<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0807-8967</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista Diacrítica]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Diacrítica]]></abbrev-journal-title>
<issn>0807-8967</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0807-89672013000200024</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Orbae matres: A dor da mãe pela perda de um filho na literatura latina]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Pereira]]></surname>
<given-names><![CDATA[Virgínia Soares]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade do Minho Instituto de Letras e Ciências Humanas Departamento de Estudos Portugueses e Lusófonos]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Braga ]]></addr-line>
<country>Portugal</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2013</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2013</year>
</pub-date>
<volume>27</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>371</fpage>
<lpage>374</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0807-89672013000200024&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0807-89672013000200024&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0807-89672013000200024&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p> <b>Orbae matres. A dor da m&atilde;e pela perda de um filho na literatura latina Cristina Santos Pinheiro, Lisboa, funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian, funda&ccedil;&atilde;o para a ci&ecirc;ncia e a tecnologia, 2012. 530 pp. ISBN: 978-972-31-1436-2 </b> </p>     <p> <b>Virg&iacute;nia Soares Pereira*</b> </p>     <p> *Universidade do Minho, Instituto de Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas, Departamento de Estudos Portugueses e Lus&oacute;fonos, 4710-057 Braga, Portugal. </p>      <p><a href="mailto:virginia@ilch.uminho.pt">virginia@ilch.uminho.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>O volume em apre&ccedil;o, da autoria de uma docente da &aacute;rea de Estudos Cl&aacute;ssicos da Universidade da Madeira, Cristina Santos Pinheiro, &eacute; o resultado de uma longa investiga&ccedil;&atilde;o que culminou (mas n&atilde;o terminou) na realiza&ccedil;&atilde;o da disserta&ccedil;&atilde;o de doutoramento sob o mesmo t&iacute;tulo. Nas palavras da A., “O projecto desta disserta&ccedil;&atilde;o nasceu na sequ&ecirc;ncia da uni&atilde;o das &aacute;reas de Psicologia e de Estudos Cl&aacute;ssicos numa estrutura nova e sem precedentes a que se deu o nome de Departamento de Psicologia e Estudos Human&iacute;sticos.” (p. 3). A inesperada afinidade de interesses entre estas duas &aacute;reas e o pr&oacute;prio e acentuado interesse de Cristina Santos Pinheiro pelo tema da condi&ccedil;&atilde;o feminina e das suas viv&ecirc;ncias, da sua for&ccedil;a e das suas fragilidades, obtiveram como resultado um livro admir&aacute;vel e surpreendente, na sua dupla estrutura&ccedil;&atilde;o e na profunda humanidade que o envolve, que dimana da A. e se comunica ao leitor. </p>      <p>Para tal n&atilde;o deixa de contribuir o horizonte temporal escolhido para palco e cen&aacute;rio da investiga&ccedil;&atilde;o – os finais da Rep&uacute;blica e o Principado de Augusto –, que &eacute; um tempo rico de contornos e matizes, de luzes e sombras, de tradi&ccedil;&otilde;es e de inova&ccedil;&otilde;es, marcadamente acentuadas no tempo de Augusto no que &agrave; reavalia&ccedil;&atilde;o moral da sociedade diz respeito, porquanto, como escreve Cristina Pinheiro, “Nesta restaura&ccedil;&atilde;o de costumes que Augusto pretendia, a exist&ecirc;ncia feminina recebeu aten&ccedil;&atilde;o singular e as mulheres da casa imperial assumiram uma import&acirc;ncia determinante na cria&ccedil;&atilde;o da imagem p&uacute;blica dos imperadores que lhe sucederam.” (p. 5). Neste tempo, pol&iacute;tica, arte, religi&atilde;o, literatura e legisla&ccedil;&atilde;o conjugam-se, diz a A., na defini&ccedil;&atilde;o de pap&eacute;is sociais e do papel da mulher, nomeadamente na quest&atilde;o do casamento, da maternidade e da morte.</p>      <p>&Eacute; com este pano de fundo que o tema se desenvolve ao longo das suas 530 p&aacute;ginas, em duas partes distintas: A Parte I (cerca de duzentas p&aacute;ginas) &eacute; de &acirc;mbito hist&oacute;rico e sociol&oacute;gico e ocupa-se da sa&uacute;de da mulher no que se prende com a maternidade (e o modo como &eacute; vista nas obras de medicina ginecol&oacute;gica), e aborda ainda quest&otilde;es relativas ao “enquadramento jur&iacute;dico, social e moral da maternidade”, al&eacute;m de tratar de mat&eacute;rias como taxas de natalidade, doen&ccedil;as e causas de morte entre adultos e crian&ccedil;as, e ainda cerim&oacute;nias f&uacute;nebres. Para este estudo s&atilde;o convocadas autoridades como o <i>Corpus Hippocraticum, </i>Pl&iacute;nio, o Velho, Sorano de &Eacute;feso, Celso, que documentam como &eacute; antigo o interesse dos estudiosos pelos <i>gynaikeia </i>(estudos ginecol&oacute;gicos). Esta sec&ccedil;&atilde;o tem a ilustr&aacute;-la um conjunto de 10 quadros que re&uacute;nem interessantes informa&ccedil;&otilde;es sobre o tipo e local de sepultura de crian&ccedil;as e dados num&eacute;ricos provenientes de escava&ccedil;&otilde;es arqueol&oacute;gicas, realizadas em v&aacute;rias zonas e relativas aos primeiros s&eacute;culos imperiais; acresce que todos estes dados s&atilde;o recolhidos em fontes perfeitamente identificadas.</p>      <p>A Parte II &eacute; de fei&ccedil;&atilde;o eminentemente liter&aacute;ria e come&ccedil;a por tra&ccedil;ar um quadro panor&acirc;mico sobre a teoriza&ccedil;&atilde;o ret&oacute;rica do lamento nos autores cl&aacute;ssicos, a que se segue um olhar atento sobre a express&atilde;o da dor e do luto na literatura latina, revisitados atrav&eacute;s do estudo de algumas obras de tr&ecirc;s vultos da maior envergadura po&eacute;tica: Virg&iacute;lio, Ov&iacute;dio, S&eacute;neca.</p>      <p>&Eacute; dif&iacute;cil escolher entre estas duas sec&ccedil;&otilde;es t&atilde;o distintas, mas ambas t&atilde;o ricas de informa&ccedil;&atilde;o, de perspetivas, de sensibilidade po&eacute;tica, de humanidade. Entre os <i>realia </i>e a sua representa&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria, a disserta&ccedil;&atilde;o traz ao nosso conhecimento n&atilde;o s&oacute; as mulheres que sofreram por serem mulheres, m&atilde;es, e, sobretudo, <i>matres orbae</i>, enquadradas numa sociedade que tendia a reconhec&ecirc;-las sobretudo como garante da tradi&ccedil;&atilde;o e perpetua&ccedil;&atilde;o familiar, mas tamb&eacute;m a dor das mulheres da tradi&ccedil;&atilde;o m&iacute;tica que a literatura representou. Para esta segunda parte, s&atilde;o carreados, num primeiro cap&iacute;tulo, estudos te&oacute;ricos sobre o treno, o lamento, a consola&ccedil;&atilde;o (documentados em algumas obras de C&iacute;cero, <i>Rhetorica ad Herennium</i>, Quintiliano, S&eacute;neca, Val&eacute;rio M&aacute;ximo). Segue-se uma detida an&aacute;lise do sofrimento representado nas principais figuras femininas da <i>Eneida</i>, que refletem a mundivid&ecirc;ncia do Mantuano e constituem como que o seu <i>implicit comment</i>:a dor de Dido, amante abandonada que n&atilde;o teve filhos; os lamentos desesperados da m&atilde;e do jovem Eur&iacute;alo, ca&iacute;do em combate (a este lamento e &agrave;s suas fundas implica&ccedil;&otilde;es no universo feminino e &eacute;pico do poema, s&atilde;o consagradas cerca de vinte p&aacute;ginas de minuciosa e sens&iacute;vel an&aacute;lise estil&iacute;stico-liter&aacute;ria); Juturna e a dor perante a morte iminente do irm&atilde;o Turno; Evandro e Mez&ecirc;ncio chorando a morte dos filhos Palante e Lauso, respetivamente, ca&iacute;dos em combate; outras tantas mortes que constituem presen&ccedil;a inevit&aacute;vel num poema &eacute;pico caracterizado por uma forte componente guerreira. Note-se que a ocorr&ecirc;ncia, na <i>Eneida</i>,de tantas mortes <i>ante diem </i>tem sido objeto de in&uacute;meras e por vezes contradit&oacute;rias an&aacute;lises, perspetivas, conclus&otilde;es, embora todas elas redut&iacute;veis, em &uacute;ltima an&aacute;lise, &agrave;s duas vis&otilde;es dicot&oacute;micas que t&ecirc;m norteado os estudos do <i>epos </i>virgiliano, uma &eacute;pica e optimista, outra pessimista e profundamente tr&aacute;gica. Mas a A. traduziu muito bem esta dupla vis&atilde;o, s&oacute; aparentemente paradoxal. Como escreve, na p. 276, a concluir o cap&iacute;tulo consagrado &agrave; <i>Eneida</i>: “Para n&oacute;s, que lemos a <i>Eneida </i>neste in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI, o luto e o sofrimento carregam um peso negativo que recai sobre quem deles beneficia. Para Verg&iacute;lio e para os Romanos do seu tempo, s&atilde;o elementos intr&iacute;nsecos da vit&oacute;ria e um pre&ccedil;o a pagar pelo triunfo, &eacute; certo, mas tamb&eacute;m pela conquista da paz. &Eacute; a <i>parta uictoriis pax </i>de que Augusto se vangloria nas <i>Res Gestae </i>(2.43-44).” </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Depois da <i>Eneida, </i>a A. faz incidir a sua aten&ccedil;&atilde;o em v&aacute;rias <i>matres orbae </i>e outras figuras dolorosas do universo ovidiano das <i>Metamorfoses </i>e dos<i> Fastos</i>. Refiram-se: a dor de Cl&iacute;mene e das Hel&iacute;ades perante a morte de Faetonte, o sofrimento de Agave e a morte de Penteu, Ino e Atamante, Ceres e o doloroso sentimento de perda pelo rapto de Pros&eacute;rpina; a infinda dor de N&iacute;obe, que perdeu doze filhos, “seis filhas e seis filhos vigorosos” (como lembrou Homero, no final da <i>Il&iacute;ada</i>) e a sua transforma&ccedil;&atilde;o em pedra; a vingan&ccedil;a de Procne e o assass&iacute;nio dos filhos; Alteia e as irm&atilde;s de Meleagro, Alcmena (m&atilde;e de H&eacute;racles), a nora &Iacute;ole e o relato doloroso da transforma&ccedil;&atilde;o da irm&atilde;, Dr&iacute;ope, em pedra; a suprema dor de H&eacute;cuba, que viu morrer todos os seus filhos (cerca de vinte p&aacute;ginas dedicadas a esta figura m&iacute;tica que ilustra paradigmaticamente, mais do que qualquer outra, a inconst&acirc;ncia da <i>fortuna</i>); s&atilde;o ainda objeto de aten&ccedil;&atilde;o duas outras figuras m&iacute;ticas, V&eacute;nus e Aurora. Cristina Pinheiro, procurando delinear os contornos dominantes em todas estas figuras, conclui que s&atilde;o convencionais os tra&ccedil;os da representa&ccedil;&atilde;o ovidiana do amor materno, que a dor infinda faz com que a mulher se comporte como um animal ou fera, e que a mulher <i>orbata </i>nunca deixa de ser sentida como um ser in&uacute;til &agrave; sociedade, pois a perda de um filho acaba por afetar a j&aacute; fr&aacute;gil <i>dignitas </i>social da mulher.</p>      <p>O &uacute;ltimo grande cap&iacute;tulo da disserta&ccedil;&atilde;o &eacute; dedicado a S&eacute;neca e &agrave;s figuras femininas da sua dramaturgia, nomeadamente Andr&oacute;maca, H&eacute;cuba e Medeia, s&iacute;mbolos inquestion&aacute;veis da maternidade tr&aacute;gica. Uma an&aacute;lise profunda das <i>Troades </i>(“As Troianas”) comenta a trag&eacute;dia das duas primeiras mulheres, Andr&oacute;maca (m&atilde;e de Ast&iacute;anax) e H&eacute;cuba (m&atilde;e de Pol&iacute;xena). S&atilde;o m&atilde;es inconsol&aacute;veis que perderam os seus filhos, v&iacute;timas de vingan&ccedil;a no contexto atroz da guerra. Por sua vez, a trag&eacute;dia <i>Medeia </i>representa, como todos sabem, a mulher que se privou dos filhos, por vingan&ccedil;a, por amor.</p>      <p>Estes s&atilde;o os grandes cap&iacute;tulos que comp&otilde;em o volume, que encerra com uma breve conclus&atilde;o, a que acrescem uma Bibliografia (pp. 487-508) e um <i>Index Locorum</i> (pp. 509-530), que s&atilde;o de regra, sem d&uacute;vida, e da maior utilidade numa obra de recorte acad&eacute;mico.</p>      <p>A extens&atilde;o do volume n&atilde;o nos permite apresentar dele uma vis&atilde;o mais circunstanciada. Mas importa dar particular &ecirc;nfase a alguns aspetos dignos de nota: o interesse das refer&ecirc;ncias m&eacute;dicas e jur&iacute;dicas relativas ao tema em estudo, a abund&acirc;ncia de notas esclarecedoras e atinentes &agrave;s fontes consultadas, a eleg&acirc;ncia da escrita e a acribia das constantes an&aacute;lises estil&iacute;stico-liter&aacute;rias e dos coment&aacute;rios de in&uacute;meros passos extra&iacute;dos de Virg&iacute;lio, Ov&iacute;dio e S&eacute;neca, que ilustram de forma magistral as m&uacute;ltiplas vari&aacute;veis da condi&ccedil;&atilde;o feminina: a fragilidade da mulher, a maternidade, a frustra&ccedil;&atilde;o, a dor, a vingan&ccedil;a, etc… Nas palavras de Cristina Santos Pinheiro, que encerram este seu estudo (p. 485): “A <i>mater orba</i> &eacute; uma figura aterradora que representa aspetos inquietantes da humanidade: o sofrimento, a frustra&ccedil;&atilde;o do futuro, a imprevisibilidade da fortuna. Mas &eacute; precisamente devido a essa dimens&atilde;o humana, &eacute; porque qualquer indiv&iacute;duo se v&ecirc; representado na imagem da m&atilde;e que chora a morte do filho, que ela constitui um dos motivos mais pat&eacute;ticos e apelativos da arte e da literatura.”</p>      <p>Assim termina este valioso e surpreendente estudo. Ele comprova, sem d&uacute;vida, uma constante dos estudos que se acercam da mat&eacute;ria e dos tempos cl&aacute;ssicos: a sua perenidade, a sua vitalidade, a sua capacidade de continuar a interpelar-nos. Olhar o mundo que nos rodeia sem conhecer os Cl&aacute;ssicos &eacute; poss&iacute;vel, segundo alguns, mas a acuidade desse olhar tende for&ccedil;osamente a perder-se.</p>      <p>&nbsp;</p>       ]]></body>
</article>
