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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A pulsão no pensamento mítico: Freud, Lacan e o estruturalismo na potière jalouse, de Claude Lévi-Strauss]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper examines the place and role of the concept of drive within the structural analysis of myths as conceived by Lévi-Strauss. We will focus upon providing answers for the following questions: What is it at stake in the appropriation of this most radical Freudian concept by Anthropology and particularly by the logical-narrative notion of mythical thought? What kind of changes underwent the notion of drive when redefined as a mythical category in The Jealous Potter? Which are the epistemological implications of all these changes?]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p> <b>A puls&atilde;o no pensamento m&iacute;tico. Freud, Lacan e o estruturalismo na poti&egrave;re jalouse, de Claude L&eacute;vi-Strauss </b> </p>     <p> <b>Cristina &Aacute;lvares*</b> </p>     <p> *Universidade do Minho, Instituto de Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas, Departamento de Estudos Rom&acirc;nicos, 4710-057 Braga, Portugal. </p>      <p><a href="mailto:calvares@ilch.uminho.pt">calvares@ilch.uminho.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>RESUMO</b> </p>     <p> O artigo circunscreve o lugar e a fun&ccedil;&atilde;o do conceito de puls&atilde;o na an&aacute;lise estrutural dos mitos de L&eacute;vi-Strauss. O que &eacute; que est&aacute; em jogo na apropria&ccedil;&atilde;o do conceito freudiano mais radical pela antropologia e, em particular, pela no&ccedil;&atilde;o l&oacute;gico-narrativa de pensamento m&iacute;tico? Que transforma&ccedil;&otilde;es sofre a puls&atilde;o redefinida como categoria m&iacute;tica na <i>Poti&egrave;re Jalouse</i> e quais as implica&ccedil;&otilde;es epistemol&oacute;gicas dessa redefini&ccedil;&atilde;o? </p>     <p><b>Palavras chave</b>: Puls&atilde;o; mito; sexual; estrutura; psican&aacute;lise; antropologia</p>      <p>&nbsp;</p>      <p> <b>ABSTRACT</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> This paper examines the place and role of the concept of drive within the structural analysis of myths as conceived by L&eacute;vi-Strauss. We will focus upon providing answers for the following questions: What is it at stake in the appropriation of this most radical Freudian concept by Anthropology and particularly by the logical-narrative notion of mythical thought? What kind of changes underwent the notion of drive when redefined as a mythical category in <i>The Jealous Potter</i>? Which are the epistemological implications of all these changes? </p>     <p><b>Keywords</b>: Drive; myth; sexual; structure; psychoanalysis; anthropology.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>      <p>Para elaborar as duas componentes fundamentais da teoria narrativa, a componente sint&aacute;tica e a componente sem&acirc;ntica, Greimas inspirou-se nos estudos de Propp sobre a forma do conto popular russo assim como nos estudos de L&eacute;vi-Strauss sobre a estrutura dos mitos. Por isso, o modelo da sintaxe actancial &eacute; a morfologia do conto e o da sem&acirc;ntica profunda &eacute; o pensamento m&iacute;tico. No pensamento m&iacute;tico Greimas encontrou a dimens&atilde;o paradigm&aacute;tica n&atilde;o manifesta que constrange o desenrolar sintagm&aacute;tico dos mitos e suporta a sua coer&ecirc;ncia l&oacute;gica. De facto, a no&ccedil;&atilde;o l&eacute;vi-straussiana de “pens&eacute;e mythique”, designa um plano para l&aacute; da diversidade das narrativas m&iacute;ticas e da sua sem&acirc;ntica superficial, que &eacute; o plano da estrutura constitu&iacute;do por rela&ccedil;&otilde;es l&oacute;gicas entre categorias que L&eacute;vi-Strauss designa por “c&oacute;digos”. Neste n&iacute;vel &eacute; poss&iacute;vel formalizar l&oacute;gico-matematicamente as “belas regularidades” e as leis universais que sustentam a atividade do esp&iacute;rito humano na produ&ccedil;&atilde;o e na comunica&ccedil;&atilde;o de significa&ccedil;&otilde;es. O pensamento m&iacute;tico &eacute;, com o sistema fonol&oacute;gico e o sistema de parentesco, uma express&atilde;o das leis estruturais do esp&iacute;rito. N&atilde;o &eacute; por acaso que L&eacute;vi-Strauss definiu a antropologia como “th&eacute;orie g&eacute;n&eacute;rale des rapports”(1958: 115) e “connaissance de l’esprit humain” (1958: 97): como &eacute; que o esp&iacute;rito (a raz&atilde;o) opera para produzir significa&ccedil;&otilde;es. L&eacute;vi-Strauss declara frequentemente que o que ele visa &eacute; o plano de articula&ccedil;&atilde;o l&oacute;gica subjacente ao narrativo. De facto, a defini&ccedil;&atilde;o do pensamento m&iacute;tico como estrutura matricial atemporal (sincr&oacute;nica) que precede e constrange a ordem de sucess&atilde;o cronol&oacute;gica das a&ccedil;&otilde;es ou sintagm&aacute;tica narrativa (diacr&oacute;nica) – e &eacute; precisamente o que est&aacute; em jogo no seu artigo de pol&eacute;mica com Propp, acusado de n&atilde;o ir al&eacute;m do plano da observa&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica – determina a quest&atilde;o de saber como se processa a convers&atilde;o do paradigm&aacute;tico (l&oacute;gico) em sintagm&aacute;tico (narrativo). Trata-se daquilo a que Greimas chamou a “narratividade” ou “percurso generativo”, que o quadrado semi&oacute;tico tenta formalizar, mas que ficou aqu&eacute;m das expectativas, pois a quest&atilde;o de saber como &eacute; que o quadrado semi&oacute;tico, que &eacute; uma inst&acirc;ncia l&oacute;gica, pode transformar rela&ccedil;&otilde;es l&oacute;gicas em opera&ccedil;&otilde;es sint&aacute;ticas nunca chegou a ser elucidada. O que nos interessa por&eacute;m aqui n&atilde;o &eacute; o impasse da teoria semio-narrativa de Greimas mas apenas perceber que os estudos de L&eacute;vi-Strauss sobre o mito s&atilde;o j&aacute; uma teoria narrativa. Tanto assim &eacute; que a f&oacute;rmula can&oacute;nica do mito (FCM) &eacute; uma equa&ccedil;&atilde;o l&oacute;gico-matem&aacute;tica que pretende exprimir a lei da convers&atilde;o do paradigm&aacute;tico no sintagm&aacute;tico. Donde decorre que o pensamento m&iacute;tico constitui a estrutura matricial atemporal n&atilde;o apenas dos mitos mas de toda e qualquer narrativa. Por isso mesmo, o facto de Greimas assimilar o pensamento m&iacute;tico (c&oacute;digos) &agrave; sem&acirc;ntica profunda (categorias s&eacute;micas) sublinha que ele n&atilde;o se restringe &agrave; especificidade do discurso m&iacute;tico mas constitui a base das leis da narratividade que d&atilde;o forma ao semantismo profundo<sup><a href="#1" name="top1" >[1]</a></sup>. </p>      <p>Serve este breve intr&oacute;ito sobre o alcance narratol&oacute;gico da no&ccedil;&atilde;o de “pensamento m&iacute;tico” para enquadrar a problem&aacute;tica da puls&atilde;o nos dispositivos de narratividade como a FCM ou o &Eacute;dipo. Esta quest&atilde;o &eacute; um dos pontos nodais em que antropologia e psican&aacute;lise se desencontram. Os estudos sobre as leituras que L&eacute;vi-Strauss faz da obra de Freud e sobre as suas pol&eacute;micas com a psican&aacute;lise t&ecirc;m tratado preferencialmente dois conjuntos de quest&otilde;es que se sobrep&otilde;em parcialmente: as que se polarizam em torno do interdito do incesto e as que dizem respeito ao estatuto do mito (&Eacute;dipo, parric&iacute;dio primitivo)<sup><a href="#2" name="top2" >[2]</a></sup>. Ao analisar as diferentes perce&ccedil;&otilde;es do mito que cada autor desenvolve, Alain Delrieu (1993) nota em L&eacute;vi-Strauss uma estrat&eacute;gia de anexa&ccedil;&atilde;o de Freud ao pensamento m&iacute;tico (Freud como pensador m&iacute;tico, preced&ecirc;ncia do xam&atilde; sobre o psicanalista), mas abstendo-se de tomar a FCM em linha de conta, mesmo quando aborda a <i>Poti&egrave;re Jalouse</i>, obra tardia em que L&eacute;vi-Strauss reabilita a FCM ap&oacute;s anos de escamoteamento. J&aacute; Lucien Scubla dedica <i>Lire L&eacute;vi-Strauss</i> (1998) ao estudo da enigm&aacute;tica f&oacute;rmula, defendendo que ela n&atilde;o &eacute; um tema marginal na obra do grande antrop&oacute;logo, mas antes uma intui&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica que organiza e orienta a sua pesquisa. Por&eacute;m, na an&aacute;lise da <i>Poti&egrave;re Jalouse</i>, Scubla n&atilde;o considera aquilo que, nesse texto de pol&eacute;mica com Freud, p&otilde;e em jogo a puls&atilde;o, apesar de o pensamento m&iacute;tico e o circuito pulsional partilharem a topologia em dupla tors&atilde;o, i.e., a dupla revers&atilde;o ativo-passivo e dentro-fora<sup><a href="#3" name="top3" >[3]</a></sup>. Neste artigo em que tratamos do desencontro da antropologia e da psican&aacute;lise em torno da puls&atilde;o, aproximamos e confrontamos FCM e &Eacute;dipo enquanto dispositivos de narratividade que processam diferentemente o material pulsional. Na <i>Poti&egrave;re Jalouse</i>, ensaio que assimila a puls&atilde;o ao pensamento m&iacute;tico, lemos a pol&eacute;mica expl&iacute;cita de L&eacute;vi-Strauss com Freud como uma pol&eacute;mica subentendida com Lacan sobre a identifica&ccedil;&atilde;o do inconsciente freudiano e do inconsciente estrutural (para Lacan, Freud teria descoberto no &Eacute;dipo o simb&oacute;lico, i.e., a estrutura); e demonstramos a extemporaneidade da cr&iacute;tica de L&eacute;vi-Strauss, dado que o percurso intelectual de Lacan o tinha levado, desde os anos 60, a empreender um outro “retorno a Freud”, desta vez sem a media&ccedil;&atilde;o do estruturalismo antropol&oacute;gico que tinha sido uma ou mesmo a refer&ecirc;ncia privilegiada do seu primeiro ensino (cf. Zafiropoulos, 2003). Esta inflex&atilde;o de Lacan, agora mais focado na metapsicologia freudiana, decorre da perce&ccedil;&atilde;o da puls&atilde;o como causa, ou melhor, como coisa imposs&iacute;vel de narrativizar, de significar, de coletivizar. Esta impossibilidade &eacute; equacionada no matema do significante da falta no Outro, f&oacute;rmula que Zafiropoulos mostra estar associada ao distanciamento de Lacan em rela&ccedil;&atilde;o a L&eacute;vi-Strauss (<i>idem</i>:235-40). &Eacute; pois o irredut&iacute;vel da puls&atilde;o – o real sexual - que assinala a fronteira entre psican&aacute;lise e antropologia.</p>      <p><b>A f&oacute;rmula can&oacute;nica do mito e o &Eacute;dipo</b></p>      <p>A rela&ccedil;&atilde;o entre puls&atilde;o e narratividade est&aacute; no &acirc;mago da psican&aacute;lise. Afinal o pr&oacute;prio dispositivo anal&iacute;tico postula um devir-narrativa da puls&atilde;o: o recalcado, a verdade do desejo do sujeito, deve advir &agrave; palavra. O acesso do “&ccedil;a” &agrave; palavra do “Je” passa por uma rememora&ccedil;&atilde;o, orientada pelo esquema heredit&aacute;rio (fantasma), que se organiza em forma narrativa (actancial) de tal maneira que o sexual traum&aacute;tico advenha, parcialmente, &agrave; significa&ccedil;&atilde;o. A psican&aacute;lise assume que o sexual n&atilde;o &eacute; todo significante, n&atilde;o &eacute; todo f&aacute;lico. E por isso ela lida com o impasse que o real sexual constitui para os processos semi&oacute;ticos. E parece ser esta perce&ccedil;&atilde;o do real como sexual e do sexual como real, como n&atilde;o rela&ccedil;&atilde;o, que faz da psican&aacute;lise uma pedra no sapato das outras ci&ecirc;ncias sociais e humanas, nomeadamente da antropologia estrutural que &eacute; “th&eacute;orie des rapports”. O conceito que mais dramaticamente assume a obje&ccedil;&atilde;o que o real sexual constitui para a produ&ccedil;&atilde;o da significa&ccedil;&atilde;o &eacute; o conceito de puls&atilde;o. A puls&atilde;o caracteriza-se por uma antinomia. Por um lado, Freud sempre sublinhou a plasticidade das puls&otilde;es, a sua capacidade de mudar de alvos, a sua faculdade de se fazer representar a sua capacidade de ser diferidas. Em <i>Au-del&agrave; du principe du plaisir</i>, diz ele:</p>      <blockquote>Les pulsions partielles communiquent dans une certaine mesure les unes avec les autres, une pulsion provenant d’une certaine source &eacute;rog&egrave;ne peut abandonner son intensit&eacute; pour renforcer une pulsion partielle d’une autre source, la satisfaction d’une pulsion peut se substituer &agrave; la satisfaction d’une autre, etc. (Freud, 1981: 258). </blockquote>      <p>Em <i>Consid&eacute;rations actuelles sur la guerre et sur la mort</i> (1915), Freud escreve : &laquo;Elles sont inhib&eacute;es, dirig&eacute;es vers d’autres buts et d’autres domaines, elles fusionnent les unes avec les autres, changent d’objets, se retournent en partie contre la personne propre&raquo; (1981: 16-17). Por outro lado, o polimorfismo e as vicissitudes das puls&otilde;es s&atilde;o pretexto para postular “le caractere d&eacute;moniaque” da compuls&atilde;o de repeti&ccedil;&atilde;o e da puls&atilde;o de morte (<i>idem</i>:78), ou seja, o cerne imposs&iacute;vel da puls&atilde;o: imposs&iacute;vel de educar, de converter em v&iacute;nculo social ou em rela&ccedil;&atilde;o l&oacute;gica. Os dois dualismos pulsionais – puls&otilde;es sexuais e de autoconserva&ccedil;&atilde;o; puls&otilde;es de vida e de morte – visavam dar conta desta antinomia que situa o real sexual.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em 1985, L&eacute;vi-Strauss publica <i>La Poti&egrave;re Jalouse</i>, livro de pol&eacute;mica com Freud e com a psican&aacute;lise, onde a puls&atilde;o &eacute; redefinida como categoria do pensamento m&iacute;tico. Nele L&eacute;vi-Strauss volta a articular duas quest&otilde;es que havia tratado conjuntamente trinta anos antes em <i>La structure des mythes</i> (1955): o mito de &Eacute;dipo e a f&oacute;rmula can&oacute;nica do mito (FCM). A copresen&ccedil;a destes dois conceitos mereceria uma reflex&atilde;o aprofundada. Porque &eacute; que L&eacute;vi-Strauss escolhe o tema-chave da obra de Freud, o &Eacute;dipo, quando apresenta e utiliza a f&oacute;rmula l&oacute;gico-matem&aacute;tica das leis do esp&iacute;rito? </p>      <p>Podemos dizer, numa reapropria&ccedil;&atilde;o do estilo do pr&oacute;prio L&eacute;vi-Strauss, que a FCM est&aacute; para a antropologia estrutural como o &Eacute;dipo est&aacute; para a psican&aacute;lise. FCM e &Eacute;dipo s&atilde;o conceitos que designam, no seio dos respetivos campos te&oacute;ricos, a preval&ecirc;ncia da estrutura sobre o sujeito : <i>&Ccedil;a pense</i> no inconsciente l&eacute;vi-straussiano, <i>&Ccedil;a parle</i> no inconsciente freudo-lacaniano. O &Eacute;dipo, ou antes a castra&ccedil;&atilde;o, &eacute; a opera&ccedil;&atilde;o estrutural que integra a sexualidade na esfera do sentido: &eacute; o que o imperativo freudiano <i>Wo Es war, soll Ich werden</i> implica. O sujeito &eacute; assim introduzido na categoria humana. Em <i>L’homme aux loups</i>, Freud compara o &Eacute;dipo &agrave;s categorias de Kant : </p>      <blockquote>les sch&egrave;mes cong&eacute;nitaux phylog&eacute;n&eacute;tiques, qui, comme des “cat&eacute;gories” philosophiques, assurent le classement des impressions de la vie. Je voudrais soutenir la conception qu’il s’agit de pr&eacute;cipit&eacute;s de l’histoire culturelle des hommes. Le complexe d’Œdipe, qui englobe la relation de l’enfant aux parents, en fait partie, plus encore il est l’exemple le mieux connu de cette esp&egrave;ce. L&agrave; o&ugrave; les exp&eacute;riences v&eacute;cues ne se plient pas au sch&egrave;me h&eacute;r&eacute;ditaire, on en vient &agrave; un remaniement dans la fantaisie (…). Ce sont pr&eacute;cis&eacute;ment ces cas qui sont propres &agrave; nous prouver l’existence autonome du sch&egrave;me. Nous pouvons souvent remarquer que le sch&egrave;me remporte la victoire sur l’exp&eacute;rience de vie individuelle (Freud, 1990: 117).</blockquote>      <p>O &Eacute;dipo aparece aqui como um esquema can&oacute;nico, um constrangimento logico-narrativo que transforma uma vida qualquer numa narrativa (ou num “mito individual do neur&oacute;tico”), elevando-a &agrave; dignidade de categoria. Fazer de uma vida uma narrativa &eacute; torn&aacute;-la intelig&iacute;vel, conferindo-lhe uma dimens&atilde;o universal e uma racionalidade al&eacute;m da particularidade e da conting&ecirc;ncia. Uma vida torna-se um mito – um mito no sentido l&eacute;vi-straussiano de express&atilde;o narrativa das leis do esp&iacute;rito humano. Freud e L&eacute;vi-Strauss encontram-se aqui sob os ausp&iacute;cios de Kant para designarem, com o &Eacute;dipo e a FCM, o conceito de estrutura. </p>      <p>Lacan funda-se na defini&ccedil;&atilde;o freudiana do &Eacute;dipo como categoria no sentido kantiano para fazer dele o n&oacute; do simb&oacute;lico e o ponto crucial em que o sujeito assume a consequ&ecirc;ncia maior da preval&ecirc;ncia da lei do significante, que &eacute; a de configurar a impossibilidade do gozo (do corpo da m&atilde;e) como interdito do incesto. O Nome do Pai &eacute; a inst&acirc;ncia que ata a lei do significante e o interdito do incesto. Lacan toma o &Eacute;dipo como forma narrativa da opera&ccedil;&atilde;o estrutural da castra&ccedil;&atilde;o que constitui a dimens&atilde;o sexual da incid&ecirc;ncia (desvitalizante) da linguagem sobre a vida : “l’impasse sexuelle s&eacute;cr&egrave;te les fictions qui rationalisent l’impossible dont elle provient” (Lacan,1974: 51). Da&iacute; que a quest&atilde;o de saber se as mem&oacute;rias de inf&acirc;ncia s&atilde;o reais ou fantasm&aacute;ticas seja uma quest&atilde;o menor: o sujeito tem que inventar as mem&oacute;rias, inven&ccedil;&atilde;o que &eacute; constrangida por um esquema aut&oacute;nomo e can&oacute;nico que as encadeia para traduzir o imposs&iacute;vel (do gozo) como interdito, dando forma narrativa de conflito familiar a uma opera&ccedil;&atilde;o estrutural. Lacan substitui o que Freud considera ser a heran&ccedil;a arcaica filogen&eacute;tica pela estrutura da linguagem e mant&eacute;m a perce&ccedil;&atilde;o do &Eacute;dipo (compactado no conceito de Nome do Pai) como processo necess&aacute;rio &agrave; integra&ccedil;&atilde;o do sujeito na categoria humana. A autonomia da raz&atilde;o ou do simb&oacute;lico, isto &eacute;, da estrutura, manifesta-se no funcionamento das leis universais e necess&aacute;rias independentemente da experi&ecirc;ncia e da viv&ecirc;ncia particulares. A constata&ccedil;&atilde;o de Freud segundo a qual o comportamento das crian&ccedil;as em rela&ccedil;&atilde;o aos pais aparece frequentemente como injustificado do ponto de vista das suas viv&ecirc;ncias reais, toma todo o sentido no quadro da interpreta&ccedil;&atilde;o do &Eacute;dipo como categoria que subsume a diversidade emp&iacute;rica. A FCM exerce a mesma a&ccedil;&atilde;o, pois ela exprime “un sch&egrave;me suffisamment abstrait pour avoir &eacute;t&eacute; con&ccedil;u n’importe o&ugrave; sans rien devoir &agrave; l’exp&eacute;rience ni &agrave; l’observation”(L&eacute;vi-Strauss,1985: 209), que constrange e regula a produ&ccedil;&atilde;o dos mitos, e &eacute;, portanto, uma inst&acirc;ncia de narratividade &laquo;inh&eacute;rente aux d&eacute;marches de l’esprit chaque fois que celui-ci cherche &agrave; creuser le sens&raquo; (<i>idem</i>, 268). Em suma, tanto o &Eacute;dipo como a FCM s&atilde;o dispositivos de produ&ccedil;&atilde;o da forma narrativa da significa&ccedil;&atilde;o.</p>      <p>Mas se em Freud e em Lacan a significa&ccedil;&atilde;o mant&eacute;m o cariz ou alcance sexual – e &eacute; precisamente o que significa o conceito lacaniano de significante f&aacute;lico –, em L&eacute;vi-Strauss a significa&ccedil;&atilde;o &eacute; despojada n&atilde;o apenas de conte&uacute;do sexual mas da dimens&atilde;o sexual do jogo do significante. Lacan associa l&oacute;gico e f&aacute;lico, fazendo do falo o significante da conjun&ccedil;&atilde;o do <i>logos</i> ao desejo. L&eacute;vi-Strauss dissocia-os. Para fazer da puls&atilde;o uma categoria do pensamento m&iacute;tico, L&eacute;vi-Strauss achata o relevo daquilo que ele chama “le code sexuel” no discurso da psican&aacute;lise: este &eacute; apenas um c&oacute;digo entre outros e, como tal, deve ser tratado em termos de comunica&ccedil;&atilde;o. Contrariamente &agrave; psican&aacute;lise que interpreta em termos sexuais “ce qui ne va pas” na realidade, L&eacute;vi-Strauss interpreta impasses e mal-estares relatados nos mitos como defeitos ou excessos de comunica&ccedil;&atilde;o. Contradi&ccedil;&otilde;es, impasses, rela&ccedil;&otilde;es bloqueadas – entre masculino e feminino, entre humano e divino, entre vivos e mortos –, tudo o que releva do imposs&iacute;vel &eacute; resolvido pelo mito cujo modelo l&oacute;gico constitui uma gram&aacute;tica da comunica&ccedil;&atilde;o entre c&oacute;digos. No caso do mito de &Eacute;dipo, por exemplo, trata-se da contradi&ccedil;&atilde;o entre reprodu&ccedil;&atilde;o sexuada e autoctonia: como &eacute; que um nasce de dois? O modelo l&oacute;gico do mito resolve ou apazigua o problema atrav&eacute;s das tradu&ccedil;&otilde;es rec&iacute;procas dos c&oacute;digos (parentesco e monstros) e das media&ccedil;&otilde;es progressivas que aproximam os opostos (correla&ccedil;&otilde;es, analogias, cruzamento): rela&ccedil;&otilde;es de parentesco sobrestimadas (incesto), subestimadas (parric&iacute;dio); autoctonia do homem negada (Cadmos mata o drag&atilde;o que &eacute; ct&oacute;nico, nasce da terra), persist&ecirc;ncia da autoctonia (&Eacute;dipo &eacute; coxo, o que &eacute; uma caracter&iacute;stica dos homens que nascem da terra).</p>      <p>O pensamento m&iacute;tico segue uma l&oacute;gica de correla&ccedil;&atilde;o de oposi&ccedil;&otilde;es bin&aacute;rias que enfraquecem progressivamente gra&ccedil;as &agrave; interven&ccedil;&atilde;o de mecanismos de media&ccedil;&atilde;o e de invers&atilde;o sim&eacute;trica. Da&iacute; resulta o estabelecimento de rela&ccedil;&otilde;es de analogia e de complementaridade. Mutuamente convert&iacute;veis, os c&oacute;digos refletem-se uns aos outros “en syst&egrave;me clos”, como os n&iacute;veis c&oacute;smicos de que falam os mitos (L&eacute;vi-Strauss, 1985: 152). Quando L&eacute;vi-Strauss faz da puls&atilde;o oral e da puls&atilde;o anal categorias do pensamento m&iacute;tico, “oral” e “anal” organizam-se numa oposi&ccedil;&atilde;o bin&aacute;ria a partir da qual uma combinat&oacute;ria de orif&iacute;cios se forma atrav&eacute;s das opera&ccedil;&otilde;es de invers&atilde;o: a avidez oral sofre uma dupla invers&atilde;o e torna-se reten&ccedil;&atilde;o anal; estas oposi&ccedil;&otilde;es cruzam-se em incontin&ecirc;ncia anal e em reten&ccedil;&atilde;o oral. “Oral” e “anal” deixam de designar puls&otilde;es e passam a designar c&oacute;digos que se organizam em pares de opostos correlativos para constituir uma combinat&oacute;ria de que o sexual, o er&oacute;geno e o corpo s&atilde;o exclu&iacute;dos. Ainda que desprovidos de forma humana e de g&eacute;nero, logo inassimil&aacute;veis &agrave;s imagens simb&oacute;licas que Carl Gustav Jung estudou, os c&oacute;digos reenviam a um cosmos dualista constitu&iacute;do n&atilde;o por casais divinos mas por rela&ccedil;&otilde;es l&oacute;gicas. Apesar da aus&ecirc;ncia de antropomorfismo, as oposi&ccedil;&otilde;es bin&aacute;rias deslizam impercetivelmente do plano estrutural (l&oacute;gico) da dist&acirc;ncia diferencial para o plano imagin&aacute;rio da reciprocidade das perspetivas, das “belas simetrias”, das correspond&ecirc;ncias<sup><a href="#4" name="top4" >[4]</a></sup>. O negativo da diferen&ccedil;a pura positiviza-se em identidade – identidade que, de acordo com a axiom&aacute;tica estruturalista, n&atilde;o &eacute; de subst&acirc;ncia mas &eacute; de posi&ccedil;&atilde;o. A valoriza&ccedil;&atilde;o l&eacute;vi-straussiana do modelo social arcaico, em que cada coisa est&aacute; no seu lugar, evidencia esta estabiliza&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria da estrutura como cosmos.</p>      <p>Tal como a <i>Poti&egrave;re Jalouse</i> o descreve, o pensamento m&iacute;tico aproxima-se do &Eacute;dipo no sentido em que ambos constituem dispositivos de articula&ccedil;&atilde;o da significa&ccedil;&atilde;o a partir de um real que &eacute; um imposs&iacute;vel. A diverg&ecirc;ncia essencial consiste no facto de que a psican&aacute;lise entende o real-imposs&iacute;vel como sexual (pulsional) enquanto que a antropologia limpa a puls&atilde;o daquilo que faz dela puls&atilde;o sexual e de morte para a converter em c&oacute;digo. A puls&atilde;o &eacute; assim desembara&ccedil;ada daquilo que nela resiste &agrave; subsun&ccedil;&atilde;o significante e se manifesta como compuls&atilde;o independente “par rapport &agrave; l’organisation des autres processus psychiques (…) qui ob&eacute;issent aux lois de la pens&eacute;e logique” (Freud, 1986: 164). Isto quer dizer que o &Eacute;dipo, eixo do recalcamento, n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico constrangimento que afeta o sujeito. Ao constrangimento (&agrave; lei) que o <i>logos</i> exerce sobre o real sexual – o <i>pathos</i> –, este op&otilde;e o seu pr&oacute;prio constrangimento. O constrangimento <i>patol&oacute;gico</i> ataca as leis estruturais (l&oacute;gicas) que Lacan descobriu no recalcamento (a cadeia significante). Trata-se, no constrangimento <i>patol&oacute;gico, </i>da compuls&atilde;o de repeti&ccedil;&atilde;o que, na medida em que afeta o constrangimento l&oacute;gico, marca a dist&acirc;ncia que separa Freud de Kant assim como a psican&aacute;lise do estruturalismo enquanto nova filosofia transcendental.</p>      <p><b>O que fica como coisa</b></p>      <p>Ainda que o texto da <i>Poti&egrave;re Jalouse</i> n&atilde;o fa&ccedil;a nenhuma men&ccedil;&atilde;o a Lacan, ent&atilde;o j&aacute; falecido, L&eacute;vi-Strauss sustenta com ele uma linha de diverg&ecirc;ncia sobre a controversa quest&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o entre Freud e o estruturalismo. Lacan defendia a tese de um Freud precursor do estruturalismo e, pelo menos durante a primeira d&eacute;cada do seu ensino, de uma coincid&ecirc;ncia entre “freudiano” e “estrutural”. Ora L&eacute;vi-Strauss escreve <i>La Poti&egrave;re Jalouse</i> para acentuar a dist&acirc;ncia que separa Freud do estruturalismo. Contrariamente a Lacan que sublinhava com for&ccedil;a que Freud tinha descoberto o simb&oacute;lico e o primado do significante no inconsciente, L&eacute;vi-Strauss acusa Freud de ignorar o axioma fundador do estruturalismo: o valor de posi&ccedil;&atilde;o dos elementos estruturais que faz com que o sentido seja o efeito de rela&ccedil;&otilde;es formais. Em vez de considerar o sentido como resultado, Freud tenderia, diz L&eacute;vi-Strauss, a atribuir <i>a priori</i> um conte&uacute;do a um s&iacute;mbolo :</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>Tout au long de son œuvre, Freud oscille – et n’arrive pas &agrave; choisir en fait – entre une conception r&eacute;aliste et une conception relativiste du symbole. (…) Sous une forme encore na&iuml;ve et rudimentaire, elle [la conception relativiste] reconnait donc que le symbole tire sa signification du contexte, de son rapport &agrave; d’autres symboles qui ne prennent eux-m&ecirc;mes un sens que relativement &agrave; lui. (…) Or, au lieu de suivre cette voie qu’il avait pourtant ouverte, il semble que Freud se soit de plus en plus tourn&eacute; vers le langage courant, l’&eacute;tymologie, la philologie (…) dans l’espoir de trouver aux symboles une signification absolue. Ce faisant, il ne diff&egrave;re pas de Jung par le but recherch&eacute; (1985 : 247-8). </blockquote>      <p>Em 1955, L&eacute;vi-Strauss tinha dirigido a mesma cr&iacute;tica n&atilde;o a Freud mas a Jung, ao mesmo tempo que referia a estrutura em dupla tor&ccedil;&atilde;o da FCM ao modelo freudiano da retroac&ccedil;&atilde;o (<i>apr&egrave;s-coup</i>) do fantasma sobre o traumatismo (cf.1958: 263). Freud era ent&atilde;o uma refer&ecirc;ncia da an&aacute;lise estrutural dos mitos. Mas em 1985, a <i>Poti&egrave;re Jalouse</i>, decidida a apropriar-se o conceito freudiano mais radical, a puls&atilde;o, arruma estrategicamente Freud ao lado de Jung para o deslocar do simb&oacute;lico, onde Lacan o havia alojado, para o simbolismo (imagin&aacute;rio). L&eacute;vi-Strauss explicita assim uma ideia antes aflorada em <i>L’efficacit&eacute; symbolique</i>, que &eacute; tamb&eacute;m um texto de pol&eacute;mica com a psican&aacute;lise: o inconsciente freudiano n&atilde;o &eacute; o inconsciente estrutural. </p>      <p>O que &eacute; que est&aacute; aqui em jogo na rela&ccedil;&atilde;o entre “freudiano” e “estrutural”? O que &eacute; que implica afirmar ou negar o “estruturalismo” de Freud? </p>      <p>O que est&aacute; aqui em jogo &eacute; de cariz epistemol&oacute;gico e trata-se do acesso da psican&aacute;lise &agrave; cientificidade. Para se tornar cient&iacute;fica, a psican&aacute;lise tem, na esteira da lingu&iacute;stica, de se tornar estrutural, pois a revolu&ccedil;&atilde;o fonol&oacute;gica dos anos 50 tinha demonstrado que um sector da &aacute;rea das ci&ecirc;ncias sociais e humanas s&oacute; se torna objeto cient&iacute;fico na condi&ccedil;&atilde;o de se estruturar como uma linguagem.</p>      <p>Ora, Lacan, proclamando o estruturalismo <i>avant la lettre</i> de Freud, mostrou que a metapsicologia freudiana exige uma perce&ccedil;&atilde;o de estrutura, e da rela&ccedil;&atilde;o da estrutura com o real, que constitui um desafio para o estruturalismo <i>standard</i>, de que L&eacute;vi-Strauss &eacute; o representante mais autorizado. Entendida como sistema fechado e totalizado de rela&ccedil;&otilde;es l&oacute;gicas, a estrutura &eacute; um <i>logos</i> que subsume o real. No espa&ccedil;o estrutural n&atilde;o h&aacute; real fora do lugar, desalojado, deslocado, pois o “&Ccedil;a pense” &eacute; todo-poderoso. Em <i>L’efficacit&eacute; symbolique</i>, L&eacute;vi-Strauss escreve:</p>      <blockquote>Au contraire, l’inconscient est toujours vide; ou, plus exactement, il est aussi &eacute;tranger aux images que l’estomac aux aliments qui le traversent. Organe d’une fonction sp&eacute;cifique, il se borne &agrave; imposer des lois structurales, qui &eacute;puisent sa r&eacute;alit&eacute;, &agrave; des &eacute;l&eacute;ments inarticul&eacute;s qui proviennent d’ailleurs: pulsions, &eacute;motions, repr&eacute;sentations, souvenirs (1958 : 233).</blockquote>      <p>O inconsciente l&eacute;vi-straussiano &eacute; vazio porque a sua “efic&aacute;cia simb&oacute;lica” n&atilde;o &eacute; condicionada pelo emp&iacute;rico, o fenomenol&oacute;gico e o patol&oacute;gico. Pelo contr&aacute;rio, a efic&aacute;cia do simb&oacute;lico subsume o <i>pathos</i> em <i>logos</i>, passa o sens&iacute;vel para o plano do intelig&iacute;vel, anula o real em significa&ccedil;&atilde;o. &Eacute; o que acontece na cura xam&acirc;nica na qual a experi&ecirc;ncia da dor f&iacute;sica &eacute; convertida, gra&ccedil;as &agrave; narra&ccedil;&atilde;o do mito, em express&atilde;o verbal e “une forme ordonn&eacute;e et intelligible” (<i>idem</i>: 226). P&ocirc;r no lugar e p&ocirc;r em ordem: o informul&aacute;vel, o incoerente e o arbitr&aacute;rio tomam lugar num “ensemble o&ugrave; tout se tient” (<i>ibidem</i>). Este poder da fun&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica retoma o da raz&atilde;o pura de transcender objetivamente o material que releva da particularidade subjectiva para o subsumir num princ&iacute;pio formal universal ap&aacute;tico (lei).</p>      <p>O real sexual &eacute; anulado nas rela&ccedil;&otilde;es l&oacute;gicas e nas opera&ccedil;&otilde;es significantes como consequ&ecirc;ncia da estrat&eacute;gia transcendental inerente ao racionalismo estruturalista. O estruturalismo proclama que o real &eacute; racional. Ora a obra de Freud &eacute;, como Lacan demonstrou, uma teoria da destotaliza&ccedil;&atilde;o, um pensamento do resto, que implica que o real n&atilde;o &eacute; todo racional e que a efic&aacute;cia do simb&oacute;lico falha. Afinal, o inconsciente &eacute; “ce qui ne va pas”. Aquilo que em <i>L’esquisse</i> (<i>Entwurf</i>) Freud chama “o que fica como coisa” – <i>als Ding</i> – &eacute; o que lhe permite conservar, contra a tese monista de Jung sobre a libido, o famoso ‘dualismo pulsional’. O dualismo pulsional n&atilde;o deve ser confundido com o dualismo c&oacute;smico de Jung. O que nele est&aacute; em jogo nada tem a ver com as conjun&ccedil;&otilde;es e as coincid&ecirc;ncias dos opostos, apaziguados e pacificados, mas, ao contr&aacute;rio, com disjun&ccedil;&otilde;es e tens&otilde;es. O segundo constrangimento, o da compuls&atilde;o de repeti&ccedil;&atilde;o (<i>malaise</i>), p&otilde;e em disfun&ccedil;&atilde;o o primeiro, o da l&oacute;gica das articula&ccedil;&otilde;es significantes que produzem o recalcamento (<i>maladie</i>): <i>Thanatos</i>, a puls&atilde;o de morte, rompe os la&ccedil;os que <i>Eros</i> tece. Mas que o gosto de Freud pelo mundo antigo e a sua vasta cultura cl&aacute;ssica e humanista n&atilde;o nos enganem: o universo freudiano do desejo n&atilde;o &eacute; compar&aacute;vel nem ao cosmos junguiano nem ao universo l&eacute;vi-straussiano que elegem, ambos, o modelo pr&eacute;-moderno da Uni&atilde;o/Unidade (Um), seja sob o regime do imagin&aacute;rio transbordante da <i>sex ratio</i>, em que o sentido se situa <i>a priori</i>, seja sob o regime da pura forma da <i>ratio</i> unicamente, em que o sentido &eacute; <i>a posteriori</i>. Ora o dualismo freudiano postula que a puls&atilde;o de morte &eacute; o imposs&iacute;vel da puls&atilde;o de vida, o sexual o imposs&iacute;vel da rela&ccedil;&atilde;o. O aforismo lacaniano “il n’y a pas de rapport sexuel” sintetiza o imposs&iacute;vel que reside no cora&ccedil;&atilde;o da puls&atilde;o, constituindo um limite &agrave; sua erotiza&ccedil;&atilde;o-socializa&ccedil;&atilde;o e &agrave; sua des-sexualiza&ccedil;&atilde;o total .</p>      <p>Para Freud, todo o dispositivo de regula&ccedil;&atilde;o da puls&atilde;o atrav&eacute;s das articula&ccedil;&otilde;es sociais e significantes, como &eacute; o &Eacute;dipo, &eacute; entravado por um resto sexual que a <i>Kultur</i> n&atilde;o consegue assimilar, que os interditos e ideais ao servi&ccedil;o de <i>Eros</i>, inst&acirc;ncia que une pessoas e grupos, n&atilde;o consegue recalcar nem sublimar. Algo de inalien&aacute;vel e irredut&iacute;vel escapa e objeta ao Outro, tanto na ace&ccedil;&atilde;o rom&acirc;ntica de comunidade org&acirc;nica (<i>Kultur</i>), como na ace&ccedil;&atilde;o racionalista de ordem simb&oacute;lica (<i>structure</i>) : “la chose freudienne”, “l’objet petit a”. Em Freud, o real n&atilde;o &eacute; todo racional. O &Eacute;dipo &eacute; talvez uma categoria no sentido kantiano, mas n&atilde;o a puls&atilde;o. Para usar os termos de L&eacute;vi-Strauss em <i>Mythologiques</i>, diremos que &Eacute;dipo, como todo mito, “nous tient au groupe” (aliena&ccedil;&atilde;o). A puls&atilde;o, ou mais precisamente o que fica como coisa da convers&atilde;o edipiana da puls&atilde;o em la&ccedil;o social e significante, &eacute; justamente o que separa o sujeito do grupo e impede que a sua aliena&ccedil;&atilde;o &agrave; rela&ccedil;&atilde;o significante seja total. Nos termos de Lacan, a estrutura &eacute; inconsistente e o Outro “comme lieu il ne tient pas” (Lacan, 1975a: 31). </p>      <p>Durante a primeira d&eacute;cada do seu ensino, Lacan tentou absorver a puls&atilde;o em desejo. A sua estrat&eacute;gia consistiu em colocar a puls&atilde;o do lado do imagin&aacute;rio para a fazer aceder &agrave; ordem simb&oacute;lica: “Libido et moi sont du m&ecirc;me c&ocirc;t&eacute;. Le narcissisme est libidinal (...) C’est ici que nous d&eacute;bouchons sur l’ordre symbolique, qui n’est pas l’ordre libidinal o&ugrave; s’inscrivent aussi bien le moi que toutes les pulsions”. (1978: 375). O acesso &agrave; ordem simb&oacute;lica determina a circula&ccedil;&atilde;o da puls&atilde;o nos desfiladeiros do significante e de facto a&iacute; a puls&atilde;o &eacute; purificada em desejo, i.e., projetada para fora dos limites da vida, para l&aacute; do princ&iacute;pio do prazer. O desejo resulta da subsun&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o significante de um real patol&oacute;gico e inarticulado, constitu&iacute;do de “tous les ‘&ccedil;a’, objets, instincts, d&eacute;sirs, tendances” (Lacan, 1975: 128). O desejo &eacute; um conceito eminentemente l&oacute;gico pois tanto a sua causa como a sua finalidade est&atilde;o no significante, ou melhor no vazio aberto pelo significante na vida. &Eacute; certo que Lacan desenvolve, ao longo da d&eacute;cada de 60, o conceito de objeto <i>a</i> enquanto objeto do fantasma - $ ? a - e causa retroativa do desejo. Mas at&eacute; ent&atilde;o, puls&atilde;o e objeto pertenciam &agrave; esfera do imagin&aacute;rio e, como tal, o seu destino &eacute; a subsun&ccedil;&atilde;o em desejo puro, sustentado unicamente na rela&ccedil;&atilde;o significante (cf. &Aacute;lvares, 2010: 169-186).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quando no <i>S&eacute;minaire XI</i>, Lacan faz da puls&atilde;o um dos quatro conceitos fundamentais da psican&aacute;lise, isso significa o fracasso da tentativa de reduzir a complexidade e a heterogeneidade do sexual freudiano ao conceito l&oacute;gico de desejo: o inconsciente n&atilde;o &eacute; s&oacute; um “&ccedil;a parle”. Cremos que, com o <i>S&eacute;minaire XI</i>, Lacan marca a dist&acirc;ncia de Freud com o postulado central do racionalismo estruturalista de linha kantiana que assume o poder de subsun&ccedil;&atilde;o do emp&iacute;rico, do fenomenol&oacute;gico e do patol&oacute;gico, pela estrutura, sendo esta a vers&atilde;o que a raz&atilde;o pura toma no s&eacute;culo XX. No in&iacute;cio do semin&aacute;rio em que reabilita o conceito de puls&atilde;o, Lacan apresenta o inconsciente freudiano como algo diferente do inconsciente estrutural:</p>      <blockquote>De nos jours, au temps historique o&ugrave; nous sommes de formation d’une science, qu’on peut qualifier d’humaine mais qu’il faut bien distinguer de toute psychosociologie, &agrave; savoir, la linguistique, dont le mod&egrave;le est le jeu combinatoire op&eacute;rant dans sa spontan&eacute;it&eacute;, tout seul, d’une fa&ccedil;on pr&eacute;-subjective, – c’est cette structure qui donne son statut &agrave; l’inconscient. C’est elle, en tout cas, qui nous assure qu’il y a sous le terme d’inconscient quelque chose de qualifiable, d’accessible et d’objectivable.</blockquote>      <p>Mais quand j’incite les psychanalystes &agrave; ne point ignorer ce terrain, qui leur donne un solide appui pour leur &eacute;laboration, est-ce &agrave; dire que je pense tenir les concepts introduits historiquement par Freud sous le terme d’inconscient ? Eh bien, non ! je ne le pense pas. L’inconscient, concept freudien, est autre chose, que je voudrais vous faire saisir aujourd’hui (1973: 29).</p>      <p>Isto mostra suficientemente que a psican&aacute;lise choca n&atilde;o propriamente com o estruturalismo mas com aquele estruturalismo que define a estrutura como um todo completo e fechado que expropria o real para o elevar &agrave; dignidade de significante e o ordenar em rela&ccedil;&otilde;es l&oacute;gicas determinadas por uma lei, de modo a produzir e a comunicar significa&ccedil;&otilde;es. Pois a psican&aacute;lise diz: h&aacute; um real que fica como coisa, que se encarrega da por&ccedil;&atilde;o de sexual imposs&iacute;vel de significar, um “&Ccedil;a” que n&atilde;o fala nem pensa, e que negativiza as rela&ccedil;&otilde;es estruturais.</p>      <p>A li&ccedil;&atilde;o de Freud &eacute; que, para usar os termos do Semin&aacute;rio XX, a puls&atilde;o n&atilde;o &eacute; toda convert&iacute;vel em significa&ccedil;&atilde;o. “O que fica como coisa” objeta &agrave; sua voca&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica. A antinomia da puls&atilde;o implica uma conce&ccedil;&atilde;o de estrutura que n&atilde;o &eacute; a de L&eacute;vi-Strauss e do estruturalismo <i>standard</i>. O inconsciente freudiano n&atilde;o &eacute; uma estrutura fechada e consistente como &eacute; o pensamento m&iacute;tico (que &eacute; um sistema de opera&ccedil;&otilde;es l&oacute;gicas que captura o real em sentido: tudo faz sentido, diz L&eacute;vi-Strauss em <i>La</i> <i>Pens&eacute;e Sauvage</i>). &Eacute; porque faz desaparecer o imposs&iacute;vel, o real, que o mito apazigua as ang&uacute;stias e pode ser usado com fins terap&ecirc;uticos mas ilus&oacute;rios. O inconsciente freudiano &eacute; uma estrutura aberta sobre o real. De facto, Lacan di-lo desde o seu primeiro semin&aacute;rio em 1953:</p>      <blockquote>En effet, &agrave; saisir la fonction du signe, on est toujours renvoy&eacute; au signe. Pourquoi ? Parce que le syst&egrave;me des signes, tels qu’ils sont concr&egrave;tement institu&eacute;s, hic et nunc, forme par lui-m&ecirc;me un tout. C’est dire qu’il institue un ordre qui est sans issue. Bien entendu, il faut qu’il y en ait une, sans quoi ce serait un ordre insens&eacute;(Lacan, 1975 : 399).</blockquote>      <p>N&atilde;o &eacute; por acaso que Lacan nunca foi um estruturalista como os outros e que ao longo de 30 anos o que ele fez foi abordar sob diferentes &acirc;ngulos o desfasamento entre “freudiano” e “estrutural” para apreender a coisa freudiana: tem ela um lugar na estrutura, &eacute; ela redut&iacute;vel &agrave; rela&ccedil;&atilde;o significante, ou n&atilde;o &eacute;, e quais s&atilde;o ent&atilde;o os seus efeitos sobre a ordem de lugares e de rela&ccedil;&otilde;es que &eacute; a estrutura? Se, durante a primeira d&eacute;cada, Lacan tende a minimizar o desfasamento entre “freudiano” e “estrutural”, esse desfasamento vai aparecer mais vincadamente no seu discurso a partir da viragem &eacute;tica, quando Lacan toma as suas dist&acirc;ncias com a matriz kantiana do estruturalismo <i>standard</i>, logo com a antropologia estrutural de L&eacute;vi-Strauss:</p>      <blockquote>la loi morale (...) n’est rien d’autre que le d&eacute;sir &agrave; l’&eacute;tat pur, celui-l&agrave; m&ecirc;me qui aboutit au sacrifice, &agrave; proprement parler, de tout ce qui est l’objet de l’amour dans sa tendresse humaine – je dis bien, non seulement au rejet de l’objet pathologique, mais bien &agrave; son sacrifice et &agrave; son meurtre. C’est pourquoi j’ai &eacute;crit “Kant avec Sade” (1973: 306). </blockquote>      <p>Em <i>A paix&atilde;o do negativo. Lacan e a dial&eacute;ctica</i>, Vladimir Safatle explicou detalhada e convincentemente o papel crucial que <i>Kant avec Sade</i> desempenha naquilo a que chamou a viragem do paradigma da intersubjectividade para o do objeto no pensamento de Lacan. O autor defende que nesse texto Lacan descola a sua teoria do sujeito da <i>estrat&eacute;gia transcendental</i> que, como Deleuze bem lembrava, &eacute; inerente ao racionalismo estruturalista e adota uma estrat&eacute;gia verdadeiramente dial&eacute;tica (em que a raz&atilde;o afronta o seu heterog&eacute;neo). Para tal, Lacan apresenta Sade como a verdade de Kant, mostrando que h&aacute; um curto-circuito entre pervers&atilde;o e lei moral; exigindo a rejei&ccedil;&atilde;o de todo e qualquer objeto emp&iacute;rico e patol&oacute;gico, de todo e qualquer bem, os imperativos categ&oacute;ricos de Kant e de Sade aparecem como modelo da lei do desejo puro, a qual muito dificilmente se destrin&ccedil;a do imperativo do gozo. De facto, aquilo que Vladimir Safatle caracteriza como “um jogo orquestrado por Lacan contra si mesmo”, em que a cr&iacute;tica de Kant &eacute; afinal uma autocr&iacute;tica, constituiu uma opera&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para repensar o fantasma e, no <i>Semin&aacute;rio XI</i>, a puls&atilde;o (que sai da esfera imagin&aacute;ria do eu e do narcisismo). Neste semin&aacute;rio, e no <i>&eacute;crit</i> que lhe corresponde, <i>Position de l’inconscient</i>, a aliena&ccedil;&atilde;o do desejo ao desejo ao Outro &eacute; destotalizada pela separa&ccedil;&atilde;o, onde a puls&atilde;o e o objeto desempenham uma fun&ccedil;&atilde;o de primeiro plano. A separa&ccedil;&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria para que o sujeito n&atilde;o fique bloqueado na aliena&ccedil;&atilde;o ao significante. Nos mesmos textos encontramos tamb&eacute;m duas repeti&ccedil;&otilde;es, <i>tych&ecirc;</i> <i>automaton</i>, e duas vertentes da sexualidade: a do vivo, em que se encontra a puls&atilde;o, e a do Outro, lugar da palavra, dos ideais, da ordem e da norma. Mais uma vez, n&atilde;o &eacute; de dualismos que se trata, mas, como diz Safatle, de dial&eacute;tica, de dial&eacute;tica destotalizada, sem s&iacute;ntese, que vai culminar nas f&oacute;rmulas da sexua&ccedil;&atilde;o e na elabora&ccedil;&atilde;o da no&ccedil;&atilde;o de <i>pastoute</i>.</p>      <p>O desfasamento de Lacan com <i>Lakant</i> parece pois ter sido necess&aacute;rio ou, talvez melhor, exigido pela perce&ccedil;&atilde;o da n&atilde;o-coincid&ecirc;ncia entre o inconsciente freudiano e o inconsciente estrutural que a puls&atilde;o, mais do que qualquer outro conceito, permite verificar: o inconsciente freudiano implica que a estrutura n&atilde;o &eacute; uma totalidade, que o inconsciente n&atilde;o &eacute; todo verbo, <i>logos</i>, <i>mythos</i>. E n&atilde;o deixa de ser interessante notar que &eacute; em torno da puls&atilde;o que tanto L&eacute;vi-Strauss como Lacan situam o bordo de inadequa&ccedil;&atilde;o entre Freud e o estruturalismo.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>&Aacute;lvares, Cristina (2001). &laquo;Scubla, L., <i>Lire L&eacute;vi-Strauss</i>&raquo;, Paris, Odile Jacob, 1998, <i>Diacr&iacute;tica</i>, 16, p. 453-8.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000055&pid=S0807-8967201300020001300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>&Aacute;lvares, Cristina (2010). &laquo; V&eacute;nus et le Nom du P&egrave;re. L’objet et ses vicissitudes chez Jacques Lacan &raquo;, <i>Estudos Lacanianos</i>, revista do Programa de P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Psicologia da UFMG, 3, 6, p.169-186&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000057&pid=S0807-8967201300020001300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Delrieu, Alain (1993). <i>L&eacute;vi-Strauss lecteur de Freud. Le droit, l’inceste, le p&egrave;re et l’&eacute;change des femmes</i>, Paris, Point hors ligne.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000058&pid=S0807-8967201300020001300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Freud, Sigmund (1981). <i>Essais de psychanalyse</i>, Paris, Payot.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000060&pid=S0807-8967201300020001300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Freud, Sigmund (1986). <i>Mo&iuml;se et le monoth&eacute;isme</i>, Paris, Gallimard/Folio Essais.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000062&pid=S0807-8967201300020001300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Freud, Sigmund (1990). <i>L’homme aux loups </i>(1918), Paris, PUF/Quadrige.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000064&pid=S0807-8967201300020001300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Lacan, Jacques (1966). <i>&Eacute;crits</i>, Paris, Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000066&pid=S0807-8967201300020001300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Lacan, Jacques (1973). <i>Le S&eacute;minaire XI. Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse</i>, Paris, Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000068&pid=S0807-8967201300020001300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Lacan, Jacques (1974).<i> T&eacute;l&eacute;vision</i>, Paris, Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000070&pid=S0807-8967201300020001300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Lacan, Jacques (1975). <i>Le S&eacute;minaire I. Les &eacute;crits techniques de Freud, Paris, Seuil</i>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000072&pid=S0807-8967201300020001300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Lacan, Jacques (1975a). <i>Le S&eacute;minaire XX. Encore</i>, Paris, Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000074&pid=S0807-8967201300020001300011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>L&eacute;vi-Strauss, Claude (1958). <i>Anthropologie structurale</i>, Paris, Plon.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000076&pid=S0807-8967201300020001300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>L&eacute;vi-Strauss, Claude (1985). <i>La poti&egrave;re jalouse</i>, Paris, Plon.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000078&pid=S0807-8967201300020001300013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Rocha, Ac&iacute;lio E. (1988). <i>Problem&aacute;tica do estruturalismo</i>, Lisboa, Instituto Nacional de Investiga&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000080&pid=S0807-8967201300020001300014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Safatle, Vladimir (2005). <i>A paix&atilde;o do negativo. Lacan e a dial&eacute;ctica</i>, S&atilde;o Paulo, UNESP&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000082&pid=S0807-8967201300020001300015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Scubla, Lucien (1998). <i>Lire L&eacute;vi-Strauss. Le d&eacute;ploiement d’une intuition</i>, Paris, Odile Jacob.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000083&pid=S0807-8967201300020001300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Scubla, Lucien (2009). &laquo;Le symbolique et le religieux: analyse compar&eacute;e de la formule canonique de L&eacute;vi-Strauss et du sch&eacute;ma L de Lacan&raquo;, <i>Diacr&iacute;tica</i>, 23.2, p.27-55.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000085&pid=S0807-8967201300020001300017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Scubla, Lucien (2011). &laquo;Le symbolique chez L&eacute;vi-Strauss et chez Lacan&raquo;, <i>Revue du MAUSS</i>, 37, p.223-239.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000087&pid=S0807-8967201300020001300018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Zafiropoulos, Markos (2003). <i>Lacan et L&eacute;vi-Strauss ou le retour &agrave; Freud, 1951-1957</i>, Paris PUF&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000089&pid=S0807-8967201300020001300019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>      <p>[Submetido em 8 de junho de 2013, re-submetido em 5 de outubro de 2013 e aceite para publica&ccedil;&atilde;o em 10 de outubro de 2013]</p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Notas</b></p>      <p><sup><a href="#top1" name="1" >[1]</a></sup> O mesmo se pode dizer de Propp e da sintaxe actancial. Ela n&atilde;o &eacute; espec&iacute;fica do conto, antes constitui a forma invariante da narrativa. Deste modo, a teoria narrativa elaborada pelo estruturalismo elege o mito e o conto como modelos ou formas can&oacute;nicas da narrativa.</p>      <p><sup><a href="#top2" name="2" >[2]</a></sup> Ver nomeadamente Rocha, 1988 (principalmente, p.172-8, 225-320); Delrieu, 1993; Zefiropoulos, 2003.</p>      <p><sup><a href="#top3" name="3" >[3]</a></sup> A revista <i>Diacr&iacute;tica</i> publicou uma recens&atilde;o cr&iacute;tica sobre esta obra de Lucien Scubla (cf. &Aacute;lvares, 2001)</p>      <p><sup><a href="#top4" name="4" >[4]</a></sup> Em dois artigos dedicados a comparar a FCM e o esquema L, a fim de apreender o que distingue as conce&ccedil;&otilde;es l&eacute;vi-straussiana e lacaniana do simb&oacute;lico, L. Scubla (2009, 2011) defende que, em L&eacute;vi-Strauss, o princ&iacute;pio de reciprocidade estende a fun&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica sobre um eixo horizontal que ignora o eixo vertical da transcend&ecirc;ncia. O simb&oacute;lico lacaniano, pelo contr&aacute;rio, atravessa e corta o plano imagin&aacute;rio da reciprocidade (o eixo a’-a do esquema L). “Au total, chez Lacan, le principe de r&eacute;ciprocit&eacute;, loin d’&ecirc;tre l’alpha et l’om&eacute;ga des relations humaines, se trouve subordonn&eacute; &agrave; quelque chose de plus puissant. Son sch&eacute;ma L r&eacute;v&egrave;le et assume la n&eacute;cessit&eacute; de r&eacute;introduire l’axe vertical de la transcendance qui, chez L&eacute;vi-Strauss, est parfois implicite, mais jamais reconnue, quando elle n’est pas d&eacute;ni&eacute;e.” (Scubla, 2011: 233-4). De facto, como Scubla nota, &laquo; (…) dans son introduction aux oeuvres de Mauss, il commence par rabattre la fonction symbolique sur le langage, puis r&eacute;duit celui-ci &agrave; la communication, et ram&egrave;ne finalement cette derni&egrave;re &agrave; l’&eacute;change et &agrave; la r&eacute;ciprocit&eacute; (…)”(<i>idem</i>: 232). Acrescente-se que, contrariamente ao simb&oacute;lico lacaniano (que &eacute; linguagem mas n&atilde;o &eacute; (apenas) comunica&ccedil;&atilde;o e que &eacute; sobretudo uma estrutura incompleta e aberta), a iman&ecirc;ncia da fun&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica ao princ&iacute;pio de reciprocidade anula o real enquanto tal (o real &eacute; racional).</p>       ]]></body><back>
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