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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Comentário a “liberdade e justiça social”(capítulo IV)]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p> <b>Coment&aacute;rio a “liberdade e justi&ccedil;a social”(cap&iacute;tulo IV)</b> </p>     <p> <b>Maria Jo&atilde;o Cabrita*</b> </p>     <p> *Universidade do Minho, Instituto de Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas, Centro de Estudos Human&iacute;sticos, 4710-057 Braga, Portugal. </p>      <p><a href="mailto:majcabrita@hotmail.com">majcabrita@hotmail.com</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>O cap&iacute;tulo intitulado “Liberdade e Justi&ccedil;a Social” ilustra exemplarmente o modo como Jo&atilde;o Cardoso Rosas emprega a sua caixa de ferramentas rawlsianas na clarifica&ccedil;&atilde;o de problemas cont&iacute;guos &agrave; discuss&atilde;o p&uacute;blica coeva, recorrendo a uma linguagem intelig&iacute;vel a qualquer pessoa desperta pelo mundo social e pol&iacute;tico e n&atilde;o apenas aos seus pares – o fil&oacute;sofo pol&iacute;tico, como acentua o autor, n&atilde;o representa uma autoridade especial.</p>      <p>Neste exerc&iacute;cio de reflex&atilde;o, o fil&oacute;sofo &eacute; desafiado pela quest&atilde;o: haver&aacute; liberdade sem justi&ccedil;a social? Na pr&aacute;tica parece que assim seja, mas – como assinala – nem sempre e necessariamente &eacute; assim. Consequentemente, antes de confundir-se os conceitos de liberdade e de justi&ccedil;a social, de submergir nas suas afinidades, urge avaliar-se o significado de cada um <i>per se</i> – como proferiu Isaiah Berlin: “liberdade &eacute; liberdade” (1958: 172) . Por outro lado, esta dilig&ecirc;ncia pretere a desagrega&ccedil;&atilde;o definitiva entre a liberdade e a justi&ccedil;a social, sustentada por alguns te&oacute;ricos – Hayek, por exemplo. Na proximidade de Berlin, Jo&atilde;o Cardoso Rosas distingue os conceitos de liberdade e de justi&ccedil;a social – a fim de evitar a am&aacute;lgama entre um e outro – e estabelece conex&otilde;es conceptuais e valorativas entre eles – afastando-se, assim, da ideia hayekiana de que a justi&ccedil;a social, ou distributiva, &eacute; ilus&oacute;ria e contraria a liberdade. Com este intuito, a sua an&aacute;lise desenvolve-se a partir do tema “liberdade e liberdades”, prossegue sobre o mote “elementos do conceito de justi&ccedil;a social” e, por &uacute;ltimo, desemboca “[n]o valor da liberdade”. </p>      <p>Em “liberdade e liberdades”, o fil&oacute;sofo mostra como as v&aacute;rias vers&otilde;es da vis&atilde;o dualista da liberdade – liberdade dos antigos <i>versus</i> liberdade dos modernos de Benjamin Constant; liberdade positiva <i>versus</i> liberdade negativa de Isaiah Berlin; e “liberdade de” <i>versus</i> “liberdade para” do discurso mais comum e idealista – se prestam “mais &agrave; confus&atilde;o que ao esclarecimento” (p. 63) do conceito &eacute;tico-pol&iacute;tico de liberdade. Detenhamo-nos, ent&atilde;o, na sua aprecia&ccedil;&atilde;o sobre estas variantes dualistas. Na terminologia de Constant, a “liberdade dos antigos” implica a participa&ccedil;&atilde;o directa e activa dos cidad&atilde;os na “res publica” – &eacute; de car&aacute;cter republicano e concerne &agrave; democracia directa. Mas a liberdade como participa&ccedil;&atilde;o, essencialmente pol&iacute;tica, revela a submiss&atilde;o do indiv&iacute;duo &agrave; <i>polis</i>. Por sua vez, a “liberdade dos modernos” &eacute; compreendida como liberdade “enquanto gozo da independ&ecirc;ncia privada” (p. 61). De car&aacute;cter liberal e associada &agrave; democracia representativa, esta liberdade enfatiza o valor dos direitos do cidad&atilde;o enquanto liberdades civis. &Agrave; luz desta no&ccedil;&atilde;o, o exerc&iacute;cio dos direitos pol&iacute;ticos do cidad&atilde;o &eacute; opcional e n&atilde;o determinante do conceito de liberdade.</p>      <p>Mais actual, a distin&ccedil;&atilde;o de Berlin entre “liberdade negativa” e “liberdade positiva” revela a polaridade entre a “liberdade como n&atilde;o interfer&ecirc;ncia” (p. 62) e a “liberdade como autonomia ou autodetermina&ccedil;&atilde;o” (ibidem) – se aquela corresponde exactamente &agrave; “liberdade dos modernos”, esta amplia a ideia de “liberdade dos antigos” de modo a “abarcar outras vis&otilde;es caracter&iacute;sticas da modernidade” (ibidem). Perscrutar a nossa liberdade negativa equivale a perguntar “at&eacute; que ponto podem os outros interferir comigo?” (ibidem); diferentemente, o inqu&eacute;rito &agrave; liberdade positiva rev&ecirc;-se na quest&atilde;o “quem nos governa?” (ibidem). No pensamento pol&iacute;tico contempor&acirc;neo &eacute; vis&iacute;vel o realce de uma em detrimento da outra – enquanto os liberais privilegiam a liberdade negativa, os republicanos privilegiam a liberdade positiva. </p>      <p>Esta aprecia&ccedil;&atilde;o &eacute;, todavia, demasiado vaga. Como acentua o fil&oacute;sofo, no seio do pensamento liberal existem muitas fam&iacute;lias, da mais igualit&aacute;ria (Rawls) &agrave; mais libert&aacute;ria (Nozick), divergindo pelo que tomam como interfer&ecirc;ncia – os obst&aacute;culos criados pelos outros, todos os obst&aacute;culos externos, os obst&aacute;culos internos, etc. Do mesmo modo, o pensamento republicano n&atilde;o tem uma vis&atilde;o un&iacute;voca quer da liberdade positiva, quer da sua conjuga&ccedil;&atilde;o com a liberdade negativa – da qual n&atilde;o prescinde. Neste &acirc;mbito, o fil&oacute;sofo limita-se a indicar um rumo – remete para o artigo “Republicanismo” de Roberto Merrill e Vincent Bordeau (in Rosas J. C. (coord) 2008, <i>Manual de Filosofia Politica</i>, Lisboa: Almedina, pp. 109-127). Por&eacute;m, teria sido oportuno elucidar a disparidade da “liberdade republicana” relativamente &agrave; “liberdade positiva” de Berlin – quer por n&atilde;o se basear na participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica virtuosa, dada a sua vis&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o como utens&iacute;lio da “n&atilde;o domina&ccedil;&atilde;o”, sem a qual n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel gozar da “n&atilde;o interfer&ecirc;ncia”; quer ainda por evitar os perigos do autoritarismo atrav&eacute;s do seu compromisso com a “n&atilde;o domina&ccedil;&atilde;o” e as institui&ccedil;&otilde;es liberais-democratas que a colocam em pr&aacute;tica. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na esteira deste aparte, prossigo na an&aacute;lise do fil&oacute;sofo &agrave; vis&atilde;o dualista da liberdade. O dualismo conceptual da liberdade &eacute; sublimado, no discurso corrente e mais ideol&oacute;gico, pela distin&ccedil;&atilde;o entre “liberdade de” e “liberdade para”. A primeira, correspondendo &agrave; “liberdade negativa” e coincidindo, historicamente, com a “liberdade dos modernos”, &eacute; ideologicamente peculiar ao liberalismo econ&oacute;mico e ao neoliberalismo; a segunda, correspondendo &agrave; “liberdade positiva” e, coincidindo parcialmente com a “liberdade dos antigos”, &eacute; caracter&iacute;stica, em termos ideol&oacute;gicos, do republicanismo e socialismo. Radicalismo que espelha o conflito entre a defesa do “Estado m&iacute;nimo” e a defesa do “Estado de bem-estar social”, de um tipo de Estado que protege as liberdades individuais e propicia as condi&ccedil;&otilde;es materiais que garantem a efectiva&ccedil;&atilde;o das liberdades civis.</p>      <p>Na medida em que a vis&atilde;o dualista da liberdade – sobretudo nas duas &uacute;ltimas vers&otilde;es – incide especialmente no “diferente valor que atribu&iacute;mos &agrave;s diversas liberdades” (p. 63), no enaltecimento ou das liberdades pol&iacute;ticas ou das liberdades civis, n&atilde;o clarifica o conceito de liberdade. Neste &acirc;mbito, a liberdade como uma rela&ccedil;&atilde;o tri&aacute;dica de Gerald MacCallum &eacute; muito mais frut&iacute;fera – somos assim remetidos para o texto “Negative and Positive Freedom” (1967). Trata-se de uma no&ccedil;&atilde;o meta-teor&eacute;tica – porque inscrita numa teoria sobre as diferen&ccedil;as entre as teorias da liberdade – e n&atilde;o social e pol&iacute;tica, como a de Oppenheim (1950/60), e que influenciou profundamente a tradi&ccedil;&atilde;o da filosofia anal&iacute;tica. Paradoxalmente, como mostra MacCallum (1967), a liberdade tri&aacute;dica de Oppenheim, como a rela&ccedil;&atilde;o entre dois agentes e uma ac&ccedil;&atilde;o particular (obstru&iacute;da ou n&atilde;o), por ser redut&iacute;vel &agrave; “liberdade negativa” de Berlin n&atilde;o dilucida o conceito de liberdade no dom&iacute;nio social e pol&iacute;tico.</p>      <p>Para MacCallum, como lembra o fil&oacute;sofo, todas as concep&ccedil;&otilde;es de liberdade, seja qual for a liberdade espec&iacute;fica em quest&atilde;o (negativa, positiva, liberal, republicana, etc), revelam uma mesma rela&ccedil;&atilde;o tri&aacute;dica e concernente aos seguintes elementos: agente ou agentes; constrangimentos ou obst&aacute;culos; e aquilo que ele ou eles podem fazer. Neste sentido, algu&eacute;m &eacute; (ou n&atilde;o &eacute;) livre de obst&aacute;culos para fazer (ou n&atilde;o) algo/de tornar-se (ou n&atilde;o) algo. &Agrave; luz desta no&ccedil;&atilde;o, conclui-se que as vertentes da vis&atilde;o dualista da liberdade – especialmente as de Constant e de Berlin – “devem ser lidas como (...) tomadas de posi&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; import&acirc;ncia relativa das v&aacute;rias liberdades” (p. 65). Ora, a demarca&ccedil;&atilde;o das concep&ccedil;&otilde;es de liberdade decorre precisamente do diferente peso valorativo atribu&iacute;do &agrave;s diversas liberdades. </p>      <p>O conceito tri&aacute;dico de liberdade de MacCallum aconselha, assim, que se reflicta n&atilde;o tanto sobre a liberdade como sobre “as liberdades particulares e o seu peso relativo” (p. 65). A relev&acirc;ncia em falar de liberdades (e n&atilde;o da liberdade), no horizonte &eacute;tico-pol&iacute;tico, &eacute; ilustrada pela teoria da justi&ccedil;a como equidade de Rawls – no primeiro princ&iacute;pio da justi&ccedil;a a liberdade &eacute; traduz&iacute;vel em liberdades b&aacute;sicas (de pensamento, de express&atilde;o, de reuni&atilde;o, o direito &agrave; integridade pessoal, etc.), por um elenco de liberdades alcan&ccedil;&aacute;vel tanto empiricamente, dado reflectirem a tradi&ccedil;&atilde;o do constitucionalismo moderno, como dedutivamente, quando pensadas como necess&aacute;rias &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o dos planos de vida dos indiv&iacute;duos, na prossecu&ccedil;&atilde;o das suas pr&oacute;prias concep&ccedil;&otilde;es de bem. </p>      <p>Mantendo-se no trilho de Rawls, a an&aacute;lise do fil&oacute;sofo centra-se, ent&atilde;o, nos elementos do conceito de justi&ccedil;a social – conceito que, tal como o de liberdade, se diferencia das v&aacute;rias concep&ccedil;&otilde;es. Come&ccedil;a por lembrar que “o conceito de justi&ccedil;a em geral &eacute; definido pela necessidade em encontrar uma divis&atilde;o adequada dos benef&iacute;cios e encargos que resultam da vida em sociedade” (p. 66); uma divis&atilde;o n&atilde;o arbitr&aacute;ria que preveja o tratamento an&aacute;logo de casos semelhantes e distinto de casos diferentes. Ao adjectivar-se a justi&ccedil;a de “social” toma-se em considera&ccedil;&atilde;o dois aspectos intuitivamente associados ao conceito e ilustrados pelas ideias de igualdade de oportunidades e de distribui&ccedil;&atilde;o de rendimentos e riqueza, incorporadas no segundo princ&iacute;pio da justi&ccedil;a como equidade. Na concep&ccedil;&atilde;o de Rawls, a ideia de igualdade de oportunidades assume dois sentidos distintos: 1) como princ&iacute;pio de “carreiras abertas &agrave;s compet&ecirc;ncias” – trata-se, neste sentido, de um princ&iacute;pio de n&atilde;o discrimina&ccedil;&atilde;o perante a lei e que &eacute; relevante, consequentemente, para os indiv&iacute;duos historicamente discriminados (os pobres, as mulheres, as minorias raciais, etc); e 2) como “igualdade equitativa de oportunidades”- substancial e n&atilde;o meramente formal. Esta &uacute;ltima acep&ccedil;&atilde;o &eacute; mais exigente – visa n&atilde;o s&oacute; abolir barreiras legais discriminat&oacute;rias como garantir a quem nasce numa situa&ccedil;&atilde;o desfavor&aacute;vel que n&atilde;o seja por isso preterido no ingresso &agrave;s diferentes fun&ccedil;&otilde;es e posi&ccedil;&otilde;es. Consequentemente, cabe ao Estado fornecer os meios necess&aacute;rios ao acr&eacute;scimo das expectativas dos indiv&iacute;duos quando estes, por mero acaso, se encontrem &agrave; partida numa situa&ccedil;&atilde;o social desfavor&aacute;vel. O Estado deve garantir, por exemplo, o acesso dos indiv&iacute;duos &agrave; educa&ccedil;&atilde;o e ao desenvolvimento cultural, quer seja atrav&eacute;s de um sistema de ensino p&uacute;blico, de um sistema criterioso de subsidia&ccedil;&atilde;o de escolas privadas, de cheques-educa&ccedil;&atilde;o, ou de qualquer outro m&eacute;todo. </p>      <p>Todavia, que uma sociedade seja equitativa do ponto de vista das oportunidades n&atilde;o significa que n&atilde;o seja desigual – at&eacute; porque “os talentos s&atilde;o diferentemente remunerados pelo mercado e, por outro lado, a boa sorte de alguns &eacute; por vezes acompanhada pelo azar de outros” (p. 68). Na concep&ccedil;&atilde;o em an&aacute;lise, porque igualit&aacute;ria, isto constitui um problema; ou seja, a justi&ccedil;a social comporta tamb&eacute;m princ&iacute;pios de redistribui&ccedil;&atilde;o de rendimento e de riqueza. Mas outras acep&ccedil;&otilde;es de distribui&ccedil;&atilde;o justa n&atilde;o reconhecem isto como um problema – &eacute; o caso, por exemplo, da concep&ccedil;&atilde;o de justi&ccedil;a hist&oacute;rica de Nozick, segundo a qual a distribui&ccedil;&atilde;o de rendimentos e riqueza se rege pelas regras do mercado livre, sendo suficiente que estas acompanhem a igualdade de oportunidades como n&atilde;o discrimina&ccedil;&atilde;o. Nesta &oacute;ptica, os haveres entram no mundo vinculados &agrave;s pessoas, que t&ecirc;m direitos sobre eles e os transaccionam voluntariamente. </p>      <p>Uma acep&ccedil;&atilde;o de distribui&ccedil;&atilde;o justa mais estrutural e igualit&aacute;ria, que conceba a sociedade como um sistema de coopera&ccedil;&atilde;o entre iguais e n&atilde;o como mero somat&oacute;rio de indiv&iacute;duos – ou sen&atilde;o mesmo como artefacto da linguagem – procura regras para uma redistribui&ccedil;&atilde;o mais justa que a decorrente das transac&ccedil;&otilde;es livres entre os indiv&iacute;duos. Neste caso, urge avaliar-se os crit&eacute;rios a utilizar em vista da distribui&ccedil;&atilde;o. O fil&oacute;sofo confronta-nos com duas alternativas: o princ&iacute;pio da utilidade marginal decrescente e o princ&iacute;pio da diferen&ccedil;a de Rawls. Mas acaba por enveredar por esta op&ccedil;&atilde;o, dado aquela, ao maximizar o bem-estar social na sua totalidade, n&atilde;o ter por preocupa&ccedil;&atilde;o maior a justi&ccedil;a distributiva mas o aumento da utilidade geral, do bem-estar agregado. Distintamente, o segundo crit&eacute;rio exige “maximizar a situa&ccedil;&atilde;o daqueles que est&atilde;o em pior situa&ccedil;&atilde;o &agrave; partida” (p. 69).</p>      <p>Tal como demonstrara que as diversas concep&ccedil;&otilde;es de liberdade se articulam a um mesmo conceito de liberdade, &agrave; liberdade enquanto rela&ccedil;&atilde;o tri&aacute;dica, o fil&oacute;sofo mostra que qualquer uma das concep&ccedil;&otilde;es de justi&ccedil;a social mencionadas – liberal igualit&aacute;ria (Rawls), liberal libert&aacute;ria (Nozick) e a alternativa utilitarista – pode ser vista como uma aplica&ccedil;&atilde;o de um mesmo conceito de justi&ccedil;a social. &Eacute; sob este intuito que enceta a sua an&aacute;lise sobre as conex&otilde;es conceptuais e valorativas entre o conceito de liberdade e o conceito de justi&ccedil;a social que, como assinalado, integra “uma especifica&ccedil;&atilde;o da igualdade de oportunidades (...) e uma perspectiva distributiva de algum tipo” (ibidem). </p>      <p>O “valor da liberdade” constitui a categoria que permite estabelecer a liga&ccedil;&atilde;o entre os dois conceitos – distinto da liberdade em si mesma, o valor da liberdade “consiste na capacidade de um cidad&atilde;o prosseguir os seus fins nos quadros da estrutura de regras definida no sistema de liberdades iguais para todos” (p. 70). Isto significa que, conquanto a liberdade possa ser a mesma para todos, como no caso de um Estado de direito democr&aacute;tico, o valor, ou proveito, da liberdade difere – ser&aacute; maior para quem possua mais riqueza ou poder, por exemplo. Esta distin&ccedil;&atilde;o permite contestar a ideia de que “uma liberdade sem um alto valor assegurado &agrave; partida n&atilde;o significa nada” (ibidem) – sustentada por aqueles que cr&ecirc;em que sem justi&ccedil;a social n&atilde;o existe liberdade. Na perspectiva do fil&oacute;sofo, a exist&ecirc;ncia da liberdade n&atilde;o depende do valor da liberdade – podemos ter a liberdade de viajar pelo mundo fora e n&atilde;o possuirmos dinheiro para faz&ecirc;-lo, mas isso n&atilde;o anula essa liberdade; dado que a qualquer momento, uma vez que a nossa capacidade econ&oacute;mica aumente, poderemos faz&ecirc;-lo.</p>      <p>N&atilde;o obstante, a ideia de que a liberdade depende do valor da liberdade &eacute; sustent&aacute;vel no horizonte das liberdades pol&iacute;ticas – algu&eacute;m que num Estado de direito democr&aacute;tico n&atilde;o tenha recursos para se deslocar ao local de voto v&ecirc; ser nulificada a sua liberdade de votar. Como salienta o fil&oacute;sofo, “as liberdades pol&iacute;ticas s&atilde;o direitos de tipo especial” (p. 71), dado o seu efeito perder-se quando tenham um valor baixo ou nulo – da&iacute; quest&otilde;es como as da acessibilidade de todos &agrave;s assembleias eleitorais e da transpar&ecirc;ncia do financiamento dos partidos e candidaturas pol&iacute;ticas serem indispens&aacute;veis &agrave; democracia. Tamb&eacute;m aqui se denota a proximidade do autor a Rawls, &agrave; ideia de que uma sociedade democr&aacute;tica deve garantir que as liberdades pol&iacute;ticas sejam asseguradas pelo seu justo valor – este deve ser aproximadamente ou, no m&iacute;nimo, suficientemente igual para todos os cidad&atilde;os, de modo a todos terem uma mesma oportunidade de ocupar cargos p&uacute;blicos e de influir no resultado das decis&otilde;es pol&iacute;ticas.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Retomando a quest&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o das liberdades em geral – pol&iacute;ticas e sociais – com a justi&ccedil;a social e o valor da liberdade, o fil&oacute;sofo mostra como os casos da liberdade de escolha de ocupa&ccedil;&atilde;o e das liberdades de express&atilde;o e de reuni&atilde;o ilustram que “se ningu&eacute;m tem mais liberdade apenas porque h&aacute; mais justi&ccedil;a social, tamb&eacute;m &eacute; verdade que todos t&ecirc;m um maior valor das suas liberdades quando a justi&ccedil;a social &eacute; efectiva” (p. 71s). Da mesma forma que o valor da liberdade de escolha de ocupa&ccedil;&atilde;o dos mais desfavorecidos &agrave; partida aumenta na sequ&ecirc;ncia da interfer&ecirc;ncia do Estado em prol do acesso de todos &agrave; educa&ccedil;&atilde;o e forma&ccedil;&atilde;o profissional, o valor da liberdade de express&atilde;o acresce com a “igualdade de oportunidades num sentido equitativo” (p. 72) e o da liberdade de reuni&atilde;o com a melhoria do n&iacute;vel socioecon&oacute;mico dos indiv&iacute;duos. Este ensaio guia-nos, assim, pela elucida&ccedil;&atilde;o conceptual que sonda o &acirc;mago da sociedade contempor&acirc;nea.</p>      <p>Ao terminar a leitura do ensaio “Liberdade e Justi&ccedil;a Social”, confronto-me com duas quest&otilde;es que me parecem relevantes: 1) se a justi&ccedil;a social tem por objectivo maximizar o valor da liberdade para os mais desfavorecidos da sociedade, poder&aacute; ser compensat&oacute;ria para quem conduza a sua vida sem qualquer empenho ou que seja ap&aacute;tico ao sistema social? ; e 2) de que modo, nesta via de reflex&atilde;o do elo entre as liberdades e a justi&ccedil;a social, a ren&uacute;ncia &agrave; participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica poder&aacute; constituir um embara&ccedil;o social?</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>Berlin, Isaiah (1958), “Two Concepts of Liberty”, in Isaiah Berlin, <i>Liberty</i>, Oxford: Oxford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000026&pid=S0807-8967201300020002100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Constant, Benjamin (2001), <i>A Liberdade dos Antigos Comparada com a Liberdade dos Modernos</i>, trad. de Ant&oacute;nio Ara&uacute;jo, Coimbra: Edi&ccedil;&otilde;es Tenacitas [1819].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000028&pid=S0807-8967201300020002100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Hayek, F. A. (2009), <i>O Caminho para a Servid&atilde;o</i>, trad. de Marcelino Amaral, Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70 [1944].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000030&pid=S0807-8967201300020002100003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>MacCallum Jr, Gerald (1967), “Negative and Positive Freedom”, in <i>The Philosophical Review</i>, 76(3): 312-334.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000032&pid=S0807-8967201300020002100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Merrill, Roberto &amp; Vincent Bordeau (2008), in Jo&atilde;o Cardoso Rosas (org.), <i>Manual de Filosofia Pol&iacute;tica</i>, Coimbra: Almedina.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000034&pid=S0807-8967201300020002100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Nozick, Robert (1974), <i>Anarchy, State, and Utopia</i>, Oxford: Blackwell.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000036&pid=S0807-8967201300020002100006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>      <!-- ref --><p>Oppenheim, F&eacute;lix E. (1960), “Evaluating Interpersonal Freedoms”, in <i>The Journal of Philosophy</i>, 57(12): 373-384.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000038&pid=S0807-8967201300020002100007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Oppenheim, F&eacute;lix E. (1961), <i>Dimensions of Freedom: An Analysis</i>, New York: St. Martin’s Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000040&pid=S0807-8967201300020002100008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Rawls, John (1999), <i>A Theory of Justice, </i>Oxford: Oxford University Press [1971].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000042&pid=S0807-8967201300020002100009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Rawls, John (2001), <i>Justice as Fairness: a Restatement</i>, ed. by Erin Kelly, Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000044&pid=S0807-8967201300020002100010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       ]]></body><back>
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