou Freud), mas a desse corpo individual e colectivo, da exist&ecirc;ncia nua e arriscada (mais tarde, tamb&eacute;m Llansol dir&aacute;, por outras raz&otilde;es, que sem essa travessia de medo e de risco, a que chama <i>metanoite</i>, n&atilde;o h&aacute; escrita).</p>      <p>Nesta situa&ccedil;&atilde;o, o Eu cala-se, deixa(-se) falar (por) um <i>Isso</i> terr&iacute;vel, que &eacute; a voz que se ouve na poesia cada vez mais impessoal e mais branca de Celan. Esse <i>Isso</i> n&atilde;o &eacute; a voz do inconsciente, mas a da <i>barb&aacute;rie sem nome</i>: o <i>Nada</i>, o Rei (Cristo negro?) no centro do mundo; ou, no poema, na <i>mandorla</i>-mandala com o seu fundo “azul real” que afinal supera o negro, porque &eacute; a &uacute;ltima palavra. Dois exemplos:</p>      <p>Terra negra, negra</p>      <p>terra, m&atilde;e das</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>horas</p>      <p>desespero:</p>      <p>Aquilo que da m&atilde;o e da sua </p>      <p>ferida a ti te</p>      <p>nasceu fecha</p>      <p>os teus c&aacute;lices<i>. </i>(Celan, <i>idem</i>: 111)</p>      <p>Mandorla</p>      <p>Na am&ecirc;ndoa – o que est&aacute; na am&ecirc;ndoa?</p>      <p>O nada.</p>      <p>Est&aacute; o nada na am&ecirc;ndoa.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A&iacute; est&aacute; e est&aacute;.</p>      <p>No nada – quem est&aacute; a&iacute;? O Rei.</p>      <p>A&iacute; est&aacute; o Rei, o Rei.</p>      <p>A&iacute; est&aacute; e est&aacute;.</p>      <p>Madeixa de judeu, &eacute;s imortal.</p>      <p>E os teus olhos – para onde est&atilde;o voltados os teus olhos?</p>      <p>Os teus olhos est&atilde;o voltados para a am&ecirc;ndoa.</p>      <p>Os teus olhos, para o nada est&atilde;o voltados.</p>      <p>Para o Rei.</p>      <p>Assim est&atilde;o e est&atilde;o.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Madeixa de homem, &eacute;s imortal.</p>      <p>Am&ecirc;ndoa vazia, azul real. </p>      <p>(Celan, <i>idem</i>: 111-112) </p>      <p>O Eu perfila-se aqui para al&eacute;m de si: mas para al&eacute;m de si n&atilde;o significa agora ele pr&oacute;prio desdobrado em outros, &eacute; antes <i>um destino</i> – o do Eu rasurado por uma condena&ccedil;&atilde;o sem recurso, no beco da Hist&oacute;ria:</p>      <p>Est&aacute;s para al&eacute;m</p>      <p>de ti,</p>      <p>para al&eacute;m de ti</p>      <p>est&aacute; o teu destino,</p>      <p>de olhos brancos, fugido a</p>      <p>um c&acirc;ntico, algo se aproxima dele,</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>que ajuda</p>      <p>a arrancar a l&iacute;ngua,</p>      <p>tamb&eacute;m ao meio-dia, l&aacute; fora. </p>      <p>(Celan, <i>idem</i>: 175) </p>      <p>Mas perguntamo-nos: sem recurso? Talvez n&atilde;o, certamente que n&atilde;o, nem em Celan (vejam-se os poemas do esp&oacute;lio, e a luz que os atravessa), nem muito menos em Llansol. Em Paul Celan &eacute; ainda indesment&iacute;vel a dimens&atilde;o tr&aacute;gica; em Llansol, apesar do travo amargo e da vis&atilde;o cr&iacute;tica, &eacute; mais vis&iacute;vel o perfil c&oacute;smico da esperan&ccedil;a, sustentado pela cren&ccedil;a na possibilidade de uma reinven&ccedil;&atilde;o do humano. Em Celan isso acontece de outro modo, como que <i>&agrave; rebours</i>: contra todo o pessimismo hist&oacute;rico (plenamente justificado), o tom dos poemas do esp&oacute;lio &eacute; mais eleg&iacute;aco, e a esperan&ccedil;a aflora (“No inaclar&aacute;vel /abre-se uma porta”), numa po&eacute;tica da revela&ccedil;&atilde;o e do encontro, da aten&ccedil;&atilde;o ao outro:</p>      <p>N&atilde;o te escrevas</p>      <p>entre os mundos,</p>      <p>ergue-te contra</p>      <p>a variedade de sentidos,</p>      <p>confia no rasto das l&aacute;grimas</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>e aprende a viver. </p>      <p>(Celan, 1998: 73) </p>      <p>Mas tentemos ainda uma focagem mais pr&oacute;xima: que “identidade” &eacute; a de um Eu que n&atilde;o fala, mas deixa falar outras inst&acirc;ncias no poema, que usa mais o apelo a um Tu do que a afirma&ccedil;&atilde;o de um Eu? Por outras palavras: o que fala aqui, se n&atilde;o &eacute; (j&aacute;) o Eu? Talvez um <i>duplo sil&ecirc;ncio</i>. Em primeiro lugar, a <i>radicalidade da presen&ccedil;a</i> (da coisa que anula a linguagem, como na <i>Carta de Lord Chandos</i>), ou a <i>imagem nua</i> que anula a emo&ccedil;&atilde;o subjectiva (no sentido daquilo a que Celan, no c&eacute;lebre discurso “O Meridiano”, chama o “poema absoluto” que leva <i>ad absurdum</i> todas as met&aacute;foras). Ou ent&atilde;o: a <i>textura</i> que fala (como nas telas finais de Mark Rothko), o olhar que penetra, o poema como resultado da experi&ecirc;ncia &agrave; beira do “ponto-voraz”, afirmando-se “&agrave; margem de si mesmo”: do seu <i>J&aacute;-n&atilde;o-[Eu]</i> ao seu <i>Ainda-e-sempre-[Eu]</i>. Em segundo lugar: o <i>sil&ecirc;ncio da melancolia</i> (no monocromatismo de Rothko, na redu&ccedil;&atilde;o de linguagem e no apagamento do emocional nos &uacute;ltimos poemas de Celan), explic&aacute;vel por uma vontade de depura&ccedil;&atilde;o da divis&atilde;o, de um regresso &agrave; <i>in-fantia</i> (=aus&ecirc;ncia de fala), &agrave; <i>express&atilde;o mais neutra</i> do neutro. O resultado &eacute;, nesta poesia, um <i>materialismo do significante</i> que se manifesta no peso da palavra isolada, uma <i>est&eacute;tica da pura pot&ecirc;ncia</i> (como a de Bartleby), da <i>nega&ccedil;&atilde;o sem niilismo</i>. Uma po&eacute;tica sem centro, ou com centro vazio; uma express&atilde;o sem expressividade, sem <i>pathos</i>, sem prova; uma po&eacute;tica do rigor, que “n&atilde;o transfigura, n&atilde;o ‘poetiza’: nomeia e postula...” (Celan, 1996: 30). A voz de um Eu distante que, mergulhado na mem&oacute;ria da cat&aacute;strofe do s&eacute;culo, “busca o seu modo de estar a&iacute;” (Celan) – o seu <i>H&aacute;</i>. Com a entrada neste novo modo de estar-a&iacute;, de presen&ccedil;a-aus&ecirc;ncia e de dilui&ccedil;&atilde;o do Eu – a que Emmanuel Levinas chama o <i>H&aacute;</i> – estamos finalmente no espa&ccedil;o do terceiro autor que convoquei para a problem&aacute;tica da identidade, o de Maria Gabriela Llansol.</p>      <p><b>5. Llansol: o H&aacute; existe</b></p>      <p>A problem&aacute;tica da identidade – na escrita e da escrita – em Maria Gabriela Llansol pode colocar-se a tr&ecirc;s n&iacute;veis:</p>      <p>1) <i>Discursivo</i>: que voz ou vozes falam no texto, e qual o lugar do Eu, de quem nele diz “Eu”? Esta quest&atilde;o leva a um segundo n&iacute;vel, o</p>      <p>2) <i>Genol&oacute;gico</i> (dos g&eacute;neros ou das formas de escrita deste texto, inst&aacute;veis e h&iacute;bridas); figura aqui em lugar central a quest&atilde;o da autobiografia (do “auto-retrato”) numa escrita que se faz entre a fic&ccedil;&atilde;o (que ela se nega a ser), o di&aacute;rio e a reflex&atilde;o, mas em que a primeira pessoa &eacute; dominante;</p>      <p>3) <i>Filos&oacute;fico</i>: o do salto que nesse texto se opera <i>do Eu para o H&aacute;</i>, ou seja, do registo pessoal, com lugares e datas, para a mais radical impessoalidade, o “falar absoluto e sem sujeito” (como disse um dia Eduardo Louren&ccedil;o). Esta “fala” singular do texto de Llansol &eacute;, no plano da sua rela&ccedil;&atilde;o com o Ser, o <i>H&aacute;</i> de Levinas<sup><a href="#4" name="top4">[4]</a></sup>.</p>      <p>Vejamos mais de perto estes tr&ecirc;s aspectos.</p>      <p><b>5.1. As vozes do discurso</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na literatura portuguesa contempor&acirc;nea (em que &eacute; manifesto, mesmo na poesia, um certo pudor do Eu, mais vis&iacute;vel sobretudo depois da chamada “Poesia 61”), quase todo o auto-retrato, quando existe, tende a s&ecirc;-lo em espelho convexo, isto &eacute;, deformante e redutor, desfocando ou des-figurando o Eu objectivado pelos processos do distanciamento, da auto-ironia ou mesmo da par&oacute;dia (o j&aacute; citado caso de Ad&iacute;lia Lopes). Ou ent&atilde;o, invertendo este &uacute;ltimo tra&ccedil;o, em vez de reduzir amplia-se o Eu, precisamente &agrave; dimens&atilde;o c&oacute;smica do <i>H&aacute;</i>. Domina, no entanto, um tipo de tratamento de si que resulta numa esp&eacute;cie de invers&atilde;o e de irris&atilde;o do mito de Narciso, que na origem est&aacute; marcado pelo enamoramento de si (melhor, da sua imagem), pelo desejo ou a nostalgia de assimilar a si o outro-de-si.</p>      <p>Maria Gabriela Llansol &eacute; um caso paradoxal neste contexto: oferece-nos uma escrita quase sempre enunciada numa primeira pessoa... que n&atilde;o &eacute; um Eu, que evidencia mesmo uma progressiva evanesc&ecirc;ncia do Eu! O paradoxo explica-se pela polifonia de <i>vozes</i> (n&atilde;o pessoas, nem gramaticais nem sociais) presentes nesse enunciado n&atilde;o linear, amb&iacute;guo e aberto, ou tamb&eacute;m pela irrevers&iacute;vel supera&ccedil;&atilde;o, a partir de <i>O Livro das Comunidades</i>, da <i>personagem</i> de fic&ccedil;&atilde;o, em favor da <i>figura</i> (que inclui muitas vezes a narradora-autora e a sua voz). &Eacute; a pr&oacute;pria natureza desse novo ser-do-texto, a que chama “figura”, que explica a necessidade dessa despersonaliza&ccedil;&atilde;o e do enunciado dessubjectivado: de facto, a figura &eacute; uma for&ccedil;a actuante (com ou sem nome, sempre com <i>nome de ser</i>, mas n&atilde;o necessariamente de gente), uma energia que, em confronto com outras, percorre o texto sob a forma de “n&oacute;s construtivos” que s&atilde;o o sustent&aacute;culo das “cenas fulgor” de que ele se tece. Maria Gabriela Llansol definiu um dia lapidarmente a figura dizendo que ela &eacute; “aquele/aquela/aquilo que &eacute; suscept&iacute;vel de ressuscita&ccedil;&atilde;o ou metamorfose e que incorpora um princ&iacute;pio de vida” (<i>apud</i> Barrento, 2009: 124). Estamos pr&oacute;ximos daquilo a que se poderia chamar o <i>H&aacute;</i> da sua escrita, ou do “poema-sem-eu”, em que a vibra&ccedil;&atilde;o (po&eacute;tica e humana) da escrita n&atilde;o reverte para um Eu, mas se expande para um universo, ganhando sentido universal: “&Eacute;-me imposs&iacute;vel dizer Eu. N&oacute;s, talvez. Mas dizer todos, ‘com esta que escreve inclu&iacute;da’, &eacute; melhor” (Llansol, 2010: 169). </p>      <p>A pergunta do Eu em Llansol (como em Walter Benjamin, quando coloca a quest&atilde;o) &eacute; a de quem busca situar-se, interrogando a identidade, entre o Ser e o Nome (ou o apelo do Outro). Essa pergunta divide-se em Llansol entre o “Quem sou?” (mesquinha “pergunta de escravo”) e o “Quem me chama?” (que &eacute; “pergunta de homem livre”) (Llansol, 1998: 130). Pode parecer um paradoxo, mas explica-se pela diferen&ccedil;a essencial que existe entre <i>ser</i> (porque – tamb&eacute;m para a filosofia dial&oacute;gica de Levinas – &eacute;-se com o Outro, cresce-se e forma-se o Eu no quadro da resposta que &eacute; responsabilidade para com o outro, e o seu Rosto) e <i>ter</i> – ter “nome”, simplesmente. E, como j&aacute; vimos antes, em Llansol &eacute; o <i>verbo</i>, e n&atilde;o o substantivo, que &eacute; determinante da identidade: o Eu como nome &eacute; nada. A identidade forja-se no fazer, que &eacute; sempre um fazer desfazendo imagens feitas que v&atilde;o refazendo um retrato “original” que n&atilde;o existe. Num fragmento de texto escrito &agrave; margem da sua edi&ccedil;&atilde;o francesa do <i>Zaratustra</i> de Nietzsche, M. G. Llansol anota este processo de se pintar e apagar: “H&aacute; dias que decidi separar-me de todos os m[eus] comp[anheiros] para pintar [,] e primeiro tive que cobrir a parede de branco para recome&ccedil;ar [...]; nunca pensei em pintar-me, uma simples pincelada em mim mesma e ficaria coberta...” (e deixaria o qu&ecirc; &agrave; vista?, perguntamo-nos: fragmentos de si? a vertigem de si?). Llansol coloca, assim, sempre o Eu numa zona de d&uacute;vida, de transforma&ccedil;&atilde;o (como as suas Figuras), ou claramente &agrave; dist&acirc;ncia, transformando-o em objecto, por exemplo quando escreve &agrave; margem de uma p&aacute;gina de caderno do esp&oacute;lio, a prop&oacute;sito da forma do di&aacute;rio, da “sua vida” e da necessidade de a objectivar: “... n&atilde;o &eacute; a primeira vez que a minha vida pr&oacute;pria me aparece do exterior”; “decidi hoje dividir este di&aacute;rio, n&atilde;o por anos e por dias, mas por vers&iacute;culos; <i>um di&aacute;rio pode ser mais objectivo do que uma vida pessoal</i> – adjectivo que me faz pensar em Pessoa...”<sup><a href="#5" name="top5">[5]</a></sup>. </p>      <p><b>5.2. A autobiografia</b></p>      <p>Llansol sempre rejeitou a ideia de que o que escrevia era autobiogr&aacute;fico, sempre afirmou e escreveu a sua repulsa do confessionalismo e do empolamento do Eu. H&aacute; v&aacute;rias passagens, em livros e nos cadernos do esp&oacute;lio, em que se exprime esse desejo de “fugir ao destino do vate. Fugir &agrave; mediocridade da autobiografia” (Llansol, 2000: 18).</p>      <p>E no entanto, diz Llansol, “escrever &eacute; o duplo de viver” (Llansol, 1998: 73). Como se explica ent&atilde;o que n&atilde;o haja autobiografia? Porque escrever &eacute; <i>um duplo</i>, e o duplo &eacute; uma projec&ccedil;&atilde;o, um prolongamento, n&atilde;o uma re-presenta&ccedil;&atilde;o narrativa. Llansol explica, numa entrevista a Ant&oacute;nio Guerreiro: “Primeiramente vivo, e depois escrevo <i>com</i> [n&atilde;o sobre!] a minha vida. N&atilde;o se pode dizer que o que escrevo &eacute; autobiogr&aacute;fico”<sup><a href="#6" name="top6">[6]</a></sup>. Algumas obras da autora – <i>Depois de Os Pregos na Erva</i>, e sobretudo <i>Um Beijo Dado Mais Tarde</i> – mostram &agrave; evid&ecirc;ncia que vida e escrita n&atilde;o se relacionam em termos de exterioridade m&uacute;tua: aqui, n&atilde;o se narra uma vida (passada), escreve-se experi&ecirc;ncia (presente). Por isso nestes livros, e noutros (como <i>Parasceve</i> ou <i>O Jogo da Liberdade da Alma</i>), o papel da mem&oacute;ria se reduz e torna problem&aacute;tico: porque a mem&oacute;ria, se narrada sem “decepa&ccedil;&atilde;o”, implica sair do tempo da iman&ecirc;ncia, o presente, que &eacute; o tempo de toda a escrita de Llansol. Para M. G. Llansol &eacute; mais importante <i>o que se adquire</i> (uma voz pr&oacute;pria, uma consci&ecirc;ncia, uma “alma crescendo”, “o que est&aacute; sendo”) do que <i>o que se herda ou tem</i> – que &eacute; mat&eacute;ria a “decepar”, amalgamar com o presente, deslocar, transformar. Assim, eu diria, com Llansol: <i>tem-se o que se herda, &eacute;-se o que se dev&eacute;m</i>, o que se vai adquirindo para ser outro (“nada &eacute;, tudo est&aacute; sendo”, lemos em <i>Finita</i>). Esse devir passa pela zona de risco a que se chama “metanoite”, o lugar onde se arrisca a identidade: “em cada risco que tomam, as figuras descobrem novos aspectos da metanoite” (Llansol, 2003: 143).</p>      <p>E como n&atilde;o se tem o Eu, ele s&oacute; pode <i>ser</i> em permanente muta&ccedil;&atilde;o, s&oacute; assim se pode escrever como escreve Llansol. Para poder <i>ser assim em devir</i>, o Eu escreve-se &agrave; dist&acirc;ncia de si e do seu nome; “o eu como nome &eacute; nada”, e “o nosso nome [o de quem <i>escre-vive</i>] &eacute; um verbo”, lemos no di&aacute;rio para Verg&iacute;lio Ferreira, j&aacute; citado (Llansol, 1996: 48). Este modo de existir escrevendo, de conceber uma vida como puls&atilde;o de escrita, &eacute; o da perfeita coincid&ecirc;ncia do <i>Eu</i> com o <i>H&aacute;</i>, quando a escrita se torna uma segunda natureza: “escrevo como H&aacute;” (Llansol, 2003: 159, isto &eacute;, como o mundo est&aacute; a&iacute; e respira. Na &uacute;ltima interven&ccedil;&atilde;o que fez sobre a escrita de Llansol, Eduardo Louren&ccedil;o demarca-a claramente da “denega&ccedil;&atilde;o do estatuto do Eu” convertido numa prolifera&ccedil;&atilde;o “t&atilde;o v&atilde; e virtual como a do ‘eu suposto’ em Pessoa”, para afirmar que a sua vis&atilde;o resulta de “uma imers&atilde;o original num N&atilde;o-Eu” que, segundo Eduardo Louren&ccedil;o, seria equivalente ao Deus de Spinoza.<sup><a href="#7" name="top7">[7]</a></sup> Ora, justamente esse Deus-subst&acirc;ncia de todos os modos do Ser pode ser visto como a express&atilde;o absoluta do <i>H&aacute;</i>. </p>      <p><b>6. Do Eu ao H&aacute;</b></p>      <p>Escrevendo assim, anula-se a heran&ccedil;a, a biografia “pr&oacute;pria” (?), porque estamos sempre a <i>escolher uma origem</i> (a ideia est&aacute; j&aacute; em Nietzsche, e Llansol pode tamb&eacute;m “nascer durante a leitura de um poema”, ou n&atilde;o importa onde). O rosto desta origem &eacute; a<i> inf&acirc;ncia</i>, que, como tamb&eacute;m explica Levinas, participa do <i>H&aacute;</i>: “... ‘h&aacute;’, para mim, &eacute; o fen&oacute;meno do ser impessoal: ‘il’ (<i>il y a</i>). A minha reflex&atilde;o sobre este tema parte da reflex&atilde;o sobre a inf&acirc;ncia. Dorme-se sozinho, as pessoas adultas continuam a vida: a crian&ccedil;a sente o sil&ecirc;ncio do seu quarto de dormir como “sussurrante” [...] Algo que se parece com aquilo que se ouve ao aproximarmos do ouvido uma concha vazia, como se o vazio estivesse cheio, como se o sil&ecirc;ncio fosse um barulho. Algo que se pode experimentar tamb&eacute;m quando se pensa que, ainda que nada existisse, o facto de que “h&aacute;” n&atilde;o se poderia negar” (Levinas, 1988: 39-40). O H&aacute; &eacute; ent&atilde;o, como em Llansol, um sussurro do mundo, um “brumor” (l&ecirc;-se em <i>O Senhor de Herbais</i>) que vem da cena do Ser em aberto, uma plenitude envolvente desse Ser de onde nasce a possibilidade de nos libertarmos de “tudo o que foi” – o H&aacute; est&aacute; fora do social, da hist&oacute;ria e do armaz&eacute;m da mem&oacute;ria que &eacute; a biografia (da&iacute; que a “figura” llansoliana n&atilde;o se entenda sem este H&aacute;, sendo, como &eacute;, campo de for&ccedil;as, energia mutante, e n&atilde;o um Eu com biografia est&aacute;vel, e domesticado).</p>      <p>A mais significativa consequ&ecirc;ncia deste modo particular de escrita-vida &eacute;, no entanto, a constata&ccedil;&atilde;o de que o que parece ser uma aus&ecirc;ncia se converte numa <i>presen&ccedil;a</i>, como uma atmosfera densa, mas leve e distante. &Eacute; essa a inf&acirc;ncia enquanto rosto do H&aacute;, de que fala Levinas (mas tamb&eacute;m, noutros termos, Spinoza e Nietzsche, Benjamin e Agamben): o lugar de um “esquecimento activo” (o tempo do animal na “Segunda Intempestiva” de Nietzsche), que se aproxima da no&ccedil;&atilde;o do Aberto em Rilke. Uma subst&acirc;ncia neutra do humano, que Levinas define ainda como uma “aus&ecirc;ncia de todo o si-mesmo, um <i>sem-si-mesmo</i>”, ou o “existir sem existente” de Heidegger, que Levinas reporta, tal como Llansol, ao verbo, e n&atilde;o ao substantivo: o H&aacute; n&atilde;o &eacute; o pr&oacute;prio dos “seres que s&atilde;o”, mas da pr&oacute;pria “ac&ccedil;&atilde;o de ser” (Levinas, 1993: 84-86).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em Llansol, essa inf&acirc;ncia &eacute; o lugar (a que tamb&eacute;m chama “espa&ccedil;o ed&eacute;nico”) n&atilde;o m&iacute;tico, porque sempre a&iacute;, na iman&ecirc;ncia dos dias, de um <i>tempo-espa&ccedil;o da des-mem&oacute;ria</i> que encontramos em figuras como a mulher de <i>Parasceve</i> ou T&eacute;mia, a “rapariga desmemoriada” de <i>O Jogo da Liberdade da Alma</i>. Uma anamnese deliberada e constru&iacute;da, para que se afirme o presente nu e eterno da iman&ecirc;ncia, uma filtragem da empiria dos fen&oacute;menos, para que a escrita seja a da Ideia (como a v&ecirc;em Goethe ou Benjamin), contra o realismo e o autobiogr&aacute;fico, tal como se percebe pela leitura da Part&iacute;cula 13 de <i>Os Cantores de Leitura</i>, onde se diz que o real &eacute; um “ser inexistente mas n&atilde;o imagin&aacute;rio” (“exilado do H&aacute;” como “a telenovela [...], aqueles enredos, todos eles fornecidos por um s&eacute;culo e meio de romance e teatro”, l&ecirc;-se em <i>Inqu&eacute;rito &agrave;s Quatro Confid&ecirc;ncias</i>) do qual a escrita extrai o essencial para chegar ao humano: “Esta &eacute; a t&eacute;cnica mais simples de construir o texto, e que lhe cria a repugn&acirc;ncia do autobiogr&aacute;fico” (Llansol, 2007: 32). Escrita do <i>H&aacute;</i>, que, em Levinas como em Llansol, n&atilde;o se explica por via da ontologia, mas de uma metaf&iacute;sica da iman&ecirc;ncia. A&iacute;, a identidade dilui-se, o Eu apaga-se nesse <i>l&iacute;quido amni&oacute;tico do Ser</i> e da escrita cujo motor &eacute; o j&uacute;bilo: “No <i>h&aacute;</i> que escolhi, / a minha espinha dorsal &eacute; o j&uacute;bilo. Escrever / est&aacute; dentro do redil do para&iacute;so, que &eacute; tamb&eacute;m uma sebe onde eu entro atrav&eacute;s do ar...” (Llansol, 1996: 72). Este<i> H&aacute;</i> parece ser em Llansol a pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o da escrita para l&aacute; do Eu, ou, como para Levinas, um “terceiro exclu&iacute;do”, “existir sem existente” ou presen&ccedil;a de uma aus&ecirc;ncia determinante, que n&atilde;o &eacute; o puro nada, mas <i>&eacute;</i> – porque “ainda que nada existisse, o facto de que ‘h&aacute;’ n&atilde;o se poderia negar” (Levinas, 1988: 40 e 1993: 84). </p>      <p>Perguntamo-nos, a concluir: que pode ter isto, a problem&aacute;tica do H&aacute;, a ver com aquilo que nos ocupou at&eacute; agora, a auto-representa&ccedil;&atilde;o e a quest&atilde;o autoral em literatura? Tem tudo a ver, se pensarmos que estamos perante uma das formas mais radicais de deslocamento do ponto de vista em rela&ccedil;&atilde;o a tudo, ou quase tudo, o que conhecemos como “literatura”: “N&atilde;o h&aacute; literatura. Quando s escreve s&oacute; importa saber em que real se entra e se h&aacute; t&eacute;cnica adequada para abrir caminho a outros.” (Llansol, 1998, 55). Quando Maria Gabriela Llansol escreve esta frase t&atilde;o citada, est&aacute; a dizer que escrever &eacute;, <i>n&atilde;o comunicar um Eu</i> (<i>sair dele</i> para o leitor), mas <i>entrar num real</i> pela linguagem. A &ecirc;nfase &eacute; posta, n&atilde;o no sair de si, mas no entrar num real-outro, &agrave; margem de si e da pr&oacute;pria l&iacute;ngua. Retira-se o Eu, o autor apaga-se (&eacute; j&aacute; apenas <i>scriptor</i>), o campo – do texto, do trabalho de linguagem nele – fica aberto e dispon&iacute;vel para a entrada do leitor, que aqui, n&atilde;o sendo um leitor-modelo, nem <i>lector in fabula</i>, preso nas malhas de uma qualquer fic&ccedil;&atilde;o, mas um agente (legente), gera ele mesmo um novo modo de ler/escrever, a que se chama <i>escreler</i>.</p>      <p>Nesse espa&ccedil;o, os v&aacute;rios Eus intervenientes dissolvem-se, apagam-se nas suas <i>fun&ccedil;&otilde;es</i>, no seu fazer, e confundem-se com o pr&oacute;prio Ser. H&aacute; no esp&oacute;lio de Llansol um papel avulso que &eacute; uma s&uacute;mula do universo, do “projecto” e dos m&oacute;beis da sua escrita, e em que se fala de “sageza” ou “sophia”, e onde se diz, simplesmente: “O <i>H&aacute;</i> existe”<sup><a href="#8" name="top8">[8]</a></sup>.</p>       <p>&nbsp;</p> <a name="f2"> <img src="/img/revistas/dia/v26n3/26n3a02f2.jpg">     
<p>&nbsp;</p>       <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>Agamben, Giorgio (2005), <i>Profana&ccedil;&otilde;es</i>. Lisboa, Cotovia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000179&pid=S0807-8967201200030000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Barrento, Jo&atilde;o (1987), <i>O Espinho de S&oacute;crates. Expressionismo e Modernismo</i>. Lisboa, Presen&ccedil;a.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000181&pid=S0807-8967201200030000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Barrento, Jo&atilde;o (1996), <i>A Palavra Transversal. Literatura e ideias no s&eacute;culo XX</i>. Lisboa, Livros Cotovia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000183&pid=S0807-8967201200030000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Barrento, Jo&atilde;o (2001), <i>A Espiral Vertiginosa. Ensaios sobre a cultura contempor&acirc;nea</i>. Lisboa, Livros Cotovia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000185&pid=S0807-8967201200030000200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Barrento, Jo&atilde;o (2008), <i>Na Dobra do Mundo. Escritos llansolianos</i>. Lisboa, Mariposa Azual.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000187&pid=S0807-8967201200030000200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Barrento, Jo&atilde;o (2009), “O que &eacute; uma figura?”, in: Jo&atilde;o Barrento (Organ.), <i>O Que &Eacute; Uma Figura? Di&aacute;logos sobre a obra de M. G. Llansol na Casa da Sauda&ccedil;&atilde;o</i>. Lisboa, Mariposa Azual.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000189&pid=S0807-8967201200030000200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Benjamin, Walter (2004), <i>Origem do Drama Tr&aacute;gico Alem&atilde;o</i>. Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim (= Obras Escolhidas, vol. I. Edi&ccedil;&atilde;o e tradu&ccedil;&atilde;o de Jo&atilde;o Barrento).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000191&pid=S0807-8967201200030000200007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Celan, Paul (1993), <i>Sete Rosas Mais Tarde</i>. Antologia po&eacute;tica. Trad. de Jo&atilde;o Barrento e Yvette Centeno. Lisboa, Livros Cotovia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000193&pid=S0807-8967201200030000200008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Celan, Paul (1996), <i>Arte Po&eacute;tica</i>. O Meridiano e outros textos. Trad. de Jo&atilde;o Barrento. Lisboa, Livros Cotovia, 1996&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000195&pid=S0807-8967201200030000200009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Celan, Paul (1998), <i>A Morte &eacute; Uma Flor</i>. Poemas do esp&oacute;lio. Trad. de Jo&atilde;o Barrento. Lisboa, Livros Cotovia.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000196&pid=S0807-8967201200030000200010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>Didi-Huberman, Georges (2010), “… Ce qui rend le temps lisible, c&eacute;st l’image”, entretien r&eacute;alis&eacute; par Susana Nascimento Duarte et Maria Irene  Apar&iacute;cio. <i>Cinema – Journal of Philosophy and the Moving Image</i> (Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa), n&ordm; 1,  Dezembro 2010 [<a href="http://www4.fcsh.unl.pt:8000/~pkpojs/index.php/cinema/index" target="_blank">http://www4.fcsh.unl.pt:8000/~pkpojs/index.php/cinema/index</a>, em 12 de Junho 2011]</p>      <!-- ref --><p>Gil, Jos&eacute; (2010), <i>O Devir-Eu de Fernando Pessoa</i>. Lisboa, Rel&oacute;gio d’&Aacute;gua.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000199&pid=S0807-8967201200030000200012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Gusm&atilde;o, Manuel (2011), <i>Uma Raz&atilde;o Dial&oacute;gica</i>. <i>Ensaios sobre literatura, a sua experi&ecirc;ncia do humano e a sua teoria</i>. Lisboa, Edi&ccedil;&otilde;es Avante.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000201&pid=S0807-8967201200030000200013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Heidegger, Martin (1968), <i>Identit&auml;t und Differenz</i> [1957]. Ed. francesa: <i>Identit&eacute; et diff&eacute;rence</i>, in: <i>Questions I</i>. Paris, Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000203&pid=S0807-8967201200030000200014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Levinas, Emmanuel (1988), <i>&Eacute;tica e Infinito</i> [1982]. Lisboa, Edi&ccedil;&otilde;es 70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000205&pid=S0807-8967201200030000200015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Levinas, Emmanuel (1993), <i>Le temps et l’autre</i>. Paris, Fata Morgana, 1979 (ed. ut.: <i>El Tiempo y el Otro</i>. Barcelona, Paid&oacute;s, 1993)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000207&pid=S0807-8967201200030000200016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Llansol, Maria Gabriela (1993), <i>H&ouml;lder de H&ouml;lderlin. Colares</i>, Colares Editora (reeditado em: Cantileno, Lisboa, Rel&oacute;gio d’&Aacute;gua, 2000).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000208&pid=S0807-8967201200030000200017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>-(1996) <i>Inqu&eacute;rito &agrave;s Quatro Confid&ecirc;ncias</i>. Lisboa, Rel&oacute;gio d’&Aacute;gua.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000210&pid=S0807-8967201200030000200018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>-(1998) <i>Um Falc&atilde;o no Punho</i> [1985]. 2&ordf; ed. Lisboa, Rel&oacute;gio d’&Aacute;gua.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000212&pid=S0807-8967201200030000200019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>-(2000) <i>Onde Vais, Drama-poesia?</i> Lisboa, Lisboa, Rel&oacute;gio d’&Aacute;gua.</p>      <!-- ref --><p>-(2003) “O Espa&ccedil;o Ed&eacute;nico”, in:<i> Na Casa de Julho e Agosto</i>, 2&ordf; ed., Lisboa, Rel&oacute;gio d’&Aacute;gua, 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000215&pid=S0807-8967201200030000200021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>-(2007) <i>Os Cantores de Leitura</i>. Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000217&pid=S0807-8967201200030000200022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>-(2010) <i>Um Arco Singular. Livro de Horas II</i>. Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000219&pid=S0807-8967201200030000200023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>Cadernos e outros manuscritos in&eacute;ditos do esp&oacute;lio</p>      <p>Maia, Tom&aacute;s (2009), <i>Assombra. Ensaio sobre a origem da imagem</i>. Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Mestre Eckart (2009), <i>Tratados e Serm&otilde;es</i>. Trad. de Jorge Telles de Menezes. Lisboa, Paulinas.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000223&pid=S0807-8967201200030000200025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Pessoa, Fernando, <i>Obras de Fernando Pessoa</i>. Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim (23 volumes).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000225&pid=S0807-8967201200030000200026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Prado Coelho, Eduardo (1992), <i>Tudo o Que N&atilde;o Escrevi. Di&aacute;rio I (1991-1992)</i>. Porto, ASA.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000227&pid=S0807-8967201200030000200027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Ricoeur, Paul (1990), <i>Soi-m&ecirc;me comme un autre</i>. Paris, Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000229&pid=S0807-8967201200030000200028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Stirner, Max (2004) <i>O &Uacute;nico e a Sua Propriedade</i>. Trad. de Jo&atilde;o Barrento. Lisboa, Ant&iacute;gona (e S&atilde;o Paulo, Martins Fontes, 2009).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000231&pid=S0807-8967201200030000200029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>(O autor segue a antiga ortografia.)</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><sup><a href="#top1" name="1">[1]</a></sup> Vd., sobre Browning e o mon&oacute;logo dram&aacute;tico: Jo&atilde;o Barrento, “Mon&oacute;logos dram&aacute;ticos: alteridade e modernidade”, in: <i>O Espinho de S&oacute;crates. Expressionismo e Modernismo</i>. Lisboa, Presen&ccedil;a, 1987, pp. 103-111.</p>      <p><sup><a href="#top2" name="2">[2]</a></sup> Sobre H&ouml;lderlin lido por Llansol, veja-se a disserta&ccedil;&atilde;o de Mestrado de Daniela Jones Oliveira, <i>&Oacute;rbitas Poli&eacute;dricas. H&ouml;lder de H&ouml;lderlin, de Maria Gabriela Llansol</i>. Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2004.</p>      <p><sup><a href="#top3" name="3">[3]</a></sup> Vd., sobre a recep&ccedil;&atilde;o de Nietzsche em Portugal, e nomeadamente em Pessoa: Am&eacute;rico Enes Monteiro, <i>A Recep&ccedil;&atilde;o da Obra de Friedrich Nietzsche na Vida Intelectual Portuguesa</i>. Porto, Lello Editores, 2000; Jo&atilde;o Barrento, “Cometa e palimpsesto (Nietzsche na literatura portuguesa)”, in: <i>A Espiral Vertiginosa. Ensaios sobre a cultura contempor&acirc;nea</i>. Lisboa, Cotovia, 2001, pp. 121-138; Ant&oacute;nio Azevedo, <i>Pessoa e Nietzsche</i>. Lisboa, Instituto Piaget, 2005; e Steffen Dix, “Pessoa e Nietzsche: deuses gregos, pluralidade moderna e pensamento europeu no princ&iacute;pio do s&eacute;culo XX”, in: <i>CLIO</i>-Revista do Centro de Hist&oacute;ria da Universidade de Lisboa, n&ordm; 11/2004, pp. 139-174.</p>      <p><sup><a href="#top4" name="4">[4]</a></sup> A liga&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita de Llansol a Levinas passa provavelmente apenas pela leitura de <i>&Eacute;tica e Infinito</i>. De facto, n&atilde;o existe hoje nenhum livro de Emmanuel Levinas na biblioteca pessoal de Llansol, j&aacute; totalmente catalogada. E a &uacute;nica refer&ecirc;ncia ao fil&oacute;sofo que encontrei na sua Obra (&eacute;dita e in&eacute;dita) at&eacute; agora foi numa passagem do di&aacute;rio <i>Um Falc&atilde;o no Punho</i> (j&aacute; de 1982), em que se cita uma p&aacute;gina, precisamente do in&iacute;cio de <i>&Eacute;tica e Infinito</i>. No entanto, a repercuss&atilde;o do tema do <i>H&aacute;</i> levinasiano em Llansol &eacute; absolutamente excepcional, particularmente em livros como <i>Inqu&eacute;rito &agrave;s Quatro Confid&ecirc;ncias </i>(mas tamb&eacute;m em <i>Parasceve</i> ou <i>O Jogo da Liberdade da Alma</i>).</p>      <p><sup><a href="#top5" name="5">[5]</a></sup> Esp&oacute;lio de M. G. Llansol, Caderno 1.11, p. 221 (15 de Novembro de 1981). O excerto passou, quase na mesma forma, para <i>Um Falc&atilde;o no Punho</i>, p. 62.</p>      <p><sup><a href="#top6" name="6">[6]</a></sup> “Na margem da l&iacute;ngua, fora da literatura”, entrevista com Ant&oacute;nio Guerreiro, <i>Expresso</i>, 6 de Abril de 1991.</p>      <p><sup><a href="#top7" name="7">[7]</a></sup> Eduardo Louren&ccedil;o, “A realidade como texto e o texto da realidade”, in: <i>Llansol: A Liberdade da Alma</i> (Segundas Jornadas Llansolianas de Sintra, Setembro de 2010). Lisboa, Mariposa Azual, 2011, p. 20.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top8" name="8">[8]</a></sup> Esp&oacute;lio de M. G. Llansol, avulso Fams0621r.</p>       ]]></body><back>
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