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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The present essay presents a way of conceiving a relation of inseparability between a person and her own life. This kind of relation will turn out to be an alternative to Diderot’s intuition that a person is a succession of necessary effects. The resulting idea is a connection between the relation one has with one’s own life and the way we choose to explain such life.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p> <b>&Eacute;tica e Narratividade</b> </p>     <p><b>Ethics and Narrativity</b></p>     <p> <b>Ana Almeida*</b> </p>     <p> *Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal. </p>      <p><a href="mailto:djaimilia@gmail.com">djaimilia@gmail.com</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>     <p>     <p>No presente ensaio apresenta-se um modo de conceber uma rela&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade entre uma pessoa e a sua pr&oacute;pria vida. A conce&ccedil;&atilde;o deste modo de rela&ccedil;&atilde;o revelar-se-&aacute; uma alternativa &agrave; intui&ccedil;&atilde;o de Diderot de que uma pessoa &eacute; uma sucess&atilde;o de efeitos necess&aacute;rios. O resultado &eacute; a ideia de uma liga&ccedil;&atilde;o entre um modo de conceber a rela&ccedil;&atilde;o de uma pessoa com a sua vida e o modo como escolhemos explicar essa vida.</p> </p>     <p><b>Palavras-chave</b>: Inseparabilidade; virtude; Diderot; Michael Thompson.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p> <b>ABSTRACT</b> </p>     <p>     <p>The present essay presents a way of conceiving a relation of inseparability between a person and her own life. This kind of relation will turn out to be an alternative to Diderot’s intuition that a person is a succession of necessary effects. The resulting idea is a connection between the relation one has with one’s own life and the way we choose to explain such life.</p> </p>     <p><b>Keywords</b>: Inseparability; virtue; Diderot; Michael Thompson.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Em <i>Life and Action</i>, Michael Thompson sublinha a possibilidade de atribuirmos um car&aacute;ter n&atilde;o-acidental a certos processos naturais. A defini&ccedil;&atilde;o de processo natural a que o seu coment&aacute;rio se adequa pode coincidir com aquilo a que de modo muito gen&eacute;rico poder&iacute;amos designar por processos n&atilde;o &eacute;ticos, em particular, processos que de acordo com uma sugest&atilde;o da <i>&Eacute;tica a Nic&oacute;maco</i> (EN 1103a20), Arist&oacute;teles descreveria como ‘insuscet&iacute;veis ao h&aacute;bito’. Exemplo de tais processos seriam a queda das pedras quando atiradas ao ar e a dire&ccedil;&atilde;o em que o fogo arde. No caso de Thompson, &agrave; categoria gen&eacute;rica de processos n&atilde;o &eacute;ticos pertenceriam aqueles a que chama “processos vitais”, entre os quais a reprodu&ccedil;&atilde;o nos seres vivos: </p>      <p>Aquilo que perdemos, ou perdemos mais claramente, na imagem fisicalista superficial da reprodu&ccedil;&atilde;o &eacute; qualquer conce&ccedil;&atilde;o da unidade entre uma coisa e as suas circunst&acirc;ncias como potencialmente <i>n&atilde;o-acidental</i>. Um organismo passar a existir em circunst&acirc;ncias tais que tendem para a sua reprodu&ccedil;&atilde;o <i>&eacute;, em si mesma, tipicamente uma opera&ccedil;&atilde;o vital</i>, ou uma fase de um processo de vida e, portanto, num certo sentido, &eacute; um ‘n&atilde;o-acidente’. Uma semente de dente-de-le&atilde;o cair em solo reprodutivo apto pode parecer fortuito, mas a sua origem, por uma esp&eacute;cie de estratagema da vegeta&ccedil;&atilde;o, faz desse acidente um n&atilde;o-acidente, mais obviamente atrav&eacute;s da produ&ccedil;&atilde;o de tanta semente. (Thompson, 2008, 52)</p>      <p>Este car&aacute;ter n&atilde;o-acidental dos processos naturais em geral pode aplicar-se a outros exemplos desses processos, os quais, como tal, n&atilde;o se relacionam com o ‘sinal de vida’ discutido por Thompson de ‘manter-se a si mesmo como o mesmo’, a que corresponderia o facto de que coisas vivas v&ecirc;m de coisas vivas. A este respeito, a sua discuss&atilde;o parte do pressuposto hipot&eacute;tico de que, em rela&ccedil;&atilde;o a seres vivos, “A partir de um dado U, outro U pode passar a existir” (Thompson, 2008, 51), o que n&atilde;o significaria nem que tal acontecesse em todos os casos, nem que os casos em que n&atilde;o acontecesse poriam em quest&atilde;o, quer a distin&ccedil;&atilde;o de U, quer a sua vitalidade. O mesmo pressuposto hipot&eacute;tico, ali&aacute;s, n&atilde;o implicaria sequer que “a partir de um dado U, outro U pudesse passar a existir <i>fosse em que circunst&acirc;ncias fosse</i>” (Thompson, 2008, 51). A verifica&ccedil;&atilde;o da particularidade das circunst&acirc;ncias requeridas, que, na passagem citada, correspondem tanto ao que chama “estratagema da vegeta&ccedil;&atilde;o”, quanto &agrave; “produ&ccedil;&atilde;o de tanta semente”, &eacute; o que nos permite referirmo-nos, afinal, ao car&aacute;ter n&atilde;o-acidental de certos acidentes. </p>      <p>Outros exemplos do mesmo car&aacute;ter n&atilde;o-acidental seriam fornecidos, podemos admitir, por outros processos vitais (e.g. a respira&ccedil;&atilde;o dos humanos) e pelos posicionamentos particulares por estes requeridos: i.e. por v&aacute;rios exemplos de processos n&atilde;o &eacute;ticos.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Regressemos, contudo, ao excerto do ensaio de Thompson, a fim de esclarecer o objeto do car&aacute;ter n&atilde;o-acidental de certos processos vitais. “Numa imagem fisicalista superficial da reprodu&ccedil;&atilde;o” perder&iacute;amos, afirma, “qualquer conce&ccedil;&atilde;o da unidade entre uma coisa e as suas circunst&acirc;ncias como potencialmente n&atilde;o-acidental”. Para Thompson, n&atilde;o &eacute; acidente que onde cai uma semente de dente-de-le&atilde;o exista terra apta ao desenvolvimento dessa semente — a coisa e as suas circunst&acirc;ncias — apesar de esse lugar ser ‘um fruto do acaso’. N&atilde;o-acidental seria nesse caso a <i>liga&ccedil;&atilde;o</i> entre a semente cair num lugar e existir nesse lugar terra f&eacute;rtil (mesmo que pudesse n&atilde;o haver e algumas vezes n&atilde;o haja, poderia acrescentar-se). Nos termos de Thompson, n&atilde;o &eacute; acidental que na vizinhan&ccedil;a de roseiras exista terreno prop&iacute;cio ao desenvolvimento de roseiras, caso contr&aacute;rio n&atilde;o encontrar&iacute;amos roseiras a&iacute;.</p>      <p>Como referimos, podemos considerar a aplicabilidade do mesmo argumento a outros processos naturais, atentando ao car&aacute;ter possivelmente n&atilde;o-acidental de outros tipos de vizinhan&ccedil;a. Pensar, por exemplo, no car&aacute;ter n&atilde;o-acidental da exist&ecirc;ncia de um pulm&atilde;o esquerdo perto de um pulm&atilde;o direito em muitas esp&eacute;cies de animais — pensamento que emprestaria um car&aacute;ter igualmente n&atilde;o-acidental aos processos vitais dependentes de tal posicionamento.</p>      <p>Ter&iacute;amos, deste modo, acumulado exemplos de o que &eacute;, para Thompson, a unidade entre uma coisa e as suas circunst&acirc;ncias, mas n&atilde;o ter&iacute;amos esclarecido o uso lingu&iacute;stico mais obscuro do excerto citado. Thompson refere-se a “qualquer conce&ccedil;&atilde;o da unidade entre uma coisa e as suas circunst&acirc;ncias como <i>potencialmente</i> n&atilde;o-acidental” (it&aacute;lico meu). A obscuridade reside no seu uso do adv&eacute;rbio ‘potencialmente’. &Eacute; mais simples perceber de que modo na vizinhan&ccedil;a de uma roseira existe solo adequado a roseiras do que perceber que existe solo adequado a roseiras <i>potencialmente</i>. O que existiria em pot&ecirc;ncia? &Eacute; a rela&ccedil;&atilde;o de unidade que &eacute; potencial, podendo n&atilde;o atualizar-se? — mas, ent&atilde;o, como dar por ela? Ou, pelo mesmo racioc&iacute;nio, a potencialidade inclui a probabilidade de darmos com os estados de coisas que confirmariam a, imaginamos, esperada unidade? &Eacute; a conce&ccedil;&atilde;o de unidade que &eacute; potencial? — na medida em que, como foi referido, uma coisa viva pode n&atilde;o se multiplicar; e, se assim for, dir&iacute;amos que a conce&ccedil;&atilde;o de unidade s&oacute; passa de pot&ecirc;ncia a ato quando tal ocorre? Poderia admitir-se que sim.</p>      <p>Nesse caso, a unidade entre a posi&ccedil;&atilde;o de dois pulm&otilde;es apenas seria um n&atilde;o-acidente nos casos em que os dois pulm&otilde;es funcionassem como &eacute; pr&oacute;prio aos pulm&otilde;es funcionar. Isto pareceria indicar que, nos termos de Thompson, a conce&ccedil;&atilde;o de unidade n&atilde;o-acidental entre uma coisa e as suas circunst&acirc;ncias depende, de algum modo, de uma no&ccedil;&atilde;o daquilo que &eacute; pr&oacute;prio a essas coisas fazerem, i.e. da sua fun&ccedil;&atilde;o.</p>      <p>No entanto, &eacute; &uacute;til testar o interesse da posi&ccedil;&atilde;o de Thompson independentemente de uma discuss&atilde;o acerca do conceito de fun&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o nos ocupar&aacute;<a href="#1" name="top1">[1]</a>. (Tal implica ignorar o uso do adv&eacute;rbio “potencialmente” na passagem citada.) Tendo presente o car&aacute;ter n&atilde;o-acidental da unidade entre uma coisa e as suas circunst&acirc;ncias sob discuss&atilde;o, considere-se agora o caso de processos &eacute;ticos. Poder&iacute;amos talvez preservar o sentido segundo o qual n&atilde;o &eacute; acidental a rela&ccedil;&atilde;o de unidade entre uma qualidade (virtude) que um agente adquire e as circunst&acirc;ncias que propiciaram o desenvolvimento ou aquisi&ccedil;&atilde;o dessa qualidade. A este respeito, poder&iacute;amos sugerir que o termo “circunst&acirc;ncias” engloba igualmente a&ccedil;&otilde;es desse agente e eventos cujos efeitos sofreu.</p>      <p>A esta aplica&ccedil;&atilde;o do argumento de Thompson a processos suscet&iacute;veis ao h&aacute;bito seria assim subjacente a implica&ccedil;&atilde;o geral de que, no mesmo sentido de ‘acidental’, se poderia dizer que n&atilde;o &eacute; acidental que algu&eacute;m possua as qualidades que possui, tal como n&atilde;o &eacute; acidental o modo como e.g. &agrave; inspira&ccedil;&atilde;o de oxig&eacute;nio por mam&iacute;feros se seguem determinados processos gasosos. </p>      <p>Testemos a acuidade de analogias similares, o que nos far&aacute; sobrevoar outras fam&iacute;lias de problemas. Reiterando a hip&oacute;tese de que n&atilde;o &eacute; acidental a rela&ccedil;&atilde;o de unidade entre as circunst&acirc;ncias de um agente e as suas qualidades (fossem tais circunst&acirc;ncias a&ccedil;&otilde;es ou outro tipo de eventos), ser&iacute;amos conduzidos a um sentido mediante o qual algumas circunst&acirc;ncias s&atilde;o especialmente adequadas a alguns agentes. Nesse sentido, seria, por exemplo, acidental nascer-se na fam&iacute;lia em que se nasce, mas seria um n&atilde;o-acidente ser-se um irm&atilde;o extremoso. Numa glosa direta de Thompson, o car&aacute;ter n&atilde;o-acidental deste tra&ccedil;o dependeria de um “estratagema” como “a produ&ccedil;&atilde;o”, numa dada fam&iacute;lia, de irm&atilde;os suficientes. Por&eacute;m, numa glosa relevante, interessaria sobretudo sublinhar que n&atilde;o seria acidental ser-se o irm&atilde;o que se &eacute;.</p>      <p>At&eacute; este momento, n&atilde;o pareceria necess&aacute;rio complementar a analogia com um uso especial do conceito de “pot&ecirc;ncia”, ou do conceito de “fun&ccedil;&atilde;o”. Bastaria manter que existiria uma unidade entre as circunst&acirc;ncias de um agente — sejam elas ou n&atilde;o, ou nem sempre, a&ccedil;&otilde;es — e as qualidades que adquiriu. Rodear&iacute;amos assim quer a necessidade de imaginar que essas qualidades ou que essa unidade estava <i>potencialmente</i> contida nesse agente, quer a de imaginar que ele, por assim dizer, cumpre, de modo apropriado, aquilo que, por ser o que &eacute;, lhe &eacute; apropriado cumprir. N&atilde;o precisar&iacute;amos de imaginar, se quisermos, que em todo o irm&atilde;o existe um irm&atilde;o extremoso potencial — ou imaginar que &eacute; pr&oacute;prio aos irm&atilde;os serem extremosos. Nenhuma destas pressuposi&ccedil;&otilde;es gerais parece decorrer necessariamente da pressuposi&ccedil;&atilde;o que suportaria a analogia. A saber, a de que existiria um modo de descrever a unidade entre certas circunst&acirc;ncias e as qualidades que delas resultam como n&atilde;o-acidental.</p>      <p>Descartar o conceito de “pot&ecirc;ncia” implica esclarecer o que se entende exatamente por “unidade” nos exemplos referidos e, desde logo, na nossa interpreta&ccedil;&atilde;o do excerto citado de Thompson. A unidade a que ele se refere respeita ao facto de que aquilo que resulta de uma semente de dente-de-le&atilde;o &eacute; ainda um dente-de-le&atilde;o. No excerto em quest&atilde;o, a referida “unidade” teria aplica&ccedil;&atilde;o quanto &agrave; passagem &agrave; exist&ecirc;ncia de coisas da mesma esp&eacute;cie (no interior da mesma esp&eacute;cie) e n&atilde;o &agrave; passagem &agrave; exist&ecirc;ncia de coisas em geral. Este pressuposto, a que hav&iacute;amos aludido ao sublinhar a sua aplica&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio de que ‘coisas vivas v&ecirc;m de coisas vivas’ &eacute;, ali&aacute;s, o que justifica o seu uso do adv&eacute;rbio. Se n&atilde;o &eacute; acidente a unidade que une uma semente a uma planta, tal dever-se-ia tamb&eacute;m ao facto de essa semente ser <i>potencialmente </i>essa planta. E, nesse sentido, a rela&ccedil;&atilde;o de potencialidade entre os elementos da rela&ccedil;&atilde;o — entre o que existe e o que passa a existir — seria conferida pela afinidade ontol&oacute;gica que manteriam entre si e determinaria a unidade em quest&atilde;o.</p>      <p>Transferido para fora do campo dos processos da natureza, este aspeto pareceria implicar que a unidade existente entre certas circunst&acirc;ncias e as qualidades a que essas circunst&acirc;ncias (sejam ou n&atilde;o a&ccedil;&otilde;es) d&atilde;o origem &eacute; n&atilde;o-acidental, na medida em que tais qualidades estariam contidas em tais circunst&acirc;ncias, como no exemplo do irm&atilde;o extremoso. De acordo com esta ideia, a que voltaremos, pareceria poss&iacute;vel descrever como uma sucess&atilde;o de efeitos necess&aacute;rios fosse que conjunto de resultados fosse, na medida em que tal suporia conceber n&atilde;o apenas que certos efeitos s&atilde;o <i>espec&iacute;ficos</i> de certas circunst&acirc;ncias, como que a lei que os relaciona &eacute; uma esp&eacute;cie de lei f&iacute;sica. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Existe no entanto um sentido em que, a prop&oacute;sito dos chamados processos naturais, mas n&atilde;o s&oacute; acerca deles, se poderia defender que a unidade entre determinados resultados e as circunst&acirc;ncias que a eles deram origem &eacute; n&atilde;o-acidental, na medida em que esses resultados s&atilde;o <i>insepar&aacute;veis</i> dessas circunst&acirc;ncias. Isto prefigura a possibilidade de descrever o g&eacute;nero de unidade de que fala Thompson sem a necessidade de recorrer ao conceito de pot&ecirc;ncia.</p>      <p>No que se refere a processos suscet&iacute;veis ao h&aacute;bito, a no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade pressuposta teria a implica&ccedil;&atilde;o de que um agente &eacute; insepar&aacute;vel das mudan&ccedil;as atrav&eacute;s das quais se tornou no agente que &eacute; (e, nesse sentido, que &eacute; insepar&aacute;vel das <i>circunst&acirc;ncias</i> — no sentido abrangente do termo que temos vindo a usar — que as proporcionaram). Ele &eacute; insepar&aacute;vel da sua pr&oacute;pria vida, o que n&atilde;o parece requerer uma teoria especial acerca daquilo que ele era ‘potencialmente’. Este aspeto, ali&aacute;s, n&atilde;o parece sequer depender da suposta particularidade do processo em quest&atilde;o. Na mesma ace&ccedil;&atilde;o do termo ‘insepar&aacute;vel’, dir&iacute;amos que uma planta de dente-de-le&atilde;o &eacute; insepar&aacute;vel do processo que a tornou na planta que &eacute; e n&atilde;o pode viver o ciclo de vida de outra planta. Se quis&eacute;ssemos preservar a seguinte formula&ccedil;&atilde;o, dir&iacute;amos ent&atilde;o que a unidade entre certas circunst&acirc;ncias e certos resultados das mesmas seria, nalgum sentido, um n&atilde;o-acidente, na medida em que umas e outros s&atilde;o insepar&aacute;veis.</p>      <p>N&atilde;o interessaria, neste ponto preciso, atribuir as qualidades adquiridas por um dado agente ao resultado de a&ccedil;&otilde;es repetidas, da natureza, de alian&ccedil;as, de lutas interiores, de influ&ecirc;ncias, convers&otilde;es etc. E nesta medida, seria a este respeito indiferente adotar um ponto de vista aristot&eacute;lico, humeano, kantiano ou outro acerca da aquisi&ccedil;&atilde;o de qualidades como as virtudes. Atribuir o car&aacute;ter n&atilde;o-acidental de certos resultados &agrave; rela&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade que os prenderia aos seus efeitos, teria ainda a consequ&ecirc;ncia de real&ccedil;ar uma afinidade entre processos &eacute;ticos e processos insuscet&iacute;veis ao h&aacute;bito.</p>      <p>Para retomarmos o exemplo anterior, n&atilde;o dir&iacute;amos, assim, que algu&eacute;m se tornou no irm&atilde;o extremoso que, por natureza, todo o irm&atilde;o pode vir a ser, mas antes que ele &eacute; insepar&aacute;vel daquilo que o levou a ser extremoso. Um outro modo de apresentar a mesma ideia seria dizer que ele &eacute; insepar&aacute;vel da <i>hist&oacute;ria</i> mediante a qual adquiriu a qualidade que adquiriu. Esta &uacute;ltima afirma&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pareceria depender, contudo, de tal hist&oacute;ria ser contada. E admiti-lo seria considerar que podemos explicar de que modo um irm&atilde;o se tornou num irm&atilde;o extremoso, mesmo que n&atilde;o interessasse a ningu&eacute;m explic&aacute;-lo, quer a esse irm&atilde;o, quer a qualquer observador. </p>      <p>Nada pareceria opor-se &agrave; intui&ccedil;&atilde;o de que, por princ&iacute;pio, haveria maneira de o explicar, mesmo que ningu&eacute;m se lembrasse dessa hist&oacute;ria, ou a quisesse contar, ou a contasse com honestidade, etc. — mesmo que a vers&atilde;o verdadeira dessa hist&oacute;ria fosse a de outra pessoa que n&atilde;o o irm&atilde;o em quest&atilde;o, etc. A rela&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade seria, em qualquer dos casos, a rela&ccedil;&atilde;o entre certas circunst&acirc;ncias e certos resultados e, desse ponto de vista, n&atilde;o estaria dependente de um conceito de “narrativa”.</p>      <p>A hist&oacute;ria de acordo com a qual um agente se tornou num irm&atilde;o extremoso n&atilde;o dependeria, pois, nem de esse agente conceber a sua pr&oacute;pria vida como uma hist&oacute;ria com uma determinada forma — como poderia defender o MacIntyre de <i>After</i> <i>Virtue</i>; nem da propens&atilde;o desse agente para conceber a sua vida como um plano, para que chama a aten&ccedil;&atilde;o o Rawls da <i>Teoria</i> <i>da</i> <i>Justi&ccedil;a</i><a href="#2" name="top2">[2]</a>; nem do que seria a omnisci&ecirc;ncia putativa de qualquer observador em rela&ccedil;&atilde;o ao modo como as circunst&acirc;ncias e os resultados se relacionam. Neste sentido, n&atilde;o seria argumento v&aacute;lido contra a presun&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade um dado agente declarar nunca se ter visto a si mesmo como uma criatura que tem uma hist&oacute;ria. A sua inseparabilidade em rela&ccedil;&atilde;o a essa hist&oacute;ria seria dada pela sua refer&ecirc;ncia a si pr&oacute;prio.</p>      <p>Pareceria, ali&aacute;s, ser a este respeito muito pouco relevante a maneira como cada um de n&oacute;s se v&ecirc; a si mesmo. Tal inseparabilidade n&atilde;o seria uma consequ&ecirc;ncia da nossa autoimagem. N&atilde;o seria uma consequ&ecirc;ncia das nossas qualidades, nem uma qualidade nossa. E, a prop&oacute;sito, tal no&ccedil;&atilde;o n&atilde;o suporia um conceito de narrativa que dependesse de uma no&ccedil;&atilde;o de autoimagem. Se algu&eacute;m afirmasse n&atilde;o acreditar no conceito de narrativa — ou afirmasse, como Galen Strawson em “Against Narrativity”<a href="#3" name="top3">[3]</a>, nunca se ter imaginado como um elemento de uma narrativa &shy;— estaria a declarar-se, na verdade, pelas raz&otilde;es aduzidas, como insepar&aacute;vel da hist&oacute;ria de acordo com a qual se tornou algu&eacute;m a quem um certo tipo de descri&ccedil;&otilde;es sobre si pr&oacute;prio n&atilde;o desperta interesse. </p>      <p>Do ponto de vista da no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade, que pareceria pairar sobre as nossas descri&ccedil;&otilde;es, a rela&ccedil;&atilde;o (num sentido, de algum modo, t&eacute;cnico do termo ‘rela&ccedil;&atilde;o’) de cada um de n&oacute;s com, chamemos-lhe assim, a nossa pr&oacute;pria vida, n&atilde;o seria necessariamente uma consequ&ecirc;ncia dos nossos interesses.</p>      <p>Em “Against Narrativity”, Strawson recusa a ideia de que todos somos o g&eacute;nero de pessoa que encara a sua vida como uma narrativa — ideia defendida, entre outros, por MacIntyre. Tal hip&oacute;tese, segundo Strawson, disfar&ccedil;a mal a recomenda&ccedil;&atilde;o de que todos dever&iacute;amos ser esse g&eacute;nero de pessoa. (Ali&aacute;s, numa vers&atilde;o tardia de MacIntyre, n&atilde;o temos maneira conceb&iacute;vel de o n&atilde;o ser<a href="#4" name="top4">[4]</a>). Cingindo-nos, no entanto, ao MacIntyre de <i>After</i> <i>Virtue</i>, que &eacute; o objeto da resposta de Strawson, ele advoga uma tese que admite a plausibilidade do contra-argumento de Strawson, ao afirmar que “uma hist&oacute;ria narrativa de algum tipo &eacute; em certo sentido o g&eacute;nero essencial e b&aacute;sico da caracteriza&ccedil;&atilde;o das a&ccedil;&otilde;es humanas” (MacIntyre, 2003, 208). </p>      <p>Vistas as coisas assim, e apesar de esta frase poder ser lida como tendo a implica&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o ter&iacute;amos modo de nos isentar da hist&oacute;ria narrativa, por n&atilde;o termos modo de nos isentar de caracterizar a&ccedil;&otilde;es, a posi&ccedil;&atilde;o de MacIntyre favoreceria a possibilidade de que, se a hist&oacute;ria narrativa &eacute; o “g&eacute;nero essencial e b&aacute;sico”, ent&atilde;o estaria ao nosso dispor a escolha entre v&aacute;rios g&eacute;neros (e, como aponta Strawson, prevaleceria em tal escolha o tipo de pessoa que se &eacute;). </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Concebido nos termos de Strawson, o conceito de narrativa a que MacIntyre apela dependeria ent&atilde;o de uma fragilidade de que a no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade estaria protegida. Precisamente, a de se admitir que a unidade narrativa da vida de um dado agente &eacute;, nalgum sentido, uma consequ&ecirc;ncia do modo como ele concebe a sua vida. Segundo Strawson, o argumento de MacIntyre esconderia a inten&ccedil;&atilde;o ulterior de fazer coincidir uma certa conce&ccedil;&atilde;o das coisas e de n&oacute;s mesmos com uma certa conce&ccedil;&atilde;o de bem e, como tal, seria o suficiente para abal&aacute;-lo declarar que n&atilde;o se partilha dessa conce&ccedil;&atilde;o subjacente. MacIntyre apontaria talvez a Strawson que este teria optado por um modo diferente de conceber a mesma coisa, e talvez o naturalismo tardio do primeiro tivesse sido anunciado pela necessidade, que o argumento de Strawson apenas sublinha, de declarar que em qualquer caso n&atilde;o nos podemos eximir a fazer uma op&ccedil;&atilde;o. E no entanto, &agrave; afirma&ccedil;&atilde;o de Strawson de que ‘n&atilde;o &eacute; a pessoa que foi no passado’ (Strawson, 2004, 433-34) pareceria bastar-nos indicar que a mera autoria do ensaio citado sup&otilde;e algum sentido de inseparabilidade em rela&ccedil;&atilde;o ao que seriam, por assim dizer, Strawsons passados sucessivos — os quais, a cada instante t, s&atilde;o ainda os autores da linha seguinte do mesm&iacute;ssimo ensaio (e ainda os agentes que partilham ou n&atilde;o partilham das cren&ccedil;as de outros e escrevem sobre o assunto).</p>      <p>Como o meu uso do condicional vem esclarecendo, o meu argumento at&eacute; aqui apelaria &agrave; ideia de que um agente &eacute; insepar&aacute;vel de todas as a&ccedil;&otilde;es que realizou, e de todos os acidentes que lhe sucederam, e de todos os acasos ou outra esp&eacute;cie de eventos de que foi agente ou paciente. Uma segunda proposta seria a de que uma rela&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade ligaria certas circunst&acirc;ncias a, digamos assim, certos resultados, nos casos em que o que est&aacute; sob discuss&atilde;o &eacute; o modo como um agente adquire qualidades. Enquanto caracter&iacute;stica de rela&ccedil;&otilde;es, a no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade candidatar-se-ia a atributo das coisas e indicaria o car&aacute;ter inespec&iacute;fico da descri&ccedil;&atilde;o de processos &eacute;ticos. Por raz&otilde;es a que voltarei, o meu uso do condicional sugere, ao mesmo tempo, por&eacute;m, a preserva&ccedil;&atilde;o de algum ceticismo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; possibilidade que acabo de descrever.</p>      <p>Pode agora tra&ccedil;ar-se o aspeto do g&eacute;nero de argumento a que se op&otilde;e a no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade, assim como a raz&atilde;o de ser dessa oposi&ccedil;&atilde;o. Tal obrigar-nos-&aacute; a reconsiderar a pertin&ecirc;ncia dos termos de Thompson para a presente discuss&atilde;o. </p>      <p>Afirmar que somos insepar&aacute;veis de todas as a&ccedil;&otilde;es, acidentes e acasos de que fomos agentes ou pacientes, e que existe um modo de descrevermos como n&atilde;o-acidental o facto de termos adquirido algumas qualidades ou virtudes, &eacute; pressuposto por qualquer explica&ccedil;&atilde;o do modo como um agente adquire qualidades. Mas admitir que um agente adquire qualidades implica, antes de mais, preservar uma no&ccedil;&atilde;o de ‘agente’. A inteligibilidade de qualquer no&ccedil;&atilde;o de ‘agente’ e a inteligibilidade da no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade est&atilde;o mutuamente relacionadas. </p>      <p>Para al&eacute;m disso, a conce&ccedil;&atilde;o de ‘ag&ecirc;ncia’ subjacente a esta no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade subjaz &agrave; generalidade caracter&iacute;stica do conceito de ‘virtude’. Ela &eacute; subjacente &agrave; hip&oacute;tese a que essa generalidade parece aludir: i.e. &agrave; possibilidade de que mais do que um agente possua a <i>mesma </i>virtude. </p>      <p>O g&eacute;nero de argumento que se op&otilde;e a tal no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade foi enunciado por Diderot, em <i>Jacques le fataliste</i>, numa s&iacute;ntese da doutrina fatalista de Jacques: </p>      <p>Seja qual for a soma dos elementos de que me componho, eu sou uno; ora uma causa una apenas tem um efeito; sempre fui uma causa una, nunca tive mais que um efeito para produzir, e portanto a minha dura&ccedil;&atilde;o n&atilde;o passa de uma sequ&ecirc;ncia de efeitos necess&aacute;rios (Diderot, 2009, 191).</p>      <p>A esta postura deve acrescentar-se o facto de que a descri&ccedil;&atilde;o de si mesmo como causa una de todos os efeitos necess&aacute;rios, se submeteria, segundo Jacques, &agrave; condi&ccedil;&atilde;o geral de que “est&aacute; tudo escrito l&aacute; em cima”; pelo que se algu&eacute;m &eacute; a causa dos efeitos que sofre, &eacute;-o, por assim dizer, por autoria interposta. O corol&aacute;rio de semelhante tese &eacute; descrito de seguida: “A distin&ccedil;&atilde;o entre um mundo f&iacute;sico e um mundo moral parecia-lhe vazia de sentido” (Diderot, 2009, 191). O fatalismo de Jacques d&aacute;, ent&atilde;o, uso a uma no&ccedil;&atilde;o de unidade do eu, mas tal unidade &eacute; conferida pela sujei&ccedil;&atilde;o ao que lhe estava destinado &agrave; partida e n&atilde;o depende de qualquer no&ccedil;&atilde;o de ‘ag&ecirc;ncia’. Pelo contr&aacute;rio, reconduz todos os cursos de a&ccedil;&atilde;o alternativos ao estatuto de acontecimentos pr&eacute;-determinados.</p>      <p>N&atilde;o parece haver menos fatalismo na doutrina oposta, a de tudo serem acidentes. Poderia ser <i>isso</i> o que estava escrito l&aacute; em cima, o que apenas refor&ccedil;a a efic&aacute;cia reducionista da doutrina de Jacques. A sua descri&ccedil;&atilde;o da unidade entre causas e efeitos enfatiza, ali&aacute;s, a depend&ecirc;ncia conceptual entre um argumento fatalista e o conceito de pot&ecirc;ncia. Tudo pode ser reconduzido &agrave; causa una que algu&eacute;m &eacute;, visto todos os efeitos a verificar estarem por princ&iacute;pio contidos nela. Aquilo em que, atualizando-me, eu me torno, poderia estar contido, em vers&otilde;es diferentes do mesmo g&eacute;nero de argumento, em mim ou nas circunst&acirc;ncias em que me encontro — o que, no vocabul&aacute;rio de Jacques, equivaleria a dizer que ‘est&aacute; tudo escrito c&aacute; em baixo’. Em ambos os casos, no entanto, a posi&ccedil;&atilde;o depende de uma tese acerca da <i>especificidade</i> de resultados. Da alian&ccedil;a entre um uso do conceito de pot&ecirc;ncia e um princ&iacute;pio de especificidade resulta um compromisso inst&aacute;vel, de acordo com o qual, por uma esp&eacute;cie de lei natural que relaciona a especificidade entre causas e efeitos, cada um de n&oacute;s &eacute; o resultado altamente espec&iacute;fico das suas pr&oacute;prias circunst&acirc;ncias<a href="#5" name="top5">[5]</a> e, ao mesmo tempo, n&atilde;o &eacute; exatamente um agente, mas uma combina&ccedil;&atilde;o de resultados a que, de um modo ou de outro, n&atilde;o pode fugir. Desse ponto de vista, cada um de n&oacute;s &eacute;, na realidade, aquilo que era em pot&ecirc;ncia, atualizando-se. O que se perde num argumento fatalista &eacute; o que se perde no ensaio de Strawson. Em particular, uma descri&ccedil;&atilde;o convincente de cada pessoa enquanto agente das suas a&ccedil;&otilde;es, ou, de igual modo, enquanto paciente de quaisquer que sejam os acidentes e os acasos que ocorrem com cada um de n&oacute;s.</p>      <p>Pode parecer inapropriado responder ao que estamos a chamar ‘fatalismo’ apelando ao car&aacute;ter n&atilde;o-acidental de certos resultados, o qual dependeria, para usar as palavras de Diderot, de uma forma de indistin&ccedil;&atilde;o entre o mundo f&iacute;sico e o mundo moral. Pareceria que, por hipercorre&ccedil;&atilde;o, estamos a responder a fatalismo com mais fatalismo, apontando para a possibilidade de descrever resultados variados precisamente como n&atilde;o-acidentes. A quest&atilde;o, todavia, &eacute; a de que n&atilde;o perdendo de vista a distin&ccedil;&atilde;o entre os mundos, a inten&ccedil;&atilde;o de preservar uma no&ccedil;&atilde;o de “ag&ecirc;ncia” precisa de descrever um sentido segundo o qual n&atilde;o &eacute; simplesmente acidental que se possua as qualidades ou virtudes que se possui. &Eacute; necess&aacute;rio preservar um sentido segundo o qual as qualidades de um agente podem de algum modo ser reconduzidas a v&aacute;rias coisas que esse agente fez e lhe aconteceram. E nessa medida, n&atilde;o perder de vista a distin&ccedil;&atilde;o entre aqueles dois mundos consiste em considerar que a n&atilde;o-acidentalidade &eacute; explicada em rela&ccedil;&atilde;o a crit&eacute;rios diferentes em cada um dos casos.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O fatalismo apela a um conceito de acidente, para afirmar que, ou tudo &eacute; acidente, ou que n&atilde;o h&aacute; acidentes. Mas, para se fazer sentido da ideia de que somos agentes, &eacute; preciso que se preserve alguma no&ccedil;&atilde;o do car&aacute;ter n&atilde;o-acidental de certos resultados. Uma no&ccedil;&atilde;o adequada de “ag&ecirc;ncia” depende se preservar a ideia, afinal, de que n&atilde;o &eacute; totalmente acidental que sejamos como somos e de que somos insepar&aacute;veis de todas as a&ccedil;&otilde;es, acasos, acidentes e demais circunst&acirc;ncias que nos trouxeram at&eacute; aqui. Esta &uacute;ltima formula&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, este ‘que nos trouxeram at&eacute; aqui’ desperta a necessidade de mais algumas considera&ccedil;&otilde;es.</p>      <p>O problema quanto &agrave; suposta neutralidade da no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade reside contudo no facto de que o reconhecimento dessa rela&ccedil;&atilde;o n&atilde;o equivale a declarar que eu sou o resultado presente de uma cadeia de a&ccedil;&otilde;es e acontecimentos que culmina nisto que eu sou. Se assim fosse, tanto faria onde se come&ccedil;asse uma explica&ccedil;&atilde;o das minhas qualidades, e atribuir algum valor explicativo a alguma a&ccedil;&atilde;o minha ou acidente seria vulner&aacute;vel a uma regress&atilde;o infinita. </p>      <p>Se qualidades adquiridas por um agente fossem apenas o ponto onde culmina uma cadeia de eventos, — se a no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade denotasse <i>isso</i> — o valor explicativo atribu&iacute;do a qualquer evento ficaria comprometido. Quis&eacute;ssemos explicar a raz&atilde;o por que algu&eacute;m possui a qualidade X, tanto faria isolar um dado evento Y, quanto dizer que todas as qualidades que algu&eacute;m possui, como ali&aacute;s tudo o que uma pessoa &eacute;, faz, e lhe acontece, &eacute; reconduz&iacute;vel e.g. a a&ccedil;&otilde;es da sua bisav&oacute;. Perceber o que pode querer dizer ‘inseparabilidade’ implica, por isso, considerar um aspeto at&eacute; aqui por esclarecer do excerto de Thompson citado de in&iacute;cio, em particular, o seu uso do termo “conce&ccedil;&atilde;o”. </p>      <p>Podemos descrever a cadeia de acontecimentos mediante a qual algu&eacute;m adquiriu certa disposi&ccedil;&atilde;o. Dizer, por exemplo, que, se eu n&atilde;o tivesse levado um tiro no joelho n&atilde;o teria ido para o hospital, onde n&atilde;o teria conhecido Z, que me apresentou a X, de quem hoje sou amiga. As coisas aconteceram deste modo e sou insepar&aacute;vel delas, no nosso uso do termo ‘insepar&aacute;vel’. Mas a possibilidade de descrever a minha amizade com X como um n&atilde;o-acidente depende de atribuir valor explicativo a eventos que isolo. Caso contr&aacute;rio, poderia sempre afirmar que as minhas amizades, como ali&aacute;s tudo o que me diz respeito, dependem, por hip&oacute;tese, mais uma vez, de a&ccedil;&otilde;es da minha bisav&oacute;. E at&eacute; poderemos suspender neste momento o aspeto das explica&ccedil;&otilde;es enquanto modos de sublinhar o car&aacute;ter n&atilde;o-acidental da rela&ccedil;&atilde;o entre eventos. E passar a dizer simplesmente que a possibilidade de explicar de que modo me tornei amiga de algu&eacute;m, depende da atribui&ccedil;&atilde;o de valor explicativo a certos eventos, sejam eles a&ccedil;&otilde;es ou n&atilde;o. </p>      <p>N&atilde;o &eacute; menor o valor explicativo inerente ao reconhecimento de que uma amizade nasceu de uma sucess&atilde;o de acidentes. Essa atribui&ccedil;&atilde;o de valor explicativo sup&otilde;e que quando digo que <i>se</i> n&atilde;o tivesse levado um tiro no joelho, ent&atilde;o n&atilde;o ______, a rela&ccedil;&atilde;o de condicionalidade que assim se estabelece n&atilde;o &eacute; estritamente a que uma cadeia de eventos mant&ecirc;m entre si, mas &eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o explicativa. Se quisermos usar o termo, essa atribui&ccedil;&atilde;o de valor explicativo a um evento ou a uma a&ccedil;&atilde;o, ou a um conjunto de eventos ou a&ccedil;&otilde;es, constitui uma <i>conce&ccedil;&atilde;o</i> acerca da maneira como certas coisas podem ser relacionadas; ou antes, &eacute;, em si mesma, uma maneira de relacion&aacute;-las. E a considera&ccedil;&atilde;o anterior n&atilde;o depende de uma teoria acerca do modo como, por exemplo, amizades decorrem em geral de tiros em joelhos. </p>      <p>O mesmo se aplica a qualquer proposta de explica&ccedil;&atilde;o da liga&ccedil;&atilde;o entre v&aacute;rios tipos de eventos. Se ao dizer que um tiro que levei (poderia ser uma a&ccedil;&atilde;o minha particular) explica X, quero na verdade dizer que esse tiro foi o que me trouxe onde me encontro; e se, tendo isso em conta, n&atilde;o p&aacute;ro nalgum ponto, — se n&atilde;o parar, em especial, no tiro em quest&atilde;o —n&atilde;o consigo explicar seja o que for. Terei de admitir, pelo contr&aacute;rio, que tanto o tiro me trouxe onde me encontro, como tudo o que me levou ao tiro me trouxe ao ponto onde me encontro. Se explicar alguma coisa &eacute; parar nalgum ponto, isso significa que uma explica&ccedil;&atilde;o das minhas qualidades atuais n&atilde;o &eacute; redut&iacute;vel a uma descri&ccedil;&atilde;o de caracter&iacute;sticas num dado instante <i>t</i>, e, nessa medida, a atualidade das minhas qualidades n&atilde;o denota propriamente um atributo temporal. </p>      <p>Se n&atilde;o pararmos em ponto algum e fizermos coincidir uma no&ccedil;&atilde;o de ag&ecirc;ncia com uma descri&ccedil;&atilde;o de um estado de coisas com uma dura&ccedil;&atilde;o mensur&aacute;vel (dizer: <i>eu</i> sou: ‘eu aqui e agora’, por exemplo), o que se extingue &eacute; uma no&ccedil;&atilde;o de ag&ecirc;ncia. Note-se, ali&aacute;s, que esta &eacute; precisamente a reivindica&ccedil;&atilde;o de Strawson: a de estar mais “localizado no presente”, “no momento presente” (Strawson, 2004, 432), que os seus opositores. </p>      <p>A no&ccedil;&atilde;o de que se &eacute; insepar&aacute;vel de todas as a&ccedil;&otilde;es, acidentes e acasos de que se &eacute;/foi agente ou paciente n&atilde;o &eacute;, por isso mesmo, uma caracteriza&ccedil;&atilde;o de pessoas como o ponto de chegada de cadeias de eventos. Pelo contr&aacute;rio, aquela no&ccedil;&atilde;o constitui uma conce&ccedil;&atilde;o acerca de rela&ccedil;&otilde;es entre certos eventos, a qual depende, se quisermos, de come&ccedil;ar em algum ponto e parar nalgum ponto. Saber parar em algum lado &eacute; afinal uma condi&ccedil;&atilde;o requerida tanto pela inten&ccedil;&atilde;o de preservar uma no&ccedil;&atilde;o de ‘agente’, como pela inten&ccedil;&atilde;o de explicar rela&ccedil;&otilde;es entre eventos, cuja singularidade &eacute; de outro modo severamente amea&ccedil;ada. Quando dizemos que certas coisas explicam outras, n&atilde;o estamos a compor cadeias de eventos, mas estamos a isolar a relev&acirc;ncia de algumas coisas para a explica&ccedil;&atilde;o de outras coisas.</p>      <p>&Eacute; precisamente a aplicabilidade de uma no&ccedil;&atilde;o de ‘conce&ccedil;&atilde;o’, ou de uma no&ccedil;&atilde;o parecida com ela, &agrave; posi&ccedil;&atilde;o que temos vindo a apresentar, um dos aspetos que determina o ceticismo declarado anteriormente quanto ao que seria o car&aacute;ter neutro da no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade. Um uso da no&ccedil;&atilde;o de ‘conce&ccedil;&atilde;o’ aplicava-se j&aacute; em rela&ccedil;&atilde;o aos processos naturais. Thompson falava afinal acerca da possibilidade de negligenciar <i>conce&ccedil;&otilde;es</i>. O seu uso do termo ‘conce&ccedil;&atilde;o’ implicava um argumento sobre a interpreta&ccedil;&atilde;o de um dado X como um n&atilde;o-acidente. A interpreta&ccedil;&atilde;o de um dado X como um n&atilde;o-acidente &eacute; isso mesmo — uma interpreta&ccedil;&atilde;o — mas, em todo o caso, tal n&atilde;o parece ainda sobrepor-se &agrave; possibilidade de declarar que uma pessoa &eacute; insepar&aacute;vel de o que quer que fa&ccedil;a. A principal vantagem de enfatizar o seu uso do termo ‘conce&ccedil;&atilde;o’ seria, afinal, a de estabelecer outra diferen&ccedil;a entre referirmo-nos a inseparabilidade e a n&atilde;o-acidentalidade. </p>      <p>A relev&acirc;ncia do uso de Thompson do termo ‘conce&ccedil;&atilde;o’ faz-nos regressar, por&eacute;m, ao seu uso do adv&eacute;rbio <i>potencialmente. </i>Seria a ‘conce&ccedil;&atilde;o’ o que existe potencialmente, devido, por exemplo, a os factos precederem as explica&ccedil;&otilde;es e elas estarem contidas potencialmente neles, potencialmente contidas na natureza? E ent&atilde;o, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; forma&ccedil;&atilde;o das qualidades de um agente, a cren&ccedil;a na possibilidade de uma vers&atilde;o verdadeira do que teria sido essa forma&ccedil;&atilde;o seria justificada pela preced&ecirc;ncia dos factos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s explica&ccedil;&otilde;es? </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O uso de Thompson do adv&eacute;rbio &eacute;, como dissemos, obscuro, mas quanto ao que nos interessa, basta apenas reter que ele nos avisa de novo quanto a uma diferen&ccedil;a entre plantas e pessoas e quanto ao modo como a n&atilde;o-acidentalidade &eacute; explicada em rela&ccedil;&atilde;o a crit&eacute;rios diferentes consoante o tipo de processo. No caso dos processos naturais, o que surge dilu&iacute;da &eacute; a no&ccedil;&atilde;o de “ag&ecirc;ncia”. Os processos na planta podem ser reconduzidos a outros processos na planta, e, nesse sentido, se quisermos, a coisas que lhe acontecem, coisas por que passa. Mas a coincid&ecirc;ncia (e at&eacute; a perman&ecirc;ncia) do objeto dos processos n&atilde;o equivale a que o sentido anterior do verbo ‘reconduzir’ (poderia ser o verbo ‘explicar’) subentenda algum modo de ‘ag&ecirc;ncia’. Aquilo a que os processos podem ser reconduzidos &eacute; a outros processos e os casos em que a sucess&atilde;o dos processos &eacute; interrompida constituem exce&ccedil;&otilde;es. Uma planta n&atilde;o pode interromper a fotoss&iacute;ntese.</p>      <p>Poder&iacute;amos tamb&eacute;m referir-nos ao fatalismo do gesto de Strawson indicando o modo como o seu argumento responde ao que chama ‘tend&ecirc;ncia narrativa’, apelando ao que seria n&atilde;o apenas a durabilidade do eu, mas a sua pr&oacute;pria especificidade — a uma no&ccedil;&atilde;o de um ‘<i>eu</i> espec&iacute;fico’. A especificidade do eu &eacute;, nesse caso, conferida pelo facto de este ser a cada novo momento determinado pelo momento, o que &eacute; um modo de se conceber a si mesmo como o ‘efeito necess&aacute;rio’ do momento, para usar a formula&ccedil;&atilde;o de Diderot. </p>      <p>O nosso argumento &eacute;, a este respeito, o de que o fatalismo anda a par de uma tese mais ou menos expl&iacute;cita acerca do car&aacute;ter espec&iacute;fico da rela&ccedil;&atilde;o entre as circunst&acirc;ncias de um agente e os fins em rela&ccedil;&atilde;o aos quais ele descreve as suas a&ccedil;&otilde;es. Seria esta ent&atilde;o a vers&atilde;o fatalista de <i>sujeito</i>: n&atilde;o &eacute; bem um agente, mas &eacute; altamente espec&iacute;fico, &eacute; por excel&ecirc;ncia o &uacute;nico representante de uma esp&eacute;cie, se quisermos. O gesto fatalista relaciona-se com a reclama&ccedil;&atilde;o ou com a imputa&ccedil;&atilde;o de especificidade, com a declara&ccedil;&atilde;o de que um agente &eacute; o resultado espec&iacute;fico de circunst&acirc;ncias espec&iacute;ficas. E a nossa suposi&ccedil;&atilde;o parece ser a de que, por assim dizer, quanto mais ag&ecirc;ncia, menos especificidade. </p>      <p>O argumento que a suporta depende da referida generalidade do conceito de ‘qualidade’ (ou, mais propriamente, de ‘virtude’). Se admitirmos provisoriamente que possuir uma dada virtude consiste em descrever as a&ccedil;&otilde;es que se pratica em rela&ccedil;&atilde;o a um certo fim, isso significa que o conceito de virtude sup&otilde;e a ideia de ‘fim partilh&aacute;vel’, na medida em que sup&otilde;e que mais do que um agente pode possuir a mesma virtude. Esta suposi&ccedil;&atilde;o subjaz a qualquer uso do conceito, ali&aacute;s, e subsiste apesar da obscuridade quanto &agrave; sua defini&ccedil;&atilde;o. Como afirma Thompson (Thompson, 2008, 150), corresponde ao conceito de virtude, como ao de m&aacute;xima, princ&iacute;pio, ou qualidade, uma “generalidade peculiar”, a qual, poder&iacute;amos acrescentar, &eacute; independente de o que quer que seja que se admita ser a defini&ccedil;&atilde;o desses conceitos e, como tal, subsiste mesmo para al&eacute;m de uma rejei&ccedil;&atilde;o da nossa defini&ccedil;&atilde;o provis&oacute;ria do termo.</p>      <p>De qualquer maneira, de acordo com essa defini&ccedil;&atilde;o, a afirma&ccedil;&atilde;o geral de que agentes possuem as <i>mesmas</i> virtudes pressup&otilde;e que agentes diferentes em circunst&acirc;ncias diferentes descrevem as suas a&ccedil;&otilde;es em rela&ccedil;&atilde;o aos <i>mesmos</i> fins. Pelo que, afirmar que agentes possuem certas qualidades sup&otilde;e o car&aacute;ter inespec&iacute;fico da rela&ccedil;&atilde;o entre as suas circunst&acirc;ncias e os fins em rela&ccedil;&atilde;o aos quais eles descrevem as suas a&ccedil;&otilde;es. A discuss&atilde;o sobre a posse e a aquisi&ccedil;&atilde;o de qualidades &eacute;, por outro lado, uma discuss&atilde;o acerca do modo como um agente se torna no agente que &eacute;. Portanto, a pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o de agente depende da referida inespecificidade entre fins e circunst&acirc;ncias. Este argumento responde &agrave; obje&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o consideraria a diversidade entre descri&ccedil;&otilde;es de fins declarando que diversidade n&atilde;o &eacute; sin&oacute;nimo de especificidade.</p>      <p>Se a rela&ccedil;&atilde;o que estabelecemos entre um evento ou sequ&ecirc;ncia de eventos e o desenvolvimento de uma qualidade de um agente constitui uma ‘conce&ccedil;&atilde;o’, tal aspeto mostra-nos, em &uacute;ltima an&aacute;lise, que a inten&ccedil;&atilde;o de desligar a no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade de alguma conce&ccedil;&atilde;o de ‘como agir’ parece resultar perturbada, por ela estar dependente daquilo a que se pode chamar ‘saber parar uma explica&ccedil;&atilde;o’. </p>      <p>Quer isto dizer, a no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade parece indiscern&iacute;vel do reconhecimento da inseparabilidade como um modo de conceber rela&ccedil;&otilde;es explicativas entre eventos. A conce&ccedil;&atilde;o de ‘como agir’ suposta pela inten&ccedil;&atilde;o de preservar uma no&ccedil;&atilde;o de ‘ag&ecirc;ncia’ est&aacute;, assim, relacionada com saber onde parar e onde come&ccedil;ar uma descri&ccedil;&atilde;o, o que p&otilde;e em quest&atilde;o precisamente a neutralidade aparente da no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade e a pr&oacute;pria afinidade, pelo menos neste ponto, entre a descri&ccedil;&atilde;o daquilo a que cham&aacute;mos processos &eacute;ticos e n&atilde;o &eacute;ticos. </p>      <p>Uma das perplexidades que daqui decorre &eacute; o facto de uma injun&ccedil;&atilde;o metodol&oacute;gica se parecer com uma injun&ccedil;&atilde;o moral, impl&iacute;cita desde logo na sugest&atilde;o de que devemos preservar uma no&ccedil;&atilde;o de ‘ag&ecirc;ncia’. Reclamar a no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade enquanto crit&eacute;rio adequado de explica&ccedil;&otilde;es confunde-se com apelar a que agentes se reconhe&ccedil;am como insepar&aacute;veis de si mesmos. De qualquer modo, deste ponto de vista, preservar uma no&ccedil;&atilde;o de ‘ag&ecirc;ncia’ requer preservar a no&ccedil;&atilde;o de que os agentes relacionam e atribuem valor a eventos e pareceria requerer uma teoria acerca da delimita&ccedil;&atilde;o dos mesmos, embora as pessoas o fa&ccedil;am espontaneamente, em todo o caso. Para al&eacute;m disso, preservar uma no&ccedil;&atilde;o de ‘ag&ecirc;ncia’ requer talvez comprometermo-nos com um certo modo de entender a maneira como fazemos descri&ccedil;&otilde;es.</p>      <p>Podemos tamb&eacute;m perguntar-nos: como &eacute; que o argumento sobre a no&ccedil;&atilde;o de inseparabilidade, que &eacute; acerca de explica&ccedil;&otilde;es, se relaciona com o argumento sobre inespecificidade, que &eacute; acerca de fins? </p>      <p>Decorre da primeira ideia que uma no&ccedil;&atilde;o de ‘ag&ecirc;ncia’ depende em algum sentido de alguma vis&atilde;o sobre explica&ccedil;&otilde;es, em particular da vis&atilde;o segundo a qual aquilo que um dado humano, por exemplo, fez ao longo do tempo, pode ser descrito como tendo sido feito sempre pelo mesmo humano. A segunda ideia prop&otilde;e que os fins em rela&ccedil;&atilde;o aos quais as a&ccedil;&otilde;es de um agente podem ser descritas n&atilde;o s&atilde;o espec&iacute;ficos das suas circunst&acirc;ncias; o que equivale a dizer que podem ser partilhados por, e justificados em rela&ccedil;&atilde;o a, outros agentes. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A pressuposi&ccedil;&atilde;o de que somos o resultado de alguma coisa &eacute; instrumental, como vimos, para um argumento fatalista, para o qual n&atilde;o se ser exatamente um agente consiste em ser-se o resultado de eventos diversos. Nos termos do fatalismo, explicar a aquisi&ccedil;&atilde;o de qualidades representar&aacute; pessoas como meros <i>resultados</i> e dificilmente poder&aacute; conjugar-se com uma conce&ccedil;&atilde;o forte de ‘ag&ecirc;ncia’. A solu&ccedil;&atilde;o para este problema poder&aacute; ser dada pela conjuga&ccedil;&atilde;o de ambos os argumentos, entendidos no sentido particular mediante o qual a pessoa que eu sou <i>&eacute; </i>o <i>mesmo</i> humano que aqui estava h&aacute; alguns anos, i.e. <i>&eacute; </i>o <i>mesmo</i> humano a descri&ccedil;&atilde;o de cujos fins pode ser reconduzida a v&aacute;rias coisas que ele fez e lhe aconteceram. Significa isto que eu sou insepar&aacute;vel das minhas circunst&acirc;ncias, mas muitas pessoas insepar&aacute;veis das suas pr&oacute;prias circunst&acirc;ncias descrevem as suas a&ccedil;&otilde;es em rela&ccedil;&atilde;o a fins id&ecirc;nticos aos meus. N&atilde;o existem, neste sentido, descri&ccedil;&otilde;es de fins espec&iacute;ficas, e exclusivas, de certas circunst&acirc;ncias. </p>      <p>Um dos modos de pensar sobre o que acabamos de dizer &eacute; pensar acerca da pr&aacute;tica das virtudes artificiais — justi&ccedil;a e fidelidade — no sentido de David Hume.</p>      <p>De acordo com Hume, &eacute; caracter&iacute;stico das virtudes artificiais (que t&ecirc;m esta designa&ccedil;&atilde;o devido ao seu car&aacute;ter convencional) que ‘todos os atos isolados’ de cada uma delas s&atilde;o realizados “na expectativa de que os outros homens v&atilde;o realizar o mesmo” (Hume, 2001, 574). Isto significa que tais virtudes sup&otilde;em uma <i>pr&aacute;tica</i><a href="#6" name="top6">[6]</a>. Cada ato isolado de uma delas &eacute; realizado na expectativa de reciprocidade e &eacute;, ao mesmo tempo, um ato isolado de virtude e uma instancia&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;tica. </p>      <p>Noutros termos, por&eacute;m, isto equivale a afirmar que cada ato isolado de virtude, cada instancia&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;tica, &eacute; definido em rela&ccedil;&atilde;o ao mesmo fim. Para usar o exemplo de uma das virtudes artificiais mais emblem&aacute;ticas — a fidelidade envolvida no cumprimento de promessas — poder&iacute;amos dizer que, para Hume, qualquer ato isolado de cumprimento de uma promessa &eacute; descrito pelo agente que o pratica em rela&ccedil;&atilde;o ao mesmo fim: em particular, o fim que Hume descreve como o de “querer a <i>obriga&ccedil;&atilde;o</i> que tem origem na promessa” (Hume, 2001, 597). O facto de a pr&aacute;tica da obriga&ccedil;&atilde;o de promessas ser o fim em rela&ccedil;&atilde;o ao qual v&aacute;rios agentes descrevem algumas das suas a&ccedil;&otilde;es n&atilde;o implica, por um lado, que todos somos (ou possamos ser) cumpridores de promessas, mas implica, por outro lado, a generalidade desse fim. Possivelmente, esta generalidade est&aacute; relacionada com tais pr&aacute;ticas nos serem externas, ou, por assim dizer, estarem a&iacute; para ser praticadas — i.e. existirem.</p>      <p>A “generalidade peculiar” quanto ao conceito de virtude a que se refere Thompson corresponde, neste sentido, &agrave; generalidade de certos fins, a qual, segundo nos mostra Hume, &eacute; implicada n&atilde;o apenas pelo facto de a mesma virtude ser partilhada por mais do que um agente — ou em vocabul&aacute;rio humeano, de a mesma pr&aacute;tica ser praticada por v&aacute;rios agentes; mas tamb&eacute;m pelo modo como cada instancia&ccedil;&atilde;o da mesma virtude &eacute; realizada tendo em vista um fim que &eacute; geral. Thompson resume este &uacute;ltimo aspeto dizendo que nos casos em que agentes cumprem promessas por fidelidade (a virtude correspondente tradicionalmente &agrave; pr&aacute;tica de prometer e cumprir promessas), “as suas a&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m origens diferentes apenas no sentido em que eles tenham feito promessas diferentes. &Agrave; parte disso, eles atuam n&atilde;o apenas por fundamentos paralelos ou similares, mas por um mesmo fundamento &uacute;ltimo e n&atilde;o apenas por princ&iacute;pios com o mesmo conte&uacute;do, mas <i>pelo mesmo princ&iacute;pio</i>.” (Thompson, 2008, 210). </p>      <p>Como dissemos, &eacute; consequ&ecirc;ncia desta similaridade de fundamentos o car&aacute;ter inespec&iacute;fico da rela&ccedil;&atilde;o entre as circunst&acirc;ncias de um agente e os fundamentos das suas a&ccedil;&otilde;es — ou, se quisermos, o pr&oacute;prio car&aacute;ter inespec&iacute;fico desses fundamentos. O que implica que a conce&ccedil;&atilde;o inespec&iacute;fica de ‘ag&ecirc;ncia’ que tent&aacute;mos caracterizar est&aacute; subjacente &agrave; generalidade que associ&aacute;mos ao conceito de virtude.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias </b></p>      <!-- ref --><p>Diderot, Denis (2009) <i>Jacques le fataliste et son ma&icirc;tre, Jacques, o Fatalista e o Seu Amo</i>, Pedro Tamen, trad., Lisboa, Tinta da China.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000081&pid=S0807-8967201200030000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Foot, Philippa (2001), <i>Natural Goodness</i>, Oxford, Oxford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000083&pid=S0807-8967201200030000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Hume, David (2001), <i>A Treatise of Human Nature</i>, <i>Tratado da Natureza Humana</i>, Jo&atilde;o Paulo Monteiro, trad., Lisboa, Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000085&pid=S0807-8967201200030000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>MacIntyre, Alasdair (1999), <i>Dependent Rational Animals, Why Men need The Virtues</i>, Chicago, Open Court.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000087&pid=S0807-8967201200030000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>MacIntyre, Alasdair (2003), <i>After Virtue</i>, London, Duckworth.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000089&pid=S0807-8967201200030000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Rawls, John (1971), <i>A Theory of Justice</i>, Harvard, Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000091&pid=S0807-8967201200030000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Rawls, John (1999), “Two Concepts of Rules”, <i>Collected Papers</i>, Samuel Freeman, ed., Harvard, Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000093&pid=S0807-8967201200030000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Strawson, Galen (2004), “AgainstNarrativity”, <i>Ratio (new series)</i>, XVII, 4 December, USA.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000095&pid=S0807-8967201200030000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Thompson, Michael (2008) <i>Life and Action, Elementary Structures of Practice and Practical Thought</i>, Harvard, Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000097&pid=S0807-8967201200030000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><a href="#top1" name="1">[1]</a> Para uma discuss&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o entre o conceito de fun&ccedil;&atilde;o e a descri&ccedil;&atilde;o de processos vitais ver Philippa Foot (2001), <i>Natural Goodness</i>, Oxford, Oxford University Press, 31-33, 40-2.</p>      <p><a href="#top2" name="2">[2]</a> Cf. Rawls, John (1971), <i>A Theory of Justice</i>, Harvard, Harvard University Press, 407-416.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top3" name="3">[3]</a> Galen Strawson (2004), “AgainstNarrativity”, <i>Ratio (new series)</i>, XVII, 4 December, USA.</p>      <p><a href="#top4" name="4">[4]</a> A vers&atilde;o tardia mais relevante do argumento de <i>After Virtue </i>(1981) foi defendida por MacIntyre em <i>Dependent Rational Animals, Why Men need The Virtues </i>(1999).</p>      <p><a href="#top5" name="5">[5]</a> Strawson refere-se a este respeito ao que chama ‘a diferen&ccedil;a individual vari&aacute;vel’ e os ‘fundamentos do car&aacute;ter temporal’ como determina&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ticas. “Against Narrativity”, 431.</p>      <p><a href="#top6" name="6">[6]</a> Esta no&ccedil;&atilde;o de ‘pr&aacute;tica’ foi descrita em pormenor por John Rawls, no ensaio de 1955 “Two Concepts of Rules”.</p>       ]]></body><back>
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