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</front><body><![CDATA[ <p> <b>Ler contra o tempo. Condi&ccedil;&otilde;es dos textos na cultura portuguesa (recolha de estudos em hora de v&eacute;speras) Aires A. Nascimento, Lisboa, centro de estudos cl&aacute;ssicos, faculdade de letras da universidade de Lisboa, 2012, 2 volumes, 1147 pp. ISBN: 978-972-9376-28-3</b> </p>     <p> <b>Virg&iacute;nia Soares Pereira*</b> </p>     <p> *Universidade do Minho, Instituto de Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas, Departamento de Estudos Portugueses e Lus&oacute;fonos, 4710-057 Braga, Portugal. </p>      <p><a href="mailto:virginia@ilch.uminho.pt">virginia@ilch.uminho.pt</a></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>No peso dos seus dois volumes e das suas 1147 p&aacute;ginas, esta obra re&uacute;ne uma parte muito significativa da investiga&ccedil;&atilde;o produzida ao longo de uma vida estudiosa, a de Aires Nascimento, Professor Catedr&aacute;tico da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e durante largos anos Diretor da prestigiada revista <i>Euphrosyne.</i> Como escreve Cristina Pimentel nas “Palavras Pr&eacute;vias” que abrem o primeiro volume, Aires Nascimento tem sido “Fil&oacute;logo de forma&ccedil;&atilde;o e paix&atilde;o”.Este primeiro volume come&ccedil;a, ali&aacute;s, com um <i>Curriculum Vitae</i> acad&eacute;mico-cient&iacute;fico e uma bibliografia do A., constitu&iacute;da por mais de 400 artigos e 30 monografias – para n&atilde;o falar das mais de quinhentas recens&otilde;es e notas, dos quais s&atilde;o agora recompilados cinquenta estudos e artigos – que ilustram bem o seu labor constante. O “Pr&oacute;logo”, a abrir o primeiro volume, d&aacute; a medida do conjunto, quando o A., que se confessa leitor atento de muitos textos, escreve: “s&oacute; lemos com a alma, dilatando-a e sintonizando-a com os autores…” – uma forma de afirmar o seu grande d&eacute;bito a tantos textos nos quais se sedimentou a forma&ccedil;&atilde;o e a paix&atilde;o de um grande fil&oacute;logo. Compreende-se, assim, o ir&oacute;nico quadro escolhido para ilustrar a capa dos dois volumes: o “Bibli&oacute;filo”, ou, como lhe chama o A., o “Rato de Biblioteca” de Carl Spitzweg, um &aacute;vido leitor que nos aparece desconfortavelmente equilibrado no topo de uma escada, atento apenas &agrave; p&aacute;gina de um livro, que l&ecirc;, na penumbra de uma biblioteca antiga e veneranda.</p>      <p>A diversidade de estudos que comp&otilde;em os dois volumes foi organizada em grandes sec&ccedil;&otilde;es, intituladas como se segue:</p>      <p>1. Cl&aacute;ssicos: A perman&ecirc;ncia e o comprometimento cultural</p>      <p>2. Tradi&ccedil;&atilde;o e continuidade: Entender o livro, mais que texto</p>      <p>3. Idade M&eacute;dia: Inova&ccedil;&atilde;o e recupera&ccedil;&otilde;es na deriva</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>4. Humanismo e reencontro de tradi&ccedil;&otilde;es</p>      <p>5. Tradu&ccedil;&atilde;o em recep&ccedil;&atilde;o de texto</p>      <p>6. <i>Peregrinae voces.</i></p>      <p>Por seu turno, as publica&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas enquadradas nestas sec&ccedil;&otilde;es encontram-se distribu&iacute;das por v&aacute;rias &aacute;reas de estudo, nomeadamente: 1) Filologia Latina Medieval e Renascentista – Edi&ccedil;&atilde;o de textos e estudos; 2) Codicologia e Hist&oacute;ria do Livro manuscrito; 3) Literatura Latina (Cl&aacute;ssica, Medieval, Renascentista e Moderna); 4) Hist&oacute;ria da Tradu&ccedil;&atilde;o; 5) Tratamento de textos em Bases de Dados (um conjunto de estudos inform&aacute;ticos aplicados a textos em latim medieval); 6) Outras &aacute;reas (textos e reflex&otilde;es sobre o ensino do Latim, os Estudos Cl&aacute;ssicos, Epigrafia, o Patrim&oacute;nio Cl&aacute;ssico, as <i>Litterae Humaniores</i>, textos sobre Nuno de Santa Maria, efem&eacute;rides, homenagens, entre outros).</p>      <p>Apesar da quantidade de textos aqui recolhidos e oferecidos ao leitor, eles constituem parte apenas da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica de Aires Nascimento. Como diz o A. (com evidente mod&eacute;stia), em palavras que talvez descortinem um pouco o sentido algo enigm&aacute;tico do t&iacute;tulo da obra: “Aqui fica o que me foi reclamado como dever de cola&ccedil;&atilde;o no final de tarde, antes do <i>Nunc dimittis.</i> N&atilde;o &eacute; completa a recompila&ccedil;&atilde;o, at&eacute; porque seria longo o registo e talvez nulo o benef&iacute;cio.”</p>      <p>O que particularmente agrada observar, no acervo de estudos aqui reunido, &eacute; ver como uma investiga&ccedil;&atilde;o que assenta no conhecimento profundo dos textos cl&aacute;ssicos e b&iacute;blicos – e com tal bagagem faz incidir a sua aten&ccedil;&atilde;o sobre as &eacute;pocas antigas, os tempos medievais, os ideais human&iacute;stico-renascentistas, e ainda sobre a influ&ecirc;ncia que todos esses tempos exerceram nos vindouros, at&eacute; aos tempos de hoje –, alia, com uma agilidade not&aacute;vel, os estudos de mais pura filologia e o atento <i>aggiornamento</i> dos mais diversos temas, “combinando a leitura de ontem com os instrumentos de hoje” e retomando at&eacute; alguns problemas, de resto j&aacute; muito antigos, da tradu&ccedil;&atilde;o e da sua fun&ccedil;&atilde;o de media&ccedil;&atilde;o cultural. </p>      <p>Olhando agora &agrave; variedade dos textos coligidos, diga-se que nesta “recompila&ccedil;&atilde;o” s&atilde;o de notar duas grandes linhas de for&ccedil;a, que conferem sentido e unidade ao conjunto: os estudos de medievalidade e do humanismo renascentista, por um lado, e as reflex&otilde;es sobre o lugar dos Cl&aacute;ssicos nos tempos de hoje, por outro. </p>      <p>Sendo o Autor um medievalista, compreende-se que na sua grande maioria os textos aqui reunidos versem mat&eacute;rias atinentes a textos e gentes da Idade M&eacute;dia, de que se destacam v&aacute;rios artigos, riqu&iacute;ssimos de informa&ccedil;&atilde;o, sobre o “Percurso do livro na hist&oacute;ria da cultura portuguesa medieval” (um estudo de cinquenta p&aacute;ginas que assenta a sua investiga&ccedil;&atilde;o em fundos manuscritos de bibliotecas e outras fontes documentais, como testamentos), “Os textos cl&aacute;ssicos em per&iacute;odo medieval: tradu&ccedil;&atilde;o como alargamento de comunidade cultural”, “Literatura religiosa medieval”, “A cultura bracarense no s&eacute;culo VI: uma revisita&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria”, “Livros e claustro no s&eacute;culo XIII em Portugal”, “Em busca dos c&oacute;dices alcobacenses perdidos”, “As livrarias dos Pr&iacute;ncipes de Avis”, “Tempos e livros medievos: os antigos c&oacute;dices de Lorv&atilde;o – do esquecimento &agrave; recupera&ccedil;&atilde;o de tradi&ccedil;&otilde;es”. Conv&eacute;m recordar ainda, neste elenco n&atilde;o exaustivo, o estudo de textos latinos e a sua tradu&ccedil;&atilde;o, que t&ecirc;m a virtude de p&ocirc;r &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o dos historiadores textos at&eacute; h&aacute; tempos conhecidos apenas em latim; tal &eacute; o caso dos artigos “A religi&atilde;o dos r&uacute;sticos” (texto latino e tradu&ccedil;&atilde;o do famoso <i>De correctione rusticorum”</i> de S&atilde;o Martinho de Braga, do s&eacute;culo VI), “A <i>Vita S. Geraldi</i> de Bernardo, Bispo de Coimbra” (texto e tradu&ccedil;&atilde;o), ou dois artigos que d&atilde;o a conhecer textos de extraordin&aacute;ria import&acirc;ncia hist&oacute;rica e documental, que se prendem com os primeiros tempos de Portugal, a saber: “O j&uacute;bilo da vit&oacute;ria: celebra&ccedil;&atilde;o da tomada de Santar&eacute;m aos Mouros (a.D. 1147)”, um texto considerado um poema em prosa, em boa hora traduzido e comentado com o saber de quem domina os tempos e os registos essenciais ao seu coment&aacute;rio: o b&iacute;blico, o cl&aacute;ssico, o medieval. O mesmo se diga do artigo “Poema de conquista: a tomada de Alc&aacute;cer do Sal aos Mouros (1217)”, que em parte retoma o anterior, dedicado a Santar&eacute;m, no intuito de assinalar as semelhan&ccedil;as e as diferen&ccedil;as entre estes dois textos de vit&oacute;ria.</p>      <p>Ainda nesta vertente dos estudos de medievalidade, alguns artigos versam sobre o estatuto da imagem no texto, isto &eacute;, sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre a palavra e a imagem, como no estudo “A imagem no texto: esplendor do livro e marca&ccedil;&atilde;o de leitura no manuscrito medieval”, que &agrave; componente te&oacute;rica alia uma pormenorizada an&aacute;lise e interpreta&ccedil;&atilde;o de alguns registos iconogr&aacute;ficos, desde uma iluminura de um manuscrito identificado como “Apocalipse Gulbenkian”, entre outros Apocalipses, at&eacute; ao t&iacute;mpano da bas&iacute;lica de Santa Madalena de V&eacute;zelay, no qual a figura central de Cristo est&aacute; rodeada de outros signos, os signos do Zod&iacute;aco e os relativos aos trabalhos agr&iacute;colas ao longo do ano. A exemplo destas, surgem outras reflex&otilde;es em torno da imagem de capa, dos elementos auxiliares de leitura, e de outros temas, de que cumpre destacar: “O poder da imagem: encantos, ambiguidades e valoriza&ccedil;&otilde;es” (trinta p&aacute;ginas).</p>      <p>Sob a premissa de que “Le temps de l&acute;Humanisme europ&eacute;en n’est pas homog&egrave;ne” (p. 643), outra sec&ccedil;&atilde;o remete para o Humanismo e o reencontro de tradi&ccedil;&otilde;es, come&ccedil;ando com um artigo dedicado ao humanismo jesu&iacute;tico dos primeiros tempos, passando depois ao estudo de alguns dos mais not&aacute;veis humanistas portugueses do s&eacute;culo XVI, como sejam Dami&atilde;o de G&oacute;is, Andr&eacute; de Resende (ambos analisados sob a perspetiva da tradi&ccedil;&atilde;o dos fundadores m&iacute;ticos de Lisboa e sobre a import&acirc;ncia do mito no estabelecimento da identidade nacional), bem como um estudo centrado no pensamento de C&iacute;cero relacionado com o humanismo c&iacute;vico, al&eacute;m de um precioso contributo de 25 p&aacute;ginas intitulado “Erudi&ccedil;&atilde;o e livros em Portugal no tempo de Arias Montano: a biblioteca do Duque de Bragan&ccedil;a”, consagrado ao estudo da riqu&iacute;ssima e vasta livraria do Duque D. Teod&oacute;sio I, que faleceu em Vila Vi&ccedil;osa em 1563.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Passando agora &agrave; segunda vertente dos estudos de Aires Nascimento, que se revela sumamente enriquecedora (porque assente em s&oacute;lidas e inovadoras refer&ecirc;ncias culturais), atentemos na reflex&atilde;o constante do A. em torno do modo como os Cl&aacute;ssicos est&atilde;o ou devem estar presentes no nosso quotidiano. Pela leitura de artigos com t&iacute;tulos t&atilde;o sugestivos como “Aprender com a Musa… Ecos e presen&ccedil;as da Antiguidade Cl&aacute;ssica na moderna poesia portuguesa” (uma significativa revisita&ccedil;&atilde;o caleidosc&oacute;pica de figuras m&iacute;ticas, em 25 p&aacute;ginas, pela pena de Pessoa, Miguel Torga, Sofia, Manuel Alegre, Eug&eacute;nio de Andrade, Jos&eacute; Augusto Seabra, Fernando Guimar&atilde;es, Vasco Gra&ccedil;a Moura, David Mour&atilde;o-Ferreira), “As L&iacute;nguas cl&aacute;ssicas para uma forma&ccedil;&atilde;o cultural de hoje”, “Les Classiques de toujours pour les temps nouveaux: une r&eacute;flexion necessaire”, “A Europa que fomos, a Europa que somos: identidade e inquietude num mundo sem fronteiras” (um ensaio que suscita quest&otilde;es e convida a meditar) ou ainda “Uma alma para a Europa: os Cl&aacute;ssicos em desafio contra o tempo”, pela leitura destes estudos, dizia, percebemos estar perante um conjunto de reflex&otilde;es do maior interesse e de uma forte densidade cultural. Do &uacute;ltimo (pp. 189-190), retiro uma cita&ccedil;&atilde;o extra&iacute;da de Fernando Pessoa (<i>Livro do Desassossego</i>, 2005, ed. de Richard Zenith, Lisboa, Ass&iacute;rio &amp; Alvim, frg. 55): “por mais que perten&ccedil;a, por alma, &agrave; linhagem dos rom&acirc;nticos, n&atilde;o encontro repouso sen&atilde;o na leitura dos cl&aacute;ssicos. A sua mesma estreiteza, atrav&eacute;s da qual a sua clareza se exprime, me conforta n&atilde;o sei de qu&ecirc;. Colho neles uma impress&atilde;o &aacute;lacre de vida larga, que contempla amplos espa&ccedil;os sem os percorrer.” Ou, como escreve Aires Nascimento (p. 190): “A leitura dos cl&aacute;ssicos contamina com a sua dimens&atilde;o”. Agrada-me concluir sublinhando, a negrito, esta feliz formula&ccedil;&atilde;o de uma ideia t&atilde;o verdadeira e, por vezes, t&atilde;o esquecida: <b>A leitura dos cl&aacute;ssicos contamina com a sua dimens&atilde;o. </b>Estes dois volumes s&atilde;o uma prova desta afirma&ccedil;&atilde;o. Por isso, cumpre agradecer a iniciativa e o trabalho de quem decidiu reunir t&atilde;o rico acervo de estudos, dispersos em livros e revistas nem sempre acess&iacute;veis, e oferec&ecirc;-los &agrave; comunidade cient&iacute;fica, em particular &agrave;queles que continuam a acreditar na perenidade, vitalidade e fecundidade dos Estudos Cl&aacute;ssicos. Tendo consci&ecirc;ncia de que, como escreveu Fernando Pessoa (e Aires Nascimento cita, na p. 1122): “Cada &eacute;poca entrega &agrave;s seguintes apenas aquilo que foi”… Caber&aacute;, assim aos presentes e aos vindouros prolongar o eco dos antigos e devolver-lhes a voz que o tempo n&atilde;o conseguiu apagar.</p>       ]]></body>
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