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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O caráter híbrido do conceito de referência em Ricœur]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article aims at developing an analysis of the concept of reference in Ricœur. This analysis supports the thesis that the concept of reference in Ricœur has a hybrid character, because it relates two different paradigms of the philosophy of language. Reference is intended on the one hand, the way of the protagonists of analytic philosophy, as a reference to something manifestly extra-linguistic. This extra-linguistic exceeds, however, the status of literality, conceiving reference again as determined by meaning, despite the particular role of the symbolic by which Ricœur seeks to safeguard the extra-linguisticity of the non-literal reference.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p> <b>O car&aacute;ter h&iacute;brido do conceito de refer&ecirc;ncia em Ricœur</b> </p>     <p> <b>Bernhard Sylla*</b> </p>     <p> *Universidade do Minho, Instituto de Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas, Departamento de Filosofia, 4710-057 Braga, Portugal. </p>      <p><a href="mailto:bernhard@ilch.uminho.pt">bernhard@ilch.uminho.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>     <p> Este artigo pretende desenvolver uma an&aacute;lise do conceito de refer&ecirc;ncia em Ricœur. Esta an&aacute;lise sustenta a tese de que o conceito de refer&ecirc;ncia em Ricœur tem um car&aacute;ter h&iacute;brido, porque se relaciona com dois paradigmas diferentes da filosofia da linguagem. A refer&ecirc;ncia &eacute; concebida, por um lado, &agrave; maneira dos protagonistas da filosofia anal&iacute;tica, como refer&ecirc;ncia a algo manifestamente extralingu&iacute;stico. Este extralingu&iacute;stico ultrapassa, por&eacute;m, o estatuto do literalmente referido, aproximando-se novamente do referido como derivado do sentido, n&atilde;o obstante a fun&ccedil;&atilde;o particular do simb&oacute;lico, atrav&eacute;s da qual Ricœur pretende salvaguardar o estatuto extralingu&iacute;stico da refer&ecirc;ncia n&atilde;o-literal. </p>     <p><b>Palavras chave</b>: Ricœur; refer&ecirc;ncia; sentido; filosofia continental; filosofia anal&iacute;tica.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>ABSTRACT</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> This article aims at developing an analysis of the concept of reference in Ricœur. This analysis supports the thesis that the concept of reference in Ricœur has a hybrid character, because it relates two different paradigms of the philosophy of language. Reference is intended on the one hand, the way of the protagonists of analytic philosophy, as a reference to something manifestly extra-linguistic. This extra-linguistic exceeds, however, the status of literality, conceiving reference again as determined by meaning, despite the particular role of the symbolic by which Ricœur seeks to safeguard the extra-linguisticity of the non-literal reference. </p>     <p><b>Keywords</b>: Ricœur; reference; meaning; continental philosophy; analytic philosophy.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>1. Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>      <p>Proponho-me a desenvolver, neste artigo, uma an&aacute;lise do conceito de refer&ecirc;ncia em Ricœur. Esta an&aacute;lise sustenta a tese de que o conceito de refer&ecirc;ncia em Ricœur tem um car&aacute;ter h&iacute;brido. &Eacute; &oacute;bvio que uma tal tese n&atilde;o se pode resumir a uma mera s&iacute;ntese daquilo que Ricœur diz sobre a refer&ecirc;ncia, uma vez que Ricœur nunca diz que o seu conceito de refer&ecirc;ncia &eacute; h&iacute;brido. A an&aacute;lise parte, pois, de uma vis&atilde;o diferente que exporei muito sucintamente.</p>      <p>Durante pelo menos um s&eacute;culo, e <i>grosso modo</i> ainda hoje, costumava-se distinguir entre dois macroparadigmas da filosofia da linguagem, o anglo-sax&oacute;nico e o continental. N&atilde;o obstante esta distin&ccedil;&atilde;o levantar uma s&eacute;rie de quest&otilde;es, n&atilde;o obstante esta opini&atilde;o n&atilde;o ser un&acirc;nime e de se poder falar numa tend&ecirc;ncia para uma maior aproxima&ccedil;&atilde;o ou at&eacute; um esbatimento das fronteiras entre estes macroparadigmas, penso que h&aacute; uma diferen&ccedil;a fundamental que vigorou durante um per&iacute;odo razoavelmente extenso do s&eacute;culo XX. Esta diferen&ccedil;a tem a ver, segundo a minha opini&atilde;o, com dois pressupostos diferentes. </p>      <p>O primeiro pressuposto, o da linhagem anal&iacute;tica, parte do princ&iacute;pio de que &eacute; inerente &agrave; linguagem uma indel&eacute;vel bipolaridade que se revela pela e na fun&ccedil;&atilde;o da refer&ecirc;ncia (entendido este termo num sentido extremamente lato, englobando a denota&ccedil;&atilde;o, representa&ccedil;&atilde;o, refer&ecirc;ncia no sentido restrito, etc.) da linguagem. N&atilde;o interessam em primeira linha, sob este ponto de vista, as diferen&ccedil;as entre realismo(s) e anti-realismo(s), nominalismo(s) e realismo(s), etc.; o que interessa &eacute; que uma grande parte da empresa de investiga&ccedil;&atilde;o parte dessa bipolaridade. A linguagem estabelece uma liga&ccedil;&atilde;o, seja qual for a sua especificidade, com uma inst&acirc;ncia extralingu&iacute;stica, e &eacute; isso que cunha determinantemente a maior parte das investiga&ccedil;&otilde;es da filosofia anal&iacute;tica, principalmente todas as quest&otilde;es relacionadas com a verdade, que est&atilde;o por exemplo no centro das assim chamadas <i>truth-conditional-semantics</i> ou <i>truth theories</i>.</p>      <p>A outra abordagem que marca muitas das teorias chamadas ‘continentais’ parte do princ&iacute;pio de que n&atilde;o faz muito sentido assentar a filosofia da linguagem nesta bipolaridade, pois essa, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, sempre se revela como unipolaridade. A linguagem faz, cria, constitui aquilo que &eacute; o mundo. N&atilde;o conv&eacute;m, portanto, pressupor uma realidade nua e crua, uma realidade em si, pois a &uacute;nica realidade que temos &eacute; a realidade linguisticamente moldada, a que se chama ‘mundo’. &Eacute; essa decididamente a posi&ccedil;&atilde;o que Ernst Cassirer defendeu, e que est&aacute; na base de muitas outras filosofias ‘continentais’, e.g. de Nietzsche, Heidegger, Gadamer, Apel, Habermas, Derrida, etc. N&atilde;o quer isso dizer que estas teorias, entre si, n&atilde;o possam divergir muito, e tampouco quer dizer que o fen&oacute;meno de refer&ecirc;ncia esteja exclu&iacute;do das reflex&otilde;es te&oacute;ricas. Mas a refer&ecirc;ncia perde o valor de um problema nuclear, pois &eacute; um fen&oacute;meno que brota da pr&oacute;pria linguagem e que pode ser pensado satisfatoriamente no &acirc;mbito do seu dom&iacute;nio. Embora possa haver algo fora de mim, esse ‘fora’ apenas ganha contornos, cognoscibilidade, inteligibilidade se lhe for atribu&iacute;da, consciente ou inconscientemente, signific&acirc;ncia, e essa signific&acirc;ncia adv&eacute;m e constitui-se na e pela linguagem. N&atilde;o se adaptam aqui coerentemente as antinomias idealismo – realismo, ou construtivismo – representacionalismo, etc., pois o fundamental &eacute; apenas que a bipolaridade <i>linguagem</i> – <i>realidade</i> se torna aproblem&aacute;tica ou num problema menor, e foi esse talvez o aspeto que conferiu &agrave;s teorias de Husserl, Heidegger, Ortega y Gasset a notoriedade de ter elegantemente vencido o problema t&atilde;o antigo como dif&iacute;cil, da cis&atilde;o entre objeto e sujeito.</p>      <p>Partindo ent&atilde;o desta distin&ccedil;&atilde;o entre os dois grandes macroparadigmas da Filosofia da Linguagem e os seus diferentes pressupostos fundamentais,<sup><a href="#1" name="top1" >[1]</a></sup> debru&ccedil;ar-me-ei sobre o conceito de refer&ecirc;ncia em Ricœur. Baseio a minha an&aacute;lise sobretudo, se bem que n&atilde;o exclusivamente, no texto <i>Interpretation Theory: Discourse and the Surplus of Meaning</i><sup><a href="#2" name="top2" >[2]</a></sup> de 1975, publicado quase que imediatamente ap&oacute;s a publica&ccedil;&atilde;o de <i>La m&eacute;taphore vive</i>. Tal como Ted Klein afirma no pref&aacute;cio de <i>Interpretation Theory</i>, este texto cont&eacute;m “Paul Ricoeur’s philosophy of integral language” (Klein 1976: vii), exposta numa s&iacute;ntese densa e magnificamente l&uacute;cida. </p>      <p><b>2. A refer&ecirc;ncia como liga&ccedil;&atilde;o entre lingu&iacute;stico e extralingu&iacute;stico</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na sua <i>Autobiographie intellectuelle</i><sup><a href="#3" name="top3" >[3]</a></sup>, Ricœur confessa que a conce&ccedil;&atilde;o da refer&ecirc;ncia como liga&ccedil;&atilde;o entre lingu&iacute;stico e extralingu&iacute;stico constituiu, ao longo de muitos anos, uma preocupa&ccedil;&atilde;o central da sua teoria da linguagem: “J’ai dit plus haut avec quelle v&eacute;h&eacute;mence je plaidais pour une conception du langage qui rend&icirc;t justice &agrave; sa vis&eacute;e extra-linguistique” (AI, 46). A escolha destas palavras demonstra j&aacute; por si que havia necessidade, na perspetiva de Ricœur, de combater uma conce&ccedil;&atilde;o ‘errada’, uma conce&ccedil;&atilde;o que falhava gravemente na empresa de entender o fen&oacute;meno da linguagem. &Eacute; sabido que essa era a conce&ccedil;&atilde;o estruturalista da linguagem, na altura bastante consagrada e divulgada.</p>      <p>A refuta&ccedil;&atilde;o da conce&ccedil;&atilde;o estruturalista constitui, pois, o ponto de partida das reflex&otilde;es de Ricœur sobre a linguagem. Esta refuta&ccedil;&atilde;o &eacute; motivada, em primeiro lugar, pelo facto de o estruturalismo desembocar numa desvaloriza&ccedil;&atilde;o daquilo que &eacute; exterior &agrave; linguagem. Cientificamente valioso &eacute; apenas aquilo que se passa no sistema da <i>langue</i>, no interior da linguagem, de maneira que a liga&ccedil;&atilde;o com o seu exterior seria, do ponto de vista cient&iacute;fico, negligenci&aacute;vel. As palavras com as quais Ricœur termina a sua breve s&iacute;ntese do estruturalismo na parte inicial de <i>Interpretation Theory</i> exp&otilde;em claramente a sua cr&iacute;tica a esta posi&ccedil;&atilde;o:</p>      <blockquote>The last postulate [o do estruturalismo; este postulado sustenta que todas as rela&ccedil;&otilde;es s&atilde;o imanentes ao sistema] alone suffices to characterize structuralism as a global mode of thought, beyond all the technicalities of its methodology. Language no longer appears as a mediation between minds and things. It constitutes a world of its own, within which each item only refers to other items of the same system, thanks to the interplay of oppositions and differences constitutive of the system. In a word, language is no longer treated as a “form of life”, as Wittgenstein would call it, but as a self-sufficient system of inner relationships. (IT, 6)</blockquote>      <p>Se bem que se saiba hoje que a redu&ccedil;&atilde;o da posi&ccedil;&atilde;o de Saussure a um rigoroso favorecimento da sincronicidade em detrimento da diacronicidade &eacute; falsa e um mito criado pelos editores da primeira edi&ccedil;&atilde;o do <i>Cours</i>, isso n&atilde;o alterar&aacute; profundamente o pretexto da cr&iacute;tica de Ricœur. Pois &eacute; um pressuposto duro do estruturalismo que o c&oacute;digo da estrutura determina a mensagem. Seja na lingu&iacute;stica (e.g. Saussure, C&iacute;rculo de Praga, Hjelmslev), na teoria da literatura (e.g. Barthes, Jakobson e o formalismo russo), na antropologia (e.g. L&eacute;vi-Strauss), a primazia dada ao c&oacute;digo &eacute; um facto assumido, um <i>essential</i>, um axioma duro. As ci&ecirc;ncias estruturalistas que partem deste princ&iacute;pio de que aquilo que unicamente interessa &eacute; a investiga&ccedil;&atilde;o das regras que vigoram no interior de um sistema de signos s&atilde;o apelidadas, por Ricœur, de <i>Semi&oacute;tica</i>. “The object of semiotics – the sign – is merely virtual” (IT, 7), pois assenta na arbitrariedade dos signos e nas suas interrela&ccedil;&otilde;es intrasist&eacute;micas, na mera diferen&ccedil;a que, segundo Saussure, &eacute; um princ&iacute;pio negativo. Mas n&atilde;o &eacute; a virtualidade em si que &eacute; o maior mal, mas antes a ignor&acirc;ncia do facto de que a ‘exterioriza&ccedil;&atilde;o’ da linguagem &eacute; algo decididamente essencial. S&oacute; quando se prova que este &uacute;ltimo postulado &eacute; justificado, se prova ao mesmo tempo a insufici&ecirc;ncia da Semi&oacute;tica.</p>      <p>Conv&eacute;m intercalar aqui uma observa&ccedil;&atilde;o importante: o que rejeita Ricœur aqui &eacute; de facto uma posi&ccedil;&atilde;o que est&aacute; na base de muitas teorias continentais da linguagem. Esta posi&ccedil;&atilde;o parte do princ&iacute;pio de que a estrutura da l&iacute;ngua determina o pensar e o agir dos seus falantes, e foi defendida n&atilde;o s&oacute; pela corrente lingu&iacute;stica da <i>Sprachinhaltsforschung</i> na Alemanha (Weisgerber, Ipsen, Trier, Gipper etc.) durante meio s&eacute;culo (de 1925 a 1975), mas tamb&eacute;m por fil&oacute;sofos como Cassirer, H&ouml;nigswald, o primeiro Apel, e de uma certa maneira tamb&eacute;m por Heidegger e Gadamer. Para al&eacute;m de Humboldt e Herder recorreu-se, nalguns autores, principalmente a Saussure, pela sua conce&ccedil;&atilde;o da l&iacute;ngua como um facto social que exerce um impacto sobre os seus respetivos falantes. Mas esta posi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se prende necessariamente com o estruturalismo, pois, a t&iacute;tulo de exemplo, n&atilde;o se encontra em L&eacute;vi-Strauss e apenas de uma forma fundamentalmente transformada em Barthes, ou foi rigorosamente contestada por Jakobson. Da&iacute; que possamos alertar para um facto importante: o pressuposto de que a l&iacute;ngua e a sua estrutura, ou uma estrutura de um sistema de signos em geral, determina a ‘conce&ccedil;&atilde;o do mundo’ n&atilde;o se prende necessariamente com o estruturalismo, tampouco como a defesa da tese da constru&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica da conce&ccedil;&atilde;o do mundo n&atilde;o se prende necessariamente com o pressuposto de que a linguagem &eacute; um sistema fechado. &Eacute; este facto que fornece o motivo deste artigo. Pois a minha tese parte do princ&iacute;pio que Ricœur, por um lado e devido &agrave; sua avers&atilde;o &agrave; ‘clausura’ da semi&oacute;tica estruturalista, quer provar que a linguagem necessita de algo extralingu&iacute;stico, tese que leva diretamente &agrave; derrota da tese dura da semi&oacute;tica sobre a linguagem como sistema auto-suficiente e fechado. Por outro lado, o pr&oacute;prio Ricœur defende uma posi&ccedil;&atilde;o que sustenta pelo menos de uma certa maneira que o mundo &eacute;, no fundo, linguisticamente constru&iacute;do. Como esta posi&ccedil;&atilde;o se encontra (para Ricœur) em ‘perigosa’ proximidade da semi&oacute;tica, haver&aacute; a maior necessidade de marcar claramente as diferen&ccedil;as. E esta marca&ccedil;&atilde;o das diferen&ccedil;as passa pelo conceito de refer&ecirc;ncia. </p>      <p>Atentar-me-ei, ap&oacute;s esta breve descri&ccedil;&atilde;o do contexto subjacente do problema em quest&atilde;o, &agrave; an&aacute;lise do perfil que o conceito de refer&ecirc;ncia adquire em Ricœur. Tendo em conta o aspeto mais fundamental, ‘refer&ecirc;ncia’ significa para Ricœur que se <i>sai</i> da clausura do sistema dos signos. &Eacute; esta ideia que alicer&ccedil;a e motiva a distin&ccedil;&atilde;o entre semi&oacute;tica e sem&acirc;ntica que assinala o combate te&oacute;rico com o qual Ricœur se compromete. Segundo Ricœur, a semi&oacute;tica ignora que ‘a linguagem’, a v&aacute;rios n&iacute;veis diferentes, implica uma sa&iacute;da de si mesma. </p>      <p>O primeiro destes n&iacute;veis &eacute; indicado pelo entendimento de ‘sem&acirc;ntico’. &Agrave; sem&acirc;ntica pertence a frase, &agrave; semi&oacute;tica o signo. A frase, por sua vez, n&atilde;o se deixa reduzir &agrave; sua fun&ccedil;&atilde;o de signo, n&atilde;o &eacute; apenas um signo, mas algo que, ao combinar um signo (nome) com outro (verbo), <i>predica</i> algo de um sujeito (IT, 6-9). Esta predica&ccedil;&atilde;o apenas &eacute; entendida na sua plena ess&ecirc;ncia quando se tem em conta a fun&ccedil;&atilde;o da refer&ecirc;ncia. Da&iacute; que apenas a sem&acirc;ntica e n&atilde;o a semi&oacute;tica possa entender o fen&oacute;meno da refer&ecirc;ncia. </p>      <p>A um segundo n&iacute;vel, a sa&iacute;da do sistema fechado dos signos &eacute; implicada pelo <i>discurso</i>. O discurso, embora contenha em si as especificidades da <i>langue</i> e da <i>parole</i> no sentido saussuriano, &eacute; <i>mais</i> do que a mera soma de <i>langue</i> e <i>parole</i>, pois o emprego dos termos de <i>langue</i> e de <i>parole</i>, segundo Ricœur, levaria, de antem&atilde;o, a um caminho errado, i.e. &agrave; vis&atilde;o de que a <i>parole</i> &eacute; a mera aplica&ccedil;&atilde;o casual do c&oacute;digo da <i>langue</i>. Muito pelo contr&aacute;rio, acontece algo no discurso que n&atilde;o &eacute; cientificamente previs&iacute;vel quando se investiga apenas a <i>langue</i> enquanto sistema semi&oacute;tico. Embora o significado dos signos seja um momento que subjaz a cada discurso e que se deve &agrave; <i>langue</i>, este significado apenas ganha o seu valor predicativo no discurso, i.e. no momento em que se relaciona um significado com algo que lhe &eacute; exterior, com uma ‘coisa’<sup><a href="#4" name="top4" >[4]</a></sup>. Visto que o c&oacute;digo, o sistema dos signos, se tornar&aacute; atual e sair&aacute; do estado de virtualidade apenas quando um signo for relacionado com o exterior, e visto que este relacionamento ocorre no discurso enquanto ‘evento’, prova-se assim que o discurso &eacute; um termo muito mais abrangente do que os dois termos de <i>langue</i> e de <i>parole</i>. Pois o termo de <i>parole</i> n&atilde;o nos diz nada sobre o valor de verdade<sup><a href="#5" name="top5" >[5]</a></sup>, sobre a adequa&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o da aplica&ccedil;&atilde;o do c&oacute;digo da <i>langue</i>, e a <i>langue</i> n&atilde;o &eacute;, em termos ontol&oacute;gicos, nada ou &eacute; apenas virtual se n&atilde;o for ligada &agrave;quilo que lhe &eacute; exterior.</p>      <p>A um terceiro n&iacute;vel, entra tamb&eacute;m em jogo o pr&oacute;prio conceito de refer&ecirc;ncia. Neste &acirc;mbito, conv&eacute;m, no entanto, ter em considera&ccedil;&atilde;o que o pr&oacute;prio Ricœur distingue entre dois tipos de refer&ecirc;ncia, a refer&ecirc;ncia ostensiva situacional e a refer&ecirc;ncia estabelecida na escrita (cf. IT, 80ss.). No que concerne ao primeiro tipo de refer&ecirc;ncia, este caracteriza-se por a ‘coisa’ referida estar presente ou acess&iacute;vel ao locutor e aos interlocutores aos quais se dirige o discurso. Aqui, a dimens&atilde;o do extralingu&iacute;stico est&aacute; implicada de uma forma mais direta: a coisa referida ou o estado de coisas referido fazem parte da mesma situa&ccedil;&atilde;o ‘real’. No subcap&iacute;tulo “Meaning as &laquo;Sense&raquo; and &laquo;Reference&raquo;” (IT, 19-22), encontram-se formula&ccedil;&otilde;es absolutamente claras sobre o problema em quest&atilde;o. Relacionando as suas teses direta e explicitamente com as defini&ccedil;&otilde;es de <i>sentido</i> e <i>refer&ecirc;ncia</i> em “&Uuml;ber Sinn und Bedeutung” de Frege, Ricœur real&ccedil;a as implica&ccedil;&otilde;es ontol&oacute;gicas do conceito de refer&ecirc;ncia:</p>      <blockquote>This notion of bringing experience to language is the ontological condition of reference, an ontological condition reflected within language as a postulate which has not immanent justification; the postulate according to which we presuppose that something must be in order that something may be identified. This postulation of existence as the ground of identification is what Frege ultimately meant when he said that we are not satisfied by the sense alone, but we presuppose a reference. (IT 21) </blockquote>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Chegamos, por assim dizer, com esta vis&atilde;o ontol&oacute;gica sobre a refer&ecirc;ncia, ao cume da posi&ccedil;&atilde;o de Ricœur, pois a demonstra&ccedil;&atilde;o da necessidade da pressuposi&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia aut&oacute;noma da coisa referida implica indubitavelmente uma sa&iacute;da do c&iacute;rculo fechado da linguagem. Chegados ao cume, falta apenas confirmar quais as conex&otilde;es entre os mencionados tr&ecirc;s n&iacute;veis conceituais (sem&acirc;ntica, discurso, refer&ecirc;ncia). No que respeita &agrave; conex&atilde;o entre sem&acirc;ntica e refer&ecirc;ncia, podemos ler o seguinte:</p>      <blockquote>Finally, semiotics appears as a mere abstraction of semantics. And the semiotic definition of the sign as an inner difference between signifier and signified presupposes its semantic definition as reference to the thing for which it stands. The most concrete definition of semantics, then, is the theory that relates the inner or immanent constitution of the sense to the outer or transcendent intention of the reference. (IT, 21s.)</blockquote>      <p>Relativamente ao discurso, aparece nele manifestamente n&atilde;o s&oacute; a refer&ecirc;ncia ao mundo, mas tamb&eacute;m &agrave;s dimens&otilde;es ilocucion&aacute;ria e ‘interlocucion&aacute;ria’ (ou ‘alocucion&aacute;ria’) (cf. IT, 14) do ato de fala. No &acirc;mbito do problema em an&aacute;lise neste ensaio posso negligenciar esta quest&atilde;o. Basta que fique claro que o discurso, segundo Ricœur, estabelece uma auto-refer&ecirc;ncia ao locutor e uma refer&ecirc;ncia ao mundo, pressupondo assim tamb&eacute;m ele a sa&iacute;da do sistema fechado da linguagem. Acrescento as passagens do texto de Ricœur que me parecem explicitar o assunto em quest&atilde;o com suficiente clareza:</p>      <blockquote>Discourse refers back to its speaker at the same time that it refers to the world. This correlation is not fortuitious [<i>sic</i>], since it is ultimately the speaker who refers to the world in speaking. Discourse in action and in use refers backwards and forwards, to a speaker and a world. (IT, 22)</blockquote>      <p>Em jeito de conclus&atilde;o desta primeira parte, conv&eacute;m ent&atilde;o salientar o seguinte: para combater a vis&atilde;o redutiva da semi&oacute;tica estruturalista sobre a linguagem, Ricœur recorre ao conceito de refer&ecirc;ncia na ace&ccedil;&atilde;o que lhe foi dada por Frege em “&Uuml;ber Sinn und Bedeutung” e que cunhou fortemente o tipo das an&aacute;lises da linhagem anal&iacute;tica da filosofia da linguagem que se sucedeu. A refer&ecirc;ncia pressup&otilde;e, assim, uma sa&iacute;da da clausura da linguagem, de modo que seria redutor conferir &agrave; linguagem todo o peso da ‘constru&ccedil;&atilde;o’ da realidade. Sem o seu correlato, a realidade ‘al&eacute;m da linguagem’, n&atilde;o h&aacute; constru&ccedil;&atilde;o de um mundo. Esta conclus&atilde;o, por&eacute;m, vem a ser, de uma certa forma, contrariada pelo segundo tipo de refer&ecirc;ncia que &eacute; a refer&ecirc;ncia estabelecida pela escrita e, no &uacute;ltimo Ricœur, pelo texto.</p>      <p><b>3. A refer&ecirc;ncia como exterioriza&ccedil;&atilde;o do sentido</b></p>      <p>A refer&ecirc;ncia estabelecida pela escrita difere da refer&ecirc;ncia ostensiva/situacional pelo facto de (geralmente) n&atilde;o existir uma situa&ccedil;&atilde;o comum entre locutor / autor de um texto e ouvinte / leitor, havendo, antes pelo contr&aacute;rio, um hiato esp&aacute;cio-temporal entre enuncia&ccedil;&atilde;o e rece&ccedil;&atilde;o do discurso. Mas esta “suspension or suppression” (IT, 81) da refer&ecirc;ncia ostensiva n&atilde;o significa que n&atilde;o haja refer&ecirc;ncia nenhuma:</p>      <blockquote>Does this mean that this eclipse of reference, in either the ostensive or descriptive sense, amounts to a sheer abolition of all reference? No. My contention is that [poetic] discourse cannot fail to be about something. In saying this, I am denying the ideology of absolute texts. (IT, 36) </blockquote>      <p>Esta afirma&ccedil;&atilde;o sustenta n&atilde;o s&oacute; a tese de que existe um tipo de refer&ecirc;ncia n&atilde;o situacional, mas tamb&eacute;m que esta refer&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; (ou apenas em rar&iacute;ssimos casos) ‘autoreferencial’, como pretendiam, relativamente ao discurso po&eacute;tico, os formalistas russos. Antes pelo contr&aacute;rio, a refer&ecirc;ncia da escrita abre uma nova realidade, &agrave; que Ricœur chama mundo. “For me, the world is the ensemble of references opened up by every kind of text, descriptive or poetic, that I have read, understood, and loved.” (IT, 37). Esta realidade de segunda dimens&atilde;o &eacute; uma realidade que s&oacute; o homem pode ter, pois implica, bem &agrave; maneira de Heidegger, ter uma no&ccedil;&atilde;o da temporalidade da nossa exist&ecirc;ncia. Mesmo assim, mant&eacute;m uma carater&iacute;stica peculiar que marca a diferen&ccedil;a para com o pensamento de Heidegger. Esta diferen&ccedil;a diz respeito ao entendimento e &agrave; conce&ccedil;&atilde;o da no&ccedil;&atilde;o de <i>realidade</i>. Pois, segundo Ricœur, a escrita, mesmo estando separada da situacionalidade e ‘realidade’ direta ou, por assim dizer, ostensivamente alcan&ccedil;&aacute;vel, n&atilde;o se reduz ontologicamente &agrave; linguagem, porque “[l]anguage is not a world of its own. It is not even a world.” (IT, 20). O que &eacute; ent&atilde;o o mundo e o tipo de realidade deste mundo, se n&atilde;o &eacute; nem a realidade de primeiro grau nem a linguagem? Estamos a chegar ao cerne da nossa quest&atilde;o: ficou, por um lado, claro que o discurso situacional pressup&otilde;e a refer&ecirc;ncia de primeiro grau &agrave;s ‘coisas’, &agrave; realidade de primeiro grau. Neste sentido, o recorrer a Frege &eacute; perfeitamente entend&iacute;vel. No que respeita ao entendimento do tipo de refer&ecirc;ncia estabelecida pelos textos, j&aacute; n&atilde;o temos a mesma certeza. Veremos esta quest&atilde;o mais de perto. </p>      <p>Para come&ccedil;ar, relembro a convic&ccedil;&atilde;o fundamental da filosofia continental nas suas mais variadas vers&otilde;es: segundo este paradigma, aquilo a que Ricœur chama mundo &eacute; uma realidade que depende essencialmente da conceptualiza&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica, pois sem esta nem sequer haveria mundo, ou seja, se bem que possa haver algo fora do alcance lingu&iacute;stico, este algo apenas se transforma em mundo se passar pelo ‘tratamento’ lingu&iacute;stico. Pois a linguagem disseca, combina, forma e comp&otilde;e a nossa vis&atilde;o das coisas, ou seja, dito &agrave; maneira de um Kant metacriticamente transformado, n&atilde;o h&aacute; experi&ecirc;ncia ‘objetiva’ sen&atilde;o como experi&ecirc;ncia linguisticamente moldada. Ontologicamente, esta realidade brota do seio da linguagem e depende fundamentalmente dela, e n&atilde;o est&aacute; oposta a ela ou separada dela, o que n&atilde;o quer dizer que ela pr&oacute;pria tenha um car&aacute;ter meramente ou exclusivamente lingu&iacute;stico. Ser&aacute; que Ricœur &eacute; capaz de contrariar definitivamente este paradigma ou de passar ao lado dele? Penso que n&atilde;o, e reservo esta &uacute;ltima parte do artigo &agrave; justifica&ccedil;&atilde;o da minha posi&ccedil;&atilde;o. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>(i) Num primeiro argumento sustento que Ricœur concebe a refer&ecirc;ncia ao mundo, ou seja a refer&ecirc;ncia que &eacute; o mundo, como <i>conceptualiza&ccedil;&atilde;o</i>, como <i>proje&ccedil;&atilde;o</i> <i>realizada por meio da linguagem</i>. As passagens que demonstram esta posi&ccedil;&atilde;o s&atilde;o numerosas. Cito apenas duas: na p&aacute;gina 37 de <i>Interpretation Theory</i>, Ricœur d&aacute; raz&atilde;o a Heidegger e &agrave; sua an&aacute;lise da <i>compreens&atilde;o</i> em <i>Ser e Tempo</i>: o que entendemos num discurso (da escrita) “is not another person, but a “pro-ject,” [<i>sic</i>] that is, the outline of a new way of being in the world.” (IT, 37). &Eacute; sabido que o aspeto de novidade, mencionado na passagem citada, se prende, para Ricœur, essencialmente com a fun&ccedil;&atilde;o da ‘met&aacute;fora viva’. &Eacute; a met&aacute;fora viva que constr&oacute;i novas perspetivas sobre o mundo, ou dito mais radicalmente, que constr&oacute;i novos mundos. Da&iacute; Ricœur, em<i> Interpretation Theory</i>, cuja publica&ccedil;&atilde;o sucedeu imediatamente &agrave; de <i>La m&eacute;taphore vive</i>, poder resumir o teor nuclear da sua teoria da met&aacute;fora a&iacute; apresentada com a seguinte frase: “But metaphor theory (…) shows how new possibilities for <i>articulating</i> and <i>conceptualizing</i> reality can arise through an assimilation of hitherto separated semantic fields.” (IT, 57; it&aacute;lico presente autor). E mais algumas p&aacute;ginas &agrave; frente, quando elogia o contributo de Max Black para os progressos nas teorias sobre a met&aacute;fora,<sup><a href="#6" name="top6" >[6]</a></sup> incidindo sobretudo sobre a fun&ccedil;&atilde;o paralela de novos modelos te&oacute;ricos e da met&aacute;fora, Ricœur anota: </p>      <blockquote>As Max Black puts it, to describe a domain of reality in terms of an imaginary theoretical model is <i>a way of seeing things</i> differently by changing <i>our language about</i> the subject of our investigation. This change of language proceeds from the <i>construction</i> of a heuristic fiction and through the <i>transposition</i> of the characteristics of this heuristic fiction to reality itself. (IT 67; it&aacute;lico presente autor)</blockquote>      <p>H&aacute; que salientar aqui n&atilde;o apenas o tra&ccedil;o fundamental da conceptualiza&ccedil;&atilde;o e da sua ‘aplica&ccedil;&atilde;o na’ ou ‘transposi&ccedil;&atilde;o para’ a realidade, mas tamb&eacute;m a distin&ccedil;&atilde;o de duas <i>realidades</i>, uma de primeiro e uma de segundo grau, em plena correspond&ecirc;ncia com as <i>refer&ecirc;ncias</i> de primeiro e de segundo grau. Pois a aboli&ccedil;&atilde;o da realidade de primeiro grau liberta o caminho para a apreens&atilde;o da realidade de segundo grau que, ali&aacute;s, segundo Ricœur, &eacute; intitulada de “realidade mais real”:</p>      <blockquote>Considered in terms of its referential bearing, poetic language has in common with scientific language that it only reaches reality through a detour that serves to deny our ordinary vision and the language we normally use to describe it. In doing this both poetic and scientific language aim at a <i>reality more real</i> than appearances. (IT, 67; it&aacute;lico presente autor)</blockquote>      <p>Cito mais uma passagem que encerra o curso da minha argumenta&ccedil;&atilde;o relativamente a este primeiro ponto: pois parece que a realidade de segundo grau, produto da refer&ecirc;ncia de segundo grau, n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o uma realidade <i>redescrita</i>, i.e. uma <i>redescri&ccedil;&atilde;o</i>, e da&iacute; fundamentalmente ligada &agrave; linguagem:</p>      <blockquote>(…) This is why poetry creates its own world. The suspension of the referential function of the first degree affects ordinary language to the benefit of a second order degree reference, which is attached precisely to the fictive dimension revealed by the theory of models [of Max Black]. In the same way that the literal sense has to be left behind so that the metaphorical sense can emerge, so the literal reference must collapse so that the heuristic fiction can work its <i>redescription of reality.</i> (IT, 67s.; it&aacute;lico presente autor)</blockquote>      <p>(ii) Passaremos ao segundo argumento que sustenta que a realidade de segundo grau estabelecida pela refer&ecirc;ncia de segundo grau n&atilde;o se deixa entender com base no conceito de realidade de primeiro grau estabelecida pela refer&ecirc;ncia de primeiro grau. Em princ&iacute;pio, isto j&aacute; &eacute; &oacute;bvio devido &agrave; afirma&ccedil;&atilde;o de Ricœur que a realidade de segundo grau exige a aboli&ccedil;&atilde;o da realidade de primeiro grau. O que me interessa aqui acrescentar &eacute; apenas a confirma&ccedil;&atilde;o de que Ricœur associava esta problem&aacute;tica de uma maneira expl&iacute;cita a autores da tradi&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica da filosofia da linguagem. Neste sentido, encontramos uma primeira alus&atilde;o expl&iacute;cita a Carnap no cap&iacute;tulo sobre “The Theory of Metaphor”: </p>      <blockquote>Within the tradition of logical positivism this distinction between explicit and implicit meaning was treated as the distinction between cognitive and emotive language. And a good part of literary criticism influenced by this positivist tradition transposed the distinction between cognitive and emotive language into the vocabulary of denotation and connotation. For such a position only the denotation is cognitive and, as such, is of a semantic order. A connotation is extra-semantic because it consists of the weaving together of emotive evocations, which lack cognitive value. (IT, 46)<sup><a href="#7" name="top7" >[7]</a></sup> </blockquote>      <p>Esta posi&ccedil;&atilde;o &eacute;, segundo Ricœur, errada, pois a met&aacute;fora tem at&eacute; um valor cognitivo muito elevado ao abrir novos acessos e ao fornecer novos modelos da conceptualiza&ccedil;&atilde;o da realidade. Ou seja, o que a met&aacute;fora faz, sobretudo ao n&iacute;vel da sem&acirc;ntica da frase, &eacute; a cria&ccedil;&atilde;o de um sentido que nos diz algo novo sobre a realidade. Pode-se at&eacute; radicalizar a oposi&ccedil;&atilde;o entre realidade de primeiro grau e segundo grau, porque, segundo Ricœur, a “ordinary vision obscures or even represses” os “modes of being” (IT, 60) desvelados pelo discurso po&eacute;tico. E Ricœur continua assim: “We might even say that the poet’s speech is freed from the ordinary vision of the world <i>only because</i> he makes himself free for the new being which he has to bring to language.” (IT, 60; it&aacute;lico presente autor). Sustenta-se, portanto, que a realidade de segundo grau <i>s&oacute; e somente se constitui </i>se a realidade de primeiro grau for abandonada. Atentando a que Frege, em “&Uuml;ber Sinn und Bedeutung”, negou qualquer ‘<i>Bedeutung’</i>, i.e. valor referencial, a ‘sentidos’ ficcionais, mencionando a t&iacute;tulo de exemplo a figura de Ulisses (Frege 1895: 32s.), &eacute; &oacute;bvio que a realidade e a refer&ecirc;ncia de segundo grau nada podem ter a ver com a refer&ecirc;ncia como foi entendida nos textos mencionados de Frege e Carnap. Da&iacute; parecer pouco consistente que Ricœur, para enfatizar a realidade aberta pela met&aacute;fora, mencione numa breve passagem a teoria de Frege da distin&ccedil;&atilde;o entre sentido e refer&ecirc;ncia em “&Uuml;ber Sinn und Bedeutung” como uma das teorias com potencial de fundamenta&ccedil;&atilde;o desta sua posi&ccedil;&atilde;o (IT, 66). Pois segundo Carnap e Frege, uma suposta realidade po&eacute;tica, se bem que perten&ccedil;a &agrave;quilo que preocupa o homem, jamais nos poder&aacute; fornecer um conhecimento cientificamente v&aacute;lido. Na <i>Autobiographie intellectuelle</i>, no entanto, parece que Ricœur tenha plena consci&ecirc;ncia deste facto, quando diz, no tocante &agrave; sua tese da <i>renarra&ccedil;&atilde;o da realidade</i>: </p>      <blockquote>Je ne renie pas aujourd’hui cette th&egrave;se, que je tiens certes pour aventur&eacute;e, mais pour une autre raison que celle que l’on peut tirer, soit d’une position linguistique du type structuraliste, hostile par principe &agrave; tout recours &agrave; un facteur extra-linguistique dans le traitement du langage, soit d’une position &eacute;pist&eacute;mologique de type fr&eacute;g&eacute;en, selon laquelle seul le sens litt&eacute;ral d’un &eacute;nonc&eacute; serait susceptible de se d&eacute;passer vers un r&eacute;f&eacute;rent extra-linguistique. (AI, 48) </blockquote>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esta cita&ccedil;&atilde;o &eacute; reveladora n&atilde;o s&oacute; no que diz respeito &agrave; avalia&ccedil;&atilde;o das implica&ccedil;&otilde;es da teoria de Frege, mas tamb&eacute;m por exprimir, implicita mas mesmo assim muito claramente, que deve haver outro modo para al&eacute;m da literalidade, na maneira como um sentido sai do c&iacute;rculo restrito da linguagem e se exterioriza “vers un r&eacute;f&eacute;rent extra-linguistique”. &Eacute; esta a quest&atilde;o subjacente ao meu terceiro argumento com cuja discuss&atilde;o terminarei este artigo. </p>      <p>(iii) O terceiro argumento tem como base as seguintes premissas. Ao insistir que a exterioriza&ccedil;&atilde;o do sentido do discurso po&eacute;tico tem de e deve ultrapassar os limites da linguagem, Ricœur n&atilde;o se pode e, ali&aacute;s, tamb&eacute;m n&atilde;o pretende basear-se nas teorias de tipo fregeniano ou carnapiano. Por outro lado, tamb&eacute;m n&atilde;o quer que a realidade e refer&ecirc;ncia de segundo grau se conceptualizem como meros derivados da linguagem, pois, segundo Ricœur, esta refer&ecirc;ncia de segundo grau leva a algo que &eacute; fundamentalmente <i>exterior</i> &agrave; linguagem. A vis&atilde;o segundo a qual o candidato natural para uma tal realidade &eacute; simplesmente o ‘mundo’ aberto pelas interpreta&ccedil;&otilde;es, &eacute; a mais &oacute;bvia, mas acaba por n&atilde;o explicitar onde est&aacute; a diferen&ccedil;a relativamente &agrave;s teorias tradicionais da tradi&ccedil;&atilde;o continental, pois para esta (e.g. Cassirer, Heidegger, Gadamer) a realidade &eacute; no fundo a realidade interpretada, sendo esta n&atilde;o apenas de car&aacute;ter ‘subjetivo’, mas antes uma realidade ‘presente’, ‘palp&aacute;vel’, <i>sempre</i> mediada e moldada pela linguagem. Esta conce&ccedil;&atilde;o corresponderia no entanto, na perspetiva de Ricœur, &agrave; assim chamada via curta, segundo a qual o postulado de um exterior &agrave; linguagem &eacute; desnecess&aacute;rio. Ricœur, ao inv&eacute;s, insiste na necessidade deste postulado. Da&iacute; que a quest&atilde;o da exist&ecirc;ncia e fun&ccedil;&atilde;o do postulado da fun&ccedil;&atilde;o essencial do ‘exterior &agrave; linguagem’ seja de import&acirc;ncia crucial para entender a posi&ccedil;&atilde;o de Ricœur. Penso que &eacute; a fun&ccedil;&atilde;o e o estatuto do <i>simb&oacute;lico</i> que nos podem ajudar a esclarecer este problema.</p>      <p>&Eacute; precisamente na <i>Interpretation Theory</i> onde Ricœur explicita claramente o estatuto do simb&oacute;lico e onde corrige a sua posi&ccedil;&atilde;o anterior:</p>      <blockquote>As regards the symbol, I defined it [em <i>De l’interpr&eacute;tation</i> e <i>La symbolique du mal</i>] in turn by its semantic structure of having a double-meaning. Today I am less certain that one can attack the problem so directly without first having taken linguistics into account. Within the symbol, it now seems to me, there is something non-semantic as well as something semantic (…). (IT, 45). </blockquote>      <p>Dito por outras palavras, os s&iacute;mbolos t&ecirc;m duas dimens&otilde;es, “one linguistic and the other of a non-linguistic order.” (IT, 53s.). A parte ‘sem&acirc;ntica’ (ou ‘lingu&iacute;stica’) dos s&iacute;mbolos &eacute; aquela que ‘vem &agrave; linguagem’, ou seja, &eacute; aquela parte do simb&oacute;lico que se nos revela com alguma clareza justamente por ter adquirido sentido atrav&eacute;s de uma interpreta&ccedil;&atilde;o e gra&ccedil;as ao poder da met&aacute;fora viva de criar novos sentidos partindo da base do material simb&oacute;lico. A parte n&atilde;o-sem&acirc;ntica (n&atilde;o-lingu&iacute;stica), no entanto, recusa-se a uma transforma&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica definitiva, ou seja resiste a uma qualquer “transposition to language” (IT, 55). H&aacute; algo fundamentalmente n&atilde;o lingu&iacute;stico nos s&iacute;mbolos, algo que devido &agrave; sua natureza jamais pode ser alcan&ccedil;ado pelo poder da linguagem, constituindo, por assim dizer, a parte ‘avessa’ dos s&iacute;mbolos. Esta parte prende-se com o <i>bios</i>, o fundamento bio e antropol&oacute;gico do ser humano, estudado por Ricœur nos campos da psican&aacute;lise, da poesia e da hist&oacute;ria das religi&otilde;es, mas que, por princ&iacute;pio, ultrapassa o c&iacute;rculo restrito destas &aacute;reas. Aplicado aos s&iacute;mbolos, verificar-se-&aacute; que cada s&iacute;mbolo &eacute; como que um tesouro abismal do qual a linguagem e sobretudo a met&aacute;fora resgata e extrai umas certas faces de significa&ccedil;&atilde;o, ficando no entanto inesgot&aacute;vel o fundo por princ&iacute;pio infinito de outras poss&iacute;veis significa&ccedil;&otilde;es. Desta forma, haver&aacute; sempre um excesso de sentido, inesgot&aacute;vel, indomin&aacute;vel, que pertence por ess&ecirc;ncia aos s&iacute;mbolos. </p>      <p>&Eacute; neste &acirc;mbito que surge novamente a quest&atilde;o da refer&ecirc;ncia. O elemento lingu&iacute;stico do s&iacute;mbolo, ou seja, aquela sua parte que se mostrou acess&iacute;vel &agrave; linguagem, <i>refere</i>, assim Ricœur, “to something else” (IT, 54). Mas o fundo comum, ao que pertence o referido, jamais se abre na totalidade &agrave; linguagem. E sem esta refer&ecirc;ncia, sem este ‘sair das fronteiras da linguagem’ e o relacionamento com o extralingu&iacute;stico, n&atilde;o se constituiria nenhum ‘mundo’. Esta &eacute; a vis&atilde;o sobre a via longa de Ricœur que se op&otilde;e &agrave; via curta de Heidegger que supostamente n&atilde;o necessita deste ‘desvio’ pelo exterior da linguagem. </p>      <p>&Eacute; precisamente este elo da argumenta&ccedil;&atilde;o ricœuriana que levanta d&uacute;vidas. A quest&atilde;o crucial n&atilde;o &eacute; a da ‘exist&ecirc;ncia’ ou n&atilde;o do extralingu&iacute;stico, mas a da sua significa&ccedil;&atilde;o. Pois o pr&oacute;prio Ricœur postula que, por qu&atilde;o infind&aacute;vel que fosse o fundo significativo abismal do s&iacute;mbolo, este excesso de sentido apenas pode ser testemunhado se perpassar pelo trabalho do conceito, i.e. pela transforma&ccedil;&atilde;o e moldagem lingu&iacute;stica: “But it is the work of the concept alone that can testify to this surplus of meaning.” (IT, 57). Comparando este <i>caveat</i> com a perspetiva de Heidegger, parece-me que as alegadas diferen&ccedil;as entre via longa e via curta se desvanecem. Pois Heidegger n&atilde;o nega que haja algo que est&aacute; para al&eacute;m, ou melhor, para aqu&eacute;m da linguagem, e a co-originariedade do existencial do afeto com os outros existenciais &eacute; uma prova n&iacute;tida disso<sup><a href="#8" name="top8" >[8]</a></sup>, por&eacute;m alega que n&atilde;o h&aacute; signific&acirc;ncia desencoberta se n&atilde;o houver articula&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica dela. A signific&acirc;ncia ‘cristaliza-se em palavras’<sup><a href="#9" name="top9" >[9]</a></sup>, mas esta cristaliza&ccedil;&atilde;o prov&eacute;m das viv&ecirc;ncias do <i>Dasein</i>. Da&iacute; que n&atilde;o haja mundo se n&atilde;o houver uma articula&ccedil;&atilde;o das signific&acirc;ncias vivenciais. Mas o mesmo se pode dizer da conce&ccedil;&atilde;o de Ricœur: o mundo, se bem que paire sobre um abismo de potenciais significa&ccedil;&otilde;es ou de viv&ecirc;ncias ainda n&atilde;o linguisticamente trabalhadas, s&oacute; &eacute; mundo pelo e gra&ccedil;as ao trabalho da conceptualiza&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica. &Eacute; essa ‘exterioriza&ccedil;&atilde;o do sentido’ que &eacute; o nosso mundo.</p>      <p>A quest&atilde;o que, afinal, marca a diferen&ccedil;a entre Ricœur e Heidegger, e em geral entre Ricœur e outras posi&ccedil;&otilde;es da filosofia continental da linguagem &eacute; a do estatuto ontol&oacute;gico dos recursos donde a linguagem extrai a mat&eacute;ria para o seu trabalho. Ricœur insiste em que se deva atribuir ao extralingu&iacute;stico o estatuto de uma inst&acirc;ncia primordialmente ontol&oacute;gica, fora do alcance do poder lingu&iacute;stico, nunca abnegando o seu dito anterior em <i>Le conflit des interpr&eacute;tations</i> “Il y a d’abord l’&ecirc;tre au monde, puis le comprendre, puis l’interpr&eacute;ter, puis le dire.” (CI, 261). Se bem que Ricœur tenha estado plenamente consciente da “circularit&eacute;” (CI, 262) l&oacute;gica desta sequ&ecirc;ncia, nunca renunciou explicitamente ao postulado sobre a primordialidade ontol&oacute;gica de um suposto extralingu&iacute;stico aqu&eacute;m da linguagem. Como, no entanto, este extralingu&iacute;stico apenas adquire signific&acirc;ncia <i>realmente significativa</i> (perdoe-se esta express&atilde;o aparentemente redundante que, no entanto, n&atilde;o o &eacute;) se perpassar a moldagem lingu&iacute;stica, penso que n&atilde;o h&aacute; nenhuma diferen&ccedil;a fundamental entre a perspetiva de Ricœur sobre o papel da linguagem para a constru&ccedil;&atilde;o do ‘mundo’ e a perspetiva geralmente sustentada pela filosofia continental da linguagem.</p>      <p><b>4. Conclus&atilde;o</b></p>      <p>Em jeito de conclus&atilde;o, diria que a alegada hibridez do conceito de refer&ecirc;ncia se justifica pelas seguintes observa&ccedil;&otilde;es: (i) Motivado pela rejei&ccedil;&atilde;o de uma teoria da linguagem estruturalista que se encerra no dom&iacute;nio da linguagem, Ricœur coloca a &ecirc;nfase no conceito de refer&ecirc;ncia, sustentado por Frege no seu artigo sobre “&Uuml;ber Sinn und Bedeutung”. (ii) Contudo, n&atilde;o se quer comprometer com as restri&ccedil;&otilde;es postas ao conceito de refer&ecirc;ncia na esteira do primeiro Carnap. Para al&eacute;m da refer&ecirc;ncia literal, situacional e ostensiva h&aacute; uma refer&ecirc;ncia de segunda ordem que constitui, constr&oacute;i e cria o nosso mundo. (iii) Esta refer&ecirc;ncia, no entanto, n&atilde;o se absorve no sentido, nem &eacute; apenas derivada dele, mas salvaguarda uma autonomia pr&oacute;pria. A justifica&ccedil;&atilde;o desta autonomia prende-se com o dom&iacute;nio n&atilde;o lingu&iacute;stico do simb&oacute;lico que &eacute; fonte e meta do trabalho lingu&iacute;stico que fornece, d&aacute; e cria sentidos. (iv) Refer&ecirc;ncia &eacute;, no entanto, tamb&eacute;m a parte linguisticamente transformada do simb&oacute;lico, i.e. aquilo que &eacute; o ‘mundo’. (v) Uma vez que a conceptualiza&ccedil;&atilde;o &eacute; condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para algo fazer parte deste mundo, parece-me que a ‘refer&ecirc;ncia’ que mais peso tem para a constru&ccedil;&atilde;o/constitui&ccedil;&atilde;o do nosso mundo se prende, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, primordialmente com o sentido (linguisticamente constitu&iacute;do), conce&ccedil;&atilde;o essa que &eacute; sustentada pela generalidade das teorias ‘continentais’ sobre a linguagem. (vi) Da&iacute; que Ricœur se situe numa zona intermedi&aacute;ria entre as duas grandes tradi&ccedil;&otilde;es da filosofia da linguagem, a anal&iacute;tica e a continental, sendo o conceito de refer&ecirc;ncia a marca mais saliente do alegado fen&oacute;meno de hibridez.<sup><a href="#10" name="top10" >[10]</a></sup></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Bibliografia</b></p>      <!-- ref --><p>Carnap, Rudolf (1931), “&Uuml;berwindung der Metaphysik durch logische Analyse der Sprache”, in <i>Erkenntnis</i> 2, 219-241.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000064&pid=S0807-8967201300020001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Frege, Gottlob (1892), “&Uuml;ber Sinn und Bedeutung”, in <i>Zeitschrift f&uuml;r Philosophie und philosophische Kritik</i>, N.F. 100, 25-50.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000066&pid=S0807-8967201300020001000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Heidegger, Martin (1977), <i>Sein und Zeit</i>, hrsg. v. Friedrich-Wilhelm von Herrmann, Frankfurt/M., Klostermann, [<i>Gesamtausgabe</i> Vol. 2] [1927] [SuZ].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000068&pid=S0807-8967201300020001000003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Klein, Ted (1976), “Preface”, <i>in</i> Ricœur (1976), vii-viii.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000070&pid=S0807-8967201300020001000004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Lafont, Cristina (1999), <i>The Linguistic Turn in Hermeneutic Philosophy</i>, translated by Jos&eacute; Medina, Cambridge, Mass./London, MIT Press&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000072&pid=S0807-8967201300020001000005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Ricœur, Paul (1969), <i>Le conflit des interpr&eacute;tations</i>. <i>Essais d’ h&eacute;rm&eacute;neutique</i>, Paris, &Eacute;ditions du Seuil [CI]&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000073&pid=S0807-8967201300020001000006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>–– (1975), <i>La m&eacute;taphore vive</i>, Paris, &Eacute;ditions du Seuil [MV]&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000074&pid=S0807-8967201300020001000007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>–– (1976), <i>Interpretation Theory: Discourse and the Surplus of Meaning, </i>Fort Worth /Texas, TCU Press [IT] &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000075&pid=S0807-8967201300020001000008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>–– (1986), <i>Du texte a l’action. Essais d’ h&eacute;rm&eacute;neutique II</i>, Paris, &Eacute;ditions du Seuil [TA]&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000076&pid=S0807-8967201300020001000009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>–– (1995), <i>R&eacute;flexion faite. Autobiographie intelectuelle</i>, Paris, &Eacute;ditions Esprit [AI]&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000077&pid=S0807-8967201300020001000010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>      <p>[Submetido em 27 de agosto de 2013, re-submetido em 15 de outubro de 2013 e aceite para publica&ccedil;&atilde;o em 18 de outubro de 2013]</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><sup><a href="#top1" name="1" >[1]</a></sup> Cf. tamb&eacute;m Lafont (1999) que sustenta uma posi&ccedil;&atilde;o muito semelhante relativamente aos dois macro-paradigmas e a sua diferen&ccedil;a espec&iacute;fica. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top2" name="2" >[2]</a></sup> Doravante usarei, nas refer&ecirc;ncias a este livro, a sigla IT.</p>      <p><sup><a href="#top3" name="3" >[3]</a></sup> O t&iacute;tulo completo &eacute; <i>R&eacute;flexion faite</i>: <i>Autobiographie intellectuelle</i>. A pr&oacute;pria autobiografia ocupa as p&aacute;ginas 9-82. Doravante usarei, nas refer&ecirc;ncias a este livro, a sigla AI.</p>      <p><sup><a href="#top4" name="4" >[4]</a></sup> J&aacute; em <i>Le conflit des interpr&eacute;tations</i> – usarei doravante, nas refer&ecirc;ncias a este livro, a sigla CI – Ricœur se tinha virado decididamente contra o pressuposto da clausura do sistema dos signos nas teorias de Saussure e Jakobson. O &uacute;ltimo &eacute; acusado de estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o entre sequ&ecirc;ncias de um texto tendo em conta apenas o c&oacute;digo, e n&atilde;o a refer&ecirc;ncia. A pr&oacute;pria coisa, assim Ricœur, n&atilde;o interessaria a Jakobson, como se veria com toda a evid&ecirc;ncia numa frase do pr&oacute;prio Jakobson que rezava: “(…) les significations linguistiques constitu&eacute;es par le syst&egrave;me des relations analytiques d’une expression aux autres ne pr&eacute;supposent p&aacute;s le pr&eacute;sence des choses.” (CI, 74; a fonte indicada por Ricœur &eacute;: Jakobson, <i>Essais de linguistique g&eacute;n&eacute;rale</i>, p. 42).</p>      <p><sup><a href="#top5" name="5" >[5]</a></sup> Da&iacute; que Ricœur possa dizer que o termo de <i>parole</i> &eacute; <i>epistemologicamente</i> fraco (cf. IT, 9).</p>      <p><sup><a href="#top6" name="6" >[6]</a></sup> Em <i>La m&eacute;taphore vive</i> – uso a sigla MV –, a rece&ccedil;&atilde;o de Max Black (MV, 302-310), sobretudo do seu livro <i>Models and Metaphors</i> (Black 1962), destaca antes a contribui&ccedil;&atilde;o de Black para os avan&ccedil;os na teoria da met&aacute;fora no sentido de ele ter reconhecido a fun&ccedil;&atilde;o predicativa da met&aacute;fora, i.e. o seu entendimento a n&iacute;vel da <i>frase</i> que contrastaria com teorias que conceberam a met&aacute;fora a n&iacute;vel da <i>palavra</i>, sobretudo como tropo ou mero ornamento. </p>      <p><sup><a href="#top7" name="7" >[7]</a></sup> Compare-se, relativamente a esta quest&atilde;o, o desfecho do artigo carnapiano “&Uuml;berwindung der Metaphysik durch logische Analyse der Sprache” [“Supera&ccedil;&atilde;o da Metaf&iacute;sica atrav&eacute;s de uma An&aacute;lise L&oacute;gica da Linguagem.”] (Carnap, 1931: 238-241). </p>      <p><sup><a href="#top8" name="8" >[8]</a></sup> Cf., a este prop&oacute;sito, SuZ 133, 161.</p>      <p><sup><a href="#top9" name="9" >[9]</a></sup> Cf. SuZ 161.</p>      <p><sup><a href="#top10" name="10" >[10]</a></sup> Poder-se-ia alegar que h&aacute;, no que diz respeito &agrave; conce&ccedil;&atilde;o do conceito de refer&ecirc;ncia, um caso afim que parte do outro lado da ponte, do lado anal&iacute;tico, situando-se nesta mesma zona intermedi&aacute;ria, se bem que com base em argumenta&ccedil;&otilde;es bastante diferentes: Nelson Goodman. Tamb&eacute;m ele coloca o enfoque no conceito de refer&ecirc;ncia (revestido de outras carater&iacute;sticas) que serve como ant&iacute;doto numa teoria que, sem este ant&iacute;doto, se aproximaria ‘perigosamente’ de um idealismo lingu&iacute;stico. Da&iacute; que n&atilde;o admire que a alus&atilde;o que Ricoeur faz a Goodman em <i>Du texte a l’action</i> (TA, 222) seja de car&aacute;ter claramente afirmativo, facto que, no entanto, n&atilde;o quer dizer que n&atilde;o haja diferen&ccedil;as entre os dois autores, como demonstra, ali&aacute;s, a abordagem de Goodman em <i>La m&eacute;taphore vive</i> (MV, 290-301).</p>       ]]></body><back>
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