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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In this article, we intend to explore a reading of Herberto Helder’s poetry in terms of (self) portraiture. Based on the self-portraits of Gaëtan, we establish interartistics relations that may show a specific trend of contemporary portraiture towards erasure, silence and imperceptible.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p> <b>Ga&euml;tan e Herberto Helder: do impercet&iacute;vel</b> </p>      <p> <b>Daniel Tavares</b>* </p>     <p> *Doutorando do curso de p&oacute;sgradua&ccedil;&atilde;o em <i>Modernidades Comparadas: Literaturas, Artes e Culturas</i> do Instituto de Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas e investigador bolseiro do Centro de Estudos Human&iacute;sticos da Universidade do Minho, Braga, Portugal. </p>      <p><a href="mailto:daniel@ilch.uminho.pt">daniel@ilch.uminho.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>     <p> Neste artigo pretendemos explorar uma leitura da poesia de Herberto Helder em termos (auto) retrat&iacute;sticos. Partindo dos autorretratos de Ga&euml;tan, procuramos estabelecer rela&ccedil;&otilde;es interart&iacute;sticas que possam evidenciar uma tend&ecirc;ncia da retrat&iacute;stica contempor&acirc;nea que caminha para o apagamento, o sil&ecirc;ncio e o impercet&iacute;vel. </p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Ga&euml;tan; Herberto Helder; autorretrato; impercet&iacute;vel.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>ABSTRACT</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> In this article, we intend to explore a reading of Herberto Helder’s poetry in terms of (self) portraiture. Based on the self-portraits of Ga&euml;tan, we establish interartistics relations that may show a specific trend of contemporary portraiture towards erasure, silence and imperceptible. </p>     <p><b>Keywords:</b> Ga&euml;tan; Herberto Helder; self-portrait; imperceptible.</p>      <p>&nbsp;</p>  <b>Do impercet&iacute;vel: Ga&euml;tan </b>      <p align="right"><i>Vou chamar o retrato,     <br> aquele que se inclina para as chamas da morte.</i>     <br> Jo&atilde;o Miguel Fernandes Jorge</p>      <p>Acerca do retrato, Derrida notava que o desenho apontava sempre para uma m&aacute;scara demonstrando dois valores intr&iacute;nsecos ao conceito, a dissimula&ccedil;&atilde;o e a morte. A primeira prende-se com um lado funcional mais evidente da m&aacute;scara e oculta o rosto quase por inteiro deixando de parte os olhos. J&aacute; a morte &eacute; entendida como um “rosto amputado” (Derrida, 2010: 86), distanciado do resto do corpo que s&oacute; n&atilde;o se revela desprovido de vitalidade pela resist&ecirc;ncia dos olhos. Assim, parece haver uma rela&ccedil;&atilde;o dial&eacute;tica entre dissimula&ccedil;&atilde;o e morte. Desenhar(-se) &eacute;, portanto, ocultar(-se) da morte e por isso o fil&oacute;sofo franc&ecirc;s apontava o mito de Perseu como ponto fulcral para o entendimento do desenho. Ao referir que “Perseu poderia tornar-se o patrono de todos os retratistas.” (<i>Idem</i>) pois ele “assina todas as m&aacute;scaras”(<i>ibidem</i>), Derrida refere o ato de cegueira como o &uacute;nico vi&aacute;vel para a constru&ccedil;&atilde;o autorretrat&iacute;stica, lembrando assim as j&aacute; c&eacute;lebres palavras de Picasso quando referia que para pintar era necess&aacute;rio cegar-se. Outro fil&oacute;sofo, Didi-Huberman, retoma o mito de Perseu para defender a no&ccedil;&atilde;o de “imagem-escudo”, uma imagem que, precisamente por ser imagem, nos protegeria da insuport&aacute;vel realidade, do horror do real.<a href="#1" name="top1">[1]</a> </p>      <p>A cegueira consentida implica, obviamente, o erro.<a href="#2" name="top2">[2]</a> Os autorretratistas vivem desta forma de (se) errarem constantemente. Sem olhos, a m&atilde;o predomina sem o jugo do olhar e da mem&oacute;ria. O autorretrato configura-se atrav&eacute;s de um jogo de for&ccedil;as entre a vontade retrat&iacute;stica e m&atilde;o. O que guia a m&atilde;o j&aacute; n&atilde;o &eacute; o olho enquanto &oacute;rg&atilde;o sensorial mas antes um novo gesto suscitado pela “vis&atilde;o de dentro” que d&aacute; visibilidade da obra.</p>      <p>O ato de retratar implica uma vis&atilde;o dial&eacute;tica que &eacute; composta por ver e ser visto em simult&acirc;neo. O artista parece “p&ocirc;r-se em atitude” e sai de si para se autorretratar. V&ecirc;-se o autorretrato que come&ccedil;a a ver-nos, e n&oacute;s vemo-nos enquanto autorretrato numa vis&atilde;o insustent&aacute;vel pela sua incongru&ecirc;ncia. Como se o autorretrato se inscrevesse como uma atividade altamente medusante, - o que ver ou para onde olhar? -, o autorretratista deve resgatar-se ao seu pr&oacute;prio olhar – que j&aacute; n&atilde;o ser&aacute; o dele, mas o de outro – e assumir uma manha para que consiga resgatar um qualquer tra&ccedil;o tang&iacute;vel.</p>      <p>Voltando a Perseu, o olhar do retratista nunca &eacute; direto sobre si, mas antes obl&iacute;quo e esta &eacute; a manha que Derrida aponta para que o desenhador consiga enfrentar a obra. O desvio do olhar permite n&atilde;o olhar para si diretamente, mas ter antes um distanciamento que permita tornar-se invis&iacute;vel, impercet&iacute;vel. O <i>kune</i> de Hades que o torna invis&iacute;vel ou a “imagem-escudo” de Didi-Huberman.<a href="#3" name="top3">[3]</a></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esta posi&ccedil;&atilde;o de Derrida implica uma “puls&atilde;o de morte” associada ao retrato.<a href="#4" name="top4">[4]</a> O retratista ultrapassa a fronteira do Hades para resgatar uma imagem. Al&eacute;m do mito de Perseu, existe um outro que nos parece servir perfeitamente os prop&oacute;sitos da imagem autorretrat&iacute;stica, do olhar e do resgate, o mito de Orfeu. Neste caso, o falhan&ccedil;o do her&oacute;i ocorre precisamente porque procurou <i>ver</i> a sua amada. Contudo, n&atilde;o lhe &eacute; concedida Eur&iacute;dice, mas antes o seu <i>Ph&aacute;sma</i>, pois como aponta Pedro A.H. Paix&atilde;o, n&atilde;o lhe &eacute; permitido violar a lei do mundo das trevas, pois “n&atilde;o lhe &eacute; permitido ver” (Paix&atilde;o, 2008: 57). Perante a morte, Orfeu recorre, tal como Perseu, ao engenho para ludibriar for&ccedil;as que lhe s&atilde;o superiores e, assim, ambos acabam por usar uma m&aacute;scara. O empreendimento dos her&oacute;is &eacute; o mesmo, atingir o inating&iacute;vel e a &uacute;nica forma de o conseguir &eacute; a anula&ccedil;&atilde;o dos sentidos. Se, em Perseu, a cegueira ou o uso da m&aacute;scara anula a vis&atilde;o, o mito de Orfeu &eacute;, ao mesmo n&iacute;vel, uma anula&ccedil;&atilde;o dos sentidos. Pedro Paix&atilde;o refere acerca do mito:</p>      <blockquote>     <p><i>Testemunhando a nova separa&ccedil;&atilde;o que divide o vivo e o morto, no mundo-dos-mortos em que Orfeu se insinuara n&atilde;o &eacute; permitido ver </i>como uso da sensa&ccedil;&atilde;o<i> – nem falar, como forma de express&atilde;o. A suprema dificuldade imposta ao her&oacute;i, assim como aos que se confrontaram com o mesmo mist&eacute;rio ,era a de ter de eliminar tudo de si pr&oacute;prio, a ponto de se tornar apenas lugar e eco – </i>uma fria imagem no espelho<i>.</i> (<i>Idem</i>: 58)</p> </blockquote>      <p>No reino dos mortos, Orfeu n&atilde;o se guia pelas sensa&ccedil;&otilde;es, mas antes pela alma j&aacute; que a voz da alma difere da voz do corpo.<a href="#5" name="top5">[5]</a> Os olhos j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o funcionais no Hades, pois este reino das trevas &eacute;, de facto, reino do invis&iacute;vel. Nas suas notas &agrave; tradu&ccedil;&atilde;o de <i>F&eacute;don</i>, de Plat&atilde;o, El&iacute;sio Gala chama a aten&ccedil;&atilde;o para um jogo de palavras que nos parece fundamental: <i>Hades</i> e <i>aides</i> ou o reino dos mortos e o invis&iacute;vel. Assim, os mortos partiam para o invis&iacute;vel.<a href="#6" name="top6">[6]</a> </p>      <p>Quando Jos&eacute; Gil refere que para desenhar &eacute; necess&aacute;rio “p&ocirc;r-se em atitude” (Gil, 2005: 221), “dispondo-se &agrave; maneira de n&atilde;o receber sen&atilde;o certos est&iacute;mulos” (<i>idem</i>), est&aacute; a referir a necessidade de se cegar provisoriamente, de se tornar impercept&iacute;vel aos pr&oacute;prios olhos de forma a poder mascarar-se, induzir-se em tra&ccedil;o. &Eacute; claro que esta cegueira proporciona &agrave; m&atilde;o – o carrasco do rosto, dir&iacute;amos – uma import&acirc;ncia acrescida.<a href="#7" name="top7">[7]</a> O retratista sai de si, anula-se como Orfeu ou Perseu para ganhar uma dimens&atilde;o quase meta-f&iacute;sica que se inscreve para al&eacute;m dos pr&oacute;prios olhos, al&eacute;m do pr&oacute;prio corpo.</p>      <p>O que julgamos ver quando olhamos para um retrato? Decifraremos n&oacute;s o rosto do retratado ou antes um conjunto de tra&ccedil;os, de “pequenas percep&ccedil;&otilde;es”, de for&ccedil;as de que os tra&ccedil;os est&atilde;o fecundados.<a href="#8" name="top8">[8]</a> For&ccedil;as que surgem n&atilde;o tanto do olho enquanto mediador entre objeto retratado e desenho, mas antes de uma certa independ&ecirc;ncia da m&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o ao olho. A m&atilde;o acolhe em si o “devir-retrato” antes de o executar.</p>      <p>Na m&atilde;o, ou neste jogo de m&atilde;os, inscreve-se a arte de Ga&euml;tan. Os seus trabalhos revelam a consciencializa&ccedil;&atilde;o que o artista contempor&acirc;neo possui sobre a impossibilidade retrat&iacute;stica. Ao compor um autorretrato atrav&eacute;s da sua m&atilde;o esquerda, n&atilde;o sendo esta a sua m&atilde;o mais sagaz, o retratista apresenta aquilo a que Castro Caldas se referia ao falar da “incongru&ecirc;ncia, da implausibilidade do empreendimento que com eles [retratos] se inicia”. A obra de Ga&euml;tan apresenta-se assim como uma nega&ccedil;&atilde;o taxativa do que poderia ser entendido como a ess&ecirc;ncia do autorretrato: a semelhan&ccedil;a. O que artista parece querer veicular atrav&eacute;s da sua obra &eacute; precisamente um ponto interm&eacute;dio entre a inten&ccedil;&atilde;o retrat&iacute;stica e a tens&atilde;o que surge do exerc&iacute;cio da m&atilde;o esquerda. Destas duas for&ccedil;as nascer&aacute; o autorretrato que &eacute; assim forjado em “qualquer coisa de obscuro, que se passa nos bastidores, entre m&aacute;scaras.” (Caldas, 2008: 71). </p>      <p>Este of&iacute;cio de “contra m&atilde;o” pode ser visto como um lavor mais umbroso, menos claro e limpo do que um retrato executado pela m&atilde;o “naturalmente competente”. O esfor&ccedil;o feito neste caso pelo artista para chegar ao tra&ccedil;o &eacute; muito mais visceral do que a normal conduta do corpo perante o desafio do retrato. O <i>path</i>(os)<a href="#9" name="top9">[9]</a> que obriga uma serventia do corpo perante o tra&ccedil;o sem que a m&atilde;o deixe escapar o tra&ccedil;o do tra&ccedil;o pensado. H&aacute; um caminho a percorrer entre a “inten&ccedil;&atilde;o” retrat&iacute;stica e o retrato que se faz com uma “intens&atilde;o” sinistra. O retrato apresenta-se como um n&atilde;o-objeto, como uma “transcend&ecirc;ncia pura, sem m&aacute;scara &ocirc;ntica” e, como nota Merleau-Ponty, n&atilde;o h&aacute; qualquer adi&ccedil;&atilde;o ao vis&iacute;vel, o vis&iacute;vel j&aacute; comporta em si o invis&iacute;vel. Aqui, parece claro que a quest&atilde;o da semelhan&ccedil;a &eacute; arredada da esfera retrat&iacute;stica, j&aacute; que o retrato n&atilde;o aprisiona, mas apresenta-se como um lugar de abertura. </p>      <p>A t&eacute;cnica utilizada por Ga&euml;tan abre portas para a problematiza&ccedil;&atilde;o do conceito de “retrato” enquanto g&eacute;nero. Em primeiro lugar, parece haver uma profunda ironia na constru&ccedil;&atilde;o da obra que deriva, como j&aacute; referimos, da consci&ecirc;ncia retrat&iacute;stica do autor. Noutro plano, poder-se-ia dar relev&acirc;ncia ao gesto em detrimento do rosto, do resultado do gesto. Os autorretratos de Ga&euml;tan n&atilde;o exprimem um rosto definitivo mas antes um teatro de gestos proporcionados pelas in&eacute;pcias da m&atilde;o esquerda que eleva a m&atilde;o e o gesto acima do vis&iacute;vel. O retrato “torna-se gesto” (<i>idem</i>) e assume-se como um devir ao inv&eacute;s de uma defini&ccedil;&atilde;o. A indefini&ccedil;&atilde;o que nos traz o t&iacute;tulo do desenho <i>Algum retrato</i> (1982) revela que o retrato em quest&atilde;o &eacute; apenas uma possibilidade, mas que poderia ser outro. O artista perde o controlo do tra&ccedil;o, como se a m&atilde;o j&aacute; n&atilde;o lhe obedecesse e parte &agrave; descoberta do retrato. </p>      <p>A no&ccedil;&atilde;o de gestotem sido explorada com alguma insist&ecirc;ncia pelo te&oacute;ricos, entre os quais, Theodor W. Adorno. Na sua teoria est&eacute;tica, Adorno caracterizava o <i>gestus</i> experimental como sendo o “termo que designa os procedimentos art&iacute;sticos para os quais o Novo &eacute; obrigat&oacute;rio” (Adorno, 2008 :45), contrapondo com a ideia de experimentalismo que apenas se limitava a experimentar “processos t&eacute;cnicos desconhecidos ou n&atilde;o sancionados” (<i>idem</i>). Assim, a grande diferen&ccedil;a entre o experimentalismo Moderno e o anterior reside no facto de o primeiro ter o fator da imprevisibilidade na sua ess&ecirc;ncia. O artista n&atilde;o pode (pre-) <i>ver</i> o resultado do seu gesto, por isso Adorno referia que “o sujeito tomou consci&ecirc;ncia da perda de poder, que lhe adveio da tecnologia por ele libertada, erigiu-a em problema, sem d&uacute;vida a partir do impulso inconsciente.” (<i>Ibidem</i>) A no&ccedil;&atilde;o de <i>gestus</i> em Adorno coaduna-se assim com o processo experimental que Ga&euml;tan utiliza atrav&eacute;s da m&atilde;o esquerda, n&atilde;o controlando o gesto e fazendo assim sobressair a marca do experimental no tra&ccedil;o.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na introdu&ccedil;&atilde;o de <i>Untwinsting the Serpent</i>, Daniel Albright referia-se ao <i>gestus</i> da seguinte forma: </p>      <blockquote>     <p><i>Lessing, Brecht, and Weill described the </i>gestus<i>, in wich a contortion or movement of the body takes de responsability of speech. An ideogram or a </i>gestus<i> is not an element within any specific artistic m&eacute;dium; it is not an icon, not a word, but a chord, vibrating between media, abolishing the distinctness of media. </i>(Albright, 2000: 6)</p> </blockquote>      <p>Esta contor&ccedil;&atilde;o do corpo, que em Ga&euml;tan pode ser imaginada no pr&oacute;prio corpo do artista no fazer da obra e no tra&ccedil;o da obra, &eacute; que toma a “responsabilidade discursiva”. Parece haver, como refere Albright, um “acorde” que “vibra”, aproximando-se de um car&aacute;ter polif&oacute;nico e poliss&eacute;mico numa verticalidade que entrela&ccedil;a o discurso. Adorno referia que “as obras que s&atilde;o planeadas como <i>tour de force</i>, como ato equilibrista, revelam algo de superior em toda a arte: a realiza&ccedil;&atilde;o do imposs&iacute;vel” (Adorno, 2008: 165) e este gesto que traz consigo uma for&ccedil;a, que “esconde a possibilidade do imposs&iacute;vel” (<i>idem</i>: 166). Mais adiante, veremos como esta no&ccedil;&atilde;o de <i>tour de force</i> pode articular a m&uacute;sica de Bach e os desenhos de Ga&euml;tan.</p>      <p>A s&eacute;rie <i>Contra-mundum</i> (1988) convoca, desde o t&iacute;tulo, o lugar paradoxal que &eacute; um autorretrato. Se a inten&ccedil;&atilde;o autorretrat&iacute;stica se afasta, desde logo, da semelhan&ccedil;a, por que raz&atilde;o o artista se representa em pose - muito pr&oacute;xima das poses adotadas por Van Gogh - nos seus autorretratos? &Eacute; precisamente neste ponto que se forma a teatraliza&ccedil;&atilde;o<a href="#10" name="top10"><sup>[10]</sup></a> da obra de Ga&euml;tan. Teatraliza&ccedil;&atilde;o que se estende ali&aacute;s nos adornos que o artista aplica ao seu rosto e que se revelam profundamente ir&oacute;nicos na rela&ccedil;&atilde;o retratista-retratado. Em metade da s&eacute;rie, o rosto surge suportado pela m&atilde;o esquerda e o olhar esgueira-se sempre para o centro do retrato. Qual Perseu, o olhar procura e experimenta um espa&ccedil;o que vai al&eacute;m do retrato, que se situa al&eacute;m-corpo. A constru&ccedil;&atilde;o em s&eacute;rie revela tamb&eacute;m uma pluralidade de retratos que acabam por n&atilde;o formar nenhum, ou algum, e muito menos um retrato definido e definitivo. A obra transforma-se assim num palimpsesto, num rosto em constante constru&ccedil;&atilde;o e reinscri&ccedil;&atilde;o. </p>      <p>Em <i>A Arte da fuga</i> (1992-93), o artista “refere o conhecimento contrapont&iacute;stico da arte da fuga de Bach” (Jorge, 2001: 200) e, em ambos os compositores, a experimenta&ccedil;&atilde;o &eacute; ponto de partida para a obra. A t&eacute;cnica do contraponto vive essencialmente da tens&atilde;o entre as suas linhas mel&oacute;dicas e, &agrave; semelhan&ccedil;a da obra de Bach, os trabalhos de Ga&euml;tan afloram estas afinidades. O j&aacute; referido hiato entre a tens&atilde;o e a inten&ccedil;&atilde;o cria um espa&ccedil;o que, distanciando-se de ambos, resguarda deles qualquer coisa. Estas afinidades com a obra do artista barroco revelam-se j&aacute; no corpo das obras. Sabemos que <i>A Arte da Fuga</i> de Bach &eacute; uma obra inacabada com um car&aacute;ter experimental, o que abre in&uacute;meras possibilidades interpretativas. N&atilde;o deixa de ser curioso o aspeto incompleto da obra de Bach, pois sabemos que Ga&euml;tan explora quase exclusivamente a quest&atilde;o do retrato e trata o retrato sempre como objeto inacabado. O trabalho de um rosto liga-se assim ao pr&oacute;prio rosto, tamb&eacute;m ele sempre <i>a caminho de</i> e ressalta sempre a “tens&atilde;o representativa” (<i>idem</i>) que prov&eacute;m das obras, do rosto.</p>      <p>O segundo aspeto, e talvez o mais importante para compreender o paralelismo Bach-Ga&euml;tan, prende-se justamente com a quest&atilde;o experimental das obras. Num artigo dedicado &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es entre a <i>Arte da Fuga</i> de Bach e as artes pl&aacute;sticas<a href="#11" name="top11">[11]</a>, Lenk&aacute; Str&aacute;nsk&aacute; refere-se a obras pl&aacute;sticas do s&eacute;culo XX que, de uma forma ou de outra, se coadunam com a <i>Arte da Fuga</i> de Bach. Seja pela homenagem prestada pelos artistas ao compositor por correspond&ecirc;ncias estruturais ou pela interpreta&ccedil;&atilde;o da l&oacute;gica espa&ccedil;o-temporal da obra de Bach, a tentativa de emula&ccedil;&atilde;o da sua obra est&aacute; bem patente no estudo de Str&aacute;nsk&aacute;. </p>      <p>Atribuir &agrave; obra de Ga&euml;tan o simples car&aacute;ter de homenagem atrav&eacute;s do t&iacute;tulo, anulando assim qualquer semelhan&ccedil;a entre artistas, parece-nos demasiado simplista para ser veros&iacute;mil. Exclu&iacute;da esta hip&oacute;tese, em que moldes se poder&atilde;o aproximar as obras? Cremos que uma correspond&ecirc;ncia na interpreta&ccedil;&atilde;o espa&ccedil;o/tempo parece ser a que mais pistas poder&aacute; abrir. Se nos fixarmos na ideia do <i>paragone</i> – apesar da quest&atilde;o estar j&aacute; desgastada e, porventura, resolvida –, constatamos que o retrato afigura-se como o g&eacute;nero que melhor servir&aacute; para diluir fronteiras. Mais do que a ideia de que um quadro n&atilde;o &eacute; simplesmente apreendido sinteticamente &agrave; primeira vista, implicando antes um percurso do olho, mais do que a ideia de narratividade que a pintura muitas vezes explora, o retrato &eacute; o tempo em si. O retrato comporta em si, indubitavelmente, a marca do tempo. E marca-lo de duas formas contradit&oacute;rias: pela vontade de suspender o tempo, e pela impossibilidade de fugir &agrave; sua passagem. O retrato imortaliza e assassina.</p>      <p>O efeito do contraponto resulta na for&ccedil;a do entrela&ccedil;amento de duas linhas mel&oacute;dicas. Esta for&ccedil;a, zona obscura entre-linhas, pode ser vista, na obra de Ga&euml;tan, na dobra do tra&ccedil;o, dir&iacute;amos. Em <i>Le Pli, Leibniz et le Baroque</i>, Gilles Deleuze apontava &agrave; dobra barroca a marca do infinito. Sem saber onde se inicia, nem onde acabar&aacute;, <i>le pli</i> dobra a alma e, l&aacute; em cima, canta a gl&oacute;ria divina. A dobra, esta, constitui-se por oposi&ccedil;&atilde;o: alto-baixo e interior-exterior<a href="#12" name="top12">[12]</a>. H&aacute; algo de sombrio que permite n&atilde;o obstante a eleva&ccedil;&atilde;o, que permite dar a ver, como num <i>chiaroscuro</i>. Do dualismo alto-baixo, Deleuze referia a simbiose entre movimentos que se elevam e que descem, formando contornos harmoniosos. Nos termos utilizados pelo fil&oacute;sofo franc&ecirc;s, “la mati&egrave;re-fa&ccedil;ade va en bas, tandis que l’&acirc;me-chambre monte” (Deleuze, 2009: 49) assim, o concretismo do exterior da curva – do vis&iacute;vel - , contrap&otilde;e-se ao oculto, ao metaf&iacute;sico do interior - do invis&iacute;vel-, do quarto. N&atilde;o se dever&aacute; contudo ver este invis&iacute;vel como sin&oacute;nimo de aus&ecirc;ncia ou de encripta&ccedil;&atilde;o indescodific&aacute;vel, mas antes como um lugar de percep&ccedil;&atilde;o que se articula com o vis&iacute;vel (n&atilde;o h&aacute; curva sem interior) o que, na l&oacute;gica de Merleau-Ponty, se poderia chamar de invis&iacute;vel, ou de impercept&iacute;vel. Estas refer&ecirc;ncias arquitet&oacute;nicas levam-nos &agrave; primeira de tr&ecirc;s s&eacute;ries que comp&otilde;em a <i>Arte da Fuga</i> de Ga&euml;tan, <i>La Chambre Verte</i>.</p>      <p>A primeira parte da s&eacute;rie,<i> La Chambre Verte</i>, tra&ccedil;a uma intertextualidade com o filme hom&oacute;nimo de Fran&ccedil;ois Truffaut de 1978. Como j&aacute; referido, o desenhador incorpora o mito de Orfeu e, em <i>La Chambre Verte</i>, Julien Davenne acaba por justificar isso mesmo. N&atilde;o sendo o autor dos retratos que preenchem o santu&aacute;rio, a personagem usa os retratos como lugar de reconhecimento. Como o pr&oacute;prio refere “de reconhecimento daqueles que partiram”. A determina&ccedil;&atilde;o em preservar a figura dos mortos demonstra que J. Davenne n&atilde;o quer deixar partir quem amou, a personagem est&aacute; ali&aacute;s num mundo que n&atilde;o &eacute; bem o dos vivos mas tamb&eacute;m n&atilde;o ser&aacute; o das trevas. Como refere Jo&atilde;o Miguel Fernandes Jorge acerca de Truffaut e Ga&euml;tan “esses retratos parecem excluir o resto do mundo, para se encerrarem por detr&aacute;s dos limites da sua intimidade.” (Jorge, 2001: 195). Apenas no final veremos J. Davenne “castigado” pela sua vontade irracional de resgatar, qual Orfeu, a sua amada da morte.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O filme tem um in&iacute;cio peculiar. O rosto de Julien Davenne surge numa altera&ccedil;&atilde;o constante de planos com o rosto dos mortos, como se a morte estivesse j&aacute; inscrita, rasurada n&atilde;o mais do que epidermicamente no seu rosto. &Eacute; neste percurso, neste <i>path(os)</i> &oacute;rfico que J. Davenne vai construindo, recolhendo retratos da sua amada e, retomando a cita&ccedil;&atilde;o de Jo&atilde;o Miguel Fernandes Jorge em ep&iacute;grafe, parece clamar: “Vou chamar o retrato, aquele que se inclina para as chamas do inferno.” (Jorge, 2001: 199). Tal como em Ga&euml;tan </p>      <blockquote>     <p><i>N&atilde;o h&aacute; rosto, n&atilde;o h&aacute; autorretrato (do rosto) sem a comum viagem quotidiana, o que quer dizer sem a tr&aacute;gica proximidade da morte. Porque n&atilde;o h&aacute; rosto sem a lenta visita aos infernos, nem t&atilde;o-pouco h&aacute; retrato sem a paix&atilde;o mortal do desenhador: algu&eacute;m que soube deitar as m&atilde;os ao que &eacute; invis&iacute;vel, ao que j&aacute; desapareceu </i>(Jorge, 2001 :194)</p> </blockquote>      <p>O filme de Truffaut alude ao resgate do sujeito atrav&eacute;s de um exerc&iacute;cio mnem&oacute;nico estimulado pelo altar, resgate este que pode ser visto em Ga&euml;tan, como uma opera&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio rosto. Em <i>Nmkitpah</i> (1989), o rosto parece reclamar para si (um)a (das) sua m&aacute;scara(s) dizendo “n&atilde;o me deixes”. Como se o retrato se esquivasse ao rosto, o desenho mostra a m&aacute;scara e, por dentro, o oco. Os olhos s&atilde;o elididos e o interior revela-se ser um <i>creux</i>, nos termos em que Didi-Huberman o prop&otilde;e o termo.</p>      <p>A constru&ccedil;&atilde;o em s&eacute;rie traz consigo o indiz&iacute;vel, pois enquanto espectadores dos rostos perguntamos: de que retrato falar? E o seguinte rasurar&aacute; o anterior? </p>      <p>Nesta s&eacute;rie, mais do que um rosto definitivo ou uma tentativa serial de aproxima&ccedil;&atilde;o do rosto, parece-nos sobressair sobretudo uma for&ccedil;a. Uma for&ccedil;a que adv&eacute;m da rasura do seu pr&oacute;prio rosto, da pr&oacute;pria possibilidade do retrato. Como se cada pe&ccedil;a – rosto - da s&eacute;rie fosse atirada contra outra, n&atilde;o a anulando contudo, mas criando um percurso num palimpsesto geogr&aacute;fico do rosto, que n&atilde;o exprime sen&atilde;o um lugar metaf&iacute;sico, indiz&iacute;vel. Rosto contra rosto, ponto contra ponto, contraponto.</p>      <p> Derrida aponta que: “N&atilde;o h&aacute; auto-retrato sem confiss&atilde;o na cultura crist&atilde;. O autor do auto-retrato n&atilde;o se mostra, n&atilde;o ensina nada a Deus que antecipadamente sabe tudo (Agostinho n&atilde;o cessa de lembr&aacute;-lo). O auto-retratista n&atilde;o leva portanto ao conhecimento, confessa uma falta e pede perd&atilde;o.” (Derrida, 2010:121) Esta ora&ccedil;&atilde;o est&aacute; “sempre certa e sempre errada” e o retrato abre sempre o pr&oacute;ximo, j&aacute; que parte de um erro, erro este que nasce de outro e que proporcionar&aacute;, ainda, um novo erro. </p>      <p>Por&eacute;m, a utiliza&ccedil;&atilde;o da m&atilde;o esquerda por parte de Ga&euml;tan vai acrescentando outra problem&aacute;tica &agrave; quest&atilde;o do erro. Obviamente, a sucess&atilde;o de execu&ccedil;&otilde;es com a mesma m&atilde;o desenvolve uma destreza t&eacute;cnica que, apesar de involunt&aacute;ria, altera inevitavelmente o conceito de retrato engendrado pelo autor no in&iacute;cio dos anos oitenta. Sendo assim, quanto mais o artista se retrata, mais o retrato lhe foge e, parecendo paradoxal, a pergunta que parece sobressair &eacute; como desaprender a t&eacute;cnica apurada involuntariamente?</p>      <p>Didi-Huberman, em <i>O que n&oacute;s Vemos, o que nos Olha</i>, relembra o conceito medieval de <i>imago</i> em oposi&ccedil;&atilde;o ao <i>vestigium</i> e sugere que esta distin&ccedil;&atilde;o &eacute; fundamental para o que apelida de “trabalho de perda” (Didi-Huberman, 2011: 14). O <i>vestigium</i> traria assim “o vest&iacute;gio, o tra&ccedil;o, a ru&iacute;na”. Este pensamento revela-se an&aacute;logo &agrave; l&oacute;gica Derrida quando refere que “o ato de ver culmina[sse] sempre na experimenta&ccedil;&atilde;o t&aacute;ctil de um pano.” (<i>Idem</i>)Na aus&ecirc;ncia dos olhos, funcionam instintivamente as m&atilde;os, como num retrato de cegos.</p>      <p>Em <i>D’apr&egrave;s Nature</i> (1994), o autorretrato afasta-se definitivamente do conceito de imagem e explora o conceito de impress&atilde;o. Ao contr&aacute;rio dos autorretratos tratados anteriormente, <i>D’apr&egrave;s Nature </i>parece marcar um ponto de viragem na obra de Ga&euml;tan. Nesta obra, a elimina&ccedil;&atilde;o dos olhos parece acrescentar o car&aacute;ter ausente do autorretrato. Os tra&ccedil;os parecem dar lugar &agrave; impress&atilde;o do rasto, da ru&iacute;na. De todos as obras do autor, esta ser&aacute; porventura a que nos d&aacute; um eixo mais sim&eacute;trico em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; superf&iacute;cie. Estes conceitos de ru&iacute;na e de impress&atilde;o s&atilde;o indissoci&aacute;veis, na cultura ocidental, do sud&aacute;rio crist&atilde;o. Hans Belting trata sublimemente o conceito em <i>A Verdadeira Imagem</i> quando refere que o contacto com o v&eacute;u revela o verdadeiro corpo de Cristo, mas o sud&aacute;rio n&atilde;o revela ainda a imagem (essa surge numa fase posterior), mas antes a impress&atilde;o de Cristo. O facto de o conceito de impress&atilde;o surgir previamente em rela&ccedil;&atilde;o ao da imagem em si desagua na ideia de Didi-Huberman j&aacute; referida de oposi&ccedil;&atilde;o entre <i>vest&iacute;gio</i> e <i>imago</i>. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Assim, cremos poder enquadrar <i>D’apr&egrave;s Nature</i> na ideia de vest&iacute;gio e de impress&atilde;o em vez na de imagem. Neste autorretrato n&atilde;o h&aacute; uma “impress&atilde;o” no sentido de mancha, como no sud&aacute;rio, mas um rosto –ou a impress&atilde;o de rosto- que aparece do tra&ccedil;o. Se a in&eacute;pcia da m&atilde;o esquerda se vai transformando na t&eacute;cnica retrat&iacute;stica mais desenvolvida, os retratos caminham por&eacute;m para a impress&atilde;o, para o vest&iacute;gio, para a ru&iacute;na, para o impercet&iacute;vel.</p>      <p>Mesmo considerando a possibilidade da ironia no t&iacute;tulo da composi&ccedil;&atilde;o – o que n&atilde;o seria de estranhar em Ga&euml;tan - , este fazer de Ga&euml;tan coaduna-se, ali&aacute;s, com um fazer religioso. Castro Caldas lembrava que a arte de Ga&euml;tan ia abandonando a teatraliza&ccedil;&atilde;o para se tornar “num murm&uacute;rio quase impercet&iacute;vel (...). O teatro transforma-se numa esp&eacute;cie de prece cont&iacute;nua, recitada entre dentes pelos atores, cuja pose &eacute; mais um esgar e menos um sinal – absorta, desconcentrada.” (Caldas, 2008: 75-76) </p>  <b>Herberto Helder:<i> Retrato - Tema do excesso</i></b>      <p align="right"><i>Retrato – Tema     <br> do excesso.     <br> com a m&atilde;o esdr&uacute;xula, como trabalha a morte     <br> que trabalha. &Eacute; como tudo se cala.</i>     <br>     <p>Herberto Helder, <i>Kodak</i></p>      <p>Ao qualificar de “dram&aacute;tica” a experi&ecirc;ncia do pintor perante a tela, Deleuze reconhece que o ato de realiza&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica come&ccedil;a num momento anterior &agrave; execu&ccedil;&atilde;o do primeiro tra&ccedil;o, como o pr&oacute;prio refere: “[&eacute;] um erro acreditar que o pintor se encontra perante uma superf&iacute;cie branca.” (Deleuze, 2011:151). Com efeito, a tela j&aacute; est&aacute; preenchida de imagens, no sentido em que o artista j&aacute; tem os olhos inundados de “clich&eacute;s”, a primeira tarefa do artista ser&aacute; ent&atilde;o a de “esvaziar, desimpedir ou limpar a superf&iacute;cie” (<i>idem</i>), afastando-se assim de grande parte dos pressupostos figurativos apontados &agrave; pintura. Relembrando-nos o que Eduardo Louren&ccedil;o demonstrava quando referia que o artista moderno n&atilde;o reconhecia “nem modelo, nem formas como preexistentes refer&ecirc;ncia. &Eacute; do caos, de costas voltadas para a antiga luz (que &eacute; afinal o passado pictural) que deve retirar a nova luz, necess&aacute;ria para triunfar do deserto e da noite que o cercam e em que se converteu.” (Louren&ccedil;o, 1996: 55) </p>      <p>Este ato de devasta&ccedil;&atilde;o imag&eacute;tica da mem&oacute;ria destr&oacute;i a ideia referencial que poderia existir e que sustentaria “as rela&ccedil;&otilde;es entre modelo e c&oacute;pia” (Deleuze, 2011:151). Deleuze nota ainda que Bacon, por n&atilde;o reconhecer valor est&eacute;tico &agrave; fotografia, preferiu rodear-se de <i>photomatons</i> para a realiza&ccedil;&atilde;o dos seus retratos preterindo imagens que obedecessem a um c&oacute;digo visual e art&iacute;stico can&oacute;nico. O instant&acirc;neo ser&aacute; porventura mais propenso a capta&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as do que a fotografia que teria – e alguma ainda ter&aacute; – a ambi&ccedil;&atilde;o limitada &agrave; cadastragem de um sujeito. Tratar-se-ia, principalmente no caso de Bacon, de “captar for&ccedil;as” como lhe chamou Deleuze. Esta vis&atilde;o releva-se, ali&aacute;s, concomitante com pensamento de Adorno, quando referia a obra enquanto <i>tour de force</i>. Em <i>feixe de energia</i>, Herberto atesta o conceito de T. Adorno quando escreve:</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p><i>Que h&aacute; o mundo, e o mundo sai do corpo,</i></p>      <p><i>E existe a mem&oacute;ria carregada de formas, </i></p>      <p><i>E as formas s&atilde;o sustentadas pela energia</i></p>      <p><i>De um imagin&aacute;rio.</i></p>      <p><i>Porque o que se v&ecirc; no poema n&atilde;o &eacute; a apresenta&ccedil;&atilde;o da paisagem,</i></p>      <p><i>A narrativa das coisas, a hist&oacute;ria do trajecto, </i></p>      <p><i>Mas</i></p>      <p><i>Um n&oacute; de energia como de um olho &aacute;vido</i></p>      <p>(...)<i> o mundo com rosto de poema,</i></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>numa fuga, rapto ou fulgor,</i></p>      <p><i>um feixe de energia que se pensa como mundo</i></p>      <p>(Helder, 2006: 131)</p>  </blockquote>      <p>Este texto aponta o caminho da poesia herbertiana. Assim, a fuga da poesia a uma certa horizontalidade narrativa d&aacute; lugar &agrave; verticalidade “energ&eacute;tica” que escapa aos prop&oacute;sitos narrativos tradicionais. Acerca de autorretrato e autobiografia, Michel Beaujour havia apontado o car&aacute;ter horizontal da autobiografia – j&aacute; que este conceito obedece a uma l&oacute;gica temporal, sequencial-, ao contr&aacute;rio do retrato que se constr&oacute;i atrav&eacute;s de justaposi&ccedil;&otilde;es de anacronias e, assim, afirma a sua verticalidade. O autorretrato assume-se assim como o resultado de um processo de sobreposi&ccedil;&atilde;o. O “n&oacute; de energia” reenvia-nos para a no&ccedil;&atilde;o de dobra barroca deleuziana e, se n&atilde;o tomarmos o barroco como “essence, mais plut&ocirc;t &agrave; une fonction op&eacute;ratoire, &agrave; un trait.” (Deleuze, 2009: 5), ser&aacute; leg&iacute;timo afirmar que o n&oacute; (a dobra sobre si) tem uma presen&ccedil;a efetiva na poesia de Helder<a href="#13" name="top13">[13]</a>.</p>      <p>Quando Herberto Helder, no texto intitulado <i>desenho</i> (<i>Photomaton e Vox</i>), escreve que “O ponto n&atilde;o &eacute; estabelecer um sistema de refer&ecirc;ncias, instituir leis, consumar um mecanismo. Digo que o ponto &eacute; propiciar o aparecimento de um espa&ccedil;o, e exercer ent&atilde;o sobre ele a maior viol&ecirc;ncia” (Helder, 2006: 79) est&aacute; de certa forma a desmontar o sistema referencial tradicional: assim se, como o poeta refere em <i>Exemplos</i>, “a teoria era esta: arrasar tudo” (Helder: 2009a: 305) o “aparecimento do espa&ccedil;o” trata da ideia de desimpedimento da superf&iacute;cie de forma a fazer aparecer a palavra. Retomando o conceito de <i>vestigium</i> abordado por Didi-Huberman, n&atilde;o se trata de um vest&iacute;gio no sentido de ru&iacute;na, de morte, mas antes um aparecimento da palavra, ainda que residual quando pensamos em termos referenciais, mas que determina uma certa “ilegibilidade poeticamente controlada” como lhe chamou Pedro Eiras (2007: 136). &Eacute; necess&aacute;rio subtrair as imagens &agrave; vista, subtrair at&eacute; “propiciar espa&ccedil;o” para o poema. Esta subtra&ccedil;&atilde;o ao espa&ccedil;o &eacute; tamb&eacute;m uma subtra&ccedil;&atilde;o do rosto em Helder:</p>      <blockquote>     <p><i>Esse truque demon&iacute;aco de apagar de repente no espelho o empenhamento da nossa imagem, a evapora&ccedil;&atilde;o total dos ind&iacute;cios de que fomos espi&otilde;es de uma identidade, uma apaixonada liga&ccedil;&atilde;o, a magnific&ecirc;ncia do retrato – &eacute; isso que nos rouba o peso e subtrai a n&oacute;s mesmos, aos espelhos da mat&eacute;ria. </i>(Helder, 2006: 166)</p> </blockquote>      <p>A “magnific&ecirc;ncia do retrato” que Helder refere, &eacute;, afinal, a subtra&ccedil;&atilde;o e o “roubo”. A imagem &eacute; o resultado de uma dobra sobre si mesmo, a imagem refract&aacute;ria, devolvida pelo espelho que se dobra perante o olhar. </p>      <p>Se referimos anteriormente os mitos de Orfeu e de Perseu para ilustrar um certo fazer art&iacute;stico, vimos que estes mitos se sustentam, neste contexto, atrav&eacute;s da anula&ccedil;&atilde;o dos sentidos. Ora esta anula&ccedil;&atilde;o levaria a uma rasura da mem&oacute;ria e, consequentemente, &agrave; desaprendizagem de uma certa t&eacute;cnica. A obra de Herberto Helder, tal como a de Ga&euml;tan, parece-nos passar por este processo de esquecimento volunt&aacute;rio, de cegueira consentida para chegar &agrave; forma do desenho ou do poema. Eiras real&ccedil;a que “h&aacute; tamb&eacute;m o tacto como forma de saber (a tal ponto que, por vezes, o olhar parece tornar-se uma esp&eacute;cie de tacto [...] e a ambiguidade da m&atilde;o, que ora escreve, ora destr&oacute;i; ora conhece, ora perde.” (Eiras, 2007: 136). O tacto herbertiano, tal como Eiras o prop&otilde;e, reflete o que Didi-Huberman referia sobre o trabalho de perda, ou “como se o acto de ver culminasse sempre na experimenta&ccedil;&atilde;o t&aacute;ctil de um pano [<i>pan</i>] erguido diante de n&oacute;s.”(Didi-Huberman, 2011: 11).</p>      <p>O fil&oacute;sofo franc&ecirc;s recuperava esta aporia atrav&eacute;s de <i>Ulisses</i>, de James Joyce. Assim, a express&atilde;o “shut your eyes and see”, proferida por Stephen Dedalus, relaciona-se a interroga&ccedil;&atilde;o que a mesma personagem colocava diante do espelho (“Quem me escolheu este rosto?”) como que petrificado pela realidade medusante. Esta insustentabilidade do rosto em rela&ccedil;&atilde;o ao “eu” est&aacute; desde logo presente na pergunta e da&iacute; o estranhamento que suscita a frase “Quem me escolheu este rosto?”. Primeiro, o ato de contempla&ccedil;&atilde;o do rosto implica uma experi&ecirc;ncia de natureza autosc&oacute;pica e o consequente afastamento do rosto do “eu”. Segundo, ao destacar o rosto, ao v&ecirc;-lo fora de si, estamos sempre a perder. O fazer po&eacute;tico de Herberto Helder revela-se num trabalho &oacute;rfico no sentido em que, &agrave; imagem de Orfeu, a anula&ccedil;&atilde;o dos sentido ocorre para se reunirem num outro, dir&iacute;amos extrassensorial, al&eacute;m da palavra e al&eacute;m do corpo da poesia: “O dram&aacute;tico esfor&ccedil;o de Orfeu, que desce aos infernos para reunir a sua dispers&atilde;o na unidade final do canto, &eacute; tarefa para cada um – e isso baste, mesmo que n&atilde;o sirva para nada, al&eacute;m de servir para a poss&iacute;vel salva&ccedil;&atilde;o de quem nela se empenhe.” (Helder, 2006: 134). A ideia de salva&ccedil;&atilde;o resulta da necessidade de reunifica&ccedil;&atilde;o para a unidade, mas para uma unidade, tal como Pedro A. H. Paix&atilde;o j&aacute; havia referido, na voz impercet&iacute;vel<a href="#14" name="top14">[14]</a> ou, na terminologia herbertiana, na <i>vox</i>. O conceito de voz em Helder aproximar-se-ia, assim, do conceito de pneuma. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em <i>os of&iacute;cios da vista</i>,texto inclu&iacute;do em<i> Photomaton e Vox</i>, a quest&atilde;o da cegueira &eacute; explorada como caminho para a sabedoria, o <i>ver</i> &eacute; aqui retratado como uma atividade insuport&aacute;vel, como se de um crime se tratasse.</p>      <blockquote>     <p><i>Preciso de &oacute;cio, dizia ele, preciso dos meus olhos, quero ver como &eacute;. E viu como era. Viu o ritmo humano estabelecendo rela&ccedil;&otilde;es no espa&ccedil;o, viu as coisas entre si, o movimento primitivo dos animais, os ciclos vegetativos, as imagens nocturnas e diurnas. </i>(...)<i> J&aacute; tenho a minha sabedoria, disse o &uacute;ltimo homem, estou triste. E fechou os olhos, porque estava cansado da sua ci&ecirc;ncia da vis&atilde;o. Quero morrer </i>(...)<i> Esta &eacute; a minha sabedoria, tenho os olhos queimados.</i> (Helder, 2006: 108-110)</p> </blockquote>      <p>A vis&atilde;o do mundo, do “ritmo”, das “rela&ccedil;&otilde;es” e do “movimento” queimam os olhos, ou, nos termos derridianos j&aacute; propostos, petrificam. O acerto faz-se precisamente pelo tipo de cegueira que Helder refere em <i>A faca n&atilde;o corta o fogo</i>:</p>      <blockquote>     <p><i>se me vendam os olhos, eu, o arqueiro! Acerto</i></p>      <p><i> em cheio porque n&atilde;o o vejo:</i></p>      <p><i> por pensamento e paix&atilde;o,</i></p>      <p><i> ou porque foi t&atilde;o sentido o vento a luzir nos bot&otilde;es dos salgueiros,</i></p>      <p><i> como se atirasse do outro lado do vento,</i></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i> ou na solid&atilde;o de um sonho,</i></p>      <p><i> ou como se tudo fosse o mesmo: flecha e alvo –</i></p>      <p><i>e </i></p>      <p><i> cego</i></p>      <p><i> acerto em cheio: </i></p>      <p><i>porque n&atilde;o quero.</i></p>      <p>(Helder, 2009a: 607)</p> </blockquote>      <p>O acertar no alvo acontece por cegueira e, “como se tudo fosse o mesmo: flecha e alvo” (ou m&atilde;o e tra&ccedil;o, arriscamos n&oacute;s), acontece por n&atilde;o querer, pois a vontade retrat&iacute;stica &eacute;, afinal, sin&oacute;nimo de uma certa impossibilidade retrat&iacute;stica. Esta impossibilidade &eacute;, ali&aacute;s, extens&iacute;vel &agrave; arte mais figurativa, a mesma impossibilidade que Herberto aborda num dos seus mais famosos textos, <i>Teoria das Cores</i>. Neste texto, o artista debate-se com a constante transforma&ccedil;&atilde;o do objeto retratado, sem nunca saber o que “agarrar”<a href="#15" name="top15">[15]</a>. O que acontece ao pintor &eacute; precisamente o momento de cegueira, o que o leva a acertar, porque n&atilde;o quisera, porque n&atilde;o ca&iacute;ra na “ins&iacute;dia do real” (<i>idem</i>). </p>      <p>Vimos, no texto <i>of&iacute;cio da vista</i>, que a cegueira parece ser a chave do of&iacute;cio que &eacute; escrever e vimos, acerca de Ga&euml;tan, como a anula&ccedil;&atilde;o dos olhos proporciona, no mito de Orfeu, o surgimento da voz, da alma.</p>      <p>O texto <i>Desenho</i>, inclu&iacute;do em <i>Photomaton &amp; Vox</i>, real&ccedil;a esta aus&ecirc;ncia do sistema referencial, favorecendo antes o “aparecimento de um novo espa&ccedil;o”. O texto inicia-se da seguinte forma:</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p><i>O ponto n&atilde;o &eacute; estabelecer um sistema de refer&ecirc;ncias, instituir leis, consumar um mecanismo. Digo que o ponto &eacute; propiciar o aparecimento de um espa&ccedil;o, e exercer ent&atilde;o sobre ele a maior viol&ecirc;ncia. Como se o metal acabasse por chegar &agrave;s m&atilde;os – e bat&ecirc;-lo depois com toda a for&ccedil;a e todos os martelos. At&eacute; o espa&ccedil;o ceder, at&eacute; o metal ganhar uma forma que surpreenda as pr&oacute;prias m&atilde;os. </i>(Helder, 2006: 79)</p> </blockquote>      <p>No artigo “Em torno e depois de <i>Ou o Poema Cont&iacute;nuo</i>”, Pedro Eiras coloca uma quest&atilde;o que parece ser denominador comum a todos os estudiosos da obra herbertiana. Como ler Herberto Helder? O singular m&eacute;todo organizacional do poeta quanto &agrave; publica&ccedil;&atilde;o dos seus livros abre portas, antes ainda de mergulharmos na obra, para duas vias interpretativas. Poderemos considerar as reedi&ccedil;&otilde;es da obra herbertiana como anula&ccedil;&atilde;o das posteriores ou deveremos atender &agrave; obra como um todo org&acirc;nico que supera o seu corpo provis&oacute;rio?</p>      <p>Considerar os textos olvidados nas mais recentes reedi&ccedil;&otilde;es leva ainda a considerar outro aspecto. Que lugar ocupariam estes textos? Seriam parte de um corpo palimps&eacute;stico no qual se v&atilde;o acumulando planos e sobreposi&ccedil;&otilde;es, rasuras e tra&ccedil;os que, afinal, atuam na mesma superf&iacute;cie est&eacute;tica? O que equivale a perguntar que plano ocupa cada texto na obra po&eacute;tica de Herberto Helder. A arte contempor&acirc;nea parece esquecer o que a planos diz respeito e, como notou Diogo, “tratar-se-ia da elis&atilde;o do abjecto, pela indistin&ccedil;&atilde;o, o longe o vago e o sublimado dos &uacute;ltimos planos.” (Diogo, 1990:11). Assim, a obra poder&aacute; jogar com uma indistin&ccedil;&atilde;o de planos, sem nunca perder o seu sentido primeiro. Parece-nos haver, neste constante movimento frente-tr&aacute;s, uma indeterminabilidade em rela&ccedil;&atilde;o ao que constitui o objeto est&eacute;tico. Porque, como aponta Eiras, a poesia herbertiana pauta-se pela indetermina&ccedil;&atilde;o interpretativa. A obra ocupa assim um limbo interpretativo determinado pela “ilegibilidade poeticamente controlada”. A poesia herbertiana trata do indiz&iacute;vel, oculto, de uma certa impossibilidade hermen&ecirc;utica, da ilegibilidade<a href="#16" name="top16">[16]</a> . Confrontamo-nos assim com uma obra que, n&atilde;o sendo mat&eacute;ria (totalmente) ileg&iacute;vel, ressalva um qualquer grau de indetermina&ccedil;&atilde;o.</p>      <p>A promessa adiada <i>ad aeternum </i>de sil&ecirc;ncio parece insistir no car&aacute;ter paradoxal da obra que se reescreve, ganha um corpo consideravelmente ampliado. Pois o caminho para o sil&ecirc;ncio n&atilde;o se pavimenta no vazio ou na n&atilde;o-fala, mas antes aponta, ao inv&eacute;s, para o invis&iacute;vel, para o impercet&iacute;vel. Em <i>a</i> <i>carta do sil&ecirc;ncio</i>, Herberto Helder refere que </p>      <blockquote>     <p><i>H&aacute; &agrave;s vezes uma tal veem&ecirc;ncia no sil&ecirc;ncio que surge inquirir se a poesia n&atilde;o &eacute; uma pr&aacute;tica para o sil&ecirc;ncio. A poesia vem dele, atravessa-o na pauta verbal como se apurasse a subtileza de um timbre &uacute;ltimo, evapor&aacute;vel. Atravessa-o ent&atilde;o e procura-o no pr&oacute;prio centro onde nasceu. H&aacute; uma tens&atilde;o extenuante neste movimento do sil&ecirc;ncio sobre si mesmo. </i>(Helder, 2006: 162)</p> </blockquote>      <p>Esta “tens&atilde;o extenuante” resulta da dobra do “sil&ecirc;ncio sobre si mesmo”. A obra configura-se ent&atilde;o como sil&ecirc;ncio, mas um “sil&ecirc;ncio murmurante”, como que em <i>pneuma</i>.</p>      <p>A ilustra&ccedil;&atilde;o de <i>A Faca n&atilde;o Corta o Fogo</i> (2008), da autoria de Ilda David, parece oferecer, em termos ilustrativos, o que temos vindo a referir. Concedendo pouco em termos paisag&iacute;sticos (a figura est&aacute; centrada em fundo negro), a ilustra&ccedil;&atilde;o serve os mesmos prop&oacute;sitos que <i>Saturno devorando a sus hijos</i>, de Goya, aquando a publica&ccedil;&atilde;o de <i>Ou o Poema Cont&iacute;nuo</i>. Da boca, atrav&eacute;s da l&iacute;ngua, surge a obra, pouco definida, confundindo-se assim com a m&atilde;o sinistra como que em pneuma. Como se as seiscentas e vinte e tr&ecirc;s p&aacute;ginas que se encerram entre as duas ilustra&ccedil;&otilde;es de Ilda David fossem metaforicamente condensadas em pneuma. Em <i>Do mundo</i>, o elemento &eacute; referido da seguinte forma “ – como se diz: pneuma, / terr&iacute;fica &eacute; a terra e no entanto nada mais do que um pouco: / criar mat&eacute;rias -.” e assim se apresenta a obra de Herberto: como uma m&aacute;quina de “criar mat&eacute;rias” que, embora n&atilde;o referenciais, ocupam-se do oculto ou, se preferirmos, do ar, do fogo, do sopro, da alma, de uma quintess&ecirc;ncia. </p>      <p>Contrariando o conceito dado por Diogo, o oculto acaba por ser uma fun&ccedil;&atilde;o do autorretrato em detrimento da autobiografia, mas em concord&acirc;ncia com a sua vis&atilde;o de “mat&eacute;ria ileg&iacute;vel” numa “luz matizada” – ou num fundo de Goya ou de Ilda David - que “opera do lado de fora da necessidade, e torna vis&iacute;vel a luz da obra com a sombra que lhe mente.”. Devora-se a energia, recriada em mat&eacute;ria impercet&iacute;vel, mas o impercet&iacute;vel acaba por ser a l&iacute;ngua de Herberto Helder<a href="#17" name="top17">[17]</a>, o poema. Este idioma constitui-se pelo processo de assimila&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria primitiva para depois a expelir em poema. Lu&iacute;s Maffei notava acerca da ilustra&ccedil;&atilde;o de <i>Ou o Poema Cont&iacute;nuo</i></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p><i>o poeta devora o poema ou pelo poema &eacute; devorado </i>(...)<i> o poeta devora o “idioma b&aacute;rbaro” e produz o poema, vomitado, cuspido: assim devolveu Saturno os filhos que havia devorado, assim devolve o poema ao mundo, em forma de poemas, o que ingerira como “b&aacute;rbaro” alimento. </i>(Maffei, 2007: 459)</p> </blockquote>      <p>Este processo revela-se an&aacute;logo &agrave;quele que Lu&iacute;s Miguel Nava apontava em <i>Os Comedores de Espa&ccedil;o</i>, do livro <i>Vulc&atilde;o</i>:</p>      <blockquote>     <p><i>Nada indicava que atr&aacute;s deles n&atilde;o surgissem criadores de espa&ccedil;o capazes de repor as coisas nos devidos lugares ou que os pr&oacute;prios comedores n&atilde;o pudessem vomitar tudo o que haviam devorado. Mas mesmo nesta circunst&acirc;ncia o mais prov&aacute;vel era que o espa&ccedil;o, transformado entretanto nas entranhas de quem deglutira, pouco tivesse j&aacute; a ver com o que os habitantes haviam conhecido, nele se misturando coisas que os comedores trouxessem na mem&oacute;ria e que decerto lhe viriam agarradas quando violentamente o expelissem. </i>(Nava, 2002: 256)</p> </blockquote>      <p>As palavras de Nava parecem inscrever-se no processo herbertiano de poema e confluem no que Herberto chama de &laquo;idioma b&aacute;rbaro&raquo;, pertencente a um espa&ccedil;o que lhe &eacute; – sempre – exterior para produzir o lugar-poema na sua devolu&ccedil;&atilde;o ao mundo depois de metamorfosear o real. O processo de cria&ccedil;&atilde;o prov&eacute;m, tamb&eacute;m, da rasura. </p>      <p>Em conclus&atilde;o, poder&iacute;amos apontar conceitos como o apagamento, o impercet&iacute;vel e o sil&ecirc;ncio para tra&ccedil;ar aquilo que nos parece constituir marcas da autorretrat&iacute;stica contempor&acirc;nea. Os exemplos propostos parecem demonstrar uma tend&ecirc;ncia para a fuga &agrave; representatividade e, ao vermos que os autorretratos de Ga&euml;tan jogam constantemente com as no&ccedil;&otilde;es de representatividade, percebe-se que as suas obras colocam em causa o pr&oacute;prio conceito de autorretrato. Na poesia de Herberto Helder, o retrato - o “photomaton” - &eacute;, &agrave; imagem de um autorretrato de Ga&euml;tan, um processo que caminha para o invis&iacute;vel, para uma camada de sil&ecirc;ncio que se acumula em sucessivas sobreposi&ccedil;&otilde;es e que constitui a poesia herbertiana. Mais do que a constru&ccedil;&atilde;o do rosto, existe, em Ga&euml;tan e Helder, a sua constru&ccedil;&atilde;o constante ou a capta&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as em esfor&ccedil;o numa “tens&atilde;o extenuante” (Helder, 2006: 162), tens&atilde;o que poderia revelar-se a mesma que a m&atilde;o esquerda de Ga&euml;tan usa para “executar” o retrato, ou “a(ssa)ssinar” o rosto, na terminologia herbertiana.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>Adorno, Teodor W. (2008) <i>Teoria est&eacute;tica,</i> Lisboa, Edi&ccedil;&otilde;es 70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000122&pid=S0807-8967201200030000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Albright, Daniel (2000) <i>Untwisting the serpent: modernism in music, literature, and other arts</i>, Chicago, The Chicago University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000124&pid=S0807-8967201200030000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Belting, Hans (2011) <i>A verdadeira imagem</i>, Porto, Dafne Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000126&pid=S0807-8967201200030000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Beaujour, Michel (1980) <i>Miroirs d’encre. Rethorique de l’autoportrait</i>, Paris, Editions du Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000128&pid=S0807-8967201200030000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Caldas, Manuel C. (2008) <i>Dar coisas aos nomes. Escritos sobre arte e outros textos</i>, Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000130&pid=S0807-8967201200030000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Deleuze, Gilles (2009) <i>Le Pli. Leibniz et le baroque</i>, Paris, Les &Eacute;ditions de Minuit.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000132&pid=S0807-8967201200030000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>-------------- (2011) <i>Francis Bacon. L&oacute;gica da sensa&ccedil;&atilde;o</i>, Lisboa, Orfeu Negro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000134&pid=S0807-8967201200030000300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Derrida, Jacques (2010) <i>Mem&oacute;rias de cego. O auto-retrato e outras ru&iacute;nas</i>, Lisboa, Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000136&pid=S0807-8967201200030000300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Didi-Huberman, Georges (2003) <i>Images malgr&eacute; tout</i>, Paris, Les &Eacute;ditions de Minuit.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000138&pid=S0807-8967201200030000300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>--------------, Georges (2011) <i>O que n&oacute;s vemos, o que nos olha</i>, Porto, Dafne Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000140&pid=S0807-8967201200030000300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Diogo, Am&eacute;rico (1990) <i>Herberto Helder:</i> <i>texto da met&aacute;fora. Met&aacute;fora do texto</i>, Coimbra, Almedina.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000142&pid=S0807-8967201200030000300011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Eiras, Pedro (2007) <i>A lenta vol&uacute;pia de cair: ensaios sobre poesia</i>, Vila Nova de Famalic&atilde;o, Quasi Edi&ccedil;&otilde;es.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000144&pid=S0807-8967201200030000300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Gil, Jos&eacute; (2005) <i>A imagem- nua e as pequenas percep&ccedil;&otilde;es- est&eacute;tica e metafenomenologia</i>, Lisboa, Rel&oacute;gio D' &Aacute;gua Editores.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000146&pid=S0807-8967201200030000300013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Helder, Herberto (2006) <i>Photomaton &amp; vox</i>, Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000148&pid=S0807-8967201200030000300014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>------------ (2008) <i>A Faca n&atilde;o corta o fogo</i>, Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000150&pid=S0807-8967201200030000300015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>------------ (2009a) <i>Of&iacute;cio cantante</i>. Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000152&pid=S0807-8967201200030000300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>------------ (2009b) <i>Os passos em volta</i>, Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000154&pid=S0807-8967201200030000300017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Jorge, Jo&atilde;o M. (2001) <i>Sombras,</i> Lisboa, Rel&oacute;gio D&acute;&Aacute;gua.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000156&pid=S0807-8967201200030000300018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Louren&ccedil;o, Eduardo (1996) <i>O espelho imagin&aacute;rio</i>, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000158&pid=S0807-8967201200030000300019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Maffei, Lu&iacute;s. (2007) <i>Do mundo em Herberto Helder. </i>Tese de Doutorado em Letras, Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, UFRJ.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000160&pid=S0807-8967201200030000300020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Martelo, Rosa M. (2009) “Em que l&iacute;ngua escreve Herberto Helder?”, <i>Diacr&iacute;tica</i>, 23/3 pp.151-169.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000162&pid=S0807-8967201200030000300021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Medeiros, Margarida (2010) <i>Fotografia e verdade. Uma hist&oacute;ria de fantasma</i>, Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000164&pid=S0807-8967201200030000300022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Nava, Lu&iacute;s M. (2002) <i>Poesia completa. 1979-1994</i>, Lisboa, Dom Quixote.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000166&pid=S0807-8967201200030000300023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Paix&atilde;o, Pedro A. H. (2008) <i>Desenho. A transpar&ecirc;ncia do desenho.</i> Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000168&pid=S0807-8967201200030000300024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Plat&atilde;o (2003) <i>F&eacute;don ou acerca da alma</i> (Trad. El&iacute;sio Gala), Lisboa, Guimar&atilde;es Editores.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000170&pid=S0807-8967201200030000300025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Ribeiro, Eunice (2009). “O sombrio trabalho da beleza.”, <i>in Diacr&iacute;tica</i>, 23/3 (2009: 23.49)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000172&pid=S0807-8967201200030000300026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Str&aacute;nsk&aacute;, Lenk&aacute; (2002) “Jean S&eacute;bastien Bach, une figure incontournable dans les arts plastiques: la fugue telle qu’elle est per&ccedil;ue par les plasticiens au vingti&egrave;me si&egrave;cle.”, in Jiri Fukac, Alena Mizerov&aacute;, Vladim&iacute;r Strakos (ed.) <i>Bach 2000: music between Virgin Forest and knowledge society</i>, Santiago de Compostela, Compostela Group Universities.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000173&pid=S0807-8967201200030000300027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><a href="#top1" name="1">[1]</a> Em <i>Images malgr&eacute; tout</i>, Didi-Huberman retoma as palavras de G&eacute;rard Wajcman para defender esta no&ccedil;&atilde;o “de image-bouclier”: “La photographie, m&ecirc;me la plus crue, la plus exacte de ce qui se passait, toute image de l'horreur est un voile de l'horreur; toute image, parce qu'elle est image, nous prot&egrave;ge de l'horreur.” (Wajcman <i>apud</i> Didi-Huberman, 2003: 204)</p>      <p><a href="#top2" name="2">[2]</a> Acerca do erro, a interpreta&ccedil;&atilde;o da cegueira derridiana passa pelo conceito e a refer&ecirc;ncia do autor ao jogo da cabra cega, implica, obviamente a componente err&aacute;tica do autorretrato.</p>      <p><a href="#top3" name="3">[3]</a> Note-se os apontamentos de Derrida acerca do <i>kune</i> de Hades (2010: 90)</p>      <p><a href="#top4" name="4">[4]</a> Na primeira parte de <i>Fotografia e Verdade</i>, Margarida Medeiros (2010) abre o primeiro cap&iacute;tulo referindo esta rela&ccedil;&atilde;o entre fotografia e puls&atilde;o de morte e desenvolve a quest&atilde;o dos retratos de mortos numa perspetiva historicista.</p>      <p><a href="#top5" name="5">[5]</a> Vejam-se as notas de Paix&atilde;o acerca da diferen&ccedil;a entre voz e alma (2008: 85).</p>      <p><a href="#top6" name="6">[6]</a> El&iacute;sio Gala refere “H&aacute; um jogo de palavras entre <i>aides</i> ‘invis&iacute;vel’<i> e Haides</i> ‘Hades’ bem como entre Hades e como destino das almas dos mortos e Hades como o Deus que as preside. A etimologia de Hades como o ‘Invis&iacute;vel’, sendo de uso popular, permite uma aproxima&ccedil;&atilde;o ao valor espiritual que decorre, de atribuir ao Invis&iacute;vel a pura sabedoria que as divindades ct&oacute;nicas ou infernais possu&iacute;am (Cr&aacute;tilo, 404a), perto das quais a alam purificada encontra asilo.” (2003: 32)</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top7" name="7">[7]</a> Derrida notava que, em retratos de cegos, as m&atilde;os ganhavam import&acirc;ncia especial por substitu&iacute;rem sensorialmente o olho.</p>      <p><a href="#top8" name="8">[8]</a> Partilhamos assim a vis&atilde;o de Jos&eacute; Gil em “A arte do retrato”, quando afirma que o que se v&ecirc; quando se julga captar um rosto “n&atilde;o [&eacute;] o conjunto de sinais expressivos vis&iacute;veis, n&atilde;o o fundo informe invis&iacute;vel ou o “deserto” &agrave; superf&iacute;cie, mas <i>a curva</i> que desenha o cont&iacute;nuo das pequenas percep&ccedil;&otilde;es.” (Gil, 2005:35)</p>      <p><a href="#top9" name="9">[9]</a> Na sua etimologia, <i>path</i> e <i>pathos</i> partilham a mesma raiz. O <i>path</i> n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o um caminho sinuoso at&eacute; chegar ao destino. N&atilde;o deixa de ser curioso o facto de uma personagem ter muitas vezes de seguir este caminho para se tornar her&oacute;i.</p>      <p><a href="#top10" name="10">[10]</a> Castro Caldas (2008:74) refere-se &agrave; s&eacute;rie <i>Contra-mundum </i>como “um permanente teatro do gesto”.</p>      <p><a href="#top11" name="11">[11]</a> “Jean S&eacute;bastien Bach, une figure incontournable dans les arts plastiques: la fugue telle qu’elle est per&ccedil;ue par les plasticiens au vingti&egrave;me si&egrave;cle.”</p>      <p><a href="#top12" name="12">[12]</a> “Le haut et le bas: l’accord parfait de la scission, ou la r&eacute;solution de la tension, se fait par la distribuition de deux &eacute;tages &eacute;tant d’un seul et m&ecirc;me monde (la ligne d’univers). La mati&egrave;re-fa&ccedil;ade va en bas, tandis que l’&acirc;me-chambre monte. Le plis infini passe donc deux &eacute;tages.” (Deleuze, 2009: 49)</p>      <p><a href="#top13" name="13">[13]</a> Para as rela&ccedil;&otilde;es entre barroco e Herberto Helder, veja-se o artigo de Eunice Ribeiro (2009) <i>O Sombrio Trabalho da Beleza</i>.</p>      <p><a href="#top14" name="14">[14]</a> Acerca da voz e do mito de Orfeu, vejam-se as nota n&ordm;. 5 e 6.</p>      <p><a href="#top15" name="15">[15]</a> “Os elementos do problema constitu&iacute;am-se na observa&ccedil;&atilde;o dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro atrav&eacute;s do pintor.” (Helder, 2009b: 21)</p>      <p><a href="#top16" name="16">[16]</a> Parece consensual a ideia de ilegibilidade na poesia de Herberto, veja-se o primeiro de <i>A Alquimia da Linguagem</i> Del Farra (1986), porventura um dos estudos mais importantes para a leitura de Herberto Helder onde a autora explora exaustivamente o conceito de ileg&iacute;vel.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top17" name="17">[17]</a> Note-se o artigo de Rosa Maria Martelo, “Em que L&iacute;ngua escreve Herberto Helder?”, na qual a autora refere acerca do poema “Retrato obl&iacute;quo...” que “caminha para o excesso, para o fogo e para uma intensidade absoluta” (Martelo, 2009: 166)</p>       ]]></body><back>
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