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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Para uma leitura de “Um casaco de raposa vermelha”, de Teolinda Gersão]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Towards a reading of "Um casaco de raposa vermelha" by Teolinda Gersão]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Nova de Lisboa Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Departamento de Estudos Portugueses]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Teolinda Gersão’s short story “Um casaco de raposa vermelha” (A Mulher que Prendeu a Chuva, 2007) is a tale of metamorphosis. As in some of Ovid's Metamorphoses, the transformation is provoked by a casual glance that unleashes the force of desire. But while in Ovid the transformation is divine punishment for the accidental transgressive gaze, in this story, it releases the female protagonist from a trivial destiny and transports her to a more natural instinctive identity, which she experiences with the joyfulness of an escape. The reading presented in this paper highlights features such as the careful analysis of the subject of desire and the inner force driving her; the representation of the different stages in the process of identity mutation; the alternation between figurations that animalize the character and others that momentarily restore a humanizing rationality; the wealth of sensory detail, and the rhythmic effects generated by the narrative technique. Finally, attention turns to the metamorphosis that takes place on the level of the text itself; for having started out as a diary-like fragment in Os Guarda-Chuvas Cintilantes (1984), it was later included in the collection A Mulher que Prendeu a Chuva, a recontextualization that not only reveals it to be a work in progress but also completely alters the reading suggested by the first version.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p> <b>Para uma leitura de “Um casaco de raposa vermelha”, de Teolinda Gers&atilde;o</b> </p>     <p><b>Towards a reading of "Um casaco de raposa vermelha" by Teolinda Gers&atilde;o</b></p>     <p> <b>Clara Rocha*</b> </p>     <p> *Professora Catedr&aacute;tica aposentada da Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas, Departamento de Estudos Portugueses, Lisboa, Portugal </p>      <p><a href="mailto:cl.rocha@sapo.pt">cl.rocha@sapo.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>     <p> O conto de Teolinda Gers&atilde;o “Um casaco de raposa vermelha (<i>A Mulher que Prendeu a Chuva</i>, 2007) &eacute; uma hist&oacute;ria de metamorfose. Tal como em certas narrativas d’ <i>As Metamorfoses</i> de Ov&iacute;dio, a transmuta&ccedil;&atilde;o da personagem &eacute; determinada por um olhar casual que desencadeia a puls&atilde;o do desejo. Mas enquanto nas hist&oacute;rias narradas por Ov&iacute;dio o olhar transgressor, mesmo que acidental, &eacute; punido pelos deuses com uma dolorosa transforma&ccedil;&atilde;o, no conto de Teolinda a figura feminina protagoniza um impulso que, pelo contr&aacute;rio, a liberta dum destino trivial e a transporta para uma outra identidade, natural e instintiva, vivida com a “alegria” duma fuga.</p>     <p> Destacamos, nesta leitura do conto, aspectos como a fina observa&ccedil;&atilde;o do sujeito do desejo e da for&ccedil;a interior que o impele, a representa&ccedil;&atilde;o das etapas da muta&ccedil;&atilde;o da identidade, a altern&acirc;ncia entre as figura&ccedil;&otilde;es que animalizam a personagem e a reposi&ccedil;&atilde;o moment&acirc;nea duma racionalidade que lhe devolve tra&ccedil;os humanos, a riqueza sensorial e os efeitos r&iacute;tmicos. Por &uacute;ltimo, assinalamos a metamorfose da pr&oacute;pria escrita neste texto, que come&ccedil;ou por figurar como fragmento “diar&iacute;stico” em <i>Os Guarda-Chuvas Cintilantes</i> (1984) e passou depois a integrar a colect&acirc;nea <i>A Mulher que Prendeu a Chuva</i>, numa recontextualiza&ccedil;&atilde;o que o revela como <i>work in progress</i> e modifica por completo o protocolo de leitura proposto pela primeira vers&atilde;o. </p>     <p><b>Palavras-chave</b>: metamorfose; olhar; desejo; fuga; liberta&ccedil;&atilde;o.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p> <b>ABSTRACT</b> </p>     <p> Teolinda Gers&atilde;o’s short story “Um casaco de raposa vermelha” (<i>A Mulher que Prendeu a Chuva</i>, 2007) is a tale of metamorphosis. As in some of Ovid's <i>Metamorphoses</i>, the transformation is provoked by a casual glance that unleashes the force of desire. But while in Ovid the transformation is divine punishment for the accidental transgressive gaze, in this story, it releases the female protagonist from a trivial destiny and transports her to a more natural instinctive identity, which she experiences with the joyfulness of an escape.</p>     <p> The reading presented in this paper highlights features such as the careful analysis of the subject of desire and the inner force driving her; the representation of the different stages in the process of identity mutation; the alternation between figurations that animalize the character and others that momentarily restore a humanizing rationality; the wealth of sensory detail, and the rhythmic effects generated by the narrative technique. Finally, attention turns to the metamorphosis that takes place on the level of the text itself; for having started out as a diary-like fragment in <i>Os Guarda-Chuvas Cintilantes</i> (1984), it was later included in the collection <i>A Mulher que Prendeu a Chuva</i>, a recontextualization that not only reveals it to be a work in progress but also completely alters the reading suggested by the first version. </p>     <p><b>Keywords</b>: metamorphosis; gaze; desire; escape; release.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p>“Um casaco de raposa vermelha” &eacute; um dos contos que integram o volume <i>A Mulher que Prendeu a Chuva e Outras Hist&oacute;rias</i>, publicado em 2007, mas fora j&aacute; antes editado como fragmento do livro de prosa ficcional <i>Os Guarda-Chuvas Cintilantes</i><a href="#1" name="top1">[1]</a>. Nessa obra, que o paratexto apresentava como “di&aacute;rio” - na realidade, trata-se de um “di&aacute;rio heterodoxo”, de uma par&oacute;dia da forma diar&iacute;stica - , o fragmento em quest&atilde;o era datado (“Sexta, quatro”) e a narrativa era introduzida pela seguinte frase: “&Eacute; uma hist&oacute;ria curiosa, acontecida num pa&iacute;s n&oacute;rdico, que leio num jornal”. Tal aparato criava ludicamente uma ilus&atilde;o referencial e conferia um efeito de real a uma hist&oacute;ria inveros&iacute;mil e obviamente inventada. Na vers&atilde;o do texto publicada na colect&acirc;nea de contos de 2007, a frase introdut&oacute;ria foi retirada, pois a sua funcionalidade inicial era dispensada pelo diferente protocolo de leitura que o novo livro institu&iacute;a.</p>      <p>O conto tem sido objecto de v&aacute;rias leituras p&uacute;blicas - em Mil&atilde;o e Floren&ccedil;a, no teatro Symphony Space de Nova Iorque, no Art Museum de Dallas, em Aveiro por ocasi&atilde;o do lan&ccedil;amento de <i>A Mulher que Prendeu a Chuva</i> - , facto que comprova o seu potencial c&eacute;nico, o jogo da imagina&ccedil;&atilde;o a que convida, o repto que lan&ccedil;am as imagens suscitadas pelo texto para outras cria&ccedil;&otilde;es a partir delas. E compreende-se porqu&ecirc;: “Um casaco de raposa vermelha” &eacute; uma hist&oacute;ria de metamorfose.</p>      <p>Na verdade, <i>As Metamorfoses</i> de Ov&iacute;dio s&atilde;o o seu modelo ou a sua refer&ecirc;ncia cl&aacute;ssica. Reconhecemos afinidades de v&aacute;ria ordem entre o conto de Teolinda Gers&atilde;o e o poema latino que narra hist&oacute;rias remontando &agrave; inf&acirc;ncia do mundo e nelas d&aacute; a ver a lei da universal transforma&ccedil;&atilde;o. Essas hist&oacute;rias obedecem a um mesmo princ&iacute;pio compositivo - a transmuta&ccedil;&atilde;o duma personagem - , e em muitas delas o desejo, desencadeado por um olhar casual e transgressor, &eacute; a verdadeira causa da metamorfose. O mesmo se passa no conto de Teolinda Gers&atilde;o. O olhar determina, desde o primeiro momento, a ac&ccedil;&atilde;o: um dia, ao regressar a casa, uma “pequena empregada banc&aacute;ria” repara por acaso num casaco de raposa vermelha exposto numa montra; excitada pelo desejo, dorme pouco nessa noite, e &eacute; numa esp&eacute;cie de <i>furor</i> que vai logo no dia seguinte &agrave; loja, o prova, decide compr&aacute;-lo apesar de saber que est&aacute; muito acima das suas posses, combina o pagamento a presta&ccedil;&otilde;es (“Pode lev&aacute;-lo quando efectuar a terceira presta&ccedil;&atilde;o”, diz-lhe a vendedora) e passa a ir v&ecirc;-lo todas as noites, clandestinamente, olhando atrav&eacute;s do vidro da montra e assim avivando cada vez mais o seu desejo. </p>      <p>O texto descreve de perto o objecto desejado, numa representa&ccedil;&atilde;o ecfr&aacute;stica que privilegia a cor e o brilho, e sobre esses elementos visuais ou pl&aacute;sticos constr&oacute;i analogias que exploram o simbolismo do fogo: “Aquele &eacute; uma pe&ccedil;a rara, &uacute;nica, jamais vira um tom assim, fulvo, mesclado, com reflexos de cobre e brilhante como se estivesse a arder”<a href="#2" name="top2">[2]</a>; e mais adiante: “(...) de cada vez era mais brilhante, mais cor de fogo, labaredas vermelhas que n&atilde;o queimavam, antes eram macias sobre o seu corpo, uma pele espessa, ampla, envolvente, balan&ccedil;ando com o seu andar”<a href="#3" name="top3">[3]</a>. Mas tamb&eacute;m o sujeito do desejo &eacute; observado ao longo de toda a narrativa, e a for&ccedil;a que o impele &eacute; sublinhada em express&otilde;es como “com um calafrio de prazer e de desejo”, “o casaco que sempre desejou ter na vida”, “cedendo ao impulso de entrar” e, j&aacute; quase no final do texto, “como se uma tempestuosa for&ccedil;a interior se desencadeasse”, “obedecendo a todas as for&ccedil;as que dentro dela se soltassem” e “era demasiado forte o impulso (...)”. Tal como Ov&iacute;dio n’ <i>As Metamorfoses</i>, Teolinda Gers&atilde;o estuda com min&uacute;cia a sua personagem e analisa nela todas as manifesta&ccedil;&otilde;es do desejo, esgotando as possibilidades psicol&oacute;gicas que dele decorrem. Verbos como “pensou” e “sentiu” s&atilde;o reiterados a espa&ccedil;os no texto, servindo de suporte a passagens em que a protagonista a si mesma se examina e considera aquilo que nela vai mudando, na descoberta duma identidade individual subitamente problem&aacute;tica aos seus pr&oacute;prios olhos. Outras formula&ccedil;&otilde;es que ocorrem apenas uma ou duas vezes, como “deu conta”, “notou” e “reparou”, desempenham a mesma fun&ccedil;&atilde;o. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por&eacute;m, a puls&atilde;o do desejo n&atilde;o &eacute; t&atilde;o perigosa no conto de Teolinda Gers&atilde;o como em muitas das hist&oacute;rias narradas por Ov&iacute;dio. Act&eacute;on surpreendeu Diana no banho, e a deusa, irritada, transformou-o em veado, a&ccedil;ulando os c&atilde;es da sua matilha e fazendo com que devorassem o pr&oacute;prio dono. Tir&eacute;sias e Narciso foram tamb&eacute;m castigados por terem visto aquilo que n&atilde;o deviam ver. N’ <i>As Metamorfoses</i>, o olhar transgressor, mesmo que acidental, &eacute; punido pelos deuses com uma dolorosa transforma&ccedil;&atilde;o. Em “Um casaco de raposa vermelha”, a figura feminina protagoniza um impulso que, pelo contr&aacute;rio, a liberta do seu destino, ou, se preferirmos, a faz regressar a ele. Por virtude do muito desejar, transforma-se aos poucos na raposa de que come&ccedil;ara por vestir a pele, numa metamorfose que a transporta do seu corpo humano para um corpo animal em que se reconhece com alegria, e da sua vida de ”pequena empregada banc&aacute;ria” para uma outra vida, para l&aacute; da raz&atilde;o, natural e instintiva, desenvencilhada de obriga&ccedil;&otilde;es e de censuras sociais. A transforma&ccedil;&atilde;o da personagem &eacute; pois uma fuga, libertadora e euf&oacute;rica, a um quotidiano que oprime e imp&otilde;e regras.</p>      <p>Com plena mestria, desenvolvendo-se na ambival&ecirc;ncia do inesperado e do previs&iacute;vel, o conto d&aacute;-nos as etapas dessa transforma&ccedil;&atilde;o, fazendo sobressair o jogo de for&ccedil;as que torna um ser reconhec&iacute;vel perante si pr&oacute;prio, desde o momento em que a jovem empregada se olha no espelho da loja depois de ter vestido o casaco de peles at&eacute; ao “salto” definitivo pelo qual entra na vida animal. Na sintagm&aacute;tica do texto, essas etapas - que acompanham as presta&ccedil;&otilde;es do pagamento, e assim aproximam a personagem da plena posse do casaco - v&atilde;o construindo a espessura do tempo: “(...) talvez porque deixara de sentir-se cansada, deu conta de que se movia agora muito mais depressa do que habitualmente, caminhava sem esfor&ccedil;o pelo menos com o dobro da velocidade normal. As pernas &aacute;geis, os p&eacute;s ligeiros. Toda ela mais leve, r&aacute;pida, com movimentos f&aacute;ceis do dorso, dos ombros, dos membros”<a href="#4" name="top4">[4]</a>; “Mas gostava sobretudo de correr na orla da floresta, &agrave; sa&iacute;da da cidade, sentindo a areia estalar debaixo dos p&eacute;s, aprendendo a colocar os p&eacute;s no ch&atilde;o de outra maneira”<a href="#5" name="top5">[5]</a>; “A sua capacidade de percep&ccedil;&atilde;o crescia, notou, mesmo &agrave; dist&acirc;ncia ouvia ru&iacute;dos diminutos, que antes lhe passariam despercebidos, uma sardanisca fugindo no ch&atilde;o entre as folhas, um rato invis&iacute;vel fazendo estalar um ramo, uma bolota caindo, um p&aacute;ssaro pousando entre as ervas (...)”<a href="#6" name="top6">[6]</a>; “Tinha mais fome, agora (...)”<a href="#7" name="top7">[7]</a>; “t&atilde;o compridas as unhas, reparou, e as pr&oacute;prias m&atilde;os pareciam mais sens&iacute;veis, alongadas”<a href="#8" name="top8">[8]</a>; “um sorriso felino, viu, pondo os olhos em fenda e sorrindo mais”<a href="#9" name="top9">[9]</a>; “(...) dando-lhe aos tra&ccedil;os uma certa orienta&ccedil;&atilde;o triangular que lhe agradou”<a href="#10" name="top10">[10]</a>; “(...) reparou numa pe&ccedil;a de carne a ser partida, meio em sangue - rosbife, lembrou-se, mas essa palavra n&atilde;o fazia de repente qualquer sentido, estendeu a m&atilde;o e engoliu uma fatia - o gosto da carne, quase crua, o gesto de cravar os dentes, de fazer saltar o sangue, o sabor do sangue na l&iacute;ngua, na boca, a inoc&ecirc;ncia de devorar a pe&ccedil;a inteira, pensou tirando outra fatia e sentindo que estender a m&atilde;o era j&aacute; um desvio in&uacute;til, deveria estender directamente a boca”<a href="#11" name="top11">[11]</a>.</p>      <p>Mas &eacute; tamb&eacute;m particularmente conseguido no conto o efeito de altern&acirc;ncia entre estas figura&ccedil;&otilde;es que animalizam a personagem e a reposi&ccedil;&atilde;o moment&acirc;nea duma racionalidade que lhe devolve tra&ccedil;os humanos. Gra&ccedil;as a ele, e &agrave; ironia que o sustenta, torna-se ainda mais complexa e sugestiva a representa&ccedil;&atilde;o duma identidade mutante: quando a jovem empregada atribui &agrave; pr&aacute;tica da gin&aacute;stica a sua nova leveza e agilidade (“&Eacute; por causa da gin&aacute;stica, pensou, por alguma raz&atilde;o come&ccedil;ara a fazer regularmente exerc&iacute;cio”<a href="#12" name="top12">[12]</a>), quando depois procura justifica&ccedil;&atilde;o para a sua fome (“Tinha mais fome, agora, sentiu arrumando os livros e abrindo a porta da cozinha, e isso desagradava-lhe profundamente, admitia que era a contrapartida negativa do exerc&iacute;cio f&iacute;sico”<a href="#13" name="top13">[13]</a>), quando se comporta como qualquer mulher ciosa da sua figura (“procurava um modo de contornar o perigo de engordar”<a href="#14" name="top14">[14]</a>) ou quando, num derradeiro momento de autocontrolo, suspende e retarda a passagem &agrave; vida animal (“e assim foi com esfor&ccedil;o quase sobre-humano que conseguiu entrar no carro e rodar at&eacute; &agrave; orla da floresta, segurando o seu corpo, segurando ainda um minuto mais o seu corpo tr&eacute;mulo”<a href="#15" name="top15">[15]</a>), restabelece-se o recorte das identidades (a humana e a animal) e o retrato em movimento que assim se perfaz resulta n&atilde;o apenas da progressiva deforma&ccedil;&atilde;o figurativa, mas tamb&eacute;m da doseada altern&acirc;ncia dessas identidades.</p>      <p>Todavia, v&aacute;rios ind&iacute;cios ao longo do conto v&atilde;o sugerindo o modo como elas est&atilde;o destinadas a ajustar-se: “ - Parece feito para si”<a href="#16" name="top16">[16]</a>, diz a vendedora quando a protagonista experimenta pela primeira vez o casaco; “ele era seu, fazia parte dela”<a href="#17" name="top17">[17]</a>, pensa a jovem na v&eacute;spera de se tornar dona dele; “ - Feito para si”<a href="#18" name="top18">[18]</a>, repete a vendedora no dia aprazado; “A pele ajustada &agrave; sua, a ponto de n&atilde;o se distinguir dela”<a href="#19" name="top19">[19]</a>, reconhece a compradora; e, por fim, a identifica&ccedil;&atilde;o &eacute; total, quando, j&aacute; de posse do objecto que tanto desejou, a ex-empregada banc&aacute;ria sai da loja, “reencarnando o seu corpo, reencontrando o seu corpo animal e fugindo, deixando a cidade para tr&aacute;s e fugindo”<a href="#20" name="top20">[20]</a>.</p>      <p>O instante do “salto”, da passagem, corresponde em termos discursivos a um &uacute;nico par&aacute;grafo, aquele que remata o conto. Em muitas das hist&oacute;rias narradas n’ <i>As Metamorfoses</i>, Ov&iacute;dio destaca o momento da passagem de um estado a outro e sublinha esse movimento acelerando a narrativa: a prolixidade d&aacute; lugar a um final mais ou menos breve. No conto de Teolinda Gers&atilde;o, o instante da transmuta&ccedil;&atilde;o, do reencontro com uma identidade animal j&aacute; n&atilde;o recalcada, &eacute; ainda mais rarefeito e incisivo. Num vivo contraste de ritmo com o resto do conto, em que sobressaem as sequ&ecirc;ncias dilat&oacute;rias de descri&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica e de an&aacute;lise psicol&oacute;gica, esse final concentra-se em n&atilde;o mais do que cinco linhas de texto, que assinalam o que realmente importa: a substitui&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio de realidade pelo princ&iacute;pio de prazer, o “verdadeiro salto” que a personagem d&aacute; “sobre as patas livres, sacudindo o dorso e a cauda, farejando o ar, o ch&atilde;o, o vento, uivando de prazer e de alegria e desaparecendo, embrenhando-se rapidamente na profundidade da floresta”<a href="#21" name="top21">[21]</a>.</p>      <p>“Um casaco de raposa vermelha” &eacute;, assim, a hist&oacute;ria duma metamorfose - a transforma&ccedil;&atilde;o duma personagem trivial, que gra&ccedil;as a essa transforma&ccedil;&atilde;o se liberta duma vida trivial. &Eacute; uma fic&ccedil;&atilde;o que, na sua destreza ecfr&aacute;stica e r&iacute;tmica, retrata um ser humano em processo de apropria&ccedil;&atilde;o da sua natureza primeira, animal e instintiva - e por isso &eacute; s&oacute; no plano pl&aacute;stico ou formal que a animaliza&ccedil;&atilde;o desta “pequena empregada banc&aacute;ria” nos recorda a animaliza&ccedil;&atilde;o da “actrizita” no poema “Cristaliza&ccedil;&otilde;es” de Ces&aacute;rio Verde, ambas descritivamente motivadas pelo adere&ccedil;o de peles que as duas figuras femininas vestem e que lhes “agu&ccedil;a” o “perfil” ou lhes modifica as fei&ccedil;&otilde;es. O reconhecimento do corpo &eacute; fundamental nesse processo de apropria&ccedil;&atilde;o, e por isso ele &eacute; uma presen&ccedil;a constante no conto. Seja na sua morfologia, seja na sua sensorialidade, o corpo &eacute; o lugar da transmuta&ccedil;&atilde;o, e assim “Um casaco de raposa vermelha” &eacute; um texto muito rico na representa&ccedil;&atilde;o de sensa&ccedil;&otilde;es, sejam elas visuais (“olhava atrav&eacute;s do vidro e de cada vez se alegrava”<a href="#22" name="top22">[22]</a>), auditivas (“mesmo &agrave; dist&acirc;ncia ouvia ru&iacute;dos diminutos”<a href="#23" name="top23">[23]</a>), t&aacute;cteis (“conhec&ecirc;-lo-ia mesmo de olhos fechados, pelo tacto, a pele macia, espessa”<a href="#24" name="top24">[24]</a>), olfactivas (“E os cheiros, um mundo de cheiros, sentiu, como uma dimens&atilde;o ignorada das coisas a que agora se tornara sens&iacute;vel”<a href="#25" name="top25">[25]</a>) ou gustativas (“o gosto da carne, quase crua, o gesto de cravar os dentes”<a href="#26" name="top26">[26]</a>).</p>      <p>Por &uacute;ltimo, este texto &eacute; tamb&eacute;m o lugar onde a pr&oacute;pria escrita se metamorfoseia e se d&aacute; a ver como <i>work in progress</i>, na medida em que passa por uma recontextualiza&ccedil;&atilde;o que transforma a “hist&oacute;ria curiosa, acontecida num pais n&oacute;rdico” e lida “num jornal”, tal como surgia numa nota “diar&iacute;stica” de <i>Os Guarda-Chuvas Cintilantes</i>, em perfilhado conto, inclu&iacute;do no volume <i>A Mulher que Prendeu a Chuva</i>. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>Gers&atilde;o, Teolinda (1984), <i>Os Guarda-Chuvas Cintilantes</i>, Lisboa, O Jornal.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000032&pid=S0807-8967201200030000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Id. (2007), <i>A Mulher que Prendeu a Chuva e Outras Hist&oacute;rias</i>, Lisboa, Sudoeste Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000034&pid=S0807-8967201200030000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <p>(A autora segue a antiga ortografia.)</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><a href="#top1" name="1">[1]</a> Teolinda Gers&atilde;o, <i>Os Guarda-Chuvas Cintilantes</i>, Lisboa, O Jornal, 1984; 2&ordf;ed., Dom Quixote, 1997.</p>      <p><a href="#top2" name="2">[2]</a> Id., <i>A Mulher que Prendeu a Chuva e Outras Hist&oacute;rias</i>, Lisboa, Sudoeste Editora, 2007, p.117.</p>      <p><a href="#top3" name="3">[3]</a> Id., <i>ibid</i>., p. 119.</p>      <p><a href="#top4" name="4">[4]</a> <i>Ibid</i>.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top5" name="5">[5]</a> <i>Ibid</i>.</p>      <p><a href="#top6" name="6">[6]</a> <i>Ibid</i>., pp. 119-120.</p>      <p><a href="#top7" name="7">[7]</a> <i>Ibid</i>., p. 120.</p>      <p><a href="#top8" name="8">[8]</a> <i>Ibid</i>., p. 121.</p>      <p><a href="#top9" name="9">[9]</a> <i>Ibid</i>.</p>      <p><a href="#top10" name="10">[10]</a> <i>Ibid</i>.</p>      <p><a href="#top11" name="11">[11]</a> <i>Ibid</i>.</p>      <p><a href="#top12" name="12">[12]</a> <i>Ibid</i>., p. 119.</p>      <p><a href="#top13" name="13">[13]</a> <i>Ibid</i>., p. 120.</p>      <p><a href="#top14" name="14">[14]</a> <i>Ibid</i>.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top15" name="15">[15]</a> <i>Ibid.</i>, pp. 122-123.</p>      <p><a href="#top16" name="16">[16]</a> <i>Ibid</i>., p. 118.</p>      <p><a href="#top17" name="17">[17]</a> <i>Ibid</i>., p. 122.</p>      <p><a href="#top18" name="18">[18]</a> <i>Ibid</i>.</p>      <p><a href="#top19" name="19">[19]</a> <i>Ibid</i>.</p>      <p><a href="#top20" name="20">[20]</a> <i>Ibid</i>.</p>      <p><a href="#top21" name="21">[21]</a> <i>Ibid</i>., p. 123.</p>      <p><a href="#top22" name="22">[22]</a> <i>Ibid</i>., p. 119.</p>      <p><a href="#top23" name="23">[23]</a> <i>Ibid</i>.</p>      <p><a href="#top24" name="24">[24]</a> <i>Ibid</i>., p. 122.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#top25" name="25">[25]</a> <i>Ibid</i>., p. 120.</p>      <p><a href="#top26" name="26">[26]</a> <i>Ibid</i>., p. 121.</p>       ]]></body><back>
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